Seleções Imortais – Brasil 1970

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Grande feito: Campeã do Mundo em 1970, no México. Conquistou o tricampeonato mundial e assegurou a posse definitiva da Taça Jules Rimet ao Brasil.

Time-base: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson (Paulo César) e Rivellino; Jairzinho, Pelé e Tostão. Técnico: Zagallo

 

“Vamos juntos, vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção.”

 

Por Guilherme Diniz

 

O trecho acima foi o refrão da canção que embalou o país na Copa de 1970, aquela dos “90 milhões em ação” (e pensar que hoje estamos na casa dos 200 milhões!). Era uma época dura para o Brasil, com a ditadura firme e forte. Mas, ainda mais firme e ainda mais forte, só que para o bem, foi a seleção que o Brasil conseguiu formar nessa copa. E que seleção. Os 90 milhões em ação que viram jamais se esqueceram. Os outros bilhões espalhados pelo mundo que acompanharam pela TV ou pelo rádio, também não. É uma unanimidade dizer qual foi a mais espetacular seleção da história. Uma seleção só com camisas 10 do meio para frente. Um time de craques, de jogadores acima da média, de gênios, que faziam do futebol uma arte da mais pura sutileza. Passes eram precisos. Chutes, poderosos. Cabeçadas, certeiras. Jogadas, magníficas. Essa seleção venceu os 6 jogos que disputou, marcou 19 gols, uma média de absurdos 3,2 gols por jogo, e conquistou o inédito tricampeonato mundial de futebol, além da posse definitiva da taça Jules Rimet ao país. O Brasil de 1970 foi tudo isso e muito mais. Mostrou a importância do preparo físico. Do entrosamento. Do equilíbrio emocional. Derrotou a então campeã mundial Inglaterra com autoridade. Venceu a maior seleção peruana de todos os tempos com goleada. Soube afastar o fantasma do Uruguai 20 anos depois do Maracanazo com uma vitória de virada. E bateu a poderosa Itália, campeã da Europa, com uma goleada de 4 a 1, sendo o último gol o mais bonito de todos os Mundiais, aquele da jogada trabalhada de pé em pé e finalizada no petardo do capita Carlos Alberto Torres, o último homem a erguer a Jules Rimet, o líder daquele timaço. Foi também a seleção de Félix, contestado, mas incontestável quando exigido. De Everaldo, a estrela dourada do Grêmio, o marcador implacável e incansável. De Brito e Piazza, a dupla de zaga que se desdobrava enquanto todos se mandavam ao ataque. De Clodoaldo e sua polivalência. De Gérson e seus passes impressionantes. De Rivellino e sua patada atômica. De Tostão e sua genialidade pura. De Jairzinho e sua fome por marcar gols em todos os jogos. E de Pelé, o Rei, o homem que fez de sua última Copa o palco para lances memoráveis, do chute de meio de campo, passando pelas assistências precisas ao quase gol mais bonito da história, entortando o lendário Mazurkiewicz, e ainda a cabeçada precisa que abriu a goleada da final até o passe perfeito para o golaço de Carlos Alberto. Foi também a seleção do técnico Zagallo, que usou toda sua experiência para arquitetar e montar um time único, histórico, inesquecível. O futebol foi honrado ao máximo com aquela seleção. Eterna, a mais imortal de todas as imortais. Mas, antes da magia da Copa, essa seleção foi, acredite, contestada.

 

Saldanha polêmico

João Saldanha, em 1969.

 

Nas eliminatórias, o Brasil deu show: foram seis vitórias em seis jogos, e marcou 23 gols (média de 3,8 por jogo). Parecia que tudo iria ocorrer bem no México, e veríamos o sucesso canarinho novamente, algo que não acontecia desde 1962. Mas, resultados ruins na preparação para a Copa, desentendimentos, e contestações de Saldanha com relação aos seus jogadores como “Gérson não tem espírito de seleção”, “Tostão teve um deslocamento de retina, não pode mais jogar” e “Pelé está ficando cego (!)” foram só alguns. Tais fatos levaram à sua demissão (muito por causa da imposição do presidente Emílio Garrastazu Médici, que exigia as convocações de determinados jogadores, algo que Saldanha era totalmente contrário) e Zagallo assumiu o comando. Quando chegou, o Velho Lobo tinha em mãos uma ótima seleção que ficaria ainda melhor com as mudanças  táticas promovidas por ele, tais como Piazza virando quarto zagueiro, Rivellino deslocado para a ponta-esquerda e Tostão jogando mais avançado. Nos treinos, o enfoque principal foi a questão da altitude, que traria muito desgaste físico aos atletas no México. Com isso, a seleção se preparou como nunca, treinou muito, e chegou ao país da Copa tinindo, sendo considerada, depois, como a seleção mais bem preparada fisicamente do mundial.

 

 

 

 

A campanha impecável

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Jairzinho com a bola: o Furacão da Copa marcou gols em todos os jogos do Brasil.

 

O Brasil começou seu show contra a Tchecoslováquia, adversário brasileiro na conquista do bicampeonato de 1962. A equipe saiu atrás do placar, mas depois impôs seu jogo e venceu por 4 a 1, com direito a um cartão de visitas de Pelé: um chute de meio de campo, seco, que por pouco não entrou no canto esquerdo do goleiro europeu. Era o início das fantásticas obras que Pelé faria naquela Copa.

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Moore e Pelé após o embate histórico entre Inglaterra e Brasil: lendas do esporte.

 

O jogo seguinte foi contra a temida Inglaterra, então campeã mundial (em 1966) e com o mito Bobby Moore. O jogo foi duro, Moore marcou de maneira implacável Pelé, mas o Brasil tinha Tostão e Jairzinho, autor do único gol do jogo, após jogada de Tostão, e, claro, Pelé: Brasil 1 x 0 Inglaterra. Classificação assegurada. No jogo seguinte, o Brasil queria vencer para continuar na cidade de Guadalajara e evitar grandes deslocamentos na segunda fase. Dito e feito, Brasil 3 x 2 Romênia, e o estádio Jalisco continuaria sendo a casa da seleção. Sair dali, apenas para a final.

Curiosidade: No jogo contra a Inglaterra, Pelé e o goleiro inglês Gordon Banks protagonizaram um lance eterno. Após cruzamento da esquerda, Pelé subiu mais alto que todos os ingleses e cabeceou forte, bola em direção ao chão, praticamente certa de que iria ao gol. Mas, com um reflexo alucinante, Banks conseguiu colocar a bola para escanteio. Aquela foi considerada a maior defesa da história das Copas, quiçá a maior de todas. Ambos se cumprimentaram após o lance.

 

Zebra no caminho

O primeiro confronto na segunda fase foi contra o surpreendente Peru, de Cubillas. Aquela seleção é a melhor já formada pelos peruanos na história, havia eliminado a Argentina, e foi comandada por ninguém menos que Didi, gênio do futebol Brasileiro e astro do time bicampeão mundial em 1958 e 1962. O jogo foi disputado depois dos primeiros 15 minutos, já que o Brasil dominou o início de jogo ao abrir 2 a 0. O Peru descontou, mas o Brasil marcou mais um. Novamente o Peru anotou, mas no fim Jairzinho fechou o placar: 4 a 2. Brasil na semifinal.

 

Superando o fantasma

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Rivellino e sua canhota. Foto: Getty Images.

 

Quis o destino que aquela grande seleção tivesse um desafio emocional pela frente: enfrentar, pela primeira vez em copas, desde a fatídica final de 1950, o Uruguai. E o jogo foi difícil. As equipes começaram cautelosas, se estudando. E o Uruguai saiu na frente com Cubilla, após passe de Morales, num gol meio que sem querer, após o chute do uruguaio sair meio que torto. Com a liderança no placar, o Uruguai cozinhava a partida, não deixava o Brasil jogar. Foi então que Zagallo mexeu na maneira do time jogar, recuando Gérson e liberando Clodoaldo ao ataque. Deu certo, o santista empatou, e deu mais tranquilidade ao Brasil. No segundo tempo, o Brasil virou, após ótima jogada do trio de ouro Pelé-Tostão-Jairzinho, com este último fuzilando pro gol. O Brasil ainda faria mais um com Rivellino, fechando o placar em 3 a 1. Fantasma enterrado, e passaporte carimbado para a final, no estádio Azteca.

O Brasil de 1970: velocidade, precisão, movimentação e talento na maior seleção de todos os tempos.
O Brasil de 1970: velocidade, precisão, movimentação e talento na maior seleção de todos os tempos.

 

Curiosidade: Na partida contra o Uruguai, Pelé protagonizou 2 lances incríveis. O primeiro foi um chute de bate pronto após uma reposição errada do goleiro Mazurkiewicz. O goleiro uruguaio pegou, mas no susto. O outro foi fantástico. Pelé recebeu a bola da esquerda, Mazurkiewicz saiu do gol para tentar pegá-la, mas eis que ele viu o brasileiro chegando como um foguete. Sem sabe o que fazer, ele vê o rei passar por ele sem tocar na bola, num drible de corpo sensacional. Goleiro batido, Pelé chutou pro gol. Mas, um pedaço de grama raspado pela chuteira do uruguaio Ancheta, que corria desesperadamente em direção ao gol, tirou a bola, que foi pra fora. Ia ser um gol esplendoroso. Mas, quiseram os deuses do futebol que a obra prima ficasse apenas no “quase”…

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Aula de futebol

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Brasil e Itália é um dos maiores clássicos do futebol mundial. E ambos, então bicampeões mundiais, duelaram pela posse definitiva da taça Jules Rimet. De um lado, o talento e o brilho do Brasil de Jairzinho, Pelé, Tostão, Gérson, Rivellino. Do outro, exímios defensores de técnica absoluta e atuais campeões europeus, como Cera, Facchetti e Burgnich, além de Rivera e Luigi Riva. Era o jogo perfeito para encerrar uma copa perfeita, com o melhor nível técnico de todos os tempos. Mas, parece até que não avisaram o Brasil que era um jogo final…a seleção não tomou conhecimento dos italianos e exibiram um futebol vistoso, alegre, preciso, rápido, elegante, lindo. O Brasil abriu o placar com um golaço de Pelé, de cabeça, após subir quase um metro de altura para marcar 1 a 0 (em um lance que deixou o “beija-flor” Dadá Maravilha com um pouco de inveja…). A Itália empatou com Boninsegna, graças a falha do goleiro Félix. Mas, no segundo tempo, o Brasil deu seu show. Gérson fez 2 a 1 com um petardo de sua canhota de ouro.

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O terceiro saiu após passe preciso de Gérson para Pelé, que deixou Jairzinho livre para marcar seu sexto gol na copa. O último gol…ah…o último gol…foi simplesmente uma obra prima do futebol arte e coletivo, daquelas que você vê, volta, vê de novo, volta, vê em câmera lenta, e assim sucessivamente. A jogada começa lá na defesa, com Clodoaldo driblando QUATRO jogadores italianos, e tocando na esquerda para Rivellino. O craque lança Jairzinho, que dribla Facchetti e passa para Pelé. O rei, sem olhar, antevê a corrida na direita de Carlos Alberto. Com um passe sutil e açucarado como quem diz “toma, faz o seu e fecha a conta”, ele rola para o lateral-direito encher o pé: 4 a 1. O estádio enlouquece, o México enlouquece, o Brasil enlouquece, o mundo enlouquece: Brasil tricampeão de futebol. O futebol, naquela tarde, nunca ficou tão emocionado e feliz. A posse da Jules Rimet era do Brasil. Para a eternidade. Nenhuma seleção merecia mais aquela taça do que aquela vestida em amarelo, verde, azul e branco. Depois de 1970, nunca mais o mundo viu um time tão sublime. A Holanda de 1974 chegou perto, mas ainda sim não conseguiu superar o esquadrão tricampeão mundial. Uma seleção imortal.

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Os Personagens:

Félix: contestado por muitos, que preferiam Leão, Félix foi preciso quando exigido, mesmo com algumas falhas durante o mundial. Seu auge foi no Fluminense, onde ganhou o Brasileiro de 1970 e diversos estaduais. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Carlos Alberto Torres: mito na lateral direita, foi o melhor em sua posição na história. Defendia como poucos e atacava com a mesma maestria. No fim da carreira, desfilou sua técnica como zagueiro. Se destacou no Santos e no Fluminense. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Brito: pilar da zaga brasileira, era considerado um dos coadjuvantes do time. Teve destaque no Vasco da Gama.

Piazza: gigante na defesa, desarmava como poucos e tinha muita técnica. Foi destaque no Cruzeiro da década de 60, que teimava em peitar o Santos de Pelé de igual para igual. Jogou até meados de 1977, e teve tempo ainda de vencer a libertadores pelo clube celeste, em 1976.

Everaldo: é a estrela dourada do Grêmio. Isso mesmo, a estrela dourada no escudo do clube representa o jogador, único do clube a ser titular de uma seleção campeã mundial. Foi um dos destaques do time pela esquerda.

Clodoaldo: viveu seu auge naquele mundial. Jogou muito, fez gols e jogadas fantásticas e mostrou que era uma estrela. Pena que justo quando começava a brilhar, o seu Santos começava a entrar no ostracismo que perduraria por décadas.

Gérson: o canhotinha de ouro mostrou que tinha mesmo o melhor passe do planeta. Seus lançamentos de 30, 40 metros alcançavam a cabeça do companheiro, o peito, o pé certeiro para o chute. Brilhou muito na Copa e marcou na decisão contra a Itália. Fez fama no Fluminense, Botafogo, Flamengo e São Paulo. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Rivellino: outro canhoto brilhante que viveu um momento mágico nesse time. Riva foi o precursor do drible do elástico, que ficaria famoso décadas depois com outros craques brasileiros. Marcou gols importantes e foi o elo entre o meio de campo e o ataque. Viveu seu auge nessa Copa e, após marcar época no Corinthians, brilhou também na Máquina Tricolor do Fluminense. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Jairzinho: foi o “Furacão da Copa” ao anotar gol em todas as partidas da competição, feito único até hoje. Mesmo com tantos gols, o artilheiro daquele mundial foi o alemão Gerd Müller, com 10 tentos. Mas Jairzinho foi mais decisivo, ao marcar o gol da vitória contra a Inglaterra e estufar as redes contra Peru, Uruguai e Itália. Brilhou no Botafogo e no Cruzeiro, onde venceu a Libertadores de 1976. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Tostão: foi um dos maiores meias/atacantes do futebol brasileiro nas décadas de 60 e 70, e teve papel decisivo na conquista do tricampeonato. Dono de uma técnica apurada e visão de jogo formidável, Tostão só não fez chover naquele mundial. Encerrou a carreira precocemente aos 26 anos, por uma inflamação na retina. Brilhou no Cruzeiro e no Vasco. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Pelé: o rei fez da copa de 70 o seu último mundial. E que mundial. Depois de brilhar por uma década inteira no Santos, Pelé foi a grande estrela da Copa, protagonizando lances geniais, jogadas maravilhosas, e, claro, gols magníficos. A imagem dele sendo carregado no estádio Azteca, e tendo as peças de seu uniforme simplesmente roubadas pelos torcedores ficaram marcadas na história, e foram a prova de como ele era ídolo e como sua magia encantou a todos. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Zagallo (Técnico): campeão pela seleção como jogador em 58 e 62, ele se tornou o primeiro campeão mundial como jogador e também como técnico (feito que seria igualado apenas por Beckenbauer, em 1990). Zagallo comandou um time de craques com maestria, e não deixou que egos ou desavenças atrapalhassem o caminho para o tri. Na dele, e sem as polêmicas de Saldanha, conduziu muito bem a equipe durante a Copa. Comandou a seleção também em 1974, mas foi vítima de uma “laranja” bem azeda e indigesta. Anos depois, foi tetracampeão mundial, em 1994, como auxiliar técnico de Carlos Alberto Parreira. Leia mais clicando aqui.

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Leia mais cobre a final de 1970 clicando aqui.

 

Extra:

Veja abaixo o golaço de Carlos Alberto Torres na final contra a Itália.

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9 thoughts on “Seleções Imortais – Brasil 1970

  1. Acho que as únicas gerações de Seleção Brasileira que chegam perto desta seleção de 70, são as seleções de 58 e a de 82, de Zico e Cia.

  2. Simplesmente a melhor seleção brasileira de todos os tempos, junto com a de 58 que foi a única seleção de fora da Europa que conquistou uma copa no velho continente.

      1. Falou asneira. Piazza era meio campo (jogou deslocado de zagueiro porque Clodoaldo era melhor), nada a ver com C.A. Torres, que foi simplesmente, o melhor lateral de todos os tempos.

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