Seleções Imortais – Itália 1982

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Grande feito: Campeã do Mundo em 1982.

Time base: Dino Zoff; Bergomi, Gentile, Scirea e Collovati; Cabrini, Antognoni (Oriali), Tardelli; Paolo Rossi, Bruno Conti e Graziani (Altobelli). Técnico: Enzo Bearzot.

“Os fantasmas de uma geração de ouro”

A Copa do Mundo de 1982 parecia ter um favorito único que ficaria marcado para sempre na história como uma das seleções mais fantásticas do futebol: o Brasil. Com um ótimo jogador para cada posição em campo, o time demonstrava com suas apresentações antes do mundial que levaria a Copa da Espanha com um pé atrás. Mas isso ficou no sonho. Em uma tarde sombria de 5 de julho, no estádio Sarriá, em Barcelona, a Itália – e Paolo Rossi – colocaram fim àquela geração talentosa do Brasil. Porém, não foi apenas Rossi o carrasco. Foi Gentile. Foi Cabrini. Foi Scirea. Foi Zoff. A Itália, ao contrário do que muitos pensavam, era muito boa, tinha muita segurança na defesa e mostrou ser uma das melhores marcadoras de craques da história. O time superou escândalos que assolaram o campeonato italiano, deu a volta por cima, e levou a Copa. Os órfãos da seleção brasileira de 1982 vão entender agora o motivo de aquela Itália ter eliminado o time canarinho e conquistado de maneira digna a Copa do Mundo. A Azzurra era muito mais que um Paolo Rossi…

 

País em frangalhos

O início da década de 1980 foi terrível para o futebol italiano. Foi descoberto naquela época o esquema de manipulação de resultados conhecido como Totonero, em que atletas de diversos clubes do país apostavam na Totocalcio, a loteria esportiva italiana. Sete clubes foram punidos, Milan e Lazio foram rebaixados para a série B, e jogadores foram detidos ou intimados a depor, entre eles, Paulo Rossi, futuro carrasco do Brasil, que ficou dois anos sem jogar. O escândalo abalou o país e colocou a Itália no fosso do esporte. Ninguém conseguia acreditar que tamanha vergonha havia acontecido. Faltando apenas dois anos para a Copa, qual seria o papel do país naquele mundial?

 

Juntando os pedaços

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Técnico da Itália desde 1977, Enzo Bearzot reuniu o que de melhor o futebol do país oferecia para desempenhar um bom papel na Copa de 1982. Depois de levar a Itália ao quarto lugar na Copa de 1978 apresentando um bom futebol, Bearzot fez jogadores como Scirea e Tardelli despontarem como craques na Azzurra, com muita aplicação e eficiência. Somados a experiência do goleirão Dino Zoff, da habilidade dos atacantes Graziani e Antognoni, e de bons jogadores como Cabrini, Bergomi e Conti, além de Rossi (que conseguiria disputar o mundial devido ao fim de sua punição) a Itália estava pronta. Mas sem esperança nenhuma de sua torcida.

 

O início na Copa

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Historicamente, a Itália quase sempre passa apuros na primeira fase de uma Copa. Em 1982, porém, ela abusou do artifício: foram três empates em três jogos: 0 a 0 contra a Polônia, na estreia, 1 a 1 contra o Peru e 1 a 1 contra a boa seleção de Camarões. O time se classificou apenas no quesito gols marcados, gerando ainda mais desconfiança da torcida. Como uma seleção que não vencia poderia ir adiante naquela Copa? Para blindar os atletas, o técnico Bearzot proibiu seus jogadores de dar entrevistas, para manter o foco na competição. A atitude foi muito criticada, claro, mas foi fundamental para a mudança drástica que ocorreria na segunda fase.

 

O despertar do gigante

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Pode-se dizer que a Itália ainda estava abalada na primeira fase da Copa. Sem apresentar um bom futebol, o time caiu no Grupo 3 na segunda fase do Mundial ao lado de ninguém menos que Argentina (campeã da Copa de 1978) e o sublime Brasil, de Zico, Falcão, Sócrates, Éder, Leandro, Júnior, Serginho e Toninho Cerezo. Cair em um grupo tão difícil deixou a torcida italiana ainda mais desconfiada e sem esperança. Mas foi nessa adversidade que o gigante despertou. Na primeira partida, contra a Argentina, a Itália mostrou um futebol totalmente diferente da primeira fase: mais aguerrido, mais técnico, mais eficiente, sem erros. Maradona, craque maior do time argentino, foi anulado sem dó pelo “carrapato da Copa” Gentile. O italiano não deixou o argentino respirar, garantindo a segurança para que a Azzurra vencesse o jogo por 2 a 1, gols de Tardelli e Cabrini. O time conquistava uma importante vitória. No jogo seguinte, o Brasil eliminou a Argentina ao vencer por 3 a 1. A decisão pela vaga nas semifinais seria entre brasileiros e italianos.

 

A mítica batalha do Sarriá

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Brasil e Itália se reencontravam em mais uma Copa. Era o primeiro jogo desde a decisão do terceiro lugar de 1978, vencida pelo Brasil. A Itália tinha o rival engasgado na garganta pelos revezes na Copa de 1970 e 1978. Era a chance de ouro de ter a vingança eliminando a mais brilhante seleção que o rival formava desde a 1970. Já o Brasil queria bater o “freguês” novamente e seguir na caminhada até então impecável rumo ao tetra. Um empate bastava para a seleção. Porém, o jogo foi o apogeu e despertar de Paolo Rossi, que estava até então sem marcar gols. Ele fez daquela partida a mais importante da carreira dele, para mostrar que após a punição do Totonero ele ainda estava em plena forma. Aos cinco minutos, Rossi abriu o placar. Sete minutos depois, Sócrates empatou para o Brasil. Aos 25´, Rossi fez mais um. No segundo tempo, Falcão empatou num golaço. Mas aos 30´, Rossi, de novo, fechou a conta para a Itália: 3 a 2. Perto do final do jogo, o zagueiro brasileiro Oscar quase empatou para o Brasil, mas Dino Zoff fez uma defesa que, segundo o próprio, foi a mais sensacional de sua carreira, ao pegar em cima da linha. Era o fim da geração de ouro do Brasil. E a vitória que a Itália precisava para calar a boca de críticos, imprensa e torcedores que não acreditavam naquele time que se mostrava o mais eficiente da Copa.

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Se o Brasil era ofensivo e brilhante, não tinha eficiência na zaga. Não existia apoio aos laterais e meias que subiam constantemente ao ataque. E, ao deparar com craques defensores como Scirea (um dos maiores líberos da história do futebol), Bergomi, Cabrini e, sobretudo, Gentile, que anulou Zico, o Brasil sucumbiu. Já a Itália mostrou a frieza e a precisão que o Brasil não teve para decidir o jogo. E um centroavante com estrela (Paulo Rossi), diferente do Brasil, que não teve Careca (contundido) e viu Serginho não jogar nada naquele mundial.

A Itália da Copa: força do meio de campo era o segredo de um time que embalou na reta final com Rossi fenomenal.
A Itália da Copa: força do meio de campo era o segredo de um time que embalou na reta final.

 

Rossi de novo

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Com o entusiasmo lá em cima, a Itália partiu com tudo rumo à final. Nas semis, a equipe reencontrou a Polônia, adversário da primeira fase. Dessa vez, o jogo não foi monótono como outrora e Paolo Rossi confirmou sua estrela ao marcar mais dois gols, os dois da vitória italiana. A equipe, depois de 12 anos, estava na final.

 

Fôlego para o tri

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A final da Copa de 1982 colocou Itália e Alemanha frente a frente. Uma das seleções seria tricampeã mundial, se igualando ao Brasil. A Itália estava tinindo, apenas com a ausência de Antognoni, que se machucou na partida contra a Polônia. Já a Alemanha estava exausta e mal fisicamente por conta da desgastante semifinal contra a França, decidida apenas nos pênaltis após empate e 1 a 1 no tempo normal e 2 a 2 na prorrogação. O filme era o inverso do vivido pela Itália em sua última decisão de Copa, em 1970, quando chegou à final contra o Brasil mal fisicamente depois de uma partida de tirar o fôlego contra a Alemanha, decidida na prorrogação.

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Os italianos tiraram proveito da situação e dominaram o jogo logo no início e tiveram a chance de abrir o placar no primeiro tempo, mas Cabrini desperdiçou um pênalti. Na segunda etapa, logo aos 11 minutos, Paolo Rossi, sempre ele, marcou seu sexto gol na Copa e o primeiro da Itália na decisão. Aos 24´, Tardelli ampliou, e, aos 35´, Altobelli fez 3 a 0. Breitner descontou para a Alemanha dois minutos depois, mas já era tarde. O time não tinha mais forças para correr atrás do placar. A Itália era tricampeã mundial de futebol e conquistava a Copa depois de 44 anos, desde a geração de Meazza e Piola.

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Era a coroação de uma equipe que chegou desacreditada à Espanha, mas que saia campeã do mundo. Era também o título para mostrar ao mundo a eficiência e precisão de jogadores como Conti, Scirea, Cabrini, Tardelli, Gentile, Zoff e Rossi. O goleiro italiano, capitão daquele time, foi o mais velho jogador a ser campeão mundial, com 40 anos de idade. Era o desfecho que ele precisava para encerrar uma carreira brilhante.

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Time único

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A geração campeã de 1982 foi quase a mesma na Copa de 1986, mas sucumbiu diante da grande França de Platini nas oitavas de final. A Itália seguiria competitiva nas Copas seguintes, mas só venceria novamente um mundial em 2006, num filme bem parecido com o de 1982, como você pode ler aqui. Parece mesmo que o time comandado por Paolo Rossi teve como objetivo mostrar que nem sempre o futebol arte vence. É preciso, além da arte, ter eficiência, equilíbrio, frieza em decisões e nunca achar que uma partida está ganha. A Itália 1982 soube como ninguém aliar todas essas características e levantou uma Copa que todos achavam que já tinha dono. Para nós, brasileiros, foi dolorido. Mas, para o futebol, ficou o aprendizado: nunca duvide da capacidade de um time. Principalmente quando do outro lado existe uma Itália…

Os personagens:

Dino Zoff: capitão da Azzurra e um dos grandes goleiros italianos na história, Dino Zoff fez milagre no jogo contra o Brasil, ao defender uma cabeçada certeira de Oscar no finalzinho de jogo. Seguro e exemplo de liderança, foi um dos melhores goleiros do século XX. Disputou 112 partidas pela Itália, de 1968 até 1983.

Bergomi: rápido, veloz, inteligente, Bergomi foi um dos grandes zagueiros de sua época e da Azzurra. Seu estilo de jogo lembrava muito o de outro mito: Fábio Cannavaro. Bergomi teve a dura missão de marcar o alemão Rummenigge na final da Copa de 1982, trabalho feito com maestria. Disputou 81 partidas pela seleção e foi um dos ídolos do país nas décadas de 80 e 90.

Gentile: foi o “carrapato da Copa” ao marcar de maneira precisa (e também bem dura) os craques Maradona e Zico, anulando ambos nas partidas vencidas pela Itália na segunda fase. Foi um monstro naquele mundial e peça fundamental na conquista do título.

Scirea: antes de Baresi, a Itália teve Scirea como seu maior líbero no futebol. Dono de notável técnica, muito estilo e comportamento exemplar dentro e fora de campo, Gaetano Scirea comandava a zaga e o meio de campo da azzurra naquela Copa com muita maestria. Disputou 78 jogos pela seleção.

Collovati: titular no meio de campo da Azzurra, Collovati desempenhou muito bem o seu papel, dando segurança na contenção da equipe. Disputou 50 partidas pela seleção.

Cabrini: foi o substituto do brilhante Facchetti na lateral esquerda da Itália durante 12 anos. Divino na defesa, Cabrini ia muito bem, também, no ataque, seja em cruzamentos ou chutes no gol. Fez parte da grande Juventus da década de 80.

Oriali: outro que teve papel decisivo na marcação do meio de campo italiano. Brilhou naquela Copa e foi peça importante no título. Jogou mais de 13 anos na Internazionale.

Antognoni; foi titular da equipe até se machucar na semifinal. Meio campista de muita técnica, foi essencial na campanha do trimundial da Itália. Jogou quase a vida toda na Fiorentina.

Tardelli: a vibração de Tardelli após fazer seu gol na decisão da Copa contra a Alemanha é um dos momentos mais marcantes da história das Copas, tamanha a emoção do jogador. Ele foi um dos grandes nomes naquela Itália, e desempenhou papel fundamental na conquista com passes, gols e muita habilidade. Foram 81 jogos pela seleção na carreira.

Paolo Rossi: a maior estrela da Itália na Copa de 1982. Rossi acordou na partida contra o Brasil e não dormiu mais. Foram seis gols em três jogos, o título da Copa, a Bola de Ouro e a Chuteira de Ouro, tudo como reconhecimento pelo seu desempenho brilhante na reta final do mundial. No auge da carreira, Rossi fez daquela Copa a resposta pessoal a todos os que não acreditavam que ele pudesse dar a volta por cima depois do escândalo que o suspendeu por dois anos. Na bola, na habilidade e com gols, ele calou a boca de todo mundo, virou ídolo nacional e o maior pesadelo para os brasileiros. Ele completa a tríade de fantasmas que assombram o Brasil na história do futebol: Maracanazo – Paolo Rossi – Zidane.

Bruno Conti: ponta extremamente habilidoso, Conti tocou o terror nas zagas dos adversários na Copa de 1982. Difícil de ser parado, Conti foi peça decisiva no ataque italiano. Foi um dos maiores ídolos da história da Roma.

Graziani: atacante da Itália na Copa, Graziani marcou apenas um gol e foi ofuscado por Rossi. Fez história no Torino da década de 70. É um dos maiores artilheiros da Azzurra na história com 23 gols.

Altobelli: fez o gol do título da Itália na final da Copa de 1982. Era letal dentro da grande área por conta de seu porte físico e habilidade.

Enzo Bearzot (Técnico): um dos maiores responsáveis pelo tricampeonato mundial da Azzurra foi o técnico Bearzot. Ele transformou a equipe naquele mundial e conduziu de maneira brilhante seu país ao título. Uma frase do treinador resume sua ideia e sua filosofia: “O futebol parece ter-se tornado uma ciência, ainda que nem sempre exata. Mas, para mim, antes e acima de tudo, trata-se de um jogo”.

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Extras:

 

O despertar

Depois de três empates na primeira fase, a Itália venceu a então campeã mundial Argentina por 2 a 1 e despertou de vez na Copa.

 

Paolo Rossi 3×2 Brasil

O Brasil precisava apenas do empate, mas Rossi fez 3 gols, a Itália anulou os craques brasileiros, e eliminou o grande rival.

 

Mundo azul

A Itália dominou as ações desde o início e venceu a Alemanha por 3 a 1 na final da Copa, apitada pela primeira vez na história por um árbitro brasileiro: Arnaldo César Coelho.

 

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4 thoughts on “Seleções Imortais – Itália 1982

  1. Sensacional, ótimo texto. Essa Itália é um dos grandes exemplos de que futebol se resolve no campo, e de que esse esporte é imprevisível. Timaço, não aos moldes do time brasileiro, mas de uma maneira diferente, com brio e garra de seus jogadores, e, principalmente, com a força defensiva histórica dos italianos (e, é claro, com o faro de gol de Rossi nos momentos decisivos).

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