Esquadrão Imortal – Racing 1966-1967

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Grandes feitos: Campeão Mundial Interclubes (1967), Campeão da Copa Libertadores da América (1967) e Campeão Argentino (1966). Foi o primeiro clube argentino campeão do mundo.

Time base: Cejas (Carrizo); Martín, Perfumo, Chabay e Basile; Rulli, Díaz (João Cardoso) e Cárdenas; Maschio, Rodríguez e Raffo (Rambert). Técnico: Juan José Pizzuti.

 

“A Academia de Avellaneda”

Muito antes de o futebol argentino ser dominado pelas potências River Plate, Boca Juniors e Independiente, o país viu a consagração de uma das mais brilhantes e marcantes equipes de futebol do século XX e da década de 60: o Racing Club de Avellaneda. A equipe alviceleste bateu recordes, conquistou títulos e se tornou o primeiro clube argentino a ter em sua galeria de troféus um título mundial de clubes, façanha que o maior rival, Independiente, não conseguiu em 1964 e 1965, perdendo em ambas as vezes para a Internazionale (ITA). O time que ficou conhecido como “El Equipo de José”, em alusão ao brilhante treinador Juan José Pizzuti, foi considerado um dos primeiros a praticar o Futebol Total, com jogadores sem posição fixa, grande volume de jogo e um futebol eficiente e dinâmico. Uma verdadeira academia. Reis nacionais em 1966 e da América e do Mundo em 1967, o Racing foi ao topo de maneira fascinante. É hora de relembrar os feitos desse time marcante.

 

A chegada de José

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O Racing vinha de bons momentos naquela metade de década de 60. A equipe, depois de ser a primeira a vencer três campeonatos argentinos na era do profissionalismo em sequência (1949, 1950 e 1951), venceu outros dois canecos em 1958 e 1961. Em 1965, sem celebrar um título há quatro anos, a equipe começou uma nova e marcante era ao acertar a contratação do treinador Juan José Pizzuti, que havia acabado de encerrar a carreira como jogador e que havia, inclusive, vencido dois títulos nacionais com o Racing em 1958 e 1961. Ao assumir o time, José encontrou o Racing na última colocação na tabela e conseguiu uma grande reação, vencendo logo de cara o líder, River Plate, por 3 a 1 e engatando no decorrer do campeonato uma sequencia de 14 partidas sem perder e apenas uma derrota. A campanha levou o Racing a um honroso 5º lugar na tabela. A campanha foi ainda melhor pelo fato de o maior rival, o Independiente, ter ficado bem atrás do time alviceleste, na 12ª posição. Naquele curto período, os rivais podiam notar um Racing diferente, ousado e brilhante. O time tinha uma defesa fortíssima, com o talentoso Perfumo e o eficiente Chabay, laterais fortes que apoiavam bem (Martín e Basile) e uma linha de frente extraordinária (Cardoso, Cárdenas, Maschio, Rodríguez e Raffo). Se o título não veio em 1965, ele com certeza não escaparia em 1966.

Talento, recorde e título

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Embalado e muito entrosado, o Racing não tomou conhecimento dos rivais e seguiu sua série de partidas invictas iniciada na temporada anterior. O time manteve a dianteira e alcançou a incrível marca de 39 partidas sem perder. O único revés na temporada seria para o River Plate por 2 a 0 na casa dos Millonarios. Faltando três rodadas para o término do campeonato, a equipe conquistou o título nacional com o empate em 0 a 0 contra o Gimnasia LP. A campanha do Racing no torneio foi notável: 61 pontos (cinco a mais que o vice, o River), 24 vitórias, 13 empates e apenas uma derrota em 38 jogos. O esquadrão de José teve o melhor ataque (70 gols marcados) e a melhor defesa (24 gols sofridos). Os destaques foram as vitórias por 5 a 0 sobre o Quilmes (fora), 1 a 0 no Estudiantes (fora), 2 a 0 no rival Independiente (fora), 2 a 1 no San Lorenzo (fora), 3 a 0 no Estudiantes (casa), 3 a 2 no Boca Juniors (casa) e 2 a 0 no San Lorenzo (casa). A campanha fantástica e absoluta levou o time a Copa Libertadores da América de 1967, na grande chance de mostrar as qualidades daquele esquadrão para o continente (e, posteriormente, para o planeta).

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América “inchada”

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Na Libertadores de 1967, o Racing teve que disputar longas 20 partidas para chegar a glória americana. O torneio teve 20 equipes, mas um complexo sistema de disputa. O time argentino, com a mesma base do ano anterior, esteve no Grupo 2, ao lado de River Plate (ARG), Santa Fé (COL), Bolívar (BOL), Independiente Medelín (COL) e 31 de Octubre (BOL). Os comandados de José não tiveram dificuldades e despacharam os rivais com uma ótima campanha: oito vitórias, um empate e apenas uma derrota em dez partidas, com 29 gols marcados e apenas sete sofridos. A equipe mostrou força em casa nas vitórias sobre o River (2 a 0), 31 de Octubre (6 a 0), Independiente (5 a 2), Santa Fé (4 a 1) e Bolívar (6 a 0), além de uma vitória na altitude contra o Bolívar por 2 a 0 e outro 2 a 0 na casa do Independiente. Com faro de gol aguçado, o ataque do time mostrava muita pontaria, os jogadores tinham pura sintonia e conseguiam envolver os adversários.

Na decisão

Classificado, o Racing foi para mais uma fase de grupos na confusa “semifinal” do torneio, ao lado de Universitario (PER), River Plate (ARG) e Colo-Colo (CHI). Os comandados de José fizeram novamente uma boa campanha com quatro vitórias, um empate e apenas uma derrota em seis partidas, com destaque para a vitória sobre o River por 3 a 1, em casa, e o 2 a 0 sobre o Colo-Colo no Chile. Ao término da fase de grupos, Racing e Universitario ficaram empatados em nove pontos e tiveram que disputar uma partida extra para decidir quem avançaria. Jogando em campo neutro, no Estádio Nacional de Santiago (CHI), os argentinos venceram por 2 a 1, com dois gols do artilheiro Raffo.  A vitória garantiu a equipe, pela primeira vez, na final da Libertadores da América. O adversário seria o Nacional, do Uruguai.

Depois do equilíbrio, o título

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O Racing enfrentou um adversário muito complicado na decisão da Libertadores de 1967. O Nacional, do Uruguai, conseguiu nas duas partidas iniciais neutralizar o forte ataque argentino e o esquema do técnico José, mas também não conseguiu furar a excelente zaga comandada por Perfumo e Chabay. Com a igualdade sem gols, os times tiveram que se enfrentar num terceiro jogo. Em campo neutro (no Estádio Nacional do Chile), o Racing tratou de colocar ponto final na extensa disputa pelo título da América e abriu 2 a 0 logo no primeiro tempo com gols de Cardoso e Raffo. Na segunda etapa, o Nacional ainda assustou com um gol, mas o time de José, ou melhor, “El Equipo de José” soube segurar o placar e levar o sonhado título da Copa Libertadores. A festa foi enorme e colocou de vez os craques de Avellaneda no rol dos grandes da América do Sul. De quebra, o time fez o artilheiro da competição: Norberto Raffo, com 14 gols marcados. O título deu ao Racing a chance de disputar o Mundial Interclubes, contra o surpreendente campeão europeu: o Celtic, da Escócia.

A Academia de 1967: toque de bola, inteligência e raça eram as virtudes dos craques de Avellaneda.
A Academia de 1967: toque de bola, inteligência e raça eram as virtudes dos craques de Avellaneda.

 

Para ser o pioneiro

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Na final do Mundial, o Racing poderia conquistar um feito inédito para o futebol argentino: o título mundial de clubes. O Independiente, maior rival do time alviceleste, havia fracassado duas vezes seguidas perante a poderosa Internazionale de Sandro Mazzola. O duelo contra os escoceses do Celtic seria equilibrado, com chances iguais para ambas as equipes. No primeiro jogo, na Escócia, o time da casa fez valer a força dos mais de 100 mil torcedores do estádio Hampden Park, em Glasgow, e venceu por 1 a 0, gol do capitão McNeill.

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Na volta, no estádio Juan Domingo Perón, os torcedores temeram pelo pior com um gol do Celtic aos 21´ do primeiro tempo. Na segunda etapa, Raffo e Cárdenas viraram o jogo para o Racing, que forçou uma terceira partida.

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O mundo é da Academia de Avellaneda

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O estádio Centenário, em Montevidéu (URU), foi o palco do feito histórico da Academia de Avellaneda. O time argentino, com um golaço de Cárdenas aos 56´, venceu o Celtic por 1 a 0 e conquistou o inédito título mundial. “El Equipo de José” vencia o mais importante título para um clube no mundo e conseguia um título inédito para o futebol argentino.

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O Independiente se mordeu de raiva, mas teve que admitir: os comandados de José eram os melhores do planeta.

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Órfãos de um time histórico

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Depois de tanto sucesso, o Racing perdeu sua força e não brilhou mais. O técnico José deixou a equipe em 1969 depois de quatro anos no comando do time, se tornando o treinador que ficou mais tempo no comando da equipe desde então. Os torcedores do Racing, que ficaram deslumbrados com os feitos do timaço de 1966 e 1967, estão até hoje à espera de uma equipe daquela qualidade. Depois do Mundial, o time não brilhou mais e teve apenas dois momentos de destaque: em 1988, com a conquista da Supercopa Sul-Americana e em 2001, com o caneco do Apertura do Campeonato Argentino. Com tanta história e tradicionalíssimo, o Racing merece voltar aos velhos tempos. Tempos que o fizeram imortal.

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Números de destaque:

Equipe que se manteve mais tempo invicta (39 partidas) na história do profissionalismo do futebol argentino até 1999.

Primeiro time argentino Campeão Mundial de Futebol.

Segundo time da Argentina a vencer a Copa Libertadores.

Vencedor da Copa Libertadores com o maior número de partidas disputadas: 20 jogos.

 

Os personagens:

Cejas: cria do Racing, foi um dos maiores goleiros da história do clube e notável pela habilidade. Claro, esteve muito bem amparado pelo paredão de zagueiros formado por Perfumo e Chabay, mas teve seus méritos e contribuiu principalmente com o título mundial, em 1967. Teve destaque, também, no Santos (BRA), quando conquistou o Campeonato Paulista de 1973.

Carrizo: foi o goleiro na conquista do Argentino de 1966 do Racing. Perdeu espaço em 1967 para Cejas. Muito talentoso e seguro.

Martín: o lateral direito foi o grande capitão da mais importante conquista do Racing: o Mundial Interclubes de 1967. Líder e muito eficiente no ataque e na defesa, Martín foi um dos grandes símbolos daquele esquadrão. Muito querido e ídolo. Disputou 172 partidas pelo Racing.

Perfumo: talentoso, temperamento forte, raça ao extremo e líder da grande área. Roberto Perfumo foi um dos maiores zagueiros da história do futebol argentino e da história do Racing. Impecável, Perfumo era o dono da zaga do time alviceleste e garantia a segurança para o forte esquema defensivo do técnico José. Ganhou o apelido de “Marechal” e foi capitão da seleção argentina na Copa do Mundo de 1974. Um mito do esporte.

Chabay: o zagueiro uruguaio Nelson Chabay fez uma dupla memorável com Perfumo na super zaga do Racing em 1966 e 1967. Seguro e cheio de raça, foi ídolo da torcida e peça chave nos títulos da equipe no período.

Basile: começou como volante, mas com a chegada do técnico José, foi para a zaga e se tornou um dos grandes craques do Racing campeão nacional, da América e do Mundo. Amigável, era responsável por organizar churrascos em prol da confraternização do time. Depois de encerrar a carreira, virou um técnico de sucesso.

Rulli: era um dos centrais do Racing nas campanhas dos títulos do Argentino, da Libertadores e do Mundial. Outro símbolo de raça e entrega do timaço de Avellaneda.

Díaz: como lateral ou ponta, Díaz era eficiente e apoiava como ninguém. Marcava gols e dava várias assistências. Peça chave na conquista do Argentino de 1966.

João Cardoso: o nome não engana: Cardoso era brasileiro! O jogador virou ídolo do Racing ao marcar um dos gols da vitória por 2 a 1 no jogo decisivo da Libertadores contra o Nacional. É um dos poucos brasileiros que podem circular livremente por Avellaneda. E ainda “correr o risco” de ser carregado pela fanática torcida do Racing.

Cárdenas: dono de um chute poderosíssimo na perna esquerda, Cárdenas foi um brilhante atacante do Racing e encheu de orgulho a torcida alviceleste. Seu gol contra o Celtic, na partida derradeira do Mundial Interclubes de 1967, foi seu maior momento no clube. Em 297 partidas, anotou 89 gols.

Maschio: especialista em “se infiltrar” nas defesas adversárias e marcar gols ou dar passes para os companheiros, Humberto Maschio foi ídolo no Racing depois de brilhar na Europa e na seleção Argentina.

Rodríguez: meia habilidoso, marcou época no Racing. Era ofuscado por Maschio e Raffo, mas contribuiu muito para os títulos de 1966 e 1967.

Rambert: jogava bem como meia ou atacante e foi peça fundamental na conquista do Argentino de 1966. Em 1967, teve pouco espaço no time. Foi um dos poucos a jogar nos dois grandes clubes de Avellaneda: Independiente e Racing.

Raffo: foi o matador da Libertadores de 1967 com seus gols decisivos e em profusão, sendo o artilheiro da competição com 14 gols. Começou a carreira no rival do Racing, o Independiente, mas obteve destaque maior no time alviceleste. Era exímio cabeceador.

Juan José Pizzuti (Técnico): foi o maior e mais notável técnico da história do Racing, responsável por colocar o time de Avellaneda no rol dos maiores esquadrões de todos os tempos e por transformar a arte de jogar futebol em uma Academia. Inovou ao fazer seus jogadores não guardarem posição fixa ao aplicar um esboço do que seria o Futebol Total da Holanda na década de 1970. Simplesmente um mito do Racing.

 

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Extra:

Pra história

Veja o gol que deu o título mundial ao Racing em 1967.

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2 thoughts on “Esquadrão Imortal – Racing 1966-1967

  1. Excelente, como sempre. Tem um especial fantástico que mostra os gols mais importantes da conquista em 67 nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=DRQ9EXw1WmA, era um time rápido, com excelente aproveitamento aéreo e os principais destaques, Raffo e Cardenas, por sinal a jogada do segundo em um dos gols daquela campanha é simplesmente fenomenal, esse documentário tem imagens históricas, uma pena o Racing ter tão poucos momentos de glória após o histórico ano, mas estará sempre marcado como o primeiro clube argentino campeão mundial, além de ter a melhor torcida do país, a tradição desse clube é algo indiscutível, la academia é absolutamente gigante e histórica.

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