Seleções Imortais – Áustria 1930-1936

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Grandes feitos: Campeã da Copa Internacional da Europa Central (1931-1932), 4ª colocada na Copa do Mundo da FIFA (1934) e Medalha de Prata nas Olimpíadas de Berlim (1936).

Time base: Peter Platzer (Rudolf Hiden); Franz Cisar (Josef Blum) e Karl Sesta (Karl Rainer / Roman Schramseis); Franz Wagner (Johann Mock / Georg Braun), Hans Urbanek (Karl Gall / Walter Nausch) e Josef Smistik (Leopold Hofmann); Johann Horvath (Toni Schall), Josef Bican (Friedrich Gschweidl), Matthias Sindelar, Karl Zischek e Rudi Viertl (Adolf Vogl / Anton Schall). Técnicos: Hugo Meisl e Jimmy Hogan.

“Der Wunderteam”

Na Europa dos anos 30, quando alguém falava em futebol logo se pensava instantaneamente no Reino Unido, berço do esporte e único a demonstrar qualidade e autoridade no assunto. Foi então que uma seleção do centro do continente mudou para sempre o esporte ao dar verdadeiros shows entre 1931 e 1934, muito graças à magia de um craque: Matthias Sindelar. A Áustria comandada pelo técnico Hugo Meisl foi mais uma daquelas seleções que merecia ter conquistado uma Copa do Mundo, em 1934, quando foi vítima da outra grande seleção que despontava na época, a Itália de Meazza (e do ditador Benito Mussolini, diga-se de passagem). Mesmo sem uma taça mundial, o time ficou 14 partidas sem perder, deu shows memoráveis e desafiou o nazismo que começava a dar as caras em 1935 e 1936. É hora de relembrar os feitos da seleção maravilha, o Wunderteam.

 

Inspiração britânica

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O Wunderteam da Áustria começou a ser modelado pelo treinador e dirigente Hugo Meisl após a vontade do austríaco em trazer para o centro da Europa um futebol competitivo e diferente, capaz de enfrentar de igual para igual qualquer equipe. O técnico começou seu trabalho na década de 1920, quando foi um dos idealizadores da Copa Mitropa, torneio que reunia diversos clubes da Europa central e que teve como primeiro campeão o Sparta Praga-RCH. O torneio seria um dos precursores da Liga dos Campeões da UEFA, criada em 1955. A Copa Mitropa seguiu firme e forte nos anos seguintes e começou a mostrar para o continente grandes jogadores e clubes que antes viviam restritos somente aos seus países de origem. Em 1927, outro torneio foi criado, a Copa Internacional da Europa Central, o berço do que seria a Eurocopa de décadas depois.

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No começo dos anos 30, Meisl começou a se espelhar no trabalho do britânico Jimmy Hogan, um dos precursores das táticas futebolísticas na Europa, em especial na Escócia. Meisl focava seus trabalhos no esquema 2-3-5, na troca rápida de passes, nas jogadas de efeito e na movimentação constante de seus jogadores de meio campo e ataque. No comando da seleção da Áustria e tendo em mãos uma legião de craques como Smistik, Nausch, Bican e, sobretudo, Sindelar, o maior gênio do futebol no país, Meisl conseguiu já em 1931 pôr em prática o seu objetivo.

 

Invictos e campeões

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Em 1931, a seleção da Áustria começou a protagonizar partidas exuberantes pela Europa graças ao futebol ofensivo e criativo proposto pelo técnico Hugo Meisl. A equipe ficou 14 partidas invictas entre abril de 1931 e dezembro de 1932. Nesse tempo, a Áustria conquistou a Copa Internacional da Europa Central de 1931-1932, com grandes vitórias sobre a Suíça, por 8 a 1 e Itália por 2 a 1 (com dois gols de Sindelar). O time venceu o torneio com quatro vitórias, três empates e uma derrota em oito jogos, marcando 19 gols e sofrendo nove. Foi nessa época que a rivalidade entre Áustria e Itália ficou ainda mais evidente, com muito equilíbrio e jogos históricos, como uma vitória por 4 a 2 dos austríacos em plena cidade de Turim. O jogador italiano Monti era um dos que mais “odiavam” aquela seleção, principalmente o craque Sindelar, por ter que marcar o atacante nos duelos entre as seleções. O modo arisco e letal como jogava Sindelar fazia o argentino naturalizado italiano perder a cabeça muitas vezes, a ponto até de bater no craque austríaco. Dizem que o mesmo Monti pediu para Vittorio Pozzo, técnico da Itália, para não jogar contra a Áustria em uma determinada ocasião justamente por não suportar o craque austríaco. “Quando eu vejo Sindelar, fico louco da vida!”, teria dito Monti.

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Além do título continental, a Áustria atropelou outros adversários antes da Copa do Mundo de 1934: fez 5 a 0 e 6 a 0 na Alemanha, 6 a 0 na Suíça e aplicou uma histórica goleada de 5 a 0 sobre a Escócia, na primeira derrota dos escoceses para uma seleção de fora do Reino Unido. O ponto alto foi um emblemático 8 a 2 na rival Hungria, com três gols de Sindelar e passes do gênio para os outros cinco tentos. Irresistíveis, os austríacos pareciam ser os grandes favoritos para o Mundial da Itália. E ganharam o apelido de Wunderteam (“time maravilha”) por parte da imprensa europeia.

 

Quando o English Team tremeu

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Para provar que a Áustria era mesmo uma das maiores forças da Europa, os ingleses convidaram o time de Hugo Meisl para uma partida amistosa em 1932, em Londres, no Stamford Bridge. Sempre imponentes e “donos da bola”, o English Team esperava golear os austríacos. Mas sofreram um susto homérico. A Inglaterra venceu por 4 a 3, mas por pouco, mas muito pouco, não perderam sua invencibilidade histórica jogando em casa. Aquela foi a primeira vez que os ingleses levaram mais de um gol dentro de sua ilha e que o craque Matthias Sindelar provou ser mesmo um gênio quando pegou a bola no meio de campo e driblou todos os que apareceram à sua frente antes de fuzilar o goleiro inglês, um gol antológico que poderia ser comparado ao de Maradona na Copa de 1986. Sindelar se imortalizou depois daquele jogo como um dos maiores craques de seu tempo. O árbitro naquela ocasião, o belga John Langenus, descreveu na sua súmula o grande gol do atacante:

“Zischek (jogador da Áustria) balançou as redes duas vezes, mas o gol de Sindelar foi uma verdadeira obra de arte, um feito que ninguém conseguiria alcançar contra um adversário como os ingleses. Nem antes nem depois dele. Sindelar pegou a bola no meio do campo e disparou com a sua incomparável elegância, driblando tudo que aparecia pela frente, e concluiu para o fundo do gol”.

O resultado arrancou aplausos dos torcedores ingleses, que percebiam que o esporte já havia evoluído consideravelmente pelo planeta. Depois do brilho do Uruguai de 1924-1930, era a vez da Áustria ser a seleção mais admirada do mundo.

O Wunderteam de Meisl: 2-3-5 tinha em Sindelar a essência do sucesso. Bola no chão e nada de chuveirinho.
O Wunderteam: 2-3-5 tinha em Sindelar a essência do sucesso. Bola no chão e nada de chuveirinho.

 

A primeira e única Copa do Wunderteam

Feature: Das "vergessene Spiel" Ostmark-Reich

Até o verão de 1934, o Wunderteam da Áustria tinha vencido ou empatado 28 dos 31 jogos que havia disputado, feito que credenciou Sindelar e companhia ao favoritismo na Copa da Itália daquele ano. Mesmo sem vários nomes que haviam brilhado entre 1931 e 1933, o técnico Hugo Meisl tinha esperanças que o seu time podia levantar o caneco. Mas não seria nada fácil, ainda mais por ter de jogar em território tão hostil quanto a Itália de Benito Mussolini, além de ter de enfrentar os anfitriões numa hipotética final.

A Áustria estreou na Copa contra a França e venceu por 3 a 2 após empate em 1 a 1 no tempo normal. Sindelar, Schall e Bican fizeram os gols dos austríacos. Na fase seguinte, duelo contra a grande rival Hungria e vitória por 2 a 1, gols de Horvath e Zischek. Menos matador, Sindelar mudou sua função naquela Copa se transformando no garçom do time ao armar jogadas e driblar os adversários com sua habitual precisão. Classificada, a Áustria tinha pela frente o tão esperado e temido confronto contra a Itália, na semifinal. Debaixo de muita chuva e num campo pesadíssimo e enlameado, os austríacos, mais técnicos e velozes, foram presas fáceis para a força dos jogadores italianos, que venceram por 1 a 0. Como esperado por Mussolini, a Azzurra estava na final. Já a Áustria teve de se contentar com a disputa pelo terceiro lugar, perdida (sem Sindelar) para a Alemanha por 3 a 2.

 

A ascensão do nazismo e a prata em Berlim

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Depois da Copa, o grande time da Áustria começou a se enfraquecer com a saída de seus craques e o avanço do nazismo na Europa. Em 1936, com um time completamente diferente daquele da Copa de 1934 (e sem Sindelar), os austríacos – comandados pelo técnico Jimmy Hogan – alcançaram a final das Olimpíadas de Berlim, depois de passar por Egito, Peru, e Polônia. Na decisão, outra vez a Itália de Vittorio Pozzo cruzou o caminho dos austríacos e venceu por 2 a 1, ficando com o ouro. Foi nessa época que os futebolistas austríacos começaram a sentir na pele a chegada dos nazistas e ver os alemães tomarem gosto pelo futebol, querendo agregar os craques da Áustria ao selecionado alemão. Vários jogadores judeus foram perseguidos e expulsos de clubes do país com a crescente ocupação nazista, que se sacramentou em 1938, ano de Copa e que a Áustria não participou por já fazer parte do império do Reich.

 

O último baile

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Antes de a seleção austríaca ser dissolvida, uma partida contra a Alemanha foi marcada para “celebrar a reunificação da Áustria com o império alemão”. Os militares de Hitler deixaram bem claro para os austríacos que a Alemanha é quem venceria o jogo disputado em Viena. Mas Sindelar e companhia não deram ouvidos aos nazistas, se inflaram com um bravo espírito de luta e derrotaram a Alemanha por 2 a 0. Sindelar marcou o primeiro gol e foi dançar bem na frente das tribunas onde estavam as autoridades nazistas. Era a vitória do craque conhecido como o “Homem de Papel” sobre Hitler e o nazismo. Uma vitória na bola, no futebol, na arte. E sem disparar um tiro sequer.

O fim de um time histórico

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Em 1937, o futebol austríaco sofreu mais um duro golpe com a morte do mentor do esporte no país, o técnico e criador do Wunderteam Hugo Meisl, após uma parada cardíaca. O adeus do treinador responsável por colocar a Áustria no mapa do futebol europeu e mundial marcou o fim de uma seleção incrível, que seria totalmente dissolvida pelo nazismo em 1938. Mesmo com a perseguição alemã, a extinção temporária da Áustria como país e a morte de vários dos responsáveis pelo Wunderteam, aquela equipe ficou marcada para sempre como uma das maiores que a Europa já teve, precursora do futebol total e suas variantes das décadas de 50, 60 e 70 e por quebrar paradigmas de que apenas os ingleses sabiam jogar futebol. Os austríacos também. E muito. Que seja eterno o Wunderteam, uma seleção imortal.

 

Os personagens:

Peter Platzer: foi o goleiro titular da Áustria na Copa de 1934, assumindo o posto após a saída de Hiden. Disputou 33 jogos com a camisa da seleção e era muito seguro.

Rudolf Hiden: foi o goleiro da era de ouro da equipe, entre 1931 e 1933. Fazia grandes defesas e pontes maravilhosas. Em 1933, numa vitória por 4 a 0 da Áustria sobre a França, o goleiro despertou o interesse de dirigentes do Racing de Paris, que o contrataram por 80 mil francos.

Franz Cisar: grande zagueiro da seleção na Copa de 1934. Fez uma grande dupla com Karl Sesta e conseguia frear as investidas adversárias com categoria e agilidade.

Josef Blum: tinha muita velocidade e era muito bom no posicionamento. Foi o titular da zaga na era de ouro do time. Tinha um chutaço e cobrava muito bem pênaltis.

Karl Sesta: titular a Copa de 1934, o zagueiro era atacante antes de se mostrar um dos primeiros defensores modernos, que se arriscava no ataque e até fazia gols. Foi um dos jogadores da equipe a também defender a seleção alemã.

Karl Rainer: outro defensor do Wunderteam, alternava entre titular e reserva de Roman Schramseis no setor direito do time de Meisl.

Roman Schramseis: dividia com Rainer a posição de titular da Áustria na era de ouro do time entre 1931 e 1933. Teve papel importante na conquista da Copa Internacional de 1932.

Franz Wagner: meio campista que construiu carreira no Rapid Viena e que foi titular na Copa de 1934. Jogou, também, pela seleção alemã.

Johann Mock: outro meio campista da Áustria que jogou pela Alemanha, Mock disputou a Copa de 1938 pela seleção de Hitler. Jogou boa parte da carreira no Austria Viena.

Georg Braun: era muito forte fisicamente e tinha grande resistência, podendo atuar pela ponta direita do meio de campo da equipe.

Hans Urbanek: foi um dos grandes nomes do futebol austríaco dos anos 30 e titular na Copa de 1934, eleito um dos maiores nomes daquela Copa. Jogava na direita do meio de campo da equipe e ajudava no ataque.

Karl Gall: compensava a falta de altura com inteligência e muito dinamismo, sendo uma das principais peças de Meisl no setor esquerdo do meio de campo da Áustria. Outro que fez carreira no Austria Viena.

Walter Nausch: célebre jogador austríaco, Nausch foi um dos líderes do Wunderteam, sendo capitão em muitos jogos. Jogou ao lado de Sindelar no Austria Viena e comandou o time na era de ouro entre 1931 e 1933.

Josef Smistik: foi o grande capitão da Áustria na Copa de 1934 e o guardião do meio de campo do time maravilha. Ajudava na marcação e ainda na criação das jogadas.

Leopold Hofmann: tinha a dura missão de duelar com Smistik no meio de campo da equipe, mas quando entrava, dava conta do recado. Fez carreira no First Viena e disputou a Copa do Mundo de 1934.

Johann Horvath: foi um dos maiores atacantes da história da Áustria, marcando 29 gols em 46 jogos pela equipe. Marcou gols em todos os grandes momentos da seleção entre 1931 e 1934, inclusive na Copa do Mundo de 1934.

Toni Schall: outro grande atacante da Áustria, Schall teve uma ótima média de gols pelo Wunderteam, quase um por jogo, e ajudou a construir o mito da equipe entre 1931 e 1933. Disputou a Copa de 1934.

Josef Bican: outro matador fenomenal da Áustria, sendo considerado o maior artilheiro do país em todos os tempos, autor de mais de 600 gols na carreira e uma média de gols que até passava de um gol por jogo, mas nunca comprovado – embora pela seleção ele tenha marcado 56 gols em 57 jogos. Tinha uma velocidade absurda (corria 100 metros em pouco menos de 11 segundos) e chutava com os dois pés.

Friedrich Gschweidl: foi um dos artilheiros do time entre 1931 e 1933 ao marcar muitos gols importantes, mas perdeu espaço e ficou de fora da Copa de 1934.

Matthias Sindelar: foi um dos maiores e mais míticos atacantes de seu tempo, ídolo nacional e maior jogador da história da Áustria. Tinha agilidade nos pés e controle de bola marcantes, além de possuir a ginga, a malícia e a elegância de um craque fora de série. Ganhou títulos importantes, comandou a Áustria numa Copa do Mundo emblemática em 1934 e faleceu sob circunstâncias misteriosas e trágicas em 1939, na amargura e ódio por ver seu amado país ser incorporado ao império germânico pré-segunda guerra mundial. Disputou 43 jogos pela seleção da Áustria e marcou 27 gols.

Karl Zischek: outra estrela do Wunderteam, autor de 24 gols em 40 jogos pela seleção. Jogava pelas pontas e quando não marcava seus gols, municiava muito bem os companheiros Sindelar e Bican. Um dos grandes craques de seu tempo.

Rudi Viertl: causava estragos pela ponta esquerda da Áustria e foi titular na Copa de 1934, sendo eleito um dos maiores do mundial.

Adolf Vogl: ponta, Vogl perdeu espaço no time para Viertl às vésperas da Copa, mas esteve presente nas façanhas da seleção entre 1931 e 1933.

Anton Schall: outro super atacante da era de ouro do futebol da Áustria, um artilheiro que não deixava as oportunidades escaparem e sempre anotava seus gols. No período mais marcante daquele time, entre maio de 1931 e fevereiro de 1933, ele foi o artilheiro da equipe com 19 gols.

Hugo Meisl e Jimmy Hogan (Técnicos): sábios, protagonistas e visionários. Meisl e Hogan fizeram uma dupla fantástica fora das quatro linhas como os grandes responsáveis por fazer da Áustria um dos maiores times do mundo na década de 30. Ambos inovaram com a movimentação, os toques rápidos e o planejamento tático, algo que nunca havia sido levado a sério na Europa central. O legado que ambos deixaram serviu como o caminho a ser seguido por outras seleções emblemáticas, como a Hungria dos anos 50 e a Holanda de 1974. Foram, mesmo sem uma Copa conquistada, imortais.

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Extra:

Veja um pequeno documentário muito interessante sobre o Wunderteam.

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