Craque Imortal – José Leandro Andrade

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Nascimento: 22 de Novembro de 1901, em Salto, Uruguai. Faleceu em 5 de outubro de 1957, em Montevidéu, Uruguai.

Posições: Médio / Volante e Meia de Ligação.

Clubes: Bella Vista-URU (1921-1925), Nacional-URU (1925-1930), Peñarol-URU (1931-1935), Atlanta-ARG (1933), Argentinos Juniors-ARG e Talleres-ARG (1934) e Montevideo Wanderers-URU (1934).

 

Principais títulos por clubes:

Campeão da Divisão Extra (1921) e da Divisão Intermedia (1922) pelo Bella Vista.

2 Campeonatos Uruguaios (1932 e 1935) pelo Peñarol.

 

Principais títulos por seleção: 1 Copa do Mundo da FIFA (1930), 2 Medalhas de Ouro Olímpico (1924-Paris e 1928-Amsterdã) e 3 Copas América (1923, 1924 e 1926) pelo Uruguai.

 

Principais títulos individuais:

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA: 1930

Bola de Bronze da Copa do Mundo da FIFA: 1930

29º Melhor Jogador do Século XX pela IFFHS

Eleito para o Top 100 dos Melhores Jogadores da História das Copas do Mundo 1930-1990 pela France Football.

“A Maravilha Negra”

Muito antes de Pelé e Leônidas da Silva brilharem no mundo da bola, outro negro marcou a história do futebol mundial com atuações tão impecáveis e perfeitas que o fizeram receber do público francês que o viu jogar nas Olimpíadas de 1924, em Paris, o apelido de “A Maravilha Negra”. E ainda era pouco para descrever o uruguaio José Leandro Andrade, o primeiro jogador negro a brilhar no futebol mundial. Dono do meio de campo da melhor seleção uruguaia de todos os tempos (entre 1923 e 1930), Andrade esbanjava vigor físico, elegância e precisão no desarme com suas famosas tesouras. O mítico jogador ajudou a Celeste Olímpica a conquistar nada mais nada menos que seis títulos, entre eles dois ouros olímpicos e a primeira Copa do Mundo da FIFA. É hora de relembrar a carreira de um monstro sagrado do esporte.

 

Da música para o futebol

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Andrade nasceu em 1901 na cidade de Salto, no Uruguai, sob circunstâncias nada convencionais. O jovem era filho de uma argentina com um brasileiro, mas seu pai foi uma mera testemunha em sua certidão de nascimento. O que mais chama atenção é que o “Andrade pai” tinha 98 anos na época em que Andrade filho nasceu (!), além de ser praticante de magia africana e de ter escapado do Brasil na condição de escravo. Histórias e lendas à parte, José Leandro Andrade se mudou para Montevidéu ainda jovem, onde vivia com uma tia. Antes de ingressar no futebol, Andrade trabalhou como engraxate de sapatos e vendedor de jornais. Na juventude, o futuro astro começou a pegar gosto pela música, principalmente por instrumentos de percussão, além de gostar muito de carnaval.

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Tempo depois, Andrade decidiu se tornar jogador de futebol e conseguiu sua primeira chance profissional no Bella Vista, após uma passagem pelo Misiones. No pequeno clube, o jovem começou a demonstrar rapidamente uma qualidade suprema em campo com imponência física, fôlego e precisão nos desarmes e passes. Com 1,80m de altura e 79kg, ele tinha um físico privilegiado e logo se tornou titular do meio de campo da equipe. Foi pelo Bella Vista que Andrade ganhou suas primeiras convocações para a seleção uruguaia, juntamente com seu companheiro José Nasazzi (outro craque da época), onde começou a brilhar já em 1923 na conquista da Copa América, após vitórias sobre Paraguai (2 a 0), Brasil (2 a 1) e Argentina (2 a 0). Com vários talentos em campo e um padrão de jogo envolvente, o time foi com tudo em busca da maior glória possível na época: o Ouro Olímpico.

 

O mundo conhece o Uruguai

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Nas Olimpíadas de Paris, em 1924, então torneio mais importante do mundo, a Europa (e o mundo) passaram a admirar e a conhecer o futebol celeste, em especial o de Andrade, com 22 anos de idade. Na fase preliminar, goleada por 7 a 0 contra a Iugoslávia. Na fase seguinte, vitória fácil contra os EUA: 3 a 0. Nas quartas de final, outro show sobre os donos da casa, os franceses: 5 a 1. Na semifinal, vitória apertada contra a Holanda por 2 a 1. Na decisão do ouro, vitória pra cima da Suíça por 3 a 0. O time sul-americano conquistava pela primeira vez o ouro olímpico, e Andrade ganhava para sempre o coração de todos com suas atuações fantásticas em terras francesas. A partir dessa conquista, os europeus passaram a respeitar mais o futebol não só uruguaio, mas também sul-americano, percebendo que o mundo ia além mar. Naquele mesmo ano, a equipe venceu mais uma Copa América, mantendo sua soberania no continente. Durante sua estadia em Paris, Andrade não deixou de curtir sua vida boêmia e teve o privilégio de dançar um tango com Joséphine Baker, famosa dançarina daqueles tempos, num salão parisiense, mostrando que não era apenas dentro dos campos que ele fazia sucesso, mas também fora dele…

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Fama e mais títulos

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Em 1925, Andrade se transferiu para o Nacional, onde permaneceu até 1930. No clube tricolor, o craque fez parte do famoso time que fez o “La Gira de 1925”, a maior excursão de um clube de futebol na história. Foram 190 dias de viagem entre fevereiro e agosto de 1925, com 38 jogos, 26 vitórias, sete empates e apenas cinco derrotas. O time uruguaio marcou 130 gols e sofreu apenas 30, enfrentando adversários como Barcelona, seleção da Catalunha, Bélgica, Áustria, Holanda, França, Suíça, Sporting Lisboa, La Coruña e muitos outros. A equipe deu show com jogadores que formavam a base da seleção do Uruguai campeã olímpica em 1924 como Castro, Nasazzi, Scarone e Pedro Cea, além, claro, de Andrade, que disputou 12 partidas. O tour pelo velho continente foi emblemático para o time e ajudou ainda mais a popularizar o futebol uruguaio na época.

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Em 1926, Andrade conquistou mais uma Copa América, com shows dos goleadores Scarone e Castro. A Maravilha Negra foi mais uma vez preciso no meio de campo garantindo a segurança necessária para o devastador ataque uruguaio brilhar. Sem rivais à altura no continente, a equipe começou a preparação para mais uma disputa olímpica, dessa vez em Amsterdã, na Holanda. Com a mesma base de quatro anos antes, o time passou na primeira fase pela Holanda por 2 a 0. Nas quartas de final, vitória inapelável contra a Alemanha por 4 a 1. Na semifinal, embate duríssimo contra a Itália, mas vitória da Celeste por 3 a 2. Nessa partida, o craque uruguaio sofreu uma lesão no olho após se chocar com a trave de um dos gols, mas nada que preocupasse os jogadores e comissão técnica celeste (o machucado, porém, afetaria a visão do craque anos depois). Na final, os adversários seriam os argentinos. O jogo terminou empatado em 1 a 1, o que forçou a realização de uma nova partida, já que na época não existia prorrogação ou disputa por pênaltis. Três dias depois, o Uruguai mostrou sua força e bateu os “hermanos” por 2 a 1.

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Era a confirmação de que a celeste era mesmo olímpica, bicampeã, deslumbrando de vez a Europa e o mundo. Ninguém podia com eles. E Andrade vivia seu auge ao ser considerado por muitos o melhor jogador do mundo na época. Um jornalista holandês, após o bicampeonato olímpico do Uruguai, descreveu que “as pessoas tinham pena de deixar o estádio por causa da qualidade do craque e daquele esquadrão”. Era o limite para aquele time? Que nada, faltava a cereja no bolo: a Copa do Mundo!

Andrade, à direita, com seus companheiros em Amsterdã.
Andrade, à direita, com seus companheiros em Amsterdã.

 

A primeira Copa da história

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Em 1914, a FIFA reconheceu as Olimpíadas como uma competição global de futebol, e decidiu organizar as disputas futebolísticas a partir de 1924, ano do primeiro ouro uruguaio. Com o bi em 1928, a entidade decidiu organizar a sua própria competição, que ocorreria no mês de julho de 1930. A FIFA escolheu o Uruguai como país sede em uma conferência na cidade de Barcelona (ESP) no ano de 1929, devido à celebração do centenário da independência do país exatamente em 1930, e por sua seleção ser a atual bicampeã olímpica, e, de certa forma, “mundial”. Apenas 13 seleções disputaram o então desconhecido torneio, com as partidas disputadas na capital Montevidéu, a maioria no Estádio Centenário, construído especialmente para aquela competição. Não houve eliminatórias, e as inscrições eram abertas a todos os países membros da FIFA. Com isso, participaram sete equipes da América do Sul, quatro da Europa e duas da América do Norte. Por conta da longa e cansativa viagem da Europa até a América (que era feita de navio), muitas seleções não quiseram participar do torneio. As equipes foram divididas em quatro grupos, sendo que o Grupo 1 teria quatro equipes, e os outros, três cada. Os primeiros colocados garantiam vaga nas semifinais, e os vencedores iam para a final.

 

Começa o espetáculo celeste

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O Uruguai estreou na competição contra o vizinho sul-americano Peru e venceu por 1 a 0. O jogo seguinte seria mais fácil, e a equipe goleou a Romênia por 4 a 0. Com as duas vitórias, a equipe se garantiu na semifinal, onde atropelou a Iugoslávia por 6 a 1. Era hora da final, contra os grandes rivais argentinos.

 

Mundo celeste

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Mais de 90 mil pessoas lotaram o Centenário para ver a primeira final de Copa do Mundo da história. De um lado, os soberanos e donos da casa, Uruguai. Do outro, a sempre pentelha e forte Argentina. O jogo começou pegado, mas o Uruguai abriu o placar com Dorado. O gol despertou os “hermanos”, que empataram com Peucelle e viraram ainda no primeiro tempo com Stábile, um dos maiores artilheiros da história da Argentina. Porém, na etapa final, o Uruguai sufocou o rival, contou com o apoio de sua torcida, e virou o jogo, com Cea, Iriarte e Castro. Andrade foi mais uma vez absoluto, mesmo com 32 anos de idade, e deu show com desarmes, passes precisos e a segurança de um meio-campista formidável. No final do jogo, o placar se manteve inalterado: Uruguai 4×2 Argentina. A celeste conquistava a primeira Copa do Mundo FIFA e chegava, definitivamente, no topo. Andrade marcou presença na seleção dos melhores do torneio e alcançava o auge de sua carreira, que curiosamente fora mais brilhante vestindo a camisa celeste do que as de clubes.

Andrade em campo: soberano pelo lado direito, o craque ajudava a defesa e ainda comparecia ao ataque.
Andrade em campo: soberano pelo lado direito, o craque ajudava a defesa e ainda comparecia ao ataque.

 

Decadência e o fim

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Depois do título e da fama mundial, Andrade e o Uruguai começaram a entrar em uma iminente decadência, com a aposentadoria dos principais craques somadas aos boicotes às Copas de 34 e 38, por conta da ausência de muitos europeus no primeiro mundial. Andrade ainda teve bons momentos pelo Peñarol, jogou por equipes da Argentina e do próprio Uruguai, até encerrar a carreira em meados dos anos 1935 e 1937. Depois de pendurar as chuteiras, o mito se entregou às bebidas e à boêmia, caindo no alcoolismo, na miséria e nas doenças, como a tuberculose. Em 1950, viu seu sobrinho, Victor Andrade, repetir seu feito de 20 anos antes e conquistar uma Copa do Mundo, no Brasil, no célebre “Maracanazzo”. Depois disso, o olho lesionado de Andrade nas Olimpíadas de Amsterdã em 1928 voltou a atacar e lhe causou uma cegueira. No fundo do poço e esquecido pelos amigos e familiares, Andrade faleceu devido a problemas pulmonares em 1957, com apenas 56 anos, num asilo de Montevidéu. Era o triste fim de um dos maiores jogadores de todos os tempos, símbolo maior de uma geração que encantou a todos com um futebol envolvente, ofensivo e sublime. Andrade ganhou uma placa no estádio Centenário, palco da final da Copa de 1930, por sua contribuição ao esporte no país. A Maravilha Negra, lá do céu, com certeza se emocionou, como se emocionaram e se maravilharam aqueles que tiveram o privilégio de vê-lo em campo. Um craque imortal.

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Números de destaque:

Disputou 43 partidas pela seleção do Uruguai, sendo 33 em competições oficiais. Perdeu apenas três desses jogos. Marcou um gol.

Disputou 13 jogos pelo Uruguai durante as olimpíadas de 1924, 1928 e a Copa do Mundo de 1930. Venceu 12 e empatou apenas 1.

Disputou 105 partidas pelo Nacional e marcou quatro gols.

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Extras:

A história em preto e branco

Veja abaixo um vídeo histórico feito pela FIFA com imagens que mostram a consagração do Uruguai como maior força dos anos 20 e do ano de 1930.

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