Jogos Eternos – Cruzeiro 6×2 Santos 1966

DIRCEU

Data: 30 de novembro de 1966.

O que estava em jogo: a vitória, claro, na primeira partida da decisão da Taça Brasil de 1966.

Local: Estádio Governador Magalhães Pinto (Mineirão), em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

Juiz: Armando Marques (RJ)

Público: 77.325 (pagantes) / 90.000 (estimado)

Os times:

Cruzeiro EC: Raul; Pedro Paulo, Willian, Procópio e Neco; Wilson Piazza, Dirceu Lopes e Tostão; Natal, Evaldo e Hilton Oliveira. Técnico: Airton Moreira.

Santos FC: Gilmar; Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos, Oberdan e Zé Carlos; Zito e Lima; Dorval, Toninho Guerreiro, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Placar: Cruzeiro 6×2 Santos. Gols: Zé Carlos-SAN (contra) aos 1′; Natal-CRU aos 5′; Dirceu Lopes-CRU aos 20′ e 39′ e Tostão-CRU (pênalti) aos 42′ do 1º T. Toninho Guerreiro-SAN aos 6´ e 9´e Dirceu Lopes-CRU aos 27´do 2º T. Expulsões: Procópio-CRU e Pelé-SAN, aos 30´do segundo tempo.

“O dia em que o Santos de Pelé foi colocado na roda por uma máquina azul”

Quarenta e cinco minutos. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco gols. Uma devastação. Um time branco totalmente dilacerado por uma máquina azul de jogar bola. Um estádio à beira da loucura e ao mesmo tempo incrédulo com tamanha supremacia. O esquadrão mais temido do planeta transformado em time comum. O maior jogador da história era um simples coadjuvante. Um Rei deposto por Reis de Minas. Raul, Procópio, Piazza, Tostão, Dirceu Lopes, Evaldo e Natal eram apenas alguns dos novos soberanos do futebol brasileiro a partir daquela noite de 30 de novembro de 1966, o dia em que o Cruzeiro Esporte Clube fez a sua mais exuberante e sensacional partida de futebol em todos os tempos. Contra o temido Santos de Pelé, Gilmar, Zito, Pepe, Carlos Alberto e Mauro, o esquadrão cruzeirense aplicou 6 a 2 naquela primeira final da Taça Brasil, sendo 5 a 0 no primeiro tempo. Quem viu e viveu aquela apoteose azul jamais esqueceu e contou para todo mundo, do amigo mais próximo à vovó, do colega de bar até o cachorro: meu time goleou o Santos de Pelé. Uma semana depois, no Pacaembu, muitos acreditaram que o feito do Mineirão havia sido um caso à parte, algo extraordinário. Mas o mesmo Cruzeiro voltou a vencer o Santos, dessa vez por 3 a 2 (de virada), e conquistou o primeiro título nacional da história do futebol mineiro. Além da taça, aquilo representou muito mais não só para o time azul, mas também para todo o futebol de Minas, como você verá a seguir. É hora de relembrar.

 

Pré-jogo

Cruzeiro 1966

Com um time entrosado, talentoso e recém-bicampeão mineiro, o Cruzeiro chegou à final da Taça Brasil de 1966 (principal competição do país naquele tempo) após uma campanha irrepreensível e invicta: vitórias sobre o Americano por 4 a 0 no Rio e 6 a 1 em MG, empate sem gols e vitória por 2 a 1 em casa contra o Grêmio, e vitórias por 1 a 0 em MG e 3 a 1 no Rio sobre o Fluminense. Na decisão, o time mineiro teria pela frente o pentacampeão Santos, já sem algumas das estrelas do começo da década, mas ainda sim o maior time do Brasil com Gilmar, Carlos Alberto, Mauro Ramos, Zito, Pepe, Toninho Guerreiro e ele: Pelé. Todos apostavam na equipe brancaleone naquela decisão. O Cruzeiro era zebra e poderia se dar por satisfeito pelo prazer de jogar contra o maior de todos os esquadrões. Mas os prognósticos e apostas iriam cair por terra logo nos primeiros 45 minutos do primeiro jogo final, no estádio do Mineirão, em 30 de novembro de 1966.

O Cruzeiro em campo: movimentação constante, criatividade do ataque e Dirceu Lopes inspiradíssimo fizeram a diferença naquele show de futebol.
O Cruzeiro em campo: movimentação constante, criatividade do ataque e Dirceu Lopes inspiradíssimo fizeram a diferença naquele show de futebol.

 

 

Primeiro tempo – o maior baile azul da história

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Mais de 77 mil pessoas estavam no Mineirão para assistir a primeira partida da final da Taça Brasil de 1966. Mesmo os mais fanáticos torcedores do Cruzeiro não apostavam numa vitória elástica da equipe. Um empate já era satisfatório. Mas Raul, Piazza, Tostão, Dirceu Lopes e Natal estavam determinados a acabar de vez com aquele mito santista. E o trabalho começou logo no primeiro minuto. Evaldo recebeu de Tostão, viu Dirceu em direção ao gol e fez um lançamento preciso para o craque. Quando Dirceu ia chutar, o lateral santista Zé Carlos, na ânsia em desmarcá-lo, fez contra: 1 a 0. Quatro minutos depois, Evaldo deu um passe na medida para Dirceu, que passou para o ponteiro Natal. O habilidoso cruzeirense entortou o atrapalhado Zé Carlos e fez o segundo: 2 a 0. Aos 20´, Dirceu mostrou estar num dia inspirado, roubou a bola de Oberdan e ainda driblou o santista por duas vezes. De fora da área, o craque encheu o pé e marcou um golaço: 3 a 0. Aos 39´, um pelotão de artilharia despejou bombas na área santista até Dirceu Lopes fazer o quarto: 4 a 0. Aos 41´, o endiabrado Dirceu driblou o capitão do bi mundial do Brasil, Mauro Ramos, e foi derrubado por Oberdan: pênalti. Na cobrança, Tostão converteu e fechou o caixão santista na primeira etapa: 5 a 0. A torcida azul parecia viver um sonho. A do Santos suava frio e vivia um pesadelo sem igual. O show aplicado pelo Cruzeiro naqueles 45 minutos foi simplesmente o maior já realizado pelo time em toda sua história. Pelé não fazia nada tamanha a eficiência de Piazza na marcação. A zaga santista estava extremamente tonta e não conseguia sair de sua própria área por conta da agressividade do ataque do Cruzeiro, furioso e com apetite por gols, por história, por imortalidade. Tostão era cerebral com seus passes e tabelas. Natal abusava da velocidade e do talento. Evaldo e Hilton se movimentavam constantemente. E Dirceu Lopes era um estrondo, um mágico, um artilheiro voraz e imparável.

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No caminho para os vestiários, a torcida azul provocou Pelé perguntando onde ele estava. O Rei respondeu balançando a mão e mostrando os cinco dedos, em referência aos cinco títulos santistas da Taça Brasil. Mas a torcida só via cinco em um lugar: no placar do estádio.

 

Segundo tempo – tímida reação e a saideira

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O Santos voltou para o jogo disposto a reverter aquele placar tão adverso. Nos primeiros 10 minutos, o Cruzeiro parecia cansado e relaxado pela vantagem e não esboçou reação. Resultado: Toninho Guerreiro marcou duas vezes e diminuiu para 5 a 2. A torcida azul ficou assustada. Passava pela cabeça de muitos a chance de o time brancaleone virar o jogo principalmente pelo talento de Pelé, célebre por reverter resultados adversos sozinho. Mas o trio de ouro do Cruzeiro (Piazza-Tostão-Dirceu) tomou as rédeas da partida e não permitiu qualquer traquinagem do Rei. Os azuis voltaram a atacar com toques curtos, jogadas rápidas e muita habilidade. O Santos entrou na roda de novo e aos 27´, Dirceu aproveitou o rebote de Gilmar no chute de Evaldo e marcou o último gol do jogo: 6 a 2. O show estava consolidado. Poucos minutos depois, Pelé, louco da vida por não conseguir fazer nada por conta da marcação de Piazza, acertou um chute no volante azul. Uma confusão foi gerada, e o árbitro expulsou Pelé e o zagueiro Procópio. Depois disso, o jogo esfriou e os times apenas tocaram a bola, exibindo talento e arte para a torcida, que se derreteu em alegria, entusiasmo e orgulho em poder ver um jogo tão marcante e histórico quanto aquele. Ao apito final, a história estava escrita: Cruzeiro 6×2 Santos. Nascia ali, naquele jogo eterno, mais um grande time do esporte nacional, que mostrava existir, sim, futebol de qualidade fora do eixo Rio-SP.

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O que aconteceu depois?

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Cruzeiro: embalados e prontos para serem campeões, os jogadores do Cruzeiro disputaram a partida de volta, no Pacaembu, debaixo de muita chuva. Precisando fazer gols, o Santos foi com tudo para cima dos mineiros e abriu 2 a 0. Todos acreditavam que o time paulista devolveria a derrota do primeiro jogo, tanto é que no intervalo o presidente do Santos, Athiê Jorge Cury, foi ao vestiário do Cruzeiro para acertar a data do terceiro jogo! O presidente do time mineiro expulsou Cury e o mandatário da Federação Paulista de Futebol, Mendonça Falcão, aos berros, e usou o ato para aumentar o brio dos jogadores.  Deu certo. Piazza passou a marcar Pelé como se não houvesse amanhã, Tostão e Dirceu trataram de usar todas as suas armas técnicas possíveis e o Cruzeiro deu show, vencendo por 3 a 2 e conquistando a Taça Brasil. A torcida do time começaria a crescer de maneira profunda e o país inteiro aplaudia aqueles jovens craques cheios de talento, habilidade e genialidade. Ali, naquela conquista, o Cruzeiro mudava para sempre a ordem do cenário futebolístico nacional, que passaria a olhar também para Minas Gerais e não só para Rio e SP. A importância do título foi tão grande que o Torneio Rio-SP de 1967 passaria a incluir, também, as equipes de Minas Gerais e de outros estados, dando origem ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa. O que um 6 a 2 não faz…

Santos: a equipe paulista bem que tentou, mas não conseguiu conter o ímpeto do Cruzeiro na partida de volta, no Pacaembu, e perdeu o hexacampeonato da Taça Brasil para os mineiros. Depois do revés, o time ainda teria alguns lampejos de brilho no final da década, mas nos anos 70 entraria num profundo jejum de títulos expressivos, culminando com a saída de Pelé e a aposentadoria dos craques de outrora. O Peixe renasceria somente em 2002, com novos talentos gerados na Vila Belmiro. Por anos, aqueles 6 a 2 atordoaram a cabeça de muito torcedor, além de Pelé seguir com alucinações de Piazza em seu encalço, só cessando durante a Copa do Mundo de 1970, quando o craque cruzeirense vestia a mesma camisa que Pelé: a amarelinha do tricampeonato mundial.

Tostão e a Taça Brasil.
Tostão e a Taça Brasil.

 

Extra:

Cruzeiro eterno

Veja uma reportagem marcante do programa Loucos por Futebol, da ESPN Brasil, sobre aquele jogo histórico.

 

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6 thoughts on “Jogos Eternos – Cruzeiro 6×2 Santos 1966

  1. Reportagem muito boa, esse meu time tem um curriculo de da inveja. Isso sim é titulo de expressão em cima do Santos de Pele.

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