Técnico Imortal – Béla Guttmann

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Nascimento: 13 de Março de 1900*, em Budapeste, Hungria. Faleceu em 28 de Agosto de 1981 em Viena, Áustria. * (há uma incongruência quanto a sua data de nascimento. Alguns documentos registram 27 de janeiro de 1899).

Principais times que treinou*: SC Hakoah Wien-AUT (1933-1935 e 1937-1938), Újpest-HUN (1938-1939 e 1947), Padova-ITA (1949-1950), Triestina-ITA (1950-1951), Milan-ITA (1953-1955), Honvéd-HUN (1956-1957), São Paulo-BRA (1957-1958), Porto-POR (1958-1959 e 1973), Benfica-POR (1959-1962 e 1965-1966), Peñarol-URU (1962), Seleção Austríaca (1964), Servette-SUI (1966-1967) e Panathinaikos-GRE (1967). * Guttmann foi um nômade do esporte e treinou outras diversas equipes. Aqui estão listadas as principais.

Principais títulos: 2 Campeonatos Húngaros (1938-1939 e 1946-1947) e 1 Copa Mitropa (1939) pelo Újpest.

1 Campeonato Paulista (1957) pelo São Paulo.

1 Campeonato Português (1958-1959) pelo Porto.

2 Ligas dos Campeões da UEFA (1960-1961 e 1961-1962), 2 Campeonatos Português (1959-1960 e 1960-1961) e 1 Copa de Portugal (1961-1962) pelo Benfica.

“O húngaro ´bravo´ e inspirador”

Histórias ele tinha dezenas, centenas. Viu de perto a Primeira Guerra Mundial, foi vítima da queda da bolsa de 1929, teve que fugir para a Suíça na época da Segunda Guerra Mundial por ser judeu, plantou a semente tática do primeiro título mundial da seleção brasileira, comandou o melhor Benfica de todos os tempos, “zicou” o mesmo Benfica para a eternidade na Europa e colecionou desafetos pelo seu jeito tempestivo e explosivo. Mas, acima de tudo, entrou para a história como um dos mais inovadores e célebres técnicos que o futebol já viu. Béla Guttmann, húngaro de Budapeste, foi um dos mais famosos treinadores do século XX e responsável direto, junto com outros companheiros de seu país, pela emancipação do sistema tático 4-2-4, extremamente ofensivo e ideal para equipes com jogadores habilidosos e nascidos para o gol e os dribles, como os brasileiros, que ficaram conhecendo esse esquema graças a Guttmann e ao seu São Paulo campeão paulista de 1957. O treinador ficou marcado, também, pelo imenso número de clubes pelos quais passou ao longo da carreira – foram 25 trabalhos em mais de 10 países diferentes. Nunca ficava mais de dois anos em um time por acreditar que o número três “dava azar”, mas saía mesmo por ser bravo, temperamental e sistemático principalmente quando o assunto era dinheiro. É hora de relembrar a vitoriosa e conturbada carreira dessa grande figura do esporte.

 

Faceta nômade

Guttmann em seus tempos de jogador.
Guttmann em seus tempos de jogador.

 

Desde os tempos de jogador de futebol que Guttmann tinha em si uma faceta para mudar constantemente de lugar e de clube. Depois de começar a jogar em seu país, no MTK Hungária, Guttmann aproveitou uma viagem aos EUA e por lá ficou, disputando várias partidas por diferentes clubes na liga local. Quando voltou à Europa, jogou mais alguns anos até se aposentar e virar treinador. Começou no Hakoah Wien, da Áustria, e peregrinou por times da Holanda e Hungria até encontrar no húngaro Újpest a chance de brilhar. Entre 1938 e 1939, o técnico conquistou um campeonato nacional e a prestigiada Copa Mitropa, antecessora direta da Liga dos Campeões da UEFA, com acachapantes vitórias pra cima do rival Ferencváros-HUN por 4 a 1 e 6 a 3. Mas o período de ouro de Guttmann no Újpest durou pouco. A Segunda Guerra Mundial eclodiu em 1940 e o húngaro foi obrigado a deixar seu país para escapar do holocausto – pelo fato de ser judeu – se refugiando na Suíça. Cinco anos depois, Guttmann voltou à Hungria (ou ao que havia sobrado dela…) e, em 1947, deu ao Újpest mais um título nacional. Naquela época, ele já começava a implementar o sistema tático 4-2-4, que explorava a ofensividade e uma coesa linha de quatro atacantes que podiam construir tabelas e sufocar os rivais pelas pontas e pelo meio. Com isso, era comum as partidas do Újpest e dos times seguintes do treinador entupirem os adversários de gols. No entanto, outra vez ele deixou o clube para treinar o Kispest, até descobrir o futebol italiano em 1949.

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Sistemático e polêmico

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Na Itália, Guttmann colecionou bons resultados e inimigos. Seu jeito ácido deixou os dirigentes do Padova e do Triestina loucos da vida. Depois de curtas passagens pelos pequeninos clubes, Guttmann seguiu sua vida nômade na Hungria, na Argentina e no Chipre até ir para o Milan em 1953. Lá, encontrou um elenco mágico para poder colocar em prática seu 4-2-4. Com os suecos Nordahl e Liedholm, além do uruguaio Schiaffino, o clube rossonero era a cobaia perfeita para o treinador mostrar a todos o que era futebol ofensivo. Foi justamente em sua estadia no Milan que a seleção da Hungria encantou o mundo com um futebol exuberante e que merecia ter vencido a Copa do Mundo de 1954 – jogando no esquema que ele e Gustáv Sebes tanto trabalharam. Mas, na final, os húngaros perderam para a Alemanha.

Passada a Copa, Guttmann colocou o Milan nos eixos e o time espantou a todos com gols em profusão e um futebol alucinante. Tinindo e no topo da tabela, o Scudetto viria fácil, fácil. Mas, pra variar, Guttmann deixou o clube após desentendimentos com a diretoria.  Em sua coletiva de despedida, disse:

“Eu fui demitido, embora eu não seja nem um criminoso, nem um homossexual. Adeus!”

O Milan campeão italiano de 1955.
O Milan campeão italiano de 1955.

 

Após a saída de Guttmann, o Milan manteve a liderança no Calcio e foi o campeão italiano de 1955, com Ettore Puricelli no comando e uma campanha incontestável: 19 vitórias, 10 empates e cinco derrotas, com 81 gols marcados (melhor ataque) e 35 sofridos (melhor defesa). Depois do episódio em Milão, Guttmann passaria a exigir em seus contratos uma cláusula que proibia seu clube de demiti-lo caso a equipe estivesse no topo da tabela de algum campeonato. Guttmann trabalhou ainda no Vicenza até decidir voltar à Hungria. De novo.

 

Viagem sem volta

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Em seu país natal, Guttmann teve o prazer de comandar entre 1956 e 1957 o Budapest Honvéd, uma das mais lendárias equipes de futebol dos anos 50. Quando chegou ao clube, a força do timaço de Puskás, Kocsis, Czibor e Lorant já não era a mesma do começo da década, mas o time ainda jogava por música. Títulos, o treinador não conquistou, mas foi pelo Honvéd que ele conseguiu fazer uma nova e notável legião de fãs quando, em 1957, veio ao Brasil para uma série de amistosos de seu time com equipes do Rio de Janeiro. Durante sua estadia, Guttmann comandou o Honvéd nas vitórias por 6 a 4 e 3 a 2 sobre o Flamengo, e nas derrotas por 6 a 4 para o mesmo Flamengo e 3 a 2 para um combinado Botafogo/Flamengo. O show de bola da equipe húngara encantou a todos e a imprensa nacional rasgou elogios àqueles húngaros que por muito pouco não haviam conquistado o mundo três anos antes. Foi então que Vicente Feola, à época técnico e supervisor do São Paulo FC, disse à diretoria do clube paulista para aproveitar a oportunidade e tentar uma contratação do nômade Guttmann. Não seria uma tarefa difícil, visto o histórico do treinador por diversas equipes pelo mundo. E deu certo. Laudo Natel e Manoel Raymundo Paes de Almeida acertaram os trâmites burocráticos, assinaram o termo da “não demissão em caso de liderança” e Guttmann virou tricolor. A adaptação à cidade paulista ocorreu rapidamente e o húngaro revolucionou para sempre o modo de jogar não só do São Paulo, mas também de todos no país.

 

Pai do 4-2-4 brasileiro

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Com inovações nos treinos, principalmente nos fundamentos, Guttmann ensinou a todos os jogadores do time paulista como cobrar faltas, chutar bem uma bola no gol, e mostrou que o foco deveria ser sempre na objetividade e na precisão. Nada de fintas e jogadas que não levassem a lugar nenhum. O importante era o gol. Quanto mais, melhor. Uma característica de Guttmann nos tempos de São Paulo foi desenhar alvos com números para os jogadores acertarem com seus chutes, uma espécie de paredão do chute ao alvo. Esse símbolo básico de fundamento permanece até hoje no centro de treinamentos do tricolor.

O tempo passou, Guttmann ganhou o reforço do genial meia Zizinho e o São Paulo destroçou seus rivais no Campeonato Paulista. Com Poy, Mauro, De Sordi, Gino, Zizinho e Canhoteiro, o tricolor jogou puramente no ataque e faturou o título. Foram 13 vitórias, quatro empates e apenas uma derrota em 18 jogos, com 53 gols marcados e 24 sofridos. A partida que sacramentou a conquista foi um 3 a 1 pra cima do Corinthians, no Pacaembu. Outros grandes momentos da campanha foram as goleadas por 4 a 2 no Palmeiras, 6 a 2 no Santos e 7 a 1 no XV de Piracicaba. A conquista seria a última do São Paulo no período. Por conta da construção do Morumbi, que sugava os recursos financeiros do clube, o tricolor só voltaria a levantar uma taça em 1970. Para seguir a rotina, Guttmann deixou o São Paulo já em 1958 pelo fato de o time brasileiro não conseguir manter o seu salário no mesmo nível do valor do dólar à época, que subia sem parar. Dessa vez, porém, não houve polêmicas. E Guttmann virou um ídolo eterno no tricolor.

A seleção brasileira campeã do mundo em 1958 jogou no 4-2-4. Obra de Guttmann.
A seleção brasileira campeã do mundo em 1958 jogou no 4-2-4. Obra de Guttmann.

 

A passagem de Guttmann pelo Brasil deixou profundas e benéficas marcas para o futebol nacional. Vicente Feola, que acompanhou de perto o modo de trabalho do húngaro, implantou em toda a sua plenitude o sistema 4-2-4 na seleção brasileira, que estaria sob seu comando na Copa do Mundo da Suécia em 1958. Com craques em todas as posições do campo e jogadores perfeitos para atuar naquele estilo, o Brasil sobrou e foi campeão mundial pela primeira vez jogando um futebol vistoso, ofensivo e sensacional. O mérito, claro, foi de todo o grupo canarinho e de sua comissão técnica. Mas a semente para aquele sucesso, indiretamente, foi plantada por Béla Guttmann.

 

O mito se constrói em Portugal

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Depois de deixar o São Paulo e ver a consagração do esquema tático que ele mesmo ajudou a criar, Guttmann foi para Portugal treinar o Futebol Clube do Porto. Por lá, começou a construir seu mito no país ao levar o clube azul ao título do Campeonato Português já na temporada 1958-1959 com apenas duas derrotas em 26 partidas, e ter conseguido tirar uma diferença de cinco pontos para o Benfica na reta final do torneio. Quando todos do Porto pensavam ter encontrado o salvador, eis que Guttmann decide assinar com o Benfica, maior rival do clube, às escondidas. O contrato firmado com o clube encarnado era cheio de exigências e bônus por títulos: 400 contos líquidos por ano, 150 pelo título da liga portuguesa, 50 pela Copa de Portugal e 300 pela Liga dos Campeões da UEFA. Com vários extras, Guttmann iria fazer do estádio da Luz o palco para sua maior obra prima.

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Naquele final de anos 50, o Benfica já era um titã em Portugal principalmente após 1954, ano da inauguração do estádio da Luz, construído graças ao apoio de associados e simpatizantes do clube. O estádio foi progredindo ao longo dos anos e chegou, em 1960, a uma capacidade para 70 mil torcedores (40 mil a mais que em 1954). Era a primeira deixa para o apogeu do esquadrão português. Béla Guttmann começou a moldar seu time ao dispensar vários medalhões e pincelar jovens das categorias de base e de fora dela. Um deles, o mais notável de todos, foi Eusébio, que veio de Moçambique e seria transformado por Guttmann no maior craque da história de Portugal. Os dois seriam os principais responsáveis pelas glórias que viriam a partir de 1960, ao lado, claro, de outras estrelas como Costa Pereira, Mário Coluna, José Águas e Domiciano Cavém.

Eusébio e Guttmann: símbolos de uma era de ouro do Benfica.
Eusébio e Guttmann: símbolos de uma era de ouro do Benfica.

 

Passaporte para a Europa

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O Benfica deu show no Campeonato Português de 1959-1960 e conquistou seu décimo título na história ao vencer 20 jogos, empatar cinco e perder apenas um. O time começava a mostrar seu poderio ofensivo ao anotar 75 gols em 26 jogos, uma média de quase três gols marcados por partida. O título garantiu o clube luso na Liga dos Campeões da UEFA de 1960-1961. Era hora de acabar de vez com a hegemonia madrilena no torneio.

 

Europa portuguesa

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O Benfica já tinha um plantel de respeito e jogadores muito técnicos e habilidosos. O treinador húngaro Béla Guttmann organizava a equipe de maneira plena com suas conhecidas táticas extremamente ofensivas e coesas. No caminho até a final da Liga dos Campeões, o time luso passou por Hearts-ESC, Újpest-HUN, AGF-DIN e Rapid Wien-AUT. O último desafio era o Barcelona-ESP dos húngaros e velhos conhecidos de Guttmann: Kubala, Kocsis e Czibor, que se uniam ao brasileiro Evaristo de Macedo e ao espanhol Luiz Suárez para formar uma linha de frente de respeito.

O jogo foi disputado na cidade de Berna, na Suíça, e era a primeira final de Liga dos Campeões da UEFA sem o Real Madrid na disputa. Apenas por esse fato o confronto já ganhou muito mais visibilidade e atenção da imprensa e público, pois teríamos, enfim, um campeão inédito. O jogo foi muito aberto e disputado, com o Benfica tendo algumas das principais chances de gol. O húngaro Kocsis abriu o placar para o Barça aos 20´, mas o artilheiro da Liga de 1961, José Águas, empatou aos 30´. Apenas dois minutos depois, o goleiro Ramallets, contra, virou para o Benfica. No segundo tempo, Coluna ampliou para o time luso aos 55´, e Czibor diminuiu para os espanhóis. O jogo era tenso, o Barça tentou chegar ao empate, mas o Benfica soube neutralizar as investidas do adversário e manteve o placar em 3 a 2. O Benfica era, pela primeira vez em sua história, campeão europeu de futebol. Era a coroação do ótimo trabalho feito pelo técnico Béla Guttmann em uma equipe que entupia os adversários de gols. De quebra, o time teve ainda o artilheiro do torneio, José Águas, com 11 gols. O matador português só não marcou em uma partida ao longo da campanha do Benfica. O bolso de Guttmann ficou cheio naquela temporada…

 

Soberania mantida em casa

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Ainda na temporada 1960-1961 o Benfica conquistou mais um título português com uma campanha notável: 22 vitórias, dois empates e duas derrotas em 26 jogos. O time marcou incríveis 92 gols, média de 3,53 gols por jogo! Confirmando sua boa fase, José Águas foi o artilheiro do torneio com 27 gols. Naquele ano de 1961, o único grande revés do time foi na final do Mundial Interclubes contra o Peñarol-URU, quando o Benfica venceu o primeiro jogo por 1 a 0, em Lisboa, e perdeu de 5 a 0 na volta, em Montevidéu. Na mesma cidade uruguaia, os portugueses caíram de novo no jogo desempate (2 a 1) e perderam a chance de conquistar o mundo.

 

O “Pantera Negra” mostra as garras

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A temporada 1961-1962 marcou a ascensão do grande craque Eusébio. O jogador pôde, enfim, jogar com mais regularidade e começou a mostrar que iria bem longe com seu talento incrível, sua força e explosão fantásticas. Em casa, o Benfica não foi bem no Campeonato Português, mas conquistou a Copa de Portugal ao vencer o Vitória de Setúbal por 3 a 0 na final. O grande objetivo do esquadrão vermelho era, sem dúvida, o bicampeonato da Liga dos Campeões.

A base do Benfica na era Guttmann: melhor time português de todos os tempos.
A base do Benfica na era Guttmann: melhor time português de todos os tempos.

 

O Benfica estreou na competição europeia já nas oitavas de final e eliminou o Austria Vienna-AUT. Na sequência, derrotou os alemães do Nuremberg e os ingleses do Tottenham Hotspur. A equipe estava outra vez na final. Mas o adversário seria um esquadrão mítico: o Real Madrid.

 

Épico!

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O estádio Olímpico de Amsterdã, na Holanda, presenciou uma das mais fantásticas finais de Liga dos Campeões de todos os tempos naquele dia 02 de maio de 1962. De um lado, o já mítico Real Madrid, que contava com remanescentes do pentacampeonato europeu da década de 50 como Santamaria, Di Stéfano, Puskás e Gento, além do técnico Miguel Muñoz. Do outro lado, a máquina de fazer gols do Benfica de Guttmann, que fazia seu time jogar sempre no ataque e com objetividade, não importava a situação ou adversário. O jogo, como não poderia deixar de ser, foi sensacional. Puskás abriu o placar aos 17´para o Real e ampliou aos 23´. Dois minutos depois Águas, sempre ele, diminuiu para o Benfica. Aos 34´, Cavém empatou. Quatro minutos depois o Real fez mais um com Puskás (era o terceiro dele no jogo…). Com a desvantagem no placar ainda no primeiro tempo, o Benfica precisava de pelo menos dois gols para virar o jogo. Foi então que surgiu a estrela de Eusébio. Depois do gol de empate marcado por Coluna aos 6´, o “Pantera Negra” virou para o Benfica aos 18´, de pênalti, e ampliou cinco minutos depois: Benfica 5×3 Real Madrid. O placar se manteve assim até o final e o Benfica impunha ao Real Madrid sua primeira derrota em uma final de Liga dos Campeões. Muita festa em Portugal e na Holanda! O Benfica era bicampeão europeu de maneira épica e histórica, goleando de maneira sublime o time mais temido do mundo. Porém, ali terminaria mais uma etapa na carreira de Guttmann. E com direito a maldição.

Eusébio, Guttmann e Coluna: bons e inesquecíveis tempos.
Eusébio, Guttmann e Coluna: bons e inesquecíveis tempos.

 

A maldição de Guttmann

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Após a conquista europeia, o treinador Béla Guttmann pediu um aumento de salário para a diretoria do Benfica, que negou mesmo com o sucesso do húngaro a frente do time. Por conta disso, Guttmann , furioso, deixou o Benfica e proferiu a frase que é tida como uma maldição pelas bandas do time português:

“Nem nos próximos 100 anos uma equipe portuguesa será campeã europeia e o Benfica não voltará a ser campeão europeu sem mim”.

Na época, ninguém deu bola, mas o fato é que desde então o Benfica nunca mais venceu uma Liga dos Campeões, mas o Porto, que é uma equipe portuguesa, conquistou por duas vezes o torneio. A profecia se cumpriu pela metade. E justo a metade mais assustadora para os torcedores do time encarnado, que participou de outras cinco finais de Liga. E perdeu todas. Além de inteligente, turrão, mágico e competente, Guttmann mostrava um outro lado: o de feiticeiro…

 

Últimos anos e nada de títulos

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Depois da revolta no Benfica, Guttmann voltou para a América do Sul e comandou o Peñarol-URU. No clube aurinegro, o húngaro chegou até a final da Copa Libertadores de 1962, mas perdeu a decisão para o Santos depois de as duas primeiras partidas serem bem disputadas e a terceira, de desempate, ficar injusta. Por quê? Ora, Pelé jogou e o alvinegro fez 3 a 0…

No Peñarol, Guttmann viveu situação semelhante à sua passagem pelo Milan: saiu e logo depois o clube conquistou o campeonato nacional, mas comandado por Peregrino Anselmo. Depois da breve estadia no Uruguai, o treinador ainda passou pela seleção da Áustria, voltou ao Benfica, mas não teve o brilho de antes. Pior, levou duas sacoladas do Manchester United na Liga dos Campeões da UEFA de 1965-1966 e foi vítima de sua própria “zica”. Mas o legado do mago já havia sido sacramentado. Em 162 jogos no comando do Benfica, Guttmann venceu 113, empatou 27 e perdeu apenas 22. Um aproveitamento superior a 70%.

Depois de sua segunda estadia na Luz, Guttmann ainda passou pela Suíça, Grécia, Áustria e novamente pelo Porto, já na década de 70, onde se aposentou. Estava terminada a via sacra do nômade que viajou por mais de 10 países para 25 trabalhos diferentes, uns conturbados, outros breves, e alguns eternos e gloriosos.

 

Legado para a história

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Béla Guttmann viveu seus últimos anos de vida na cidade de Viena, na Áustria, seu xodó desde os tempos de jogador. O treinador faleceu em 1981, aos 81 anos, sem jamais ter levantado uma taça depois de seus gloriosos tempos de Benfica. Culpa da “língua afiada”, devem pensar os supersticiosos encarnados. Um fato curioso envolvendo a história de Guttmann e o Benfica aconteceu em 1990. O time português iria disputar sua quinta final de Liga dos Campeões da UEFA desde o título de 1962. Curiosamente, a final daquele ano (contra o Milan) seria na cidade de Viena, local onde Guttmann estava enterrado. Eusébio, o maior craque da história do clube, decidiu ir até o túmulo de Guttmann e rezar para que a maldição imposta pelo húngaro terminasse de uma vez por todas ali, diante de seus olhos espirituais, em Viena. Mas de nada adiantaram as rezas do Pantera Negra. O super Milan de van Basten e Gullit venceu por 1 a 0 e foi o campeão.

Polêmicas e “feitiçarias” a parte, Béla Guttmann marcou época como um dos mais talentosos técnicos do século XX. Suas inovações, seu esquema 4-2-4 e seus métodos de trabalho levaram grandes times a conquistas históricas e emblemáticas. Seu jeito explosivo, porém, custou uma longevidade maior em muitos esquadrões, como aquele grande Milan dos anos 50 e até mesmo o Benfica dos anos 60. Mas Guttmann também ficou na lembrança de todos pelo seu jeito despojado, sarcástico, alegre e brincalhão para com jogadores, amigos e torcedores. Quando ele queria, claro. Afinal, os magos são mesmo sistemáticos. E imortais.

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Extra:

O bi da Europa

Veja os lances da final da Liga dos Campeões da UEFA entre Benfica e Real Madrid, em 1962. Sem dúvida, o auge na carreira de Guttmann.

 

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5 thoughts on “Técnico Imortal – Béla Guttmann

  1. Na escalação do Milan acima , chama a atenção dois jogadores : Maldini e Buffon . Algum grau de parentesco com os da nossa época ?
    Abs .

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