Craque Imortal – Bobby Charlton

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Nascimento: 11 de Outubro de 1937, em Ashington, Northumberland, Inglaterra.

Posição: Meia, atacante, ponta-esquerda e ponta-direita

Clubes: Manchester United-ING (1954-1973) e Preston North End-ING (1974-1975).

Principais títulos por clubes: 1 Liga dos Campeões da UEFA (1967-1968), 3 Campeonatos Inglês (1956-1957, 1964-1965 e 1966-1967) e 1 Copa da Inglaterra (1962-1963) pelo Manchester United.

Principal título por seleção: 1 Copa do Mundo (1966) pela Inglaterra.

 

Principais títulos individuais:

Bola de Ouro da revista France Football: 1966

Bola de Ouro da Copa do Mundo da FIFA: 1966

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA: 1966 e 1970

Futebolista do Ano da FWA: 1965-1966

Prêmio de Honra ao Mérito da PFA: 1974

Prêmio Tributo da FWA: 1989

Eleito para o Time do Século XX da Copa do Mundo da FIFA: 1994

Eleito o 18º Melhor Jogador do Século XX pela revista Placar: 1999

Eleito para o Hall da Fama do Futebol Inglês: 2002

FIFA 100: 2004

Eleito o 33º Melhor Jogador da História das Copas do Mundo pela revista Placar: 2006

Personalidade do Ano da BBC (prêmio pela obra de vida): 2008

Prêmio Laureus pela obra de vida: 2012

Eleito um dos 1000 Maiores Esportistas do Século XX pelo jornal The Sunday Times

 

“Cavalheiro, craque e autêntico imortal”

De todos os Craques Imortais já relembrados por aqui, talvez o que mais faça jus a alcunha de imortal seja Sir Robert Charlton, ou simplesmente Bobby Charlton. Primeiro porque ele teve todas as características de um jogador exuberante: velocidade, técnica apurada, inteligência fora do comum, pioneirismo tático, força nos chutes, faro de gol e espírito vencedor, além de cavalheirismo e exemplo de fair play. Mas o inglês, que ostenta até hoje a liderança de gols com a camisa do English Team, foi mais imortal do que todos pelo fato de ter driblado a morte. Isso mesmo. Bobby Charlton resistiu ao trágico desastre aéreo de Munique, que matou oito jogadores do Manchester United (time de Charlton) em 06 de fevereiro de 1958, além de vários outros tripulantes. O futuro astro do futebol mundial teve ferimentos graves, mas conseguiu sobreviver e continuar sua carreira mesmo com as cicatrizes físicas e, principalmente, mentais. Para o bem do futebol, Charlton se transformou num craque fora de série e viveu seu auge nos anos 60, quando conduziu o Manchester United a títulos inesquecíveis – como a Liga dos Campeões da UEFA de 1967-1968 – e a Inglaterra ao triunfo em sua primeira (e única) Copa do Mundo. Irresistível com a bola nos pés, símbolo de uma geração de ouro do futebol inglês e considerado por muitos como o maior jogador da história de seu país, Bobby Charlton marcou época com qualidades únicas e paixão pelo esporte que ele tanto ajudou a engrandecer. É hora de relembrar.

 

Futebol nas veias

O jovem Charlton, ainda com cabelos.
O jovem Charlton, ainda com cabelos.

 

Nascido em Ashington, cidade inglesa famosa por suas minas de carvão, Bobby Charlton tinha o futebol cravado em suas veias pela tendência familiar ao esporte. Seus tios Jack Milburn, George Milburn, Jim Milburn e Stan Milburn (além do primo de sua mãe, Jackie Milburn) foram todos jogadores de futebol, fato que acabou levando o garoto Bobby aos campos da vizinhança e da escola. Em 1953, com 15 anos, o jovem foi descoberto em um amistoso entre equipes escolares de Northumberland por Joe Armstrong, olheiro do Manchester United que tinha como objetivo garimpar futuros talentos para o técnico do time, Matt Busby. A princípio, a mãe de Bobby relutou e não via com bons olhos um futuro promissor do filho como jogador de futebol. Ela preferia ver seu garoto estudando engenharia elétrica, mas não teve jeito. Bobby tinha nascido para construir jogadas e energizar todo e qualquer campo de futebol que ele entrasse. Em outubro de 1954, o futuro craque se tornava profissional do time de Old Trafford. Era o reforço que o United precisava para um de seus mais famosos times: o Busby Babes.

 

“Bebê” campeão

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Naquela segunda metade da década de 50, o Manchester United começava a encantar a Inglaterra com um time que ficaria mundialmente famoso como os Busby Babes (os “bebês de Busby”), pelo fato de a equipe titular ter apenas jogadores jovens e com média de idade entre 21 e 22 anos. O técnico Matt Busby havia construído um esquadrão rápido, talentoso e muito competitivo que rendeu os mais portentosos frutos nas temporadas de 1955-1956 e 1956-1957, quando os Red Devils faturaram o bicampeonato inglês. Foi na conquista de 1957 que Charlton fez seu debute ao marcar dois gols na vitória por 4 a 2 sobre o Charlton (!) Athletic e começou a despontar como um dos grandes e promissores talentos da Inglaterra com uma visão de jogo fantástica, arrancadas fulminantes e uma perna esquerda venenosa. O jovem marcou 10 gols em 14 jogos e contribuiu para a campanha do United no Campeonato Inglês, que teve 28 vitórias, oito empates, seis derrotas, 103 gols marcados e 54 sofridos em 42 jogos. Além de Charlton, o time contava com Tommy Taylor, Dennis Viollet, Liam Whelan, Johnny Berry e muitos outros. A equipe de United voava em campo e encantava a todos onde quer que estivesse. Os Devils quase faturaram em 1957 o “double”, mas foram derrotados pelo Aston Villa-ING por 2 a 1 na final da Copa da Inglaterra. Na Liga dos Campeões da UEFA, os ingleses alcançaram a semifinal depois de partidas marcantes (como um 3 a 0 sobre o Athletic Bilbao-ESP nas quartas de final após perder o primeiro jogo por 5 a 3), mas foram eliminados na semifinal para o poderosíssimo Real Madrid-ESP de Di Stéfano, Kopa, Gento e Rial. O tropeço não foi sentido pelos ingleses, que viam um futuro ainda mais promissor para as temporadas seguintes, muito pelo fato de o time evoluir a cada jogo e ser composto por muitos jovens. No entanto, uma tragédia colocaria fim a um capítulo de ouro na história do United.

 

O desastre de Munique e a imortalidade de Charlton

Os Busby Babes em sua última partida.
Os “Busby Babes” perfilados na última partida antes da tragédia. Bobby Charlton é o quinto da esquerda para a direita.

 

O que restou do avião após o acidente.
O que restou do avião após o acidente.

 

Em 06 de fevereiro de 1958, a delegação do Manchester United retornava para a Inglaterra após uma classificação épica para as semifinais da Liga dos Campeões da UEFA, ao empatar em 3 a 3 com o Estrela Vermelha-IUG. Durante o caminho, o avião que transportava atletas, dirigentes e comissão técnica aterrissou em Munique, na Alemanha, para reabastecer. Em solo germânico, a aeronave começou a sofrer problemas com o motor e a forte nevasca dificultava a visão do piloto. Depois de duas tentativas fracassadas de decolagem, na terceira, o avião saiu do chão, mas tempo depois um forte estrondo se ouviu e a aeronave mergulhou em direção ao chão. Era o desastre. Das 44 pessoas a bordo, 20 morreram na hora e outras três perderam a vida no hospital. Oito jogadores do Manchester United estavam entre os mortos e outros nove conseguiram sobreviver, entre eles Bobby Charlton, que sofreu ferimentos graves, mas por mais incrível que pudesse parecer, continuou vivo para contar história. Muitos demoraram a perceber o quão grande fora o acidente, como bem explicou Harry Gregg, um dos jogadores sobreviventes, tempo depois:

“Estávamos para deixar o hospital quando eu perguntei para uma enfermeira onde poderíamos ir para ver o resto dos garotos. Ela pareceu confusa então eu perguntei novamente: ‘Aonde estão o resto dos sobreviventes ?’ … ‘Outros ? Não tem outros, estão todos aqui.’ Foi só aí que soubemos do horror de Munique. Os Busby Babes não existiam mais”.Harry Gregg, ex-jogador e sobrevivente do desastre aéreo de Munique, em depoimento colhido do Manchester United Brasil – The Brazilian Supporters.

Bobby Charlton se recupera no hospital após o desastre.
Bobby Charlton se recupera no hospital após o desastre.

 

O acidente chocou o mundo e decretou o fim dos Busby Babes, que teriam chegado muito mais longe não fosse aquela tragédia. Bobby Charlton ficou traumatizado com o ocorrido, mas não abandonou a carreira como fizeram seus companheiros Johnny Berry e Jackie Blanchflower. Era preciso erguer a cabeça e continuar a carreira. Se Charlton estava vivo, era por algum motivo. Ele tinha uma missão a cumprir.

 

O craque da reconstrução

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Passados os traumas e os momentos pós-acidente, o técnico Matt Busby (que sobreviveu após passar dias no hospital) começou a reformular o combalido elenco do United com Bobby Charlton como o principal homem da equipe. As jogadas de ataque passariam pelos pés do jovem, ora pela esquerda, ora pelo meio de campo. Charlton começaria a ser um dos primeiros centroavantes a voltar para buscar a bola e chamar o jogo para si, quase como um meia armador. Seu talento em campo parecia fazê-lo planar sobre o gramado a ponto de arrancar suspiros da torcida com os mais belos lances e gols. Em 1958, o craque teve dois bons momentos que o fizeram esquecer, pelo menos por instantes, a tragédia de Munique. O primeiro foi sua estreia com a camisa da Inglaterra, com gol, no estádio Hampden Park (ESC) na vitória por 4 a 0 sobre a Escócia. A ótima atuação naquele jogo rendeu ao jogador uma convocação para a Copa do Mundo da Suécia, a qual ele presenciou apenas do banco de reservas.

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Em 1962, o craque disputou a Copa do Mundo do Chile e marcou seu primeiro gol em mundiais na vitória por 3 a 1 sobre a Argentina, mas o English Team não foi páreo para o Brasil de Garrincha, que venceu por 3 a 1. Mesmo com o revés, Charlton ganhou ainda mais admiração por seu futebol e principalmente por sua lealdade em campo, sem apelar para faltas, sem reclamar e por ser um verdadeiro cavalheiro com adversários, juízes e técnicos. Um exemplo de atleta profissional que viveria o auge nos anos seguintes.

 

A volta das conquistas

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Em 1963, o Manchester United encerrou o período sem títulos com a conquista da Copa da Inglaterra após uma vitória por 3 a 1 sobre o Leicester City. Foi a primeira taça de Charlton pelo clube como titular absoluto e também da nova safra de talentos que residia em Old Trafford, com destaque para os atacantes Denis Law e George Best, além do defensor Bill Foulkes. Na temporada 1964-1965, com 26 vitórias, nove empates e sete derrotas em longos 42 jogos, o time foi campeão inglês graças à média de gols, pois o Leeds United, vice-campeão, conseguiu a mesma pontuação que os Diabos Vermelhos. Como a equipe de Busby teve um índice de gols melhor (marcou 89 gols e sofreu 39 contra 83 gols pró do Leeds e 52 sofridos), o caneco ficou em Manchester. Naquele ano, imprensa e torcida se encheram de brilho nos olhos com as apresentações irrepreensíveis do trio Denis Law, Bobby Charlton e George Best. O título inglês veio junto com o caneco da Supercopa da Inglaterra, quando a equipe dividiu a conquista com o Liverpool após empate em 2 a 2. Campeão nacional, o Manchester ganhou o direito de disputar a Liga dos Campeões da UEFA de 1965-1966.

Na competição europeia, o Manchester despachou HJK-FIN, Vorwärts Berlin-ALE e o Benfica-POR de Eusébio. No entanto, os ingleses voltaram a cair na semifinal, dessa vez para o Partizan-IUG após perder por 2 a 0 o primeiro jogo e vencer por apenas 1 a 0 na volta. Charlton não se deixou abater e voltou suas atenções para mais um grande desafio naquele ano de 1966: a Copa do Mundo, que seria realizada pela primeira vez na Inglaterra.

 

O auge de Charlton

Bobby Charlton, Manchester United 17.5.68 Daily Mail

No mundial de 1966, Bobby Charlton estava tinindo e tinha tudo e mais um pouco para brilhar na maior competição de futebol do planeta. O craque estava muito bem assessorado por jogadores como Banks, Bobby Moore, Jack Charlton (zagueiro e irmão de Bobby), Ball, Hunt, Hurst e Peters, todos comandados pelo brilhante técnico Alf Ramsey. A equipe começou mal e apenas empatou sem gols o primeiro jogo da Copa contra o Uruguai. Na partida seguinte, Bobby Charlton tratou de aliviar os ânimos da torcida ao arriscar de longe a marcar o primeiro gol inglês na Copa, tento que iniciou a vitória por 2 a 0 sobre o México. Contra a França, nova vitória por 2 a 0 e classificação assegurada para as quartas de final. Nela, a Inglaterra encarou a Argentina em um jogo muito disputado e tenso no estádio Wembley, que terminou com vitória dos anfitriões por 1 a 0, gol de Hurst.

Na semifinal, páreo duríssimo: a seleção de Portugal do mítico atacante Eusébio, que se tornaria o artilheiro daquele mundial com nove gols. A Inglaterra sabia da qualidade de Eusébio e do adversário em si e tratou de marcar devidamente os principais nomes portugueses. A tática deu certo e o English Team contou ainda com a inspiração de Bobby Charlton, que realizou sua melhor partida em uma Copa do Mundo na carreira ao marcar dois gols: um ao receber livre de fora da área e outro ao seu estilo, correndo pela meia e chutando cruzado sem chances para o goleiro José Pereira. Eusébio conseguiu descontar para Portugal, de pênalti, mas a Inglaterra venceu por 2 a 1 e se garantiu pela primeira vez na final de uma Copa do Mundo, em casa. O adversário não poderia ser mais simbólico para Charlton: a Alemanha.

 

Anulado pelo Kaiser. Mas campeão do mundo

Charlton e Beckenbauer: estrelas se anularam na final da Copa de 1966.
Charlton e Beckenbauer: estrelas se anularam na final da Copa de 1966.

 

O jogo entre Inglaterra e Alemanha se tornaria para sempre um clássico do futebol mundial depois da final da Copa do Mundo de 1966. Mais de 95 mil pessoas lotaram o estádio Wembley para ver de perto duas possibilidades: a coroação da mais brilhante geração de craques da Inglaterra, com Moore, Charlton, Hunt, Banks e Hurst ou o bicampeonato de uma ótima Alemanha, que revelava naquele mundial a joia excepcional chamada Franz Beckenbauer. E foi exatamente o craque alemão que se transformaria em uma “pedra na chuteira” de Bobby Charlton na final.

A pedido do técnico Helmut Schön, Beckenbauer tinha como única e exclusiva missão marcar o craque inglês como se não houvesse amanhã. Schön sabia das qualidades e da grande fase que vivia Charlton, por isso a preocupação em anular o principal articulador de jogadas do time inglês. A tática deu certo e Charlton não fez nada. Porém, Beckenbauer também ficou incógnito na decisão e, quanta ironia, os dois principais nomes de Alemanha e Inglaterra foram meros coadjuvantes num jogo polêmico, no qual brilhou a estrela do atacante Hurst, autor de três dos quatro gols ingleses na vitória por 4 a 2 – após 2 a 2 no tempo normal. A polêmica ficou por conta do terceiro gol inglês, quando Hurst partiu para o ataque e chutou forte, a bola bateu no travessão e quicou sobre a linha, saindo do gol. O árbitro não estava certo se a bola entrara ou não, por isso, consultou seu assistente, Tofik Bakhramov, que disse ter sido gol. Depois de um momento de indecisão e pelo fato de ambos não falarem claramente a mesma língua, o juiz decidiu por validar o gol. Os ingleses comemoraram muito, mas a própria torcida não sabia (muito menos os milhões de espectadores pelo mundo) se aquela bola havia entrado ou não. Tempo depois, análises mostraram que a bola não cruzou a linha do gol e que a bola estava a 6 cm longe de passar completamente a linha. Porém, para acabar com qualquer dúvida, Hurst marcou mais um gol no minuto final da prorrogação e decretou o 4 a 2 para a Inglaterra, escrevendo seu nome na história como primeiro e único jogador a marcar 3 gols em uma final de Copa. Polêmicas a parte, estava sacramentada a glória inglesa.

Emocionado, Charlton carrega a Taça Jules Rimet.
Emocionado, Charlton carrega a Taça Jules Rimet.

 

A torcida invadiu o gramado ensandecida de felicidade. Os inventores do futebol, enfim, podiam receber a cobiçada Taça Jules Rimet das mãos da Rainha e fazer a festa em casa. Era um sonho realizado para Bobby Charlton, que vivia seu mais belo e glorioso momento na carreira. Para coroar um ano mágico, o craque recebeu naquele ano de 1966 a Bola de Ouro de melhor jogador da Europa pela revista France Football.

A Inglaterra de 1966: 4-2-4 virava 4-4-2 com o recuo dos pontas.
A Inglaterra de 1966: 4-2-4 virava 4-4-2 com o recuo dos pontas.

 

A glória europeia

Charlton

Conquistar o mundo com a Inglaterra foi algo inesquecível e histórico para Bobby Charlton, mas igualmente saborosa foi a conquista da Liga dos Campeões da UEFA de 1967-1968 pelo Manchester United exatamente dez anos após o desastre aéreo de Munique. No caminho antes da final, os Red Devils eliminaram o Hibernians, de Malta, Sarajevo-IUG, Górnik Zabrze-POL e Real Madrid-ESP, que perdeu por 1 a 0 na Inglaterra e empatou em 3 a 3 em Madrid.

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A final, contra o Benfica-POR, foi disputada no estádio Wembley, lotado com mais de 90 mil pessoas. No mesmo palco do título mundial de 1966, Charlton se inspirou e abriu o placar no começo do segundo tempo. Minutos depois, Graça empatou para o Benfica e o jogo foi para a prorrogação. Nela, o Manchester usou todo o seu poderio ofensivo, não deixou o Benfica sequer respirar e marcou três gols em 10 minutos com Best, Kidd e outro de Bobby Charlton: Manchester United 4×1 Benfica. O resultado se manteve até o fim do jogo e a equipe inglesa comemorou o feito histórico: era a primeira vez que um time da Inglaterra levantava o mais cobiçado troféu da Europa. Era, também, a consagração definitiva de Best, Charlton, Crerand, Stiles e do técnico Matt Busby, que ganhou da Rainha Elizabeth II o título de Sir. Os Diabos Vermelhos estavam no topo do continente, posição que eles tanto mereciam naquele final de anos 50. A justiça, enfim, estava feita. Para a alegria de Charlton e dos fanáticos torcedores do United.

 

Seca de títulos e última Copa

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Após a conquista da Europa, o United de Charlton começou a cair de produção no futebol inglês e europeu e não conseguiu manter a hegemonia por muito tempo. Em 1968, os ingleses perderam a chance de conquistar o Mundial Interclubes após serem derrotados pelo Estudiantes-ARG de Juan Ramón Verón. A partir de 1969, a “Santíssima Trindade” do United (Best, Charlton e Law) deixou de ser santa por causa das seguidas lesões de Law, o crescente alcoolismo de Best e o excesso de responsabilidade depositado em Charlton, que tinha que carregar uma equipe já pouco criativa nas costas. Para piorar, o técnico Matt Busby deixou o comando da equipe em 1969 e o esquadrão de Old Trafford deixou de existir.

Mesmo sem perspectivas por seu clube, Charlton conseguiu disputar mais uma Copa do Mundo em 1970, no México, aos 32 anos. Jogando mais pela direita, o craque perdia um pouco a faceta ofensiva de antes, mas ainda era o principal responsável pelas ações de ataque do English Team, que era quase o mesmo de 1966. Na estreia, os ingleses derrotaram a Romênia por 1 a 0, num jogo morno e que teve apenas Charlton como o principal protagonista ao armar jogadas, marcar muito e chutando a gol em várias oportunidades. Na partida seguinte, um embate épico contra o Brasil, que venceu por apenas 1 a 0. Charlton se desgastou demais no jogo por correr quilômetros e quilômetros, senso substituído aos 19 minutos do segundo tempo. Mesmo com a derrota, os ingleses foram confiantes para a partida contra a Tchecoslováquia, e o otimismo se sacramentou com o triunfo por 1 a 0. Era hora das quartas de final. E de enfrentar novamente a Alemanha.

 

Derrota amarga

No duelo contra Beckenbauer em 1970, melhor para o alemão.
No duelo contra Beckenbauer em 1970, melhor para o alemão.

 

No duelo que reeditou a final da Copa de 1966, Inglaterra e Alemanha disputaram uma vaga na semifinal sob o forte calor da cidade de León. As táticas foram as mesmas de quatro anos atrás, Beckenbauer voltou a grudar em Charlton, bem como Charlton em Beckenbauer. No entanto, os ingleses foram mais rápidos no gatilho e abriram 2 a 0 com gols de Mullery e Peters. Foi então que os alemães começaram a construir uma virada histórica justamente dos pés de Beckenbauer, que abandonou Charlton, se mandou para o ataque e marcou o primeiro gol alemão aos 24´do segundo tempo. Um minuto depois, o técnico Ramsey sacou Charlton (cansado) e matou, literalmente, a Inglaterra. Sem sua principal estrela e com o fraco goleiro Peter Bonetti no lugar de Gordon Banks (ausente por conta de uma forte diarreia momentos antes do jogo), a Inglaterra permitiu o empate alemão e foi derrotada na prorrogação: 3 a 2. Era o fim do mundial para os ingleses e a vitória de Beckenbauer no duelo particular com Charlton por um simples fator: a idade. Beckenbauer ainda era jovem e estava em seu auge técnico e físico. Já Bobby Charlton superava a barreira dos 30 anos e sofria com o desgaste provocado pelo calor mexicano. Aquele foi o 106º e último jogo do craque com a camisa da Inglaterra. Era hora de dar espaço para novos jogadores. E de já pensar na aposentadoria.

 

Últimos anos, aposentadoria e Sir

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Ao término da temporada 1972-1973, Bobby Charlton encerrou sua brilhante e histórica passagem pelo Manchester United para assumir o cargo de jogador e treinador no Preston North End, onde ele ficou apenas até 1974, ano de sua aposentadoria do futebol aos 37 anos. A experiência como técnico não agradou a Bobby, que decidiu seguir no mundo esportivo ao criar academias de futebol para jovens, além de ser diretor do Manchester United, da FIFA e estar sempre presente nos trâmites burocráticos pelo bem do esporte na Inglaterra e no mundo. Em 1994, o craque foi nomeado Sir pela Rainha Elizabeth II, título mais do que merecido e que correspondia em gênero, número e grau à carreira exemplar do craque no United e na seleção inglesa.

E o Bobby virou Sir...
E o Bobby virou Sir…

 

Ídolo eterno

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Mesmo já aposentado por mais de quatro décadas, Bobby Charlton ainda ostenta números marcantes que não foram superados como o de maior artilheiro da história da seleção inglesa com 49 gols em 106 jogos e maior artilheiro da história do Manchester United com 249 gols em 758 jogos. Mítico, vencedor e dono de uma história de superação incrível, Bobby Charlton reside eternamente na memória dos amantes do futebol por seu futebol elegante, técnico, rápido, inteligente e limpo. É impossível não se entregar à arte e ao encanto vendo as jogadas daquele carequinha precoce que encantou a todos por anos, que transformava passes em pura poesia, gols nas mais atraentes obras primas e que apelidou para sempre sua casa futebolística, o estádio Old Trafford, de “O Teatro dos Sonhos”, talvez por ele ter proporcionado tantas noites bem dormidas aos torcedores do United, com peças eternas que só foram possíveis por intervenção divina. Vida longa ao Sir Bobby Charlton, o mais autêntico craque imortal.

 

Números de destaque:

É o maior artilheiro da história da Inglaterra com 49 gols marcados em 106 jogos.

É o maior artilheiro da história do Manchester United com 249 gols marcados em 758 jogos.

 

Extra:

Veja gols e imagens marcantes de Bobby Charlton.

 

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