Craque Imortal – Leônidas da Silva

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Nascimento: 06 de setembro de 1913, no Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Faleceu em 24 de janeiro de 2004, em Cotia, SP, Brasil.

Posição: Atacante

Clubes: São Cristóvão-BRA (1929), Sírio Libanês-BRA (1929), Sul América-BRA (1929-1930), Bonsucesso-BRA (1931-1932), Peñarol-URU (1933), Vasco da Gama-BRA (1934), SC Brasil-BRA (1935), Botafogo-BRA (1935-1936), Flamengo-BRA (1936-1941) e São Paulo-BRA (1942-1950).

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Carioca (1934) pelo Vasco.

1 Campeonato Carioca (1935) pelo Botafogo.

1 Campeonato Carioca (1939) pelo Flamengo.

5 Campeonatos Paulistas (1943, 1945, 1946, 1948 e 1949) pelo São Paulo.

Principais títulos individuais e artilharias:

Bola de Ouro da Copa do Mundo da FIFA: 1938

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA: 1938

Eleito o 28º Melhor Jogador do Século XX pela revista Placar: 1999

Eleito o 61º Melhor Jogador da História das Copas pela revista Placar: 2006

Eleito o 25º Melhor Jogador Sul-Americano do Século XX pela IFFHS

Artilheiro da Copa do Mundo da FIFA: 1938 (7 gols)

Artilheiro do Campeonato Carioca: 1940 (30 gols)

 

 “O Diamante de Borracha”

Da elasticidade em campo, das jogadas impossíveis, dos chutes improváveis e das matadas de bola incertas, ele ganhou o codinome “Homem de Borracha”. Da genialidade, do talento para marcar gols e do brilho para aperfeiçoar e consagrar uma jogada tão magnífica e bela como uma bicicleta, ele virou “Diamante Negro”, apelido da imponência de um craque e da doçura proporcionada por um chocolate mais que cinquentenário batizado graças a Leônidas da Silva, um dos maiores atacantes da história do futebol mundial e principal astro do futebol brasileiro antes de Pelé e depois de Friendenreich. Campeão estadual por três dos quatro grandes clubes do Rio e multicampeão paulista no grande São Paulo dos anos 40, Leônidas fez fama e sucesso não apenas por seus títulos e seu futebol de pura beleza dentro de campo, mas também fora dele, ao se tornar o primeiro jogador a virar sinônimo de propaganda e comercialização de produtos pelo Brasil, algo que se tornaria bem comum nas décadas seguintes. Primeiro artilheiro brasileiro em uma Copa do Mundo (em 1938, na França) e muito técnico, o atacante é presença certa em qualquer enciclopédia sobre futebol ou lista com os maiores craques do século XX. É hora de relembrar a carreira desse imortal.

 

Garoto requisitado

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Nascido em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, Leônidas teve que lidar desde cedo com uma marcação cerrada muito antes de pensar em jogar futebol. Felizmente, para ele, a marcação vinha dos pais, que queriam que o filho estudasse direito ou medicina ao invés de ficar chutando bola de meia ou capotão nas ruas do bairro onde morava (e quebrar muita vidraça por causa disso, incluindo de uma firma onde ele próprio trabalharia aos 14 anos). No entanto, Leônidas sempre gostou do futebol e conseguiu derrotar a preferência “rival” na base da persistência, deixando de lado os estudos ainda no ginásio para se dedicar apenas ao esporte. Muito rápido e sempre criando uma jogada para se desvencilhar dos adversários, o pequeno Leônidas passou a chamar atenção de todos e ser figura constante no São Cristóvão, clube onde seu pai, Mário Pinto de Sá, mantinha um bar. Por ser considerado um clube amador na época, o São Cristóvão não conseguiu manter o jovem talento por muito tempo e viu o garoto perambular por vários clubes de pequena expressão como Havanesa, Barroso (um clube de marinheiros!), Sul-América e Sírio Libanês. Já no começo da década de 30, o jovem aportou no Bonsucesso e lá teve espaço e oportunidade para mostrar, de fato, seu talento para um público maior. Era questão de tempo para o mulato invocado e cheio de gás mostrar seu valor.

 

Nasce a bicicleta

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Foi com a camisa do Bonsucesso que Leônidas mostrou ao público, na vitória por 5 a 2 sobre o Carioca pelo Campeonato Estadual de 1932, uma jogada que seria uma marca registrada em toda sua carreira: a bicicleta. Embora muitos aleguem que Leônidas foi o inventor da jogada, a bicicleta teve vestígios com o brasileiro Petronilho de Brito, ex-jogador do Sírio e do San Lorenzo-ARG, o chileno Ramón Unzaga, o argentino Luís Indaco, ex-Rosário Central, e até mesmo o italiano Carlo Parola, ex-Juventus. Porém, nenhum desses supostos “inventores” conseguiu popularizar e aperfeiçoar tão bem a genuína bicicleta quanto Leônidas. Ao contrário da concorrência, o craque executava a jogada com o corpo a mais de 1,5 metro do chão (mesmo com apenas 1,65m de altura) e na posição horizontal, algo que ninguém jamais havia feito naquele tempo. A maravilha de Leônidas ganharia fama internacional já em 1932, quando o Brasil enfrentou o Uruguai pela extinta Copa Rio Branco em pleno estádio Centenário, em Montevidéu. Quando o Brasil já vencia por 1 a 0 os campeões do mundo, Leônidas deu uma bicicleta para a direita, correu em direção à grande área e conseguiu marcar o segundo gol da seleção, que venceria a partida por 2 a 1. Os jornais celestes se maravilharam com o desempenho do craque brasileiro e o trataram com enorme veemência. O assombro de Leônidas no Uruguai foi tamanho que o Peñarol não perdeu tempo e contratou o craque já em 1933, depois de ele gastar a bola no Bonsucesso e conquistar o Campeonato Brasileiro de Seleções com uma grande atuação diante da seleção de São Paulo, que tinha Arthur Friendenreich como estrela. Com a camisa aurinegra, porém, Leônidas não brilhou por causa de seguidas lesões no joelho, mas jogou o bastante para ganhar o apelido de “Homem de Borracha” por conta de sua incrível elasticidade na hora de executar jogadas ou dominar a bola.

 

Primeiros títulos e seleção

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Em 1934, Leônidas deixou o Uruguai e assinou com o Vasco da Gama, onde conquistou seu primeiro grande título da carreira: o Campeonato Carioca. Leônidas reencontrou seu futebol com a camisa cruzmaltina, mas o período em São Januário foi bem curto por causa da Copa do Mundo da Itália. Mas o que o torneio teve a ver com a estadia do jogador no Vasco? É que na época a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) só aceitava jogadores amadores e não profissionais, uma rixa que durou muito tempo e só terminou em 1937. Sabendo da qualidade de Leônidas e querendo contar com o máximo de bons jogadores possíveis, a confederação fez questão de levar o craque para a Europa graças a um contrato exclusivo que fez com que o ele se desligasse do Vasco como profissional para se tornar apenas um jogador amador da seleção. Tanta bagunça e bu(r)rocracia culminaram com uma campanha pífia e risória do Brasil na Copa: um jogo, uma derrota (3 a 1 para a Espanha) e volta para casa. A única coisa boa para Leônidas naquele mundial foi ter marcado o gol de honra do Brasil – e um gol pra lá de honrado, afinal, foi em cima do mítico goleiro espanhol Zamora.

Adílson, Romeu, Leônidas, Perácio e Carrero, nomes da Seleção Brasileira dos anos 30.
Adílson, Romeu, Leônidas, Perácio e Carrero, nomes da Seleção Brasileira dos anos 30.

 

Após a Copa, Leônidas vestiu outra camisa preta e branca: a do Botafogo, que vinha de anos marcantes no futebol do Rio de Janeiro e do Brasil graças a uma geração de ouro do clube composta por Pedrosa, Martim, Canalli, Álvaro, Paulinho, Carvalho Leite, Nilo, Celso e Patesko (que o Imortais já relembrou aqui). Depois de faturar o tricampeonato estadual em 1932, 1933 e 1934, o Fogão levantou um histórico tetracampeonato em 1935 com 16 vitórias, quatro empates e duas derrotas, marcando 73 gols e sofrendo 42. Leônidas marcou nove gols e foi um dos destaques do time de General Severiano, sendo uma das referências no ataque ao lado do ídolo alvinegro Carvalho Leite.

Estrelas nada solitárias da história do Botafogo: Heleno de Freitas e Leônidas das Silva.
Estrelas nada solitárias da história do Botafogo: Heleno de Freitas e Leônidas da Silva.

 

Primeira grande fase

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O título estadual de 1935 não foi suficiente para segurar Leônidas no Botafogo e, já em 1936, o jogador se transferiu para o Flamengo como dono de seu próprio passe e após se desentender com a diretoria alvinegra, que supostamente não queria um jogador negro no time. Na Gávea, Leônidas se tornou uma estrela em definitivo e ajudou, ao lado de Domingos da Guia, Fausto dos Santos, Valido, Jarbas e Alfredo González a popularizar o Flamengo não só pelo Rio de Janeiro, mas também pelo Brasil. Com vários gols, jogadas maravilhosas e um temor constante para qualquer equipe adversária, o craque só não levou o rubro-negro aos títulos estaduais de 1936 até 1938 porque o Fluminense tinha um esquadrão fortíssimo comandado pela dupla Romeu e Tim (que ficou com o tricampeonato). No entanto, a festa tricolor estava com os dias contados – mais precisamente para depois da Copa do Mundo da França, em 1938, torneio que se transformaria no maior marco na carreira de Leônidas.

Zizinho, Leônidas e Jair da Rosa Pinto vestem a camisa da Seleção do Rio de Janeiro, em 1942. Gazeta Press
Zizinho, Leônidas e Jair da Rosa Pinto vestem a camisa da Seleção do Rio de Janeiro, em 1942. Gazeta Press

 

O Diamante Negro

Leônidas da Silva - 1938

Em sua segunda Copa, Leônidas viajou no auge da forma e com companheiros de muito mais talento que quatro anos antes. O Brasil estava bem melhor preparado e oferecia a Leônidas jogadores de ataque do mais alto calibre como Romeu, Perácio e Hércules. Na zaga, Domingos da Guia era o porto seguro para que o sistema ofensivo do time brasileiro não fizesse feio na estreia, contra a Polônia. Com um esquema de jogo totalmente para frente (no formato pirâmide, sem proteção alguma aos zagueiros) o Brasil protagonizou um jogo alucinante contra os europeus que terminou com vitória nacional por 6 a 5. Leônidas foi o grande nome do jogo ao marcar três gols e esbanjar agilidade e talento com a bola nos pés, o que lhe rendeu diversos elogios da imprensa francesa, que o descreveu como um jogador “cômico, travesso e produtivo”. Um dos gols de Leônidas naquele jogo foi também o seu tento mais lendário. Na prorrogação, o atacante saiu em velocidade com a bola dominada e viu a costura de sua chuteira direita estourar. Descalço, Leônidas encontrou força para chutar a pesadíssima bola da época e marcar um gol importantíssimo para o Brasil (o craque faria outro no finalzinho do primeiro tempo da prorrogação e asseguraria a vitória). No lance, o juiz sueco Ivan Eklind nem percebeu a ausência do acessório no pé do brasileiro por causa do barro que castigava o gramado e as pernas de todos os jogadores. O fato, segundo a revista parisiense Foot-ball, é que o juiz percebeu que Leônidas estava sem chuteira somente após o gol e pediu ao atacante para calçar uma nova em seguida.

Na França, Leônidas encantou o público local com sua habilidade em campo (e também seu charme de boleiro pra cima das francesas...).
Na França, Leônidas encantou o público local com sua habilidade em campo e abusou do seu “charme de boleiro” pra cima das francesas…

 

Na partida seguinte, Leônidas sofreu diante dos brutos tchecos, que não tiveram dó dos brasileiros e “desceram a porrada”, literalmente, em um jogo que ficou conhecido como a “Batalha de Bordeaux”. A partida terminou empatada em 1 a 1 (um gol de Leônidas) e uma nova data teve que ser marcada para definir o classificado (apenas dois dias depois). Em 14 de junho de 1938, na mesma cidade de Bordeaux, Leônidas não estava no melhor de sua forma física muito por causa das pancadas que levara no primeiro jogo contra os tchecos, mas mesmo assim ele foi a campo porque seu reserva imediato (Niginho) não podia jogar por questões legais. Mesmo com dores, Leônidas deixou sua marca e o Brasil venceu a Tchecoslováquia por 2 a 1, resultado que colocou a seleção na semifinal. Nela, porém, o craque não jogou (contundido) e fez falta: a Itália, que seria bicampeã do mundo, venceu por 2 a 1 e sepultou as chances de título do Brasil. O zagueiro italiano Foni declarou à época que a ausência de Leônidas “foi como um presente dos céus” para a Itália. E como foi.

Na disputa pelo terceiro lugar, contra a Suécia, o Brasil começou perdendo por 2 a 0, mas conseguiu uma virada épica graças, claro, ao talento e aos dois gols de Leônidas na vitória por 4 a 2. Com sete gols marcados em apenas quatro jogos, Leônidas se tornou o primeiro jogador brasileiro artilheiro de uma Copa do Mundo e se consagrou como um dos maiores jogadores do planeta na época, a ponto de fazer o jornalista francês Raymond Thourmagen, da revista Paris Match, reforçar a fama de “Homem de Borracha” do brasileiro e ainda criar a lenda do apelido Diamante Negro (que dizem ter nascido bem antes, em 1932, em terras uruguaias):

“Esse homem de borracha, na terra ou no ar, possui o dom diabólico de controlar a bola em qualquer lugar, desferindo chutes violentos quando menos se espera. Nessa posição de fera atingida, vi Leônidas executar uma série de tesouras com as pernas, aproveitando um centro e golpeando a bola de costas para o gol. Quando Leônidas faz um gol, pensa-se estar sonhando. Esfregam-se os olhos. Leônidas é a magia negra!”. – Raymond Thourmagen.

O sucesso na França foi a deixa para que Leônidas voltasse ao Brasil como jamais ele poderia imaginar: uma autêntica estrela.

 

Garoto-propaganda e tricampeão carioca

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A campanha do Brasil na Copa de 1938 fez com que os jogadores fossem recebidos com uma imensa festa na volta para casa. O grande astro da comitiva era Leônidas, que precisou ser conduzido em um veículo de transporte de soldados do Corpo de Fuzileiros Navais e protegido por dezenas de militares. Mesmo assim, a multidão não deixou o veículo se mover e os oficiais tiveram que dar um “jeitinho” nada amigável para abrir caminho diante de tanta gente. Inteligentíssima e se aproveitando da fama de Leônidas, a empresa Lacta decidiu rebatizar um de seus produtos mais vendidos – o chocolate ao leite com crocante – em agosto de 1938. Naquele mês, o tal “Chocolate ao Leite com Crocante Lacta” virou “Diamante Negro” e se tornou o mais vendido do país – posto que ainda ocupa até hoje. As vendas do produto ajudaram a alavancar ainda mais a carreira do craque, a popularizar o futebol e a mostrar que era possível para um jogador de futebol ter sucesso não apenas dentro de campo.

Mesmo não tendo ficado rico por causa do chocolate nem ter ganhado percentuais pela comercialização do produto, Leônidas não mostrou ressentimento e tratou de se concentrar em sua carreira pelo Flamengo, onde conquistaria o título do Campeonato Carioca de 1939 após seu time vencer 16 jogos, empatar quatro e perder apenas quatro. O Mengão anotou 67 gols (dez de Leônidas) e sofreu 34. Na temporada seguinte, Leônidas viu seu futebol melhorar ainda mais com a chegada do craque Zizinho e se tornou pela primeira (e única) vez artilheiro do Campeonato Carioca com 30 gols em 24 jogos.

 

Brigas e o bonde

Após o título de 1939 e a artilharia de 1940, Leônidas viveu seu último ano no Flamengo em meio a problemas com a diretoria que resultaram em graves consequências ao jogador. Com o menisco do joelho rompido e incapaz de atuar pelo rubro-negro em uma excursão internacional, o craque deixou a direção do clube ressabiada e em dúvida quanto à veracidade de suas palavras e de sua contusão. Por causa disso, Leônidas foi afastado e teve seu salário suspenso, afinal, sem Leônidas, a excursão do Flamengo por terras latinas seria um fiasco em termos de receitas (o craque era o grande centro financeiro da Gávea por causa de sua imagem). Como não poderia deixar de ser, Leônidas ficou extremamente irritado e foi à justiça exigir seus direitos. Foi então que Gustavo Adolpho de Carvalho, presidente rubro-negro à época, descobriu que Leônidas havia falsificado seu certificado de dispensa do serviço militar ainda na década de 30 (o fato é que ele havia comprado um certificado falso só para poder conseguir um emprego público em meados de 1935) e fez com que o jogador fosse preso por oito meses na prisão da Vila Militar, no Rio de Janeiro.

A chegada do "Bonde" em São Paulo: 10 mil pessoas celebram Leônidas.
A chegada do “Bonde” em São Paulo: 10 mil pessoas celebram Leônidas.

 

Em 1942, Leônidas deixou o Flamengo quando o São Paulo pagou 200 contos de réis pelo seu passe. A contratação do craque pelo tricolor paulista foi a mais cara da história do futebol brasileiro na época e muitos pensaram que era uma tremenda mentira pelo fato de o anúncio ter sido feito num dia 1º de abril. Nove dias depois, o “Bonde de 200 contos” (apelido que ele ganhou por causa do valor de sua contratação) chegou à Estação do Norte (atual estação do Brás), em São Paulo, e foi recebido por cerca de 10 mil pessoas que o levaram até o centro de treinamento do tricolor, no Centro, em profundo êxtase. A chegada do craque em solo paulista foi algo incrível na época pelo fato de se tratar do maior jogador brasileiro e a maior estrela do futebol nacional. Mesmo assim, muitos duvidavam que Leônidas, já com 29 anos, pudesse render alguma coisa no São Paulo. Pobres ingênuos…

 

Imortalidade, recordes e títulos

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A estreia de Leônidas da Silva pelo São Paulo aconteceu em 25 de maio de 1942, no Pacaembu, em um clássico contra o Corinthians. O entusiasmo do público para ver o astro foi tão grande que o charmoso estádio paulistano recebeu naquele dia o seu maior público da história: 71.280 pessoas. A partida terminou empatada em 3 a 3 e Leônidas não deixou sua marca, mas valeu pela intensidade do jogo e pela presença do craque em campo. Depois desse jogo, Leônidas superou a desconfiança de todos, parou de sofrer com o joelho e virou a estrela máxima do São Paulo até o final dos anos 40. Graças ao Diamante Negro, o tricolor deixou de ser apenas mais um clube no estado para virar uma força dentro dele e em todo Brasil. Na época, diziam que o tricolor só seria campeão e superaria os gigantes Corinthians e Palmeiras se uma moeda fosse arremessada para o alto e caísse em pé. Pois Leônidas, Rui, Bauer, Noronha, Sastre, Remo, Teixeirinha, Mauro, Friaça e muitos outros craques fizeram a moeda cair em pé cinco vezes naquela década. Com um esquadrão formidável e responsável pela emancipação de seu nome como um todo, o São Paulo foi campeão paulista em 1943, 1945, 1946 (invicto), 1948 e 1949 sempre com Leônidas marcando gols, dando passes para vários e contribuindo para o sucesso ofensivo do time.

No São Paulo, Leônidas fez uma grande parceria com o argentino Sastre (à esq.).
No São Paulo, Leônidas fez uma grande parceria com o argentino Sastre (à esq.).

 

Em novembro de 1948, o craque realizou a bicicleta mais famosa de sua carreira em uma partida contra o Juventus, no Pacaembu, quando o fotógrafo Alberto Sartini registrou o exato momento em que Leônidas assinava sua marca registrada em pleno ar, com toda sua classe e precisão. A foto se tornou uma das mais difundidas da história e sinônimo da jogada – e de Leônidas.

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.
A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

 

Prejudicado pela ausência das Copas de 1942 e 1946, Leônidas viu seu sonho de disputar mais um mundial ruir por causa da idade avançada no final dos anos 40 e por não ter um relacionamento bom com o técnico do Brasil, Flávio Costa, que não convocaria o craque para a Copa de 1950, no Brasil. Para a sorte do craque, ele não viveu na pele a dramática derrota para o Uruguai na decisão.

 

Aposentadoria, comentarista e o fim

Na TV e no rádio, Leônidas também deu show com brilhantes comentários. Foto: Michael Laurence.
Na TV e no rádio, Leônidas também deu show com brilhantes comentários. Foto: Michael Laurence.

 

Em 1950, aos 37 anos, Leônidas se aposentou do futebol em definitivo como o maior jogador brasileiro de todos os tempos até surgir, tempo depois, um certo Pelé. Fora dos gramados, o craque teve uma rápida experiência como técnico, trabalhou na Secretaria do Trabalho do Estado de São Paulo e se consagrou como um brilhante e inteligente comentarista esportivo no rádio e na TV (que lhe rendeu diversos prêmios), sua ocupação até 1974, quando teve de deixar de lado os microfones por causa das primeiras manifestações do mal de Alzheimer. Depois de quase 20 anos, o craque teve que ser internado em uma casa de repouso e por lá viveu durante 11 anos, até falecer em janeiro de 2004, aos 90 anos.

 

Diamante eterno

A estátua de Leônidas no museu do São Paulo.
A estátua de Leônidas no museu do São Paulo.

 

Com médias de gols notáveis, presença em grandes esquadrões do futebol brasileiro e ídolo por onde passou, Leônidas da Silva foi e é um patrimônio do esporte nacional por tudo o que fez dentro e fora de campo. Seu talento com a bola no pé serviu como inspiração para vários outros craques surgirem no Brasil e embelezou o futebol em tempos com pouca (ou quase nenhuma) ousadia e malícia. Suas jogadas elásticas, seu improviso e sua molecagem foram copiadas por vários mitos do futebol e poucos conseguiram (e conseguem) aplicar uma bicicleta com tanta perfeição. Lenda centenária e dono de uma carreira incontestável, Leônidas da Silva foi um craque único, lembrado na música, em estátuas, em livros, no chocolate e nas poesias cujas referências fossem a arte do futebol. Um craque imortal.

 

Números de destaque:

Disputou 149 jogos e marcou 153 gols pelo Flamengo.

Disputou 211 jogos e marcou 144 gols pelo São Paulo.

Disputou 37 jogos e marcou 37 gols pela Seleção Brasileira.

 

Extras:

Veja imagens raras da partida entre Brasil e Polônia na Copa do Mundo de 1938.

 

Os pés descalços

Veja um depoimento de Leônidas sobre o famoso gol descalço na Copa de 1938.

 

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