Técnico Imortal – Udo Lattek

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Nascimento: 16 de Janeiro de 1935, em Bosemb, na antiga Prússia Oriental, território alemão na época (hoje, uma região da Polônia).

Times que treinou: Bayern München-ALE (1970-1975 e 1983-1987), Borussia Mönchengladbach-ALE (1975-1979), Borussia Dortmund-ALE (1979-1981 e 2000), Barcelona-ESP (1981-1983), Köln-ALE (1991) e Schalke 04-ALE (1992-1993).

Principais títulos por clubes: 1 Liga dos Campeões da UEFA (1973-1974), 6 Campeonatos Alemães (1971-1972, 1972-1973, 1973-1974, 1984-1985, 1985-1986 e 1986-1987) e 3 Copas da Alemanha (1970-1971, 1983-1984 e 1985-1986) pelo Bayern München.

1 Copa da UEFA (1978-1979) e 2 Campeonatos Alemães (1975-1976 e 1976-1977) pelo Borussia Mönchengladbach.

1 Recopa da UEFA (1981-1982) pelo Barcelona.

Principal feito individual: foi o primeiro técnico da história a conquistar os maiores torneios organizados pela UEFA (Liga dos Campeões, Copa da UEFA e Recopa da UEFA). Além disso, conseguiu tal façanha por três clubes diferentes.

“Der größte Lehrer”

Como diz o título deste texto, ele foi o “grande professor” do futebol alemão. Nenhum outro venceu tantos títulos por clubes germânicos como ele e nenhum outro treinador daquela terra conseguiu vencer os três principais torneios organizados pela UEFA, muito menos por três clubes diferentes. Até Franz Beckenbauer, o maior jogador de toda a história da Alemanha, se rendeu aos talentos, às táticas e ao estilo clássico de ensinar futebol de Udo Lattek, um homem que nasceu para os esportes, que sempre teve o porte e o físico de atleta e que esbanjou inteligência durante três décadas. Um dos muitos adeptos do “Futebol Total”, Lattek montou um dos maiores esquadrões que a Alemanha – e o mundo – já viu: o Bayern München dos anos 70, aquele multicampeão europeu e que foi a base da Alemanha campeã da Copa de 1974 com Sepp Maier, Schwarzenbeck, Gerd Müller, Uli Hoeness e, claro, Beckenbauer. Alguns anos depois, Lattek comandou outro timaço: o Borussia Mönchengladbach de Vogts, Schäffer, Nielsen, Simonsen e Danner, único time capaz de bater de frente com o próprio Bayern naquele final de década. Campeão de quase tudo por essas duas equipes, o técnico ainda conseguiu títulos no Barcelona e foi o primeiro a ousar em dizer que as interferências externas prejudicavam o ambiente desportivo do clube naquele começo de anos 80. Perto do novo milênio, o Borussia Dortmund apelou para a sabedoria de Lattek para escapar do rebaixamento no Campeonato Alemão. Em apenas cinco jogos, Lattek livrou os aurinegros da queda e pôde, enfim, se aposentar. É hora de relembrar a carreira de um dos mais brilhantes mestres do futebol.

Vocação para o esporte. E para ensinar

Lattek (primeiro à esq.) e Helmut Schön (no meio), seu mentor no final dos anos 60.
Lattek (primeiro à esq.) e Helmut Schön (no meio).

 

Nascido na antiga região da Prússia Oriental, território alemão nos anos 30, Udo Lattek começou desde cedo a demonstrar enorme interesse e vocação para a prática esportiva. Em provas de atletismo, o jovem se sobressaía perante os colegas com uma velocidade estupenda e era capaz de correr 100 metros em menos de 11 segundos. Tanta rapidez lhe levou ao futebol, onde se tornou um atacante de chutes precisos, grandes investidas em direção à área e excelente impulsão nas jogadas aéreas. A vida de futebolista, no entanto, não foi lá tão promissora e Lattek só jogou por pequenos clubes do país como Marienheide, VfR Wipperfürth, VfL Osnabrück, e uma só passagem por um clube de destaque – o Bayer Leverkusen. Com o dinheiro que ganhava jogando futebol, Lattek pagava seus diversos estudos com foco na docência. Em Münster, Lattek estudou Matemática e Física entre 1955 e 1958. Em seguida, o jovem estudou e lecionou Educação Física no Engelbert-von-Berg-Gymnasium, em Wipperfürth, região oeste da Alemanha. Tanto estudo despertou no jovem o interesse em aplicar os conhecimentos adquiridos no futebol, e Lattek decidiu pendurar as chuteiras com apenas 30 anos, em 1965, para assumir as equipes juvenis da seleção da Alemanha e se tornar assistente técnico de Helmut Schön, treinador da equipe principal.

Em 1966, Lattek (segundo à esq.) vivenciou todo o clima de uma Copa do Mundo e levou a experiência para sua carreira de treinador.
Lattek (segundo à esq.) vivenciou todo o clima de uma Copa do Mundo e levou a experiência para sua carreira de treinador.

 

Em 1966, Schön levou Lattek e Dettmar Cramer, seu outro assistente, para a Copa do Mundo daquele ano com o intuito de mostrar aos jovens aprendizes as particularidades que envolviam o treinamento e a preparação de um grande time. Naquele Mundial, a Alemanha fez uma ótima campanha, passou por equipes como Espanha, Suíça, Uruguai e URSS e chegou até a final, perdida por 4 a 2 para a Inglaterra, dona da casa. Mesmo com o vice, a Alemanha saiu de cabeça erguida da Copa e com a certeza de que alguns daqueles jogadores – incluindo um jovem promissor chamado Franz Beckenbauer – poderiam levantar a taça no futuro.

O melhor dos convites

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Após a Copa de 1966, Lattek percebeu que não poderia tomar o lugar do mestre Schön e começou a ficar de plantão em busca de sua primeira oportunidade real em um clube. Foi então que, em 1970, Franz Beckenbauer perguntou ao novato técnico se ele não queria assumir o Bayern München, clube do “Kaiser” na época. Lattek não pestanejou e aceitou o desafio, que virou real em março daquele ano. A chegada do treinador foi cercada de desconfiança pelo fato de ele não ter nenhuma experiência em clubes e ter passado pouco tempo sob a sombra de Helmut Schön. Mas a indicação de Beckenbauer, bem como a fama de o Kaiser raramente errar no que fazia ou falava pesaram.

A base de jogadores que o Bayern ofereceu à Lattek era a melhor possível. O time contava, além de Beckenbauer, com Sepp Maier e Gerd Müller, que ganharam as companhias de Uli Hoeness e Paul Breitner naquele ano de 1970, ambos incorporados por Lattek. Aos poucos, Lattek foi mostrando aos seus comandados a importância do preparo físico para a prática do Futebol Total, no qual os jogadores não tinham posição fixa e percorriam todos os espaços do campo com dinamismo e muitas variações. Era o início de tempos prósperos na Baviera.

Os primeiros louros

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A primeira taça conquistada por Lattek no Bayern foi a Copa da Alemanha de 1970-1971, após uma vitória por 2 a 1 sobre o Köln. Na temporada seguinte, o time mostrou muita força ofensiva e faturou a Bundesliga com uma campanha irrepreensível: 24 vitórias, sete empates, três derrotas, 101 gols marcados e apenas 38 sofridos em 34 jogos. Logo no primeiro turno, a equipe de Lattek ficou 14 rodadas seguidas sem perder e venceu 11 dos últimos 12 jogos disputados no campeonato. O maior responsável pela quantidade de gols foi, claro, Gerd Müller, que marcou 40 vezes e se tornou o artilheiro da competição. Outro destaque da campanha foi a incrível goleada de 11 a 1 sobre o Borussia Dortmund, que seria a maior aplicada pelo clube em sua casa na história da Bundesliga. Foi naquela temporada, mais precisamente nos 5 a 1 sobre o Schalke 04, na última rodada, que o Bayern jogou pela primeira vez no recém-inaugurado estádio Olímpico de Munique, construído em 1972 para as Olimpíadas daquele ano (e, claro, para a Copa do Mundo que estava prestes a acontecer, em 1974).

O título nacional deu ao Bayern uma vaga na Liga dos Campeões de 1972-1973. A equipe caminhou fácil nas primeiras fases após eliminar Galatasaray-TUR (7 a 1 no agregado) e Omonia-CHP (13 a 0 no agregado). Porém, nas quartas de final, o time teria pela frente o esquadrão do Ajax-HOL, então bicampeão europeu. No primeiro jogo, em Amsterdã, goleada dos alvirrubros por 4 a 0. Os alemães ficaram atordoados naquela partida tamanha a superioridade de Cruyff, Neeskens, Rep, Krol e Haan. Na volta, a vitória do Bayern por apenas 2 a 1 não evitou a eliminação. O Ajax se sagrou tricampeão europeu naquela temporada e o sentimento dos bávaros foi de decepção mesmo com o consolo de ver Gerd Müller como artilheiro do torneio com 12 gols em apenas cinco jogos. Eles sabiam que eram ótimos, mas não esperavam que o Ajax fosse dar um vareio daqueles. A inexperiência em competições europeias talvez fosse uma explicação, mas Udo Lattek não deixou a derrota consumir seus jogadores. Com seus habituais discursos motivacionais e conversas amigas e francas com os atletas, o técnico levou confiança e ótimas vibrações para a temporada que estava por vir.

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Se na Europa o Bayern não conseguiu evitar o tricampeonato do Ajax, na Alemanha o time sobrou novamente e venceu o bicampeonato alemão em 1972-1973. O time fez uma nova campanha brilhante, com 25 vitórias e apenas cinco derrotas em 34 jogos, com 93 gols marcados e 29 sofridos. As grandes goleadas da vez foram: 7 a 2 no Hannover, 6 a 0 no Kaiserslautern e 5 a 0 no Schalke 04. Mais uma vez, classificação assegurada para a Liga dos Campeões.

A conquista da Europa

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Mantendo a base vencedora, o Bayern partiu com tudo em busca de seu primeiro título europeu. O time avançou no sufoco na primeira fase, nos pênaltis, ao bater o desconhecido Åtvidabergs, da Suécia. Na segunda fase, o time passou pelo Dynamo Dresden, da então Alemanha Oriental, depois de uma enxurrada de gols: 4 a 3 para o Bayern no primeiro jogo e empate em 3 a 3 no segundo. A surpresa ficou por conta do Ajax, que foi eliminado pelo CSKA Sofia, da Bulgária. Sem o titã holandês, o caminho alemão ficaria mais fácil. Nas quartas de final, o time respirou aliviado ao enfrentar o algoz do Ajax. Os alemães trataram de espantar a zebra e venceram o primeiro jogo, em casa, por 4 a 1, e perderam o segundo por apenas 2 a 1, o que garantiu a vaga nas semifinais. O adversário era outro desconhecido, o Újpest, da Hungria. O confronto foi mais fácil e o Bayern empatou o primeiro jogo em 1 a 1 e venceu o segundo por 3 a 0.

A final seria contra o Atlético de Madrid, da Espanha. O primeiro jogo terminou empatado em 1 a 1. Como não havia disputa por pênaltis, foi marcada uma nova partida. E foi nela que o Bayern mostrou toda a sua força e arrasou os espanhóis: 4 a 0, com dois gols de Müller e dois de Hoeness. Udo Lattek conquistava seu primeiro troféu europeu, bem como o primeiro do Bayern e de um clube alemão na história. Tempo depois, a equipe não aceitou disputar o Mundial Interclubes e cedeu sua vaga ao Atlético, vice-campeão.

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Ainda naquela temporada, Udo Lattek conduziu o Bayern ao tricampeonato alemão com 20 vitórias, nove empates, cinco derrotas, 95 gols marcados e 53 gols sofridos em 34 partidas. Os bávaros não perderam nenhum jogo em casa e ainda golearam o Hamburgo por 5 a 0 jogando fora de Munique. Gerd Müller foi mais uma vez artilheiro do torneio com 30 gols marcados, mas teve a companhia do atacante Jupp Heynches, do Borussia Mönchengladbach, também com 30.

No Bayern de 1974, Lattek apostava na força de seu quarteto ofensivo e na segurança plena de um sistema defensivo comandado por Beckenbauer.
No Bayern de 1974, Lattek apostava na força de seu quarteto ofensivo e na segurança plena do sistema defensivo comandado por Beckenbauer.

 

Mudança de ares

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O trabalho desenvolvido por Lattek em Munique foi amplamente elogiado pela mídia da época e pelos jogadores comandados pelo treinador, incluindo Beckenbauer, que disse certa vez:

“Lattek foi mais do que um golpe de sorte. Ele sabia exatamente o que necessitávamos e sempre tocava a tecla correta”.

Com praticamente uma taça conquistada por ano, Lattek parecia ter vida longa em Munique, mas deixou o comando da equipe em 1975, sem tempo de levantar o bicampeonato europeu que seria conquistado pelo Bayern. O substituto do técnico foi Dettmar Cramer, antigo companheiro de Lattek na seleção Alemã. O curioso é que Beckenbauer foi o responsável por levar Cramer à Munique após sugerir o técnico ao presidente do Bayern. Sem perder tempo, Lattek foi comandar o Borussia Mönchengladbach, segunda força do país na época e único capaz de bater de frente com o Bayern que o próprio técnico havia montado. Os alvinegros queriam manter a sina de chegada após a saída do ídolo Hennes Weisweiler, treinador da equipe entre 1964 e 1975 e responsável por três campeonatos nacionais, uma copa nacional e uma Copa da UEFA conquistados pelo Borussia. Com vários nomes de peso e craques em todas as posições do campo, Udo Lattek manteve a pegada competitiva da equipe e faturou logo de cara, na temporada 1975-1976, o Campeonato Alemão após 16 vitórias, 13 empates e apenas cinco derrotas em 34 jogos. O destaque foi a goleada de 4 a 1 sobre o Bayern, em casa, numa atuação memorável que teve um doce sabor de vingança para Lattek.

Vogts e Lattek com a taça da Bundesliga.
Vogts e Lattek com a taça da Bundesliga.

 

A Europa por um triz

Na temporada 1976-1977 o Borussia de Lattek atingiu o seu auge e por muito pouco não se tornou o maior time do planeta. Em casa, a equipe repetiu o feito do Bayern e foi tricampeã consecutiva do Campeonato Alemão com 17 vitórias, 10 empates e sete derrotas em 34 jogos, com 58 gols marcados e 34 sofridos. Simonsen e Heynckes se entrosavam cada vez mais e eram as estrelas maiores do ataque. Na Liga dos Campeões, a equipe fez sua melhor campanha na história. Eliminou na primeira fase o Austria Vienna-AUT com derrota no primeiro jogo por 1 a 0 e vitória em casa por 3 a 0 (gols de Stielike, Bonhof e Heynckes). Nas oitavas, vitória fora de casa sobre o Torino-ITA por 2 a 1 (gols de Vögts e Klinkhammer) e empate sem gols na Alemanha. Nas quartas de final, empate em casa contra o Brugge-BEL por 2 a 2 (gols de Kulik e Simonsen) e vitória apertada por 1 a 0 na Bélgica (gol de Hannes). Na semifinal, a equipe superou a derrota no primeiro jogo para o Dynamo Kyiv-URSS por 1 a 0 e venceu por 2 a 0 em casa (gols de Bonhof e Wittkamp), garantindo os alemães numa inédita final. O adversário, porém, não trazia boas recordações: era o Liverpool, algoz da derrota na Copa da UEFA de 1973.

Em Roma, na Itália, o Liverpool tinha a chance de conquistar seu segundo título continental seguido, somando a conquista da Copa da UEFA de 1976. O time entrava em campo já com o título de bicampeão da Inglaterra, conquistado em cima do Manchester City. Os Reds marcaram o primeiro gol logo aos 28´do primeiro tempo com Terry McDermott. No segundo tempo, empate do Borussia com Simonsen. Na sequência, Tommy Smith deixou os ingleses na frente e Phil Neal, de pênalti, marcou o gol do título do Liverpool. A cidade de Roma via o esquadrão vermelho conquistar pela primeira vez o título máximo do futebol europeu e igualar o feito do Manchester United. Já o Borussia perdia pela segunda vez uma final para os ingleses e a chance de coroar um trabalho magnífico com a maior taça da Europa. Uma boa notícia depois do revés foi a escolha do craque Allan Simonsen como o Melhor Jogador da Europa de 1977. Meses depois, o time disputou o Mundial Interclubes de 1977 contra o Boca Juniors-ARG graças à desistência do Liverpool, que “não encontrou datas disponíveis” para a realização das partidas. Os alemães acabaram derrotados pelos argentinos após empate em 2 a 2 na Argentina e derrota por 3 a 0 na Alemanha.

 

Máquina de gols

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Na temporada 1977-1978 o Borussia de Lattek não conquistou o tetracampeonato alemão por causa de três gols. Isso mesmo. O time terminou a competição com o mesmo número de pontos do Köln, mas ficou com o vice pelo fato de o rival de Colônia ter saldo maior em três gols. Isso porque o Borussia anotou 86 gols em 34 jogos (mesmo número do Köln), mas levou 44 (o Köln, 41). Uma curiosidade foi que as equipes chegaram à última rodada com o Borussia 10 gols atrás do Köln. Para reverter o resultado, apenas uma goleada homérica pra cima do Borussia Dortmund poderia dar chances de título ao Mönchengladbach. E não é que os comandados por Udo Lattek conseguiram a proeza de aplicar a maior goleada da história da Bundesliga? O jogo foi 12 a 0 para o Borussia em cima do rival de Dortmund! Mas o esforço foi em vão. No mesmo dia, o Köln fez 5 a 0 e ficou com a taça…

 

Nova glória continental

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Após o vice, o Borussia começou a perder sua intensidade e fez uma péssima campanha na Bundesliga de 1978-1979 (levando inclusive um chocolate de 7 a 1 do Bayern München em casa), ficando apenas na décima colocação. Jupp Heynckes, ídolo e um dos maiores artilheiros da década, se aposentou naquele ano. Porém, faltava o último canto do cisne, que aconteceu na Copa da UEFA. Depois de eliminar Sturm Graz-AUT, Benfica-POR, Slask Wroclaw-POL, Manchester City-ING e Duisburg-ALE, o time alcançou sua quarta final continental na década (e a terceira de Lattek). O adversário foi o Estrela Vermelha-IUG. No primeiro jogo, na Iugoslávia, empate em 1 a 1, com o gol alemão marcado por Jurisic, contra. Na volta, mais de 45 mil torcedores empurraram o Borussia rumo à vitória por 1 a 0, gol de pênalti marcado por Simonsen. O Borussia era bicampeão da Copa da UEFA e coroava definitivamente aquela geração como a melhor da história do clube. Já Lattek conquistava sua segunda taça continental e mostrava que não era famoso apenas por ter tido a honra de comandar um time repleto de talentos como o do Bayern do começo dos anos 70. Ele tinha, sim, uma qualidade formidável para conduzir times até os seus limites (que eram, quase sempre, levantando troféus).

Professor na Catalunha

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No final da temporada 1978-1979, Lattek deixou o comando do Mönchengladbach e assinou com outro Borussia, mas o de Dortmund. Por lá, não teve destaque nem a “mão-de-obra” qualificada para ganhar títulos e viajou até a Espanha para treinar seu primeiro (e único) clube estrangeiro da carreira: o Barcelona. Intelectual, Lattek fez questão de aprender o idioma local durante todo o verão de 1981 e deixou uma ótima impressão ao se apresentar falando um castelhano impecável para quem estava habituado a falar “nur die deutsche Sprache” (“apenas a língua alemã”). A recíproca do Barça também existiu naquela temporada e Lattek encontrou na Catalunha um elenco muito bom e que poderia dar ao treinador mais algumas taças. Migueli, Alexanco, Quini, o ótimo alemão Bernd Schuster e o companheiro dos tempos de Mönchengladbach, o dinamarquês Allan Simonsen, eram alguns dos atletas que brigariam por títulos não só na Espanha, mas também na Europa.

O “campeão total”

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No Campeonato Espanhol, Lattek manteve o Barcelona entre os primeiros da competição durante toda a temporada, mas faltou fôlego ao time na reta final e o título acabou ficando com a Real Sociedad de Pedro Uralde. O Barça ficou com o vice-campeonato e apenas dois pontos atrás dos campeões. Foram 19 vitórias, sete empates, oito derrotas, 75 gols marcados (melhor ataque) e 40 sofridos em 34 jogos. O atacante Quini foi o artilheiro da equipe e do torneio com 27 gols. Mas, se não teve taça em casa, o Barcelona foi buscar a glória fora dela. Na Recopa da UEFA de 1981-1982, a equipe passou pelo Botev Plovdiv-BUL, na primeira fase, com um 4 a 2 no placar agregado; eliminou o Dukla Praga-RCH, nas oitavas, com 4 a 1 no agregado, e passou pelo Lokomotive Leipzig, da Alemanha Oriental, com um novo 4 a 2 no placar geral (com destaque para a vitória por 3 a 0 fora de casa). Na semifinal, duelo complicado contra o Tottenham Hotspur-ING. No primeiro duelo, em Londres, empate em 1 a 1. Na volta, Simonsen marcou o único gol da vitória por 1 a 0 que colocou o Barça na decisão.

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Os espanhóis deram sorte em 1982 e disputaram a grande final da Recopa em casa, no Camp Nou, no dia 12 de maio. O adversário dos espanhóis foi o forte Standard Liège-BEL de Michel Preud´homme, Eric Gerets, Arie Haan e o técnico Raymond Goethals. Logo aos oito minutos, Vandersmissen abriu o placar para os belgas, mas Simonsen manteve a esperança espanhola com um gol nos acréscimos da primeira etapa. No segundo tempo, o time da casa voltou com tudo e entusiasmado após a motivação extra oferecida por Udo Lattek, especialista em inflar seus atletas em decisões. Aos 18´, Quini fez o gol da virada e do título histórico do Barcelona, que se tornou bicampeão da competição. Udo Lattek se tornou, naquele dia, o primeiro técnico a conquistar todos os principais torneios organizados pela UEFA e, acima de tudo, por três equipes diferentes. Uma história que começou com a Liga dos Campeões de 1974, com o Bayern, teve uma Copa da UEFA, em 1979, com o Mönchengladbach, e ganhava o ponto final no Camp Nou, em 1982, com a Recopa.

No Barça de 1982, Lattek voltava a apostar em um time forte pelas pontas e sóbrio na defesa.
No Barça de 1982, Lattek voltava a apostar em um time forte pelas pontas e sóbrio na defesa.

 

De volta pra casa

Na temporada 1982-1983, Lattek viveu momentos ruins no Barça. O treinador percebeu que não iria continuar por muito tempo no comando pelo fato de a diretoria catalã ter em mente a vinda do argentino César Luis Menotti para extrair o melhor de Diego Maradona, grande contratação da equipe naquele ano. Para piorar, o alemão causou irritação na diretoria catalã ao alertar sobre os problemas que o ambiente externo, a cobiça e a inveja traziam aos atletas e prejudicavam o rendimento do time em campo. Tais fatores fizeram com que Lattek deixasse os blaugranas em 1983. Tempo depois, a equipe retribuiu à distância o trabalho de seu antigo mestre conquistando o título da Copa do Rei (já sob o comando de Menotti).  Naquele mesmo ano, o alemão voltou ao Bayern München e já foi levantando uma taça: a Copa da Alemanha, vencida em um duelo cheio de nostalgia contra o Borussia Mönchengladbach do técnico Jupp Heynches, treinado pelo próprio Lattek nos anos 70. A decisão terminou empatada em 1 a 1 e o Bayern venceu nos pênaltis por 7 a 6.

Lattek e Matthäus: nova era de ouro no Bayern.
Lattek e Matthäus: nova era de ouro no Bayern.

 

Os Bávaros tinham mais uma vez um ótimo elenco, com Pfaff, Augenthaler, Dremmler, Karl-Heinz Rummenigge e Matthäus, nomes que conduziram o time a três campeonatos nacionais seguidos (1984-1985, 1985-1986 e 1986-1987) e outra Copa da Alemanha, em 1985-1986. A campanha do time no campeonato de 1986-1987 foi simplesmente fantástica: 20 vitórias, 13 empates e apenas uma derrota em 34 jogos, com 67 gols marcados e 31 sofridos. Os comandados de Lattek ficaram da 13ª rodada até a 34ª sem perder um jogo sequer, incluindo oito vitórias seguidas no período. A segunda passagem do treinador em Munique só não foi melhor por causa da derrota na final da Liga dos Campeões de 1987, diante do Porto-POR de Madjer, por 2 a 1.  O revés doeu pelo fato de o Bayern ser o favorito absoluto para ficar com o título após ter feito uma campanha mágica antes da decisão, que teve vitória por 2 a 0, fora de casa, sobre o forte PSV-HOL, goleada por 5 a 0 sobre o Anderlecht-BEL e triunfo por 4 a 1 sobre o Real Madrid-ESP de Butragueño, Santillana, Camacho, Sanchís e Míchel.

Idas, vindas e o último truque

Em 2000, no Borussia, Lattek livrou o clube aurinegro do rebaixamento para a alegria de Sammer (à esq.).
Sammer e Lattek: em 2000, no Borussia, Lattek livrou o clube aurinegro do rebaixamento.

 

Após a dolorosa derrota continental, Lattek decidiu se retirar do futebol e permaneceu ausente dos holofotes por alguns anos até a paixão futebolística voltar a falar mais alto e levá-lo a uma rápida passagem pelo Köln, onde teve mais trabalhos gerenciais do que à beira do gramado. Em 1992, o treinador comandou o Schalke 04 durante algumas partidas e voltou a se aposentar. Até o final da década, Lattek trabalhou como comentarista de TV e colunista de veículos impressos, entre eles a prestigiada revista “Kicker”. Mas um novo desafio ainda restava para que Lattek desse adeus definitivamente às pranchetas e concentrações.

Na temporada de 1999-2000, o Borussia Dortmund fez uma tentadora proposta financeira ao técnico para que ele conseguisse livrar o time do rebaixamento na Bundesliga. Restavam apenas cinco rodadas para o fim e os aurinegros estavam prestes a cair três anos depois de conquistarem a Europa e o Mundo. Lattek, já com 65 anos, aceitou a tarefa e mostrou que tinha mesmo estrela. Em cinco jogos, o Borussia venceu dois, empatou outros dois e perdeu apenas um (para o campeão Bayern), retrospecto que manteve o time na primeira divisão. O canto do cisne de Lattek foi na última rodada, contra o Hertha Berlim, fora de casa, diante de 75 mil torcedores. Os aurinegros venceram por acachapantes 3 a 0 (dois gols de Barbarez e um de Dedê) e silenciaram a capital alemã. Após aquele jogo, Lattek pôde, enfim, descansar. Perto dos 80 anos, o alemão vive atualmente em Colônia, na Alemanha, e tenta vencer o Mal de Parkinson que o atinge há algum tempo.

Lendário e multicampeão

Primeiro campeão maiúsculo do futebol europeu e responsável por montar o Bayern do começo dos anos 70, considerado um dos maiores esquadrões de todos os tempos, Udo Lattek deixou para os amantes do futebol uma história rica em títulos, grandes façanhas e o brilho de ser profissional ao extremo. Mesmo cercado de estrelas por vários dos clubes que passou, Lattek conseguiu coibir possíveis estrelismos e formou times unidos, dinâmicos e que jogavam sempre para frente, sem retrancas ou medo de perder. Foi tudo isso que tornou o alemão o primeiro técnico a vencer todas as copas organizadas pela UEFA, uma façanha que só foi igualada pelo italiano Giovanni Trapattoni, que faturou as mesmas taças com a Juventus. Mas Lattek ainda leva vantagem por ter vencido os troféus por três clubes diferentes. Coisa de professor. E de imortal.

Leia mais sobre o Bayern dos anos 70 e o Borussia Mönchengladbach no Imortais! Basta clicar nos links abaixo.

Bayern anos 70

Borussia Mönchengladbach anos 70

 

Extras:

Veja o baile do Bayern sobre o Atlético de Madrid na final da Liga dos Campeões de 1974.

 

Veja os gols da final da Recopa de 1982 entre Barcelona e Standard Liège.

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