Esquadrão Imortal – Corinthians 1950-1954

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Grandes feitos: Tricampeão do Torneio Rio-SP (1950, 1953 e 1954), Tricampeão do Campeonato Paulista (1951, 1952 e 1954) e Campeão da Pequena Taça do Mundo (1953).

Time base: Gylmar (Cabeção / Bino); Homero (Murilo) e Olavo (Belfare / Alan); Idário, Goiano (Touguinha) e Roberto Belangero (Julião); Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael (Nelsinho / Carbone) e Simão (Mário). Técnicos: Newton Senra (1950-1951), Rato (1951-1954) e Oswaldo Brandão (1954).

“Timão de Ouro. E dos gols.”

Imagine os dois maiores artilheiros da história de um clube jogando juntos. Imagine, também, o maior goleiro da história do Brasil pegando tudo e mais um pouco neste mesmo time. Some a isso uma zaga eficiente, bons técnicos no comando e jogadores nascidos no Corinthians, fiéis ao Corinthians, vindos do povo e a cara do povo. Pronto. Eis um dos mais emblemáticos e vencedores esquadrões que o clube do Parque São Jorge conseguiu formar e que encantou não só o estado de São Paulo, mas também o Brasil e diversos públicos do mundo. Dono de uma incrível e prolífica linha ofensiva, o Timão dos anos 50 faturou títulos inesquecíveis, levantou o mais almejado Campeonato Paulista de todos os tempos (o do IV centenário da cidade de São Paulo, em 1954) e ainda teve craques da mais alta estirpe como Gylmar dos Santos Neves, Roberto Belangero, Luizinho, Baltazar e Cláudio. Multigoleador e capaz de fazer frente (e vencer) times como o lendário Barcelona-ESP, de Ladislao Kubala, o Corinthians do começo dos anos 50 ajudou como nunca a projetar o nome do clube para um público muito maior e, acima de tudo, emancipou a condição de equipe mais popular do estado. É hora de relembrar.

Para acabar com o jejum

Luizinho: habilidoso meia chegou no final dos anos 40 para reforçar o setor ofensivo do Timão.
Luizinho: habilidoso meia chegou no final dos anos 40 para reforçar o setor ofensivo do Timão.

 

Depois de começar os anos 40 com o pé direito, levantar o título do Campeonato Paulista de 1941 e se sentir em casa no recém-inaugurado estádio do Pacaembu, o Corinthians teve que engolir em seco a ascensão de um novato e abusado time da capital: o São Paulo, que quebrou todos os prognósticos que sempre apontavam o Timão ou o Palmeiras como provável campeão e conquistou cinco títulos estaduais graças ao talento de craques como Rui, Bauer, Noronha e o lendário Leônidas da Silva. A fim de voltar aos tempos de soberania, o alvinegro tratou de ir às compras no final da década e trouxe jogadores que se tornariam futuros ídolos do clube: Cabeção, Idário e Roberto Belangero, além de Luizinho, cria das bases e apelidado de “Pequeno Polegar” por causa da baixa estatura (1,64m), mas com notável habilidade para driblar, lançar e marcar gols como elemento surpresa no ataque.

Não demorou muito para que o meia se entendesse com Baltazar e Cláudio, já consolidados no time titular e responsáveis pelas principais ações ofensivas do time. Em 1950, o trio comandou o Timão no Torneio Rio-SP (que teve início em 1949, com derrota por 6 a 2 para o Flamengo, fora de casa, e vitória por 4 a 1, em casa, sobre o São Paulo), que era visto como fundamental para encerrar de vez o jejum de taças e ajudar a trazer bons fluídos para a década que estava prestes a começar. Logo na estreia, a equipe alvinegra venceu o rival Palmeiras, por 3 a 2, com os gols marcados exatamente pelo trio Luizinho, Baltazar e Cláudio. Na sequência, a equipe encarou o forte Vasco, base da Seleção Brasileira que disputaria a Copa do Mundo daquele ano, e venceu por 2 a 1, de virada, no Pacaembu. Nos três jogos seguintes, a equipe bateu o Fluminense, no Rio, por 3 a 1, venceu a Portuguesa, em casa, por 5 a 3, e empatou com o Botafogo, em 1 a 1, resultado que deu o inédito título ao Corinthians, que marcou 20 gols em apenas sete jogos. Era a taça que tanto o clube precisava para retomar o prestígio perdido e mostrar que os tempos, agora, eram outros: de glórias. E gols.

Lapidando ouro e ligeira crise

Gylmar chegou em 1951, mas só foi se firmar na equipe titular em 1952.
Gylmar chegou em 1951, mas só foi se firmar na equipe titular em 1952.

 

Depois do fim do jejum, em 1950, o Corinthians começou a lapidar seu esquadrão de uma forma única e capaz de unir tudo o que seu torcedor gostava. Com a entrada de José Castelli, o Rato, como técnico do time, o Timão foi ficando conhecido pela força física, pela entrega de seus jogadores e pela raça, mas sem deixar de lado a notável técnica e lances vistosos de jogadores como Roberto Belangero, Luizinho e Cláudio, que contrastavam com os raçudos Idário, Julião e Goiano. Para reforçar ainda mais um time que já era bom, a diretoria alvinegra trouxe um novato e promissor goleiro chamado Gylmar, que havia se destacado no Jabaquara e chegou como contrapeso em uma negociação envolvendo o meio-campista Ciciá, também do Jabaquara. A vinda de Gylmar foi uma artimanha da diretoria para pressionar os goleiros do elenco, Cabeção e Bino, que ainda não haviam renovado seus contratos. A chegada de um terceiro nome obrigaria a dupla a aceitar o quanto antes as propostas dos mandatários corintianos e a não fazer manha para polpudos aumentos salariais.

Com um elenco mais forte e pronto, o Corinthians foi com tudo em busca do título estadual de 1951 e começou muito bem ao engatilhar cinco vitórias seguidas: 3 a 2 no Nacional, 3 a 1 na Ponte Preta, 5 a 2 no XV de Piracicaba, 9 a 2 no Comercial e 1 a 0 no Radium. Na sexta rodada, a equipe empatou em 3 a 3 com a Portuguesa, mas voltou a brilhar nas rodadas seguintes com mais sete vitórias seguidas: 7 a 1 no Jabaquara, 3 a 0 no Juventus, 4 a 0 no São Paulo, 4 a 0 na Portuguesa Santista, 4 a 1 no Santos, 4 a 0 no Guarani e 3 a 2 no Ypiranga. Só na 14ª rodada que a equipe conheceu a primeira derrota, por 3 a 2, para o rival Palmeiras. Depois de mais cinco vitórias seguidas, uma turbulenta derrota por 7 a 3 estremeceu o ambiente do clube e toda a culpa caiu nos ombros (e nas mãos) do goleiro Gylmar, titular no fatídico jogo e acusado de ter amolecido a partida para a Lusa. Diante de muita pressão, o técnico Rato não teve escolha e afastou o jovem camisa 1 do time. A punição foi tão grande que nem entrar no clube Gylmar podia. O mítico goleiro só voltaria à meta corintiana seis meses depois.

O ataque dos 103 gols

A mítica linha de ataque do Corinthians de 1951: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário.
A mítica linha de ataque do Corinthians de 1951: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário.

 

Muitos pensaram que o revés para a Portuguesa poderia abalar os ânimos corintianos e influenciar no rendimento do time justamente na reta final do campeonato de 1951. No entanto, a equipe mostrou muita superação e não perdeu mais dali em diante. Contra o Jabaquara, logo após a partida contra a Lusa, o Timão venceu por 4 a 2, emendou uma goleada de 7 a 2 sobre o Juventus e mais outra, dessa vez por 4 a 1, sobre o São Paulo. Depois de empatar em 1 a 1 com a Portuguesa Santista e vencer o Santos, por 4 a 2, a equipe do Parque São Jorge enfrentou o Guarani precisando apenas de uma vitória para ficar com o título depois de 10 anos. E foi isso mesmo que aconteceu. Irresistível, o Timão fez 4 a 0 e faturou, com duas rodadas de antecedência, o caneco estadual.

Carbone, o artilheiro do Paulistão de 1951 com 30 gols.
Carbone, o artilheiro do Paulistão de 1951 com 30 gols.

 

Para encerrar a campanha com chave de ouro, os alvinegros ainda venceram o Ypiranga, por 3 a 0, e o rival Palmeiras, por 3 a 1. Foram 28 jogos, 24 vitórias, dois empates e apenas duas derrotas, com incríveis 103 gols marcados e 38 sofridos, uma das melhores campanhas do clube na história da competição. Carbone, um dos destaques do ataque corintiano, foi o artilheiro do torneio com 30 gols.

Superando fronteiras

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No primeiro semestre de 1952, o Corinthians realizou pela primeira vez em sua história uma excursão internacional. Em terras europeias, os campeões paulistas queriam fazer bonito e mostrar que tinham força e talento não só contra rivais domésticos, mas também contra os grandalhões de além mar. A excursão marcou a volta do goleiro Gylmar, que cravou de vez seu espaço no time com atuações memoráveis ao aproveitar as ausências de Cabeção (machucado) e Bino (havia deixado o clube). O Corinthians disputou 16 jogos em países como Turquia, Dinamarca, Suécia e Finlândia, venceu 12, empatou três e perdeu apenas um.

De volta ao Brasil, o Timão conquistou a posse definitiva da antiga Taça Cidade de São Paulo, pequeno torneio que reunia os principais times da capital numa espécie de preliminar do Campeonato Paulista. O alvinegro levantou o troféu depois de golear o Palmeiras por 5 a 1, com quatro gols de Carbone e um de Cláudio. Foi a maior goleada do Corinthians sobre o rival em toda a história. Não bastasse o chocolate, o triunfo ficou marcado, também, pela “sentada” na bola do abusado Luizinho diante do meio-campista palmeirense Luis Villa. Com a vitória já consolidada, o meia corintiano teria sentado na bola para provocar o rival e tirá-lo do sério. Muitos dizem que o lance não passa de lenda, mas a massa corintiana adora lembrar o fato como uma deliciosa verdade. Após aquele clássico, disputado em agosto de 1952, o Palmeiras só voltaria a vencer o Corinthians exatos dois anos depois, em agosto de 1954.

 

Bicampeões

Cláudio, o "Gerente", e Belangero, o "Professor" do meio de campo.
Cláudio, o “Gerente”, e Belangero, o “Professor” do meio de campo.

 

Com Gylmar no gol, total entrosamento no elenco e o ataque cada vez mais afiado, o Corinthians começou o Paulistão de 1952 como franco favorito. E, como não poderia deixar de ser, a equipe fez bonito e não tomou conhecimento dos rivais. Nos clássicos, o time não perdeu e deu alegrias inesquecíveis aos torcedores realizando partidas memoráveis. No primeiro turno, vitória sobre o Santos, por 3 a 2, sobre o Palmeiras, por 2 a 1, e sobre o São Paulo, por 2 a 1. No returno, goleada sobre o Santos, por 4 a 1, e uma vitória épica sobre o Palmeiras, por 6 a 4, com três gols de Cláudio, dois de Baltazar e um de Carbone. Outra vitória marcante, pelo menos para um jogador em especial, foi o triunfo por 6 a 0 sobre o XV de Jaú, no qual o artilheiro Baltazar anotou cinco gols, feito raro para um atacante no Corinthians. Ao término da competição, o esquadrão alvinegro não deixou dúvidas sobre sua soberania no estado: 30 jogos, 25 vitórias, dois empates, três derrotas, 89 gols marcados e 33 sofridos. Baltazar foi o artilheiro do campeonato e do time com 27 gols.

O melhor do Brasil faz bonito lá fora

Entre abril e maio de 1953, o Corinthians retomou o trono no Torneio Rio-SP e faturou o bicampeonato da competição. Depois de vencer o Botafogo (1 a 0), perder para o São Paulo (3 a 1) e empatar com o Fluminense (3 a 3), a equipe embalou e venceu o Flamengo por acapachantes 6 a 0, derrotou o Santos, por 3 a 1, o Bangu, por 3 a 2, a Portuguesa, por 2 a 0, e empatou em 3 a 3 com o Palmeiras. Na última rodada, nem o revés para o Vasco (1 a 0) impediu a equipe alvinegra de celebrar o título com cinco vitórias, dois empates e duas derrotas em nove jogos, com 22 gols marcados e 13 sofridos.

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A conquista do Rio-SP deu ao Timão uma vaga no antigo Torneio Internacional de Clubes, conhecido na época como Pequena Taça do Mundo, realizado entre julho e agosto de 1953, em Caracas, na Venezuela. Além do Corinthians, participaram Roma-ITA, Seleção de Caracas-VEN e o Barcelona-ESP, que tinha grandes jogadores como Ramallets, Segarra, César, Basora e o lendário Ladislao Kubala, um dos maiores ídolos de toda a história blaugrana. Com muita moral, o esquadrão alvinegro fez bonito e não teve medo algum de encarar os rivais estrangeiros. Na estreia, vitória por 1 a 0 sobre a Roma. Em seguida, vitória por 3 a 2 sobre o Barcelona (dois gols de Luizinho e um de Goiano), e triunfo por 2 a 1 sobre a Seleção de Caracas. Na sequência, o time alvinegro voltou a bater o Barcelona, dessa vez por 1 a 0 (gol de Goiano), fez 2 a 0 sobre Caracas, e 3 a 1 sobre a Roma. Foram seis vitórias em seis jogos, com 12 gols marcados e cinco sofridos. Na volta ao Brasil, os jogadores foram recebidos com muita festa e o reconhecimento de todos pelo belíssimo futebol demonstrado em terras internacionais. Entre 1952 e 1954, o Timão ficou 32 partidas invicto contra equipes estrangeiras. Um feito notável.

Aperitivo para o banquete

Em 1954, o Corinthians voltou a conquistar o título do Torneio Rio-SP, dessa vez com sete vitórias e duas derrotas em nove jogos, 17 gols marcados e 11 sofridos. Com o “gerente” Cláudio sempre impecável nas bolas paradas, cruzamentos e gols providenciais, Baltazar e suas cabeçadas fulminantes, Luizinho com seus dribles impetuosos, Roberto simplesmente impecável tanto no meio de campo quanto na zaga e Gylmar cada vez mais milagreiro no gol, o Timão era puro talento e parecia não ter rivais nem em São Paulo nem em outros estados. Mas tudo aquilo só teria uma representatividade ainda maior e, de fato, imortal, se o time conquistasse o título do Campeonato Paulista daquele ano. Mas por que tanta importância para um torneio estadual? Simples. Em 1954, a cidade de São Paulo comemorava seu quarto centenário e o aniversário dava à competição ares históricos e despertava cobiça em todos os clubes. Vencer aquela edição do torneio era algo eterno e que só seria repetido cem anos depois. Para vencer um campeonato tão importante, o presidente Alfredo Trindade foi buscar o técnico Oswaldo Brandão, que vinha de um trabalho excepcional na Portuguesa, uma das poucas equipes a conseguir bater de frente com o Corinthians daquela primeira metade de anos 50. Brandão assumiu o time na última rodada do Torneio Rio-SP, conquistado pelo Timão, e mostrou o pé quente que diretoria e torcida tanto queriam com o triunfo por 1 a 0 sobre o Palmeiras.

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O Campeonato Paulista de 1954 começou tarde, em meados de agosto, e só terminaria em fevereiro de 1955. Ao longo do torneio, os quatro grandes do estado se revezaram na liderança e deram à competição muito equilíbrio e disputa. No primeiro turno, o Timão tropeçou pouco (foram três empates e apenas uma derrota, para o Santos, por 2 a 0), e venceu os clássicos contra Portuguesa (1 a 0), Palmeiras (3 a 2, com dois gols de Luizinho e um de Baltazar) e São Paulo (2 a 1). No returno, a equipe não perdeu mais e foi afunilando a disputa pelo título, que ficou restrito apenas ao time alvinegro e ao Palmeiras. Na antepenúltima rodada, o revés para o Santos, por 4 a 1, ligou o alerta nos alvinegros, que teriam na penúltima rodada um duelo decisivo contra o Palmeiras, que havia vencido a Portuguesa e mantinha, também, chances reais de título. Bastava um empate para o Corinthians ser campeão. Mas uma derrota poderia pôr em risco todo o trabalho e foco no valioso torneio.

Campeões por um século inteiro

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No dia 06 de fevereiro de 1955, o Corinthians entrou em campo para encarar o seu maior rival e levou um susto quando viu o Palmeiras pisar o gramado do Pacaembu de camisa azul. A mudança na vestimenta foi ordem de um pai de santo consultado pelo clube nas vésperas do jogo, que teria dito que a cor “daria sorte”. Mas um Palmeiras sem verde era como Popeye sem espinafre. Sabendo disso, o Corinthians começou tinindo e abriu o placar logo aos 10 minutos, com um gol de cabeça marcado por Luizinho, que superou Valdemar Fiúme e o goleiro Laércio no lance com muita velocidade e astúcia. O Palmeiras tentou a todo custo o empate, mas Gylmar foi simplesmente impecável e fez defesas sensacionais. Os opacos azuis ainda empataram, com Nei, mas o Corinthians se segurou, soube administrar a vantagem e o resultado em 1 a 1 deu ao time alvinegro o sonhado e único título do IV Centenário, o mais emblemático Campeonato Paulista da história. Em 26 jogos, o Corinthians venceu 18, empatou seis e perdeu apenas dois, com 55 gols marcados e 25 sofridos. Luizinho, herói do título, foi o artilheiro da equipe com 14 gols e consagrou-se como um dos mais talentosos e importantes meias do clube em todos os tempos. O jogo das faixas foi na última rodada, com uma vitória por 3 a 1 sobre o São Paulo. O técnico Oswaldo Brandão, em entrevista à revista Placar, fez questão de enaltecer seus jogadores e aquela conquista:

“O Corinthians de 1954 era um timaço, com jogadores de categoria, unidos, que jogavam para ganhar. E ganhavam mesmo.”Oswaldo Brandão, em entrevista à revista Placar, em 1973.

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A conquista rendeu ao Timão até um samba composto por Alfredo Borba e interpretado por Orlando Ribeiro:

Corinthians, Corinthians…

Falou bem alto a tradição

Corinthians, Corinthians…

Por 100 anos serás o campeão…

Corinthians!

Sempre leal ao adversário…

Ostenta com orgulho a faixa de campeão

Do IV Centenário

 

Nasceste sob a luz de um lampião

Pra ser o rei do nosso esporte bretão

Tens em São Jorge o seu padroeiro,

És do Brasil o time mais brasileiro”

 

O Timão de 1954: velocidade, talento e experiência foram algumas das qualidades de um time para a história.
O Timão de 1954: velocidade, talento e experiência foram algumas das qualidades de um time para a história.

 

O “carma” da conquista e o fim

A taça de 1954: outro troféu só em 1977.
A taça de 1954: outro troféu só em 1977.

 

Curiosamente, o título estadual de 1954 foi o último grande troféu do Corinthians naquela década. E por um longo tempo. Vencer o Campeonato Paulista do IV Centenário custou ao Timão um angustiante jejum de 23 anos sem títulos que só terminaria no ano de 1977, com a conquista do Campeonato Paulista daquele ano graças a um gol “espírita” de Basílio. Durante esse tempo de vacas magras, a equipe viu os rivais crescerem, mas teve o reconhecimento de sua fama popular ao vencer, em 1955, um concurso promovido pelas Organizações Victor Costa (que viria a se tornar a Rede Globo) como o clube de futebol mais querido do Brasil, com 471.450 votos, a frente do Flamengo (155.300), do São Paulo (150.150) e do Palmeiras (61.500).

Os títulos conquistados pelo Timão do começo dos anos 50 podem soar como pequenos se comparados aos torneios nacionais e continentais dos dias atuais, mas o peso daquelas taças na época era tão grande quanto um Campeonato Brasileiro ou uma Copa do Brasil, por exemplo. Mais do que isso, aquele Corinthians entrou para a história pelo futebol “corintiano” aliado aos toques de classe, pela fibra de seus jogadores em parceria com a técnica apurada em lançamentos, chutes e jogadas trabalhadas, e a vitórias marcantes sobre o rival Palmeiras. Por tudo isso, pelas taças, pela fama internacional, pelo título do IV Centenário e por ter em seu elenco craques como Gylmar, Roberto, Luizinho, Cláudio e Baltazar, aquele Corinthians é, para o todo e sempre, um esquadrão de ouro. E imortal.

Os personagens:

Gylmar: o maior goleiro da história do futebol brasileiro despontou para a fama e o sucesso exatamente no Corinthians daquele começo de anos 50. Depois de superar um péssimo início, o goleiro fechou a meta alvinegra, fez partidas exuberantes e virou ídolo no clube, na Seleção Brasileira e, mais tarde, no Santos de Pelé. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Cabeção: foi um dos principais goleiros do Brasil nos anos 50, mas deu azar ao ter em seu encalço justamente o fora de série Gylmar, no Corinthians, e Castilho, na Seleção. Quando foi titular, deu conta do recado com muita segurança e bom posicionamento. Integrou a Seleção Brasileira na Copa de 1954.

Bino: era um dos goleiros do Corinthians naquele começo de anos 50 e foi titular na conquista do Torneio Rio-SP de 1950. Arrojado, rápido e sempre trajando uniforme preto, ganhou o apelido de “Gato Preto”. O apelido “Bino” escondia um nome bem peculiar do goleirão: Setembrino (!).

Homero: zagueiro de muita técnica, personalidade e ótima colocação, formou a zaga titular do esquadrão campeão do IV Centenário e esteve presente nos títulos estaduais de 1951, 1952 e nos Torneios Rio-SP de 1953 e 1954. Disputou mais de 230 partidas com a camisa do Timão.

Murilo: zagueiro clássico, ficou amplamente conhecido pela lealdade em campo e por jamais se expulso em seus tempos de Corinthians, entre 1950 e 1954. Somando seus tempos de Atlético-MG, o zagueiro ficou 13 anos sem levar um cartão vermelho sequer.

Olavo: jogando na zaga ou na lateral-esquerda, Olavo foi um dos mais importantes jogadores do Corinthians nos anos 50. Eficiente, ótimo na marcação e seguro nos desarmes, chegou ao clube em 1952 e virou até capitão do time, em 1958, após a saída de Cláudio. Disputou 506 jogos com a camisa alvinegra (é o 8º na lista dos recordistas em jogos pelo clube) e marcou 17 gols.

Belfare: outro bom zagueiro do Corinthians, Belfare chegou ao clube em 1947 e se notabilizou pelas tiradas de bola com meias-bicicletas, jogando o corpo para trás. Jogou no Timão até 1952.

Alan: era reserva de Olavo, mas ganhou a posição na reta final do Paulistão de 1954 e manteve a eficiência da zaga do Timão ao lado de Homero. Disputou mais de 140 jogos com a camisa alvinegra.

Idário: é o décimo na lista dos jogadores com mais jogos pelo Corinthians com 468 partidas disputadas entre 1949 e 1959. Ficou conhecido como o “Deus da Raça” pela entrega em campo e por brecar os pontas-esquerdas adversários de todas as maneiras possíveis (todas mesmo!). Tornou-se um dos mais queridos da torcida e sinônimo de amor à camisa.

Goiano: outro jogador de muita entrega e que mora até hoje no coração da torcida corintiana. Raçudo e eficiente tanto na zaga quanto no meio de campo, Goiano jogou de 1952 até 1959 no Timão e participou dos grandes momentos do esquadrão de ouro do começo dos anos 50. Marcava com muita eficiência, não hesitava em dar carrinhos para roubar bolas e até marcava gols importantes, como o que anotou em uma das vitórias sobre o Barcelona, em 1953, pela Pequena Taça do Mundo. Com mais de 1,90 de altura, era chamado de “Gigante” pela imponência física. Tais dotes o tornaram um “muro seguro” para que o abusado Luizinho, depois de aprontar alguma na frente de um rival, se escondesse exatamente atrás do grandalhão corintiano.

Touguinha: volante de futebol clássico e muito eficiente, Clóvis “Touguinha” dos Santos jogou de 1949 até 1953 no Timão e foi fundamental nos grandes títulos da equipe no período. Não foi titular absoluto, mas ainda sim disputou 126 jogos com a camisa do clube.

Roberto Belangero: foi o mais completo, técnico, imponente e virtuoso meio-campista da história do Corinthians e ídolo incontestável do clube. Dominava a bola como poucos, ajudava o ataque com a mesma precisão que desarmava os rivais, tinha visão plena de jogo e podia jogar como volante, lateral e até zagueiro. Jogou de 1947 até 1960 no Timão, disputou 450 jogos e marcou 22 gols com a camisa do clube. Só não foi titular do Brasil campeão da Copa do Mundo de 1958 por causa de uma contusão (Zito, do Santos, jogou em seu lugar). Nilton Santos, eterno craque brasileiro, disse certa vez: “Roberto foi um dos jogadores que eu vi bater mais bonito na bola”. Encerrou a carreira no futebol argentino, mas morou para sempre (e ainda mora) no coração da Fiel.

Julião: um dos raçudos do meio de campo do time, formou a linha média do time campeão paulista de 1951 ao lado de Idário e Touguinha. Tinha grande vigor físico e podia jogar, também, na lateral-esquerda.

Cláudio: identificado ao extremo com o clube e capitão, Cláudio é um mito no Parque São Jorge. O “Gerente” jogou 12 anos no Corinthians, disputou 549 partidas e marcou 305 gols, números que fizeram dele o maior artilheiro da história do clube e o sétimo jogador que mais vestiu o manto alvinegro. Foi o cérebro do time naquele período de ouro e infernizava as defesas rivais com seus cruzamentos e passes pela ponta-direita, além dos gols e das cobranças de falta perfeitas. Não se cansou de dar gols e mais gols para o artilheiro Baltazar se transformar no “Cabecinha de Ouro”. É o maior artilheiro do Corinthians, também, nos duelos contra o rival Palmeiras: 21 gols marcados.

Luizinho: outra cria do Corinthians, o “Pequeno Polegar” foi outro a se consagrar na história do clube com seu futebol catimbeiro, técnico, abusado, repleto de dribles e, claro, gols. Era um xodó da torcida não só por causa de todo esse repertório, mas também por marcar vários gols nos clássicos contra o Palmeiras (foram 20 gols). É o 2º jogador que mais vestiu a camisa alvinegra na história com 604 jogos, além de ter feito 175 gols pelo clube entre 1948 e 1967.

Baltazar: um dos maiores cabeceadores da história do futebol brasileiro, Baltazar ganhou o apelido de “Cabecinha de Ouro” muito graças aos cruzamentos do companheiro Cláudio. Ele mesmo reconhecia não ser tão bom com os pés, mas, com a cabeça, “nem Pelé era melhor do que ele”, segundo palavras do próprio Baltazar. O atacante jogou no Corinthians de 1945 até 1957 e se tornou o segundo maior artilheiro da história do clube com 267 gols em 402 jogos. Sua fama aérea foi tão grande que virou até marchinha de carnaval: “Gol de Baltazar, Gol de Baltazar / Salta o Cabecinha, 1 a 0 no placar”.

Rafael: jogava na meia-esquerda e tinha destaque no ataque da equipe com grande toque de bola e deslocamentos perfeitos graças ao seu corpo esguio. Filho de família rica, Rafael era jovem naquele começo de anos 50 e muito mimado, características que não o davam a titularidade absoluta. Quando entrava, porém, dava conta do recado.

Nelsinho: jogava na ponta e era sobrinho de Neco, primeiro grande ídolo do Corinthians. Começou a jogar na equipe em 1947 e marcou presença em vários jogos do começo dos anos 50. Disputou 128 jogos e marcou 37 gols com a camisa alvinegra.

Carbone: o ditado “se não pode com ele, junte-se a ele” caiu perfeitamente para Carbone e o Corinthians no ano de 1951. Depois de fazer gols e mais gols no Timão em seus tempos de Juventus, o atacante foi comprado pelo clube do Parque São Jorge e mostrou o mesmo faro artilheiro que tanto azucrinou a cabeça da Fiel torcida. Para compensar os anos passados, Carbone foi logo marcando 30 gols no Campeonato Paulista de 1951 e se tornou o artilheiro da competição. Pena que caiu de produção nos anos seguintes e não foi titular absoluto na conquista do IV Centenário. Disputou 231 jogos e marcou 135 gols com o manto alvinegro.

Simão: depois de brilhar na Portuguesa do final dos anos 40 e início dos anos 50, Simão foi jogar no Corinthians em 1953. Já com 30 anos, assumiu a vaga na ponta-esquerda e foi importante para as conquistas do time com velocidade, dribles e chutes de fora da área. Disputou 92 jogos e marcou 20 gols com o manto alvinegro.

Mário: exímio driblador, completava a temida linha de frente do Corinthians que marcou 103 gols no Campeonato Paulista de 1951. Ponta-esquerda muito habilidoso, Mário não gostava de marcar gols, mas sim de servir os companheiros. Tanto é que marcou apenas cinco em 62 partidas com a camisa do Timão.

Newton Senra, Rato e Oswaldo Brandão (Técnicos): Newton Senra assumiu o comando do Timão no começo dos anos 50 e começou a formar a base do esquadrão que foi devidamente lapidado pelo técnico Rato, que armou um time extremamente ofensivo que ganhou os principais torneios que disputou. Em 1954, Oswaldo Brandão comprovou ter mesmo talento e estrela ao levar o Timão, em pouquíssimo tempo, aos títulos do Rio-SP e do Paulistão do IV Centenário. O trio teve participação decisiva nas conquistas por manter a pegada vencedora durante muitos anos e não deixar as habituais crises consumirem o ambiente dentro de campo. Rato é o terceiro na lista dos técnicos que mais comandaram o Corinthians na história com 256 jogos. Já Brandão é o líder: 438 partidas, várias passagens e títulos históricos.

Extra:

Veja imagens da conquista do Paulistão de 1954.

 

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8 thoughts on “Esquadrão Imortal – Corinthians 1950-1954

  1. Sempre é bem estar relembrar as histórias do coringão por aqui. Ainda estou no aguardo de mais esquadrões do Corinthians como o de 2002-03, que foi Campeão paulista, da Copa do Brasil, do Rio-São Paulo e vice-campeão brasileiro e o de 2009, que com o time que conseguiu o acesso à Série A contando com o reforço do Ronaldo foi Campeão Paulista Invicto e da Copa do Brasil.

  2. Eu nessa época era um garoto, mas vivi essa época maravilhosa do Timão pena que a Diretoria da época não soube manter o time vencedor trazendo jogadores que pudessem assumir com competência a saída dos titulares de então, ao fim dessa equipe começou o calvário que durou vinte e dois anos.

  3. não vi esse corinthians jogar mais pelas glorias alcançadas foi com certeza o melhor corinthians de todos os tempos,infelizmente tudo de bom dura pouco mais hoje ainda alcaçamos grandes feitos a libertadores por exemplo

  4. Não vi tds mas alcancei grandes idolos como ;;Gilmar, Rafael ,Luizinho Baltazar Cabeção e outros craques como de 1962 Oreco Lima Ney e muitos que hoje me fogem os nomes ..Sou corinthiano desde 150 qdo tive a oportunidade de ver o timão num amistoso em minas .

  5. Nasci corintiano e o vi jogar pela 1ª vez em 1953, aos 5 anos no Pacaembu da famosa “concha acústica”; hoje estou com 67 anos. Estava com meu pai e vimos o timão ganhar do XV de Novembro de Piracicaba por 2 a 1. Não lembro nada do jogo em si, mas, lembro que o estádio estava repleto. Muita alegria. Voltei aos estádios com +/- 17 anos, quando morava nas Perdizes, não havia a Avenida Sumaré, então caminhava da Rua Iperoig até o Pacaembu para ver grandes jogos. Fui muitas vezes ao Salão Para Festas Corintianas, desde a sua construção. Em 83 vi o timão vencer o SPFC com gol de Biro-Biro colocando a bola entre as pernas do goleiro Valdir Peres. Daí começaram as tais “organizadas” e virou uma bagunça. Até hoje assisto o timão pela tv. Moro em Bom Retiro do Sul/RS, onde moram mais dois “fiéis” e um porco. Há cinco dias nosso time antecipou a missa do galo para novembro (3 a 0 no Atlético Mineiro). Fiel até a morte. Salve a nação corintiana.

  6. Excelente texto e citação dos jogadores!
    Em 1951 o Corinthians jogou pela primeira vez fora do Brasil, goleando em Montevidéu um Combinado Uruguaio por 4 a 1, que tinha alguns campeões da Copa do Mundo de 1950. A primeira delegação corinthiana que saiu do Brasil foi a de basquete, em 1948, excursionando pela Argentina e Uruguai.
    Os torcedores da Portuguesa se orgulham muitos dos 7 a 3 de 1951, mas na Taça Cidade de São Paulo do ano seguinte o Corinthians também impôs uma goleada, pelo placar de 4 a 0. Na primeira metade da década de 50 eram os times mais fortes de São Paulo e do Brasil, com títulos interestaduais e grande desempenho internacional. Faltou à Lusa se campeã paulista.
    O regulamento da Pequena Taça do Mundo de 1953 era de um turno, mas como os organizadores desconheciam a força daquele time corinthiano, resolveram organizar um returno, para que alguma equipe europeia fosse campeã, mas novamente os alvinegros venceram todos os jogos.
    Sempre gosto de citar o Corinthians dos anos 50 em vez da década de 50, para incluir o Torneio Rio-São Paulo de 1950.
    Mesmo o time conquistando seu último Rio-São Paulo em 1954 e o Campeonato Paulista em 06/02/1955 (válido pelo ano anterior), considero que até 1959 era uma equipe competitiva.
    Em 1955 vence seu segundo Torneio Charles Miller, uma versão internacional. Pouco depois ganha mais um Torneio Início. Na mesma temporada quase é bicampeão paulista, ficando apenas um ponto atrás do Santos. O próprio Pepe disse em entrevista que sua equipe precisava vencer o Taubaté no último jogo, pois se perdesse, o título iria para o Parque São Jorge, sendo que caso empatasse teria um jogo-extra, sendo que na época não erá fácil bater o Corinthians.
    No ano seguinte vence mais um título internacional, a Copa do Atlântico, uma espécie de pré-Libertadores. Pelo Paulistão realiza seu grande sonho de conquistar a Taça dos Invictos, com 25 partidas sem perder (era forte ou não?), mas depois perdeu pontos bobos, facilitando o bicampeonato santista.
    Já em 1957 ganha em definitivo a mesma Taça dos Invictos e ainda se dá ao luxo de ficar mais 10 jogos sem perder, totalizando 35 no Estadual. Quase foi campeão paulista.
    As últimas conquistas do vitorioso time aconteceram no ano de 1958, com seu terceiro Charles Miller e o Torneio Brasília.
    Seu último grande feito aconteceu em 1959, com sua segunda excursão à Europa, não tão brilhante quanto à primeira, mas também com alguns bons resultados.
    A decadência já vinha ocorrendo aos poucos, mas considero que com o título paulista do Palmeiras de 1959 (conquistado no início de 1960) é que de fato veio a preocupação, pois dos quatro grandes do futebol de São Paulo era o que estava mais tempo sem conseguir ser campeão estadual. Vicente Matheus, inclusive, contratou o Almir, na época chamado de Pelé Branco.
    Destaco, na segunda metade da década de 50, nomes como os de Oreco e Zague, maior goleador corinthiano de 1956 a 1960. Sem se esquecer dos velhos ídolos já citados na matéria.

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