Esquadrão Imortal – Independiente 1963-1967

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Grandes feitos: Bicampeão da Copa Libertadores da América (1964 – invicto e 1965) e Bicampeão do Campeonato Argentino (1963 e 1967 – Nacional). Foi o primeiro clube argentino campeão da Copa Libertadores e o primeiro clube a conquistar o torneio de maneira invicta.

Time-base: Miguel Ángel Santoro (Osvaldo Rubén Toriani); Roberto Ferreiro (Raúl Decaria), Juan Carlos Guzmán (Idalino Monges) e Tomás Rolan (Rubén Navarro); Jorge Maldonado (José Andrés Paflik / Ricardo Pavoni) e David Acevedo (Miguel Ángel Mori / José Omar Pastoriza); Raúl Emílio Bernao, Osvaldo Mura (Jorge Abel Vázquez / Pedro Prospitti), Luis Ernesto Suárez (Roberto Tarabini), Mario Rodríguez (Roque Alberto Avallay / Luis Artime) e Raúl Savoy (Héctor Yazalde). Técnicos: Manuel Ernesto Giúdice (1963-1966) e Oswaldo Brandão (1967).

 

“O início do romance”

Os anos vão se passando e desde 1984 a lista de campeões segue com um único e isolado clube no topo da lista dos maiores campeões da história da Copa Libertadores da América: o Club Atlético Independiente. Com incríveis sete títulos em sete finais disputadas (com nenhuma decisão por pênaltis), o time rojo de Avellaneda possui uma mística no principal torneio sul-americano que deixa até o bicho-papão Boca Juniors com certa inveja. E esse conto de amor eterno que o clube tem com a cobiçada Liberta começou lá na década de 60, quando um time comandado por Manuel Ernesto Giúdice conquistou o campeonato argentino de 1963 e abriu caminho para disputar a ainda novata competição continental. Em 1964, mesmo enfrentando o temível Santos-BRA, a equipe venceu, convenceu e levantou a copa diante do Nacional-URU de maneira invicta, algo que nem o time alvinegro de Pelé conseguiu em 1962 e 1963, muito menos o Peñarol-URU de Spencer, bicampeão em 1960 e 1961. No ano seguinte, lá estavam os rojos para erguer mais uma taça, e outra vez sobre um clube uruguaio, o Peñarol, que levou de 4 a 1 no duelo decisivo mesmo contando com Mazurkiewicz, Pablo Forlán, Omar Caetano, Pedro Rocha e Juan Joya. Mas o que tinha aquele esquadrão para emendar conquistas daquele quilate? Vigor, precisão tática, ofensividade na veia e muito espírito copeiro, além de nomes como Santoro, Navarro, Ferreiro, Guzmán, Acevedo, Savoy e Bernao, principais artífices do time que abriu caminho para o gosto argentino pela Copa Libertadores. É hora de relembrar as façanhas do primeiro Independiente libertador.

 

La cantera inspira o futuro         

Bernao, uma das estrelas formadas nas bases do Independiente.
Bernao, uma das estrelas formadas nas bases do Independiente.

 

Depois de encerrar um jejum de 12 anos sem títulos no Campeonato Argentino, em 1960, o Independiente encontrou o caminho para voltar a conquistar taças com mais frequência em sua própria casa: as categorias de base. Foram nos campos de Avellaneda que o time lapidou jogadores como Toriani (que teve uma breve passagem pelo Tigre), Navarro, Ferreiro e Maldonado, todos campeões em 1960 e que seriam estrelas da equipe nos anos seguintes. Além de reforçar seu elenco com jovens, o clube passava por um importante momento de estruturação, com reformas em seu estádio, La Doble Visera (que ganharia, anos depois, o nome de “Libertadores de América” por motivos óbvios) e uma crescente elevação no número de sócios, que naquele começo de anos 60 já passava dos 45 mil. Após campanhas apenas regulares nos campeonatos de 1961 e 1962, o clube voltou a dar espaço para mais jovens das bases e incorporou ao elenco o goleiro Santoro, o meio-campista Mura e o ótimo e habilidoso ponta-direita Raúl Bernao. Além deles, o rojo trouxe do Chacarita o atacante Mario Rodríguez e o meio-campista Raúl Savoy, que rapidamente se tornaram peças essenciais no esquema do técnico Armando Renganeschi, que daria lugar a Manuel Ernesto Giúdice em 1963, ano que seria decisivo para a mudança completa na história do Independiente.

 

Polêmica e caneco

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Com um plantel jovem e identificado ao clube, o Independiente entrou como um dos favoritos ao título do Campeonato Argentino de 1963. No primeiro turno, a equipe perdeu apenas um jogo (3 a 2, para o Boca, fora de casa) e conquistou seis vitórias e seis empates em 13 jogos, com destaque para os triunfos sobre Rosario Central (2 a 1, fora de casa), Atlanta (5 a 0, em casa), Gimnasia Y Esgrima La Plata (3 a 0, em casa) e San Lorenzo (1 a 0, fora de casa). Seguindo de perto o líder River Plate, os rojos levaram dois sustos logo no começo do segundo turno ao perderem para o Rosario Central (1 a 0, em casa) e para o rival Racing por acachapantes 4 a 0, resultados que deixaram o título mais distante. Mas foi o próprio Racing quem contribuiu para a recuperação do Independiente ao perder para o River por 2 a 1, em casa, na 18ª rodada, e permanecer quatro rodadas sem vencer, com três derrotas e um empate. Enquanto isso, o clube rojo venceu quatro jogos (2 a 0 no Atlanta, 2 a 1 no Huracán, 3 a 1 no Vélez e 1 a 0 no Banfield) e voltou ao páreo.

No final de outubro e começo de novembro, a equipe de Giúdice empatou dois jogos em 1 a 1, contra Gimnasia e Boca, e foi para o antepenúltimo duelo do campeonato, contra o River, precisando da vitória. Jogando ao lado de sua fanática torcida, o rojo fez 2 a 1 e o título ficou ainda mais perto com a posterior vitória por 3 a 0 sobre o Argentinos Juniors, fora de casa, e a derrota do River para o Boca por 1 a 0 na penúltima rodada. Na liderança, o Independiente entrou em campo contra o San Lorenzo, no dia 24 de novembro de 1963, precisando apenas de um empate para ficar com o título nacional. Mas os rojos conseguiram mais do que isso. Jogando em casa, a equipe teve vários fatores a seu favor para sair com a taça na mão. Aos 18 minutos, Veira abriu o placar para o San Lorenzo, mas logo em seguida ele deixou o campo por causa de uma dura entrada de Navarro. Em seguida, o árbitro Manuel Velarde não deu um pênalti claro aos “santos” e Albrecht foi expulso, facilitando a vida do Independiente, que virou o placar com dois gols de Savoy.

O time campeão de 1963: força defensiva e velocidade pelas pontas davam mostras do que o clube poderia almejar no futuro.
O time campeão de 1963: força defensiva e velocidade pelas pontas davam mostras do que o clube poderia almejar no futuro.

 

Na segunda etapa, Telch também se machucou pelo excesso de “força” dos rojos e, com apenas oito jogadores (embora algumas fontes consultadas pelo blog digam que o clube terminou com seis jogadores, com Páez, expulso, e Zárate, machucado, entre os ausentes do San Lorenzo), a equipe azul e grená cruzou os braços como protesto à péssima arbitragem de Velarde e deixou o Independiente fazer o que quisesse. E os rojos fizeram mesmo. Bernao, Savoy e companhia aumentaram o placar para 8 a 1 sob os braços cruzados a aplausos irônicos dos jogadores do San Lorenzo. No finalzinho, Oscar Rossi chutou de longe contra a própria meta e marcou o gol contra que encerrou uma das partidas mais vexatórias e polêmicas da história do futebol argentino. O placar de 9 a 1 é até hoje o maior nos confrontos entre rojos e santos, mas ninguém em Avellaneda se orgulha disso, afinal, o árbitro (que foi suspenso após o papelão) teve papel decisivo em um resultado que acabou manchando uma conquista merecida pelos comandados de Giúdice, que tiveram o melhor ataque do torneio com 53 gols em 26 jogos. Com a conquista garantida, o time ganhava a chance de disputar a Copa Libertadores de 1964, competição que ainda não havia sido vencida por clubes argentinos.

 

Prévias de arrasar

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Ferreiro, Pelé e Bernao, em 1964.

 

Antes de debutar na Libertadores de 1964, o Independiente fez dois amistosos contra o Austria FK e venceu ambos por 3 a 0 e 4 a 3. Em fevereiro, o clube inaugurou uma nova iluminação em seu estádio e convidou uma equipe brasileira para disputar um amistoso. Mas não era uma equipe qualquer: era o Santos de Pelé, bicampeão da América e do mundo na época e considerado o maior time do planeta. O esquadrão alvinegro viajou até Avellaneda com vários de seus craques e entrou em campo com Gylmar, Ismael, Mauro, Joel, Geraldinho, Lima, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Muitos acreditavam que o Peixe venceria de goleada, mas o que o público viu naquele dia 1º de fevereiro de 1964 em La Doble Visera foi um baile épico dos rojos. Maldonado marcou Pelé de maneira impecável e sem apelar para faltas duras, o ataque deixou a zaga brasileira maluca e o Independiente abriu 3 a 0 só no primeiro tempo, com gols de Bernao, Savoy e Suárez. Na segunda etapa, o Santos continuou desnorteado e o Independiente sedento por gols. Lima, contra, e Suárez ampliaram para 5 a 0, que virou 5 a 1 com o gol de honra marcado por Almir.

O placar elástico sobre o maior esquadrão da época fez a torcida delirar em Buenos Aires e provou que o título nacional do ano anterior não havia sido mera coincidência. Raúl Bernao foi o grande destaque do jogo com dribles magníficos e jogadas brilhantes pelo lado direito que reforçaram ainda mais seu status de ídolo. Ainda naquele mês, o time venceu o Coquimbo-CHI, por 2 a 0, o Peñarol-URU, por 3 a 1 (dois gols de Suárez e um de Mario Rodríguez), e foi campeão do Torneio Internacional do Chile ao vencer o Palmeiras-BRA, por 3 a 1 (dois gols de Suárez e um de Rolan), a Universidad Católica-CHI, por 3 a 1 (três gols de Suárez) e empatar em 1 a 1 com a Universidad de Chile. Em abril, o clube começou o campeonato nacional com vitória por 3 a 1 sobre o Vélez e tinha o combustível necessário para iniciar a todo vapor a Copa Libertadores. Os rojos queriam ir longe no torneio e conquistar uma taça que havia escapado do futebol argentino em 1963, quando o Boca Juniors perdeu a decisão para o Santos.

 

Sorte e novos triunfos sobre o freguês

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Na primeira fase da Libertadores, o Independiente não teve dificuldades para despachar seus rivais e garantir a vaga na semifinal. Contra o Alianza Lima-PER, a equipe goleou por 4 a 0 jogando em casa (gols de Savoy, Rodríguez, Rolan e Suárez) e empatou em 2 a 2 jogando novamente em Avellaneda, mas no estádio do Racing, a pedido dos próprios peruanos, que ficaram com parte da arrecadação do jogo em troca (na época, o estádio Nacional de Lima estava fechado por causa de uma tragédia envolvendo as seleções pré-olímpicas de Argentina e Peru). Contra o Millonarios-COL, em casa, os rojos golearam por 5 a 1 (dois gols de Rodríguez, dois de Suárez e um de Savoy) e venceram os pontos do duelo de volta, em Bogotá, devido a divergências entre a Conmebol e a federação colombiana.

Na etapa seguinte, o Independiente encarou o Santos-BRA, que lutava pelo tricampeonato. No primeiro duelo, no Maracanã (onde o Santos estava invicto para equipes estrangeiras), os rojos mostraram sangue frio e aproveitaram a ausência de Pelé para virar um 2 a 0 contra e vencer por 3 a 2, com gols de Rodríguez, Bernao e Suárez, resultado que inflou os argentinos para o jogo de volta, em Avellaneda, no qual o time da casa venceu por 2 a 1 (gols de Mori e Rodríguez) e se classificou para uma inédita final. Era hora de brigar pelo título. E de encarar o Nacional-URU do técnico brasileiro Zezé Moreira.

 

Sofrimento, suor e América

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No dia 06 de agosto de 1964, o Independiente entrou no gramado do estádio Centenário, em Montevidéu, disposto a não levar gols para vencer o título em casa. E, com grande atuação do goleiro Santoro, o time de Avellaneda segurou os uruguaios de todas as maneiras possíveis e saiu de campo vivo e com o 0 a 0 no placar. Na volta, mais de 80 mil pessoas lotaram La Doble Visera e viram o rojo vencer por 1 a 0, com gol de Mario Rodríguez, tento que fez do Independiente o primeiro clube argentino campeão da Libertadores. De quebra, a equipe ainda se tornou a primeira campeã de maneira invicta com cinco vitórias e dois empates em sete jogos disputados. Rodríguez, herói da conquista, foi o artilheiro do torneio e do time com seis gols marcados. Começava ali, com aquela taça histórica, o romance continental pintado em vermelho.

O time campeão de 1964: com Bernao em grande fase, a equipe mostrou força e maturidade para conquistar a América pela primeira vez.
O time campeão de 1964: com Bernao em grande fase, a equipe mostrou força e maturidade para conquistar a América pela primeira vez.

 

Dureza e vices

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Em setembro daquele ano, o Independiente começou a decidir o título do Mundial Interclubes contra a Internazionale-ITA, comandada por Helenio Herrera e repleta de craques como Burgnich, Facchetti, Picchi, Jair da Costa, Alessandro Mazzola e Luís Suárez. Na época, o torneio ainda era disputado em jogos de ida e volta e com jogo extra em caso de igualdade de pontos. Na ida, em Avellaneda, o Independiente enclausurou a Inter em seu caldeirão e venceu por 1 a 0, gol de Rodríguez. Na volta, em Milão, foi a vez dos italianos darem um banho de tática com um futebol eficiente e vencer por 2 a 0, resultado que provocou um terceiro jogo, em Madrid, no estádio Santiago Bernabéu com pouquíssimos torcedores (pouco mais de 25 mil pessoas). Com nova aula de defensivismo e sem deixar os argentinos pensar, a Inter venceu por 1 a 0 e ficou com a taça.

No decorrer da temporada, o Independiente ainda brigou pelo título argentino, mas o Boca aproveitou a distração roja em solo internacional e ficou com a taça ao abrir seis pontos de vantagem e ter uma zaga notável que levou apenas 15 gols em 30 jogos. Mas o troco seria dado em 1965.

 

Revanche e bicampeonato

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A perda do título argentino para o Boca ainda estava fresca na memória dos jogadores do Independiente naquele começo de 1965. A chance de dar o troco estava prevista para março, caso os Xeneizes se classificassem para as semifinais da Copa Libertadores, já que o clube rojo tinha o privilégio de começar a defender seu título exatamente nesse estágio por ser o campeão. E as previsões foram confirmadas. Na primeira fase, o Boca passou sem grandes problemas por The Strongest-BOL e Deportivo Quito-EQU e se encontrou com o rival doméstico na semifinal. No primeiro jogo, em Avellaneda, o Independiente se impôs e venceu por 2 a 0, com gols de Mura e Rodríguez, anotados aos 14´e aos 16´do primeiro tempo. Na segunda partida, na casa do Boca, os azuis e dourados fizeram 1 a 0 com Rojas, de cabeça, e forçaram o terceiro duelo, no qual o Independiente teria a vantagem do empate por ter marcado mais gols que o rival. Em 05 de abril de 1965, o time de Giúdice fez uma partida tensa, segurou os nervos e garantiu o empate sem gols que o classificou para a grande final.

A clássica saudação do Independiente dos anos 60: Maldonado à frente e o time com os braços levantados.
A clássica saudação do Independiente dos anos 60: Maldonado à frente e o time com os braços levantados.

 

Diferente de 1964, o adversário do Independiente na decisão era dificílimo e repleto de estrelas: o Peñarol-URU, que havia eliminado o Santos-BRA na semifinal e contava com craques do quilate de Mazurkiewicz, Pablo Forlán, Pedro Rocha, Néstor Gonçalves e Juan Joya. Comandados pelo ex-goleiro da Celeste Roque Máspoli, os aurinegros queriam o tricampeonato e não venderiam tão facilmente a derrota. No primeiro duelo, em Avellaneda, o Peñarol mostrou sua tradicional tranquilidade jogando fora de casa e conseguiu conter por muito tempo as investidas de Bernao, Avallay e Cia. Mas, faltando sete minutos para o fim, o ponteiro rojo Bernao marcou o gol salvador que deu a vitória ao clube argentino. Na volta, em Montevidéu, os uruguaios fizeram 2 a 0 logo no primeiro tempo e ampliaram para 3 a 0 no comecinho da segunda etapa. De la Mata ainda diminuiu, mas o placar em 3 a 1 forçou o terceiro jogo em campo neutro, já que na época o que contava era a quantidade de pontos, e não o saldo de gols.

No dia 15 de abril, o Independiente fez do estádio Nacional de Santiago, no Chile, o palco para sua consagração. Jogando com extrema velocidade e apostando tudo em sua linha de frente composta por Bernao, De la Mata, Avallay e Savoy, o rojo sufocou o então favorito Peñarol e abriu o placar aos 10´, graças a um gol contra de Pérez. Aos 27´, Bernao, sempre ele, chutou forte e alto para fazer o segundo. Aos 33´, Avallay fez o terceiro e deixou o Independiente com a mão na taça. No final do primeiro tempo, Joya diminuiu para o Peñarol e manteve a esperança viva nos aurinegros. Mas, no segundo tempo, em meio à tensão e expulsões, o Independiente liquidou a fatura com um lindo gol de Mura, que avançou pela direita, driblou Mazurkiewicz e chutou por cobertura, sem chances para o zagueiro que tentava tirar a bola: 4 a 1. A goleada calou os que declaravam os uruguaios favoritos e fez do clube argentino bicampeão da América, mantendo a escrita das “dobradinhas” dos campeões na competição, iniciada pelo próprio Peñarol (1960 e 1961) e continuada pelo Santos (1962 e 1963). Não restavam dúvidas: o Independiente tinha pegado gosto pela competição.

 

Outra vez essa Inter!

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Em setembro de 1965, o Independiente voltou a disputar a final do Mundial Interclubes. E, outra vez, teve pela frente a Internazionale, bicampeã europeia e com a mesma base do ano anterior. O primeiro duelo entre argentinos e italianos foi em Milão, no estádio Giuseppe Meazza, e a Inter não teve dó alguma do rival vermelho: fez 3 a 0 e viajou tranquila para a Argentina precisando apenas do empate para levar o bi mundial. E, para a maior especialista em retrancas do planeta na época, a tarefa foi fácil demais. Com o catenaccio em seu ápice, o time de Helenio Herrera segurou o 0 a 0 e se sagrou campeão. Ao Independiente, ficou o amargo sabor de mais um vice-campeonato e a tentativa frustrada de correr atrás do título argentino, que acabou ficando mais uma vez com o Boca. Naquela temporada, a equipe terminou o torneio em uma péssima 13ª colocação.

 

Retomada de fôlego para ser (mais uma vez) o pioneiro

Em 1966, o Independiente tentou o tricampeonato da Libertadores, venceu o Boca por 2 a 0 em plena La Bombonera, mas acabou caindo na segunda fase do torneio diante do River Plate, em um duelo de desempate que terminou com vitória dos millonarios por 2 a 1. No Campeonato Argentino, a equipe ficou na sexta posição e teve que ver o rival Racing celebrar o título. Mas o ponto positivo foi o brilho de mais um grande jogador para adorar: Luis Artime, atacante vindo do futebol espanhol que virou artilheiro do time e do torneio com 23 gols marcados. Aquela foi a última temporada do técnico Giúdice no comando do rojo. Para seu lugar, o clube contratou o brasileiro Oswaldo Brandão, que voltava desde sua primeira passagem lá no começo da década de 60. O treinador teria como objetivo principal fazer uma boa campanha no “Campeonato Nacional”, criado pela AFA em 1967 como forma de agregar mais clubes de menor expressão ao cenário futebolístico argentino. O torneio seria disputado entre setembro e dezembro por 16 clubes, em turno único, logo após o Campeonato Metropolitano, que foi vencido pelo Estudiantes e teve o Independiente entre os quatro melhores.

 

O campeão insuperável

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Com um elenco maduro e acostumado a partidas decisivas, Brandão conduziu o Independiente de maneira plena no campeonato de 1967.  Nos primeiros oito jogos, os rojos venceram simplesmente todos os duelos e já abriram uma larga vantagem na liderança. Os triunfos vieram sobre San Martín (3 a 2, fora), Central Córdoba (6 a 0, em casa), Platense (2 a 1, fora), Lanús (5 a 2, em casa), Quilmes (4 a 2, em casa), Ferro Carril Oeste (2 a 1, fora), Chaco For Ever (6 a 0, em casa) e San Lorenzo de Mar del Plata (3 a 0, fora). Na 9ª rodada, a equipe empatou sem gols contra o Estudiantes, em casa, e em 1 a 1 contra o Rosario Central, fora, mas retomou o caminho das vitórias com um 1 a 0 sobre o Vélez, em casa.

O primeiro (e único) revés foi diante do San Lorenzo, por 3 a 1, fora de casa, mas que não abalou em nada os vermelhos, que venceram na sequência o Boca Juniors, por 3 a 2, em casa, e o River Plate, por 2 a 0, fora. Com cinco atacantes, a equipe esbanjava força ofensiva com Savoy, Bernao, Tarabini, Artime e Yazalde, além de ter em Pastoriza e Pavoni novos e importantes jogadores com facetas mais defensivas, que continham com maestria as investidas dos rivais.

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Na última rodada, contra o então campeão mundial e da América, o rival Racing, o Independiente fez questão de carimbar as faixas dos alvicelestes com uma atuação de gala no estádio La Doble Visera: 4 a 0, com dois gols de Artime, um de Tarabini e outro de Savoy, resultado que fez do Independiente campeão do primeiro Campeonato Nacional da história – e responsável por deixar a massa vermelha em profundo êxtase pela sonora goleada diante de um esquadrão tão forte como o Racing de José Pizzuti, que tinha Cejas, Basile, Martín, Chabay, Cárdenas e Raffo como principais destaques. Não bastasse o título, o esquadrão de Brandão conseguiu obter o melhor aproveitamento de toda a história do profissionalismo do futebol argentino: 86,67% dos pontos disputados (26 ganhos de 30 possíveis, com as vitórias valendo dois pontos na época), com 12 vitórias, dois empates, uma derrota, 43 gols marcados (melhor ataque) e 14 gols sofridos em 15 jogos. Uma campanha arrebatadora que jamais foi igualada nos anos seguintes, nem por River, nem por Boca, nem por Vélez e nem por ninguém.

Artime, com 11 gols, e Yazalde, com 10, foram os artilheiros do torneio e do Independiente, e fizeram Avellaneda ganhar fortes tons de vermelho em um ano que foi quase todo dominado pelo azul-celeste e branco do Racing.

 

À espera de Bochini

Bochini: maior ídolo da história do Independiente.
Bochini: maior ídolo da história do Independiente.

 

Pavoni, ídolo do Independiente, com algumas Libertadores vencidas pelo rojo.
Pavoni, ídolo do Independiente, com algumas Libertadores vencidas pelo rojo.

 

Após o título argentino, o Independiente perdeu o técnico Brandão, que voltou ao Brasil, e teve que passar por um incômodo jejum no final da década – e ver o Estudiantes brincar de ser tricampeão da Libertadores entre 1968 e 1970. Mas, a partir de 1972, o esquadrão rojo voltou a brilhar em solo continental com uma nova geração de craques liderada por Ricardo Bochini, que emendou quatro Copas Libertadores consecutivas e fez do clube o maior vencedor da história do torneio (leia mais clicando aqui). Mas tudo isso só foi possível graças ao time dos anos 60, que fez dos jovens os pilares de um time copeiro, aguerrido e extremamente competitivo que transformou o Independiente no maior conquistador da Copa Libertadores, torneio que segue enamorado e fiel ao seu maior campeão.

 

Os personagens:

Miguel Ángel Santoro: é um mito dentro do Independiente. Jogou no clube de 1962 até 1974, conquistando 10 títulos, entre eles 4 Libertadores e 1 Mundial Interclubes. É o goleiro com o maior número de jogos pelo clube de Avellaneda: 394 jogos. Foi um ícone na meta do time por muito tempo e sinônimo de segurança no gol.

Osvaldo Rubén Toriani: lapidado nas bases do clube, Toriani brilhou no começo dos anos 60 e foi fundamental nos títulos nacionais de 1960 e 1963 para o rojo. Ágil e imponente, Toriani foi um dos principais goleiros da Argentina naquela época. Acabou perdendo espaço para Santoro e teve problemas com suas inscrições de futebolista em 1965, época que não teve mais chances no clube.

Roberto Ferreiro: defensor que não brincava em serviço, Ferreiro era um dos mais queridos pela torcida pela raça em campo e por ser ótimo na marcação. Começou no Independiente e vestiu o manto vermelho como se fosse sua segunda pele. Líder dentro e fora de campo, jogou de 1958 até 1968 e vestiu várias vezes a camisa da Seleção Argentina. Anos depois, virou técnico e comandou o próprio Independiente nas conquistas do Mundial Interclubes de 1973 e da Libertadores de 1974.

Raúl Decaria: podia jogar como volante ou defensor e dava conta do recado com segurança e boa impulsão. Jogou de 1960 até 1965 no clube de Avellaneda, onde começou sua carreira.

Juan Carlos Guzmán: com a contusão de Navarro, em 1964, foi Guzmán o principal zagueiro central que ajudou o Independiente a vencer sua primeira Libertadores. Esbanjava vigor e tinha bons passes.

Idalino Monges: outro defensor de muita raça do Independiente, Monges jogou de 1966 até 1970 no clube rojo e compôs a brilhante zaga do time campeão argentino de 1967.

Tomás Rolan: o uruguaio chegou em 1960 ao Independiente e ficou até 1966, jogando em alto nível e com ótimas atuações pelo lado esquerdo da defesa do time. Veloz, Rolan também era uma arma no ataque e marcou vários gols graças as suas investidas em profundidade. Esteve presente nos melhores momentos do clube entre 1963 e 1965.

Rubén Navarro: lenda do Independiente e símbolo daquela era de ouro do clube, Navarro foi um dos maiores ídolos da torcida pela paixão que demonstrava vestindo a camisa vermelha. Pelo ímpeto e pela vontade de vencer, ganhou o apelido de “Hacha Brava” e assustava os rivais que ousassem entrar na área do goleiro Santoro. Foram várias as vezes que o defensor colocou a perna e até mesmo a face na frente da bola para evitar que um rival marcasse um gol. Jogou de 1954 até 1966 no clube de Avellaneda.

Jorge Maldonado: como volante ou zagueiro, Maldonado tinha uma notável qualidade: a marcação. Foi com esse artifício que ele se tornou uma das principais peças do time multicampeão daqueles anos 60 e que conseguiu parar até mesmo Pelé. Foi ele, como capitão, quem criou a lendária saudação roja de levantar os braços para o público em toda entrada de campo do time. A tradição segue até hoje.

José Andrés Paflik: ele era argentino, filho de austríacos, tinha o apelido de “polaco” e foi casado com uma brasileira. O eclético jogador foi um dos destaques do time campeão argentino de 1963 e da América em 1964, podendo atuar como volante ou zagueiro central.

Ricardo Pavoni: Ricardo Pavoni construiu praticamente toda a sua carreira no Independiente, onde jogou de 1965 até 1976. O uruguaio viveu os melhores anos do clube, foi campeão argentino em 1967 e foi o capitão do grande esquadrão tetracampeão da América dos anos 70. Venceu 12 títulos com o clube e foi um dos grandes defensores de sua época, além de apoiar o ataque e marcar gols. disputou 423 jogos pelo clube e marcou 57 gols.

David Acevedo: como defensor ou volante, Acevedo foi referência para a retaguarda do Independiente naqueles anos 60. Jogou por mais de uma década no clube de Avellaneda e disputou a Copa do Mundo de 1958 pela Argentina.

Miguel Ángel Mori: não era titular absoluto, mas dava qualidade ao time jogando como meio-campista mais avançado. Marcava gols e tinha velocidade.

José Omar Pastoriza: o “Pato” foi outro ídolo do clube no final dos anos 60 e começo da década de 70. Brilhou na conquista do título nacional de 1967 e venceu a Libertadores de 1972, antes de ir jogar no Mônaco, da França. Venceu três campeonatos nacionais pelo Independiente e foi símbolo na defesa e meio de campo do time. Disputou 213 jogos e marcou 41 gols pelo clube.

Raúl Emílio Bernao: foram 242 jogos, 40 gols e atuações de gala que o transformaram no maior ponta-direita da história do Independiente. Arisco e driblador nato, o atacante teve em Garrincha sua inspiração para tentar repetir pelo menos alguns lampejos do legado do maior de todos os pontas. Ganhou o apelido de “poeta da direita” pelas belíssimas jogadas que conseguia construir, como bem souberam os rivais do Independiente na época. Bernao jogou de 1961 até 1970 no clube rojo.

Osvaldo Mura: foi um dos principais motores do meio de campo do Independiente entre 1962 e 1968 e herói na conquista da Libertadores de 1965, quando marcou o gol do título diante do Peñarol. Muito rápido e inteligente, dava passes precisos para os atacantes e também sabia marcar. Foi um grande ídolo da torcida.

Jorge Abel Vázquez: foi o centroavante do time campeão argentino de 1963 e marcou vários gols importantes no decorrer da competição. Fez um ótimo trio de ataque ao lado de Savoy e Bernao e acabou deixando o clube pouco tempo depois.

Pedro Prospitti: o atacante foi titular em algumas partidas do time campeão da América de 1964. Ficou conhecido como “Cocoliche” por adorar jogos de azar. Jogou também no futebol colombiano e no uruguaio.

Luis Ernesto Suárez: jogou entre 1961 e 1965 no Independiente e viveu seus melhores momentos nas conquistas do título nacional de 1963 e na Libertadores de 1964, na qual foi fundamental ao marcar o gol da vitória sobre o Santos em pleno Maracanã por 3 a 2, na semifinal.

Roberto Tarabini: jogou de 1966 até 1970 no Independiente e formou uma ótima linha de frente ao lado de Artime, Yazalde e Bernao. Marcou vários gols importantes e ganhou a simpatia da torcida.

Mario Rodríguez: o atacante foi um dos maiores heróis do Independiente nos anos 60 pelos gols decisivos e por ser o artilheiro da equipe na conquista nacional de 1963 com 16 gols. na Libertadores de 1964, foi dele o gol do título continental que abriu as portas para o nascimento do Rey de Copas. Jogou apenas de 1963 até 1965, mas marcou 40 gols em 82 jogos.

Roque Alberto Avallay: ficou pouco tempo no clube, mas o suficiente para vencer a Libertadores de 1965. Após a conquista, jogou no Newell´s Old Boys e no Huracán, onde teve maior destaque.

Luis Artime: foi um dos pouquíssimos atacantes a se tornar artilheiro do Campeonato Argentino vestindo a camisa do Independiente – e por duas vezes seguidas: em 1966 (23 gols) e em 1967 (11 gols). Prolífico ao extremo e notável goleador, tinha o simples apelido de “artillero” por ser simplesmente letal na grande área. Jogou de 1966 e 1968 no clube de Avellaneda e brilhou, tempo depois, no Nacional-URU, onde faturou vários títulos, entre eles uma Libertadores e um Mundial Interclubes. Pelo rojo, marcou 45 gols em 72 jogos.

Raúl Savoy: se você pegar as escalações de todos os esquadrões do Independiente que foram campeões em 1963, 1964, 1965 e 1967, em todas Raúl Savoy estará presente como um dos atacantes. Titular absoluto naquele período de ouro, o canhotinha fez uma dupla marcante ao lado de Rodríguez e mostrou enorme polivalência com o passar dos anos podendo jogar como meio-campista. Marcou nove gols na campanha do título nacional de 1963 e foi ídolo da torcida.

Héctor Yazalde: outro lendário atacante argentino, Yazalde foi uma das estrelas do time campeão nacional de 1967 e até hoje a torcida lamenta ele não ter ficado por mais tempo para engrandecer ainda mais o esquadrão dos anos 70. Rápido e oportunista, foi jogar em Portugal, onde brilhou no Sporting e foi durante anos o único argentino a levar a Chuteira de Ouro de maior goleador da Europa, ao marcar incríveis 46 gols em 30 jogos no Campeonato Português de 1973-1974, um recorde até hoje no torneio lusitano.

Manuel Ernesto Giúdice e Oswaldo Brandão (Técnicos): foi Giúdice o responsável por tornar o Independiente o pioneiro continental na Argentina e dar ao clube a faceta copeira tão marcante até hoje. Com foco no ataque rápido e em quebrar as jogadas dos rivais na base da marcação e do vigor físico, o treinador virou lenda em Avellaneda e é querido até hoje pela torcida. Em 1967, Brandão assumiu e coroou uma era de ouro com um título argentino incontestável e com quase 87% de aproveitamento, recorde jamais superado. O destaque ficou por conta do estilo ofensivo da equipe e pelo enorme poder de decisão. Ambos foram imortais.

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Extras:

Veja a vitória por 2 a 1 do Independiente sobre o Santos, em 1964.

 

Veja a goleada de 4 a 1 dos rojos sobre o Peñarol na final da Libertadores de 1964.

 

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1 thought on “Esquadrão Imortal – Independiente 1963-1967

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