Seleções Imortais – Grécia 2004

ΠΟΡΤΟΓΑΛΙΑ-ΕΛΛΑΣ / ΤΕΛΙΚΟΣ ΕΥΡΩ 2004 - PORTUGAL-GREECE / EURO 2004 FINAL

 

Grande feito: Campeã da Eurocopa de 2004. Conquistou o maior título da história do futebol grego em todos os tempos.

Time-base: Nikopolidis; Seitaridis, Dellas, Kapsis e Fyssas; Karagounis (Giannakopoulos), Basinas, Zagorakis e Katsouranis; Nikolaidis (Vryzas) e Charisteas. Técnico: Otto Rehhagel.

 

“αιώνια ζέβρα”*

* “A zebra eterna”, em grego

 

Ao apito do árbitro Markus Merk (ALE), o estádio da Luz, em Lisboa (POR), praticamente emudeceu no dia 04 de julho de 2004. Só se ouviam gritos e celebrações de jogadores vestidos de branco com tons de azul como se fossem seres mitológicos. Ou fantasmas. O que eles falavam ninguém conseguia entender. Era um tal de alfa, beta, gama, ômicron e outras coisas complicadíssimas. Era grego. Autêntico grego. Mas era diferente. Quando se pensava naquele idioma ou naqueles homens, só se vinha na mente os deuses, os Jogos Olímpicos, os primórdios da civilização, a filosofia e muita, mas muita história. A última coisa que se podia pensar era futebol. Grego jogando futebol? De que jeito!? Ora, daquele jeito que eles tinham acabado de jogar. Com uma aplicação tática impressionante, frieza extrema e um sistema defensivo praticamente impenetrável, a seleção grega de futebol conseguiu o impossível naquele ano de 2004: vencer a Eurocopa, o mais importante torneio de seleções do velho continente. Muito mais do que o título, o que mais chamou a atenção e espantou o planeta foi a maneira como eles conquistaram aquele troféu épico: eles venceram os anfitriões na estreia e na final (Portugal), bateram os atuais campeões (França), venceram uma das melhores seleções europeias da época (República Tcheca) e ainda aprontaram com uma tradicional seleção nas Eliminatórias fora de casa (Espanha). Se alguém ainda acreditava que o futebol era um esporte lógico e previsível, as crenças caíram por grama a partir daquele título tingido de azul e branco com toques genuinamente alemães do técnico Otto Rehhagel. É hora de relembrar uma das maiores zebras da história.

 

As mudanças do Rei Otto

Os gregos na Copa de 1994: seleção nunca tinha conquistado nada no futebol nem figurava entre os maiores.
Os gregos na Copa de 1994: seleção nunca tinha conquistado nada no futebol nem figurava entre os maiores.

 

Antes de 2004, a única grande façanha da Grécia em esportes coletivos havia acontecido no longínquo ano de 1987, quando a seleção masculina de basquete do país venceu o Campeonato Europeu da modalidade, disputado na própria Grécia. No futebol, a seleção só tinha participado de uma Eurocopa, em 1980, e de uma Copa do Mundo, em 1994, e em ambas fez campanhas pífias e sem nenhum destaque. Quando o assunto era clubes, o único que havia conseguido um feito notável fora de terras gregas era o Panathinaikos, que em 1971 disputou uma incrível final de Liga dos Campeões da UEFA, mas perdeu para o sublime Ajax-HOL de Johan Cruyff e Rinus Michels. Sem brilho algum, a Federação Helênica de Futebol decidiu tentar mudar sua história ao contratar, em 2001, o técnico Otto Rehhagel, que venceu a disputa contra outros pretendentes ao cargo como Marco Tardelli, Nevio Scala, Javier Clemente e Terry Venables. O alemão tinha um currículo vitorioso em seu país principalmente pelos feitos conseguidos no Werder Bremen, onde venceu dois campeonatos nacionais, duas copas nacionais e uma Recopa da UEFA, todos no final dos anos 80 e início dos anos 90. Pelo Kaiserlautern, o treinador venceu um Campeonato Alemão da segunda divisão, em 1996-1997, e, na temporada seguinte, faturou a divisão principal pelo mesmo Kaiserlautern, que tornou o clube o primeiro a vencer um título da Bundesliga um ano após subir de divisão. Conhecido como Rei Otto, o treinador percebeu logo de cara que teria muito trabalho pela frente ao estrear com uma derrota por 5 a 1 para a Finlândia, no penúltimo jogo da equipe pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002. No último jogo, a equipe empatou em 2 a 2 com a Inglaterra, em Wembley, e fechou sua campanha sem chance de classificação.

Embora tenha tido um início ruim, Rehhagel percebeu que faltava um melhor treinamento àquela equipe e a montagem de um sistema de jogo que pudesse ser eficiente e não expusesse as possíveis fragilidades do time. Para ele, a zaga deveria ter dois homens bons no jogo aéreo e firmes na marcação, com um deles atuando quase como um líbero. A marcação e redução de espaços no campo seria a aura do time, enquanto o setor ofensivo teria sempre um jogador aberto pela ponta para ajudar em contra-ataques e municiar o centroavante isolado na frente. Em linhas gerais, a Grécia deveria jogar defensivamente, com inteligência e no erro do adversário. Era uma tática antipática, mas privilegiava uma seleção que não tinha qualidade técnica nem um jogador capaz de decidir. Por isso, a força do conjunto seria fundamental para as ambições da equipe dali pra frente, sendo a primeira delas a classificação para a Eurocopa de 2004.

 

Mudança de espírito

Otto Rehhagel, técnico da Grécia naquela era de ouro.
Otto Rehhagel, técnico da Grécia naquela era de ouro.

 

Antes combalida e sem inspiração, a seleção grega mudou consideravelmente de estado emocional após a entrada de Otto Rehhagel. Notável motivador, o técnico ganhou a simpatia e o respeito dos jogadores rapidamente e tinha o cuidado de, a cada jogo, mostrar para seus comandados que não existia adversário imbatível. Era só fazer o planejado, jogar com cautela e não conceder espaços que a vitória poderia vir. Nos primeiros amistosos da equipe, isso foi visível nas vitórias sobre Estônia (4 a 2), Bélgica (3 a 2) e Romênia (3 a 2), e nos empates contra Suécia (2 a 2) e República Checa (0 a 0). A equipe ainda concedia muitos espaços e fez dois jogos esquecíveis na estreia das Eliminatórias para a Euro de 2004 contra Espanha (derrota por 2 a 0, em casa, em setembro de 2002), e Ucrânia (derrota por 2 a 0, fora de casa, em outubro de 2002), mas a volta por cima começou com o triunfo por 2 a 0 sobre a Armênia, em Atenas, com dois gols do artilheiro Nikolaidis. A partir dali, a equipe não iria mais perder durante o caminho para a Euro, muito menos conceder gols.

Em 2003, os gregos viajaram até a Irlanda do Norte e venceram a dona da casa por 2 a 0, com dois gols de Charisteas. No compromisso seguinte, no estádio La Romareda, em Zaragoza, os azuis não se importaram com a Espanha e jogadores como Casillas, Puyol, Marchena, Helguera, Raúl e Morientes e derrotaram os espanhóis em sua própria casa por 1 a 0, com um gol marcado por Giannakopoulos. A classificação estava cada vez mais perto e foi praticamente garantida após os triunfos por 1 a 0 sobre a Ucrânia, em casa, com mais um gol decisivo de Charisteas, e sobre a Armênia, fora de casa, com gol de Vryzas. No último jogo, em outubro de 2003, vitória por 1 a 0, em casa, sobre a Irlanda do Norte (gol de Tsiartas) e classificação histórica para a Euro em primeiro lugar no grupo com seis vitórias, duas derrotas, oito gols marcados e quatro sofridos em oito jogos. A Grécia foi direto para a fase de grupos da competição continental, enquanto a segunda colocada, Espanha, teve que passar pela repescagem antes de garantir sua vaga.

Antes de começar a Euro, a equipe grega disputou vários amistosos e teve um saldo positivo, com destaque para os triunfos sobre Bulgária (2 a 0, em casa), Suíça (1 a 0, em casa) e Liechtenstein (2 a 0, fora de casa), além do empate em 1 a 1 contra Portugal, que também se preparava para o torneio no qual seria anfitrião.

 

O início da odisseia

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A Grécia da Euro – Em pé: Vryzas, Dellas, Charisteas, Kapsis, Fyssas e Nikopolidis. Agachados: Giannakopoulos, Seitaridis, Zagorakis, Basinas e Karagounis.

 

Pela primeira vez na história, Portugal era a sede da Eurocopa e o país se encheu de orgulho como há anos não se via graças a uma talentosa geração de craques comandada pelo técnico brasileiro Luiz Felipe Scolari, campeão do mundo com o Brasil dois anos antes e vivendo o auge da carreira. A seleção lusitana tinha em seu elenco jogadores como Ricardo, Fernando Couto, Costinha, Maniche, Pauleta, Luis Figo, Rui Costa, Deco, Nuno Gomes, Ricardo Carvalho e um jovem promissor de apenas 19 anos chamado Cristiano Ronaldo. Desde os tempos de Eusébio e Coluna que a seleção portuguesa não reunia tantos bons jogadores. E, por conta disso, o título era o grande objetivo daquele time. Mas, além deles, outras seleções também tinham grande favoritismo, principalmente a França (atual campeã e com nomes como Barthez, Thuram, Lizarazu, Pirès, Vieira, Makélélé, Zidane e Henry), a Holanda (com Van der Sar, Stam, Van Bronckhorst, Davids e Van Nistelrooy) e a República Checa, considerada uma das principais seleções da época graças ao elenco de peso formado por jogadores como Peter Cech, Jankulovski, Poborski, Rosicky, Nedved, Smicer, Milan Baros e Jan Koller. A Grécia, como não poderia deixar de ser, nem sequer aparecia na lista de favoritos ou até de possíveis surpresas. O país era uma formiguinha perto dos outros participantes e muitos acreditavam que os gregos iriam fazer uma campanha semelhante a da Copa do Mundo de 1994, quando disputaram três jogos, perderam os três, não marcaram nenhum gol e sofreram 10.

Mas foi amparado nessa ausência de pressão e desconhecimento da grande mídia que o técnico Otto Rehhagel inspirou seus comandados a buscar os mais improváveis resultados. Logo na estreia, contra a anfitriã Portugal, no Estádio do Dragão, os gregos apresentaram ao continente seu estilo de jogo baseado na aplicação tática e em uma impressionante força defensiva aliada a um contra-ataque organizado e bem armado. Eles reduziam os espaços no meio de campo e impossibilitavam a criação de jogadas, restringindo drasticamente o poder de fogo dos portugueses. Era um jeito de jogar que pressionava o adversário e o forçava a cometer erros, como aconteceu logo aos 7´, quando Karagounis aproveitou uma falha da zaga portuguesa, avançou em direção à entrada da área e chutou rasteiro, no canto, para abrir o placar: 1 a 0. No segundo tempo, em mais um bom contra-ataque grego, Seitaridis foi derrubado por Cristiano Ronaldo dentro da área: pênalti. Na cobrança, Basinas bateu bem, no canto e no alto, e fez o segundo: 2 a 0. No finalzinho, Portugal ainda descontou com um gol de cabeça de Cristiano Ronaldo, mas já era tarde. A vitória era grega! Pela primeira vez, um país anfitrião era derrotado em uma estreia de Eurocopa. E a Grécia, pela primeira vez, vencia um jogo no principal torneio continental.

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O português Cristiano Ronaldo lamenta o pênalti cometido sobre o rival grego que selou a vitória dos azuis na estreia.

 

Na partida seguinte, os gregos tiveram outro páreo duro: a Espanha, engasgada com os azuis por causa das Eliminatórias e que podia garantir a classificação antecipada em caso de vitória. Em campo, o jogo foi disputado e com os gregos sempre bem postados na defesa até os 28´do primeiro tempo, quando Morientes fechou uma ótima triangulação espanhola com um belo gol. Na segunda etapa, a Grécia deixou um pouco o lado defensivo de lado para tentar o gol de empate. E deu certo. Aos 21´, Charisteas recebeu no lado esquerdo da área e chutou firme, sem chances para Casillas: 1 a 1. A Espanha não conseguiu reverter o placar e o resultado manteve as duas equipes com chances de classificação – e complicou Portugal, que teria que vencer os espanhóis se não quisesse depender de saldo de gols ou critérios de desempate na última rodada.

No dia 20 de junho, a Grécia encarou a já eliminada Rússia e levou dois gols em apenas dezessete minutos. Vryzas ainda descontou no final do primeiro tempo, mas o placar em 2 a 1 permaneceu e a equipe azul conheceu a primeira derrota na competição (e que seria a única). No outro duelo do grupo, Portugal bateu a Espanha por 1 a 0 e conseguiu a classificação em 1º lugar, com a Grécia em 2º. A classificação grega surpreendeu muita gente, mas aquilo tudo não iria durar por muito tempo, acreditava o grande publico. Motivo? O time azul teria pela frente a poderosa França de Zidane.

 

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Charisteas sobe mais alto do que a zaga da França para marcar o gol da vitória: Grécia na semifinal!
Charisteas sobe mais alto do que a zaga da França para marcar o gol da vitória: Grécia na semifinal!

 

Com uma legião de craques e crescendo de produção, a França de Zidane e companhia era a favorita disparada no confronto contra a Grécia pelas quartas de final. A diferença técnica entre as equipes era gritante, mas quando pensávamos na parte tática, o equilíbrio ganhava destaque. Quando a bola rolou, os gregos mostravam a aplicação que tanto seu técnico frisava treino após treino, bem como a segurança no meio de campo e na defesa. Os principais lances de perigo do primeiro tempo foram da Grécia, que assustou com Nikolaidis, Katsouranis e Fyssas. A França tentava responder, mas o goleiro Nikopolidis se mostrava impecável em sua meta, bem como o miolo de zaga formado por Dellas e Kapsis. No segundo tempo, a Grécia encontrou seu gol aos 19´, após Zagorakis cruzar na medida para Charisteas comprovar sua fama de bom cabeceador e testar firme para marcar um lindo gol: 1 a 0. A festa tomou conta do estádio José Alvalade, em Lisboa, que via uma verdadeira zebra aprontar sobre os detentores do título europeu. Após o gol, a Grécia se fechou, claro, e a França não conseguiu evitar a derrota após 22 jogos invicta. Os gregos estavam na semifinal. E (por que não?) com o sonho vivo de chegar à final.

Zidane (à esq.) tentou, mas não conseguiu furar o bloqueio grego.
Zidane (à esq.) tentou, mas não conseguiu furar o bloqueio grego.

 

Grécia de prata

Na semifinal, mais uma grande seleção cruzou o caminho da equipe azul: a República Checa, uma das favoritas ao título graças ao talento de seu capitão, o inteligentíssimo meia Pavel Nedved. A equipe vinha de uma goleada por 3 a 0 sobre a Dinamarca e estava 100% na competição, com direito a vitórias na primeira fase sobre Holanda (3 a 2), Letônia (2 a 1) e Alemanha (2 a 1). Os checos eram favoritos, claro, mas ninguém duvidava de mais uma zebra após as façanhas dos gregos contra Portugal e França.

No primeiro tempo da prorrogação, a Grécia chegou ao gol e se garantiu na decisão da Euro.
No primeiro tempo da prorrogação, a Grécia chegou ao gol e se garantiu na decisão da Euro.

 

Os checos pressionaram desde o primeiro minuto o goleiro Nikopolidis, mas o camisa 1 grego fez uma partida sensacional com defesas milagrosas e de puro reflexo, além de contar com a sorte em um chute no travessão de Rosicky. Durante os 90 minutos, nada de gols, e a partida foi para a prorrogação, que tinha a curiosa regra do “gol de prata”, que daria a classificação à equipe que saísse vencedora após o primeiro tempo. E, graças a um gol de Dellas a dois segundos do fim, a Grécia conseguiu uma histórica classificação e a vitória por 1 a 0. Ninguém acreditava, mas os gregos estavam na final da principal competição europeia de seleções. E o capítulo final seria escrito assim como havia começado: contra o anfitrião Portugal.

A Grécia em campo: sem deixar espaços no meio, o time formou uma verdadeira muralha praticamente intransponível, principalmente no mata-mata.
A Grécia em campo: sem deixar espaços no meio, o time formou uma verdadeira muralha praticamente intransponível, principalmente no mata-mata.

 

A maior das façanhas

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Sol, tempo aberto, um estádio abarrotado de gente e remodelado, uma torcida que reaprendeu a torcer por sua seleção e um time embalado. Assim era o clima todo a favor de Portugal naquela final de Eurocopa. Mesmo com todas as traquinagens da Grécia ao longo do torneio, os anfitriões eram francos favoritos e não pensavam em mais uma derrota diante dos azuis de Otto Rehhagel. A Grécia, de branco, jogava pelo maior feito da história dos esportes coletivos de seu país e para a consagração de um time puramente tático e com a “melhor defesa do mundo”. Já os portugueses queriam a primeira grande glória no futebol mundial e o troféu para coroar uma geração de ouro como há mais de três décadas não se via pelas bandas lusitanas. O brasileiro Luiz Felipe Scolari tinha a chance de se tornar o primeiro treinador na história a vencer uma Copa e uma Eurocopa por países diferentes, além de tentar “abrir as portas” do mercado europeu para os brasileiros, que jamais haviam tido grandes oportunidades no Velho Continente.

A cabeçada fatal de Charisteas...
A cabeçada fatal de Charisteas…

 

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... E a celebração: Grécia no topo da Europa!
… E a celebração: Grécia no topo da Europa!

 

Quando a bola rolou, a Grécia mostrou-se fria como sempre e conhecedora do estilo de jogo de Portugal, que apostava na juventude de Cristiano Ronaldo e na técnica e experiência de Figo para levantar a Euro. Mas nem um nem outro conseguiu furar a muralha grega e o iluminado goleiro Nikopolidis, que mais uma vez fez um punhado de grandes defesas durante os 90 minutos. A Grécia, por sua vez, soube aproveitar as raras chances que teve para chegar ao Olimpo do futebol. No segundo tempo, aos 12´, Charisteas superou a marcação rival e testou mais uma bola para o gol após escanteio cobrado por Basinas. A zaga lusitana sabia que ele era letal em jogadas aéreas e mesmo assim concedeu espaço suficiente para o grego marcar. O 1 a 0 no placar se transformou em drama para Portugal, que tentou de todas as maneiras possíveis, mas falhou na hora de tentar pelo menos o empate e por insistir nas jogadas aéreas, todas interceptadas pelo gigante Dellas.

Festa de um lado...
Festa de um lado…

 

... Decepção do outro.
… Decepção do outro.

 

Quando o árbitro alemão Markus Merk apitou o final do jogo, estava escrita a mais nova mitologia grega. A Grécia era campeã da Europa pela primeira vez. E, pela primeira vez, havia vencido tanto o país-sede (Portugal) como o detentor do título (França) em uma mesma Eurocopa. A comemoração grega sacramentou o ano de 2004 como a temporada com maior quantidade de “zebras” no futebol. Afinal, foi em 2004 que equipes como Zaragoza-ESP (campeão da Copa do Rei), São Caetano (campeão do Campeonato Paulista), Santo André (campeão da Copa do Brasil) e Once Caldas-COL (campeão da Copa Libertadores) brilharam em cenários tão comuns aos grandes clubes. O técnico Otto Rehhagel comentou sobre a façanha grega após o jogo:

“É um acontecimento incomum para o futebol grego, e especialmente para o europeu. O rival era tecnicamente melhor do que nós, mas aproveitamos a chance que tivemos. O importante é que os gregos fizeram história hoje.”Otto Rehhagel, técnico da Grécia.

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Algo muito discutido na época foi a falta de brilho daquele time grego, que demonstrou mais força defensiva e tática do que eficiência técnica, o chamado “anti-futebol”. O que ninguém comentou, porém, foi a falta de capacidade dos chamados favoritos em furar o bloqueio grego e conseguir vitórias com técnica ou talento individual. Figo, Cristiano Ronaldo, Nedved, Rosicky, Zidane, Henry, todos eles tinham mais talento do que a Grécia e mais bola, mas não conseguiram fazer nada. Culpa da retranca? Pode ser, mas nada que tirasse o peso histórico da conquista dos gregos, que colocaram três atletas na seleção do torneio (Dellas, Seitaridis e Zagorakis, este também eleito o craque da Euro) e encheram de orgulho sua nação justamente no ano em que as Olimpíadas seriam realizadas no país, em Atenas, que virou a capital do futebol europeu em 2004.

 

Haverá outra epopeia?

O capitão Zagorakis, um dos símbolos do time de 2004.
O capitão Zagorakis, um dos símbolos do time de 2004.

 

O título europeu mexeu para sempre com o futebol grego. Antes reserva, o uniforme branco, amuleto na final contra Portugal, virou a vestimenta titular da equipe, e Otto Rehhagel se tornou o primeiro estrangeiro a ser condecorado com o prêmio “Grego do Ano”. Muitos acreditavam na classificação da equipe para a Copa do Mundo de 2006, mas a ressaca tomou conta do elenco, que não conseguiu a vaga. Nos anos seguintes, a intensidade do esquadrão grego diminuiu, a Euro não foi reconquistada em 2008, a equipe até se classificou para a Copa de 2010, mas não passou de fase – embora tenha vencido seu primeiro jogo em Mundiais (2 a 1 sobre a Nigéria). Rehhagel deixou o cargo em 2010 e os gregos nunca mais conseguiram o protagonismo de 2004. Em 2014, a equipe se classificou para as oitavas de final da Copa do Mundo, mas caiu nos pênaltis diante da grande zebra daquele torneio, a Costa Rica, que fez a Grécia provar do próprio “veneno” ao aplicar o defensivismo em grande parte de um jogo decidido apenas nos pênaltis.

Desde então, os gregos esperam que uma nova geração volte a levar o país a uma glória tão incrível como a Euro de 2004. Enquanto isso não acontece (se acontecer…), fica a história mitológica de tempos em que a Grécia teve uma seleção de futebol que derrotou titãs e conquistou o Olimpo do futebol europeu. Uma seleção imortal.

 

Os personagens:

Nikopolidis: foi o melhor goleiro da história do futebol grego e um dos grandes responsáveis pela campanha história de 2004. Com reflexos apurados, defesas sensacionais e atuações de gala justamente na reta final da Euro, o goleirão provou que os cabelos brancos eram apenas um detalhe (tinha 33 anos na época) e foi um gigante para a seleção. Ídolo em seu país, disputou 90 jogos pela Grécia entre 1999 e 2008 e fez carreira nos principais clubes do país, o Panathinaikos e o Olympiacos.

Seitaridis: foi o dono da lateral-direita da Grécia e demonstrou enorme talento tanto na marcação quanto nos esporádicos apoios ao ataque. Seguro e muito eficiente, fez uma Euro brilhante e acabou escolhido para o All-Star Team da competição. Disputou 72 jogos pela seleção entre 2002 e 2012 e encantou os dirigentes do Porto-POR, que levaram o grego para as bandas do Dragão logo após a Euro.

Dellas: com quase dois metros de altura e enorme presença de área, Traianos Dellas foi o grande xerife da zaga grega na Euro. Soberano nas jogadas aéreas e na antecipação, foi impecável e artífice do sucesso de sua seleção naquela competição. Outro grego presente na seleção de melhores da Euro de 2004, Dellas marcou o gol de prata que classificou a equipe para a final. Disputou 53 jogos pela seleção e marcou um gol, exatamente o tento histórico contra a República Checa.

Kapsis: o companheiro de Dellas na zaga grega provou que a família Kapsis nasceu mesmo para fazer história no futebol. É que seu pai, Anthimos Kapsis, também brilhou lá nos anos 70, quando vestiu a camisa do Panathinaikos na histórica final de Liga dos Campeões de 1971, contra o Ajax-HOL. Michalis Kapsis, o filho, manteve a sina da família ao realizar uma excelente Eurocopa em 2004 com grandes atuações no miolo de zaga. Vestiu a camisa da seleção em 34 oportunidades.

Fyssas: podia atuar como zagueiro ou lateral-esquerdo, e foi nesta posição que teve destaque no time grego de 2004. Forte na marcação, nas jogadas aéreas e com qualidade nos passes, disputou 60 jogos com a camisa da seleção entre 1999 e 2007, além de ter sido ídolo no Panionios e no Panathinaikos. Curiosamente, jogava no Benfica no ano da conquista do título europeu em solo português.

Karagounis: verdadeira lenda da seleção, o meio-campista foi um dos titãs do time de Rehhagel na conquista da Euro com garra, liderança e ótimos jogos. Só não jogou a final por estar suspenso por causa do segundo cartão amarelo, mas foi fundamental para a caminhada da equipe. É o jogador que mais vestiu a camisa da seleção na história, com 139 jogos e 10 gols marcados até julho de 2014.

Giannakopoulos: foi praticamente o 12º jogador da equipe e presença constante nas várias convocações de Rehhagel naquele período. Na Euro, fez grandes jogos e foi titular na grande final contra Portugal. Meia ofensivo, aparecia com perigo no ataque com velocidade e boa visão de jogo. Disputou 77 jogos e marcou 12 gols pela seleção entre 1997 e 2008.

Basinas: outro que podia jogar em mais de uma posição (como volante ou zagueiro), Basinas marcou gols, deu passes e se consagrou como um dos principais jogadores daquela equipe campeã. Disputou 100 jogos e marcou sete gols pela seleção entre 1999 e 2009.

Zagorakis: grande capitão e líder do time, Zagorakis foi outra lenda do futebol grego. Volante com muita força na marcação e nas roubadas de bola, era o pilar daquele meio de campo tão complicado de ser batido pelos rivais da Grécia. Disputou 120 jogos e marcou três gols pela seleção por mais de uma década, de 1994 até 2007, e foi um grande ídolo de seu país. Fez carreira em vários clubes gregos e teve uma passagem rápida pelo futebol italiano até se aposentar em 2007.

Katsouranis: com notável senso de colocação, enorme impulsão nas jogadas aéreas e esporádicas subidas ao ataque, foi outro grande nome daquele time grego. Mostrou muita qualidade nos passes e boa regularidade durante a Euro. Disputou 114 jogos e marcou dez gols pela seleção até julho de 2014.

Nikolaidis: atacante muito famoso em seu país, Demis Nikolaidis foi um dos principais artilheiros de sua época, principalmente com a camisa do AEK, onde brilhou por vários anos. Pela seleção, fez gols importantes e foi um dos destaques nas Eliminatórias para a Euro. Na competição, não foi titular absoluto por causa de uma contusão. Disputou 54 jogos e marcou 17 gols pela seleção.

Vryzas: era o típico atacante brigador, que não tinha faro artilheiro, mas importunava as defesas rivais. Ganhou a vaga de titular na Euro graças a contusão de Nikolaidis e teve boa participação para o coletivo da equipe. Foram 68 jogos e nove gols em mais de uma década de seleção.

Charisteas: cabeceador perigosíssimo e iluminado ao extremo em 2004, foi o grande herói do título grego na Euro de 2004. Na carreira, nunca foi um artilheiro de mão cheia, mas na seleção chamava a responsabilidade e mostrava muita habilidade e ótimo senso de colocação. Foram 25 gols em 88 jogos pela equipe grega, números que o colocam na segunda posição entre os maiores artilheiros da seleção azul na história, atrás apenas de Anastopoulos, com 29. Seus três gols na campanha do título continental, em especial os marcados contra França e Portugal, ainda estão na memória do torcedor.

Otto Rehhagel (Técnico): as décadas vão passar e será difícil aparecer um treinador tão marcante e notável no futebol grego como o alemão Otto Rehhagel. Após vencer grandes títulos com clubes de seu país, o “Rei Otto” conseguiu uma façanha homérica ao levar uma desacreditada e nada badalada Grécia ao título de uma Eurocopa usando e abusando de um esquema de jogo que privilegiava a defesa e o erro do adversário. Por mais que tenha recebido críticas, seu feito foi único e memorável. Um ídolo simplesmente intocável na Grécia e endeusado tanto quanto os filósofos ou seres da mitologia do país.

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Extra:

Veja os melhores momentos da campanha grega no vídeo abaixo.

 

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10 thoughts on “Seleções Imortais – Grécia 2004

  1. A maior espinha cravada na garganta de Portugal… Com Scolari ao leme, Portugal em 3 jogos não ganhou nenhum, sendo o primeiro na inauguração do estádio Municipal de Aveiro e os outros dois já em pleno Euro 2004, a abrir e fechar. Mas era uma selecção que jogava bem, com sólidos processos defensivos e quase nunca se desposicionava. Deus Otto era um metsre sabidão! E pelo caminho até à final venceram aqueles que eram apontados pela imprensa como os candidatos mais fortes: França, República Checa e Portugal. Zagorakis e Dellas eram monstros e jogadorazos de primeira.

  2. Tive o privilégio de, aos 16 anos, ver essa eurocopa (a primeira que acompanhei), e desde o primeiro jogo, adotei logo esse time pra torcer. Foi a melhor que assisti até hoje. Só craques, grandes volantes como Poborsky, Basinas, Viera, Zagorakis… Karagounis comendo a bola… Portugal cheia de craques.. foi bom demais assistir.

  3. Por acaso hoje fui ver o resultado do jogo do Benfica contra o Braga pelo português e vi que Mitroglou, talvez o melhor atacante grego da atualidade, deu a vitória ao tipo de Lisboa. Lembrei então dessa lendária seleção grega da euro de 2004. Que futebol que jogava! Grandes jogadores que vão demorar mais alguns anos pra ressurgir no futebol grego. Eu tinha 12 anos e pqp, como era bom ver Zagorakis, Karagounis, Nikopolidis e Vryzas. Timaço!

  4. Uma das maiores histórias do futebol mundial em todos os tempos,o que esses caras fizeram foi sensacional,admiro muito a Seleção grega até hoje por causa desse feito.

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