Barça x Real: Quando a política entra em campo

O clássico entre Barcelona e Real Madrid longe dos gramados: o retrato de duas nações

Por Rafael Abduche

 

Quando um jogador marca um gol no maior clássico da Espanha – e quiçá do mundo – não é apenas a vantagem ou empate no placar que a torcida comemora. A relação de um gol e uma consequente vitória ultrapassa qualquer limite das quatro linhas. Mais do que astros da bola, audiências espetaculares de televisão e salários astronômicos, o clássico entre Barcelona e Real Madrid tem raízes muito mais profundas, fincadas na história de duas nações.

“Esse clássico não é desportivo, mas sim um jogo político. Não é um jogo entre dois times, e sim entre duas regiões.” Quem fala essa frase, com a autoridade de ter jogado nos dois principais clubes espanhóis, é o brasileiro Evaristo de Macedo. O atacante atuou no Barcelona de 1957 a 1962, quando se transferiu para o arquirrival da capital, clube em que jogou até 1965. A fala de Evaristo traduz a rivalidade não só entre dois clubes, mas também entre a Espanha e a Catalunha, duas nações que historicamente se odeiam, mas sempre fizeram parte do mesmo território.

Na Catalunha, fala-se o catalão, proíbem-se as touradas, prioriza-se o comércio local e frequentemente luta-se por uma separação da Espanha. São várias as características que a divergem do governo de Madri. Mas, no meio disso tudo, entra o futebol como elo de identificação entre grupos. Para explicar a situação, o historiador Mauricio Drumond lembra o cientista político Benedict Anderson, ao dizer que o futebol sempre foi capaz de atuar criando “comunidades imaginárias”.

“Nós forjamos uma comunidade de pessoas porque nada mais nos une além dos símbolos que a gente compartilha. No futebol, esses símbolos são muito frequentes: as cores, o uniforme, os cânticos… Diversos fatores que interagem formando uma ligação muito forte”. – Mauricio Drumond.

Por esses motivos históricos, a rivalidade entre os dois sempre foi lançada como a maior da Espanha. Mas o período em que ela foi catapultada a um panorama mundial se deu durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975). Com os ideais fascistas que tomaram conta de alguns países da Europa Ocidental, o ditador espanhol subiu ao poder após sair vitorioso da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Assim que assumiu o trono espanhol, Franco procurou acabar com todas as formas culturais que não fossem genuinamente espanholas, tais quais as línguas catalã e basca. Entra em cena, mais uma vez, o mundo da bola.

A evolução dos escudos do Barça: note a interferência do regime no escudo de 1941, sem a bandeira catalã.

 

Foram várias as medidas políticas tomadas pelo governo franquista para tentar diminuir a identidade catalã no futebol. O escudo do Barcelona foi alterado, tirando duas das listras vermelhas que, em um fundo amarelo, formavam a bandeira da Catalunha. Além disso, o próprio nome do clube mudou, passando do catalão Futbol Club Barcelona para sua versão espanhola, Club de Fútbol Barcelona. Mesmo assim, para Mauricio, era dentro dos estádios um dos poucos lugares em que o orgulho catalão ainda se aflorava. Em tempos de ditadura, o Camp Nou – estádio em que o Barcelona manda seus jogos até hoje – era, acima de tudo, a grande fortaleza na qual se refugiava a identidade catalã.

“Quando a multidão começava a cantar, não tinha como reprimir. Ainda que a torcida não estivesse criticando conscientemente o governo, quando ecoava os cânticos do Barcelona, o “ser” catalão era reafirmado”, destaca Mauricio.

“Por causa da Guerra, a rivalidade ficou muito acirrada”, declarou Evaristo, que viveu o final do Governo Franco na Espanha. Contudo, o ex-jogador revela que o clima entre os jogadores era diferente. “Dentro do ambiente do futebol, no vestiário e na concentração, não tinha nada disso. Quando eu jogava no Barcelona, eu queria ganhar do Madrid porque era uma grande vitória dentro de campo. A gente não tomava partido, principalmente os estrangeiros”, revelou.

O episódio emblemático dessa época foi a transferência do grande atacante argentino Di Stéfano, a quem Evaristo chamou de “impetuoso, aguerrido e genial”. Após uma greve de jogadores argentinos, Di Stéfano saiu de Buenos Aires ao deixar o River Plate para se transferir para o Millonarios, da Colômbia. Depois de alguns anos com os millos, o Barcelona tentou contratá-lo, em 1953. Já consagrado mundialmente, o atacante estava propenso a vestir o azul e o grená, mas o Real Madrid interveio na negociação. Resultado: mediante uma negociação com participação do governo espanhol, ficou decidido que o jogador vestiria a camisa do Barcelona por um período, transferindo-se depois para a capital. Os catalães não aceitaram e Di Stéfano jogou apenas em Madri, onde ganhou cinco títulos de Liga dos Campeões. Um tempero que apimentou bastante a relação dos dois clubes durante o franquismo.

Di Stéfano foi para o Real e acabou colecionando Ligas dos Campeões.

 

Mas foi nesse período que Evaristo viveu seu maior momento em solo espanhol. Ou melhor, catalão. Jogando pelo Barcelona, Evaristo fez o gol da vitória de 2 a 1 diante do Real Madrid no Camp Nou na temporada 1960-1961. De “peixinho”, ele acabava com a supremacia do rival na Europa: essa partida marcou a primeira eliminação do Real Madrid em uma Liga dos Campeões – nas cinco primeiras edições do torneio, cinco títulos para Puskás, Di Stefano, Gento e companhia.

De peixinho, Evaristo acabou com a hegemonia do Real Madrid na Liga dos Campeões.

 

Apesar do domínio madridista – o clube merengue ganhou quatorze títulos da Liga Espanhola e cinco Ligas dos Campeões – durante o regime franquista, o Barcelona não se apequenou nem sucumbiu diante do poderio vindo da capital. Isso faz Mauricio questionar até que ponto a versão mais aceita dessa história – a de que o Barcelona foi prejudicado tendo que lutar contra um regime aliado de seu maior rival – realmente é verossímil. “A gente não pode falar que os dirigentes do Barcelona eram contrários ao governo, não. Todos eles participaram, até porque, se não participassem, o clube estava fora”. Para ele, sempre foi uma elite econômica que compunha o poder administrativo dos culés, sem que tenha havido nenhum ato de rebeldia por parte dos cartolas. Contudo, a simbologia já estava lá. Bastou os presidentes do Barcelona posteriores ao franquismo saberem usá-la a seu favor.

Essa brecha teria aberto a grande oportunidade de catapultar o clássico, dito por muitos como o grande espetáculo do futebol. “A rivalidade aumenta a questão identitária e vice e versa. Elas vão se retroalimentando”, argumenta o historiador. Jorge Luiz Rodrigues, jornalista e coordenador do Sportv, vê de outra forma essa rivalidade política: antes de catalão, o DNA do Barcelona sempre foi a vitória. Segundo ele, o clube sempre se preocupou em formar grandes equipes, não apenas no futebol profissional, porque há outras questões, como as comerciais e financeiras, que influenciam o desempenho em campo e a montagem por uma equipe vencedora, ainda que ela não reflita inteiramente o orgulho catalão.

A forma como esse jogo é concebido ganha forma, mais uma vez, na fala de Evaristo. “Se não houver a rivalidade dentro e fora do campo, o futebol acaba. O futebol só existe por causa da rivalidade”. Seja sob qual fantasia ela estiver vestida – política, esportiva ou histórica -, essa mística é o grande motor do futebol.

 

Entre cânticos e bandeiras

A tensão política faz com que a arquibancada não respire só futebol. Os dois principais ultras – grupos que se assemelham às organizadas brasileiras – dos clubes, os Boixos Nois, pelo Barcelona, e os Ultras Sur, pelo lado do Real Madrid, surgiram na década de 1980 com inspirações ultranacionalistas. De um lado, os Boixos Nois nasceram com uma tendência política de esquerda e antifascista, que foi sendo apagada ao longo dos anos. Enquanto isso, ideais franquistas norteavam os grupos de torcedores merengues.

Mas ambos torcedores carregavam um sentimento ufanista radical. Por isso, alguns jogadores são vistos como traidores da pátria quando trocam o Barça pelo Real ou vice e versa. Um dos casos emblemáticos dessa situação é o do jogador português Luis Figo, que se transferiu do Barcelona para o Real Madrid, em 2000. Quando retornou ao Camp Nou, foi recebido com uma chuva de garrafas a cada escanteio que ia cobrar – até uma cabeça de porco foi arremessada ao gramado! Jorge, quando lembra da situação, critica contundentemente a postura dos torcedores culés. “Acho isso uma grande bobagem, porque o jogador é um profissional. Embora o futebol mexa com a paixão, e isso faz as pessoas perderem a cabeça às vezes, você tem que saber separar as coisas”.

A cabeça de porco no gramado na volta de Figo ao Camp Nou: ira da torcida catalã ao “traidor”.

 

Por outro lado, Evaristo não conheceu essa ira da torcida catalã quando trocou o azul e grená pelo branco. Mas ele mesmo ressalta que seu caso foi diferente em comparação ao de Figo. “Na hora de renovar com o Barcelona, o que o Figo fez foi um leilão entre os dois clubes, e isso é errado. O meu caso foi diferente. Eu não queria sair do Barcelona, mas houve uma mudança na diretoria. O novo presidente (Enric Llaudeti) iria contratar alguns jogadores estrangeiros, então não sobraria espaço para mim no elenco (naquela época, eram permitidos apenas dois jogadores estrangeiros por equipe). Então, ele fez uma proposta para eu me naturalizar espanhol, e eu não aceitei. Algumas semanas depois, o Madrid me chamou para conversar”. Para ele, esse foi o motivo de não ter tido qualquer ressentimento da torcida do Barcelona e, pelo profissionalismo, ser bem aceito na capital.

 

O clássico de hoje

 

A globalização veste a camisa 10 não só na política ou na economia, mas também dentro de campo. Dessa forma, tendo em vista um mudo que se internacionaliza cada vez mais, Mauricio acredita que o futebol age como via de mão dupla. “Hoje, mais do que nunca, o futebol é “glocal”, para usar um termo do sociólogo Richard Giulianotti. Ao mesmo tempo que o futebol é globalizante, ele também reafirma identidades locais”. Para ele, o Barcelona seria um dos melhores exemplos dessa situação, pois o clube é uma marca internacional que penetra de forma avassaladora nos mercados asiático e africano, mas também é muito importante para destacar a Catalunha no mundo.

Jorge Luiz é mais cético em relação à questão catalã. “É complicado você se ater a temas políticos, porque não é mais isso que conta. Hoje, o que realmente importa é o fator financeiro. As ideologias do passado ficaram em segundo plano”. Jorge acredita que o que está em jogo são cifras e mercados consumidores. Esse é o retrato do futebol atual que faz com que os clubes ricos – tais quais Barcelona e Real Madrid – fiquem mais ricos, e os pobres tendem a desaparecer. A iniciativa que se tem em fortalecer o futebol de clubes, por parte da FIFA, em detrimento das seleções nacionais também contribuiria para isso. Mas, seja na política ou na economia, continua sendo o clássico que atrai os olhos do mundo moderno.

Leia mais sobre alguns dos tópicos mencionados no texto aqui no Imortais!

Barcelona anos 50

Real Madrid anos 50

Craque Imortal – Alfredo Di Stéfano

Craque Imortal – Figo

Millonarios anos 50

 

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