Craque Imortal – Ronaldinho

(Photo by Luis Bagu/Getty Images)

 

Nascimento: 21 de Março de 1980, em Porto Alegre (RS), Brasil.

Posições: Meia e Atacante

Clubes: Grêmio-BRA (1998-2001), Paris Saint-Germain-FRA (2001-2003), Barcelona-ESP (2003-2008), Milan-ITA (2008-2011), Flamengo-BRA (2011-2012), Atlético Mineiro-BRA (2012-2014), Querétaro-MEX (2014-2015) e Fluminense-BRA (2015).

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Gaúcho (1999) pelo Grêmio.

1 Copa Intertoto (2001) pelo Paris Saint-Germain.

1 Liga dos Campeões da UEFA (2005-2006), 2 Campeonatos Espanhóis (2004-2005 e 2005-2006) e 2 Supercopas da Espanha (2005 e 2006) pelo Barcelona.

1 Campeonato Italiano (2010-2011) pelo Milan.

1 Campeonato Carioca (2011) pelo Flamengo.

1 Copa Libertadores da América (2013), 1 Recopa Sul-Americana (2014) e 1 Campeonato Mineiro (2013) pelo Atlético Mineiro.

Principais títulos por seleção: 1 Copa do Mundo da FIFA (2002), 1 Copa das Confederações (2005), 1 Copa América (1999), 1 Medalha de Bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) e 1 Superclássico das Américas (2011) pelo Brasil.

Principais títulos individuais:

Melhor Jogador do Mundo da FIFA: 2004 e 2005

Ballon d’Or: 2005

Onze d’Or: 2005

FIFA 100: 2004

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA: 2002

Bola de Ouro da Copa das Confederações: 1999

Chuteira de Ouro da Copa das Confederações: 1999

Melhor Atacante da UEFA: 2004-2005

Melhor Jogador do Ano da UEFA: 2005-2006

Eleito para o Time do Ano da UEFA: 2004, 2005 e 2006

Melhor Jogador do Ano da FIFPro: 2005 e 2006

Eleito para o Time do Ano da FIFPro: 2004-2005, 2005-2006 e 2006-2007

Melhor Jogador do Mundo pela World Soccer: 2004 e 2005

Golden Foot: 2009

Bola de Prata da revista Placar: 2000, 2011 e 2012

Bola de Ouro da revista Placar: 2012

Futebolista do Ano da América do Sul: 2013

Eleito para o Hall da Fama do Milan

Eleito para o Hall da Fama do Barcelona

Eleito o Jogador da Década pela revista World Soccer: 2009

 

Artilharias e Assistências:

Artilheiro do Campeonato Gaúcho de 1999 (15 gols)

Artilheiro da Copa das Confederações de 1999 (6 gols)

Maior Assistente do Campeonato Espanhol de 2005-2006 (13 assistências)

Maior Assistente do Campeonato Italiano de 2009-2010 (14 assistências)

Maior Assistente do Campeonato Brasileiro de 2012 (13 assistências)

Maior Assistente da Copa Libertadores da América de 2013 (7 assistências)

 

“O Maior Espetáculo da Terra”

 

Ele não era um simples jogador de futebol. Ele era um artista. Com a bola nos pés, não dominava. Fazia malabares. Quando dava um passe, não precisava olhar para saber a direção. Tinha segurança e certeza de que a bola iria para onde ele queria. E realmente ia. Quando ele aprontava e sorria, todo mundo sorria de volta. Quando ele pintou e bordou, ainda garoto, pra cima do capitão do tetra, todos viram que ele era diferente. Quando ele marcou um gol antológico pela primeira vez com a camisa da seleção, quem não disse “olha o que ele fez!”?. Quando ele dava um elástico, todo mundo fazia “oh”. Em sua primeira Copa, foi titular e só não fez chover quando enfrentou os ingleses e marcou um gol para a antologia dos Mundiais. A propósito, em sua primeira Copa, foi campeão. Quando ele deu um, dois, três chapéus num só marcador, o mundo pensou que ele era um extraterrestre. Quando ele destroçou o maior rival de seu clube como nenhum outro jogador havia conseguido em plena casa inimiga, até a torcida contra se rendeu. E o aplaudiu de pé. Por dois anos, foi o melhor do mundo. Do universo. Foi, como o título deste texto, o maior espetáculo da terra no futebol. Ronaldo de Assis Moreira, mais conhecido como Ronaldinho Gaúcho, ou simplesmente Ronaldinho, foi a alegria e o impossível num campo de futebol. O que o brasileiro fez com a bola nos pés poucos – ou ninguém – conseguiram fazer. Os dribles, as jogadas plásticas, os lançamentos, os golaços, tudo o que ele fez foi algo enorme, único. Ronaldinho mudou para sempre o esporte e fez uma legião sem precedentes começar a gostar de futebol por causa dele. Fez as editoras lançarem no Brasil álbum de figurinhas do Campeonato Espanhol. Fez a TV passar a transmitir mais jogos do mesmo campeonato e dar mais valor para a Liga dos Campeões. O “show man” pedia isso. O público pedia isso. Até personagem de quadrinhos e nome de abelha (!) ele virou. Com ele em campo, o espetáculo era garantido. Até os rivais se curvavam sobre ele. Só Ronaldinho encantava o público. Mesmo jogando na mesma época que Zidane, Shevchenko, Beckham, Henry, Rooney, Kaká e Ronaldo. Maradona se rendeu ao talento do camisa 10 ao dizer que “Ronaldinho es mi sucesor”.  Ele foi uma unanimidade. Incontestável. E inimitável. É hora de relembrar a carreira de uma lenda.

 

O verdadeiro craque da família

Ronaldinho e Assis, lá nos anos 80.

 

Caçula de três irmãos, Ronaldinho nasceu em 1980, em Porto Alegre, e sempre mostrou muita habilidade com a bola nos pés. Inspirado pelo irmão mais velho, Roberto de Assis Moreira, mais conhecido como Assis, jogador profissional do Grêmio, e em ídolos como Romário, Zico e Rivellino, ele também queria seguir no mundo futebolístico. Antes, em 1987, o irmão Assis, então com 16 anos, era uma promessa do tricolor gaúcho e despertou o interesse do Torino, da Itália. Preocupado em perder o jovem, o Grêmio deu uma casa para a família com piscina e tudo a fim de manter por mais tempo o jovem no clube. Deu certo, e a família pode sair da velha casa de madeira no bairro de Vila Nova para morar na zona sul da cidade. A carreira de Assis, no entanto, não decolou por causa de uma séria lesão no joelho. Mas a de Ronaldinho iria decolar. Jogando em times juniores, o garotinho fazia miséria com a bola. Nas quadras de futsal, se desvencilhava dos adversários com dribles impressionantes e de tirar o fôlego, com uma habilidade raríssima (veja mais no vídeo abaixo).

Após passar por um drama com apenas nove anos, quando o pai, João, faleceu na piscina de casa, Ronaldinho se apoiou na família, contou com a sólida base da mãe, da irmã e do irmão, e seguiu em frente rumo ao time profissional do Grêmio, onde fez sua estreia em 1998, num amistoso contra o Serrano. A estreia em uma competição foi pouco depois, na Copa Libertadores, contra o forte – e futuro campeão – Vasco. O Grêmio venceu por 1 a 0 com ótima atuação do jovem craque, que acertou a trave em uma cobrança de falta e cobrou o escanteio que originou o gol de Guilherme. À época, o técnico do Grêmio era Sebastião Lazaroni, que já via qualidades enormes no jogador chegando a dizer ao presidente do clube que “estamos diante do jogador que será melhor do mundo no futuro”. O jovem já havia provado seu valor muito antes, já em 1997, quando marcou dois gols – um contra a Áustria e outro contra a Alemanha – na campanha do título do Mundial Sub-17 do Brasil, disputado no Egito.

Naquele ano de 1998, Ronaldinho virou uma verdadeira atração no Grêmio. Todos queriam ver a nova promessa do clube e perceberam que ele renderia muito em pouco tempo. Foram 48 jogos disputados, entre competições oficiais e amistosos, sete gols marcados, assistências, passes e dribles desconcertantes. Dentuço, também Ronaldo, habilidoso e bom menino. Parecia repeteco, mas o Brasil começava a ganhar mais uma estrela aos moldes do “Ronaldinho” da época, o Fenômeno. Mas aquele moleque ainda ia aprontar mais…

 

Ano de shows

Comemorando um gol pelo Grêmio, em 1998.

 

No começo de 1999, Ronaldinho continuou sendo chamado para a seleção brasileira júnior e só voltou a jogar pelo Grêmio em março. A torcida não aguentava de ansiedade para ver a maior revelação gremista desde Renato Gaúcho. Já com grande visibilidade no exterior, Ronaldinho precisava de mais tempo dentro de casa e de finais para provar seu valor a um público ainda maior. Foi então que o grande momento chegou. Logo na estreia do Campeonato Gaúcho, marcou dois gols na vitória por 3 a 2 sobre o Guarani. Seriam os primeiros dos 15 gols que ele marcaria no primeiro torneio profissional em que ele foi artilheiro. Jogo após jogo, o craque entortava rivais, dava dribles impressionantes e arrastava mais e mais torcedores ao Olímpico e ao interior gaúcho. Dava gosto ver aquele garoto de 19 anos jogar. Depois de passar por todos os adversários, o Grêmio chegou à final do Estadual.

O adversário seria o Internacional, que tinha no elenco o veterano Dunga, capitão do tetracampeonato mundial do Brasil. Após uma vitória para cada lado, o terceiro duelo da final seria no Olímpico, lotado. E, sem se importar com pressão ou peso do rival, Ronaldinho jogou muito, fez um gol (golaço, após dar entre as pernas de Ânderson, tabelar com Capitão e fuzilar o goleiro André) e deu o título gaúcho ao Grêmio. Mas não foi só isso. Ronaldinho aplicou talvez os dribles mais desconcertantes que Dunga levou na carreira, entre eles um chapéu seco, perfeito, que não deu nem tempo do volante tentar correr atrás para brecá-lo com falta. Anos depois, o craque falou com seu bom humor característico sobre aquela final tão marcante:

“Eu queria ter dado muito mais. Ele que escapou. Treinei aqueles dribles, já estavam reservados para ele. Aquilo tinha endereço (risos)”. Ronaldinho, em entrevista ao Esporte Espetacular, Maio de 2013.

Veja os dribles:

A história dos dribles foi curiosa. Após o segundo jogo da final (vencido pelo Grêmio por 2 a 0), Ronaldinho, o melhor em campo, foi levado por torcedores ilustres para comemorar em uma churrascaria. Ainda um garoto tímido e com vontades simples, o jovem esperou, foi embora e saiu correndo para um Mc Donald´s comer Big Mac, seu “domínio gastronômico” predileto. Ainda no pós-jogo, Dunga comentou que Ronaldinho “entrava com maldade” nas divididas e que haveria troco na decisão. O craque disse que era fã de Dunga e que até “figurinha dele tinha em seu álbum”. Na final, Ronaldinho mostrou sua “violência”: excesso de habilidade. Deu no que deu.

No dia seguinte ao título, Ronaldinho participava de um programa de TV com colegas de Grêmio quando soube da convocação da Seleção Brasileira anunciada por Vanderlei Luxemburgo, técnico do time à época. E o jovem estava na lista dos selecionados para a disputa da Copa América. Ele pensou até que era uma pegadinha do Faustão, mas era a pura verdade. Na chegada à concentração, todos queriam saber quem ficaria com o nome Ronaldinho, já que Ronaldo Fenômeno era conhecido assim também. Ronaldinho Gaúcho foi categórico:

 

“Eu posso ser chamado de qualquer jeito. Ele escolhe para ele e o que sobrar eu fico”. Ronaldinho, em reportagem da revista Placar, julho de 1999.

 

E o Gaúcho virou Ronaldinho de vez…

 

Olha o que ele fez!

Antes da Copa América começar, Ronaldinho tinha dado uma “palhinha” em um amistoso contra a Letônia, no dia 26 de junho, na Arena da Baixada, jogo que ele começou como titular, com a camisa 7, e deu um cruzamento perfeito para o primeiro gol do jogo, de Alex. O Brasil venceu por 3 a 0 – os outros gols foram de Roberto Carlos e Ronaldo – e viajou tranquilo para o Paraguai. Ronaldinho era reserva, dono da modesta camisa 21. A estreia da equipe foi contra a Venezuela e o Brasil vencia fácil por 4 a 0. Foi então que Luxemburgo, enfim, decidiu colocar Ronaldinho em campo. E, em seu primeiro lance no primeiro jogo oficial com a camisa da Seleção Brasileira, Ronaldinho fez isso:

 

Foi simplesmente mágico. A épica narração de Galvão Bueno foi a síntese daquele momento. Com apenas três minutos em campo, o craque fez uma obra de arte. Mostrou que merecia mais chances naquele time. E que não era, de maneira nenhuma, um jogador qualquer ou igual ao “outro Ronaldinho”. Ele era o Ronaldinho Gaúcho, com identidade própria e com muito, mas muito talento para mostrar – a propósito, o Brasil venceu por 7 a 0. Depois daquele jogo, óbvio que toda a mídia pediu Ronaldinho entre os titulares, mas o técnico Luxemburgo brecou a empolgação. O craque jogou apenas outros três jogos (sempre entrando no decorrer das partidas) e viu do banco as vitórias na semifinal e final do time canarinho contra México e Uruguai, respectivamente, que garantiram o título continental ao Brasil. Ainda em 1999, Ronaldinho ganhou a titularidade na Copa das Confederações e marcou seis gols no torneio, tornando-se artilheiro da competição e ainda o Bola de Ouro. O Brasil, no entanto, perdeu o título para o México. Já em 2000, marcou nove gols em sete jogos no Pré-Olímpico e conduziu o time canarinho aos Jogos de Sydney.

O alemão Matthäus olha com desconfiança para um jovem Ronaldinho, em 1999: “quem esse moleque pensa que é?”.

 

Mesmo jogando muito, o jogador nunca foi uma unanimidade com Luxemburgo. Na época, principalmente em 2000, o treinador achava que Ronaldinho já se considerava “uma estrela”. Nas Eliminatórias, Luxa chegou a barrar o jogador antes de uma partida contra o Equador, fato que deixou o craque bastante magoado. Em agosto daquele ano, Ronaldinho era uma das grandes esperanças nos Jogos Olímpicos de Sydney, mas o Brasil perdeu para Camarões nas quartas de final e deu adeus ao sonho do ouro olímpico. Pelo Grêmio, fez uma ótima Copa João Havelange, marcou 14 gols em 21 jogos, ganhou uma Bola de Prata e ampliou ainda mais seu repertório de dribles e jogadas plásticas. Levou o tricolor até as semifinais, mas não conseguiu bater o surpreendente São Caetano. Com o fim de um ano cheio, mas sem títulos, Ronaldinho começaria um período conturbado em sua carreira.

 

As (primeiras) desavenças e o adeus

Com um jogador do quilate de Ronaldinho, o Grêmio tratou de capitalizar a imagem do craque entre 1999 e 2000. O time não era forte para brigar por títulos de peso, mas só a presença do jogador era motivo de estádio lotado, venda de camisas e muito mais. Foram leiloados camarotes no Olímpico, pacotes de sócio-torcedor, mais jogos do time passaram a ser televisionados e até raspadinhas foram comercializadas com a imagem do craque, ídolo não só dos gremistas na época, mas principalmente da garotada, que se identificava muito com o jeito simples e alegre do jogador. Mas, no final de 2000, todo aquele romance começou a ruir. A imprensa gaúcha começou a alertar que a renovação de contrato do jogador seria tensa por causa da nova Lei do Passe, que entraria em vigor justamente em 2001 e possibilitaria aos atletas negociarem seus próprios passes sem depender dos clubes. Com isso, Ronaldinho poderia fechar com qualquer clube sem o Grêmio ganhar um centavo sequer. Vários clubes queriam o jogador, entre eles o PSG, que no dia 18 de janeiro de 2001 anunciou que estava negociando com o “petit” Ronaldo Gaúcho. Como o contrato dele terminaria em fevereiro e a tal da nova lei entraria em vigor em março, a torcida começou a temer pela saída do jogador, além de projetar um desastre financeiro tremendo para o Grêmio, que havia recusado propostas superiores a R$ 80 milhões no ano anterior. O clube tentou se blindar e colocou uma faixa no estádio dizendo “Não vendemos craques. Favor não insistir!” e almejou até o adiamento da tal lei. Mas a diretoria tricolor deveria ter previsto essa situação e trabalhado num contrato melhor. Resultado? O negócio foi fechado com o clube francês e a bomba caiu.

A tal da faixa no Olímpico: nem assim adiantou…

 

A torcida gremista começou a odiar o jogador que tanto amou. Ela se sentiu traída. Tudo aquilo começou a repercutir até em eventos por onde Ronaldinho passava. Certa vez, em uma festa no Teresópolis Tênis Clube, foi sonoramente vaiado quando anunciado pelos DJs. O jovem craque cerrou os olhos e foi embora. Ele estava arrasado. Sua vida social teve que ser reduzida até a definição de sua ida à Paris, em junho. O presidente do clube à época chegou a dizer que “os portões do Olímpico estavam fechados” para Ronaldinho e que aquilo era hereditário, em clara alusão ao irmão do jogador, Assis, principal responsável por tratar do negócio na surdina – o irmão de Ronaldinho era seu “agente” e sempre tratava (de maneira bem contestada) dos negócios da carreira do craque. Era uma pena que aquela história tivesse um desfecho tão cruel. Já na Europa, Ronaldinho teve que esperar longos cinco meses até receber o aval da FIFA e poder entrar em campo. No período, o jogador manteve a forma graças ao primo-irmão Valdimar, que era também seu preparador físico. O imbróglio entre os dois clubes só seria resolvido em 2002, quando o PSG pagou pouco mais de US$ 4 milhões ao Grêmio, que aceitou muito por causa da situação financeira do clube à época. Um “dinheiro de pinga” perto do que o tricolor poderia realmente ganhar com um jogador tão valioso.

 

Ronny e a estadia francesa

Foto: JACQUES DEMARTHON/AFP/Getty Images

 

Inimigo número 1 dos gremistas, Ronaldinho tratou de esquecer aquele episódio em sua estadia na França. Enquanto esperava para poder jogar, o jovem quis fugir do estereótipo “cabeça raspada ou cabelo curto”, tão em moda na época, e deixou as madeixas crescerem a fim de ganhar uma identidade própria – e deixar aquela característica juvenil para trás. Além disso, era uma maneira de ser “mais europeu”, segundo o próprio na época. O jogador encontrou um ambiente totalmente diferente em Paris: treinos puxados, nada de mordomias, enfim, ele era um jogador como outro qualquer no elenco do técnico Luis Fernandez, que tinha também jogadores como Heinze, Anelka, Okocha e os brasileiros Aloísio e Alex Dias. Chamado de Ronny pela imprensa francesa, que tinha dificuldade para pronunciar o “Ronaldinô Gautchô”, o brasileiro esperava conquistar títulos e ser visto por Felipão em solo francês. A estreia aconteceu em agosto de 2001, mas o primeiro gol apenas em outubro daquele ano. No começo de 2002, foi mais prolífico, marcou quatro gols em quatro jogos seguidos no Campeonato Francês, batia faltas, escanteios, encantava a torcida. Mesmo assim, o jogador não era uma unanimidade com o técnico Fernandez, que colocava o brasileiro no banco em muitas ocasiões. Para piorar, o treinador reclamava que Ronaldinho se preocupava mais com a vida noturna parisiense do que com os compromissos em campo. O fato é que a dupla não “casou” e era apenas uma questão de tempo para o jogador deixar o clube. Indiferente a tudo aquilo, Felipão chamava Ronaldinho para a seleção e convocou o craque para a Copa do Mundo de 2002. Com ele, Roberto Carlos, Cafu, Rivaldo e Ronaldo, o treinador acreditava no penta. Era a chance de Ronaldinho se exibir na maior vitrine do futebol mundial.

 

Pé quente no penta

Longe dos holofotes por causa do sufoco que passou para se classificar, o Brasil encarou bem a primeira fase da Copa. Ronaldinho foi titular no time de Felipão e vestiu a camisa 11. Após a tensa estreia contra a Turquia, o craque deu uma assistência e marcou o seu, de pênalti, na vitória por 4 a 0 sobre a China. Na vitória contra a Costa Rica, Ronaldinho, assim como outros titulares, não jogou. Na fase de mata-mata, o Brasil passou pela Bélgica por 2 a 0, mas Ronaldinho não jogou tudo que sabia. Foi então que chegou o duelo contra a Inglaterra de Ashley Cole, Beckham e Owen. No primeiro tempo, Lúcio falhou e Owen fez 1 a 0. Tensão no ar. Mas Ronaldinho estava endiabrado e iniciou a reação. Nos acréscimos do primeiro tempo, o craque recebeu no meio de campo, saiu em disparada, passou por Paul Scholes, entortou a espinha de Ashley Cole e deixou com Rivaldo, que marcou o gol de empate. Que jogada!

Na segunda etapa, aconteceu um lance para a antologia dos Mundiais. Logo aos cinco minutos, o Brasil teve uma falta a seu favor. Era de muito, mas muito longe. Muitos pensavam que Ronaldinho iria cruzar. Mas o craque viu o goleiro Seaman adiantado – como Cafu havia alertado para o craque antes do jogo – e chutou direto. A bola foi parar no ângulo direito do gol. E o estádio foi ao delírio. Virada brasileira! E que golaço! Enfim, o craque mostrava seu talento e aparecia quando o Brasil mais precisava dele. Mas, apenas sete minutos depois, Ronaldinho fez uma falta ríspida em Mills e levou o cartão vermelho do árbitro. Era um balde de água fria justo na melhor partida do craque no Mundial. Ele comentou sobre o lance na época:

 

“Foi um lance rápido. Infelizmente, não tem como voltar atrás, mas não foi para cartão vermelho. O próprio Mills, que sofreu a falta, me disse isso (na sala de exame antidoping, após o jogo). Acho que foi injusta”.Ronaldinho, em entrevista à Folha de S. Paulo, 22 de junho de 2002.

 

Veja os gols:

 

Mesmo sem o camisa 11, o Brasil segurou a vantagem e garantiu a vaga na semifinal, vencida por 1 a 0 sobre a Turquia. Na decisão, Felipão voltou a colocar o craque entre os titulares e o Brasil venceu a Alemanha por 2 a 0, com dois gols de Ronaldo. Ronaldinho não brilhou como contra a Inglaterra, mas foi o que mais deu passes certos (29) e o que mais recebeu bolas (30). Logo em sua primeira Copa, Ronaldinho era campeão. De quebra, foi eleito para o All-Star Team do Mundial pela FIFA. Era o topo para o jovem? Que nada. Ele estava só começando…

 

Na Catalunha, um novo “R” para adorar

Apresentação de Ronaldinho: o futebol jamais seria o mesmo. Foto: JOSE JORDAN/AFP/Getty Images.

 

Após a Copa, Ronaldinho aumentou ainda mais a fama e passou a ser idolatrado pela torcida do PSG. Mais golaços, mais jogadas, mais assistências. Após a saída de Fernandez do comando técnico para a entrada do bósnio Vahid Halilhodžić, o craque jogava mais leve e com a alegria que todos estavam acostumados. Um dos grandes momentos do camisa 10 foi na semifinal da Copa da França de 2002-2003, quando marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre o Bordeaux, um deles por cobertura, que rendeu aplausos do estádio e a habitual gargalhada de menino que tinha acabado de aprontar. O problema é que o time do PSG era muito fraco para um craque tão enorme. Na final, os parisienses perderam para o Auxerre. E Ronaldinho terminou mais uma temporada sem título nem vaga na Liga dos Campeões. Insatisfeito, o brasileiro deixou claro que queria deixar o clube naquele término de temporada.

As propostas começaram a chegar rapidamente e apenas dois clubes entraram na “reta final” pelo futebol do artista: Manchester United e Barcelona. E coube ao clube catalão o privilégio de contratar o brasileiro por 30 milhões de euros. Num dos maiores clubes do mundo, que tinha o projeto de crescimento para acabar de vez com a badalação do rival Galáctico Real Madrid, Ronaldinho iniciava uma nova era na carreira. Em sua apresentação, mais de 25 mil torcedores foram ao Camp Nou, algo enorme que não acontecia desde a apresentação de Maradona, lá nos anos 80. Como não poderia deixar de ser, sua presença em campo já era um evento único e a torcida ficou tão entusiasmada que, nas lojas do clube, sete em cada dez camisas vendidas eram do jogador.  

A chegada de Ronaldinho era a aposta maior do recém eleito presidente Joan Laporta para acabar com o jejum de cinco anos sem títulos do clube catalão. Para isso, ele queria logo de cara uma contratação de renome mundial. Tentou Beckham, mas o inglês foi para o Real Madrid, que não se cansava de gastar dinheiro e ficar mais forte a cada ano com Zidane, Ronaldo, Figo, e companhia. Laporta queria devolver o orgulho ao torcedor barcelonista. E colocar o time de volta nos trilhos e dar ao público um novo ídolo, já que Rivaldo havia partido em 2002 para o Milan. Seguindo a dinastia dos “erres” que tinham brilhado por lá – Romário, Ronaldo e Rivaldo, a tendência era que Ronaldinho também brilharia. Mas nem o mais otimista torcedor imaginaria frutos em tão pouco tempo.

 

Começam os shows

Mais reservado e morando com toda a família em Barcelona, Ronaldinho fez questão de não deixar transparecer sua vida pessoal à frenética imprensa espanhola. Dificilmente saía a noite, ficava mais em casa ouvindo pagode, jogando videogame com os amigos e dormindo. Fora de seu porto seguro, queria simplesmente jogar futebol. A estreia do jogador aconteceu em julho de 2003, num amistoso contra a Juventus-ITA. O primeiro gol, contra o Milan-ITA, em outro amistoso, e o primeiro tento oficial em setembro, no empate em 1 a 1 contra o Sevilla, pelo Campeonato Espanhol, quando driblou dois marcadores e chutou de fora da área para marcar um golaço que fez explodir o Camp Nou. Depois disso, vieram grandes jogadas, mais golaços e os dribles sempre em direção ao gol ou com um propósito, nunca em vão. Com a bola nos pés, Ronaldinho a tinha como uma quase extensão de seu corpo, esbanjava visão e não se importava com os rivais. No dia 17 de janeiro de 2004, aplicou um chapéu triplo (!) num mesmo adversário e com outro em sua cola em um lance contra o Athletic Bilbao, no Camp Nou, no empate em 1 a 1 entre as equipes. Foi um estrondo! No auge da forma física, tinha velocidade, explosão e força. Nas bolas paradas, era um verdadeiro demônio e quase sempre marcava. Ao término da temporada, seu Barça não ganhou títulos, mas ele foi crucial para a arrancada do time no segundo turno e que rendeu o vice-campeonato. Ronaldinho marcou 14 gols e ganhou o prêmio EFE de melhor jogador latino americano do torneio. Além disso, ele poderia, enfim, disputar sua primeira Liga dos Campeões na temporada 2004-2005.

 

“Eu sou F&%@!”, melhor do mundo e campeão!

Ronaldinho no instante em que grita sua famosa frase após o golaço contra o Milan: ele realmente era f%$@!

 

Feliz da vida com a contratação de Ronaldinho, o Barcelona foi às compras para a temporada de 2004-2005 e contratou nomes como Eto’o, Giuly, Deco e Edmílson para brigar pelo título do Campeonato Espanhol, que não vinha desde 1999. E, com um padrão de jogo bem definido pelo técnico Frank Rijkaard e a rápida sintonia entre Ronaldinho e Eto’o (sem dúvida, o camaronês foi o melhor companheiro de ataque do brasileiro na carreira), o Barça simplesmente voou. Com um início de campeonato arrasador – sete vitórias nas primeiras oito rodadas e um 3 a 0 sobre o rival Real Madrid, com show de Ronaldinho – o clube catalão caminhou a passos largos para ser campeão. O camisa 10 dava show, marcava golaços, dava assistências e fazia de tudo no ataque da equipe. Mas, em 2004, um jogo ficou marcado para sempre. Pela Liga dos Campeões, o Barça caiu no mesmo grupo que o fortíssimo Milan-ITA de Maldini, Nesta, Shevchenko e companhia. No turno, os italianos venceram por 1 a 0. No returno, a partida no Camp Nou foi terrível, com o esquadrão rossonero quase todo lá atrás e contendo como podia as investidas do forte ataque catalão. Para piorar, Shevchenko, sempre ele, abriu o placar para os italianos. Mas Eto’o empatou após passe de Xavi. Na segunda etapa, o Barça continuou pressionando e o Milan apostava nos contra-ataques. Ronaldinho tentava de falta, de arrancada, com chutes de fora da área e nada de a bola entrar. Mas ele queria vencer aquele esquadrão. E, aos 44’, o craque aprontou das suas. Após receber de Eto’o, ele foi para a entrada da área. À sua frente, a muralha Nesta. Com um drible seco, rápido e sensacional, ele deixou o badalado italiano a ver navios. Com espaço, chutou forte, com raiva, e venceu Dida: 2 a 1.

O número 1. Foto: Miguel Ruiz / Marca.

 

Na comemoração, Ronaldinho não se segurou. Saiu correndo com raiva dizendo “eu sou f&%@!”, tirou a camisa e fez o Camp Nou explodir. Que jogaço! E que golaço! Foi um dos jogos mais incríveis daquela Liga dos Campeões e um prazer imenso para quem teve o privilégio de ver tanta gente boa em campo. Depois daquele jogo épico, não teve jeito. A FIFA elegeu o craque o Melhor do Mundo em 2004. Prêmio justíssimo ao maior artista do futebol naquela época.

Já no primeiro semestre de 2005, Ronaldinho tinha esperança de ir mais longe na Liga dos Campeões, ainda mais depois de ser eleito o melhor do mundo. Mas, já nas oitavas de final, seu Barcelona enfrentou o Chelsea-ING, um páreo duríssimo. Na ida, vitória catalã por 2 a 1. Na volta, o Chelsea se impôs e fez 3 a 0 em apenas 19 minutos. Aos 27’, Ronaldinho, de pênalti, diminuiu. E, poucos minutos depois, incendiou o jogo num lance épico. Após receber na meia lua, o craque olhou para o gol e viu apenas jogadores azuis. Um jogador comum iria tocar de lado ou chutar com violência para tentar furar aquele paredão que impossibilitava qualquer boa visão. Mas ele era Ronaldinho. O craque gingou a cintura para um lado, para o outro e chutou assim…

 

Sem distância, sem passada larga. Apenas com talento e força. O badalado goleiro Petr Cech nem se moveu. Que golaço! Uma pena que, no segundo tempo, o Chelsea tenha feito mais um e vencido por 4 a 2, pois aquele gol deveria ter valido por dois, três. Mesmo classificado, o Chelsea viu sua vaga ficar em segundo plano tamanha a repercussão do golaço do camisa 10 catalão. Com o fim do sonho na Liga, Ronaldinho continuou firme e ajudou o Barça a enterrar de vez o jejum no Campeonato Espanhol. A campanha foi incontestável: 25 vitórias, nove empates, quatro derrotas, 73 gols marcados (melhor ataque) e 29 sofridos (melhor defesa). Enfim, Ronaldinho vencia um grande torneio na Europa. Mas ainda tinha mais uma taça por vir, só que com outra camisa.

 

Capitão e campeão

Em junho de 2005, Ronaldinho foi a estrela principal da Seleção Brasileira na disputa da Copa das Confederações, na Alemanha. Com a folga que o técnico Parreira deu à Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo, coube ao craque comandar um time mesclado no torneio. No ano anterior, o Brasil também tinha enviado a uma competição oficial um time reserva, na Copa América, quando ainda sim venceu a rival Argentina num jogo histórico que você pode ler aqui. Após uma vitória fácil por 3 a 0 sobre a Grécia, a equipe caiu de produção e perdeu para o México por 1 a 0. No último jogo da primeira fase, apenas empatou com o Japão em 2 a 2, mas se garantiu na segunda fase. E foi nela que o Brasil cresceu. Com Ronaldinho como capitão, a equipe enfrentou a Alemanha na semifinal e venceu por 3 a 2, com um gol de pênalti do craque.

Na final, o Brasil teve pela frente a Argentina. E, no maior clássico sul-americano, deu show. Com dois golaços de Adriano, um de Kaká e outro de Ronaldinho – que bateu de primeira após cruzamento de Cicinho, o Brasil venceu por 4 a 1 e levantou mais uma taça sobre o rival. Aliás, o que jogou aquele time nos jogos com a Alemanha e Argentina foi um absurdo. Dribles, passes rápidos, velocidade. Era o Brasil artístico que tanta gente estava acostumada a ver. Tais atuações só aumentaram o favoritismo do Brasil para a Copa de 2006. E Ronaldinho, no auge, era a maior esperança.

 

Aplausos para o Melhor do Mundo

Ainda mais entrosado com Eto’o, Deco e companhia e liderando um time que jogava cada vez melhor, Ronaldinho queria mais um título espanhol naquela temporada 2005-2006. Ainda no primeiro turno, a equipe emendou 14 vitórias seguidas entre as 8ª e 21ª rodadas e parecia não ter rivais. Nesse período, o time catalão teve pela frente o rival Real Madrid, no dia 19 de novembro, no Santiago Bernabéu. E, nesse jogo, Ronaldinho só realçou o que todo mundo sabia: que ele era um fora de série. Em uma de suas partidas mais emblemáticas da carreira, o craque marcou dois golaços no segundo tempo e deu a vitória por 3 a 0 do Barça sobre o Real. Primeiro, recebeu no meio de campo, pela esquerda, arrancou em velocidade, driblou um, entrou na área, driblou outro e bateu no canto de Casillas. Alguns minutos depois, Ronaldinho recebeu outra vez na esquerda, um pouco mais à frente da jogada anterior, e partiu em disparada com a mesma ginga e impetuosidade. Dessa vez, ele invadiu a grande área merengue com uma naturalidade tremenda, sem dar bola para os marcadores e para a presença de Casillas e guardou mais um. Enquanto comemorava, a reação do estádio foi uma só: aplaudir, de pé, aquele espetáculo. Era o reconhecimento pleno ao talento do jogador, ovacionado pelo próprio rival, num gesto de respeito ao futebol arte. Adivinhe o que aconteceu no final do ano? O craque foi eleito mais uma vez o Melhor do Mundo e ainda abocanhou o Ballon d’Or da France Football. Ninguém podia com ele. Ele era uma estrela mundial, requisitado em diversas campanhas de marketing e a grande vedete do planeta bola. Mas ainda faltava uma coisa para o craque: a Liga dos Campeões.

 

Enfim, no topo da Europa

Como não poderia deixar de ser, o Barcelona venceu o Campeonato Espanhol daquela temporada e Ronaldinho foi o maior assistente do torneio com 13 passes para gols. Foi um título tranquilo, que mostrou a maturidade do time e dos jogadores. Mas a grande obsessão era a Liga dos Campeões. Na fase de grupos, o Barça venceu cinco jogos e empatou apenas um, ficando na liderança do Grupo C, seguido de Werder Bremen, Udinese e Panathinaikos. Ronaldinho marcou um gol na vitória sobre o Werder por 2 a 0, na Alemanha, e um no triunfo por 3 a 1, em casa, e fez três na goleada de 4 a 1 sobre a Udinese, em casa. Nas oitavas, reencontro com o algoz do ano anterior: o Chelsea. E Ronaldinho conseguiu sua vingança. Na ida, em Londres, o Barça venceu por 2 a 1 e foi tranquilo para a volta, no Camp Nou tomado por mais de 98 mil pessoas. Nesse jogo, Ronaldinho deu “cátedra de fútbol”. Ele humilhou os ingleses. Passes de calcanhar, chapéu, pedaladas, dribles de entortar espinhas… O craque fez de tudo. E, claro, um gol depois de passar por três marcadores. O empate em 1 a 1 classificou o Barça. E Ronaldinho esbanjou seu talento num jogo que Messi também jogou, em uma das poucas partidas que os dois maiores ídolos do clube no século XXI atuaram juntos.

Nas quartas, o Barça viajou até Lisboa e empatou sem gols contra o Benfica. Na volta, Eto’o cruzou e Ronaldinho deu um chutaço de primeira para abrir o placar, aos 19’ do primeiro tempo. Na segunda etapa, Eto’o fez o seu e o time catalão alcançou a semifinal. Nela, um velho conhecido: o Milan-ITA, vice-campeão na temporada anterior. O primeiro duelo foi no San Siro, com quase 80 mil torcedores. Foi duro, com o Barça sem espaços e o Milan sempre com sua marcação implacável. Só um fora de série poderia encontrar uma brecha. E ele encontrou. Aos 12’ do segundo tempo, Ronaldinho escapou da marcação do carrapato Gattuso, deixou o italiano no chão e, com um passe magistral, colocou a bola nos pés de Giuly, que venceu Dida e marcou o único e salvador gol do jogo: 1 a 0. Na volta, ninguém conseguiu balançar as redes do Camp Nou (foi a primeira vez depois de 30 jogos que o Barça não marcou em seu estádio), os jogadores fizeram muitas faltas – foram 21 do Barça e 25 do Milan, mas o time de Ronaldinho estava na final.

Puyol e Ronaldinho com a taça da Liga. Foto: GABRIEL BOUYS/AFP/Getty Images.

 

Em Saint-Denis, na França, o Barça teve um teste duríssimo: o Arsenal de Henry, esquadrão fantástico e dificílimo de ser vencido (leia mais sobre ele clicando aqui). Com um a menos desde os 18’ do primeiro tempo após a expulsão do goleiro Lehmann, o Arsenal conseguiu abrir o placar com Campbell, aos 37’, e se fechou em seu campo a partir dali. O jogo ficou dramático e, debaixo de muita chuva, o jogo artístico do Barça e de Ronaldinho foram prejudicados. Bem marcado, o craque tinha dificuldades para aparecer, mas, quando aparecia, levava perigo. Até que, aos 26’, Eto’o empatou. E, aos 30’, o reserva Belletti fez o gol da vitória e do título: 2 a 1. Ao apito do árbitro, o Barcelona, enfim, voltava a conquistar a Europa. E Ronaldinho levantava o maior troféu que lhe faltava por um clube. Era o fim da considerada melhor temporada da carreira do craque, que marcou 26 gols, deu várias assistências e foi crucial para as glórias do Barcelona. Mas, depois de tantas coisas boas, ele entraria em uma fase bem diferente.

 

Tempos de decepções

Ronaldinho com a bola e cabisbaixo: Copa de 2006 foi para esquecer. (AP Photo/Fernando Llano).

 

Em 2006, Ronaldinho foi para a Alemanha disputar a Copa do Mundo. Ele e seu Brasil eram os grandes favoritos. E todo o planeta esperava um Mundial incrível do craque. Mas ele – e toda a seleção – foi só decepção. Visivelmente longe de sua melhor forma física após uma temporada frenética e cheia pelo Barça – antes mesmo da Copa, ele foi poupado de vários treinos físicos para tentar se recuperar, em vão – Ronaldinho não fez absolutamente nada no Mundial. Errou dribles, não deu assistências plásticas, não marcou gols. Não foi Ronaldinho. Ele reclamou que não jogava como no Barça e, quando foi escalado como desejava, na partida contra a França, também não rendeu. Resultado: França 1×0 Brasil. Brasil eliminado. Foi o fim da linha da geração do penta e o fim da ilusão que era aquele time: muitos nomes, mas mal escalados e cheios de soberba. Tivesse utilizado o time da Copa das Confederações, Parreira teria um resultado melhor.

Após a Copa, não foi só Ronaldinho que caiu de produção. O seu Barça também deixou a magia das temporadas anteriores de lado. Após perder a Supercopa da UEFA, a equipe viajou até o Japão para a disputa do Mundial de Clubes e sucumbiu diante do Internacional de Fernandão e companhia (leia mais clicando aqui), que bateu os catalães por 1 a 0. Ronaldinho não desequilibrou e mais uma vez decepcionou. O auge, estava claro, havia passado. O Barça não venceu o tri na liga espanhola e, na temporada 2007-2008, uma lesão o tirou de combate em abril de 2008. A queda de rendimento coincidiu com o mesmo período em que o craque passou a frequentar mais a vida noturna e as festas. Vencedor de praticamente tudo o que um jogador poderia almejar na carreira e após anos de tanta dedicação em treinos e competições, parecia que ele queria dar “um tempo”. O presidente do Barça, Joan Laporta, disse na época que Ronaldinho “precisava de novos desafios, de um novo clube, para retomar a carreira”. De fato, precisava mesmo. Em julho de 2008, o craque recusou uma proposta do Manchester City (o futebol inglês nunca foi o preferido do jogador) e aceitou jogar no Milan-ITA, onde foi recebido por incríveis 40 mil pessoas em sua apresentação no San Siro. Sobre aquele período conturbado, o jogador comentou:

 

A Copa de 2006 foi uma experiência horrível para mim e para todo o time. Antes, me consideravam o Pelé; depois, foram só críticas. Disseram que eu não tinha mais vontade de jogar, que eu tinha ido para a noite após o jogo. Ninguém me perguntou como é que eu me sentia. Eu poderia ter respondido o quanto fiquei decepcionado. Mas aprendi muito com tudo isso”.Ronaldinho, em entrevista ao jornal La Gazzetta dello Sport e reproduzida pelo ClicRBS, 04 de agosto de 2008.

 

Ele falou, também, sobre o começo de 2008, quando ficou contundido: “Nunca tive de parar de jogar por tanto tempo. Não podia nem treinar. Quanto mais eu olhava jogos pela televisão, mais eu ficava triste. Felizmente, minha família me protegeu e me deu forças, mesmo sofrendo junto comigo. Acusaram meu irmão, que também é meu agente, de me desestabilizar, de estar interessado apenas em dinheiro. Mas fomos todos em frente. Virei um Maradona, no centro das polêmicas. Quando estou de férias, faço o que eu quiser. Durante a temporada, comporto-me como um profissional sério. Mas quando o campeonato termina, estou livre. Não podemos misturar as coisas. Para ser um bom atleta, é preciso se sentir bem, ser feliz. Dou o máximo de mim dentro de campo, mas quando termina este período, eu aproveito a vida”.


Ainda em 2008, Ronaldinho foi lembrado por Dunga para ser o capitão do Brasil na disputa das Olimpíadas de Pequim como um dos maiores de 23 anos. Na primeira fase, o Brasil passou bem por Bélgica (1 a 0), Nova Zelândia (5 a 0, com dois gols de Ronaldinho) e China (3 a 0). Nas quartas, vitória por 2 a 0 sobre Camarões na prorrogação. Mas, na semifinal, o Brasil levou de 3 a 0 da forte Argentina de Messi, Agüero e Riquelme e deu adeus ao ouro olímpico. Na disputa do bronze, vitória sobre a Bélgica por 3 a 0 e amarga consolação. Seria difícil para o craque voltar à seleção depois daquilo. Ele teria que provar que merecia estar no elenco da Copa de 2010 jogando pelo Milan.

 

Voltando a brilhar

No Milan, Ronaldinho marcou seu primeiro gol na melhor ocasião possível: num clássico contra a Internazionale, de cabeça, na vitória de seu time por 1 a 0. Em sua primeira temporada pelo clube italiano, não chegou a ser titular absoluto, e marcou oito gols em 29 jogos na Serie A. Na temporada seguinte, na qual foi eleito o “futebolista da década” pela revista World Soccer, Ronaldinho começou no banco, mas foi voltando à sua melhor forma e foi o melhor jogador do time. Com passes incríveis, gols e grandes jogadas, levou esperança de dias melhores à torcida, que viu o time se enfraquecer bastante depois da ótima temporada 2006-2007 (leia mais clicando aqui). Em janeiro de 2010, marcou dois gols na vitória por 3 a 0 sobre a rival Juventus, e, contra o Siena, fez seu primeiro hat-trick com três golaços. A prova de sua grande temporada foi o prêmio de maior assistente da Serie A com 14 passes, além de 12 gols marcados. Pela Liga dos Campeões, o craque deu show nas oitavas de final contra o Manchester United, quando marcou um gol e deu passe para outro, mas seu time perdeu o jogo decisivo por 3 a 2 em pleno San Siro e acabou eliminado. Mesmo com todo o empenho do jogador, Dunga não se comoveu e deixou o craque de fora dos convocados para a Copa do Mundo de 2010. As aparições do craque com a amarelinha minguavam cada vez mais – em 2009 ele fez apenas três jogos, em 2010, apenas um. O fato é que nem com ele o fraquíssimo time brasileiro teria ido bem na África. A seleção foi eliminada pela Holanda nas quartas de final. E não deixou saudades.

Na temporada seguinte, Ronaldinho se mostrava bem triste na Europa pelo fato de não ter um bom time para brigar por títulos e ainda alternar jogos no banco. Foi então que o jogador começou a desejar voltar ao Brasil, fato que deixou todos os clubes em polvorosa. Sem se importar com o passado, ele não descartava uma volta ao Grêmio:

 

“Não sou objeto de leilão. Pela minha vontade, já estaria com a camisa do Grêmio, até ganhando menos. O problema não é a proposta que fizeram para mim, mas o que o Milan está pedindo. Ninguém chegou perto (a multa era em torno de 8 milhões de euros)”. Ronaldinho, em entrevista ao Globo.com e extraída do Lancenet, 05 de janeiro de 2011.

Em janeiro de 2011, em vinda ao Brasil, o jogador confirmou que estava de saída e muitos rumores começaram a surgir. Grêmio, Palmeiras e Flamengo eram os clubes favoritos a contar com o craque. Quem será que levaria?

 

Novas desavenças e a ida ao Flamengo

Curiosamente, depois da saída de Ronaldinho, o Milan foi campeão italiano na temporada 2010-2011, um título que o brasileiro acabou ganhando por tabela pelo fato de ter disputado 11 jogos da campanha. Mas, diferente dos outros títulos da carreira, esse não teve muito peso para ele. Ronaldinho disputou 95 jogos e marcou 26 gols pelo Milan. Teve apoio da torcida, uma ótima temporada – em 2009-2010, mas jogou muito menos do que queria e podia.

Durante as negociações no Brasil, Assis fez um verdadeiro leilão e irritou os clubes interessados no craque. No fim, quem acabou oficializando a contratação do jogador foi o Flamengo, que preparou uma enorme festa na Gávea com cerca de 20 mil pessoas para o camisa 10. Porém, mais uma vez Ronaldinho deixou irada a torcida do Grêmio. Se havia alguma chance de ele se redimir seria indo para o clube gaúcho. Mas, com a ida ao Rio, ele definitivamente fechou qualquer esperança de reconciliação com o clube que o revelou.

No Flamengo, Ronaldinho ganhou o Campeonato Carioca, mas suas atuações – bem como de todo o time – foram muito abaixo do esperado naquele começo de ano. Após a eliminação do rubro-negro da Copa do Brasil, a torcida começou a pegar no pé do meia. E parece que deu certo. No Brasileirão, Ronaldinho emendou uma série de boas partidas, começando nos 4 a 1 sobre o Atlético-MG, em junho, quando marcou um gol. Em julho, o craque fez sua melhor partida com a camisa rubro-negra e foi um dos protagonistas de um jogo histórico. Contra o Santos, na Vila Belmiro, o Flamengo perdia por 3 a 0 até que Ronaldinho marcou três gols e capitaneou o time na virada por 5 a 4, com um golaço do craque de falta após chutar a bola por baixo da barreira e comemorar ao seu estilo, gargalhando de felicidade. O Imortais já relembrou esse jogo (clique aqui).

Sua boa fase até o levou de volta à seleção, pela qual marcou gol de falta e fez bons jogos contra a Argentina no Superclássico das Américas, conquistado pelo time canarinho e no qual Ronaldinho foi capitão. Em outubro daquele ano, o jogador teve um dos momentos mais indigestos da carreira: voltar à Porto Alegre para enfrentar o Grêmio. Como não poderia deixar de ser, todo um ambiente foi criado para transformar o Olímpico num caldeirão de hostilidade e vaias. Faixas com críticas e até notas de R$ 3 com a imagem do jogador foram criadas. Em campo, Ronaldinho começou sem se importar com tudo aquilo e quase marcou um belo gol de falta, mas o goleiro Victor defendeu. Com o desenrolar do jogo e a vitória gremista por 4 a 2, o jogador não brilhou e sentiu o golpe dos mais de 44 mil tricolores que o vaiaram e xingaram sem dó todo e qualquer toque na bola dado pelo camisa 10. No fim do ano, o Flamengo acabou longe do título nacional, mas Ronaldinho foi o artilheiro da equipe com 14 gols, além de ter sido o artilheiro do clube no ano com 21 tentos em 52 jogos.

O amargo reencontro com a torcida do Grêmio foi bem indigesto para o craque.

 

Má fama e a saída

Em 2012, vários problemas começaram a ruir a estadia do jogador na Gávea. Primeiro, vieram os atrasos nos salários, que eram obrigação da Traffic. Como a empresa não pagava e o Flamengo muito menos, o clima começou a esquentar. No começo do ano, ele já não sabia se continuaria no clube e viveu momentos de crise com o técnico Luxemburgo por supostamente ter levado uma mulher à concentração do time, em Londrina (PR), na pré-temporada. Aliás, a boemia do jogador aumentou em 2012 e o craque era visto em diversas festas no Rio, além de ele organizar as suas próprias. Sem jogar bem e faltando aos treinos, Ronaldinho e o Flamengo foram igualmente pífios no primeiro semestre, o rubro-negro foi eliminado de tudo o que disputou, a Traffic entrou em litígio com o clube e Ronaldinho, que tinha mais de R$ 40 milhões para receber juntando os seis meses de salários atrasados e direitos de imagem, encerrou seu contrato com o Fla. Um episódio que mostrou bem aquela bagunça toda aconteceu em maio, quando Assis foi até uma loja do Flamengo, pegou 40 itens e disse que não iria pagar: “O Flamengo não paga meu irmão, então não vou pagar também”. Foi cômico, para não dizer trágico. E uma vergonha para ambas as partes. Com a imagem arranhada e futebol fraco, será que ainda haveria espaço para o jogador no futebol?

 

A ressurreição

Ronaldinho no Galo: aposta foi considerada de risco na época. Só se fosse para os rivais!

 

Dias após deixar o Rio, Ronaldinho foi para Belo Horizonte. Destino? O Atlético-MG, que contratou o jogador por seis meses após uma conversa entre Assis e Alexandre Kalil, presidente do Galo. Ronaldinho receberia ¼ do que ganhava no Flamengo e encontraria um ambiente bem mais tranquilo, além de um time melhor e que poderia brigar por títulos. Cercado de desconfiança – ainda mais por estar na “capital mundial dos bares” e ter recebido até cartaz de “boas vindas” de uma boate, o jogador começou a provar, jogo após jogo, que ainda tinha lenha para queimar. Vestindo a camisa 49, em homenagem à mãe, que nasceu em 1949 e passava por problemas de saúde à época, Ronaldinho se entrosou rapidamente com Bernard e Jô e fez do Galo a sensação do Campeonato Brasileiro de 2012. Os jogos do time eram recheados de gols, jogadas de efeito e, claro, o talento de Ronaldinho, que voltava a jogar bem e com alegria. O craque fez nove gols no campeonato (um deles um golaço no 2 a 2 contra o rival Cruzeiro, quando saiu em disparada do meio de campo, driblou um, dois, driblou o mesmo jogador do primeiro drible de novo e chutou), foi o maior assistente do torneio com 13 passes para gols e eleito o melhor da competição pela revista Placar. Além de tudo isso, encheu os olhos do torcedor alvinegro com suas atuações e virou um ídolo instantâneo da galera. O Galo foi vice (o campeão foi o Fluminense – leia mais clicando aqui), mas foi o alvinegro quem jogou bonito. O próprio Flu “caiu no Horto” no returno, ao ser derrotado por 3 a 2, num dos grandes jogos daquela competição.

Ronaldinho e Jô: dupla de ataque afinada do Galo.

 

Em 2013, Ronaldinho renovou seu contrato para a disputa da Libertadores. Paralelo a ela, o time disputou o Campeonato Mineiro e foi campeão no Mineirão, que havia passado por reformas para abrigar jogos da Copa do Mundo. Foi o primeiro título de Ronaldinho pelo Galo. Na competição continental, ele foi protagonista de diversos grandes momentos do time. Na primeira fase, na estreia contra o São Paulo, Ronaldinho foi malandro. Logo aos 13´, o craque enganou o goleiro Rogério Ceni ao beber da água do são-paulino enquanto o jogo seguia. Porém, o Galo teve um lateral a seu favor perto da área tricolor e Ronaldinho ainda estava por lá. Como em lateral não existe impedimento, a cobrança do arremesso foi diretamente para o camisa 10 (na Liberta, ele mudou de número), que armou a jogada do primeiro gol do jogo, marcado por Jô. No segundo tempo, Ronaldinho foi outra vez decisivo ao cruzar na cabeça de Réver, que ampliou: 2 a 0. Aloísio ainda descontou para o São Paulo, mas a vitória foi mesmo do Galo.

“Deixa eu tomar uma aguinha aqui…”. Malandragem…

 

O time mineiro seguiu tinindo e garantiu a classificação por antecipação em primeiro lugar de um grupo que ainda tinha Arsenal-ARG e The Strongest-BOL. Ronaldinho brilhou e deu show contra os argentinos no jogo de volta, em Minas, quando marcou um gol de pênalti e outro golaço, num sutil toque por cima do goleiro, na goleada de 5 a 2. No último jogo, contra o São Paulo, a equipe mineira perdeu por 2 a 0, num jogo sem grande interesse do Galo. Ronaldinho, ao final do jogo, disse que a partida havia sido “um grande treino” para o mata-mata. A declaração do craque deixou os tricolores muito bravos, e, curiosamente, foi contra o próprio São Paulo que o Atlético jogou as oitavas de final.

Num clima de revanche, o Morumbi lotou no primeiro jogo e explodiu em alegria quando o São Paulo abriu o placar logo aos oito minutos. Mas, aos 42’, Ronaldinho empatou, de cabeça, lembrando muito seus tempos de Milan, quando marcou vários gols desse tipo após cobranças de escanteio. Na segunda etapa, Diego Tardelli virou e selou a vitória de virada por 2 a 1. Na volta, no Independência, o Atlético foi simplesmente arrasador: 4 a 1, com um show coletivo do time, bola na trave de Ronaldinho em cobrança de falta, três gols de Jô e passe “vesgo” de Ronaldinho para o último gol. Foi uma festa! No fim do jogo, o camisa 10 foi questionado sobre o “treino” da primeira fase: “Quando tá valendo, tá valendo!”. A América estava muito mais perto.

 

Melhor do continente!

Após passar com sufoco pelo Tijuana-MEX, o Galo enfrentou o perigoso Newell´s Old Boys-ARG na semifinal e perdeu a ida, na Argentina, por 2 a 0. Na volta, Bernard abriu o placar logo aos dois minutos após passe magistral de Ronaldinho. O jogo foi tenso, o Galo fez 2 a 0 e a decisão foi para os pênaltis. Nela, Ronaldinho fez o seu e o Galo venceu por 3 a 2, garantindo a sonhada vaga na final. No primeiro duelo, no Paraguai, o Olimpia se impôs e fez 2 a 0. Na volta, o Mineirão jogou junto e o Atlético fez 2 a 0, com nova atuação exemplar de todo o time. Ronaldinho foi um dos motores do meio de campo, trouxe a marcação para si e foi crucial para a vitória. Na disputa dos pênaltis, ele iria bater a quinta cobrança, mas nem precisou: o Olimpia errou dois chutes e o Galo sagrou-se campeão continental. Era uma das poucas glórias que faltavam para Ronaldinho. Enfim, o craque conquistava um grande título por um clube brasileiro e enterrava de vez as críticas. De quebra, o jogador entrava para o seletíssimo grupo de atletas que venceram a Liga dos Campeões da UEFA, a Copa Libertadores e a Copa do Mundo na carreira. O craque, emocionado, falou sobre a conquista e sobre as críticas:

 

“Passa um filme na cabeça, muita coisa. Voltei para o Brasil para conquistar o que não tinha conquistado e quando conquista a sensação é de trabalho realizado. No momento mais difícil da minha vida foi essa torcida que me abraçou. Até pouco tempo atrás era o Jô acabado, Ronaldinho acabado. Renegados. O Jô voltou à seleção, campeão de tudo, artilheiro, Copa das Confederações, mostrando que nem sempre o atleta é o errado. Às vezes tem muita coisa extra-campo. Não estou dizendo que o atleta não comete erro fora de campo. Mas tá aí, entramos para a história do Galo”. – Ronaldinho,  em entrevista à ESPN Brasil, 25 de julho de 2013.

 

Naquele ano, o craque ainda ganhou o prêmio de Futebolista do Ano na América do Sul. Porém, nem tudo foi alegria em 2013. No final da temporada, Ronaldinho e seu Galo caíram no Mundial de Clubes já nas semifinais para o Raja Casablanca por 3 a 1 (Ronaldinho fez um gol de falta) e o sonho do título mundial ruiu. O resultado acabou encerrando, também, as esperanças do jogador de conseguir uma vaga na Copa do Mundo de 2014 – ele já havia ficado de fora da Copa das Confederações de 2013. Em 2014, Ronaldinho decidiu encerrar seu ciclo no Galo após o título da Recopa Sul-Americana e aceitou jogar no futebol mexicano, mais precisamente no desconhecido Querétaro.

 

Mais aplausos e o fim

No México, terra onde o futebol brasileiro sempre foi adorado, Ronaldinho teve tempo para mostrar um pouco do seu encanto ao modesto time do Querétaro, pelo qual disputou o Campeonato Mexicano e ajudou a equipe a chegar até a final do Clausura de 2015, mas o time perdeu a decisão para o Santos Laguna. Ronaldinho foi o quarto maior assistente com quatro passes para gol, fez a alegria da torcida com seus dribles e jogadas plásticas e ainda fez história no místico estádio Azteca, num jogo contra o tradicional América. Aos 39’ do segundo tempo, o jogador entrou em campo e, em apenas oito minutos, marcou dois gols, um após receber passe de Danilinho e, depois, após tabelar com um companheiro e chutar da entrada da área. O Querétaro venceu por 4 a 0 e Ronaldinho foi aplaudido de pé pela torcida da casa, como na vez que foi ovacionado pelos torcedores do Real Madrid nos tempos de Barcelona. Também me aconteceu no Bernabéu, e agora aqui. É algo que jamais vou esquecer”, disse o jogador após o jogo.

No mesmo ano de 2015, Ronaldinho deixou o Querétaro após 29 jogos oficiais e oito gols. Já com 35 anos, o craque percebia que estava chegando a hora de parar. Em julho daquele ano, foi surpreendentemente apresentado pelo Fluminense, mas nem esquentou com a camisa tricolor e pediu para deixar o clube, sem custos com a rescisão, após míseros nove jogos e nenhum gol. Seria o último clube do craque. E o fim abrupto de sua carreira profissional, sem uma despedida digna nem um aviso oficial, coisas bem aquém do que ele merecia.

 

Mágico da arte

Após deixar o Flu, Ronaldinho começou a participar de partidas amistosas, virou embaixador do Barcelona pelo mundo e passou a curtir a vida. Sem mais se preocupar com a mídia, o jogador costuma ver jogos da NBA, participa de eventos sociais e bate uma bolinha sempre que possível. O fato é que Ronaldinho se consagrou como um dos maiores jogadores que o futebol já teve e, talvez, o mais habilidoso e que melhor tratou a bola em décadas. Os lances, os gols e as jogadas de sua autoria foram sempre impressionantes, de tirar o fôlego, artísticas. Com títulos e números fabulosos, dispensa comentários ou contestações. Foi ídolo de gerações e marcou uma leva incontável de torcedores espalhados pelo mundo. Arrastou multidões por onde passou, causou alvoroço, teve peças de sua vestimenta levadas até pelos rivais em idolatria e até virou nome de abelha, em 2012, quando biólogos de Minas encontraram uma nova espécie e a batizaram com o nome Eulaema quadragintanovem. O “quadragintanovem” representa o número 49, em latim, uma homenagem à camisa do jogador quando atuava pelo Atlético. Até a ciência se rendeu a ele. Também pudera. O Rei do Drible foi mesmo sensacional e a personificação da alegria e da magia em campo. Um craque inesquecível. E imortal.

 

Números de destaque:

Disputou 145 jogos e marcou 45 gols pelo Grêmio.

Disputou 75 jogos e marcou 25 gols pelo PSG.

Disputou 207 jogos e marcou 94 gols pelo Barcelona.

Disputou 95 jogos e marcou 26 gols pelo Milan.

Disputou 72 jogos e marcou 28 gols pelo Flamengo.

Disputou 88 jogos e marcou 28 gols pelo Atlético Mineiro.

Disputou 29 jogos e marcou 8 gols pelo Querétaro.

Disputou 09 jogos e não marcou gols pelo Fluminense.

Disputou 97 jogos e marcou 33 gols pela Seleção Brasileira.

 

Marcou cerca de 287 gols em 817 jogos na carreira (sem contar amistosos e competições juvenis).

Na carreira, deu mais de 160 assistências para gols.

 

Leia mais sobre o Barcelona de Ronaldinho clicando aqui.

Leia mais sobre o Atlético de Ronaldinho clicando aqui.

 

Extras:

Veja um golaço de cobertura que ele marcou pelo PSG.

 

Veja um jogo contra o Olympique de Marselha na temporada 2002-2003 que Ronaldinho deu show.

 

O primeiro gol pelo Barça.

 

O famoso chapéu triplo.

 

Jogaço contra o Milan

 

O show contra o Real.

 

Aula contra o Chelsea em 2006

 

Passe magistral para Giuly na semifinal da Liga de 2005-2006.

 

Golaço contra o Cruzeiro

 

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11 thoughts on “Craque Imortal – Ronaldinho

  1. Na temporada 09/10 Ronaldinho jogou muito, era pra ter ido a Copa, talvez seria a sua redenção por 2006. Sem contar que era pra ter sido uma temporada ainda maior de sua parte se Huntelaar e Borrielo não tivessem perdido tantos gols com os passes de Ronaldinho. Huntelaar então…. Uma pena que Dunga não levou o craque pois merecia muito, muito mais que Kaká, que foi contundido pro mundial.

  2. Se com o auge curto que teve, Ronaldinho foi tão marcante, imagina se mantivesse aquele nível alto por mais tempo?

    Nessas condições, acho que estaríamos discutindo o nome dele ao lado do Pelé.

  3. A decepção da Copa de 2006 foi grande, pelo que fez no Barcelona, Ronaldinho bem que poderia ganhar uma Copa daquelas em nome próprio como o Romário em 94.

  4. Sou torcedor do Atlético Mineiro e desde então só vi dois gênios no clube: Reinaldo e Ronaldinho Gaúcho. A sua passagem pelo Galo é inesquecível, jamais iremos esquecer, seu nome está para sempre na galeria dos maiores ídolos do alvinegro de Minas Gerais, não só pelas conquistas, pelas belas atuações, mas também pelo seu jeito humilde de ser e pelo carinho demonstrado ao nosso time. Sempre será lembrado pela torcida alvinegra. Que Deus o proteja.

    1. Olá Marcos! Muito obrigado! Fico muito feliz! Ele será imortalizado, mas ainda não posso te dar uma previsão. Mas fique ligado! Obrigado mais uma vez! 😀

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