Mundial de Clubes – Primórdios, História e Campeões

 

Ele rende estrelas reluzentes nos escudos dos clubes (da América do Sul). Vencê-lo é o ápice, a maior glória possível e o sonho de qualquer torcedor. Afinal, dizer “meu time é campeão do mundo” é forte, de estufar o peito. Porém, lá na Europa, eles nunca deram muita bola, já boicotaram a competição várias vezes e só deram um pouquinho mais de atenção quando a FIFA passou a administrar o torneio. Falando nela, em outubro de 2017, a entidade máxima do futebol oficializou, com anos de atraso, o Mundial Interclubes (ou Copa Intercontinental) como “Mundial”.

Com mais de meio século de história, um dos mais conturbados torneios de clubes do planeta possui muitas histórias, reuniu o que de melhor o futebol já produziu e teve capítulos sangrentos lá no final dos anos 60 e início dos anos 70. Os campeões, de 1960 até 2004, último ano antes do controle da FIFA, todos conhecem. Mas, e os primórdios? Como surgiu a ideia de criar uma competição para definir o “melhor time do mundo”? É hora de viajar no tempo e entender melhor essa história toda.

 

Anos 50 – Os esboços

No começo do século, Sir Thomas Lipton, fundador da famosa empresa de chás, teve a ideia de criar um torneio “mundial”, algo como uma Copa do Mundo, e criou o Troféu Sir Thomas Lipton, em 1909, mas que acabou reunindo apenas times da Inglaterra, Suíça, Itália e Alemanha. Décadas depois, já com a Copa do Mundo da FIFA, a primeira tentativa real de um torneio que pudesse realmente reunir clubes de vários países de diferentes continentes foi em 1951, na famosa e polêmica Copa Rio. A competição foi criada pela CBD e a ideia original era ter clubes campeões de todos os países do Mundial anterior. Mas, por causa da logística, apenas times de seis países vieram ao Brasil – Nice (França), Juventus (Itália), Estrela Vermelha (Iugoslávia), Áustria Viena (Áustria), Nacional (Uruguai) e Sporting (Portugal), além do Vasco e do Palmeiras, campeões dos principais estaduais do Brasil em 1950. A ideia da CBD era, acima de tudo, manter viva a paixão pelo futebol no país e reerguer a alegria do torcedor após a perda da Copa do Mundo no ano anterior, para o Uruguai, em pleno Maracanã (leia mais clicando aqui).

O torneio foi um sucesso de público, teve auxílio da FIFA e um cunho “mundial” na época, além de grande participação da imprensa internacional. O Palmeiras foi o grande campeão ao vencer a Juventus de Boniperti com uma vitória por 1 a 0 no primeiro duelo e empate em 2 a 2 no segundo. Ambos os jogos foram no Maracanã e a equipe alviverde foi tachada à época como “campeã do mundo”. Porém, até hoje, o clube tenta reconhecer junto à FIFA, com documentos e dossiês, a veracidade do torneio como Mundial. Ambígua, a entidade máxima do futebol sempre volta atrás e deixa os palmeirenses loucos da vida. No ano seguinte, uma nova edição foi realizada, dessa vez com Fluminense, Corinthians, Peñarol (Uruguai), Grasshopper (Suíça), Sporting (Portugal), Libertad (Paraguai) e Áustria Viena (Áustria). Os times brasileiros se sobressaíram perante os rivais e fizeram a decisão, vencida pelo Tricolor carioca após vitória por 2 a 0 e empate em 2 a 2. O Flu também considera a taça um “Mundial”, mas sofre do mesmo problema do Palmeiras pela falta de reconhecimento.

Segarra, do Barça, com a taça do Mundialito de 1957.

 

Ainda naquela década, foi realizada na Venezuela a Pequena Taça do Mundo (também conhecida como Mundialito), organizado pela Federação Venezuelana de Futebol nos anos de 1952, 1953, 1955, 1956 e 1957. Além de times do país, o torneio contava com um convidado da Europa e outro da América do Sul num sistema todos contra todos em “ida e volta”. O Real Madrid foi o campeão em 1952 e 1956, o Millonarios-COL e o Corinthians-BRA faturaram as duas edições ocorridas em 1953, o São Paulo venceu a de 1955 e o Barcelona-ESP venceu a de 1957. Nos anos 60 e 70, pontuais edições ocorreram, mas já sem o prestígio dos anos 50. Embora reunisse equipes de vários países e tivesse cunho intercontinental, o torneio nunca foi considerado um mundial, nem mesmo pelos clubes brasileiros.

Em 1957, o Vasco não ligou para a fama do Real Madrid e fez história!

 

Em 1957, foi realizado o Torneio Internacional de Paris, organizado pelo Racing Club, da cidade francesa. Além do anfitrião, a competição teve o Vasco da Gama, campeão carioca de 1956, Real Madrid-ESP, campeão europeu em 1956 e também em 1957, e Rot-Weiss Essen, campeão alemão que entrou no lugar do Milan-ITA, campeão italiano de 1956-1957. O Vasco foi campeão ao derrotar o Racing, por 3 a 1, e o Real Madrid, por 4 a 3, vitória que causou um “choque” na imprensa europeia e mostrou a força do futebol brasileiro, que seria campeão da Copa do Mundo da FIFA em 1958 justamente em solo europeu (na Suécia). Também na época, o Vasco foi aclamado por muitos como “campeão mundial”, mas nunca de maneira oficial. A competição seria realizada em vários outros anos, mas sempre com caráter amistoso. O fato é que uma competição intercontinental estava muito madura para tomar forma.

 

Anos 60 – Nascimento e o início das pancadarias

Vencer o Mundial de 1960 simbolizou o fim da maior era da história do Real, pentacampeão europeu nos anos 50.

 

Com a Liga dos Campeões já em ascensão e a criação da Copa Libertadores, em 1960, dirigentes começaram a pensar num torneio que reunisse os campeões de tais competições anualmente para ver quem era o melhor do mundo, afinal, América do Sul e Europa eram os pólos do que de melhor havia no futebol. Ásia, África, Oceania, América do Norte e América Central nem sequer eram cogitados. Santiago Bernabéu, presidente do Real Madrid na época, e João Havelange, presidente da CBD, foram, sem dúvida, as duas personalidades “responsáveis” pelo surgimento da famosa Copa Intercontinental. Em outubro de 1958, durante o sorteio das oitavas de final da Liga dos Campeões de 1958-1959, João Havelange, presente na ocasião, comunicou aos delegados da UEFA que estava em curso a realização de um torneio na América do Sul “aos moldes” da Liga dos Campeões, o que viria a ser a Copa Libertadores, dizendo: “faremos todo o possível para que ela tenha o mesmo êxito que a da Europa”. Todos receberam a notícia com muita felicidade, e Santiago Bernabéu, do Real, disse:

“Será uma grande honra para nós (do Real Madrid) ganhar pela quarta vez a Copa da Europa e outra grande honra poder disputar uma final intercontinental contra o vencedor da América do Sul”.

 

Pronto. Estava plantada a semente. Jacques Goddet, célebre jornalista esportivo francês do L’Équipe, também comentou naquela época a necessidade de um torneio intercontinental e, nos anos 70, de um que abrangesse não só Europa e América, mas também times dos outros continentes. Pouco tempo depois, em 1960, UEFA e Conmebol endossaram as palavras de Bernabéu e outros dirigentes e criaram a Copa Intercontinental, tratada como Mundial Interclubes por vários jornais desde sua primeira edição, em 1960, vencida pelo Real Madrid (campeão da Europa) após derrotar o Peñarol (campeão da Libertadores). Entre 1960 e 1967 eram partidas de ida e volta com o campeão sendo o que somasse mais pontos, sem levar em consideração o saldo de gols. Vale lembrar que a terceira partida seria sempre no continente onde aconteceu o segundo jogo. Por exemplo, em 1960, a competição começou no Uruguai (empate em 0 a 0) e terminou na Espanha (vitória madrilena por 5 a 1), sem necessidade do terceiro jogo. Já em 1961, o Benfica-POR venceu o Peñarol-URU por 1 a 0, em Portugal, perdeu o segundo jogo por 5 a 1, em Montevidéu, e perdeu o terceiro jogo, por 2 a 1, também em Montevidéu. Com isso, a cada ano, a competição começava em um continente. Em 1960, começou na América e terminou na Europa. Em 1961, iniciou na Europa e terminou na América. E seguiu assim nos anos seguintes, de forma alternada. Vale lembrar que, em 1964, a terceira partida entre Internazionale-ITA e Independiente-ARG foi na Espanha e não na Itália, palco do segundo jogo.

Porém, a FIFA rapidamente interveio na situação e vetou o cunho “mundial” do torneio pelo fato de ele não ter clubes de outros continentes e não ser organizado por ela. Uma besteira, claro, que em nada diminuiu a competição. O curioso é que a mesma FIFA deu aval para a realização, naquele mesmo ano de 1960, da International Soccer League, criada nos EUA pelo milionário americano fã de esportes Willian Cox, que reuniu 12 times campeões de 12 países diferentes. Stanley Rous, vice-presidente da entidade, foi quem deu o “ok” para o torneio. Participaram Burnley-ING, Nice-FRA, Glenavon-IRN, Kilmarnock-ESC, Bayern München-ALE, New York Americans-EUA, IFK Nörrkoping-SUE, Rapid Wien-AUT, Estrela Vermelha-IUG, Sporting-POR, Sampdoria-ITA e o Bangu, do Brasil, vice-campeão carioca de 1959 que foi no lugar do Fluminense, o campeão estadual daquele ano – como o país ainda não tinha uma competição nacional, Cox se baseou nos campeões dos principais estaduais do Brasil. Como nem Flu nem Palmeiras (campeão paulista de 1959) poderiam ir, coube ao Bangu a honraria. O torneio foi vencido pelo time brasileiro, que deu show com cinco vitórias e um empate em seis jogos. Os destaques do esquadrão alvirrubro foram Zózimo, zagueiro campeão mundial com a seleção brasileira em 1962, e Ademir da Guia, novato com apenas 18 anos e eleito o melhor jogador da competição. O torneio seguiu até 1965, mas não conseguiu se firmar nem atrair a atenção da mídia. Os campeões foram, além do Bangu, Dukla Praga-TCH, América-RJ (BRA), West Ham-ING, Zagłębie Sosnowiec-POL e Polonia Bytom-POL.

Santos e Benfica perfilados, em 1962: time brasileiro foi bicampeão com shows de Pelé e cia.

 

Voltando à Intercontinental, o torneio engatilhou a segunda edição, em 1961, e passou a ter verdadeiros jogaços graças à qualidade dos times envolvidos – Peñarol de Spencer, Benfica de Eusébio, Santos de Pelé, Milan de Cesare Maldini, Internazionale de Sandro Mazzola, Peñarol de Pedro Rocha. Porém, a partir de 1967, começaram a surgir polêmicas quanto à segurança das partidas. Naquele ano, Racing-ARG e Celtic-ESC fizeram a final. No primeiro jogo, na Escócia, vitória dos donos da casa por 1 a 0. Na volta, em Buenos Aires, os argentinos venceram por 2 a 1 em um jogo conturbado. O técnico Jock Stein, do Celtic, disse que o goleiro de seu time foi atingido por uma pedra vinda das arquibancadas e os escoceses adquiriram enorme rivalidade pelo jeito ríspido e hostil do jogo portenho. Além disso, a delegação encontrou no gramado dardos e até uma faca. “Foi terrível, terrível”, disse Stein na época. O jogo havia acontecido em Avellaneda, e o clima de guerra, aliado a pouca – ou nenhuma – cobertura televisiva que temos hoje, facilitou tais ações. No terceiro jogo, em Montevidéu, o Racing venceu por 1 a 0 e faturou o primeiro título mundial para um clube argentino. Embora o estádio Centenário fosse maior, a partida também foi hostil e cheia de lances ríspidos.

Os incidentes daquele ano despertaram a ira dos europeus, que começaram a sofrer na competição por causa da hegemonia argentina na Libertadores. Para tentar amenizar a situação, a UEFA propôs, em junho de 1968, que a decisão levasse em consideração os gols marcados, para evitar o terceiro jogo. Com isso, de 1968 até 1979, o campeão seria o que somasse mais pontos em dois jogos, valendo o critério de gols marcados. Em 1968, o Manchester United enfrentou o perigoso Estudiantes, que sagrou-se campeão após vencer na Argentina, por 2 a 1, e segurar um empate em 1 a 1 na Inglaterra. Aquela foi a última vez que um clube britânico disputou a competição naqueles moldes. Nos anos seguintes até 1980, todos os britânicos campeões europeus se recusaram a disputar a competição.

Por um lado, eles foram espertos, pois evitaram passar o que passou o Milan, por exemplo, em 1969, no ápice da selvageria. Os italianos, campeões europeus, tiveram pela frente os argentinos do Estudiantes, bicampeões da América. No primeiro jogo, em Milão, ótima vitória rossonera por 3 a 0. Porém, na volta, em La Bombonera – eles escolheram a casa do Boca propositalmente por causa da pressão – o jogo foi uma verdadeira guerra. Faltas ríspidas, carrinhos, empurrões, cusparadas da torcida, enfim, teve de tudo. Para se ter uma ideia, Néstor Combim, do Milan, teve o malar e o nariz quebrados após uma cotovelada sofrida pelo rival, ficando com o uniforme ensanguentado numa cena típica de um filme “Sexta-Feira 13” ou “A Hora do Pesadelo”. Era uma verdadeira baixaria que a TV não mostrava e poucos ficavam sabendo. Felizmente, para o bem do esporte e castigo dos argentinos, o Milan foi campeão mesmo com a derrota por 2 a 1.

 

Anos 70 – Crise técnica, desistências e o quase fim

Os artistas do Ajax desfilam com a taça de 1972: holandeses não quiseram ser tricampeões e não participaram nas edições de 1971 e 1973.

 

Nos anos 70, o Mundial sofreu com a pancadaria dos clubes argentinos, que começaram a dominar a Libertadores, e, consequentemente, garantir vaga na decisão. Adeptos da provocação e das botinadas, os times deixaram marcas severas nos atletas europeus. Por isso, muitos clubes passaram a boicotar a competição. Em 1971, o Ajax não quis enfrentar o Nacional-URU e cedeu sua vaga ao vice-campeão europeu, Panathinaikos-GRE. Em 1973, mais uma vez os holandeses recusaram a viagem até a Argentina para enfrentar a fúria de Avellaneda do Independiente e cederam lugar à Juventus-ITA, vice-campeã, que disputou apenas o primeiro jogo, na Itália, e se negou a viajar até a Argentina para a volta. Como o Independiente venceu por 1 a 0, o time argentino ficou com o título. No ano seguinte, mais uma vez o campeão europeu (o Bayern) não viajou e o Atlético de Madrid-ESP, vice, conseguiu ser campeão mundial sem ser campeão continental, ao bater o Independiente na decisão.

Em 1976, o Bayern foi simpático ao bom futebol do Cruzeiro e participou do Mundial.

 

 

Em 1975, pela primeira vez, a competição não foi realizada por falta de consenso entre Bayern München e Independiente. Em 1976, com o Cruzeiro-BRA como campeão, os alemães concordaram em disputar o torneio pelo jogo brando dos brasileiros. Melhor para os bávaros, que venceram a competição. Em 1977, de novo o vice europeu que viajou – Borussia Mönchengladbach-ALE, no lugar do Liverpool-ING, para enfrentar o Boca Juniors-ARG, e muitos começaram a contestar a importância técnica e histórica da competição, que parecia estar com os dias contados. Em 1978, mais uma vez não teve Mundial. E, em 1979, o Mälmo-SUE representou a Europa no lugar do Nottingham Forest-ING de Brian Clough. Ou seja, dos dez torneios da década, em sete os campeões europeus não jogaram ou não houve competição: 1971, 1973, 1974, 1975, 1977, 1978 e 1979. Quando os campeões jogaram, venceram (em 1970, 1972 e 1976). Em 1972, quando o Ajax de Cruyff bateu o Independiente-ARG, a imprensa holandesa até fez pouco caso da competição dizendo que o título “não era mais difícil do que um encontro banal da Liga dos Campeões”. Em 22 de novembro de 1979, o jornal Mundo Deportivo (ESP) publicou um excelente artigo falando sobre a Intercontinental, que era um verdadeiro “cachorro sem dono”. Leia um importante trecho do artigo de Antonio Valencia:

 

“Chega à discussão sobre a erosão de uma competição que nasceu em 1960 como uma versão mundial do melhor do futebol universal de clubes, do campeão europeu contra o Sul-Americano, ambos detentores de todas as ações do bom futebol praticado no planeta. Porém, o futebol de hoje é de segunda divisão. Quando o Real Madrid, com sua bela equipe, e Peñarol, com uma idêntica, disputaram a primeira edição, ninguém tinha dúvidas do tom mundial do confronto. Faltou à FIFA, então regida por Sir Stanley Rous, apoderar-se da competição como a UEFA se apodera das europeias. Estava claro que a disputa dos dois melhores times dos dois melhores tipos do futebol do mundo não podia deixar de entrar nas competências da entidade máxima do futebol. […]

A Copa Intercontinental está deixada às mãos de Deus e tem ficado sem ar, diminuída, sem prestígio nem significado. João Havelange (presidente da FIFA na época) não faz nada para salvá-la nem recuperar a competição que ele ajudou a criar. É preciso renová-la ou deixá-la morrer, mas que seja uma morte rápida. E era uma ideia bonita, de verdade, mas as circunstâncias… Adeus, Copa Intercontinental”. – Artigo de Antonio Valencia ao jornal espanhol Mundo Deportivo, página 02, edição de 22 de novembro de 1979.

 

“Cachorro sem dono”. O Mundial estava perto do fim naquele final de anos 70.

 

Anos 80 e 90 – A ressurreição e os jogaços

Nunes vibra: em 1981, o Flamengo destroçou o Liverpool e protagonizou o primeiro dos muitos grandes jogos da nova era do Mundial.

 

Agonizando na UTI, a Copa Intercontinental recebeu um “transplante” em 1980. Ou melhor, uma injeção de capital e de ânimo. Impulsionada pela empresa Toyota e pela Associação de Futebol do Japão, que planejava impulsionar o esporte no país, a competição passaria a ser realizada em Tóquio, no estádio Nacional, anualmente, em jogo único (só entre 2002 e 2004 que a competição foi disputada em outra cidade, Yokohama). Era tudo o que o torneio precisava para voltar a ter prestígio e respeito. E, em linhas gerais, bom para ambas as partes. Seria uma viagem só – longa, mas única, um jogo decisivo, com prorrogação e pênaltis em caso de empate no tempo regulamentar, e ampla cobertura midiática, evitando as botinadas e hostilidade dos solos sul-americanos. Pronto. O Mundial Interclubes estava vivo de novo, com a alcunha comercial de Copa Europeia/Sul-Americana Toyota ou apenas Copa Toyota. O campeão do “novo” torneio receberia, além da tradicional taça, uma outra, oferecida pela Toyota, além de o melhor jogador da partida (MVP) ganhar um carro da montadora japonesa.

As ações tiveram efeito imediato e o Nottingham Forest-ING, campeão europeu, topou disputar o torneio em 1980 contra o Nacional-URU, encerrando um jejum de 12 anos sem a participação de clubes britânicos na disputa. Mesmo assim, os europeus continuaram a desmerecer o torneio e tratavam o novo formato como um “amistoso de luxo” e que serviria mais para popularizar a marca de seus clubes em território asiático. Para evitar possíveis boicotes, a UEFA passou a obrigar os campeões europeus a disputar a competição por meio de contrato, o que fez os times do Velho Continente a jogar “na marra” o torneio. Com isso, o Japão viu jogos memoráveis e o desfile de grandes esquadrões. Em 1981, o Flamengo-BRA destroçou o badalado Liverpool-ING em apenas 45 minutos. Em 1983, o Grêmio-BRA liquidou o Hamburgo-ALE. Em 1985, Argentinos Juniors e Juventus fizeram uma final eletrizante que terminou empatada em 2 a 2, com vitória de 4 a 2 da Juve nos pênaltis. Em 1987, o Porto bateu o Peñarol por 2 a 1 debaixo de muita, mas muita neve, num jogo bem peculiar. Em 1990 e 1991, Olimpia-PAR e Colo-Colo nada puderam fazer contra os fortes Milan-ITA e Estrela Vermelha-IUG, respectivamente, que os derrotaram por 3 a 0 em ambas as finais. Em 1992, foi a vez do São Paulo-BRA dar show e vencer o Dream Team do Barcelona-ESP por 2 a 1. No ano seguinte, repeteco tricolor, dessa vez contra o Milan-ITA, vice-campeão europeu, que disputou a competição no lugar do Olympique de Marselha-FRA, punido por um escândalo de manipulação de resultados.

Palermo chuta: Boca venceu o Real na Intercontinental de 2000.

 

Após a hegemonia sul-americana entre 1992 e 1994, os europeus venceram todos os torneios de 1995 até 1999, até o Boca faturar a edição de 2000 sobre o Real Madrid. Falando em 2000, esse ano marcaria a investida inicial da FIFA para assumir de vez o Mundial.

 

Anos 2000 – A FIFA entra em ação

Após quatro décadas, a entidade máxima do futebol decidiu, enfim, criar um Mundial de Clubes para chamar de seu. O anúncio foi feito em 1999 e o torneio iria acontecer em janeiro de 2000, no Brasil, com os campeões de todos os continentes. A princípio, todos receberam a notícia com muito entusiasmo e boas perspectivas. Mas, conforme os dias foram passando, o torneio não foi lá muito bem organizado. O representante da Ásia foi o Al Nassr, da Arábia Saudita, campeão da Supercopa da Ásia de 1998. O campeão da Liga dos Campeões do continente em 1999, o Jubilo Iwata-JAP, não participou. O representante da América do Sul deveria ser o Palmeiras-BRA, campeão da Libertadores de 1999, mas acabou sendo o Vasco-BRA, campeão de 1998. Apenas Europa (Manchester United-ING), América do Norte e Central (Necaxa-MEX), África (Raja Casablanca-MAR) e Oceania (South Melbourne-AUS) levaram seus campeões corretos. Além deles, Corinthians-BRA, campeão do país-sede, e Real Madrid-ESP, como convidado, compuseram o escrete de oito clubes. Vale lembrar que o Corinthians entrou como campeão nacional do país-sede de 1998, pois a CBF alegou não ter tempo hábil para informar o campeão de 1999. Curiosamente, o Timão também venceu o Brasileiro de 1999.

Com distorções e falta de critérios, a competição seguiu mesmo assim. Os times foram divididos em dois grupos de quatro. Após jogos todos contra todos em cada grupo, os campeões de cada grupo fariam a final. Os segundos colocados disputariam o terceiro lugar. As partidas foram realizadas em São Paulo (Morumbi) e Rio de Janeiro (Maracanã), e, como não poderia deixar de ser, o torneio foi um sucesso de público – foram mais de 500 mil espectadores em todos os jogos e mais de 73 mil na final. Embora houvesse um habitual desinteresse dos europeus, o público brasileiro viu grandes jogos, com destaque para a vitória de 3 a 1 do Vasco sobre o Manchester e o empate em 2 a 2 do Corinthians com o Real Madrid. Na final, Vasco e Corinthians decidiram o título e o Timão derrotou os cariocas nos pênaltis por 4 a 3 após empate sem gols no tempo normal. Com isso, o time paulista sagrou-se campeão do primeiro Mundial de Clubes da FIFA.

Claro que não poderia faltar polêmicas com relação ao título do clube alvinegro pelo fato de ele não ter sido campeão continental antes, mas ele simplesmente cumpriu o regulamento e venceu. Ponto. O fato é que a primeira edição foi totalmente sem critérios e mostrou uma falta de organização estranha por parte da FIFA, tão focada em suas Copas do Mundo de seleções. Em 2001, a entidade iria organizar o Mundial na Espanha, mas a quebra financeira de sua parceira, a ISL, ruiu as pretensões e a competição foi outra vez engavetada. Com isso, naquele mesmo ano de 2000, o Mundial Interclubes aconteceu normalmente, com a vitória do Boca sobre o Real por 2 a 1.

 

Entre 2001 e 2004, o Mundial seguiu vivo no Japão, que viu os títulos do Bayern-ALE, Real Madrid-ESP, Boca Juniors-ARG e Porto-POR. Em 2004, após o caneco dos portugueses sobre o Once Caldas-COL, o Japão iria ver, a partir de 2005, o Mundial de Clubes da FIFA em definitivo. Naquele ano, enfim, participaram apenas campeões continentais vigentes, nada de time convidado nem campeão do país-sede. Era o formato tão desejado pela FIFA e por dirigentes. O regulamento deixava bem claro a força dos times da Europa e América do Sul, que entrariam apenas nas semifinais. Nas “quartas”, os campeões das outras quatro confederações (Ásia, África, Oceania e América do Norte e Central) se enfrentaram para definir os adversários dos gigantes. Naquele ano, São Paulo-BRA e Liverpool-ING fizeram a decisão após derrotarem All-Ittihad, da Arábia Saudita (3 a 2), e Deportivo Saprissa, da Costa Rica (3 a 0), respectivamente. Na final, em Yokohama, o São Paulo-BRA, campeão da Libertadores, foi o grande vencedor ao bater os ingleses por 1 a 0. O torneio chegou para ficar e, enfim, aposentou a Copa Intercontinental. Em 2007, a FIFA voltou atrás e decidiu incluir o campeão do país-sede para atrair mais o público local. Em 2009, a competição mudou de lugar e foi disputada nos Emirados Árabes Unidos. Em 2010, pela primeira vez, um time fora do eixo América-Europa participou da final: o TP Mazembe, do Congo, que venceu o Internacional-BRA na semifinal e encarou a Internazionale-ITA na final. Nela, os italianos venceram por 3 a 0.

 

Anos 2010 – Consolidação e ideias futuras

Em 2011 e 2012, o torneio voltou ao Japão e, em 2013 e 2014, foi disputado no Marrocos. Em 2015 e 2016, voltou ao Japão e, em 2017 e 2018 voltará aos Emirados Árabes. Desde 2005, a competição vê um predomínio dos times da Europa, que venceram nove vezes contra apenas três sul-americanas. Já consolidado no calendário futebolístico, o Mundial, no entanto, não tem agradado a FIFA devido ao baixo público nos jogos – que se deve obviamente por ser realizado sempre na Ásia ou África e nunca nos grandes eixos do futebol mundial. Por que não realizar um Mundial na Itália, por exemplo? Na Espanha? Com certeza o apelo seria bem maior.

Após 2018, a entidade pensa em renovar a competição organizando um Mundial de Clubes mais encorpado e com mais times em substituição à Copa das Confederações. Os clubes europeus, por outro lado, têm pressionado a entidade para acabar com a competição. Nos bastidores, ganha força a volta da Copa Intercontinental, que seria comercialmente mais vantajosa, mas o presidente da FIFA, Gianni Infantino, é contra a ideia e quer a manutenção da competição envolvendo todos os continentes.

 

“O mundo não é só mais América do Sul e Europa. É bom debater novos modelos e talvez tenhamos de abolir algumas competições. Vamos debater isso nos próximos meses. Nos anos 60, só existiam duas regiões. Agora, precisamos olhar os clubes de todo o mundo para encontrar algo positivo. Estamos começando uma reflexão de como deve ser realizada. Temos ligas fortes pelo mundo e outras que querem ser fortes. Por isso, devemos analisar essa situação e ver como poderemos criar algo especial, novo e que não afete o calendário internacional e, ao mesmo tempo, ajude a desenvolver os clubes. Se a Fifa embarca em algo, deve ser algo especial. Caso contrário, melhor não realizar”. – Gianni Infantino, Presidente da FIFA, em entrevista extraída do jornal O Estado de S.Paulo, 27 de outubro de 2017.

 

O destino das edições pós-2018 do Mundial, mais uma vez, segue incerto. A FIFA, óbvio, quer algo vantajoso economicamente e tantos patrocinadores quanto uma Copa. Mas, para isso, ela deveria ter mais foco e pensar em algo realmente legal para os clubes e torcedores. Por que não uma Copa do Mundo de Clubes, de dois em dois anos ou quatro em quatro anos, por exemplo, com os campeões das Ligas dos Campeões da UEFA, da Liga Europa, da Libertadores, da Sul-Americana, das outras ligas continentais de Ásia, África, Oceania e América do Norte e Central? Ou talvez todos esses campeões mais os melhores colocados no ranking de cada confederação ou os campeões das ligas dos países campeões mundiais?

Enfim, são apenas algumas ideias que o Imortais defende para salvar e valorizar um torneio que sempre teve muito potencial, mas jamais foi explorado da maneira correta. Se, um dia, o torneio tiver a importância que merece, os clubes poderiam se planejar e o torcedor teria gosto de ver seu time no torneio. Seria bom para todos: torcida, clube, parceiros, TV, patrocinadores. Cada edição em um país, com show de abertura e encerramento, enfim, tudo o que pede uma grande competição. E a paixão seria enorme, pois é ela que move o amante do futebol. Ele não tem a paixão por sua seleção como tem pelo seu clube. Um madrileno faz de tudo para ir ao Santiago Bernabéu ver seu Real, mas prefere ver a Fúria pela TV. Flamenguistas, corintianos, gremistas, atleticanos ou palmeirenses faltam no serviço para ver seus times, mas podem se esquecer que a Seleção Brasileira jogou. E pergunte a um xeneize do Boca quem ele prefere ver em La Bombonera: seu time ou a Seleção Argentina? O clubismo é uma paixão incondicional. Falta a FIFA entender isso. Quem sabe um dia. Torcemos!

 

Hall da Fama – Confira abaixo os campeões e os vices de todos os Mundiais, de 1960 até 2016:

 

Melhores Jogadores – Era Intercontinental

 

ANO JOGADOR CLUBE
1980 Waldemar Victorino (URU) Nacional (URU)
1981 Zico (BRA) Flamengo (BRA)
1982 Jair (BRA) Peñarol (URU)
1983    Renato Gaúcho (BRA)  Grêmio (BRA)
1984 José Percudani (ARG) Independiente (ARG)
1985 Michel Platini (FRA) Juventus (ITA)
1986 Antonio Alzamendi (URU) River Plate (ARG)
1987 Rabah Madjer (ARG) Porto (POR)
1988 Santiago Ostolaza (URU) Nacional (URU)
1989 Alberigo Evani (ITA) AC Milan (ITA)
1990 Frank Rijkaard (HOL) AC Milan (ITA)
1991 Vladimir Jugović (IUG) Estrela Vermelha (IUG)
1992 Raí (BRA) São Paulo (BRA)
1993 Cerezo (BRA) São Paulo (BRA)
1994 Omar Asad (ARG) Vélez Sarsfield (ARG)
1995 Danny Blind (HOL)                 Ajax (HOL)
1996 Alessandro Del Piero (ITA) Juventus (ITA)
1997 Andreas Möller (ALE) Borussia Dortmund (ALE)
1998 Raúl (ESP) Real Madrid (ESP)
1999 Ryan Giggs (WAL) Manchester United (ING)
2000 Martín Palermo (ARG) Boca Juniors (ARG)
2001 Samuel Kuffour (GAN) Bayern München (ALE)
2002 Ronaldo (BRA) Real Madrid (ESP)
2003 Matías Donnet (ARG) Boca Juniors (ARG)
2004 Maniche (POR) Porto (POR)

 

Melhores Jogadores – Era FIFA

 

ANO JOGADOR CLUBE
2000 Edílson (BRA) Corinthians (BRA)
2005 Rogério Ceni (BRA) São Paulo (BRA)
2006 Deco (POR) Barcelona (ESP)
2007    Kaká (BRA) AC Milan (ITA)
2008 Wayne Rooney (ING) Manchester United (ING)
2009 Lionel Messi (ARG) Barcelona (ESP)
2010 Samuel Eto’o (CMR) Internazionale (ITA)
2011 Lionel Messi (ARG) Barcelona (ESP)
2012 Cássio (BRA) Corinthians (BRA)
2013 Franck Ribery (FRA) Bayern München (ALE)
2014 Sergio Ramos (ESP) Real Madrid (ESP)
2015 Luis Suárez (URU) Barcelona (ESP)
2016 Cristiano Ronaldo (POR)    Real Madrid (ESP)

 

Maiores campeões (contabilizando Copa Intercontinental e Mundial da FIFA):

 

Real Madrid (ESP) – 5 títulos – 3 Intercontinentais e 2 Mundiais da FIFA

AC Milan (ITA) – 4 títulos – 3 Intercontinentais e 1 Mundial da FIFA

Barcelona (ESP) – 3 títulos – 3 Mundiais da FIFA

São Paulo (BRA) – 3 títulos – 2 Intercontinentais e 1 Mundial da FIFA

Internazionale (ITA) – 3 títulos – 2 Intercontinentais e 1 Mundial da FIFA

Bayern München (ALE) – 3 títulos – 2 Intercontinentais e 1 Mundial da FIFA

Peñarol (URU)– 3 títulos – 3 Intercontinentais

Nacional (URU) – 3 títulos – 3 Intercontinentais

Boca Juniors (ARG) – 3 títulos – 3 Intercontinentais

Corinthians (BRA) – 2 títulos – 2 Mundiais da FIFA

 

 

Títulos da Intercontinental por Confederação:

 

CONMEBOL: 22 títulos

UEFA: 21 títulos

 

Títulos do Mundial de Clubes da FIFA por Confederação:

 

UEFA: 9 títulos

CONMEBOL: 4 títulos

 

Maiores artilheiros da Intercontinental:

 

Pelé (BRA): 7 gols, pelo Santos

Alberto Spencer (EQU): 6 gols pelo Peñarol

Luis Artime (ARG): 3 gols, pelo Nacional

José Sasía (URU): 3 gols, pelo Peñarol

Santana (POR): 3 gols, pelo Benfica

Sandro Mazzola (ITA): 3 gols, pela Internazionale

 

Maiores artilheiros do Mundial de Clubes da FIFA:

 

Luis Suárez (URU): 5 gols, pelo Barcelona

Lionel Messi (ARG): 5 gols, pelo Barcelona

César Delgado (ARG): 5 gols, pelo Monterrey

Cristiano Ronaldo (POR): 5 gols, pelo Manchester United e pelo Real Madrid

 

Percebeu vários links durante o texto? São os clubes e jogos que o Imortais já relembrou! Lembrando que quase todos os campeões mundiais estão por aqui. Faltam apenas o Atlético de Madrid e o Nacional de 1988, que serão relembrados em breve. Enquanto isso, vá até a categoria Esquadrões Imortais e descubra muito mais times que fizeram história! 😀

Extra

Veja abaixo um vídeo muito legal com todos os gols e jogos dos times brasileiros campeões mundiais!

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5 thoughts on “Mundial de Clubes – Primórdios, História e Campeões

  1. Esse site é espetacular! Meus parabéns pelo trabalho! Se me permite, gostaria de ser um pouco clubista, rsrs’. Será que você poderia fazer um Esquadrão Imortal sobre o Corinthians de 2017? O que essa equipe fez, foi sensacional! Adoraria ler um texto sobre a trajetória do time nesse ano nos moldes daquela do 7 a 1 que você fez. Abraço!

  2. Meu mundial é simples: Campeão dos seis continentes, mais atual campeão e campeão de uma copa intercontinental disputada entre o campeão da Copa Sulamericana e o campeão da Liga Europa.

    8 Times: 2 grupos de 4. Semifinal e final. Campeão terá que fazer 5 jogos e todos farão no mínimo três jogos.

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