Seleções Imortais – Portugal 2016

Grande feito: Campeã da Eurocopa de 2016. Conquistou o primeiro grande título da história da Seleção Portuguesa de Futebol.

Time-base: Rui Patrício; Cédric (Vieirinha), Pepe, José Fonte (Ricardo Carvalho) e Raphaël Guerreiro (Eliseu); Renato Sanches (Éder), William Carvalho (Danilo), Adrien Silva (João Moutinho) e João Mário (André Gomes); Nani (Quaresma) e Cristiano Ronaldo. Técnico: Fernando Santos.

 

“A primeira (e histórica!) vez dos Encarnados”

 

Anos 60. O Benfica coleciona títulos em casa e encanta a Europa com o futebol virtuoso de Eusébio, Coluna, Águas e companhia. O time de Lisboa vence a Liga dos Campeões duas vezes e serve como base para a seleção portuguesa na Copa do Mundo de 1966. Em solo inglês, uma campanha brilhante até a semifinal, quando a equipe cai diante dos anfitriões e termina em terceiro lugar. Anos 2000. Eurocopa de 2004. Com sua melhor geração após 40 anos, Portugal avança e chega à final. Em casa. Favorita plena, a equipe perde para uma inimaginável Grécia. Copa do Mundo de 2006. De novo eles vão bem. Mas, na semifinal, derrota para a França de Zidane. Os anos passam e a segunda geração dourada se vai. Surge um jogador de futebol devastador. Cristiano Ronaldo. Ele se torna inquestionável. Vencedor. Vira o maior patrimônio do futebol de seu país em tempos difíceis, de seleção mediana e falta de talentos. Eurocopa de 2016. Local? França. A seleção da casa é uma das favoritas e, jogo após jogo, confirma a fama até derrotar a campeã do mundo, Alemanha, na semifinal. Eles estão na final. Favoritos plenos. Do outro lado, Portugal. Uma zebra, após partidas muito abaixo do esperado. A França havia vencido uma Euro, em 1984, e uma Copa, em 1998, jogando em casa. Não queria perder a invencibilidade naquele dia. Era favorita para 10 entre 10 especialistas. Cristiano Ronaldo era a esperança lusa. Era. Passado. Aos 7’, levou uma pancada no joelho. Sentiu. Tentou seguir em campo. Não conseguiu. Saiu aos 25 minutos. Chorou. Como Portugal poderia vencer uma decisão europeia com 70 mil torcedores contra e mais 11 em campo sem o melhor jogador do mundo? Sendo imortal. Inflando seus pulmões. Brigando pela bola como se não houvesse amanhã. Por Figo. Por Eusébio. Por Coluna. Por gerações que mereciam um caneco importante. E por Cristiano Ronaldo. Da beira do gramado, o capitão virava auxiliar técnico de Fernando Santos. Gritava. Gesticulava. Até que veio o gol de Éder. O gol da glória. Do grito que nunca havia saído da garganta. Ao apito do árbitro, os portugueses gritavam “é campeão” pela primeira vez em um torneio de peso. O capitão chorou de novo. De emoção. Não foi a mais brilhante seleção. Não foi a mais técnica. Mas foi a mais aguerrida. A mais valente. A primeira. A campeã da Europa. Em cima da França. Em pleno Stade de France. É hora de relembrar a história da primeira Seleção Portuguesa de Futebol campeã.

 

O pacto

Fernando Santos (à esq.), novo técnico de Portugal em 2014.

 

Com o fim da Copa do Mundo de 2006, quando Portugal alcançou a 4ª posição, a equipe passou pela famosa entressafra. Vários jogadores de destaque se retiraram do selecionado português (Figo, Maniche, Simão, Miguel, Paulo Ferreira, entre outros), e os lusos começaram a perder a força demonstrada entre 2004 e 2006. Na Euro de 2008, ainda sob o comando de Luiz Felipe Scolari, Portugal caiu nas quartas de final diante da Alemanha. Na Copa de 2010, a queda foi nas oitavas de final para a futura campeã Espanha. Na Euro de 2012, a equipe melhorou um pouco, chegou até a semifinal, mas caiu nos pênaltis para a Espanha, que sagrou-se bicampeã consecutiva do torneio. Na Copa de 2014, uma campanha fraca, com uma derrota (4 a 0, para a Alemanha), um empate (2 a 2, com os EUA) e uma vitória (2 a 1, sobre Gana) eliminou os portugueses ainda na primeira fase. Em setembro de 2014, a federação nacional decidiu mudar o comando técnico e trouxe Fernando Santos para o lugar de Paulo Bento. O primeiro compromisso do novo técnico foi um amistoso contra a França, em Saint-Denis, no dia 11 de outubro de 2014. Com gols de Benzema e Pogba, os anfitriões venceram por 2 a 1 e aumentaram para nove jogos a invencibilidade sobre os portugueses. Desde 1975 que os Bleus não sabiam o que era derrota para os encarnados. Detalhe: de lá para cá eram nove vitórias em nove jogos.

Pogba e Cristiano Ronaldo, no amistoso que serviu como um divisor de águas para a história de Portugal.

 

Mas, a partir daquela derrota, Fernando Santos fez um pacto com seus jogadores – algo que seria revelado muito tempo depois. Em uma palestra, o treinador assumiu o compromisso de voltar à Saint-Denis pouco menos de dois anos depois, em 2016. Qual era o propósito? Estar na final da Eurocopa, cujo palco principal seria o exato Stade de France. Sob a batuta de Cristiano Ronaldo, capitão e principal jogador do time, Portugal começaria sua caminhada. Mas a missão não seria nada fácil.

 

Mente aberta pela classificação

Quando assumiu a seleção, Fernando Santos deixou bem claro que era contra a palavra “renovação” e que daria vaga para todo e qualquer jogador que estivesse bem e em boa forma, seja ele com 17 ou 38 anos. Prova disso era o que ele havia feito na Seleção Grega, quando levou para a Copa do Mundo de 2014 jogadores veteranos (Katsouranis, 35 anos, e Karagounis, 36 anos) e 17 outros lançados por ele próprio nos quatro anos de trabalho à frente da equipe. A imprensa lusitana era ferrenha e queria uma reformulação no trabalho do predecessor, Paulo Bento, que pudesse fazer jus ao investimento que a Federação Portuguesa de Futebol fazia na época, construindo a Cidade do Futebol, próxima ao Estádio do Jamor, em Lisboa, para melhorar ainda mais a estrutura de todas as suas seleções. E tal Cidade seria finalizada justamente no final de março de 2016, o ano da Eurocopa. Fernando Santos sabia disso e tratou de trabalhar firme no seu pacto e no pouco de bom que Paulo Bento havia feito. A principal herança era, sem dúvida, o faro de gols apurado de Cristiano Ronaldo com a camisa encarnada. O capitão passou a marcar muito mais naquela época e Santos queria manter o craque prolífico. Junto a ele, nomes já consagrados (Ricardo Carvalho, Nani, Quaresma, Pepe) e da nova geração (Rui Patrício, Cédric, Eliseu, Éder – guarde bem esse nome…, Raphaël Guerreiro entre outros) passariam a figurar constantemente nas convocações do treinador. Após o amistoso contra a França, o compromisso português foi contra a Dinamarca, fora de casa, no segundo jogo do Grupo I das Eliminatórias da Euro. A primeira partida da equipe havia sido contra a Albânia, em casa, e o time perdeu por 1 a 0, resultado determinante para a demissão de Paulo Bento. Contra a Dinamarca, Portugal venceu por 1 a 0 com um gol de Cristiano Ronaldo nos acréscimos. Um mês depois, a equipe bateu a Armênia, em casa, também por 1 a 0, com outro gol de Ronaldo.

Quatro dias depois, os encarnados enfrentaram a Argentina, em amistoso disputado em Manchester (ING), e venceram por 1 a 0, num belo gol do novato Raphaël Guerreiro, após cruzamento de Quaresma. Já era visível a melhoria no jogo português sob o comando de Santos. A zaga, antes tão contestada, se mostrava firme e segura, com grande entrosamento e qualidade no passe. No meio de campo e ataque, muita eficiência nas jogadas aéreas e foco, claro, em Cristiano Ronaldo, o principal articulador. O porém do time ainda era pecar muito nas finalizações, pois mostrava volume de jogo e muitos arremates a gol, mas não conseguia converter tais ações em bola na rede. Em março de 2015, de volta às Eliminatórias, a equipe emendou a quarta vitória seguida com um 2 a 1 na Sérvia, gols de Ricardo Carvalho e Coentrão. Dois dias depois, amistoso contra Cabo Verde e derrota por 2 a 0. Em junho, mais um compromisso pelas Eliminatórias e vitória de virada sobre a Armênia, fora de casa, por 3 a 2, com três gols de Cristiano Ronaldo, em fase esplendorosa.

Contra a Itália, Portugal encerrou um longo jejum e venceu: bons presságios!

 

Três dias depois, na Suíça, outro amistoso contra uma seleção de peso – a Itália. Sem Cristiano Ronaldo, liberado para tirar férias por conta do cansaço, a equipe jogou com vários jogadores até então reservas – Vieirinha, Danilo, José Fonte e Éder, mostrou que podia muito bem jogar sem seu capitão e venceu por 1 a 0, golaço de Éder após cruzamento de trivela de Quaresma. Foi a primeira vitória portuguesa sobre a Itália desde 1976, fato que gerou grande festa em Lisboa e até invasão da torcida após o jogo. Em setembro, o time não conseguiu quebrar outro longo tabu e perdeu mais uma para a França, em amistoso disputado em Lisboa, por 1 a 0. Já eram dez derrotas em dez jogos contra os Bleus. Mas Fernando Santos e companhia não ligavam. O foco era a Eurocopa.

 

100% classificados e a tal da (falsa) CR7 dependência

O talismã Quaresma, fundamental em vários jogos do time nas Eliminatórias.

 

Entre setembro e outubro, Portugal carimbou sua vaga na Euro com três vitórias. Primeiro, veio o troco sobre a Albânia, em Elbasan, com uma vitória por 1 a 0, gol de Veloso. Na sequência, em casa, o time derrotou a Dinamarca por 1 a 0, gol de Moutinho. E, na última rodada, triunfo fora de casa sobre a Sérvia por 2 a 1, gols de Nani e Moutinho. Com sete vitórias e uma derrota em oito jogos, a seleção de Portugal estava classificada. E, sob o comando de Fernando Santos, ficou 100% nas Eliminatórias. Cristiano Ronaldo foi o artilheiro do grupo com cinco gols, seguido de João Moutinho, com dois. O esquema de jogo da equipe era econômico nos gols, eficiente na defesa e priorizava jogadas de linha de fundo e o jogo aéreo, muito forte tanto pela esquerda quanto pela direita.

 

Com a vaga garantida, a equipe ainda disputou mais alguns amistosos nos meses seguintes. Perdeu para a Rússia, fora de casa, por 1 a 0, derrotou Luxemburgo, fora, por 2 a 0, perdeu para a Bulgária, em casa, por 1 a 0, derrotou a badalada Bélgica, em casa, por 2 a 1 (gols de Cristiano Ronaldo e Nani), bateu a Noruega, em casa, por 3 a 0 (gols de Quaresma, Guerreiro e Éder), perdeu para a Inglaterra por 1 a 0, em Wembley, e fez 7 a 0 na Estônia no último compromisso antes da Euro, com gols de Cristiano Ronaldo (dois), Quaresma (dois), Danilo e Éder, além de um gol contra de Mets.

O capitão: imprensa questionava demais a dependência nele.

 

Àquela altura, muitos questionavam a dependência da equipe em Cristiano Ronaldo, capitão e principal estrela do time. Por mais que a imprensa local frisasse isso, o técnico Fernando Santos era contra tal opinião e deixava claro que seu time podia se virar bem sem o camisa 7. Uma prova disso foi o triunfo sobre a Noruega por 3 a 0, quando a equipe lusa fez uma ótima partida sem contar com o craque, que estava ausente por causa dos compromissos pelo Real Madrid. Fernando Santos apostou em uma linha ofensiva com Éder, André Gomes e Quaresma e viu este último, já veterano com 32 anos, marcar um golaço na partida. Aliás, o atacante tinha muito mais liberdade sob o comando de Santos e fazia grandes partidas pela seleção, como Aurélio Pereira, que descobriu o jogador, disse:

 

“O técnico dá a liberdade no campo de que ele gosta, afinal, tal como o Ricardo (Quaresma), também o Fernando Santos teve a escola do futebol de rua, e por isso olha este tipo de jogador com respeito”.Aurélio Pereira, Coordenador do Sporting, em entrevista ao Diário de Notícias, maio de 2016.

 

Óbvio que todo time no planeta que tivesse CR7 pautaria suas ações nele. Mas Portugal sabia se virar sem o astro em campo. Perdia qualidade? Claro, mas nem por isso perdia jogos. Fernando Santos, em entrevista após a já mencionada vitória sobre a Noruega, comentou sobre o assunto:

 

“Não estou rigorosamente nada preocupado com o Cristiano. Estará aqui no próximo fim de semana com os colegas, com uma vontade enorme de ajudar, de fazer uma grande Eurocopa, ele e a equipe. O resto são questões jornalísticas que, a mim, não me importam muito. Não sei por qual motivo não falamos um pouco do jogo e falamos sempre do Cristiano Ronaldo”.Fernando Santos, técnico de Portugal, em entrevista publicada no site Trivela, 30 de maio de 2016.

Após o fim da temporada, o craque se juntou aos companheiros e começou sua preparação para a Euro. O foco da comissão técnica era na recuperação física do atacante, que havia conduzido o Real a mais um título da Liga dos Campeões. Com um elenco mesclado por jogadores experientes (Pepe, Ricardo Carvalho, José Fonte e Quaresma), além de jovens promissores (Raphaël Guerreiro, João Mario, Danilo, William Carvalho, André Gomes, Renato Sanches – de apenas 18 anos! – e Cédric), Portugal viajou para a França disposta a ser campeã. E a caminhada seria cheia de dramas, polêmicas e dúvidas.

 

Sob um capitão de fases

No Grupo F da Euro, ao lado de Islândia, Áustria e Hungria, Portugal teria uma vida relativamente fácil contra seleções que figuravam bem longe do pelotão de elite da Europa. Porém, logo na estreia, contra a debutante Islândia, os encarnados empataram em 1 a 1, com Nani abrindo o placar após passe de Cristiano Ronaldo, e Bjarnason anotando o gol islandês. O capitão português, no entanto, ganhou mais as manchetes dos jornais do que o próprio resultado de seu time. Muito bem marcado pela equipe adversária, o craque não mostrou o futebol que todos estavam acostumados, e, no fim do jogo, foi vítima de tablóides que disseram que ele não quis trocar de camisa e teria esnobado o capitão da Islândia, Aron Gunnarsson, dizendo “quem é você?”. Gunnarsson desmentiu as acusações:

 

“É claro que ele não disse (“Quem é você?”, quando Gunnarsson sugeriu trocar camisas). Ele não é assim como pessoa, apesar de que eu não o conheço. Quando pedi a camisa, obviamente como um grande fã, ele só disse: “dentro”, porque não queria trocar em campo. Então tudo bem. Não é nada, os rumores não são verdadeiros. Como disse antes, não estou focando em coisas assim. Estou me preparando para o próximo jogo e deixo vocês falarem sobre rumores”.Aron Gunnarsson, capitão da Islândia, em entrevista reproduzida no Globoesporte.com, 17 de junho de 2016.

Cristiano e o capitão da Islândia: polêmicas logo na estreia.

 

Foi só o início da enxurrada que Cristiano receberia naquela Euro. Por ser uma estrela, todos os focos estavam nele. A imprensa nem sequer dava olhos aos outros jogadores da equipe. Tudo e todos só tinham olhos para o capitão. Porém, ele deu combustível para esse foco ao dizer que a Islândia “comemorou o empate como se tivesse vencido a Eurocopa”, uma mentalidade de “time pequeno” e que eles “nunca seriam nada”. Frases, no mínimo, inconvenientes e impróprias ditas num momento de cabeça quente pós-jogo. Na partida seguinte, contra a Áustria, o time mais uma vez jogou abaixo do esperado, desperdiçou uma montanha de oportunidades – foram 23 chutes a gol contra três dos austríacos! – e o zero não saiu do placar. Para piorar, Cristiano Ronaldo, que ultrapassou a lenda Figo como jogador que mais vestiu a camisa portuguesa na história justamente naquele jogo, desperdiçou um pênalti ao chutar na trave a cobrança, aos 34’ do segundo tempo. Após o jogo, ele disse estar com “falta de sorte”. Mas Portugal saiu-se bem daquela rodada, afinal, Hungria e Islândia também empataram e embolou o grupo, que teria sua definição apenas na última rodada.

 

Horas antes da partida final, Cristiano foi outra vez alvo dos jornais. Caminhando com seus companheiros de seleção nos arredores do hotel, perto de um lago, o craque foi surpreendido por um repórter de um veículo de Portugal, o Correio da Manhã. Ao ser indagado se estava preparado para o duelo contra a Hungria, o atacante não respondeu. Simplesmente pegou o microfone e o atirou no lago. Ira? Sim, mas com motivos. O grupo proprietário daquele jornal havia feito uma série de matérias demonizando o atleta, expondo fotos de seus familiares, enfim, sensacionalismo puro. A atitude do capitão foi por instinto e uma consequência disso. Ele estava tranquilo, se preparando para um jogo importante, o repórter não tinha nada que invadir (mais uma vez) a privacidade do atleta nem desconcentrá-lo. E você, o que faria? É de se analisar o arremesso do microfone, mas e se fosse com você? Imagine um jornal fazer várias matérias sensacionalistas sobre sua vida pessoal? Você ficaria bonzinho? Claro que não. Cada um teria uma atitude, e a dele foi essa. Foi a transparência dele. Foi espontâneo num mundo tão robotizado e julgador.

Horas depois, Cristiano Ronaldo entrou em campo e mostrou quem ele era mais uma vez. A Hungria abriu o placar no primeiro tempo, mas Cristiano Ronaldo viu Nani na área e tocou para o companheiro empatar. No segundo tempo, logo aos dois minutos, novo gol húngaro. Mas, três minutos depois, o capitão marcou um golaço de letra e empatou. A Hungria fez 3 a 2 aos 10’, mas Cristiano, após aproveitar um cruzamento de Quaresma, testou para empatar em 3 a 3 e colocar Portugal na próxima fase. O craque foi eleito o melhor homem em campo e mostrou que ainda era “o cara” no time. O Correio da Manhã parabenizou o jogador após a partida, mas ironizou: “Você nos deve um microfone agora”. A propósito: o tal microfone foi encontrado por um mergulhador e leiloado pela emissora. Os fundos foram para o Centro de Reabilitação Psicopedagógica da Sagrada Família, instituição de caridade na Ilha da Madeira, terra do jogador português.

 

Caravela de emoções, na final

Depois do turbilhão de críticas e polêmicas da primeira fase, Portugal teve a Croácia nas oitavas de final da Euro. Era a chance de se redimir do balde de água fria que a equipe jogou nos torcedores que esperavam tanto do time que passeou nas Eliminatórias e fez ótimos amistosos preparatórios desde a chegada do técnico Fernando Santos. Mas, em Lens, os 90 minutos foram sofríveis. Sem gols. Insosso. Na prorrogação, Santos colocou Danilo, mudou a postura do time e, enfim, o zero saiu do placar. Renato Sanches engatilhou um contra-ataque fulminante, deixou na esquerda com Nani, e ele cruzou para a área. Cristiano Ronaldo chutou, o goleiro espalmou, e Quaresma, o talismã, surgiu para fazer o gol da vitória e da classificação, aos 117’.

Pepe vibra com Renato Sanches.

 

Nas quartas, o time português encarou a Polônia, de Lewandowski. E, com apenas dois minutos, o badalado atacante fez 1 a 0 para os poloneses, em Marselha. Mas o garoto Renato Sanches, no lugar do lesionado André Gomes, arriscou aos 33’ e empatou: 1 a 1. Jogando com muita intensidade e personalidade, o meio-campista foi o principal nome do time na partida e uma arma importante para as jogadas de ataque – foram 13 dribles, apenas um a menos do que todos os jogadores de Portugal, juntos, na partida. Porém, a efetividade do garoto não foi suficiente para Portugal tirar o empate do placar. O jogo foi para a prorrogação e, ao término dos 120 minutos, pênaltis. Antes das cobranças, enquanto Fernando Santos definia os batedores, Cristiano Ronaldo entrou em cena como o capitão que era. E virou marechal. Inflando os companheiros, transbordou energia e entusiasmo. João Moutinho, que não estava com “ganas” para bater, foi encorajado pelo camisa 7:

 

“Anda a bater, anda a bater, anda! Tu bates bem! Se perder, que se f…! Seja forte, seja forte!”.

 

Veja abaixo:

E ele acatou as ordens do companheiro. O próprio Cristiano foi para a primeira batida. Fez. Renato Sanches, grande nome do jogo, também. Moutinho, o encorajado, guardou. Nani também. A Polônia foi para a quarta cobrança e Rui Patrício defendeu. Na derradeira de Portugal, Quaresma fez e garantiu o 5 a 3 e a classificação para a semifinal, a quarta de Portugal nas últimas cinco edições do torneio! Na comemoração, muita festa e alívio por mais um drama superado pela “caravela portuguesa”, que teria na semifinal mais um adversário fora do “eixo dos titãs” da Europa: País de Gales, que apostava no talento de Bale para alcançar uma histórica final.

A celebração na disputa de pênaltis: a final estava mais perto! Foto: REUTERS/Yves Herman
Livepic.

 

Após um primeiro tempo de futebol pragmático, Portugal acordou na segunda etapa. Se cansou de prorrogação e dramas. Aquela caravela precisava de um pouco de tranquilidade no agitado mar europeu. E ela começou a surgir graças à magnificência de seu capitão. Aos cinco minutos, após um escanteio cobrado curto, a bola foi alçada na área. Lá estava Cristiano Ronaldo. O atacante simplesmente levitou, abusou de sua impulsão formidável do atleta fora de série que sempre foi, e cabeceou a bola para o fundo do gol galês. Que golaço! 1 a 0 Portugal. O gol fez o capitão se igualar a Michel Platini como o maior artilheiro da história da Euro. Apenas três minutos depois, outra vez Cristiano apareceu para chutar cruzado e Nani interceptar para marcar o segundo: 2 a 0. Era o carimbo final para a vaga na decisão. Gales não conseguiu mais criar, errou muito, entrou no nervosismo e Portugal jogou com tranquilidade, assumindo o protagonismo do jogo com 17 chutes a gol contra apenas nove do rival. Ao apito do árbitro, a caravela, enfim, pôde atracar com calmaria. Chega de mar bravo! Pela primeira vez naquele mata-mata, o time encarnado passava sem depender do tempo extra. E, de novo, Cristiano Ronaldo aparecia como salvador e melhor em campo. O pacto de estar em Saint-Denis estava cumprido. E foi revelado por Fernando Santos, em emocionada coletiva após o jogo.

 

“Há dois anos, praticamente, nós traçamos um propósito. Foi numa palestra que eu dei, nós assumimos o compromisso de voltar a Saint-Denis. Com muito esforço, trabalho e dedicação de todos aqueles que estão aqui, e também dos que infelizmente não puderam estar nos 23 convocados, o propósito foi alcançado”.Fernando Santos, em entrevista reproduzida no site da ESPN, 06 de julho de 2016.

 

Ronaldo levita: impressionante!

 

E corre para o abraço!

 

Portugal na Euro: time complicado de se enfrentar e com jogadores iluminados.

 

Enfim, a equipe tinha uma nova chance de conquistar a Europa. De colocar as mãos na taça que escapou em casa, de maneira traumática, em 2004. Mas, ao contrário daquele ano, o time português não seria favorito. Motivo? Eles teriam pela frente simplesmente a França, anfitriã, quase imbatível jogando no Stade de France e adversário que não era derrotado por Portugal há 40 anos. Como derrubar tantos paradigmas e cenários contrários? Sendo imortal.

 

Encarnados Imortais

No dia 10 de julho de 2016, o Stade de France recebeu mais de 75 mil pessoas para a grande final da Eurocopa. De um lado, a embalada França, cheia de bons jogadores e que havia derrotado a poderosa e sempre indigesta Alemanha por 2 a 0 na semifinal. Eles tinham o artilheiro (Griezmann), praticamente toda a torcida, as memórias da glória de 1998 naquele palco e uma invencibilidade de dez jogos contra o rival. Do outro lado, estava Portugal, que vinha de uma campanha complicada, com três empates na primeira fase, uma vitória na prorrogação nas oitavas, empate e triunfo nos pênaltis nas quartas e, enfim, vitória no tempo normal na semifinal. A equipe era o “patinho feio” da decisão, azarona. Poucos acreditavam em um triunfo português. E, com menos de dez minutos, acreditariam menos ainda. Aos 7’, em uma disputa de bola, Cristiano Ronaldo levou uma pancada de Payet – maldosa e não punida pelo árbitro. No joelho. Doeu. Muito. O craque gritou. Saiu de campo, enfaixou o joelho e voltou. Alguns minutos se passaram e ele pediu substituição, chorando. A sua nação chorou. Se uma final com ele já era difícil, sem ele seria praticamente angustiante. O capitão deixou o gramado aos 25’, aplaudido. Fernando Santos colocou Quaresma e teve que mudar seu esquema de jogo. Montou um 4-1-4-1. Fechou os espaços. Em campo, os jogadores fizerem um novo pacto: provar que eles podiam vencer sem o capitão e venceriam por ele e por sua nação.

O choro de Cristiano comoveu até os franceses.

 

Com garra, controle e aplicação tática formidável, o time encarnado foi gigante em Saint-Denis. A França tentava, mas esbarrava em Rui Patrício, em dia inspirado, e na zaga, comandada por um ótimo Pepe, muito longe daquele inseguro e violento de tempos passados. Raphaël Guerreiro era a referência na saída de bola, Nani o perigo constante no ataque, Quaresma o talismã que gerava desconfiança na zaga francesa por sua experiência e poder de decisão. Na segunda etapa, a França manteve mais posse de bola, mas Portugal não deixava tal predominância se transformar em gols. Em bolas aéreas ou paradas, os encarnados arriscavam, mas também não conseguiam marcar. Santos mexeu mais duas vezes, colocando João Moutinho no lugar de Adrien e Éder no lugar de Renato Sanches. Portugal quase marcou com Nani, que cruzou com veneno obrigando Lloris a espalmar e, no rebote, segurar um voleio de Quaresma. Rui Patrício, ótimo, segurava as investidas de Giroud e Sissoko. No finalzinho, Gignac driblou Pepe na pequena área e chutou na trave. Foi o último suspiro francês. E o jogo foi para a prorrogação. Sim, mais uma. Era a terceira de Portugal naquela Eurocopa. Era o time que mais havia jogado em solo francês. O que mais havia suado, batalhado. Como podia ter tanta garra e tanto brio? Eles estavam encantados. Cristiano Ronaldo, o capitão ferido daquela caravela de emoções, voltou do banco para encorajar seus companheiros, estatelados no chão, exaustos, com os nervos à flor da pele, com aquela tensão enorme de ter de encarar mais meia hora de jogo.

Quando a bola voltou a rolar, Cristiano Ronaldo não conseguiu mais se aquietar. Ele virou o entusiasta à beira do gramado. Junto com Fernando Santos, era o segundo técnico encarnado. Gesticulava, gritava. Portugal jogava no embalo dele. Primeiro, uma cobrança de falta e cabeçada que passou perto do gol, mas o bandeira deu impedimento. Depois, aos 13’, Éder cabeceia após cobrança de escanteio e Lloris faz uma defesaça, arrancando suspiros do banco português. Vem o segundo tempo. Cristiano segue energético. Aos 2’, cobrança de falta para Portugal. O capitão ordena que Raphaël Guerreiro, que fazia uma partida exemplar, bata. Ele vai pra bola, chuta e ela carimba o travessão de Lloris! Impressionante! Por que raios tanto sofrimento!? Mas, dois minutos depois, um personagem improvável aparece: Éder, o atacante de origem humilde que superou adversidades, cresceu em um orfanato e gerava desconfiança da imprensa e torcida. Ele recebeu pouco após do meio de campo, escapou da falta de Koscielny, esperou o espaço certo deixado pelo zagueiro Umtiti e disparou um petardo de fora da área. A bola foi no cantinho, Lloris não alcançou, e ela foi deitar mansa no gol do Stade de France. Golaço!

O banco português sofria…

 

Veja, com narração portuguesa:

O técnico Fernando Santos e seu “auxiliar”.

 

O grito de alegria português ecoou de Saint-Denis, fez-se ouvir em Braga, Porto, Viseu, Coimbra, Fátima, Santarém, Sintra, Estoril até chegar em Lisboa. Ganhou mais força, foi para Setúbal, depois ao centro, em Évora, desceu até Lagos, Albufeira, Faro até chegar à Ilha da Madeira. Portugal abria o placar na decisão! Os jogadores do banco de reservas invadiram o gramado para abraçar Éder. Cristiano Ronaldo não conteve a emoção. Mas ainda tinha pouco mais de dez minutos. Raphaël, soberano na lateral, se lesiona. Cristiano Ronaldo chega junto, dá energia ao jovem e o encoraja a aguentar. Faltava pouco. Portugal não deixava a França pensar em atacar. Rui Patrício não ia levar um gol àquela altura de jeito nenhum. E, ao apito do árbitro, a frenesi tomou conta do gramado. Lágrimas, abraços, gritos. Era muita emoção. Era hora de extravasar e soltar o “é campeão” que nunca aquela nação valente e imortal, como bem dizia uma faixa na arquibancada, havia soltado. Pepe, que se agigantou naquela decisão, chegou a vomitar após o jogo tamanha tensão que viveu ao longo dos 120 minutos.

A epopeia estava feita. Portugal era campeã europeia de futebol. Campeã de um grande torneio internacional pela primeira vez. Cristiano Ronaldo e seus companheiros subiram ao ponto mais alto do Stade de France. Lá, o capitão que tanto sofreu levantou o troféu que mais queria. Desde 2004, quando ainda era um garoto, que ele sonhava em ser campeão por Portugal. Pronto. O sonho estava realizado. Podiam falar o que quisessem dele. Ele já estava na história como um dos maiores atletas de todos os tempos. E um dos maiores ídolos da história do esporte português e mundial.

 

Uma taça em boas mãos

A seleção portuguesa foi campeã invicta, com três vitórias e quatro empates em sete jogos. Marcou nove gols e sofreu cinco. Dos nove gols, seis tiveram participação direta de Cristiano Ronaldo, vice-artilheiro com três gols e vice-assistente com três passes para gols. Renato Sanches foi eleito o melhor jogador jovem e se tornou o mais jovem campeão europeu na história, e, na seleção da Euro, Rui Patrício, Raphaël Guerreiro, Pepe e Cristiano Ronaldo cravaram seus lugares no time. Foi a seleção com mais nomes entre os 11 eleitos. Muitos criticaram a campanha do time, o excesso de empates, a falta de gols, mas não viram que Portugal foi equilibrada. Teve controle dos nervos. Não levou cartões vermelhos mesmo disputando três prorrogações. Foi aplicada taticamente. Teve um sistema defensivo muito forte. Teve mais físico do que qualquer outra seleção mesmo em final de temporada. Enfim, foi campeã. Venceu a França em sua própria casa. Em uma decisão. Contra todos os prognósticos. Se tinha uma seleção que trabalhou e se entregou para vencer aquela Eurocopa, essa seleção foi Portugal. E ponto final.

 

Emoldurado na parede, na memória e no coração

 

O feito de Portugal na Euro foi manchete em todo o mundo. A epopeia na final foi digna de filme, algo que ninguém poderia imaginar. Entrar em uma decisão contra o anfitrião, estádio quase todo contra, perder o melhor jogador e capitão ainda no primeiro tempo, e vencer na prorrogação foi simplesmente épico. Na volta para casa, os jogadores encarnados foram recebidos com saudação ainda no aeroporto e desfilaram pelas ruas da capital. Embalada, a equipe seguiu firme em suas partidas pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo e carimbou sua vaga com uma campanha incontestável: nove vitórias e apenas uma derrota em dez jogos. Cristiano Ronaldo marcou 15 gols, seguido de André Silva, com nove. O time simplesmente voou. Em 2017, disputou pela primeira vez a Copa das Confederações, derrotou a anfitriã Rússia (1 a 0), bateu a Nova Zelândia (4 a 0) e empatou com o México (2 a 2) na fase de grupos, mas caiu na semifinal, nos pênaltis, diante do Chile, após empate sem gols. Na disputa pelo terceiro lugar, venceu o México por 2 a 1.

Em 2018, Portugal até passou pela fase de grupos da Copa do Mundo, mas sucumbiu já nas oitavas de final diante do Uruguai. Mesmo assim, a geração de Cristiano Ronaldo, Rui Patrício, Raphaël Guerreiro, Pepe e companhia já cravou seu nome no rol de imortais e fez justiça àqueles que não levantaram uma taça pelo país. E provou que é capaz de tudo com Cristiano Ronaldo. E sem ele também. Eles foram um só time num só propósito. E o conquistaram, com amor, raça e trabalho. Uma seleção imortal.

 

Os personagens:

 

Rui Patrício: com defesas milagrosas e muita segurança, o goleiro foi o melhor da competição e garantiu o ótimo sistema defensivo da equipe, principalmente na fase de mata-mata e, claro, na final, quando se agigantou diante de Griezmann, Gignac, Giroud e companhia. É convocado para a equipe desde 2010 e já tem mais de 65 jogos com a camisa encarnada. Titular absoluto do técnico Fernando Santos.

Cédric: o jovem lateral-direito ganhou a posição ao longo da Euro e deixou Vieirinha no banco graças ao bom passe e notável aplicação tática. Cresceu bastante na fase de mata-mata e foi um dos principais jogadores do sistema defensivo do time. Joga no futebol inglês e atua por Portugal desde 2014.

Vieirinha: pode jogar como ponta e lateral-direito, sempre com vocação ofensiva. Foi titular na fase de grupos, mas perdeu a posição para Cédric, melhor na parte tática. É convocado para a seleção desde 2013 e já disputou 25 jogos com a camisa encarnada.

Pepe: o já consagrado zagueiro sempre teve fama de violento e de não aliviar nas divididas, além de levar muitos cartões. Mas a experiência e o foco no título fez com que ele se transformasse num dos melhores jogadores da equipe na competição. Firme no miolo da zaga, na marcação e nos desarmes, o defensor superou as críticas e fez história. Na decisão, embora tenha levado um drible desconcertante de Gignac que quase resultou em gol, foi um dos melhores no jogo com vários desarmes, vitória em cinco de oito duelos mano a mano e 100% de aproveitamento nos 31 passes curtos que fez. Veterano e convocado desde 2007 para a seleção, tem quase 100 jogos por Portugal.

José Fonte: forte e alto, o defensor assumiu a titularidade na fase de mata-mata, deixou o badalado Ricardo Carvalho no banco e fez ótimas partidas, sempre seguro e muito entrosado com o companheiro Pepe. É convocado desde 2014 para a seleção.

Ricardo Carvalho: o veterano zagueiro, mais velho da Euro com 38 anos na época, foi titular na fase de grupos ao lado de Pepe, mas perdeu o posto no mata-mata. Já longe da forma que o consagrou no Porto campeão europeu de 2004 e no Chelsea multicampeão inglês, o defensor já não tinha a velocidade de outrora, mas compensava com sua natural inteligência em ler o jogo e se posicionar muito bem. O título serviu como recompensa pelo trabalho prestado ao longo de décadas. Disputou 89 jogos e marcou cinco gols por Portugal, seleção que defendeu entre 2003 e 2016.

Raphaël Guerreiro: foi uma das gratas surpresas da Euro pela lateral-esquerda. Não foi à toa que o Borussia Dortmund-ALE desembolsou cerca de 12 milhões de euros ao Lorient-FRA pelo seu futebol. Rápido, inteligente e ótimo na bola parada, o jovem de apenas 22 anos não sentiu o peso de uma competição de alto nível e representou muito bem Portugal – mesmo ele tendo nascido na França, em Le Blanc-Mesnil, subúrbio ao norte de Paris.

Eliseu: o lateral-esquerdo, dono de um poderoso chute, foi titular em duas partidas de Portugal na campanha da Euro – contra a Hungria, na fase de grupos, e contra a Polônia, no mata-mata. Não foi tão brilhante quanto o concorrente, Raphaël Guerreiro, mas cumpriu seu papel e não comprometeu.

Renato Sanches: os portugueses já sabiam de seu talento após uma temporada ótima pelo Benfica. Mas o técnico Fernando Santos o colocou aos poucos no time. Quando entrou, o meia de apenas 18 anos, que começou a jogar bola em um projeto social na Musgueira, periferia de Lisboa, provou ter estrela. Com partidas marcantes, dribles e muita atitude, jogou como se estivesse brincando e não em uma Eurocopa. Seus arranques pelas pontas foram um perigo para os adversários e sua presença foi essencial nos jogos decisivos da equipe. Contra a Polônia, fez um gol, anotou sua cobrança na disputa de pênaltis e foi eleito o melhor em campo. Ao término da competição, ganhou o prêmio de melhor jogador jovem da Euro.

Éder: nascido na Guiné-Bissau, Éderzito António Macedo Lopes nunca foi uma unanimidade para a imprensa portuguesa. Com 1,90m, seu jeito desengonçado dá impressão de que vai perder a bola a qualquer momento, mas provou seu valor quando Portugal mais precisou. Por ser um jogador de área, forte e alto, foi essencial nos três jogos que disputou. Como uma prévia do destino, foi dele o gol da vitória por 1 a 0 sobre a Itália, um ano antes, que destroçou o jejum de 23 anos de Portugal sem vitórias sobre a Azzurra. E, na Euro, marcou o gol mais importante da história de Portugal e que acabou com o jejum de 40 anos sem vitórias sobre a França. E, de quebra, o de títulos.

William Carvalho: volante alto e com bom passe, ganhou a titularidade ainda na fase de grupos ao deixar o compatriota Danilo no banco a partir do jogo contra a Áustria. Só ficou de fora da semifinal, contra Gales, por ter levado o segundo amarelo no duelo contra a Polônia. Voltou na decisão e manteve a qualidade no meio de campo. Já disputou 40 jogos por Portugal desde 2013.

Danilo: com quase 1,90m de altura, o volante se impõe pela presença física e era a primeira opção como homem à frente da zaga até perder a titularidade para William Carvalho. Mesmo assim, é frequentemente convocado por Fernando Santos e uma das boas revelações portuguesas dos últimos anos.

Adrien Silva: driblador e muito eficiente os passes e tabelas, o meia foi outro que cravou se espaço a partir da fase de mata-mata e não saiu mais. Filho de pai português e mãe francesa, ele nasceu na França e migrou para Arcos de Valdevez, Portugal, ainda criança. Brilhou no Sporting até ser contratado pelo Leicester City-ING, em 2017.

João Moutinho: o meio-campista foi titular na fase de grupos, fez uma bela partida contra a Áustria, mas perdeu a titularidade no mata-mata. Experiente, foi selecionado pelo técnico Santos contra a Polônia, País de Gales e França para cadenciar o jogo quando preciso, ajudar nos passes e nas bolas paradas. Polivalente, pode jogar em qualquer setor do meio, tanto na defesa como no ataque. É um dos portugueses com mais jogos pela seleção: 105, com sete gols marcados.

João Mário: o jovem só ficou de fora da partida contra a Áustria, na fase de grupos. Em todas as outras, foi titular do meio de campo com boa visão de jogo, inteligência, ótimos passes e qualidade para ajudar na armação de jogadas de ataque – ele deu uma assistência na competição. É presença nas convocações desde 2014 e já tem mais de 30 jogos com a camisa encarnada.

André Gomes: foi titular na primeira fase e no jogo contra a Croácia, atuando como um dos meias ofensivos do time. Deu uma assistência e contribuiu com seu bom porte físico e domínio de bola. É convocado desde 2014 e tem quase 30 jogos com a camisa lusitana.

Nani: ponta clássico e consagrado no futebol europeu, é titular de Portugal há muitos anos e presença nas convocações desde 2006. Já tem 112 jogos e 24 gols com a camisa encarnada. Veloz, driblador, ótimo nas assistências e nos passes e cruzamentos, foi um coringa muito útil para o sistema ofensivo do técnico Fernando Santos. Ao lado de Cristiano Ronaldo, marcou três gols e foi o artilheiro do time, além de ter dado uma assistência.

Quaresma: muito habilidoso, experiente e técnico, o atacante foi um importante talismã na campanha de Portugal nas Eliminatórias da Euro com gols e ótimas atuações, quase sempre entrando no decorrer das partidas. Na Euro, continuou sendo importante para o sistema ofensivo do time e marcou o gol salvador da vitória por 1 a 0 sobre a Croácia, nas oitavas, além de converter seu gol na disputa de pênaltis contra a Polônia. Tem 72 jogos e nove gols pela seleção, a qual defende desde 2003.

Cristiano Ronaldo: maior artilheiro da história da Euro ao lado de Platini (9 gols), jogador que mais marcou gols na Euro juntando Eliminatórias e a competição principal (29 gols), jogador que mais disputou a Euro na história (quatro vezes), jogador que mais disputou jogos da Euro (21 jogos), capitão, centro das atenções, polêmico, líder, humano e campeão. A Eurocopa de 2016 foi, sem dúvida, de Cristiano Ronaldo. Crente de que aquela poderia ser sua última na carreira, o craque fez do torneio a ode para conquistar seu maior sonho: ser campeão por Portugal. Após dois empates, levou o time nas costas contra a Hungria em sua melhor partida, conseguiu a classificação e continuou importante na fase de mata-mata. Se não foi o prolífico goleador do Real Madrid, Cristiano foi o responsável por conduzir todo o time como capitão até o fim. Inspirou seus companheiros. Vibrou como nunca. Na final, chorou copiosamente por não conseguir continuar em campo após uma maldosa entrada do rival em seu joelho. Só assim para brecar um atleta formidável, com um dos maiores físicos do esporte. Mas, como líder, continuou lá, firme, para ser a referência. Na prorrogação, foi a voz para Raphaël Guerreiro cobrar uma falta que quase virou gol. Manteve o mesmo garoto forte, em campo, quando ele se contundiu. E não aguentou o choro quando viu Éder marcar o gol mais importante da história portuguesa. Ao final, ergueu sua primeira taça como capitão. Justamente por seu país, pela nação que ele tanto ama e ajuda fora das quatro linhas. O título da Euro serviu para sepultar críticas, dúvidas ou qualquer outra coisa que se disse sobre ele. Cristiano Ronaldo já é um imortal do futebol. E um dos maiores atletas de todos os tempos.

Fernando Santos (Técnico): após bons trabalhos no Porto e no futebol grego, o treinador assumiu a seleção em 2014 com o propósito de acabar de vez com o estigma de derrotismo que pairava sobre as bandas lusitanas. Com calma, sobriedade e visão para selecionar ótimos jovens jogadores, montou um grupo com alma vencedora. Seu trabalho na Euro foi impressionante, cheio de adversidades, mas com a redenção na final. Os números não mentem sobre seu desempenho: até dezembro de 2017 foram 46 jogos, 31 vitórias, sete empate e apenas oito derrotas, quase 68% de aproveitamento. Se continuar assim, não será surpresa alguma se chegar além da semifinal da Copa do Mundo. Como não foi surpresa seu título histórico na Eurocopa.

Foto: REUTERS/Darren Staples.

 

Extras:

Veja o empate entre Portugal e Hungria na primeira fase.

 

Veja os gols da vitória sobre País de Gales.

 

Veja os melhores momentos da final.

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4 thoughts on “Seleções Imortais – Portugal 2016

  1. Eusébio poderia ter vibrado como o Cristiano. Portugal era capaz de vencer a Copa de 1966 , eles tinham time pra isso, ficaram com medo da Inglaterra e acabaram desperdiçando uma chance de fazer história. Tive a mesma impressão com ao ler sobre a Suécia de 1994. Dois times bronze derrotados na semifinal por equipes que seriam campeãs.

    Cristiano Ronaldo mereceu. Levantou a taça e eu gritei com ele.

    Legal por ter atendido a uma sugestão nossa.

    Abs.

  2. Faz um da epoca do Chelsea com o Didier Drogba, por favor. Na minha opnião foi o maior jogador do Chelsea. Curto demais a pagina de voceis.

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