Craque Imortal – Roberto Dinamite

Nascimento: 13 de abril de 1954, em Duque de Caxias (RJ), Brasil.

Posição: Centroavante

Clubes: Vasco da Gama-BRA (1971-1980, 1980-1989, 1990 e 1992-1993), Barcelona-ESP (1980), Portuguesa-BRA (1989) e Campo Grande-BRA (1991).

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Brasileiro (1974), 5 Campeonatos Cariocas (1977, 1982, 1987, 1988 e 1992) e 2 Troféus Ramón de Carranza (1987 e 1988) pelo Vasco da Gama.

Principais títulos individuais e artilharias:

Bola de Prata da revista Placar: 1979, 1981 e 1984

Artilheiro do Campeonato Brasileiro: 1974 (16 gols) e 1984 (16 gols)

Artilheiro do Campeonato Carioca: 1978 (19 gols), 1981 (31 gols) e 1985 (12 gols)

Artilheiro da Copa América: 1983 (3 gols)

Artilheiro do Vasco em todas as temporadas de 1973 até 1985

Maior Artilheiro da história do Campeonato Brasileiro: 190 gols em 328 jogos

Maior Artilheiro da história do Campeonato Carioca: 284 gols

Maior Artilheiro da história do Vasco da Gama: 702 gols em 1110 jogos

Maior Artilheiro da história do estádio de São Januário: 184 gols

Jogador que mais vestiu a camisa do Vasco da Gama na história: 1110 jogos

Um dos três jogadores brasileiros com mais de 1000 jogos por um único clube, ao lado de Pelé e Rogério Ceni

Eleito para o Time dos Sonhos do Vasco da Gama pela revista Placar: 2006

 

“O Explosivo de Gols”

 

No século 19, o químico e inventor sueco Alfred Nobel queria descobrir uma maneira de tornar a nitroglicerina, um composto químico altamente explosivo, mais manipulável para que pudesse ser utilizada em diversos fins. Depois de muitas pesquisas, eis que ele juntou a nitroglicerina com materiais absorventes porosos (como terra diatomácea ou outro material absorvente como serragem, argila ou polpa de celulose) e envolveu o conteúdo com uma capa cilíndrica. Ele batizou o artefato como “Pó de segurança para explodir”, que ficou conhecido como Dinamite, que vem do grego “dinamis” com o sufixo sueco “it”, que significa “conectado com a força”. Estava sacramentado um dos mais perigosos e instáveis explosivos do mundo, que revolucionou as grandes construções mundiais, como túneis e canais. Muitos anos depois, mais precisamente em 1971, um jovem de apenas 17 anos mostrou que a palavra dinamite poderia ser aplicada quando utilizada ao descrever a ação de um ser humano que aplica força num chute. Em novembro daquele ano, aquele tal jovem passou por quatro marcadores e mandou um petardo de perna direita sem chance alguma para o goleiro. Todos ficaram estupefados. No dia seguinte, o Jornal dos Sports imortalizou em uma grande manchete: “Garoto dinamite explode”. Ele explodiu no Maracanã. E se mostraria altamente perigoso por longos anos. Seria o maior explosivo utilizado pelo Vasco na história do Campeonato Carioca. O maior na história do Campeonato Brasileiro. O maior na história do estádio de São Januário. Era um explosivo diferente, que não causava dano material algum. Ele liberava gols. De todos os tipos. Centenas. Por mais de duas décadas, ecoou em estádios de vários cantos do Brasil e até do mundo. Carlos Roberto de Oliveira foi dinamite em estado puro no futebol. Foi Roberto Dinamite, o maior artilheiro da história do Vasco e um dos mais notáveis centroavantes que o Brasil já teve. Com números incontestáveis, foi uma lenda multicampeã que sempre foi devota da cruz de malta, seu pendão. É hora de relembrar.

 

Bola pro Calu!

Um novato Roberto, nos juvenis do Vasco. Foto: Blog Tardes de Pacaembu.

 

Nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, filho de um funcionário público e uma dona de casa, Roberto cresceu com o futebol bem perto de si, afinal, havia um campo de futebol em frente a sua casa. Ali, adorava jogar bola, mas a paixão quase foi interrompida por problemas de saúde que teve até os 12 anos de idade. De aspecto franzino, Roberto passou por duas operações nas pernas e até pensou que não voltaria a jogar bola.

 

“Foi um milagre. Milagre porque eu, com sete para oito anos, fiquei praticamente três meses de cama, tive que fazer uma cirurgia de um tumor na coxa e coloquei gesso na perna esquerda toda, na cintura e na outra perna, e aquele tradicional cabo de vassoura no meio. Fiquei três meses na cama sendo assistido pela minha mãe e era muito magrinho. Uma criança que até os sete teve muitos problemas, aos sete tive um problema sério na perna esquerda, com 12 anos um problema também na perna esquerda. Acredito que a gente vem nesse mundo com uma missão, nós podemos melhorar ou não, e acho que fui um privilegiado”.Roberto Dinamite, em entrevista ao SporTV, 12 de abril de 2014.

 

Depois de ficar engessado por alguns meses, sua mãe o proibiu de jogar futebol. Mas, como ele sabia o canto da janela onde era possível ver o campo em frente a sua casa, ele jogava escondido sem ser notado. O tempo passou e o caçula de três irmãos conseguiu uma vaga no São Bento, clube de Duque de Caxias onde seu pai jogava como goleiro. Ali, começou a se destacar pela facilidade em marcar gols e também por ser muito “fominha”, ao receber a bola e raramente devolvê-la aos companheiros. Ele queria mandar a redonda para dentro, sem interferências. O Calu, apelido que tinha na época, ganhava cada vez mais força e não parecia nem um pouco com o frágil menino de alguns anos atrás. Técnico, já mostrava aos 13 anos uma notável habilidade em arremates de dentro e fora da área e precisão nos chutes com ambas as pernas. Ele se inspirava em campo no ídolo Jairzinho, o Furacão da Copa de 1970 (leia mais clicando aqui).

Foi entre uma partida e outra no São Bento que Roberto foi visto por Francisco de Souza Ferreira, o Gradim, olheiro do Vasco, que tratou de bancar a ida do jovem adolescente, então com 14 anos, até o CT cruzmaltino. Ele passou na peneira e começou a rotina de pegar dois ônibus para ir e dois para voltar, todos os dias, até os treinamentos. Porém, todo aquele esforço seria recompensado. Roberto ganhou cerca de 15kg de massa muscular nos treinos, e, com 16 anos, já era o principal goleador dos times juvenis. Em seu primeiro ano, já tinha 46 gols e era tratado com enorme entusiasmo pelas pessoas no clube. Alto e forte, Roberto já era uma notável promessa e seria incorporado ao time principal em 1971. Até aquele ano, contabilizava dezenas de gols e uma coleção de características que faziam dele um centroavante-nato: bom cabeceador, forte nas jogadas de corpo a corpo, preciso nos arremates, ótima colocação, boa impulsão e chutes devastadores. Nos treinos, Roberto se destacava cada vez mais e era apenas uma questão de tempo para ele ganhar uma chance no time titular. Em 1971, contra o Bahia, fora de casa, o técnico Admildo Chirol colocou o jovem atacante durante a partida contra o tricolor. Àquela altura, Roberto já tinha um apelido nada sutil criado pelos jornalistas Eliomário Valente e Aparício Pires, que acompanhavam mais de perto os primeiros passos do jovem nos juvenis do Vasco: garoto-dinamite. Tanto é que, um dia antes do próximo duelo na competição, contra o Atlético-MG, o Jornal dos Sports destacou: “Vasco escala garoto-dinamite”, referência de que ele seria titular contra os mineiros. Porém, diante de tanta expectativa, o jovem não foi bem e acabou substituído na derrota vascaína por 2 a 1, também fora de casa. Mas o grande debute do tal garoto-dinamite seria no dia 25 de novembro de 1971, no Maracanã, contra o Internacional.

 

Explosão de gols, paixão e o primeiro título

Roberto voltou para o banco de reservas na partida contra o Inter. Impaciente, ele não via a hora de entrar e poder mostrar seu valor. Era o Maracanã, a torcida vascaína estava lá. Não havia ocasião melhor para o jovem marcar seu primeiro gol. E, quando o Vasco já vencia por 1 a 0 no segundo tempo, eis que o jovem foi chamado para se aquecer. Enfim, ele entrou. E, na primeira bola que recebeu, aos 27’, passou por três marcadores, driblou Pontes, e fuzilou sem chances para o goleiro Gainete: 2 a 0 Vasco. Primeiro gol de Dinamite no time profissional. A torcida ficou eufórica, ainda mais Roberto, que não sabia como comemorar de tamanha alegria. No dia seguinte, o Jornal dos Sports estampou essa manchete:

Pronto. Roberto nunca mais seria o Calu. E nunca mais seria apenas Roberto. Ele seria, a partir daquele dia, Roberto Dinamite. Mesmo com o primeiro golaço, Dinamite iria evoluir sem pressa, paulatinamente. Ele continuou a enfrentar horas e horas nos ônibus até o CT vascaíno para amadurecer e não se deslumbrar com o sucesso repentino. Foi nessa época, mais precisamente em 1972, num calorento ônibus da linha Caxias-Praça Mauá, que Roberto conheceu Jurema Crispim, 24 anos, seis anos mais velha do que ele. Naquele ano, eles começaram uma intensa história de amor e união que iria refletir diretamente na vida futebolística do atacante. Jurema seria a companheira, amiga e até “empresária” do craque em todos os momentos, mostrando muito pulso firme e coragem em um ambiente tão hostil para as mulheres na época. O início do romance foi complicado para ele, pois sua família era contra o relacionamento pelo fato de Jurema ser viúva e ter um filho. Dinamite comprou a briga e seguiu com o relacionamento. Até a torcida do Vasco pegava no pé do jogador, mas ele não ligava. Em campo, respondia com gols.

Em 1974, já titular absoluto, marcou 16 tentos, foi o artilheiro do Campeonato Brasileiro pela primeira vez e peça chave na caminhada cruzmaltina rumo ao título nacional, o primeiro da história do clube. Na fase final, Dinamite marcou na vitória sobre o Santos (que ainda tinha Pelé) por 2 a 1, e outro no empate em 2 a 2 contra o Internacional. Na decisão, contra o Cruzeiro, o craque não marcou, mas cumpriu seu papel no triunfo por 2 a 1 que deu o caneco ao time carioca. Foi o primeiro título de Roberto pelo Vasco. E a consagração da promessa em ídolo instantâneo.

 

“Foi o início de tudo, inclusive de minha condição de titular na equipe. A conquista do Brasileiro de 1974 me deu a confiança necessária para seguir a carreira e chegar aonde cheguei. Tecnicamente, o Cruzeiro era melhor, mas nós superamos tudo com muita determinação e disciplina. Isso também serviu de exemplo para toda a minha carreira”. – Roberto Dinamite, em entrevista ao site NetVasco, agosto de 2013.

 

Dinamite e Gérson: lendas do futebol brasileiro nos dourados anos 70.

 

Dinamite demonstrava a cada dia uma evolução notável. Se posicionava bem, cobrava faltas com precisão, dificilmente perdia uma dividida, era forte e difícil de ser marcado. Quando recebia uma bola, a protegia como poucos e o caminho natural era mesmo o gol. Para aumentar ainda mais sua fama, adorava marcar gols em clássicos, principalmente o Fluminense, que curiosamente começava exatamente naquela época a montar sua lendária Máquina Tricolor (leia mais clicando aqui). Só entre dezembro de 1973 e agosto de 1976, Roberto marcou nove gols em 15 jogos do Vasco contra o Tricolor. Até hoje, ele é o maior artilheiro da história do Clássico dos Gigantes com 36 gols. Além do Flu, ele também fez sofrer Flamengo e Botafogo, que levaram 27 e 25 gols do atacante, respectivamente. Ele também é o maior artilheiro de ambos os clássicos.

 

Crise emocional e convocações

Foto: Revista Placar.

 

Em 1975, Dinamite passou por um momento complicado fora de campo. Num dia de treino no Vasco, seu pai discutiu com o irmão de Jurema e só não bateu no rapaz porque a turma do “deixa disso” evitou. Dinamite sentiu demais aquela situação. Guardando tudo para si, foi para casa e pegou os comprimidos que Jurema deixava sobre o criado mudo da cama. Tomou cerca de 20 para tentar dormir e se desligar do mundo, como ele bem disse à revista Placar em 1984.

 

“Eu vinha guardando aquela angústia só para mim. […] E tomei uma dose reforçada de calmante, mas não tinha a intenção de me suicidar, como andaram dizendo. Eu queria dormir uns dois dias seguidos para me desligar do mundo”. – Roberto Dinamite, em entrevista à revista Placar, 21 de setembro de 1984.

Roberto e Jurema. Foto: Revista Placar.

 

O problema é que a tal dose foi exagerada e composta por Gardenal e Librium. Jurema encontrou o atacante inconsciente e chamou um médico do Vasco imediatamente. Roberto foi levado ao hospital e ficou na UTI por pelo menos seis horas para lavagens estomacais e uso de medicações que ativassem as funções cardíacas e respiratórias. Cinco dias depois, ele deixou o hospital a salvo. A partir daquele dia, Jurema tratou de ganhar de uma vez por todas a simpatia da família de Roberto e blindar o amado de tudo e todos. Ela “conquistou” a mãe e os irmãos do craque, menos o pai José Maia de Oliveira, que era totalmente contra o casamento. Aquilo afastou pai e filho e fez com que Roberto não fosse “totalmente feliz” como dizia Jurema, pois ele sentia a falta da figura paterna justamente em um período crucial na carreira dele. Naquele mesmo ano, Roberto ganhou uma grande festa de 21 anos que reuniu seus familiares e mais de 100 amigos, uma celebração muito especial para o jovem, que retribuiu com mais de 50 gols marcados pelo Vasco, sendo 15 no Brasileiro, no qual ele foi vice-artilheiro atrás apenas de Flávio, do Inter, que marcou 16.

O craque em ação, em 1977, no empate em 2 a 2 contra a França.

 

Tantos gols levaram Roberto à Seleção Brasileira, pela qual foi convocado pela primeira vez em 1975, para a disputa da Copa América – o Brasil caiu na semifinal. No ano seguinte, seguiu no time, ganhou a titularidade no Torneio Bicentenário dos EUA e marcou seu primeiro gol, na vitória sobre a Inglaterra por 1 a 0. Na mesma competição, fez um belo gol na goleada de 4 a 1 sobre a Itália e fez do Brasil campeão. Jogando na mesma época que feras como Zico, Rivellino, Toninho Cerezo, Zé Maria, Leão, Edinho e Rodrigues Neto, isso só para citar alguns, Roberto e a torcida brasileira tinham certeza de que o Brasil poderia vencer a Copa do Mundo de 1978, na Argentina – na de 1974, Roberto não foi convocado.

Foto: Livro Seleção Brasileira 1914-2006.

 

E o entusiasmo com o atacante aumentou ainda mais em 1976, não só pelos gols marcados com a amarelinha – ele ainda fez dois contra o Paraguai – mas também por essa pintura anotada contra o Botafogo, na final da Taça Guanabara de 1976:

Foi, para muitos, o gol mais bonito da carreira do artilheiro. Ele estava cada vez mais letal. Fazia uma média de quase sete gols em dez jogos. Antes da Copa, Roberto ainda ajudou o Vasco a conquistar o título do Carioca de 1977, com gol decisivo dele na disputa por pênaltis contra o Flamengo na final. Aliás, na campanha do título, Roberto já havia marcado dois gols na goleada de 3 a 0 entre os clubes na primeira fase. O craque marcou 25 gols e só ficou atrás de Zico, que fez 27. Passada a festa, era hora de viajar até a Argentina para disputar a Copa.

 

“Campeão moral” e gols

Em tempos vertiginosos do futebol brasileiro, ganhar uma vaga na equipe titular da seleção era uma tarefa ingrata. A concorrência era enorme e o time de Cláudio Coutinho tinha nada mais nada menos que três jogadores para a posição: Reinaldo, Nunes e Roberto Dinamite. “Só” isso. Na ordem de preferência do treinador, o Rei ia primeiro, seguido de Nunes e com Dinamite na última posição. Porém, este galgou um degrau quando Nunes sofreu uma contusão e acabou de fora, abrindo espaço para Dinamite ser convocado para o Mundial. O Brasil era um dos favoritos com grandes nomes como Leão, Oscar, Rodrigues Neto, Cerezo, Gil, Zico, Dirceu e companhia. Nos dois primeiros jogos, contra Suécia e Espanha, o Brasil apenas empatou em 1 a 1 e 0 a 0, respectivamente. Roberto não jogou em nenhuma das partidas e viu do banco o atacante Reinaldo marcar na estreia, mas passar em branco contra os espanhóis. Precisando de uma vitória no último duelo da fase de grupos, contra a Áustria, Coutinho escalou Roberto no time titular. E o camisa 20 não decepcionou. Após receber dentro da área um lançamento extraordinário de Gil, o craque dominou com categoria e fuzilou o goleiro Koncilia: 1 a 0. E Brasil classificado!

Na segunda fase, composta por dois grupos de quatro equipes, cujas primeiras posições dariam as vagas nas finais, o Brasil enfrentou o Peru e Dinamite ganhou de vez a posição de titular e foi fundamental para a vitória brasileira por 3 a 0. Primeiro, sofreu falta na entrada da área que resultou em gol de Dirceu. Depois, no segundo tempo, entrou na área driblando todo mundo até levar um pontapé de Duarte. Pênalti! Na cobrança, Zico bateu e fez o gol da vitória. Na partida seguinte, empate sem gols contra a Argentina. E, no último duelo daquela fase final, triunfo por 3 a 1 sobre a Polônia, com atuação de gala de Roberto, que marcou dois gols graças ao seu habitual oportunismo ao mandar para dentro duas bolas que bateram na trave antes de irem até ele. A bola adorava Dinamite! E ele sempre correspondia com gols e mais gols. O Brasil estava praticamente classificado para a final. Só uma goleada superior a quatro gols da Argentina sobre o Peru poderia acabar com o sonho do tetra. Mas os hermanos venceram por incríveis 6 a 0, foram para a final e acabaram com o título (leia mais clicando aqui). Foi uma decepção enorme para os brasileiros, que tiveram que disputar o terceiro lugar com a Itália – vitória canarinha por 2 a 1 – e se proclamaram “campeões morais”, pelo fato de o Brasil ter terminado a competição invicto e pelas suspeitas de favorecimento do Peru contra a Argentina.

Polêmicas à parte, Roberto saiu do Mundial fortalecido. Mesmo triste com a ausência na final, ele foi o artilheiro da seleção na Copa ao lado de Dirceu com três gols e conseguiu ganhar a vaga de Reinaldo. Com a exibição de gala, não demoraria para algum clube do exterior querer o futebol do craque. Na verdade, apenas dois anos…

 

A frustrante ida ao Barcelona…

Além da primeira Copa na carreira em 1978, Roberto foi pela primeira vez artilheiro do Campeonato Carioca, com 19 gols. O Vasco não ficou com a taça, mas era impressionante como ele liderava as ações ofensivas do time. Camisa 10 e capitão desde 1975, o atacante era o líder vascaíno e ídolo da torcida. Porém, no final de 1979, o crescente assédio por seu futebol não ofereceu outra opção ao Vasco que não fosse vender seu principal astro. O Barcelona-ESP queria um atacante para substituir o austríaco Hans Krankl, que havia brigado com o técnico catalão da época, Joaquín Rifé (e não Ladislao Kubala como algumas fontes dizem). Dinamite foi contratado por 56 milhões de pesetas, uma fortuna na época. Ele saiu com o coração despedaçado, afinal, amava o Vasco. Em sua estreia, marcou dois gols e encheu de entusiasmo a torcida catalã. No entanto, logo após a contratação do jogador, o time contratou o técnico Helenio Herrera (leia mais clicando aqui) e o atacante brasileiro acabou encostado pelo argentino. “O Herrera nunca gostou de jogadores sul-americanos porque tinha um trauma muito grande com o Santos de Pelé, na época em que ele treinava a Internazionale”, disse Roberto após o episódio. Outro fator que interferiu na permanência dele por lá foi o clima. Ele chegou no começo do ano, em pleno inverno. Os dias nublados e chuvosos contrastaram bastante com o calor que ele estava habituado no Rio. Enfim, foi a típica relação que não deu certo. Após cerca de quatro meses, boatos já indicavam que Dinamite poderia voltar ao Brasil. Surpreendentemente, o Flamengo demonstrou interesse no jogador. Houve até conversa entre o presidente do rubro-negro e a direção dos catalães. Isso acabou chegando aos ouvidos do Vasco, que não hesitou em trazer seu amado atacante de volta. Com isso, antes mesmo do fim do primeiro semestre, Roberto estava vestindo a camisa vascaína novamente. Ele jogou contra o Náutico, fora de casa, na reestreia, mas a saudades só seria sanada diante da torcida. Ele precisava de gols. Do calor. Do Maracanã.

 

… E a volta inesquecível!

Foto: Manchete Esportiva.

 

No dia 04 de maio de 1980, mais de 100 mil pessoas lotaram o Maracanã para ver Vasco e Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro. Era a volta “oficial” de Dinamite ao templo do futebol, ao seu clube e ao torneio que ele mais gostava de marcar gols. Imagine o entusiasmo de um atacante que estava há meses na seca quando viu aqueles gols enormes do Maraca e as arquibancadas lotadas? Pois é. Em sua maior atuação na carreira, Roberto simplesmente destroçou o alvinegro paulista. Fez um gol, afastando o rival com seu corpanzil, deixando outro no chão e mandando um chutaço. Fez o segundo, num chute de fora da área. Fez o terceiro, ao receber na corrida de Guina e encher o pé de primeira. Fez o quarto, ao aproveitar a sobra do goleiro e marcar no mais puro oportunismo. Fez o quinto, com uma finta de corpo no zagueiro e uma bomba no ângulo do goleiro Jairo. Cinco gols de Roberto. Foi Roberto Dinamite 5×2 Corinthians. Veja abaixo:

Naquele dia, o Maracanã viu a ressurreição de um de seus maiores artilheiros. De um mito. Roberto fez cinco gols com suas assinaturas, com todas as qualidades que ele já havia mostrado nos anos 70.

 

“Tem jogador que faz cinco gols em um jogo, mas é contra um Madureira, um Campo Grande… Eu fiz cinco gols contra o Corinthians, né? Eu tinha acabado de sair do Barcelona e tinha ficado uma interrogação. Quem é esse jogador que veio do Brasil como artilheiro, ídolo e tal e não deu certo? [..] O problema não era eu!”.Roberto Dinamite, em entrevista ao UOL Esporte, 12 de dezembro de 2017. Leia mais clicando aqui.

 

No dia seguinte, um jornal espanhol publicou: “Esse sim é Dinamita”. E era mesmo. Azar dos blaugranas, sorte do Vasco!

 

Explosões e mais explosões!

Zico e Dinamite nos anos 80: expoentes de uma era de ouro do futebol.

 

O retorno ao Vasco foi simplesmente mágico para Roberto. Em 1981, o craque fez sua temporada mais prolífica na carreira e marcou absurdos 62 gols no ano, com destaque para os 31 que marcou no Campeonato Carioca (artilheiro) e 14 no Brasileiro. Ele ganhou, ainda, a Bola de Prata da revista Placar e foi coroado o maior artilheiro do Brasil naquele ano, superando Zico, que vivia fase esplendorosa com seu super Flamengo. Aliás, foi naquele ano que Dinamite travou um interessante duelo com o Galinho no Campeonato Carioca. Após os três primeiros turnos, as duas equipes fizeram a decisão e o Vasco tinha a ingrata tarefa de ter que vencer três jogos contra o Flamengo se quisesse ser campeão pelo fato de o rubro-negro ter vencido dois turnos e os cruzmaltinos apenas um. Era um regulamento maluco do passado sombrio do futebol bu(r)rocrático brasileiro da época. Por que não uma final normal? Vá entender…

Pois bem. No primeiro duelo, um domingo, Roberto Dinamite marcou dois gols e deu a primeira vitória ao Vasco: 2 a 0. No segundo, já na quarta-feira, num dia de uma chuva torrencial, o placar marcava 0 a 0 aos 43’ do segundo tempo e a torcida flamenguista já gritava “é campeão!”. Foi então que Roberto viu a bola cair em uma poça d’água dentro da área. Ele simplesmente tirou a bola dali com uma bomba e viu a redonda explodir dentro do gol flamenguista: 1 a 0. Vasco vivo na decisão! Zico disse que “dificilmente” o Flamengo perderia dois clássicos seguidos. Mas perdeu! Só no duelo seguinte que o Fla, enfim, venceu por 2 a 1. E, graças ao regulamento, faturou o caneco. Mas o doce sabor daquelas vitórias jamais saíram da memória gustativa da torcida e de Roberto.

 

Última Copa, períodos difíceis e novas taças

Em 1982, Roberto foi convocado para mais uma Copa do Mundo, dessa vez no lugar do lesionado Careca. Assim como em 1978, ele não era o preferido do técnico à época, Telê Santana, que tinha como atacante titular Serginho Chulapa. Mesmo vivendo grande fase, Roberto ficou no banco e viu o Brasil ser eliminado pela Itália na mítica partida que ficou conhecida como a Tragédia do Sarriá (leia mais clicando aqui). Roberto não foi utilizado em nenhum momento mesmo sendo melhor que Serginho na época. E, com sua condição e assessorado por Zico, Éder e Sócrates, poderia ter feito sérios estragos nas defesas rivais.

 

“Frustração maior foi essa em 1982 de estar dentro de um grupo e não ter sido utilizado, não ser aproveitado dentro de uma seleção que todo mundo fala, que foi uma das maiores. Saí frustrado porque não tive a oportunidade de jogar”. – Roberto Dinamite, em entrevista ao SporTV News, 12 de abril de 2014.

 

Aquela foi a última Copa do jogador. Ele seria lembrado para a seleção até 1984. Foram 47 jogos e 26 gols pelo Brasil, mas nenhuma grande taça conquistada. Em novembro de 1982, o craque chegou ao gol de número 500 na carreira no empate em 1 a 1 contra o Volta Redonda pelo Campeonato Carioca, vencido pelo Vasco.

Em 1984, Roberto conduziu o Vasco a mais uma final do Campeonato Brasileiro, ao marcar 16 gols e ser artilheiro do torneio pela segunda vez na carreira. Na final, seu time perdeu para o Fluminense do “Casal 20” Washington e Assis (leia mais clicando aqui). Foi a primeira grande derrota dele naquela temporada. Em seguida, ele perderia a pessoa que o acompanhou por mais de 12 anos, que foi seu porto seguro, empresária, musa inspiradora e mãe de seus dois filhos: Jurema. Ela faleceu vítima de uma doença renal após ficar por um ano e meio fazendo hemodiálise desde que seus rins pararam de funcionar. Durante a procura por um transplante, Roberto ofereceu o dele, cerca de 100 torcedores vascaínos ofereceram os seus, mas todas as tentativas foram frustradas e incompatíveis. Foi um dos maiores dramas na vida do jogador.

O Vasco de 1987. Em pé: Paulo Roberto, Acácio, Fernando Henrique, Mazinho e Donato. Agachados: Tita, Geovani, Roberto Dinamite, Luís Carlos e Romário.

 

Ele tratou de se reerguer rapidamente e fez o que sua querida Jurema tanto pegava em seu pé: jogar futebol e marcar gols. Em 1985, voltou a ser artilheiro do Carioca, dessa vez com 12 gols. Continuou no ataque do time e viu uma nova geração de craques surgir em São Januário. Entre eles, um tal de RomárioE, acredite, o torcedor do Vasco teve o prazer e o deleite em ver uma dupla de ataque formada por Roberto Dinamite e o baixinho na conquista do Carioca de 1987. O time fez incríveis 61 gols em 31 jogos e polarizou a artilharia do torneio: Romário marcou 16 gols, Roberto, 15, e Tita, 12. No ano seguinte, a nova turma cruzmaltina voltou a brilhar e faturou o bicampeonato. Além das conquistas regionais, o time ainda fez bonito em excursões internacionais e faturou os torneios Ramón de Carranza de 1987, 1988 e 1989.

 

Breve saída e aposentadoria

Em 1989, um já veterano e de cabelos grisalhos Roberto não tinha espaço no Vasco. Bebeto acabava de vir do Flamengo, Bismarck estava voando e outros jovens não dariam trégua para o já senhor dos gols. Por isso, ele aceitou um convite da Portuguesa, comandada pelo velho amigo Antônio Lopes, para jogar o Campeonato Brasileiro. Ele marcou nove gols, ajudou a Lusa a terminar na sétima colocação e quase garantir uma vaga na fase final e atingiu a marca de 190 tentos no torneio, número que permanece até hoje inalcançável para qualquer atacante brasileiro – afinal, raramente algum disputa mais de dois campeonatos antes de ir jogar no exterior. Embora tenha chegado a essa marca, a ida ao futebol paulista custou mais um título brasileiro para sua carreira, afinal, o Vasco foi campeão daquele ano. Mas nenhum atacante daquele Vasco marcou mais gols que Dinamite. Bismarck, fez oito. Bebeto, seis.

No dia 21 de outubro de 1989, eis que Roberto visitou São Januário com a camisa da Lusa para enfrentar seu Vasco. A torcida encheu seu ídolo de homenagens. Foi uma tarde diferente. Num lance, ele teve uma cobrança de falta a seu favor. O comentarista da Rádio Globo Washington Rodrigues disse na transmissão: “se Roberto marcar, o árbitro vai ter que colocar na súmula que foi gol contra”. Ele não fez. Em outro lance, teve a chance de marcar dentro da área, mas caiu sozinho. Parecia que ele não queria marcar. Ou será que os astros do futebol tinham mexido no gramado para prejudicar aquele homem tão atípico em vermelho e verde? O fato é que a partida terminou sem gols. Sem graça. Felizmente, Roberto não teve o desprazer em marcar contra seu Vasco, nem seu Vasco marcar contra ele.

No ano seguinte, Roberto voltou ao Vasco, teve uma breve passagem pelo Campo Grande, também do Rio, e aposentou-se de vez em 1993, pouco antes de completar 39 anos, em um amistoso no Maracanã contra o La Coruña-ESP, que na época tinha grandes jogadores como Mauro Silva, Bebeto, Djukic e Fran. Zico, amigo de tempos dourados do futebol brasileiro, vestiu a camisa do Vasco para homenagear o companheiro. O jogo terminou 2 a 0 para os espanhóis, mas ninguém ligou. Todos só tiveram olhos para Dinamite, que se despediu para sempre naquele dia de uma torcida que tanto vibrou com ele e para ele durante duas décadas.

 

Uma lenda cruzmaltina

Como presidente, Dinamite levou o time à conquista da Copa do Brasil de 2011. Foto: site do Vasco.

 

Após pendurar as chuteiras, Roberto entrou para a vida política e emendou vários mandatos como deputado estadual. Após atritos com Eurico Miranda, decidiu se candidatar à presidência do Vasco e conseguiu vencer o pleito em 2008. No entanto, Roberto não foi brilhante como fora em campo e ficou muito aquém das expectativas, acumulando dois vexatórios rebaixamentos para a Série B do Brasileiro, em 2008 e em 2013. O único momento feliz foi a conquista da Copa do Brasil de 2011.

O fato é que Roberto deve ser lembrado sempre pelo trabalho feito dentro de campo. Como ídolo, como artilheiro, como símbolo de gerações. Com o reconhecimento de um atleta que disputou mais de 1000 jogos com uma única camisa, algo raríssimo no futebol. Como o goleador que anotou mais de 700 gols na carreira (aliás, o número exato de gols do craque sempre foi um mistério, pois não existe uma contagem oficial e verídica. São muitos dados disformes e inexatos. Após muita consulta, o Imortais chegou aos números que você pode ver abaixo). Roberto Dinamite foi um dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro. Que marcava gols de todos os jeitos possíveis. Bonitos, feios, de bico, de canela, de costas, de cabeça, de voleio, de falta, de pênalti. O importante era fazer gol. E alegrar uma torcida apaixonada pelo garoto que virou homem e senhor máximo do êxtase do futebol cruzmaltino. Um craque imortal.

Foto: Revista Placar, janeiro de 1988.

 

Números de destaque:

Disputou 1110 jogos e marcou 702 gols pelo Vasco.

Disputou 47 jogos e marcou 26 gols pela Seleção Brasileira.

Disputou 10 jogos e marcou três gols pelo Barcelona.

Disputou 17 jogos e marcou nove gols pela Portuguesa.

Disputou cerca de 1184 jogos e marcou pouco mais de 740 gols na carreira.

Extras:

Veja uma reportagem sobre o “gol da poça” de 1981.

 

Veja como foi a despedida do craque.

 

Veja grandes gols do artilheiro.

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8 thoughts on “Craque Imortal – Roberto Dinamite

  1. Tinha muita vontade de vê-lo jogar, mas não nasci em época. Pelo que li e vi, talvez se tivesse realmente na frente como atacante na Copa de 82 poderia dar muita alternativa e fazer diferença. Parabéns por esses artigos deste site! São muito bons. Sugiro fazer um Imortal do Rivaldo.

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