O Sumiço da Jules Rimet

Por Leandro Stein

 

Não havia objeto que representasse melhor a supremacia da seleção brasileira no futebol mundial. A Jules Rimet fora conquistada três vezes em 12 anos, o símbolo da hegemonia na Copa do Mundo. Primeiro, Bellini se consagrava ao levantar a taça dourada. Gesto repetido quatro anos depois, por Mauro. E, em 1970, Carlos Alberto ergueu o troféu como quem dissesse: “É nossa para sempre”. Seria. Mas por apenas 13 anos. Na noite de 19 de dezembro de 1983, a Jules Rimet era roubada.

Durante 40 anos, a posse da Jules Rimet serviu para asseverar qual era a melhor seleção do mundo – algo que a Taça FIFA certifica desde 1974, sempre com grandes candidatos, principalmente na edição deste ano, como podemos ver através das melhores odds para apostar na Copa do Mundo 2018. Uma história rica que – contam – se tornou ouro derretido, transformado em barras de ferro e vendido sem deixar nenhum vestígio daquele velho sinônimo de Copa.

 

A história da taça

 

Jules Rimet (à esq.) com o presidente da Federação Uruguaia, em 1930. Naquele ano, a Celeste foi campeã do mundo.

 

Quando foi esculpida durante sete meses por Abel Lafleur, funcionário do Museu de Belas Artes de Rodez, a Taça Jules Rimet não tinha esse nome. O troféu era chamado de “Victoire aux ailes d’or” (Vitória com asas de ouro), em referência à imagem de Niké, a deusa grega da vitória. Foi somente em 1946 que a homenagem a Jules Rimet foi feita, quando o idealizador do Mundial completou 25 anos na presidência da FIFA. A taça media 30 centímetros de altura e pesava quatro quilos, sendo 1,8 kg de ouro puro. O troféu foi montado sobre um pedestal de lapis lazuli e valia o equivalente a 50 mil francos – cerca de 14,5 mil dólares -, uma fortuna para a época e o suficiente para comprar uma frota de automóveis Mercedes-Benz.

Antes da base maior mostrada na foto anterior, a Jules Rimet tinha uma base pequena, como as destas fotos. A FIFA encontrou as bases em seus porões em 2015 e as mantém em seu museu deste então.

 

E, tanto quanto as glórias, a Taça Jules Rimet também foi personagem de alguns episódios de apuros antes de sua extinção. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o troféu passou um bom tempo em uma caixa de sapatos, sob a cama de Ottorino Barassi, presidente da Federação Italiana, que queria mantê-lo longe das mãos dos nazifascistas. Já em 1966, durante um evento de exibição em Londres, a taça foi roubada. Foi encontrada sete dias depois, enrolada em um jornal, por um cachorro chamado Pickles.

O cachorrinho que salvou a Jules Rimet no primeiro roubo da taça, nos anos 60.

 

Depois do caso, a Federação Inglesa tratou de fazer uma réplica, para evitar novos transtornos. Contudo, a verdadeira caiu nas mãos do Brasil a partir de 1970. E permaneceu guardada na sede da CBD por mais alguns anos, sem muita segurança, até sumir do mapa.

Carlos Alberto, o último capitão a erguê-la, em 1970.

O crime na Rua da Alfândega

Roubar a Taça Jules Rimet não demandou muito esforço. Bastou aos ladrões renderem o vigia João Batista Maia para chegarem ao tesouro. O objeto era protegido por um vidro à prova de balas, que os bandidos não conseguiram quebrar. A solução para o problema, porém, foi bem mais simples: eles só precisaram desencaixar os pregos que prendiam o vidro à parede para desaparecerem com a Niké dourada. Em 20 minutos, o serviço estava feito.

O cérebro da ação foi o bancário Sérgio Pereira Ayres, que contratou o negociante de ouro José Luiz Vieira da Silva e o ex-policial Francisco José Rocha Rivera para fazerem o trabalho sujo. Taça em mãos, ela foi repassada para o ourives argentino Juan Carlos Hernandez – que, anos depois, afirmou que o troféu fora vendido, e não derretido, como todos os envolvidos haviam confessado na época do crime.

Em 28 de janeiro, os responsáveis pelo roubo foram apresentados pela polícia, depois das denúncias feitas por Antônio Setta, o primeiro convidado por Ayres para executar a ação – e morto em um misterioso acidente de carro dois dias antes de depor no tribunal. O valor simbólico da Jules Rimet não importava para a Justiça, que condenou os culpados estritamente por aquilo que era previsto pela lei. Os responsáveis pela invasão à CBD e o mandante pegaram nove anos de cadeia, mas nenhum deles cumpriu a pena completa. Já o ourives que teria derretido o troféu ganhou três anos de sentença, dos quais não cumpriu um dia sequer.

Meses depois, o Brasil ganhava uma réplica da Jules Rimet, entregue a Bellini, Mauro e Carlos Alberto em cerimônia realizada pela FIFA. Não seria isso, porém, que encerraria o sentimento de perda. Em setembro do ano passado, quando Cafu receberia a Taça FIFA para trazê-la à sede da Copa de 2014, foi alertado pelo secretário da FIFA, Jérôme Valcke: “Não vão perder essa taça, hein? Isso já aconteceu por lá”. O capitão do penta levou na boa: “Infelizmente o roubo aconteceu e precisamos encarar a declaração como uma brincadeira”. De fato. O símbolo da vitória ficou limitado apenas à história.

A entrega da réplica da Jules Rimet em 1984, com a presença dos capitães Bellini (à dir), Carlos Alberto (ao lado dele, à esq.) e Mauro (no canto esquerdo, de terno branco). Foto: Arquivo / O Estado de S. Paulo.

 

 

Todos os campeões mundiais que tiveram o privilégio de erguer a Jules Rimet estão no Imortais. Acesse a categoria Seleções Imortais clicando aqui e boa leitura! 😀

 

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1 thought on “O Sumiço da Jules Rimet

  1. UMA TAÇA TÃO IMPORTANTE COMO A JULES RIMET, TALVEZ A MAIS IMPORTANTE DA HISTÓRIA DO ESPORTE MUNDIAL, O BRASIL A CONQUISTOU DENTRO DE CAMPO COM O SUOR E A LUTA DE VÁRIOS HERÓIS COMO GARRINCHA, PELÉ E OUTROS, INFELIZMENTE TEM UM DESTINO TÃO TRISTE.
    O NOSSO PAÍS NÃO É UM PAÍS SÉRIO.UMA PENA.

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