Santiago Bernabéu – Santuário do Futebol

Nome: Estadio Santiago Bernabéu

Localização: Madrid, Espanha

Inauguração: 14 de dezembro de 1947

Partida Inaugural: Real Madrid-ESP 3×1 Os Belenenses-POR, 14 de dezembro de 1947

Primeiro gol: Sabino Barinaga, do Real Madrid, no jogo Real Madrid 3×1 Os Belenenses

Proprietário: Real Madrid Club de Fútbol

Capacidade: 81.044 pessoas

Recorde de público pagante: 129.690 pessoas no jogo Real Madrid 4×2 Milan-ITA, na semifinal da Liga dos Campeões da UEFA de 1955-1956, dia 19 de abril de 1956.

 

Santuário. Do latim sanctuarium. Local de peregrinação que acolhe pessoas de diversas religiões. Possui objetos ou símbolos utilizados em cultos. Pode se referir, também, à Ecologia, ou locais preservados por humanos, além de ser referência a algo sublime, extraordinário. Santuário pode significar várias coisas. No futebol, o uso da palavra tem um de seus mais notáveis empregos em Madri. Lá, é a definição de um estádio no coração da capital espanhola. É onde se cultua o madridismo. Onde a devoção por um clube é encarnada em sua plenitude. É o palco do mais vencedor e mais famoso clube do planeta. Do clube que ganhou até a alcunha de Real em seu nome. Na Avenida de Concha Espina, a peregrinação ocorre frequentemente, seja em jogos de La Liga, da Copa do Rei ou da Liga dos Campeões da UEFA. De tão imponente e famoso, já foi palco de decisões para a história, de final de Copa do Mundo e deslumbres de craques inesquecíveis. Tudo fruto do sonho de seu maior idealizador, Santiago Bernabéu. E é com esse nome que o enorme coliseu madrileno se fez presente como o maior símbolo da imponência do Real Madrid. E um legítimo santuário do futebol. O Estádio Santiago Bernabéu é um ícone do esporte, presente na lista dos 20 maiores estádios de futebol do mundo (leia mais clicando aqui). Já abrigou mais de 120 mil pessoas, teve avalanches de euforia semelhantes às vistas em La Bombonera e viu o desfile dos maiores esquadrões merengues ao longo das décadas. Seu maior batismo foi justamente quando mudou seu nome de Nuevo Chamartín para Santiago Bernabéu, nos anos 50, época de Di Stéfano, Kopa, Zárraga, Gento, Puskás e companhia, artífices do pentacampeonato europeu, do maior Real Madrid de todos os tempos, do responsável pela precoce imortalidade do estádio. É hora de conhecer a história desse grande ícone do futebol.

 

Dos primórdios de O’Donnell à Chamartín

O Campo de O’Donnell, primeira casa merengue. Foto: Site do Real Madrid.

 

Fundado em 1902, o ainda chamado Madrid Football Club viveu nômade pela cidade durante uma década até a crescente leva de sócios estimular a construção de seu primeiro estádio oficial, o Estádio de O‘Donnell, inaugurado em 1912, próximo ao centro de Madrid em um terreno foi alugado por 1000 pesetas por mês. Com campo de terra e capacidade para 6000 espectadores, O’Donnell era o mais moderno estádio da cidade na época e o primeiro a contar com uma cerca de madeira que separava os jogadores dos torcedores para evitar invasões. O clube teve apoio maciço de seus poucos sócios para a construção da arena e recebeu doações dos mais diversos valores, até de 50 centavos de pesetas de um estudante de Sevilla que estudava em Madrid na época!

O estádio de O’Donnell e suas cercas. Foto: Idealista.com

 

 

Com o passar dos anos, a quantidade de sócios começou a chegar na casa do milhar e foi possível construir uma pequena tribuna para pouco mais de 200 pessoas. Mas o acanhado estádio começou a ficar pequeno, e, em 1923, o clube se mudou mais uma vez, dessa vez para o Velódromo de Ciudad Lineal, um complexo poliesportivo com capacidade para 8000 pessoas, reformado para a prática do futebol e adaptado com campo de grama. A prefeitura da cidade colaborou, dobrando, inclusive, o serviço de bondes em dias de jogos que partiam da Plaza de Cibeles até a Glorieta de Cuatro Caminos. Porém, após ganhar a alcunha de Real do rei Alfonso XIII, outra vez o clube procurou uma casa maior. Após adquirir alguns terrenos nas cercarias de Chamartín de La Rosa, outrora independente de Madrid e só depois incorporada à cidade. O Real conseguiu um empréstimo de 500 mil pesetas (cerca de 3 mil euros) que ajudaram na construção de sua nova casa, que teve como arquiteto José Maria Castell, que fora inclusive atleta do Real entre 1913 e 1919.

O estádio de Chamartín. Foto: Arquivo ABC / Site do Real Madrid.

 

Já em 1924, o Real mudou-se em definitivo para lá, enfim, um estádio para chamar de seu, com capacidade para 15 mil pessoas, sendo 4 mil assentos cobertos. O estádio foi a casa do clube por mais de 20 anos e sofreu com a Guerra Civil Espanhola, período em que serviu como base para republicanos e franquistas e alvo de avarias e saques de suas arquibancadas de madeira, que viraram lenha para as pessoas em uma cidade devastada e sitiada. Em 1939, após o fim da guerra e com o estado deplorável no qual se encontrava, o Chamartín foi reformado, ganhou mais 10 mil assentos, mas a cada vez maior expansão do clube no país voltou a mobilizar avanços para um novo estádio, afinal, o Metropolitano, casa do Atlético de Madrid na época, era maior do que o do Real.

 

O nascimento do sonho

O Velho Chamartín (à dir.) dando lugar ao Novo Chamartín (à esq.).

 

Em 1943, após assumir a presidência do clube, o ex-jogador Santiago Bernabéu iniciou os trâmites para a construção do chamado “Nuevo Chamartín”. A ideia era levantar um “coliseu” com capacidade para 100 mil pessoas, reduzida posteriormente para 75 mil. Seria preciso muito, mas muito dinheiro, e Bernabéu iniciou uma epopeia para angariar fundos, que vieram graças a empréstimos bancários e obrigações hipotecárias, pagas com a venda de ações do clube aos sócios e também por sócios das altas classes sociais. Em 27 de outubro de 1944, enfim, as obras começaram e tomaram como base o projeto feito por Manuel Muñoz Monasterio e Luis Alemany Soler, que desenharam um estádio com arquibancadas bem próximas ao gramado e íngremes como as famosas praças de touros do país. A visão do público seria perfeita de qualquer ponto do estádio, com uma notável amplitude visual. Após três anos de obras, enfim, o Nuevo Chamartín foi inaugurado em 14 de dezembro de 1947, com capacidade para 75.145 pessoas, sendo 27.645 assentos (7.125 cobertos) e 47.500 para pessoas em pé (dois mil cobertos).

 

No dia da inauguração, o Real Madrid convidou para o jogo inaugural a equipe d’Os Belenenses, então campeão português. Com arquibancadas reluzentes contornando um gramado lindo, o estádio era um símbolo da reconstrução pela qual passava toda a Espanha, que queria retomar sua vida normal após anos tão difíceis. Após uma missa rezada pelo padre Soria, as equipes entraram em campo prontas para o início da história daquele coliseu, que não estava completamente cheio no dia – a multidão se concentrou mais nas partes baixas, deixando as arquibancadas altas com vários espaços.

Times perfilados na inauguração. Note as arquibancadas de cima com pouco público.

 

No jogo, o Real venceu por 3 a 1 e quem teve a honra de anotar o primeiro tento do estádio foi o merengue Sabino Barinaga, atacante que jogou por uma década no clube, de 1940 até 1950. A inauguração do estádio foi um marco não só estrutural, mas também para catapultar o crescimento do Real Madrid como um clube completo, que iniciou naquela mesma época suas atuações em outros esportes como tênis, boxe, ginástica, remo entre outros. Mas seria no futebol que os madrilenos iriam ser, definitivamente, os grandes reis.

 

Um coliseu para mais de 125 mil pessoas

Já no começo dos anos 50, Santiago Bernabéu não estava contente com o tamanho do Nuevo Chamartín e decidiu fazer as primeiras obras de ampliação do estádio. Entre 1952 e 1954, o clube construiu um novo setor de arquibancadas que deu ao estádio uma nova capacidade: pouco mais de 125 mil pessoas, tornando o coliseu madridista um dos maiores do continente. Na mesma época, o clube iniciou a montagem do esquadrão que seria pentacampeão da Liga dos Campeões, e, com tamanha influência de seu presidente para que toda aquela expansão fosse possível, o Nuevo Chamartín mudou de nome em 1955 para Santiago Bernabéu, em votação realizada em Assembléia Geral entre os sócios do clube.

Na temporada 1955-1956, o estádio recebeu seu maior público da história – mais de 129 mil pessoas –  na vitória do Real sobre o Milan por 4 a 2, pelas semifinais da primeira Liga dos Campeões da UEFA da história – que seria vencida pelos merengues na decisão de Paris contra o Stade de Reims-FRA. Em 1957, foi inaugurada a iluminação artificial do estádio, em uma partida amistosa vencida por 5 a 3 pelos espanhóis contra os brasileiros do Sport Recife, aclamado na época pelo jornal ABC, da Espanha, como “multicampeão pernambucano e vencedor dos últimos confrontos contra equipes como Palmeiras, Flamengo e América-RJ, além de ser berço de craques como Ademir de Menezes e Vavá”. A instalação dos refletores se deu em apenas 40 dias, e consumiu 106 quilômetros de fios e 480 refletores no topo das arquibancadas, fazendo do Bernabéu o melhor estádio iluminado do mundo.

O jornal ABC destacando o jogo entre Real e Sport.

 

 

A manchete do ABC sobre a iluminação nova no Santiago Bernabéu.

 

Cada vez mais bonito e imponente, o Bernabéu sediou já em 1957 a final da Liga dos Campeões da UEFA daquele ano, vencida, claro, pelo Real Madrid, que fez a festa diante de sua torcida ao bater a fortíssima Fiorentina-ITA da época (leia mais clicando aqui!) por 2 a 0. O estádio sediaria ainda mais três finais continentais em sua história: 1969 (Milan-ITA 4×1 Ajax-HOL); 1980 (Nottingham Forest-ING 1×0 Hamburgo-ALE) e 2010 (Internazionale-ITA 2×0 Bayern München-ALE). Além disso, foi no Bernabéu que a Espanha faturou sua primeira Eurocopa, em 1964, na decisão contra a URSS (leia mais clicando aqui). Mas a maior vitrine do estádio seria, na verdade em 1982. Motivo? A Copa do Mundo.

 

Casa da Copa

O Bernabéu em 1982: todo de branco, como seu dono, para o mundo todo ver! Foto: Site do Real Madrid.

 

Após a escolha da Espanha como sede da Copa do Mundo de 1982, bem como o Santiago Bernabéu como uma das sedes dos jogos – incluindo a grande final -, o Real foi obrigado a fazer profundas mudanças em seu estádio para que ele passasse uma boa imagem aos milhões de telespectadores pelo mundo e abrigasse de maneira segura os torcedores. Com isso, foi realizada uma nova pintura branca na parte externa, redução da capacidade para pouco mais de 90 mil pessoas – sendo 67 mil em pé -, aumento da potência do sistema de iluminação, novos placares eletrônicos e uma enorme cobertura que cobria três quartos das arquibancadas, que seriam preservadas das intempéries e trariam mais conforto ao público. Além disso, as áreas de imprensa, acessos e tribunas foram remodeladas em obras que duraram 16 meses ao custo de cerca de 704 milhões de pesetas, dos quais 530 milhões foram pagos pelo Real Madrid. Na Copa, o Bernabéu foi sede dos três jogos da Alemanha na primeira fase e da grande final, entre os próprios alemães e a Itália, que faturou o tricampeonato mundial (leia mais clicando aqui).

Após o Mundial, a torcida merengue viu uma nova geração de craques nascer junto com o esquadrão da Quinta del Buitre, multicampeão espanhol e bicampeão da Copa da UEFA (leia mais clicando aqui). Naqueles anos 80, ficou famoso o bordão “90 minutos no Bernabéu são muito longos…” em alusão às viradas espetaculares que o clube conseguiu em diversos jogos contra rivais do continente.

 

Modernização e sustos

Vista externa do Bernabéu: estádio foi ficando cada vez mais moderno a partir de 1998.

 

Após os desastres envolvendo torcedores ingleses e o boom de violência no futebol europeu no final dos anos 80, a UEFA obrigou os clubes a adequarem seus estádios para evitar confrontos e brigas com a criação de diferentes tipos de entradas e saídas nos estádios, além de assentos numerados. Com isso, o Santiago Bernabéu passou por novas reformas a partir de 1992. Foi feito um terceiro anfiteatro do lado Oeste e nos fundos, além de 20.200 novos assentos, todos numerados, com uma inclinação que possibilitava perfeita visão do gramado de jogo. Para o acesso aos novos setores, foram erguidas quatro torres do lado externo, com escadas centrais e uma rampa helicoidal. O estádio ficou mais alto, passando de 22 para 45 metros, e a capacidade voltou a aumentar para pouco mais de 100 mil pessoas. Em 1998, após Lorenzo Sanz assumir a presidência, o clube voltou a realizar melhorias em sua casa, transformando o Bernabéu em um estádio com todos os assentos numerados, acabando com as áreas onde as pessoas ficavam em pé, principalmente atrás dos gols. Essa nova concepção de lugares derrubou drasticamente a capacidade total do estádio para pouco mais de 75 mil pessoas, que voltaria a superar os pouco mais de 80 mil a partir da presidência de Florentino Pérez, no começo dos anos 2000.

Entre 2001 e 2006, o Bernabéu recebeu novas áreas VIP, novos vestiários, bancos, nova área de imprensa, telões, bares, novo sistema de som, assentos panorâmicos, sistema térmico para os dias frios, sistema de telegestão que controla remotamente tudo o que acontece no estádio, restaurantes, escadas rolantes e ampliação do museu do clube, do lado interno, que passou a ser uma verdadeira experiência que leva milhares de visitantes à Madrid por ano para fazer o “Tour del Bernabéu” (só em 2017, mais de um milhão de pessoas estiveram por lá. É o terceiro museu mais visitado da cidade). O investimento total nessas últimas obras foi de aproximadamente 127 milhões de euros. Tanta modernidade e segurança transformou o Bernabéu, em 2007, num dos poucos “Estádios de Elite” da UEFA.

O Bernabéu na final da Liga dos Campeões de 2010. Foto: Johnny Vulkan.

 

Mesmo com tanta modernidade, no dia 01 de maio de 2002, data de um clássico entre Real Madrid e Barcelona pelas semifinais da Liga dos Campeões da UEFA, as proximidades do estádio foram alvo de um atentado terrorista provocado pelo grupo ETA com carros-bomba. Um dos carros armados pelo grupo acabou explodindo perto do estádio, mas a polícia interveio a tempo e a explosão não causou grandes danos materiais e apenas ferimentos leves em 17 pessoas. Dois anos depois, no dia 12 de dezembro de 2004, um aviso de bomba dentro do Bernabéu durante um duelo entre Real Madrid e Real Sociedad fez com que mais de 70 mil pessoas tivessem que ser retiradas do estádio. Felizmente, todos saíram de maneira pacífica e sem transtornos, num exemplo notável de gerenciamento de crise da equipe do estádio e de civilidade. Afinal, as 70 mil pessoas deixaram o Bernabéu em (pasme) apenas oito minutos! No fim, nenhuma bomba explodiu.

Público deixa o Bernabéu em 2004: apenas um susto.

 

Desde então, o estádio não passou mais por “apuros” e segue como um dos maiores do continente e um exemplo de arquitetura e acessibilidade. É possível chegar ao estádio por diversas linhas de ônibus e pelo metrô de Madrid, por meio da estação Santiago Bernabéu, na linha 10. Aos arredores, há uma infinidade de serviços, restaurantes, posto de combustível, estacionamentos e afins. Além do futebol, o estádio é frequentemente alugado para os mais diversos shows.

 

À espera do futuro

 

Em 2014, a direção do Real Madrid anunciou o projeto do “Novo Bernabéu”, que perderá sua estrutura clássica e suas torres para dar lugar a uma roupagem de “nave espacial”. A direção quer criar o “melhor estádio do mundo” com a mesma capacidade de pouco mais de 80 mil pessoas, mas uma enorme leque de atrações, telas de LED cheias de efeitos especiais, shopping, hotel e teto retrátil. A previsão é que as obras terminem entre 2020 e 2021, mas ainda não é certo. O fato é que o estádio perderá boa parte de sua essência clássica e vai destoar bastante da arquitetura de Madrid. O torcedor espera que tanta tecnologia não interfira na experiência de ver um bom jogo de futebol. Nem que prejudique o prazer de ver em campo um time que segue ousado e sempre à procura de taças, que continuam sendo empilhadas pelo museu do clube neste século. Primeiro, com o esquadrão de Raúl, Zidane e companhia. Depois, com Cristiano Ronaldo, Sergio Ramos e uma nova geração de ídolos dispostos a manter o Real no topo dos clubes do planeta como no século XX. Lugar que foi alcançado muito graças ao mítico Santiago Bernabéu.

 

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