Craque Imortal – Mazurkiewicz

Nascimento: 14 de fevereiro de 1945, em Piriápolis, Uruguai. Faleceu em 02 de janeiro de 2013, em Montevidéu, Uruguai.

Posição: Goleiro

Clubes: Racing Club de Montevideo-URU (1963-1964), Peñarol-URU (1965-1971, 1976 e 1981), Atlético Mineiro-BRA (1972-1974), Granada-ESP (1974-1975), Cobreloa-CHI (1978-1979) e América de Cali-COL (1980).

Principais títulos por clubes: 1 Mundial Interclubes (1966), 1 Copa Libertadores (1966), 1 Recopa Mundial (1969) e 4 Campeonatos Uruguaios (1965, 1967, 1968 e 1981) pelo Peñarol.

Principais títulos por seleção: 1 Copa América (1967) pelo Uruguai.

Principais títulos individuais:

Melhor Goleiro da Copa do Mundo de 1970

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo de 1970

Goleiro com a maior invencibilidade na história do Campeonato Uruguaio: 987 minutos (11 jogos), em 1968

 

“O Eterno Mazurka”

 

A pequenina cidade-balneário de Piriápolis, a quase 100 km de Montevidéu, foi o berço de uma verdadeira lenda do futebol uruguaio. Um homem que durante uma década foi tido como o maior goleiro das Américas. E um dos melhores do mundo. Em 1971, quando o maior de todos os goleiros, Lev Yashin, se aposentou, ele disse que seu sucessor era o já famoso goleiro de Piriápolis. E todos passaram a olhar com mais atenção para um camisa 1 que também vestia o negro, para ficar “invisível” aos olhos dos atacantes. Com defesas formidáveis, enorme senso de colocação, segurança plena debaixo da meta e baixíssimas médias de gols sofridos, Ladislao Mazurkiewicz Iglesias, mais conhecido como Mazurkiewicz, Mazurka ou El Polaco, foi um goleiro para a história. Um patrimônio de seu país. Tido até hoje como o melhor já produzido pelas bandas celestes. Maior até mesmo que seus companheiros campeões do mundo em 1930 e 1950, bem como o tricolor Rodolfo Rodríguez. Absoluto na meta uruguaia em três Copas do Mundo, Mazurka fez seu debute com apenas 21 anos no maior palco do esporte, e, diante da Rainha, não deixou a Inglaterra furar sua meta na estreia do Mundial de 1966. Ele mesmo, antes do jogo, disse para a Madam que sua seleção iria vencer. Deu empate, mas, para ele, foi uma vitória e tanto. Pelo Peñarol, o camisa 1 fez história com títulos inesquecíveis, entre eles a épica Libertadores de 1966, e, tempo depois, o Mundial Interclubes, levantado sobre o poderoso Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu. A propósito: os merengues não fizeram nenhum golzinho no camisa 1 em ambos os jogos da final. Mazurkiewicz ficou famoso, também, pelos lances que protagonizou com Pelé na Copa de 1970, no chute de bate-pronto do Rei e no corta luz. Mas o engraçado é que Pelé, também, não marcou contra ele. Aliás, marcar um gol naquele pequeno gigante era tarefa para poucos. É hora de relembrar a carreira desse imortal.

 

O início do Chiquito

De preto, o terceiro em pé da esquerda para direita, pelo Racing. Foto: Zona Charrua.

 

Filho de pai polonês – que veio para o Uruguai após a invasão nazista à Polônia em 1939 – e mãe de origem espanhola, Ladislao Mazurkiewicz ganhou um nome pouco comum para um cidadão uruguaio. Por isso, desde pequeno, sempre foi chamado por apelidos, entre eles, Mazurka, El Polaco e Chiquito, este por conta da baixa estatura. Aos sete anos, deu os primeiros passos no futebol e, também, no basquete, seu outro esporte favorito. Mesmo com gosto pelo esporte, Mazurka não deixou de trabalhar, e, aos 13 anos, começou sua vida laboral em uma oficina mecânica em Montevidéu. Foi nessa época que Carlos Bruguera, dirigente do Racing Club e cliente da oficina, levou o jovem até o clube da capital. Num belo dia, um goleiro faltou e pediram para o jovem suprir a ausência. Mesmo com a baixa estatura para a posição, Mazurkiewicz foi tão bem que o escolheram para defender pênaltis após o jogo.

 

“Estava bárbaro naquele dia. De dez pênaltis, peguei seis. Me ajudaram muito os treinos de basquete que tinha feito no clube Olivol Mundial, que me deram segurança nas mãos, além de elasticidade nas pernas.”Mazurkiewicz, em entrevista ao jornalista César Groba e publicada no site do Peñarol (URU), 2004.

 

De fato, as partidas com a bola pesada realmente deram uma condição privilegiada ao Polaco. Quando chegou à fase adulta, Mazurkiewicz alcançou 1,79m. Era uma altura realmente baixa para um goleiro, mas a impulsão que ele tinha embaixo das metas era algo fantástico. As mãos firmes quase sempre seguravam as bolas chutadas pelos rivais, com isso, rebotes eram raros para os atacantes. E, sobretudo, o goleiro sabia como poucos a repor a bola de maneira rápida para engatar contra-ataques importantes.

Já com boa parte dessas qualidades, o jovem foi contratado pelo Racing, que não pestanejou e inscreveu o garoto em seu elenco principal. Em 1964, fez sua estreia pelo time profissional, mesma temporada que disputou e venceu o Sul-Americano Sub-20 com a Celeste, disputado na Colômbia. Ele foi o único de seu clube a ser convocado para a seleção, que venceu quatro jogos, empatou um e perdeu apenas um. A exposição no torneio continental chamou a atenção do Peñarol, que contratou o jovem para a temporada de 1965, para ser reserva do titular Luis Maidana. Porém, mal sabia ele que tal condição terminaria muito breve…

 

A estreia contra o Rei

Nos primeiros meses de 1965, Mazurkiewicz não jogou pelo Peñarol. Multicampeão no começo da década com um esquadrão lendário (leia mais clicando aqui), o clube aurinegro tentava voltar às glórias continentais na disputa da Libertadores daquele ano. Maidana era o goleiro titular do time e fora, também, daquela era de ouro. Poucos acreditavam que um jovem de apenas 19 anos pudesse tomar o posto de um goleiro consagrado. Mas, quando algo tem que acontecer, acontece. Em março, o Peñarol começou a disputar as semifinais da Copa Libertadores contra um velho conhecido: o Santos, algoz dos aurinegros na competição de 1962 e ainda com boa parte dos craques que fizeram do Peixe bicampeão mundial (leia mais clicando aqui!). No primeiro jogo, no Brasil, alvinegros e aurinegros fizeram uma partida eletrizante que terminou com vitória santista por 5 a 4. Naquele jogo, Pelé perdeu um pênalti, defendido pelo goleiro Maidana. No duelo seguinte, no Uruguai, vitória do Peñarol por 3 a 2, resultado que forçou um duelo desempate em campo neutro, no estádio Monumental, em Buenos Aires. Mas, naquele terceiro jogo, eis que tudo começou a conspirar a favor de Mazurkiewicz.

O titular Maidana entrou em atrito com o técnico Máspoli e o preparador físico Alberto Langlade, durante a concentração em Los Aromos. A rixa provocou o afastamento do arqueiro por indisciplina. Com isso, ficaram na capital argentina Mazurka e Eduardo García, os dois goleiros do time. Até momentos antes do jogo, nenhum dos dois sabia quem seria o titular. Foi então que Máspoli chegou ao vestiário e optou pelo “más chiquito”. Mazurkiewicz seria titular em um duelo decisivo, contra Pelé e companhia. Será que ele daria conta? Sim. Ele não só deu conta como foi eleito o melhor jogador em campo na vitória do Peñarol por 2 a 1 que colocou o time na decisão. Com uma maturidade impressionante, ele não se deixou atingir pelo peso daquele jogo, muito menos se intimidou com a presença de Pelé. Mazurka ficou atento a todos, sem concentrar suas ações em um jogador em especial.

Naquele jogo, ficaram explícitas as qualidades marcantes do camisa 1: reflexos apurados, enorme habilidade para repor a bola com as mãos, sem precisar usar os pés, sobriedade e frieza para ficar fora da linha do gol, diminuindo os ângulos para os chutes dos adversários. E eram essas características dele que compensaram a tão falada falta de altura do Chiquito, que nunca se importou com isso:

 

“Com posicionamento certo, um goleiro pode parecer maior do que realmente é quando enfrenta um atacante.” Mazurkiewicz, em entrevista publicada no livro The Blizzard – The Football Quarterly, Issue Twenty Five, dos autores Jonathan Wilson, Luke Edwards, Felix Lill, Javier Sauras, Michael Yokhin e David Ashton. Ed. Blizzard. 2017.

Contra o Independiente, o goleiro não conseguiu evitar o triunfo rival. Foto: Futebol Portenho.

 

Na final, seu time acabou perdendo para o forte Independiente (leia mais clicando aqui), mas a experiência adquirida naquele duelo de fogo foi fundamental para seu nome começar a ser falado e conhecido em todo meio esportivo. E, a partir de 1965, Mazurkiewicz não saiu mais do posto de titular do Peñarol.

 

Titular absoluto na conquista histórica

O Peñarol de 1966. Em pé: Mazurkiewicz, Tabaré González, Taibo (goleiro suplente), Tito Goncálvez, Varela, Lezcano, Forlán e Máspoli. Sentados: Abbadie, Rocha, Spencer, Cortés e Joya. Foto: Conmebol.

 

Após assumir a titularidade do gol do Peñarol e faturar logo em seu primeiro ano o Campeonato Uruguaio de 1965, Mazurkiewicz entrou na temporada de 1966 com boas perspectivas. Seu clube iria disputar a Copa Libertadores mais uma vez e a perda do caneco no ano anterior ainda não havia sido digerida por lá. Eles sabiam que ainda era possível vencer a competição para encerrar o ciclo de uma geração já veterana. Abbadie, por exemplo, tinha 35 anos. Joya, 31, e Gonçálvez, 30. Spencer tinha 28 anos, Lezcano, 29, e Caetano, 27. Mazurkiewicz completaria 21 anos naquele ano e era um dos mais jovens do grupo – só Pablo Forlán era mais novo que ele, com 20. Mesmo com aqueles veteranos, o Peñarol mantinha um alto nível de futebol e preparação física muito graças a Alberto Langlade, referência no esporte e em educação física na época e notável pelos métodos de treinamento que impunha aos jogadores. Isso explicava a força e o fôlego daquele time em disputar tantos jogos intensos e decisivos durante tanto tempo, além da força aérea de seus jogadores, quase todos com impulsões formidáveis – em especial, claro, Alberto Spencer (leia mais clicando aqui) e Mazurkiewicz, que melhorou consideravelmente sob os treinos de Langlade.

A Libertadores começou cedo em 1966, por conta da Copa do Mundo que seria disputada naquele ano. O clube aurinegro enfrentou um grupo indigesto, com o rival Nacional, dois times do Equador e dois da Bolívia. Mesmo assim, o Peñarol se classificou em primeiro lugar, com oito vitórias e duas derrotas em dez jogos. A equipe levou dez gols nos dez jogos e, nos cinco duelos em casa, Mazurka levou gol apenas em dois: na vitória por 3 a 1 sobre o Municipal-BOL e na goleada de 4 a 1 sobre o Emelec-EQU. Na segunda fase, os aurinegros encararam a Universidad Católica-CHI e novamente o Nacional em um triangular todos contra todos, em duelos ida e volta. O Peñarol mostrou a força de seu elenco e conseguiu a vaga na final com três vitórias e uma derrota nos quatro jogos. Mazurka levou apenas um gol – na derrota por 1 a 0 para os chilenos, fora de casa -, e ficou invicto nas duas vitórias sobre o rival Nacional – 3 a 0 e 1 a 0.

A grande final foi contra o River Plate-ARG, do grande artilheiro daquela edição da Liberta, Daniel Onega (ele marcou absurdos 17 gols, recorde até hoje na história da competição) e de outro goleiro lendário: Amadeo Carrizo (leia mais sobre ele clicando aqui!). No primeiro jogo, no Centenário, o Peñarol foi todo ataque e o River, todo defesa. Mazurkiewicz foi um mero espectador durante boa parte do duelo. Na única grande chance do jogo criada pelos argentinos, Daniel Onega cabeceou uma bola certeira que foi defendida por Mazurka, que voou firme para afastar o perigo. Nos minutos finais, o Peñarol venceu por 2 a 0 e levou a vantagem do empate para a volta – não havia critério de gols na época. No Monumental, o jogo foi tenso, com torcedores e policiais ao redor do gramado. Os oficiais abraçavam os jogadores do River a cada gol e chegaram a agredir Mazurkiewicz e Caetano com golpes de cassetete durante o jogo. O placar foi 3 a 2 para o River e acabou forçando um terceiro duelo, em Santiago (CHI).

No dia 20 de maio, apenas dois dias depois do segundo jogo, eis que Mazurkiewicz e seus companheiros conseguiram um feito histórico, daqueles para emoldurar na parede, “crear película”. O River dominou completamente o jogo no primeiro tempo, tentou abrir o placar por duas vezes após os 14 minutos, mas viu Mazurka fazer defesaças em chances de Ermindo Onega e Daniel Onega. Só aos 28’ que os argentinos tiraram o zero do placar. E ampliaram perto do final da primeira etapa, num golaço de Solari. Foi então que, na segunda etapa, o Peñarol encontrou as forças de suas sobrenaturais “remontadas” históricas e empatou, com Spencer e Matosas (contra). O River voltou ao ataque, mas Mazurkiewicz não iria mais permitir um gol sequer, defendo tudo e se colocando de maneira perfeita no gol. Quando ele não agarrava, Lezcano evitava com suas cabeçadas e antecipações. Ao término do tempo regulamentar, veio a prorrogação. E nela mais dois gols aurinegros, de Spencer e Rocha, que deram o tricampeonato da América ao Peñarol. Foi um jogo formidável e épico que você pode ler mais clicando aqui!

Após a Liberta, Mazurka se garantiu na Copa! Foto: Blog Tardes de Pacaembu.

 

Na volta para casa, Mazurkiewicz e seus companheiros foram recebidos com enorme festa. E, como não poderia deixar de ser, o camisa 1 e mais oito jogadores do Peñarol (!) garantiram suas vagas entre os convocados para a Copa do Mundo, que começaria dentro de poucos dias, na Inglaterra. Mesmo com apenas 21 anos e seis convocações no currículo, ele já era o principal e mais elogiado goleiro do país.

 

Atuação de gala diante da Rainha

Foto: AFP.

 

No dia 11 de julho de 1966, Mazurkiewicz pisou no mítico estádio de Wembley, em Londres, para a estreia do Uruguai na Copa. E foi justamente contra os anfitriões ingleses. Antes da partida, os jogadores foram cumprimentados um a um pela Rainha Elizabeth II e reza a lenda que Mazurkiewicz, ao estender e beijar a mão da Rainha, disse:  

 

“Você é como algo saído de uma pintura, madame, mas nós vamos ganhar hoje!”

 

Os companheiros de Mazurka não acreditaram no que tinham acabado de ouvir. Ele teria dito em espanhol, claro, talvez para ela não notar. Mas o fato é que aquela brincadeirinha ajudou a amenizar a tensão da estreia e tranquilizar o time para o jogo. Com isso, a Celeste segurou o ímpeto dos ingleses e o zero não saiu do placar. Mazurka, claro, mostrou a todos suas qualidades com grandes defesas e muita sobriedade. A Celeste não ganhou, mas que ele saiu de campo vitorioso, ah, isso ele saiu! Afinal, era algo raríssimo para um goleiro adversário da Inglaterra sair de Wembley sem levar um golzinho sequer naquela época.

A Rainha na abertura da Copa: será que ela ouviu o que o Mazurka falou? Foto: Paphotos.co.uk

 

No duelo seguinte pelo Grupo 1, o Uruguai venceu a França por 2 a 1 e empatou sem gols com o México, resultado que classificou a equipe sul-americana para a fase seguinte. Nela, Mazurka nada pôde fazer para conter as investidas do forte time da Alemanha, que venceu por 4 a 0 – em um jogo com arbitragem bastante duvidosa a favor dos europeus – e seguiu rumo à final. Na volta ao Uruguai, Mazurka ainda tinha um grande compromisso pelo seu Peñarol: o Mundial Interclubes.

 

Campeão do mundo e (quase) intransponível

Ainda em 1966, Mazurkiewicz iniciou uma fase marcante em sua carreira. Cada vez mais maduro e eficiente, o goleiro era absoluto debaixo das traves e um adversário dificílimo de ser batido pelos atacantes. Com seu uniforme preto, possuía uma figura marcante no gol e dificultava a visualização dos rivais segundo ele próprio. O preto, Mazurka dizia, tirava a referência do atacante no gol, ao contrário das cores vibrantes que a maioria dos goleiros escolhia na época – principalmente a cor amarela. E o Real Madrid, campeão da Europa naquele ano, foi uma das muitas vítimas do goleiro. Na decisão do Mundial Interclubes de 1966, ainda disputado em dois jogos, o goleiro não foi vazado pelos espanhóis e viu o Peñarol ser campeão vencendo tanto o duelo de ida – 2 a 0 – quanto na volta, em pleno Santiago Bernabéu, também por 2 a 0. A imprensa espanhola se rendeu ao jovem arqueiro aurinegro, que fez grandes defesas e garantiu um enorme 4 a 0 no agregado para o time uruguaio.

E a fama continuou aumentando. Em 1967, foi titular na campanha vitoriosa do Uruguai na conquista do Campeonato Sul-Americano (a atual Copa América) jogando em casa. Mazurka levou apenas dois gols e fez do Uruguai a seleção com a melhor defesa do torneio nos cinco jogos disputados – foram 4 vitórias e um empate. Ainda naquele ano, Mazurka conquistou o Campeonato Uruguaio de maneira invicta e levou apenas seis gols em 18 jogos. Mas o impressionante veio no ano seguinte. Ele e seu time foram bicampeões (de novo de maneira invicta) e o camisa 1 chegou ao recorde de 11 jogos sem levar gols. Foram 987 minutos sem ter que buscar a bola dentro do gol.

A série foi a seguinte:

Danubio (3-1) começou aqui, após o gol do Danubio

Liverpool (2-0)

River Plate (1-0)

Sud América (1-0)

Defensor (1-0)

Racing (1-0)

Cerro (1-0)

Nacional (0-0)

Rampla Juniors (1-0)

Danubio (4-0)

Liverpool (1-0)

Só contra o River Plate, já no returno, que Mazurka seria vazado, no final do jogo. Quando ele chegou ao minuto da quebra do recorde (que era de Eduardo García, lá nos anos 30, de 922 minutos), no primeiro tempo, a torcida celebrou como se fosse um gol no Centenário e até os rivais do River foram celebrar com ele, num gesto de profundo reconhecimento e respeito. O jogo terminou empatado em 1 a 1 e Ramón Silva foi quem teve o privilégio de quebrar a invencibilidade do camisa 1. Ao final do torneio, o Peñarol levou apenas cinco gols em 18 jogos.

O Uruguai campeão da América de 1967. Em pé: Cincunegui, Luis Varela, Juan Mujica, Juan Paz, Elgar Baeza e Mazurkiewicz. Agachados: Pérez, Salvá, Oyarbide, Pedro Rocha e Urruzmendi.

 

Também em 1968, Mazurkiewicz foi convocado para integrar a Seleção da FIFA em um amistoso contra o Brasil, no Maracanã. Ele esteve ao lado de lendas como Beckenbauer, Florian Albert, Pedro Rocha, Amancio, Overath, Perfumo e Lev Yashin. O Brasil – que já tinha a base que seria tricampeã do mundo dois anos depois – venceu por 2 a 1, mas o grande destaque foi o encontro de Yashin com Mazurkiewicz. Após um treinamento antes do jogo, o soviético ficou tão impressionado com o uruguaio que deu suas luvas de presente para Mazurka como recordação.

Em 1969, o craque ganhou a Recopa Mundial (conhecida também como Supercopa dos Campeões Intercontinentais), vencida pelo Peñarol sobre Racing-ARG, Estudiantes-ARG e Santos-BRA. Ainda naquele ano, o goleiro ajudou a Celeste a se classificar para a Copa do Mundo de 1970 com três vitórias e um empate nas Eliminatórias. E, só pra variar, Mazurkiewicz não foi vazado em nenhum dos jogos. Realmente, ele vivia a melhor fase da carreira. E estava mais do que pronto para sua segunda Copa.

 

O melhor da Copa e os lances com o Rei

Contra a URSS: voando para ser o melhor da Copa. Foto: Getty Images.

 

O Uruguai foi para a Copa de 1970 com um bom time. A seleção contava com jogadores já consagrados como Ancheta, Cubilla, Pedro Rocha e Espárrago. E, com Mazurkiewicz no gol, tinha plena convicção de que os adversários teriam sérios problemas quando tentassem atacar a Celeste. E realmente tiveram. Na estreia, o time sul-americano venceu Israel por 2 a 0. Depois, empatou sem gols com a Itália. Só no terceiro jogo que a equipe levou um gol, na derrota por 1 a 0 para a Suécia. Sempre seguro, Mazurka brindava os mexicanos com as atuações que todos no Uruguai já conheciam. Nas quartas de final, o time encarou a perigosa União Soviética, já sem Yashin. Após empate sem gols no tempo normal, a equipe Celeste venceu por 1 a 0, num gol de Espárrago faltando três minutos para o fim, e o Uruguai conseguiu a classificação. Mazurkiewicz continuava impecável. Ele parou todas as investidas dos soviéticos. E seguia com apenas um gol sofrido em quatro jogos. Uma enormidade se tratando de Copa do Mundo e em tempos de futebol tão ofensivo.

Mas, nas semis, o craque teve pela frente o Brasil. De Tostão. Jairzinho. Gérson. Rivellino. E Pelé. Um pelotão de frente que nenhum goleiro do mundo poderia frear. Nem mesmo ele. O Uruguai saiu na frente, mas o Brasil fez um, dois, três gols e se garantiu na final. Mas o que mais chamou a atenção naquela partida foi o duelo particular entre Mazurka e Pelé, construído em dois lances. Em um deles, após cobrar um tiro de meta, o camisa 1 foi surpreendido com um chute de bate-pronto do Rei que teve de ser defendido no susto.

Mas o mais incrível veio após um passe em profundidade de Tostão para Pelé, que saiu em disparada contra Mazurkiewicz. Num lapso de genialidade que só o brasileiro tinha, ele simplesmente não tocou na bola, aplicando um drible de corpo impressionante no camisa 1. Já batido, Mazurka só olhou para ver o golaço. Mas, numa ironia do destino, a bola não entrou.

Abaixo, veja como seria o gol, e, depois, como foi realmente.

O lance ficou marcado para sempre como o gol mais bonito que Pelé não fez. Marcou, também, a carreira do uruguaio, que seria mais lembrado por causa disso do que por suas defesas e atuações. Um sacrilégio, óbvio. Mazurkiewicz comentou sobre o lance anos depois.

 

“Foi uma jogada que só o Pelé poderia fazer. O que aconteceu é que qualquer jogador tocaria na bola para driblar ou chutaria a gol. Mas ele não fez nada disso. Logicamente ninguém esperaria uma coisa daquelas pelé estava sozinho, só havia eu e ele, mais ninguém na jogada. Se eu ficasse parado, não teria nenhuma chance contra ele. Eu saí para tentar evitar o gol. Só o Pelé faria algo como aquilo. Eu já havia me entregado depois do drible. Acho que o Pelé só não fez o gol porque um companheiro meu estava atrás dele.” – Mazurkiewicz, em entrevista concedida ao jornalista Leandro Loyola e publicada nos jornais Notícias Populares e Folha de S. Paulo, em 19 de novembro de 1997, reproduzida no livro Goleiros, de Paulo Guilherme. Ed. Alameda, 2006.

 

Contra a Alemanha, Mazurka levou apenas um gol. Foto: Getty Images.

 

O fato é que, mesmo com esses lances, Mazurka não foi vencido por Pelé naquele jogo. Na considerada melhor Copa da carreira do Rei, o uruguaio não levou um gol do camisa 10. Na disputa pelo terceiro lugar, o desinteresse marcou o duelo entre Alemanha e Uruguai. E os europeus venceram por um magro 1 a 0. Ao final da competição, Mazurkiewicz foi eleito o Melhor Goleiro da Copa, superando a lenda Gordon Banks (leia mais clicando aqui!). Foi um reconhecimento pelo ótimo Mundial que o goleiro disputou. E por ter levado apenas dois gols em seis jogos – vamos combinar que os três levados contra o Brasil não contam. Aquela seleção era de outro planeta…

 

O “novo” Aranha Negra

Foto: Assis Hoffmann / Placar.

 

Após a Copa, Mazurkiewicz acabou deixando o Peñarol para vestir a camisa do Atlético Mineiro por cerca de 100 mil dólares. A transferência enfureceu a torcida, que não se conformou em perder o ídolo de grandes momentos e conquistas. Antes de deixar o clube, Mazurkiewicz foi convidado por Lev Yashin para participar da partida festiva que simbolizaria seu adeus aos gramados. O convite partiu do próprio Aranha Negra, algo que deixou Mazurka extremamente lisonjeado. Após o jogo, repleto de estrelas, Mazurkiewicz ganhou as luvas do mito soviético mais uma vez e foi considerado por ele como “seu sucessor” no futebol, não só pelo talento, mas pelo estilo de jogo e as tradicionais vestimentas negras do uruguaio. Ele contou como foi aquele encontro.

 

“Foi emocionante a chegada, quando ele me recebeu, aquele abraço inesquecível, além das várias horas que passei junto a esse monstro que era o Yashin. Ele era uma pessoa sensacional. Com um tradutor, conversamos muito. Ele queria me conhecer, me tratou de forma maravilhosa. Me lembro que pedi a ele uma foto dele autografada para meu pai e ele me concedeu sem problema para que eu a trouxesse ao Uruguai. Foi um momento muito especial para mim porque ele foi meu ‘professor’, me inspirei muito nele.”Mazurkiewicz, em entrevista ao jornalista César Groba e publicada no site do Peñarol (URU), 2004.

 

E foi de negro que Mazurkiewicz assumiu a titularidade do gol do Galo, recém campeão brasileiro (leia mais clicando aqui). Em dezembro de 1971, em sua chegada à Belo Horizonte, centenas de torcedores recepcionaram o novo Aranha Negra, ídolo instantâneo do clube. Com a experiência internacional que tinha, Mazurka foi a grande contratação do alvinegro para a disputa da Libertadores de 1972, mas o time brasileiro sucumbiu ainda na fase de grupos. No Galo, Mazurka não ganhou títulos, mas foi ídolo da torcida com grandes partidas e a segurança de sempre. Foram 89 jogos e apenas 67 gols sofridos pelo Galo, entre 1972 e 1974. Em jogos no Mineirão, Mazurkiewicz disputou 43 jogos e saiu derrotado apenas oito vezes.

 

“Sufoco laranja” na última Copa

Em 1974, Mazurkiewicz foi mais uma vez convocado como goleiro titular do Uruguai para a Copa do Mundo. Ao contrário de 1970, o time Celeste já não tinha a força de antes e não era cotado entre os favoritos. Qualificado no grupo 3, o time teria pela frente Bulgária, Suécia e Holanda. E, justamente no primeiro jogo, a equipe sul-americana encarou a emblemática seleção comandada por Rinus Michels (leia mais sobre ele clicando aqui). Naquele dia 15 de junho, a cidade de Hanover viu um atropelamento. A Holanda simplesmente sufocou o Uruguai do início ao fim, no maior exemplo pleno do Futebol Total. Foi apenas 2 a 0 para os laranjas, mas poderia ter sido 11, 12, 13 a 0 não fosse a falta de pontaria em alguns lances e, adivinhe, Mazurkiewicz. O camisa 1 fez pelo menos nove defesas importantes (uma delas em cima da linha) que evitaram um desastre ainda maior para a Celeste. Leia mais sobre esse jogo clicando aqui.

Na sequência, o Uruguai empatou em 1 a 1 com a Bulgária e perdeu por 3 a 0 para os suecos, resultados que eliminaram a equipe ainda na fase de grupos. Aquela foi a última Copa de Mazurka, que também daria adeus à seleção. Foram 36 jogos pela Celeste e 35 gols sofridos. Em Copas, Mazurka disputou 13 jogos, com três vitórias, quatro empates, seis derrotas e 16 gols sofridos.

 

Últimas camisas e o adeus

Mazurka no Granada, em 1974. Em pé: Mazurkiewicz, Gerardo, Toni, Calera, Sierra e Fernández. Agachados: Chirri, Lorenzo, Maciel, Oruezabal e Quiles. Foto: Equipos de Fútbol.

 

Após o Mundial, Mazurkiewicz deixou o Atlético para jogar no modesto Granada, da Espanha. A equipe costumava aprontar contra os grandes do país, mas Mazurkiewicz não teve sorte e acabou ficando por pouco tempo no clube espanhol, que foi rebaixado na temporada 1975-1976. Em 1976, voltou ao Peñarol brevemente, mas uma lesão no joelho o tirou de combate por meses. No ano seguinte, foi emprestado ao Pelotas, do Brasil, mas ficou praticamente a temporada toda sem jogar até se transferir para o Cobreloa-CHI. Passou, também, pelo América de Cali-COL. Em ambos, não flertou com títulos. Parecia mesmo que ele estava predestinado a ser campeão apenas pelo seu querido Peñarol. E, em 1981, voltou veterano ao clube para celebrar um último campeonato nacional e, enfim, pendurar as luvas. Mazurkiewicz seguiu no dia a dia do clube como treinador de goleiros e até como técnico, no final dos anos 80. Trabalhou em outras equipes também como treinador de goleiros até falecer, em 2013, em decorrência de problemas respiratórios.

Foto: aguantenche.com.uy

 

Até hoje o lendário Mazurka é considerado um dos maiores goleiros de todos os tempos, o maior do Uruguai e até o maior de toda a América do Sul. Com uma sobriedade impressionante e estilo único de jogo, o uruguaio foi muito mais do que o famoso lance com Pelé. Ele foi o garoto que estreou em uma prova de fogo contra o Santos e jogou como um jogador consagrado. Ele foi o jovem que assumiu a titularidade de uma equipe veterana e a levou ao título da Libertadores. Ele foi o camisa 1 que saiu sem ser vazado de Wembley, contra a Inglaterra, em uma Copa na Inglaterra. Ele foi o goleiro que não levou gols em uma final de Mundial contra o poderoso Real Madrid. Ele foi o melhor goleiro da Copa de 1970, a melhor de todos os tempos. Ele foi o goleiro que salvou de todas as maneiras possíveis sua seleção de levar uma goleada homérica da Laranja Mecânica. E ele foi o herdeiro de Lev Yashin com a benção do próprio. Mazurkiewicz foi, em todos os sentidos, um imortal do futebol.

 

Leia mais sobre o Peñarol de 1966 clicando aqui!.

 

Extra:

Veja imagens marcantes da lenda.


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5 thoughts on “Craque Imortal – Mazurkiewicz

  1. Grande reportagem,meu caro amigo!

    Mazurkiewicz foi lendário,sem dúvidas mereceu ser lembrado nesse espaço nostálgico.Alguns jogadores e equipes que poderiam ser lembrados:

    -Kenny Dalglish
    -Josef Masopust
    -Frantisek Plánicka
    -Jimmy Johnstone
    -Denis Law
    -Kazimierz Deyna
    -Arsenio Erico

    Leeds United(1967-1975)
    Saint-Étienne(1966-1976)

    Abraço!

    1. Obrigado pelos elogios e sugestões, Will! A propósito, Dalglish, Law e Erico serão os próximos craques! Estou devendo eles há muito tempo! Fique ligado!

  2. Grande reportagem!

    Uma dica seria fazer do Roy Keane, capitao do glorioso man united, jogou 12 anos nos Red devils (1993-2005) e foi um dos jogadores responsaveis por aquele magnifico Manchester de 1998-1999, inclusive comandando a virada do united contra a Juventus de Zidane.

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