Jogos Eternos – Áustria 7×5 Suíça 1954

Data: 26 de junho de 1954

O que estava em jogo: uma vaga na semifinal da Copa do Mundo da FIFA de 1954

Local: Estádio Olímpico de La Pontaise, em Lausanne, Suíça

Juiz: Charles Faultless (ESC)

Público: 35.000 pessoas

Os Times:

Áustria: Kurt Schmied; Gerhard Hanappi, Leopold Barschandt e Ernst Ocwirk;  Ernst Happel e Karl Koller; Robert Körner, Theodor Wagner, Ernst Stojaspal, Erich Probst e Alfred Körner. Técnico: Walter Nausch.

Suíça: Eugene Parlier; André Neury, Willy Kernen e Oliver Eggimann; Roger Bocquet e Charles Casali; Charles Antenen, Roger Volanthen, Josef Hügi, Robert Ballaman e Jacques Fatton. Técnico: Karl Rappan.

Placar: Áustria 7×5 Suíça. Gols: (Ballaman-SUI, aos 16’, Hügi-SUI, aos 17’ e aos 19’, Wagner-AUT, aos 25’, Alfred Körner-AUT, aos 26’, Wagner-AUT, aos 27’, Ocwirk-AUT, aos 32’, Alfred Körner-AUT, aos 34’, e Ballaman-SUI, aos 39’ do 1º T; Wagner-AUT, aos 8’, Hügi-SUI, aos 15’, e Probst-AUT, aos 31’ do 2º T).

 

“A loucura de gols na quente Lausanne”

 

O estádio Olímpico de La Pontaise, na bela Lausanne, já havia abrigado vários jogos da seleção suíça de futebol. O primeiro deles, lá no dia 11 de março de 1923, viu uma sapecada húngara pra cima dos suíços: 6 a 1. Mas eles ainda não eram adeptos do ferrolho de Karl Rappan, que começou a partir da década de 30 a mudar para sempre a maneira de jogar do país. Daquele ano em diante, nunca mais a Suíça levou mais de quatro gols jogando em Lausanne. Em 1954, o estádio foi um dos palcos da Copa do Mundo, de volta à Europa após o hiato da II Guerra Mundial e da edição de 1950, na América do Sul. E ele viu a Suíça estrear com vitória por 2 a 1 sobre a tradicionalíssima Itália. Dias depois, a mesma Itália levou de 4 a 1 no playoff do grupo, mas longe dali, na Basileia. Os anfitriões se classificaram para as quartas de final. E tiveram pela frente a Áustria, curiosamente pátria do técnico suíço naquele ano, adivinhe, Karl Rappan, mentor do ferrolho defensivo dos anos 30. Era um dia de sol em Lausanne. Aliás, muito sol. Mais de 36 graus foram registrados nos termômetros do verão suíço. Aquela já era uma Copa recheada de gols, mas ninguém esperava tal script em uma partida com a Suíça em campo. Seus jogadores eram treinados para não levar gols. Conter o inimigo a qualquer custo, com cinco homens na retaguarda. E contra-atacar de maneira clínica. No entanto, os primeiros 20 minutos daquele jogo provaram que muita coisa iria acontecer. Os suíços fizeram três gols. Pareciam no embalo da goleada sobre a Itália. Todos pensaram que eles já tinham garantido a vaga na semifinal. Era óbvio. Levar três gols? Aquele time? Com Rappan? De jeito nenhum. Só que, em três chutes dos austríacos, saíram três gols. Mais alguns minutos e mais dois gols. Cinco em nove minutos. Uma loucura (maior do que vimos em 2014…). Injuriada, a Suíça fez mais um. Alfred Körner quase fez o sexto da Áustria, de pênalti, mas mandou a bola para fora. Tinha mais? Sim. No segundo tempo, em seis minutos, mais dois gols, um para cada lado. O calor aumentava. O fôlego minguava. Mas ainda teve tempo para mais um gol. E mais calor. O goleiro austríaco desmaiou no final. Ele perguntou: quanto foi o jogo? Vixe, ninguém sabia! Era preciso fazer a contagem. Depois de um tempinho, o resultado: foram 12 gols. Isso mesmo. DOZE. Áustria 7×5 Suíça. O jogo com maior número de gols da história das Copas. O jogo mais alucinante. A “Batalha de Calor de Lausanne”, como ficou conhecida aquela partida orgásmica para os apaixonados por gols. E que destroçou por completo o tal ferrolho suíço. É hora de relembrar.

 

Pré-jogo

Karl Rappan.

 

Para entender o mencionado ferrolho, é preciso voltar até 1938. Naquele ano, teve Copa do Mundo na França, e a seleção da Suíça apresentou ao planeta um novo esquema de jogo que consistia em um líbero, três defensores em linha, mais um defensor protegendo o trio, dois jogadores na intermediária e três no ataque. Era um 1-3-1-2-3, que virava 1-2-2-2-3 em determinadas circunstâncias. Quem criou isso foi o técnico austríaco Karl Rappan, que não conseguiu impor suas ideias no futebol de seu país e foi para a Suíça tentar a sorte. Ele a encontrou, colecionou títulos nacionais no Grasshopper com um time sem estrelas, mas muita disciplina tática, e foi comandar a Suíça na Copa. Nela, conduziu o time até as quartas de final após uma grande vitória sobre a Alemanha nazista por 4 a 2. O time suíço foi a antítese do futebol ofensivo da época, com foco na defesa, jogadores postados atrás da linha do meio de campo e prontos para contra-ataques. Os rivais eram cercados, os espaços reduzidos e, mesmo com o inimigo sempre com mais posse de bola, ele nada podia fazer diante do tal “ferrolho” à frente do gol. Rappan ganhou enorme prestígio e seria o inspirador de vários sistemas defensivos anos depois, em especial o Catenaccio, notável esquema utilizado pela Grande Inter de Helenio Herrera, nos anos 60 (leia mais clicando aqui), e pelo Milan de Nereo Rocco daquela mesma época (leia mais clicando aqui).

O primeiro ferrolho suíço, de 1938. Perceba a quantidade de jogadores atrás da linha do meio de campo.

 

Rappan seguiu no comando da Suíça durante boa parte da década de 40 e nos anos 50, quando teve a missão de dirigir a equipe anfitriã da Copa de 1954. Selecionados no Grupo 4, os suíços tiveram pela frente a Itália justamente no Estádio de La Pontaise. E, com uma arbitragem bastante polêmica do brasileiro Mario Gonçalves Vianna, a Suíça venceu por 2 a 1, gols de Ballaman e Hügi. O juiz fez vista grossa ao jogo viril dos suíços, anulou um gol legítimo de Lorenzi, alegando impedimento, e foi perseguido nos vestiários pelos italianos após o fim do jogo! Na partida seguinte, a Suíça perdeu para a Inglaterra por 2 a 0 e foi disputar um jogo desempate mais uma vez contra os italianos, dessa vez com um árbitro “neutro”. O time da casa fez 1 a 0, recuou e apostou nos contra-ataques para fazer mais três gols e golear a Itália por 4 a 1, resultado que classificou a Suíça para as quartas de final.

Roger Bocquet, capitão da Suíça em 1954. Foto: J.D. Noske / Anefo.

 

O adversário do time de Rappan seria a Áustria, que voltava a apresentar um bom futebol em Copas semelhante ao grande time dos anos 30 conhecido como Wunderteam (leia mais clicando aqui), com triangulações curtas, toques rápidos e precisão nos arremates. Na estreia, o time comandado por Walter Nausch venceu a Escócia por 1 a 0. Depois, goleou a Tchecoslováquia por 5 a 0, com grandes jogadas de Theodor Wagner e o oportunismo de sempre do atacante Probst, que fez três gols. O duelo contra os anfitriões seria equilibrado. De um lado, a eficiência ofensiva da Áustria. Do outro, a precisão defensiva da Suíça. Não havia favorito. Muito menos a expectativa de gols em profusão.

 

Primeiro Tempo – A loucura

Os capitães antes do duelo. Foto: Gazeta Press.

 

Completamente lotado, o estádio Olímpico de La Pontaise fervia antes mesmo de a bola rolar. Isso não apenas pelo ótimo público, mas pelo calor que fazia naquela tarde suíça. Os termômetros marcavam mais de 36℃ (algumas fontes dizem que superavam os 40 graus!) e a umidade relativa do ar beirava os 80%. Era um calor absurdo que iria prejudicar demais os atletas – muito por causa dos uniformes de tecidos pesados. Os goleiros, então, teriam problemas ainda maiores com suas roupas pretas de mangas compridas. Quando a bola rolou, quem primeiro sentiu os efeitos do calor foi o goleiro austríaco Schmied. Ele teve tonturas e uma hipertermia que afetou consideravelmente seu desempenho no primeiro tempo. Como não eram permitidas substituições, ele teria que ficar em campo. Completamente desorientado, Schmied foi uma mera figura na meta quando Ballaman chutou de fora da área aos 16 minutos e fez 1 a 0 Suíça, num gol bastante constrangedor. O segundo tento suíço veio um minuto depois, após uma bola espichada da área dos anfitriões para o ataque. Em um lançamento no meio para Hügi, ele ganhou do zagueiro e chutou baixo, sem chance para o goleiro Schmied. Apenas dois minutos depois, a Suíça cruzou uma bola por baixo na área e Hügi, num chute alto, fez seu segundo gol: 3 a 0. Estava muito fácil. E, espertos, os anfitriões perceberam que era só chegar de maneira mais forte que o goleiro rival iria aceitar qualquer gol. Porém, a Suíça também sofreu uma baixa quando seu capitão, Bocquet, sofreu uma cotovelada na cabeça que o deixou desorientado. Do outro lado, o capitão Ocwirk inflou seus companheiros em busca de uma virada heroica e ainda inédita na história das Copas naquela época. Como a Suíça mantinha muitos jogadores no contorno da grande área, qual foi a solução encontrada pelos austríacos? Chutes de fora da área e as jogadas curtas, rápidas. Wagner, após troca de passes com Alfred Körner, chutou no cantinho e descontou: 3 a 1. Um minuto depois, Alfred Körner fez o seu após chutar de fora da área no ângulo de Parlier. Um golaço! Parecia brincadeira, mas o ponteiro dos segundos deu mais uma volta no relógio quando um chutaço de Wagner entrou com tudo no ferrolho suíço e empatou o jogo: 3 a 3. Em apenas 27 minutos, seis gols. Aos 32’, a Áustria continuou no ataque e Stojaspal tocou para Wagner, que deixou na direita para Robert Körner. Este cruzou, a bola caiu na esquerda ainda sob domínio austríaco e sobrou no meio para o capitão Ocwirk chutar de fora da área e virar. Simplesmente irresistíveis, os austríacos aproveitavam o fôlego que ainda tinham naquele primeiro tempo para sufocar a Suíça – e dar um pouco de respiro para o frágil Schmied. Aos 34’, Robert Körner cruzou da direita para seu irmão mais novo, Alfred Körner, aparecer na pequena área para fazer o quinto: 5 a 3.

Os times em campo: o ferrolho era um pouco diferente em 1954, mas mantinha a essência de defender. Na Áustria, Happel (zagueiro de origem) jogava como um médio, mas recuava para a zaga nas ofensivas do capitão Ocwirk.

 

A torcida suíça não acreditava no que via. Pensava ser efeito do sol, que eram meras alucinações no gramado de La Pontaise. Aos 39’, Ballaman aproveitou uma bola vinda da direita, viu o goleiro adiantado e chutou por cobertura para a aproveitar a saída do camisa 1 e também o sol que dificultava a visão do arqueiro: 5 a 4. Nove gols em menos de 40 minutos! Era um absurdo! E a Suíça quase empatou minutos depois, mas o goleiro Schmied, acredite, fez uma defesa mesmo fora de si e com aquele sol queimando qualquer sentido de equilíbrio e do real. A resposta da Áustria veio num ataque pela esquerda que terminou com pênalti cometido por Bocquet em Alfred Körner. Ele mesmo bateu, mas chutou para fora. Ao apito do árbitro, os jogadores correram para os vestiários em busca de hidratação, alimentação, refresco. O goleiro Schmied desmaiou no intervalo. “Ele estava totalmente fora de si”, disse Theodor Wagner na época. Do lado suíço, Casali comeu linguiça de fígado para “manter a força”. Seus companheiros tomaram muita água, buscaram oxigenação e todo tipo de alento para o calor. Já o capitão Bocquet estava mesmo bem “longe dali”. Nos vestiários, ele bradou: “é ótimo, rapazes, 3 a 0. Eles estão ferrados!”. Vixe…

 

Segundo tempo – Gols até o limite das pernas

Para tentar amenizar os efeitos do calor – que parecia aumentar mesmo com o relógio marcando mais de seis horas da tarde! – o preparador físico do time austríaco Pepi Ulrich ficaria ao lado do gol de Schmied no segundo tempo com esponjas embebidas em água fresca para passar no rosto, pescoço e nuca do camisa 1. Além disso, ele seria uma espécie de guia do arqueiro a fim de orientá-lo em cada investida suíça. Quando os anfitriões vinham pela direita, ele dizia “Kurt, cuidado, eles estão vindo! Eles estão vindo pela direita!”. Se fosse do outro lado: “Kurt, agora eles estão vindo pela esquerda!”. Realmente era uma situação inusitada e dramática para o goleiro, que teria mais 45 minutos para resistir ao calor de Lausanne. Felizmente para ele, nos primeiros minutos, quem buscou o gol foi a Áustria, que fez o sexto com Wagner, que completou seu hat-trick aos oito minutos após uma jogada de bombardeio do time austríaco – um gol muito discutido pela Suíça, que pediu impedimento.

Ernst Happel (à esquerda), da Áustria.

 

Sete minutos depois, de canhota e de fora da área, Hügi chutou e o goleiro austríaco, em um péssimo dia, aceitou mais um: 6 a 5. A Áustria passou a jogar mais recuada temendo um empate, com Happel (ele mesmo, o lendário técnico multicampeão nos anos 70) à frente da zaga. Minutos depois, Fatton tocou para Hügi pela direita e quase a Suíça fez o sexto, mas a bola acabou subindo. Aos 31’ e com os jogadores cada vez mais exaustos, Probst, sumido naquela partida após brilhar na primeira fase, recebeu um passe em profundidade, viu a saída do goleiro, tocou por cima e fez o sétimo gol, o gol do alívio, o gol para fechar aquele placar maluco. Os minutos se passaram, as pernas não respondiam mais aos comandos de suíços e austríacos e o jogo acabou. Terminava naquela tarde quente de Lausanne a partida com maior número de gols da história das Copas. Incríveis doze gols. O goleiro Schmied, grande vítima daquele calorão, desmaiou mais uma vez após o jogo e teve que ser hospitalizado. Só depois que ele saberia o placar do jogo. Parlier, goleiro da Suíça, admitiu que dois gols foram falhas suas, mas quatro eram “imparáveis” e um foi “falta de sorte”. Mas quem teve sorte, mesmo, foi o público que aguentou o sol de Lausanne naquele dia 26 de junho de 1954. Eles tiveram o privilégio de ver o mais espetacular jogo da história das Copas. Mais de seis décadas se passaram. Incríveis 15 Copas foram disputadas – sem contar a de 2018. E nenhum jogo teve DOZE gols. Foi uma doce loucura. Um dia único. Um jogo para a eternidade.

 

Pós-jogo: O que aconteceu depois?

 

Áustria: quatro dias depois, o time austríaco teve pela frente a Alemanha, na semifinal. Sem o goleiro titular Schmied e ainda cansados da batalha contra os anfitriões, a equipe do técnico Nausch aguentou apenas um tempo – que terminou 1 a 0. Na segunda etapa, a Alemanha fez cinco gols e goleou por 6 a 1, garantindo vaga na decisão (vencida sobre a Hungria no Milagre de Berna, que você pode ler mais clicando aqui). Na disputa pelo terceiro lugar, a Áustria teve mais brio que o Uruguai – abalado pelo revés diante da Hungria na semi – e venceu por 3 a 1, conquistando sua melhor colocação na história das Copas. Depois daquele bronze, nunca mais a equipe conseguiu ir tão longe em uma Copa. Mas o protagonismo do maior placar dos Mundiais segue intacto com eles. Em 2004, quando perguntado sobre aquela partida, o goleiro Schmied, grande personagem daquele jogo eterno, disse: “as pessoas sempre se recordam entusiasmadas sobre aquele jogo, e eu sempre fui enfático: ‘você pode falar o que quiser sobre aquele jogo. Eu não me lembro de absolutamente nada’”.

Suíça: destroçado, o ferrolho de Rappan perdeu força naqueles anos 50 e voltaria apenas sob a batuta de outros técnicos anos depois. O austríaco ainda comandou a Suíça em mais uma Copa, em 1962, mas sua equipe não passou da primeira fase – perdeu os três jogos e levou oito gols. Porém, o trabalho de Rappan foi recordado na Copa de 2006, quando a Suíça conseguiu a proeza de ser eliminada de um Mundial sem levar um gol sequer! Isso mesmo. Na primeira fase, o time empatou em 0 a 0 com a França, venceu Togo por 2 a 0 e bateu a Coreia do Sul também por 2 a 0. Nas oitavas, empate sem gols com a Ucrânia e derrota só nos pênaltis por 3 a 0. Foi o primeiro ferrolho que deu certo, algo que derramaria lágrimas de orgulho do inventor Rappan. Na Copa de 2010, lá estava a Suíça sem levar gols na vitória sobre a futura campeã Espanha por 1 a 0 e até os 75’ de jogo contra o Chile, que acabou com a sequência de cinco jogos sem levar gols dos suíços ao vencer por 1 a 0 aquele duelo válido pelo Grupo H da Copa. No último jogo, a Suíça empatou sem gols com Honduras e foi eliminada do Mundial. Só em 2014 que o ferrolho foi desfeito e a equipe passou a levar mais gols – foram seis em três jogos. Mas a fama permanece até hoje.

Em 2006, a Suíça só saiu da Copa nos pênaltis. E sem levar gols! Foto: Getty Images.

 

Extra:

Veja os gols daquele jogo histórico. Tente não perder a conta.


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