Craque Imortal – Zanetti

Nascimento: 10 de agosto de 1973, em Buenos Aires, Argentina.

Posições: Lateral-Direito, Volante e Lateral-Esquerdo

Clubes: Talleres de Remedios de Escalada-ARG (1992-1993), Banfield-ARG (1993-1995) e Internazionale-ITA (1995-2014).

Principais títulos por clubes: 1 Mundial de Clubes da FIFA (2010), 1 Liga dos Campeões da UEFA (2009-2010), 1 Copa da UEFA (1997-1998), 5 Campeonatos Italianos (2005-2006, 2006-2007, 2007-2008, 2008-2009 e 2009-2010), 4 Copas da Itália (2004-2005, 2005-2006, 2009-2010 e 2010-2011) e 4 Supercopas da Itália (2005, 2006, 2008 e 2010) pela Internazionale.

Principal título por seleção: 1 Medalha de Ouro nos Jogos Pan Americanos de Mar del Plata-ARG (1995) pela Argentina.

Principais títulos individuais:

FIFA 100: 2004

Pallone d‘Argento: 2002

Premio Nazionale Carriera Esemplare Gaetano Scirea: 2010

Golden Foot (lenda do futebol): 2011

Prêmio Giacinto Facchetti: 2012

Eleito como o lateral-direito da Seleção Argentina de todos os tempos pela AFA: 2015

Globe Soccer Player Career Award: 2016

Eleito para o Hall da Fama da Internazionale: 2018

2º Jogador com maior número de jogos na história da Seleção Argentina: 142 jogos

Jogador com maior número de jogos na história da Internazionale: 858 jogos

Jogador com maior número de jogos no Campeonato Italiano na história da Internazionale: 615 jogos

Jogador com maior número de jogos internacionais na história da Internazionale: 162 jogos

Jogador com maior número de títulos na história da Internazionale: 16 troféus

Um dos poucos atletas a disputar mais de 1000 jogos na carreira

 

“Il Capitano della Inter”

 

Foram apenas cinco anos jogando no futebol argentino. Em 1995, com 22 anos, ele viajou para Milão. Chegou a um clube que ainda buscava um líder. Um capitão nato. Um lateral sublime que pudesse honrar uma posição que um dia fora de Giacinto Facchetti, a lenda dos anos 60 e 70 com o manto nerazzurri. Dia após dia, jogo após jogo, aquele jovem entendeu bem o que era ser jogador da Internazionale. Se sentia em casa num clube que sempre recebeu de braços abertos atletas estrangeiros. No início, os títulos não vieram mais por causa dos fortes rivais do que falta de empenho. Mas, a partir do momento em que ele se tornou um raro jogador não-italiano a assumir a braçadeira de capitão do time, em 1999, tudo começou a mudar. A Inter iniciou uma era de ouro a partir da primeira década dos anos 2000. Títulos e mais títulos nacionais. Grandes esquadrões. E a coroação definitiva em 2010, com a conquista da Liga dos Campeões da UEFA. Na hora de erguer o troféu, lá estava o argentino repetindo o gesto de Facchetti há 45 anos atrás. Mas não foi apenas com o manto nerazzurri que ele desfilou suas virtudes. Com a camisa da seleção argentina, jogou tanto, mas tanto, que foi eleito o melhor lateral-direito da história da Albiceleste. Quando pendurou as chuteiras, ganhou o máximo reconhecimento possível da sua querida Inter: seu manto de número 4 foi aposentado para sempre. Ele era, enfim, uma lenda. Javier Adelmar Zanetti, ou simplesmente Zanetti, foi um dos mais completos defensores de seu tempo, mito do futebol, craque incontestável, líder único. Foi a voz de uma Inter que conseguiu bradar mais alto sobre os rivais depois de tantos anos no ostracismo. Um defensor com uma força impressionante e uma resistência única que lhe renderam o apelido de “trator”. Foi o capitão em momentos difíceis contra rivais impetuosos, devastadores. E o símbolo de um time marcante, campeão de praticamente tudo o que disputou. Só faltou uma taça com a Argentina, que tanto bateu na trave enquanto ele era titular. É hora de relembrar a carreira desse ícone do esporte.

 

Pouco tempo por las canchas

Pelo Talleres, ainda garoto.

 

Nascido em Buenos Aires, Zanetti cresceu em uma região chamada Dock Sud, na província da capital argentina. Desde pequeno ele via os sacrifícios que seu pai, pedreiro, e a mãe, lavadeira, faziam para que ele e o irmão, Sergio Ariel Zanetti, estudassem e tivessem uma infância feliz e sem percalços. Em uma vizinhança com dificuldades e com todos ajudando uns aos outros, Zanetti aprendeu a ser solidário e a entender a importância do trabalho. Com apenas três anos, ganhou de presente da mãe uma bola de futebol, fato crucial para crescer dentro dele a vontade de ser futebolista. Esse gosto pelo esporte começou a ser desenvolvido no campo de futebol que ficava a 200 metros de sua casa. Fanático pelo Independiente, ele começou a jogar nas categorias de base do clube, mas foi dispensado por ser “pequeno demais”. Imagine você levar um “não” justamente do clube de seu coração? Certamente minaria as esperanças de muitos garotos, mas não as de Zanetti.

 

“Eu sou um grande fã do Independiente e joguei nas categorias de base do time antes de ser dispensado por causa do meu tamanho. Depois disso, fui trabalhar com meu pai de pedreiro e tal fato me ajudou a entender muitas coisas sobre a vida e me fez forte mentalmente para seguir em frente e jogar por outro clube.”Javier Zanetti, em entrevista ao The Independent (Reino Unido), 20 de outubro de 2017.

Em 1992, foi levado pelos pais ao pequenino Talleres de Remedios de Escalada, pelo qual foi aprovado e iniciou sua carreira como profissional em agosto daquele ano, entrando no decorrer de um jogo contra o Instituto na Primera B Nacional. Disputou mais de 30 partidas e, no ano seguinte, foi jogar no Banfield. Com a camisa alviverde, mostrou características que logo chamaram a atenção de todos: resistência, velocidade, força física, grande habilidade com a bola nos pés, precisão nas investidas ao ataque e capacidade de voltar para ajudar na defesa. Foi pelo Banfield que El Pupi, como era conhecido, ganhou suas primeiras convocações para a seleção argentina, logo após a Copa do Mundo de 1994. Seu debute aconteceu em um amistoso contra o Chile, no dia 16 de novembro de 1994, em Santiago, que terminou com vitória da albiceleste por 3 a 0. No mês seguinte, participou de mais dois jogos: triunfo sobre a Romênia por 1 a 0 e outro sobre a Iugoslávia também por 1 a 0, ambos os jogos disputados em Buenos Aires. Titular absoluto do Banfield e com mais de 60 jogos disputados na primeira divisão nacional, Zanetti despertou já em 1995 o interesse do futebol europeu. E quem conseguiu levar o jogador foi a Internazionale, que chegou a um acordo com o Banfield por cerca de 6,5 milhões de dólares. Junto com ele, o clube de Milão levou Sebastián Rambert, do Independiente. Com apenas 22 anos, o jovem teria uma chance de ouro para provar seu talento.

 

Início promissor

Roberto e Zanetti, contratações da Inter em 1995.

Zanetti desembarcou em Milão juntamente com outro lateral: o brasileiro Roberto Carlos, contratado também em 1995 após brilhar no Palmeiras. A ideia do clube era voltar a ter a mesma consistência do grande time campeão italiano no final dos anos 80 e campeão da Copa da UEFA de 1990-1991, um esquadrão emblemático que você pode ler mais clicando aqui. Com Roberto pela esquerda e Zanetti pela direita, a Inter teria muita força pelas laterais e a esperança de poder brigar de igual para igual com as potências do país na época: o Milan, a Juventus e o endinheirado Parma. Com Massimo Moratti na presidência, a ideia era contratar estrelas de outros países a fim de montar um esquadrão competitivo. Na primeira temporada, o time não venceu nada, mas viu Zanetti disputar 32 jogos da Serie A e marcar dois gols. Com muita vitalidade e força, ganhou rapidamente a simpatia da torcida e mostrou sua polivalência em poder atuar em ambas as laterais e até como volante se fosse necessário. Pela seleção, disputou 15 jogos em 1995, incluindo participações na Copa das Confederações, Copa América e amistosos – em um deles, fez seu primeiro gol, na goleada de 6 a 0 sobre a Eslováquia, em Mendoza. Além disso, disputou e venceu com a seleção argentina os Pan-Americanos de Mar del Plata, em um time comandado por Daniel Passarella e nomes como Ayala, Crespo, Ortega, Gallardo, Sorín, Guillermo Schelotto e Arruabarrena, nomes que iriam brilhar no futebol dos anos 90 pelo mundo inteiro.

Na temporada 1996-1997, Zanetti ajudou sua Inter a chegar a mais uma final de Copa da UEFA atuando mais avançado, no meio de campo, pela direita e também pela esquerda, com Bergomi assumindo a lateral-direita. Ao lado de Paul Ince, Djorkaeff, Aron Winter e Zamorano, o argentino tinha o sonho de ser campeão pela primeira vez. Mas o time caiu na decisão diante do Schalke 04-ALE, que triunfou nos pênaltis em pleno estádio Giuseppe Meazza. Mas a história foi bem diferente na temporada seguinte. Com a contratação da estrela Ronaldo, a Inter ganhou enorme força ofensiva, conseguiu o vice-campeonato nacional e refez o caminho de volta até a final da Copa da UEFA. Pelo caminho, Zanetti brilhou nas oitavas de final ao marcar um dos gols da goleada de 3 a 0 sobre o Strasbourg-FRA, no duelo de volta. Nas quartas, a equipe deu o troco no Schalke 04 ao eliminar os alemães com vitória por 1 a 0 na ida e empate em 1 a 1 na volta e conseguiu a vaga na final após duas vitórias sobre os russos do Spartak Moscow por 2 a 1.

Na Inter de 1997-1998, Zanetti atuava no meio de campo e também pela esquerda, como lateral que apoiava e defendia com a mesma qualidade.

 

A Inter campeã da Copa da UEFA de 1998. Em pé: Zé Elias, Colonnese, Zanetti, Pagliuca e West. Agachados: Simeone, Djorkaeff, Zamorano, Winter, Fresi e Ronaldo.

 

Na decisão, um duelo doméstico contra a Lazio de Nedved, Nesta, Mancini e companhia terminou com vitória incontestável da Inter: 3 a 0, com direito a um golaço de Zanetti na entrada da área, com força e precisão de um jeito que só ele sabia fazer. Os outros gols foram de Zamorano e Ronaldo, e deram à Inter mais um título do torneio – o terceiro, somado aos de 1991 e 1994. Foi a primeira taça do craque. E uma inspiração para o primeiro grande desafio de sua carreira: a Copa do Mundo.

 

Tinha uma Holanda no caminho…

Zanetti marca seu gol contra a Inglaterra: jogo histórico!

 

Presença constante na seleção – pela qual disputou nove jogos das Eliminatórias -, Zanetti foi convocado como lateral-direito titular da Argentina para a Copa do Mundo de 1998. Com um grande time composto, entre outros, por Ayala, Almeyda, Simeone, Verón, Gallardo, Ortega e Batistuta, a Argentina era uma das favoritas ao título. Na primeira fase, bateu o Japão (1 a 0), goleou a Jamaica (5 a 0) e derrotou a Croácia de Suker (1 a 0). Titular absoluto, Zanetti mostrou a eficiência de sempre e só foi substituído no segundo tempo do último jogo, contra os croatas, quando a equipe já estava classificada e com a partida praticamente ganha.

Mas foi nas oitavas que aconteceu o grande momento de Zanetti naquela Copa. Em um duelo impróprio para cardíacos contra os tradicionais rivais ingleses, o craque foi um dos principais jogadores do time na partida. No primeiro tempo, Batistuta fez 1 a 0 para os argentinos. Minutos depois, a Inglaterra empatou. Na sequência, Owen marcou um gol épico e virou. Mas, nos acréscimos do primeiro tempo, Zanetti aproveitou uma cobrança de falta ensaiada e marcou o gol de empate argentino, seu primeiro – e único – em Copas. O curioso é que não era para ele fazer aquele gol.

 

“Nós treinamos aquele tipo de falta durante quatro anos, durante todo o período do Daniel Passarella no comando. Mas o plano original era o Ortega (Ariel) chutar, não eu. O Passarella veio até mim e disse: ‘você vai e fica atrás da barreira deles’. Eu fui sortudo, pois na primeira tentativa, marquei e conseguimos a vaga nas quartas de final. Eu ainda me lembro do segundo em que eu fiz o movimento e consegui dominar a bola. Mesmo tendo que chutar com a perna esquerda, o tiro foi perfeito e eu sabia que ia entrar.” Javier Zanetti, em entrevista à Four Four Two (Reino Unido), 1º de junho de 2017.

 

Veja o golaço:

O jogo seguiu tenso e só foi terminar nos pênaltis, com triunfo argentino por 4 a 3 (leia mais sobre esse jogo clicando aqui!). Empolgados, os sul-americanos foram para as quartas de final encarar a Holanda, no primeiro duelo entre as duas equipes em Copas desde a final de 1978. Zanetti foi mais uma vez titular, teve trabalho danado para conter as investidas da fantástica seleção laranja, e acabou vendo sua equipe perder por 2 a 1 após um golaço de Bergkamp no finalzinho do jogo. Era o fim do sonho do tricampeonato mundial. Porém, o saldo para o craque foi positivo: ele fez uma ótima Copa, cumpriu seu papel e saiu ainda mais valorizado do torneio. No entanto, mesmo com interesses de clubes como Real Madrid e Manchester United, Zanetti só tinha olhos para a Internazionale.

 

Tempos difíceis

Após o Mundial, Zanetti voltou à Inter e disputou sua primeira Liga dos Campeões da UEFA na temporada 1998-1999. Nela, marcou um gol na vitória sobre o Sturm Graz-AUT, na fase de grupos, e ajudou a equipe italiana a se classificar para as quartas de final. No entanto, o time foi eliminado para o forte – e futuro campeão – Manchester United-ING após derrota por 2 a 0 na Inglaterra e empate em 1 a 1 na Itália. Naqueles duelos, Zanetti enfrentou Ryan Giggs, uma das estrelas dos Red Devils, que encheu o argentino de elogios alguns anos depois.

 

“Eu enfrentei o Zanetti pela primeira vez nas quartas de final da Liga dos Campeões da UEFA de 1999. Ele era lateral-direito e eu jogava pela esquerda, ou seja, ele foi meu oponente naqueles jogos. Fiquei impressionado pelas suas qualidades, velocidade, força, inteligência. Joguei com eles outras vezes e foi meu mais difícil oponente, um jogador completo.”Ryan Giggs, em entrevista ao SkySports, 27 de março de 2012.

 

Era, realmente, um fato consumado. Zanetti crescia a cada dia como jogador e demonstrava em campo um comprometimento exemplar. Mais do que isso, era exemplo de educação, lealdade e profissionalismo. Em 1999, foi capitão da Inter pela primeira vez e assumiria de maneira mais assídua a braçadeira após a aposentadoria de Bergomi e a lesão do brasileiro Ronaldo – que foi capitão da equipe em várias ocasiões. Em 2001, o camisa 4 virou capitão em definitivo e não largou mais a liderança do time. O problema é que a Internazionale vivia momentos difíceis, sem títulos e sem conseguir brigar de igual para igual com os rivais. Para piorar, o Milan colecionava taças e deixava a torcida nerazzurri bastante injuriada.

Em 2002, disputando um amistoso contra a Alemanha de Ballack (à dir.).

 

A Argentina de 2002 – Em pé: Juan Pablo Sorín, Pablo Cavallero, Mauricio Pochettino, José Chamot e Walter Samuel. Agachados: Claudio López, Matias Almeyda, Gabriel Batistuta, Javier Zanetti, Pablo Aimar e Ariel Ortega.

 

Além de amargar um incômodo jejum com seu clube, Zanetti ainda esteve presente na precoce eliminação da Argentina na Copa do Mundo de 2002, quando o time caiu na primeira fase após vitória sobre a Nigéria (1 a 0), derrota para a Inglaterra (1 a 0) e empate contra a Suécia (1 a 1). Aquele seria o último Mundial do craque. Por mais que ele disputasse diversos jogos em 2003, 2004 e 2005, ele acabou de fora da convocação de 2006 do técnico José Pekerman por motivos pessoais do treinador, segundo o próprio Zanetti. Além dele, Samuel e Verón também não foram convocados, ausências bastante contestadas na época e que custaram caro ao time argentino, eliminado pela Alemanha nas quartas de final.

 

“Gostaria que o Pekerman tivesse me informado antes para que eu não alimentasse ilusões, e sinto que ninguém tenha me dito nada que eu estivesse fazendo mal. Ele não me deu nenhum motivo específico, simplesmente disse que eu não ia estar na lista.” –  Javier Zanetti, em entrevista publicada na Agência Estado, 12 de maio de 2006.

Realmente não havia motivos para não convocar o craque. Ele vivia grande fase e tinha acabado de levantar uma Copa da Itália pela Inter na temporada 2004-2005, após vitória sobre a Roma na final com dois gols de Adriano em um dos jogos. E, em 2005-2006, o título nacional acabou ficando com a Inter após o escândalo de manipulação de resultados envolvendo a Juventus. Após aquela enorme decepção, apenas a Internazionale poderia dar alegria ao camisa 4. E viriam muitas dali em diante.

 

Taças na era do Imperador

A temporada de 2004-2005 marcou não apenas o fim do jejum de títulos da Inter, mas o início de uma era inesquecível para Zanetti e o torcedor da Inter. Foi a partir daquela época que brilhou com a camisa do clube o brasileiro Adriano, que ganhou o singelo apelido de “Imperador” tamanho seu talento em campo. Com força, velocidade, chutes poderosíssimos e gols, o atacante caiu como uma luva no esquema do técnico Roberto Mancini e foi um dos grandes trunfos do time nerazzurri para brigar de igual para igual com o Milan de Shevchenko. Zanetti desenvolveu uma relação bem próxima com o brasileiro, principalmente após o episódio que ele considera fundamental para a recaída na carreira do craque brasileiro: a morte do pai. Zanetti disse que Adriano, quando recebeu a ligação de que seu pai havia falecido, em 2004, “bateu o telefone e começou a gritar de um jeito que ninguém poderia imaginar”. A partir daquele dia, o argentino e o presidente da Inter, Massimo Moratti, começaram a tratar Adriano como um irmão mais novo. Ele continuou a jogar futebol, fazer gols e dedicá-los a seu pai apontando para o céu. Mas, depois daquele telefonema, nada foi como era antes”, disse Zanetti, que considera não ter conseguido tirar Adriano da depressão como a “maior derrota da carreira”. O brasileiro, após 2006, jamais repetiria as atuações que encantaram o mundo entre 2003 e 2005. Ele deixou a Inter em 2008, voltou no mesmo ano e deixaria Milão em definitivo em 2009.

A Inter foi bicampeã da Copa da Itália em 2005-2006 e venceu de maneira incontestável o Scudetto de 2006-2007, com apenas uma derrota em 38 jogos – o primeiro, conquistado no campo, desde 1989. Nas duas temporadas seguintes, o capitão disputou simplesmente todos os jogos da Inter nas campanhas dos títulos nacionais e foi um dos principais nomes do time, que crescia mais e mais em campo. Com a chegada do lateral brasileiro Maicon, o argentino passou a jogar frequentemente no meio de campo com a mesma categoria, além de atuar na lateral-esquerda. Técnico e com um vigor físico impressionante, ele era há anos um dos melhores defensores do mundo. E um raro caso de atleta que não se machucava – ele sofreria a primeira lesão séria na carreira com quase 40 anos! Mas foi com a chegada de José Mourinho, em 2008, que Zanetti iria ver sua Inter não só aumentar a hegemonia na Itália como expandi-la para o continente. Era hora de buscar uma taça que não aparecia pelas bandas nerazzurris há mais de 40 anos: a Liga dos Campeões da UEFA.

 

Anos de ouro e adeus à seleção

Entre 2008 e 2010, Zanetti viveu momentos inesquecíveis pela Inter. Com um timaço, o escrete italiano emendou mais dois títulos italianos, Zanetti começou a quebrar recordes de aparições pela equipe na Serie A (em 2009, passou Facchetti com mais de 476 jogos pela elite do futebol italiano), ajudou a Inter a destroçar o Milan com um 4 a 0 no clássico disputado em agosto de 2009 pelo Italiano, e participou de 37 dos 38 jogos da campanha do título nacional de 2009-2010, uma temporada que ficou marcada pela conquista do inédito Treble pela equipe de Milão. Além do Scudetto, a Nerazzurri venceu a Copa da Itália (vitória por 1 a 0 sobre a Roma na final) e a sonhada Liga dos Campeões da UEFA.

Zanetti, Messi e Cambiasso no duelo da volta das semis de 2010.

 

No caminho continental, Zanetti disputou todos os 13 jogos, mas três foram especiais. Os dois primeiros, sem dúvida, nas semifinais contra o poderosíssimo Barcelona de Guardiola. No duelo da ida, em Milão, o time da casa venceu com autoridade os campeões europeus por 3 a 1, com uma atuação de gala de Zanetti, que conseguiu, ao lado do compatriota Cambiasso, parar Messi e companhia. Entre os muitos lances do craque, um se destacou:

Viu? O poder de leitura do jogo e das ações dos rivais que Zanetti demonstrava era simplesmente irretocável. E isso com quase 37 anos na época – sim, caro leitor (a), Javier Zanetti já tinha quase 37 anos em 2010 e jogava como se tivesse 25 e sem sofrer uma única lesão na carreira! Na partida de volta, a Inter perdeu por apenas 1 a 0 no Camp Nou e conseguiu a vaga na final, contra o Bayern-ALE, em Madrid. Em um Santiago Bernabéu repleto de gente, Zanetti atuou no meio de campo para a terceira partida marcante dele naquela competição. Na verdade, a mais importante de sua carreira vestindo a camisa da Internazionale. Era dia de repetir o gesto de Facchetti. De levantar um troféu que teimava em fugir há mais de quatro décadas. E dia de disputar o jogo de número 700 pela equipe nerazzurri. Com todo esse simbolismo, é claro que a Inter foi campeã: vitória por 2 a 0, dois gols de Diego Milito, resultado que deu o tricampeonato europeu ao clube de Milão. Zanetti, o capitão dos sonhos do torcedor, pôde, enfim, erguer o troféu que ele tanto merecia. Um prêmio à dedicação, lealdade e talento com um manto que tanto lhe vestia bem.

Mas se por um lado ele vivia a melhor fase da carreira com a Inter, por outro ele teve uma nova decepção pela seleção argentina. Mesmo tendo participado de 16 dos 18 jogos da albiceleste nas Eliminatórias para a Copa de 2010 e não tendo um único jogador à sua altura em sua posição, o técnico Diego Maradona deixou Zanetti de fora da lista, assim como Cambiasso. O titular da equipe no Mundial, acredite, foi Jonás Gutiérrez… Sem Zanetti, sem Cambiasso e sem Riquelme – que também foi deixado de lado por Dieguito – a Argentina foi enganando muita gente com vitórias até as quartas de final, quando levou uma sonora sapecada de 4 a 0 da Alemanha e voltou para casa. Castigo pela teimosia em deixar de fora um jogador que dispensava comentários. Ao contrário de 2006, Zanetti não sentiu tanto a ausência por causa dos altos e baixos da seleção antes do Mundial e por se sentir de fora muito por causa da reta final das Eliminatórias, quando a Argentina perdeu para o Brasil e o Paraguai.

“Esta não dói mais do que aquela porque eu já sabia que não jogaria o Mundial. Quando já não fui convocado depois das partidas contra Brasil e Paraguai, terminei de me convencer. As coisas não estavam claras. Os momentos da seleção foram difíceis para todos pelos resultados e rendimentos. Nas Eliminatórias, a luta era contra muitos altos e baixos. O futebol tem momentos, e depois de Brasil e Paraguai foi tudo colocado em dúvida. Por isso, faz tempo que me sentia fora da seleção.”Javier Zanetti, em entrevista ao La Nación (ARG) reproduzida no UOL Esporte, 18 de maio de 2010.

 

O craque voltaria à seleção para mais dois amistosos após o Mundial. Em 2011, jogou a Copa América, mais alguns amistosos e se despediu da albiceleste como recordista de jogos pela equipe – 142 partidas – e incríveis 12.127 minutos em campo pela Argentina. Uma pena que ele, assim como vários outros craques de sua geração, não conseguiu uma única taça pela seleção.

Ainda em 2010, Zanetti disputou o Mundial de Clubes da FIFA, marcou gol na semifinal e levantou o troféu de campeão do mundo pela Internazionale ao derrotar o surpreendente Mazembe na decisão. Na temporada 2010-2011, o capitão levantou sua última taça pela equipe: a Copa da Itália, após triunfo por 3 a 1 sobre o Palermo. A partir dali, os tempos de glórias dariam lugar à seca. E algo que ele desconhecia iria surgir: uma inédita lesão.

 

Ufa, ele é humano!

Zanetti completou 38 anos em 2011. E, como se fosse simpatizante dos 30, disputou mais de 30 jogos na Serie A pela Internazionale. No período, enquanto jovens se lesionavam ou ficavam semanas – e meses – sem jogar, Zanetti estava lá, firme, correndo mais de 80 metros em um clássico contra o Milan, por exemplo, como se estivesse numa pelada de fim de semana. O argentino simplesmente não envelhecia! Não se machucava! Rumores já diziam que ele iria jogar até os 50 anos. Ou que nem humano ele era. Foi então que, na temporada 2013-2014, veio o alívio para quem suspeitava de uma aura de outra galáxia dentro do capitão: ele sofreu uma ruptura no tendão de Aquiles do pé esquerdo em um duelo contra o Palermo, em abril de 2013, e teve que parar por seis meses. Foi a primeira lesão da carreira do jogador, justamente prestes a completar 40 anos de idade. Muitos duvidaram que ele sequer voltaria, mas, no dia 09 de novembro daquele mesmo ano, Zanetti entrou em um jogo contra o Livorno e fez a jogada do segundo gol da Inter, de Nagatomo, já nos acréscimos. Na comemoração, todos foram de encontro ao capitão, simplesmente apaixonado pela Inter e pronto para mais alguns momentos pelo clube.

 

O adeus a uma lenda

Foto: EPA.

 

Zanetti disputou apenas 12 jogos da Serie A na temporada de sua lesão, e decidiu pendurar as chuteiras em 2014. Sua despedida da torcida no Giuseppe Meazza aconteceu no dia 10 de maio, contra a Lazio. O craque entrou no segundo tempo com os dizeres “Zanetti 4 ever” na braçadeira de capitão. Ovacionado, o argentino era aplaudido a cada jogada que participava.  Perto do final do jogo, a sensação no estádio era de tristeza. Silêncio. Quietude que só era quebrada quando alguém passava a bola para ele. Vinham os aplausos. Um torcedor em prantos até invadiu o gramado para abraçar pela última vez o capitão que ele tanto idolatrou por 19 anos. No placar, a contagem não poderia ser mais perfeita: Inter 4×1 Lazio. Ao apito do árbitro, todos cumprimentaram Zanetti. A torcida deu adeus a sua lenda viva, ao seu líder. Os jogadores da Inter foram aos vestiários e voltaram vestindo jaquetas com o número 4, para ouvir o capitão falar pela última vez. Emocionado e com a voz trêmula, ele não conseguiu fazer um longo discurso. Agradeceu a todos, à família, à torcida, foi jogado aos céus pelos companheiros e desceu pela última vez aos vestiários com sua camisa 4. Nunca mais ela seria utilizada. A Internazionale, em reconhecimento pleno, aposentou a maglia nerazzurri do capitão, como fizera com a 3 de Facchetti. Era a despedida do estrangeiro que mais jogou na história do Campeonato Italiano, ao recordista em jogos pela Inter na história e ao personagem de momentos inesquecíveis do clube por quase 20 anos.

Após pendurar as chuteiras, Zanetti seguiu na Inter e virou vice-presidente do clube, mostrando ter uma ligação de sangue com o time que o acolheu ainda jovem e teve toda a paciência para lapidá-lo e transformá-lo em um dos mais completos laterais da história do futebol. Além disso, o argentino passou a dedicar mais tempo à família e à filantropia. Ele se tornou embaixador da SOS Children’s Village (conhecida como Aldeias Infantis SOS), instituição filantrópica de atendimento a crianças, na Argentina, e criou a Fundação Pupi, que atende crianças carentes em Remedios de Escalada, também na Argentina. Por ter vivido uma infância bem simples, ele encontrou nessas instituições o caminho para tentar dar suporte e apoio aos necessitados. Uma atitude magnífica de um personagem único do futebol, dono de números impressionantes e exemplo de profissionalismo e liderança que superou a barreira do tempo. Um craque imortal.

 

Números de destaque:

Disputou 858 jogos e marcou 21 gols pela Internazionale.

Leia mais sobre a Internazionale 2008-2010 clicando aqui.

 

Extras:

Veja o adeus de Zanetti.

 

Veja a tal da corrida de 80 metros do veterano capitão contra o Milan. Ele estava perto dos 40 anos…

 

Veja grandes momentos do craque.

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