Esquadrão Imortal – Real Madrid 2013-2018

Uma das escalações daquele timaço. Em pé: Navas, Sergio Ramos, Varane, Kroos, Benzema e Cristiano Ronaldo. Agachados: Bale, Marcelo, Isco, Carvajal e Modric.

 

Grandes feitos: Tricampeão do Mundial de Clubes da FIFA (2014, 2016 e 2017), Tetracampeão da Liga dos Campeões da UEFA (2013-2014, 2015-2016, 2016-2017 e 2017-2018), Tricampeão da Supercopa da UEFA (2014, 2016 e 2017), Campeão do Campeonato Espanhol (2016-2017), Campeão da Copa do Rei (2013-2014) e Campeão da Supercopa da Espanha (2017).

Encerrou um jejum de 12 anos sem títulos na Liga dos Campeões, foi o primeiro time depois de 42 anos a conquistar um tricampeonato consecutivo da Liga dos Campeões da UEFA e fez do Real o primeiro clube hexacampeão mundial de futebol.

 

Time-base: Navas (Casillas / Diego López); Carvajal (Nacho / Danilo), Sergio Ramos, Varane (Pepe) e Marcelo (Fábio Coentrão); Casemiro (Xabi Alonso / Khedira / James Rodríguez); Modric (Kovacic) e Kroos (Di María); Bale (Isco / Lucas Vázquez), Benzema (Asensio / Morata) e Cristiano Ronaldo. Técnicos: Carlo Ancelotti (2013-2015), Rafa Benítez (2015-2016) e Zinedine Zidane (2016-2018).

 

“A Dinastia Merengue”

 

Maio de 1976. Fim de jogo em Glasgow. Com uma vitória por 1 a 0 sobre o Saint-Étienne-FRA, o Bayern München-ALE conquista o tricampeonato consecutivo da então Copa dos Campeões da Europa. Era o segundo clube naquela década a fazer a trinca na principal competição de clubes do continente. O primeiro havia sido o Ajax-HOL de Cruyff e companhia. Os anos se passaram, tivemos dois clubes bicampeões – Liverpool-ING, em 1976-1977 e 1977-1978, e Nottingham Forest-ING, em 1978-1979 e 1979-1980, mas nenhum tri. Chega o ano de 1990. Um estupendo Milan-ITA sacramenta o bicampeonato europeu de 1988-1989 e 1989-1990. Todos acreditavam no tri em 1991. Mas não veio. Aliás, não viria nem um bi nos anos seguintes. Ou melhor, décadas. A Copa dos Campeões virou Liga dos Campeões da UEFA, a maior competição de clubes do planeta. Passou a ser ainda mais cobiçada. Com clubes cada vez mais endinheirados, vencê-la passou a ser algo para poucos. A cada ano, um clube diferente levantava a Velhinha Orelhuda. Nenhum conseguia levantá-la por duas vezes seguidas. Alguns até disputaram finais seguidas, mas vencer já era outra história. No final da primeira década do novo milênio, muitos pensaram que o Barcelona de Guardiola iria conseguir quebrar a escrita. Mas ele encontrou uma Internazionale no meio do caminho. Venceu em 2009 e 2011. Caiu na semi de 2010. Até que, em 2017, 27 incríveis anos depois, o improvável aconteceu. Um clube, enfim, foi bicampeão. A façanha do Milan de Rijkaard, Gullit, Van Basten, Maldini e Baresi era igualada. No ano seguinte, o mesmo clube alcança sua terceira final seguida. E a vence, contra todos os prognósticos. Foi o tri. Consecutivo. 42 anos depois do último tri, do Bayern de Beckenbauer. Mas qual clube conseguiu quebrar dois tabus de uma vez? Oras, o único com força e camisa suficientes para tal. O predestinado. O que mais ama a Liga dos Campeões da UEFA. O que venceu 13 das 16 finais (!) que disputou. O que engoliu a seco 12 anos de jejum para iniciar uma dinastia: o Real Madrid, dono de todos os ingredientes necessários para escrever mais uma história lendária em sua enciclopédia: eficiência que beirava o absurdo. (Muita) Sorte. Um time extremamente competitivo. Jogadores clínicos em seus auges. Um técnico experiente (Carlo Ancelotti) e outro com estrela e muito conhecimento de causa (Zidane). E um craque fora de série, uma verdadeira máquina de fazer golos (Cristiano Ronaldo). Foram cinco anos de glórias. Cinco anos de títulos empilhados. Cinco anos de adversários derrotados sem dó, até mesmo em suas próprias casas. Gerações destroçadas. Quando parecia que iriam cair, levantavam. Quando parecia que seriam eliminados, conseguiam um gol no finalzinho. Eles foram cruéis. E chegaram a um patamar invejável: o de maior clube do mundo, de fato. Maior campeão mundial. Maior campeão europeu. Maior campeão de torneios internacionais. Enfim, o maior. É hora de relembrar.

 

Hora de mudar o protagonismo

Cena comum no começo da década de 2010: catalães comemorando, madrilenos cabisbaixos. Foto: EFE.

 

Quando contratou o técnico José Mourinho, em maio de 2010, o Real Madrid tinha um objetivo único: reconquistar a Europa. Desde 2002 sem levantar a mais cobiçada taça do continente, o clube merengue tinha certeza que iria acabar com o jejum pelo fato de o treinador português vir de trabalhos marcantes no Porto – campeão europeu em 2004 – e na Internazionale – campeã exatamente em 2010. O problema é que naquela época quem reinava no futebol mundial era o Barcelona. E Lionel Messi. Durante o período em que esteve em Madrid, Mourinho levantou títulos, teve um aproveitamento superior a 70%, mas o Real levou surras históricas do time catalão. Pior: foi eliminado pelo Barça nas semifinais da Liga dos Campeões de 2010-2011 com derrota em pleno Santiago Bernabéu em um dos jogos. Mesmo com a contratação do astro português Cristiano Ronaldo em 2009, era difícil bater o timaço de Guardiola. E, para deixar o torcedor ainda mais ressabiado, o Atlético de Madrid começava a construir um esquadrão copeiro e já havia faturado duas Ligas Europa, em 2010 e 2012. Por que raios o Real, com seus milhões, seus astros e suas contratações não conseguia levantar um título continental? Porque faltava um padrão de jogo. Equilíbrio. Consistência. Força psicológica (o time quase sempre perdia a cabeça nos duelos contra o Barça). E confiança.

Para sanar esses problemas, a diretoria foi buscar o técnico Carlo Ancelotti para assumir o comando da equipe. O italiano era um especialista em Liga dos Campeões tanto como jogador como treinador – venceu quatro títulos, dois como jogador do Milan e dois com treinador do rossonero, em 2003 e 2007. Junto a ele, uma lenda do futebol ajudaria no dia-a-dia como auxiliar técnico: Zinedine Zidane, campeão da última Liga dos Campeões conquistada pelos merengues, em 2002. Ele já participava dos afazeres e rotinas do clube desde 2010 como diretor esportivo e mostrava o mesmo conhecimento que tinha com a bola nos pés também no tato com os jogadores e garimpo de promessas para o elenco – ele foi fundamental na vinda do jovem zagueiro Varane, em 2011. Além dessa mudança diretiva, o clube foi às compras, claro. Chegaram na temporada 2013-2014 os espanhóis Carvajal (ex-Bayer Leverkusen-ALE) e Isco (ex-Málaga), o brasileiro Casemiro (ex-São Paulo), e o galês Gareth Bale (ex-Tottenham Hotspur-ING). Eles se juntaram a outros bons nomes que chegaram na temporada anterior como Morata e Nacho (ambos crias das bases) e o croata Luka Modric (ex-Tottenham Hotspur). Enfim, o Real tinha um grande elenco. E o Barcelona já não tinha mais Guardiola. O time do momento na época era o Bayern München. E Cristiano Ronaldo vinha crescendo de produção a cada dia.

Sabendo de tudo isso, Ancelotti começou seu trabalho construindo o time num 4-3-3, para aproveitar as qualidades do novo trio de ataque que ele teria à disposição, com Bale, Benzema e Cristiano, que seria conhecido como “La BBC”. No meio de campo, ele poderia ter consistência defensiva com Xabi Alonso e poder de criação com Di María e Modric, além da juventude de Isco e o dinamismo de Khedira. Na zaga, Pepe e Sergio Ramos eram os titulares, embora Varane merecesse a vaga no lugar do português. E, nas laterais, Coentrão e Marcelo se revezariam em várias ocasiões na esquerda, com Carvajal titular quase que absoluto na direita. No gol, Casillas seria o camisa 1 na Liga dos Campeões e na Copa do Rei. No Campeonato Espanhol, Ancelotti acabaria optando por Diego López, que vinha jogando desde a última temporada com Mourinho no comando. Pronto. Time formado. Era hora de tentar retomar o trono perdido há 12 anos atrás.

 

Máquina de gols

Foto: Marca.

 

Após uma ótima pré-temporada com nove vitórias e um empate em dez jogos, o Real Madrid começou sua jornada mostrando um poder ofensivo tão bom quanto o das anteriores. Com Cristiano Ronaldo muito bem assessorado por Bale e Benzema, o trio rapidamente se entendeu e ajudou a equipe a permanecer entre os primeiros da tabela do Campeonato Espanhol. Os únicos “poréns” foram as derrotas para o Atlético de Madrid (1 a 0, em casa) e para o Barcelona (2 a 1, fora), justamente os times que iriam terminar o torneio à frente dos merengues. O Real até assumiu a liderança entre a 25ª e 28ª rodadas, mas o revés por 4 a 3 para o Barça em pleno Santiago Bernabéu custou o título. O time de Ancelotti terminou na 3ª posição com 87 pontos, três a menos do que o campeão Atlético, mas foi o que mais balançou as redes (104 gols) e viu Cristiano Ronaldo assumir a artilharia do torneio com 31 tentos. Mesmo sem a taça, a torcida viu grandes espetáculos ao longo do torneio que comprovaram a eficiência de uma das marcas daquele time: o poder ofensivo de La BBC. Dificilmente a linha de frente daquele esquadrão perdia gols. Só no Campeonato Espanhol, Cristiano, Bale e Benzema anotaram juntos 63 gols – 31 do português, 15 do galês e 17 do francês. Sabe o Sevilla, tricampeão da Liga Europa e um dos times mais competitivos daquela época? Levou de 7 a 3 do Real na 11ª rodada, com três de Cristiano, dois de Bale e dois de Benzema. A equipe ainda bateu o Valencia em pleno Mestalla por 3 a 2, fez 5 a 0 no Betis fora de casa, sem contar os nove jogos nos quais marcou quatro gols ou mais. Mas os merengues não iriam passar uma temporada sem levantar uma taça nacional…

 

Hora do (s) troco (s)

Foto: Gonzalo Arroyo Moreno.

 

Na Copa do Rei, o Real Madrid construiu seu caminho até a decisão de maneira incontestável e com um fator predominante: sem levar gols. Na primeira fase, despachou o Olímpic de Xàtiva (0 a 0 e 2 a 0) e eliminou o Osasuna com duas vitórias por 2 a 0 nas oitavas. Nas quartas, dois triunfos por 1 a 0 sobre o Espanyol até chegar à semifinal. Nela, os madrilenos tiveram pela frente o rival Atlético. E, no duelo de ida, em casa, a equipe merengue goleou os colchoneros por 3 a 0. Na volta, no Vicente Calderón, Cristiano Ronaldo marcou de pênalti os dois gols da vitória por 2 a 0 que colocou o Real na decisão e serviu como sutil vingança pelo revés em La Liga.

Na grande final, disputada no dia 16 de abril de 2014, o rival Barcelona pela frente. E um problema: Cristiano, com uma lesão no tendão esquerdo e dores musculares, não iria jogar. Com muitos jogos na temporada e jogando em alto nível, o craque acabou sentindo naquela reta final e teve que ser poupado para que algo relativamente simples não virasse um grande problema. Sem o português, Ancelotti escalou Di María, Benzema e Bale na linha de frente, com o meio de campo formado por Xabi Alonso na contenção e Modric e Isco responsáveis pela criação. Atrás, ele ainda não dava chances para o jovem Varane e preferiu Pepe ao lado de Sergio Ramos na zaga, com Carvajal e Coentrão nas laterais. Já o Barça ia quase com força máxima (Xavi, Iniesta, Messi e Fàbregas na linha de frente), com ausências apenas na zaga – Bartra e Mascherano assumiram as posições de Puyol e Piqué.

Com apenas um título na temporada – a Supercopa da Espanha – o Barça queria a taça. Ainda mais jogando contra o maior rival. Mas o Real Madrid fez daquela decisão um divisor de águas. Ou seria de taças? Ele queria mostrar para os catalães quem é que iria dar as cartas a partir dali. Di María, aos 11’, abriu o placar. Na segunda etapa, o zagueiro Bartra empatou e, num duelo tenso, disputado e corrido, todos pensaram que a final iria para a prorrogação. Bem, iria. Faltando cinco minutos para o fim, a zaga madrilena rebateu um ataque catalão e a bola sobrou na esquerda. Coentrão dominou e lançou Bale. O atacante viu Bartra à sua frente e decidiu ganhar na corrida do rival. Acontece que era final de jogo, todos estavam cansados… Disputar uma corrida àquela altura? Sim. O galês ainda tinha fôlego. Muito fôlego! Ele tocou forte para frente, recebeu um encontrão de Bartra, saiu pela linha lateral e correu 59 metros em apenas 7,2 segundos a uma velocidade de 27 km/h! Com poucos e impressionantes toques na bola, Bale fuzilou o goleiro blaugrana e fez um dos gols mais gritados pelos madrilenos na história. Um golaço, que deu ao Real o título da Copa do Rei. A façanha de Bale correu (literalmente!) o mundo. “Foi incrível, eu nunca tinha visto uma coisa dessa antes”, disse Xabi Alonso à BBC (a emissora britânica, ok?) após o jogo. Até o técnico do Barça, Tata Martino, comentou: “É difícil ver um jogador dar um sprint como aquele em um momento final de jogo”.

Veja o gol:

O triunfo provou a força daquele Real. Não era um time que se preocupava com a posse de bola, domínio. Era clínico. Cirúrgico. Resolvia as coisas sem precisar de muito. A taça veio de maneira invicta e seria a primeira das duas que o time iria levantar naquela temporada. Peraí, qual é a outra? Você vai descobrir a partir de agora…

 

Por La Décima

No grupo B da Liga dos Campeões da UEFA, o Real Madrid não encontrou dificuldades para trucidar seus rivais. Logo na estreia, fez 6 a 1 no Galatasaray-TUR, com três gols de Cristiano Ronaldo, dois de Benzema e um de Isco. Em seguida, fez 4 a 0 no Copenhagen-DIN, em casa, com mais dois de Cristiano. E, para fechar, um 2 a 1 na eterna rival europeia Juventus-ITA, com mais dois de Cristiano. No returno, empate em 2 a 2 com os italianos, fora, goleada de 4 a 1 nos turcos, em casa, e vitória por 2 a 0 sobre os dinamarqueses, fora. Com 16 pontos (o segundo colocado terminou com sete…), cinco vitórias, um empate, 20 gols marcados e cinco sofridos, o Real foi para as oitavas de final encarar o Schalke 04-ALE. E, no primeiro duelo, na Alemanha… Deu dó. O primeiro tempo até que foi mais equilibrado e o Real fez só 2 a 0 (Benzema e Bale). Mas, no segundo, Benzema fez mais um. Bale também. Faltou alguém? Cristiano, claro. Ele fez dois… Huntelaar ainda fez o gol de honra dos anfitriões nos acréscimos, mas terminou 6 a 1 para o Real. Ou melhor: BBC 6×1 Schalke 04. Era impressionante a quantidade de gols que aquele trio fazia! Na volta, em casa, Cristiano fez dois, Morata fez um, e o Real venceu por 3 a 1. Placar agregado: 9 a 2.

Nas quartas de final, um interessante tira-teima: o Borussia Dortmund-ALE, vice-campeão na temporada anterior e que havia eliminado o Real nas semifinais daquela ocasião com um histórico 4 a 1 em um dos jogos – com quatro gols de Lewandowski. Os merengues queriam a vingança. E a tiveram. Na ida, em Madrid, Isco, Bale e Cristiano Ronaldo fizeram os gols da vitória por 3 a 0. Era uma vantagem enorme para a volta, no temido Westfalenstadion. Cristiano Ronaldo acabou poupado por causa dos problemas musculares que vinha sofrendo e o time temeu pelo pior quando Reus anotou 2 a 0 para os alemães ainda no primeiro tempo. Na segunda etapa, chances para ambos os lados, gols incríveis perdidos e o placar acabou assim mesmo. Melhor para o Real, que despachou o algoz e se classificou para a semifinal. Mas não tinha moleza. Outro titã vinha no caminho: o campeão Bayern, a Bestia Negra dos espanhóis. E comandado por Pep Guardiola…

 

Simplesmente histórico!

“No puedo escucharlos!” Foto: Icon Sport.

 

Enfrentar o Bayern em Liga dos Campeões sempre era complicado para o Real. Péssimas lembranças vinham na cabeça: eliminações recentes, dificuldades em solo inimigo – eles nunca haviam vencido em Munique (eram nove derrotas e um empate em dez jogos). E, para piorar, o Bayern aliava um grande time com o treinador que mais sabia como vencer o Real Madrid nos últimos anos. É, realmente, parecia o fim da linha para os merengues. No primeiro jogo, em Madrid, Benzema fez o único gol da magra vitória por 1 a 0. Poderia ter sido mais, o time criou bastante, mas parou na retaguarda alemã. Era hora da volta. Em Munique. O território hostil onde nunca o Real havia derrotado o Bayern. Quase ninguém apostava nos merengues. Mesmo com o trio BBC em campo. Mas o Real tinha um importante antídoto: Carlo Ancelotti. O italiano nunca havia perdido para o Bayern. Colecionava seis vitórias e dois empates. Vencera três das quatro partidas em Munique. Sabia muito bem como superar aquele adversário. Ele recobrou as lembranças de seus grandes esquadrões do Milan, incorporou em seu escrete vestido de branco e o Real Madrid apresentou naquela noite um espetáculo. Chances e mais chances. Futebol imponente. Maturidade. Logo aos 16’, Modric cobrou escanteio na cabeça de Sergio Ramos, que subiu e mandou um foguete no gol de Neuer. Apenas quatro minutos depois, Di María cobrou uma falta na área e outra vez Sergio Ramos apareceu e mandou de cabeça pro gol: 2 a 0.

Aos 34’, contra-ataque com assinatura BBC. Benzema recebeu na direita e tocou no meio para Bale, que saiu em velocidade por entre dois rivais, chegou à meia-lua da grande área e tocou na esquerda para Cristiano Ronaldo, que só teve o trabalho de chutar por entre as pernas de Neuer: 3 a 0. Na comemoração, o português brincou com as mãos cheias e fez o número 15. De 15 gols naquela Liga dos Campeões da UEFA, um novo recorde na história da competição e que superava os 14 gols anotados por Messi, em 2011-2012, e José Altafini, em 1962-1963. E ainda tinha mais. No segundo tempo, aos 45’, com o jogo já definido, o Real teve uma falta a seu favor na entrada da área. Na cobrança, Cristiano Ronaldo bateu por baixo da barreira (Ronaldinho aprovou), chegou aos 16 gols e fechou a goleada histórica: 4 a 0. Que time no planeta tinha força para fazer aquilo em cima do Bayern na Allianz Arena? Só um time do tamanho do Real Madrid. Depois de 12 anos, o clube espanhol estava na final da Liga dos Campeões da UEFA. La Décima era possível.

 

A taça num jogo eterno

Lisboa foi a capital do futebol europeu em 2014. Em um Estádio da Luz lotado, o Real Madrid teve pela frente o rival Atlético de Madrid. Do lado merengue, a luta pela décima taça. Do lado colchonero, o troféu que faltava na coleção e que iria consagrar de vez o esquadrão de Diego Simeone. O jogo foi simplesmente épico. Com chances para todos os lados, estrela rival saindo precocemente por lesão (Diego Costa), time com a mão na taça até os minutos finais (Atlético) e gol de empate merengue no finalzinho que forçou a prorrogação. Nela, um Real mais inteiro goleou um Atlético cansado de tantas batalhas naquela temporada. Resultado: 4 a 1. E La Décima na galeria. Foi um jogo que rendeu um capítulo à parte aqui no Imortais. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Após 12 anos, o Real era campeão da Europa. Cristiano Ronaldo, autor do gol do título, de pênalti, entrou de vez para a história como maior artilheiro em uma só edição de Liga dos Campeões na história (17 gols) e primeiro jogador a marcar gols em finais por dois clubes campeões diferentes (o primeiro pelo qual ele atuou foi o Manchester United, em 2008). A campanha do Real foi incontestável: 13 jogos, 11 vitórias, um empate, uma derrota, 41 gols marcados (3,15 gols por jogo!) e 10 sofridos. La BBC marcou 97 gols dos 160 que o Real fez na temporada. Cristiano Ronaldo anotou 51, Benzema, 24, e Bale, 22. Após mais de uma década, enfim, o rei estava de volta. E com (muito) apetite.

 

Reis do mundo

Florentino Pérez e Toni Kroos, reforço madrileno para a temporada 2014-2015. Foto: AFP / Getty.

 

Na temporada 2014-2015, o Real levou Zidane para comandar o time B do clube, conhecido como Castilla, e Fernando Hierro assumiu a função de braço direito de Carlo Ancelotti. Após a Copa do Mundo de 2014, o clube tratou de ir às compras e incorporou alguns dos destaques do Mundial do Brasil: o goleiro costarriquenho Keylor Navas, o colombiano James Rodríguez e o alemão Toni Kroos, este sem dúvidas uma das maiores e mais certeiras aquisições do clube em anos. Por outro lado, Xabi Alonso, Morata, Di María e Diego López foram negociados, e o brasileiro Casemiro acabou emprestado ao Porto-POR. Ao contrário da temporada anterior, o Real foi um desastre nos jogos preparatórios e não venceu nenhum – em quatro jogos, foram três derrotas e um empate. Esse início tenebroso só foi amenizado na final da Supercopa da UEFA, quando o time venceu o título ao derrotar o Sevilla por 2 a 0 em Cardiff (WAL), com dois gols de Cristiano Ronaldo e o primeiro esboço do que viria a ser o time naquela temporada, com James na criação e Kroos e Modric mais recuados no meio de campo.

Dias depois, o time disputou a final da Supercopa da Espanha e acabou com o vice após empatar em 1 a 1 em casa e perder por 1 a 0 fora para o Atlético de Madrid. O revés se somou aos outros dois que o time sofreu nas primeiras rodadas do Campeonato Espanhol, mas tudo mudou a partir do dia 20 de setembro de 2014, quando os merengues trucidaram o Deportivo La Coruña em pleno Riazor por 8 a 2, com três gols de Cristiano Ronaldo, dois de Bale, dois de Javier Hernández e um de James Rodríguez. Foram 12 vitórias consecutivas em La Liga, incluindo um triunfo de 3 a 1 sobre o Barcelona, de virada, resultados que colocaram o Real na liderança da competição. Em dezembro, o time viajou até o Marrocos para a disputa do Mundial de Clubes da FIFA e faturou pela primeira vez o torneio nesse formato – a equipe só tinha vencido na época de jogos de ida e volta (em 1960) e em jogo único (1998 e 2002). Na semifinal, os espanhóis golearam o Cruz Azul-MEX por 4 a 0 (gols de Ramos, Benzema, Bale e Isco) e derrotaram o San Lorenzo-ARG na final por 2 a 0 (gols de Ramos e Bale). A vitória do título significou, também, a 22ª vitória seguida do Real naquela temporada – somando as seis vitórias na fase de grupos da Liga dos Campeões, um recorde do clube. Falando em Liga, a equipe se tornou um dos cinco clubes na história a vencer todos os seis jogos que disputou em uma fase de grupos da competição. Os merengues venceram o Basel-SUI (5 a 1 e 1 a 0), o Liverpool-ING (3 a 0 e 1 a 0) e o Ludogorets-BUL (2 a 1 e 4 a 0).

 

Tropeços inexplicáveis e a queda de Ancelotti

Zidane e Ancelotti: haveria mudança em breve no clube merengue…

 

Mesmo com instinto predatório e marcando gols e mais gols na temporada, o Real teve uma reta final muito aquém da esperada. Em janeiro, o time perdeu a sequência de vitórias com o revés diante do Valencia, no Mestalla, por 2 a 1, pela 17ª rodada do Campeonato Espanhol. Dias depois, a equipe foi eliminada da Copa do Rei precocemente – nas oitavas de final – pelo rival Atlético de Madrid, que venceu o duelo de ida por 2 a 0 (em jogo tenso, com 10 cartões amarelos) e empatou a volta, no Bernabéu (2 a 2). No mês seguinte, James Rodríguez sofreu uma lesão no pé que o tirou dos gramados por dois meses. E, para piorar, a equipe levou uma sapecada de 4 a 0 do Atlético de Madrid no clássico disputado no dia 07 de fevereiro.

Uma semana depois, o time viajou até a Alemanha para enfrentar mais uma vez o Schalke 04 em uma fase de oitavas de final da Liga dos Campeões. Cristiano Ronaldo e Marcelo fizeram os gols da vitória por 2 a 0. Até aí, tudo bem. O problema é que, na volta, o Real foi irreconhecível. Mostrou a mesma fragilidade de partidas passadas. Ancelotti foi soberbo ao não escalar Modric e Marcelo entre os 11 iniciais. O time marcou três gols (dois de Cristiano Ronaldo, que se tornou naquele dia o maior artilheiro da história da Liga dos Campeões com 76 gols em 115 jogos), mas levou quatro dos alemães, foi vaiado, levou sufoco no final e quase foi eliminado. O resultado de 4 a 3 gerou muitas críticas ao momento ruim do time.

No Campeonato Espanhol, o clube vinha de um empate em 1 a 1 com o Villarreal e derrota por 1 a 0 para o Athletic Bilbao que custaram a perda da liderança para o rival Barcelona. No dia 22 de março, o estopim: derrota por 2 a 1 para o time catalão e perda definitiva da liderança. Por mais que a equipe seguisse sem perder até o fim do torneio – foram nove vitórias e um empate nos dez jogos seguintes, incluindo uma goleada incrível de 9 a 1 sobre o Granada com cinco gols de Cristiano Ronaldo, dois de Benzema, um de Bale e um contra, e um triunfo por 3 a 2 contra o Sevilla na casa do rival -, o título ficou mesmo com o Barcelona. Em compensação, o Real teve mais uma vez o melhor ataque – 118 gols em 38 jogos, segundo melhor ataque da história de La Liga, teve o artilheiro (Cristiano Ronaldo, com 48 gols em 35 jogos disputados, 2º maior artilheiro em uma só edição de La Liga na história) e viu ainda o português igualar o recorde de Lionel Messi em 2011-2012 com oito hat-tricks num só campeonato.

Para encerrar uma temporada decepcionante, a equipe eliminou o Atlético de Madrid nas quartas da Liga dos Campeões após empate sem gols fora de casa e triunfo por 1 a 0 em casa, mas caiu nas semifinais para a Juventus-ITA (derrota por 2 a 1 fora e empate em 1 a 1 em casa). Por tudo o que havia demonstrado na temporada anterior e em vários momentos daquela mesma, a torcida não gostou de ver o time sem uma grande taça. E, como não poderia deixar de ser na era Florentino Pérez, a culpa caiu em cima do técnico: Ancelotti foi demitido e deu lugar a Rafa Benítez (ex-Napoli). Uma ação equivocada, afinal, por mais que o time tivesse caído de produção, Ancelotti era muito mais técnico do que Benítez. Enfim… Junto com o espanhol chegaram vários reforços, com destaque para a volta de Casemiro, as compras dos espanhóis Asensio (ex-Mallorca-ESP) e Lucas Vázquez (ex-Espanyol-ESP), do croata Kovacic (ex-Internazionale-ITA) e do brasileiro Danilo (ex-Porto-POR). Deixaram o clube o ídolo Casillas, o lateral Coentrão, os meio-campistas Khedira e Illaramendi e o atacante Javier Hernández. Será que o Real voltaria ao caminho dos títulos?

 

Faz-me rir

Rafa Benítez: tempos para esquecer. Foto: Reuters.

 

Benítez chegou ao Real Madrid com o discurso de que iria promover um “equilíbrio entre ataque e defesa”. Ele tinha um dos melhores elencos do mundo, um time entrosado e jogadores de dar inveja a muito técnico do planeta. Mas o espanhol simplesmente desmantelou tudo. Por mais que tenha transformado Casemiro em um volante essencial para o sistema de jogo do time, que dava proteção à zaga, combate no meio de campo e possibilitava a intensa participação de Modric e Kroos no ataque, ele acumulou muitos problemas. Entrou em atrito com Cristiano Ronaldo e James Rodríguez. Não aproveitou o talento do meia Isco, um dos destaques das últimas temporadas pelo clube. Só conseguiu grandes resultados contra equipes de pequeno porte – isso quando não empatou contra Sporting Gijón, Málaga… E, na hora do vamos ver contra os grandes, teve desempenho pífio. No Espanhol, perdeu para o Sevilla (3 a 2), Villarreal (1 a 0) e levou de 4 a 0 do Barcelona em pleno Santiago Bernabéu. Na Copa do Rei, não checou como deveria a situação de Cheryshev, escalou o russo no primeiro jogo do torneio, contra o Cádiz, e o Real foi eliminado pelo fato de o atleta estar inelegível por causa de uma suspensão ainda dos tempos de Villarreal. Um erro primário, compartilhado com a diretoria, que um treinador como ele jamais poderia cometer.

No dia-a-dia, era visível o semblante de preocupação dos jogadores e uma falta de vontade nos treinamentos. O clima era péssimo e o time não passava nem perto do que fora nas temporadas passadas. Além disso, ludibriou o torcedor com goleadas que não correspondiam à realidade – como por exemplo o 10 a 2 sobre o pobre Rayo Vallecano, com quatro gols de Bale, três de Benzema, dois de Cristiano e um de Danilo, e os 8 a 0 sobre o Malmö-SUE, na fase de grupos da Liga dos Campeões da UEFA. A soma de todos esses fatores provocou, em janeiro de 2016, a demissão de Benítez do clube – para a alegria da torcida e dos jogadores, que realmente não tiveram sintonia alguma com ele. Mas quem será que iria assumir o comando do time faltando ainda meia temporada e o mata-mata da Liga dos Campeões?

 

Chega Zizou

Após a demissão de Benítez, a diretoria merengue surpreendeu ao anunciar ninguém mais ninguém menos que Zinedine Zidane como técnico. Todos foram pegos de surpresa pelo fato de Zizou jamais ter comandado uma equipe principal na carreira, apenas times B. Mas era tudo o que o Real Madrid precisava naquele momento. O francês era querido por todos. Ídolo da torcida. Amigo dos jogadores. Teve papel fundamental na conquista de La Décima como auxiliar de Ancelotti. Sabia do potencial de vários daqueles jogadores e como extraí-los ao máximo. Na recepção do técnico, Sergio Ramos, capitão merengue, disse em nome de todos os atletas: “Nós estamos aqui para ajudá-lo em tudo o que for necessário. Conte com a gente”. Mesmo tido como uma incógnita por parte da imprensa, Zidane tinha confiança até mesmo de Ancelotti, que disse que Zidane tinha “capacidade suficiente para dirigir o Real Madrid, pois foi meu ajudante e conhece a equipe. Eu lhe desejo sorte”. Restava um turno inteiro do Espanhol pela frente e o mata-mata da Liga dos Campeões, após classificação com cinco vitórias (4 a 0 e 4 a 3 no Shakhtar Donetsk-UCR, 2 a 0 e 8 a 0 no Mälmo-SUE e 1 a 0 no PSG-FRA) e um empate (0 a 0 com o PSG-FRA) na fase de grupos. Mal sabiam os merengues que começaria uma nova era a partir daquele mês de janeiro de 2016…

 

Um novo Real

A estreia de Zidane não poderia ser melhor: goleada de 5 a 0 sobre o Deportivo La Coruña, em casa, com três gols de Bale – em ótima fase na época – e dois de Benzema. Foi um jogo que teve a volta de Isco, tão renegado por Benítez. Kroos e Modric construindo jogadas. O tridente de ataque fluindo muito bem. As jogadas pelas laterais fortes como nunca. E troca de passes cadenciada, precisa, objetiva, sem desperdício de tempo. O prejuízo no Campeonato Espanhol era grande àquela altura, mas Zidane faria seu time brigar pela taça o máximo possível. Nos sete jogos seguintes, foram quatro vitórias, dois empates e uma derrota – para o Atlético de Madrid, em casa. Seria a última. Dali em diante, o clube emendou 12 vitórias seguidas e esperou um tropeço do rival Barcelona para alcançar a liderança. Ela não veio (o Real terminou como vice-campeão), mas o time de Zizou visitou os catalães no Camp Nou no dia 02 de abril e venceu por 2 a 1, de virada, com gols de Benzema e Cristiano Ronaldo. Foi uma vitória maiúscula dos merengues, que quebraram uma invencibilidade de 39 jogos dos blaugranas e mostraram um intenso jogo coletivo e muita maturidade. Naquele jogo, Zidane conseguiu o feito de ser o primeiro técnico desde Bernd Schuster, em 2007, a vencer seu primeiro Clásico disputado como treinador merengue. O Real terminou com 110 gols marcados, 28 vitórias, seis empates e apenas quatro derrotas nos 38 jogos que disputou. Cristiano Ronaldo foi vice-artilheiro do torneio com 35 gols. Benzema anotou 24 e Bale, 19.

Mas a grande vedete do treinador era a Liga dos Campeões. O primeiro desafio foi contra a Roma-ITA, nas oitavas, e o time passou sem problemas com duas vitórias por 2 a 0. Nas quartas, um susto contra o surpreendente Wolfsburg-ALE: derrota por 2 a 0 fora de casa, em jogo com pouca inspiração do trio BBC. Mas, na volta, o Real fez valer o fator casa e atropelou os alemães: 3 a 0, com hat-trick de Cristiano Ronaldo e atuação muito segura do Real, que mais uma vez provou sua excelência em aproveitar as oportunidades que lhe surgiam. Na semifinal, um grande duelo contra o Manchester City-ING e suas estrelas Kompany, Agüero, Navas, De Bruyne e Touré. Seria um duelo bem equilibrado. E foi mesmo. Na ida, em Manchester, o Real não teve Cristiano Ronaldo, poupado por causa de uma dor na panturrilha, pressionou em investidas de Bale, mas o placar ficou mesmo 0 a 0, em um dia de inspiração dos sistemas defensivos de ambas as equipes. Na volta, no Santiago Bernabéu, o Real não foi agredido em nenhum momento pelos ingleses. Obrigou Hart a fazer grandes defesas. E viu uma grande jogada de Bale terminar em gol: 1 a 0. Não precisava de mais. O Real estava na final. Era um outro time. Harmônico. Coeso. Zidane, em pouco mais de 20 jogos, havia conseguido amenizar os intermináveis problemas de vestiário, local que ele conhecia tão bem. Era perito em inflamar seus atletas, passar-lhes confiança. A undécima estava perto. E, no caminho, um velho rival: de novo, o Atlético de Madrid.

 

Cenas invertidas num mesmo final: Real campeão!

O time da final de 2016. Em pé: Navas, Sergio Ramos, Pepe, Kroos, Benzema e Cristiano Ronaldo. Agachados: Bale, Marcelo, Casemiro, Carvajal e Modric.

 

A decisão da Liga dos Campeões de 2016 foi no belíssimo estádio Giuseppe Meazza (leia mais sobre ele clicando aqui!) e colocou frente a frente os mesmos rivais domésticos que decidiram a competição em 2014: Real e Atlético. O time de Simeone vinha com um esquadrão reforçado, tinha Griezmann em grande fase, o xodó Fernando Torres de volta, Koke dono do meio de campo e Godín um gigante na zaga. Sem contar o goleiro Oblak, vencedor do troféu Zamora de goleiro menos vazado de La Liga, além de ser o melhor da competição naquela temporada. Mas o Real foi a campo com um onze ideal, o trio BBC, o meio de campo com Casemiro, Modric e Kroos e os laterais Marcelo e Carvajal. Quando a bola rolou, o filme de 2014 foi rodado de maneira invertida. Quem saiu na frente foi o Real, com o capitão Sergio Ramos aparecendo na pequena área e mandando pro gol após cobrança de falta de Kroos. O Atlético foi pra cima, pressionou, mas Navas evitou o empate dos colchoneros com boas defesas em chutes de Griezmann. No segundo tempo, o Atlético teve uma grande chance de empatar em cobrança de pênalti, mas o Real mostrou que tinha outro requisito, fundamental em decisões e caminhadas futebolísticas: o fator sorte. Griezmann, que raramente perdia um pênalti, mandou um petardo no meio do gol, mas a bola subiu demais e explodiu no travessão. O Atlético não desistiu, enquanto o Real fazia um jogo mais defensivo, sem correr riscos. Mesmo assim, arriscou com Benzema e Cristiano Ronaldo, mas desperdiçou. Em seguida, o Atlético, enfim, empatou com o belga Carrasco, que foi comemorar dando um beijo na namorada, uma linda cena daquela final.

Veja o gol:

A base de 2016: time forte no meio de campo, zaga segura e ataque devastador.

 

O empate em 1 a 1 persistiu até o final e forçou a prorrogação. De novo, um filme inverso. Em 2014, o Atlético não teve pernas para conter o Real. Em 2016, foi o Real quem demonstrou mais cansaço. Parecia que teríamos um campeão inédito na Liga dos Campeões. Mas o que se viu foi um Atlético pouco incisivo e um Real que soube se defender e gastar o tempo. Após 30 minutos, disputa de pênaltis. E, na marca da cal, o que se viu foi um Oblak irreconhecível. Ele simplesmente não foi nas bolas. Ficou pasmo, sem esboçar qualquer ameaça aos merengues. Ele só pulou em um dos chutes – de Marcelo – e sem esticar os braços. Resultado: o Real converteu seus cinco pênaltis. Do lado do Atlético, Griezmann, Gabi e Saúl fizeram os seus, mas Juanfran acertou a trave e o placar foi 5 a 3 para o Real. Pela 11ª vez, o Real Madrid era o rei da Europa. Zidane entrava para o seletíssimo hall de ex-jogadores que também eram campeões como treinadores. Quem também se consagrou foi Cristiano Ronaldo, artilheiro com 16 gols e primeiro na história do torneio a marcar três hat-tricks em uma só Liga dos Campeões. Em 13 jogos, o Real venceu nove, empatou três e perdeu apenas um. Foram 28 gols marcados e apenas seis gols sofridos. A campanha mostrou uma nítida evolução do comportamento da zaga madrilena com Zidane. Passar uma fase inteira de mata-mata e levar apenas três gols em sete jogos é uma enormidade. Como foi enorme levantar a Liga dos Campeões pela 11ª vez.

Photo/VCG.

 

Hora do trabalho completo

Marco Asensio em ação: jogador seria uma grande arma merengue nos anos seguintes. Foto: EFE/MARISCAL / MaxPPP.

 

Após a taça europeia logo de cara, Zidane teria pela frente uma temporada cheia. Com poucas mudanças no elenco – de destaque, os retornos de Asensio e Morata – o Real queria uma façanha que não era vista na Europa desde 1990: defender o título da Liga dos Campeões. Mais do que isso: ser o primeiro clube na era moderna da competição a conseguir tal feito. Seria bem difícil, mas totalmente palpável graças à boa fase do time. Mas o treinador não escondia de ninguém que um dos principais objetivos era o Campeonato Espanhol, que passava por entre os dedos dos merengues desde 2012. Mas Zidane fazia questão de manter os pés no chão e a humildade quanto ao seu trabalho. Mesmo vencendo a Liga dos Campeões com apenas cinco meses de trabalho e vencido 12 jogos seguidos no Espanhol, ele comentou, em junho de 2016:

 

“No Real Madrid, eu comecei como jogador, mas ainda não sinto que sou um bom treinador. Eu tenho que melhorar, mas foi incrível vencer a Champions League em apenas cinco meses. Tudo começa na paixão. Mas será mais complicado para mim, como treinador, do que foi como jogador, porque, na minha mente, ainda sou um jovem técnico. Sou, antes de tudo, um jogador, mas manter a taxa de sucesso é um bom objetivo para mim”.Zinedine Zidane, em entrevista ao The Times of India (IND) e reproduzida no site Trivela, 11 de junho de 2016.

 

Em um clube como o Real Madrid, toda cobrança sempre é em dobro. E, mesmo com uma taça tão histórica, ele seria cobrado, principalmente pela ferrenha imprensa espanhola. Mas a resposta viria na bola. E com taças.

 

Imbatíveis e pentacampeões do mundo

Marcelo ergue a Supercopa da UEFA de 2016.

 

O Real começou a temporada levantando o título da Supercopa da UEFA com triunfo por 3 a 2 sobre o Sevilla-ESP, num repeteco da decisão de 2014. O escrete madrileno se deu ao luxo de jogar com um time recheado de reservas – o ataque titular foi Asensio, Morata e Vázquez, muito bem protegidos por Marcelo, Carvajal, Sergio Ramos, Varane e Casemiro e munidos por Isco e Kovacic. Pra variar, Ramos marcou outro gol salvador no finalzinho (aos 48’ do segundo tempo!), quando a partida estava 2 a 1 para o Sevilla, e mandou a final para a prorrogação. Nela, o lateral Carvajal marcou no penúltimo minuto e deu a vitória aos merengues. Dias depois, a equipe começou a caminhada no Campeonato Espanhol e emendou quatro vitórias seguidas que deram ao clube o recorde de 16 triunfos seguidos em La Liga – somando as 12 da temporada 2015-2016. Nas três rodadas seguintes, o time só empatou, mas se recuperou para emendar mais seis vitórias seguidas, incluindo uma goleada de 3 a 0 sobre o Atlético de Madrid com três gols de Cristiano Ronaldo. Foi um triunfo para lavar a alma por causa dos tropeços diante do mesmo Atlético na temporada passada. Da 9ª até a 24ª rodada, o Real foi líder absoluto da competição e assegurou um valioso empate em 1 a 1 no clássico com o Barça no primeiro turno, no Camp Nou – o gol de empate veio no minuto final com o especialista em tentos de drama: Sergio Ramos.

Já chegava o mês de novembro e o Real simplesmente não sabia o que era perder desde abril. A única notícia ruim foi a lesão no tornozelo de Bale, que o tirou dos gramados por quatro meses. Aliás, a partir daquele mês, o craque iria sofrer bastante com lesões e perderia espaço no time titular. Na Liga dos Campeões, o Real se classificou para o mata-mata em segundo lugar no grupo, mas invicto, com três vitórias e três empates. Os triunfos foram contra Sporting-POR (2 a 1 em casa e 2 a 1 fora) e Legia Warsaw-POL (5 a 1, em casa). Já os empates aconteceram contra o Borussia Dortmund-ALE (2 a 2 fora e 2 a 2 em casa) e contra os poloneses, fora, em 3 a 3. Com foco total no início do Espanhol, o time pareceu um pouco desleixado na competição europeia, mostrando a habitual força ofensiva, mas muitos problemas defensivos, principalmente por causa da lesão de Casemiro à época, que desfalcou o Real em mais de 10 jogos.

Foto: FIFA.com

 

Só em dezembro que o volante voltou de maneira mais assídua e viajou com o clube até o Japão para a disputa do Mundial de Clubes da FIFA. Na semifinal, contra o América-MEX, os madrilenos venceram por 2 a 0 (gols de Benzema e Cristiano Ronaldo). Na decisão, contra a surpresa Kashima Antlers-JAP, Benzema abriu o placar aos 9’ e deu indícios de uma goleada. Mas os japoneses foram valentes e muito aplicados taticamente. Empataram ainda no primeiro tempo. E viraram o jogo para 2 a 1 no segundo. Oito minutos após a virada, Cristiano Ronaldo, de pênalti, empatou. O duelo foi para a prorrogação e o português não deu chances para o rival: marcou mais duas vezes e sacramentou a vitória por 4 a 2 e o quinto título mundial do Real. Os espanhóis superaram o Milan e se tornaram os primeiros pentacampeões mundiais de clubes. Não havia limites para os merengues. E ainda tinha muita coisa para acontecer…

 

Recorde e La Liga merengue

Foto: Getty Images.

 

No comecinho de janeiro de 2017, o Real teve três duelos contra o Sevilla – dois válidos pelas oitavas de final da Copa do Rei e um pela 17ª rodada do Campeonato Espanhol. O primeiro dessa trinca teve vitória madrilena por 3 a 0 na ida da copa nacional, com dois gols de James Rodríguez e um de Varane. Na volta, em Sevilha, o time da casa abriu o placar, mas Asensio empatou. Em seguida, Jovetic e Iborra ampliaram para 3 a 1. Parecia que a invencibilidade do Real iria cair. Mas os madrilenos estavam dispostos a cravar mais um recorde. Sergio Ramos, de pênalti, diminuiu. E Benzema, aos 48’ do segundo tempo, empatou em uma verdadeira obra-prima. Ele tocou de letra para Marcelo, que devolveu de letra para o francês sair em disparada, driblar um, dois, passar pelo terceiro e chutar pro gol: 3 a 3. Um golaço que definiu a partida invicta de número 40 daquele Real. De abril de 2016 até janeiro de 2017 sem perder. Um recorde histórico do clube e também do futebol espanhol – nunca um time do país havia ficado tanto tempo sem perder. E o melhor: o recorde anterior, de 39 jogos, era do rival Barcelona. Imagine a alegria do torcedor naquele dia!

Veja o golaço:

Maaaas… Você sabe que sempre tem o ‘mas’ no futebol. Três dias depois, pelo Espanhol, o próprio Sevilla acabou com a festa merengue, com a invencibilidade e venceu por 2 a 1 o terceiro duelo em 11 dias entre ambos. Em seguida, o time seria eliminado da Copa do Rei pelo Celta de Vigo, mas sem abatimento. Venceu mais quatro jogos seguidos, tropeçou diante do Valencia, e ficou mais nove jogos sem perder, com sete vitórias e dois empates. Na 32ª rodada, um susto: derrota por 3 a 2 para o Barcelona, em casa, num partidaço de Messi. A equipe perdeu a liderança para os blaugranas, que tinham um jogo a mais. Nem tudo estava perdido, mas era proibido errar dali em diante. No duelo seguinte, contra o Deportivo, fora de casa, a volta por cima veio com um categórico 6 a 2. Detalhe: com time B. Vieram mais cinco vitórias seguidas – 2 a 1 no Valencia, 4 a 0 no Granada, 4 a 1 no Sevilla, 4 a 1 no Celta de Vigo e 2 a 0 no Málaga, este o resultado que sacramentou o título nacional aos merengues, uma taça celebradíssima por Zidane pela dificuldade e percalços de um torneio tão longo e com adversários tão hostis.

Zidane e a festa pelo título nacional. Foto: Gonzalo Arroyo Moreno / Getty Images.

 

O treinador mostrou muito talento ao trabalhar com precisão e diálogo um elenco tão estrelado. Poupou mais seus craques. Percebeu que tinha que fazer isso até com Cristiano Ronaldo para evitar lesões inesperadas como havia acontecido nos tempos de Ancelotti. Ninguém era de ferro, nem mesmo um atleta perfeito como o português. Deu chances aos jovens, mostrou a força do banco – prova disso foi a quantidade de gols de Morata no Espanhol (15 tentos) -, conseguiu suprir a ausência de Bale com Isco e o esquema 4-1-2-1-2, uma brusca mudança no 4-3-3 tão utilizado pelo clube. O time começou a jogar mais bonito, de maneira mais segura e não menos goleador. Isco ajudava na criação, aparecia no ataque e fez com que Modric e Kroos transformassem o meio de campo no setor mais importante do time. Com o trio por ali e a proteção de Casemiro, o Real podia vencer qualquer clube do mundo. Com precisão, autoridade e talento. E, acima de tudo isso, Zizou promoveu a tão necessária harmonia no vestiário, sem intrigas nem notícias ruins na imprensa.

O time de 2017: Isco jogando muito, Cristiano e Benzema entrosados e meio de campo impecável.

 

O Real venceu 29, empatou seis e perdeu apenas três dos 38 jogos. Foram 106 gols marcados e 41 sofridos. Além de tudo isso, outros números ficaram para a história da competição: mais gols fora de casa em uma única temporada (58 gols) e mais jogos marcando ao menos um gol em uma temporada: 38 partidas! O time não ficou um jogo sequer sem balançar as redes! Cristiano Ronaldo marcou 25 gols e foi o 3º na artilharia. Morata, com 15, foi outro a figurar entre os goleadores. Toni Kroos, com 12 assistências, foi o vice na lista dos maiores garçons. Mesmo com as tradicionais expulsões de Sergio Ramos, o Real foi o time que menos levou cartões amarelos no torneio: 74 advertências. Mas a cereja no bolo seria na queridinha dos merengues: a Liga dos Campeões.

 

A devastação de gols

Cristiano contra o Bayern: artilheiro implacável. Foto: Getty Images.

 

O Real mostrou grande regularidade no Espanhol, mas foi no mata-mata da Liga dos Campeões que a equipe deu show e promoveu uma devastação de gols absurda. Nas oitavas, fez 3 a 1 no Napoli-ITA em casa e repetiu o placar fora. Ou seja: 6 a 2 no agregado. Nas quartas de final, outra vez o Bayern München-ALE pelo caminho. E novos shows: vitória de virada por 2 a 1 em plena Allianz Arena (com dois de Cristiano Ronaldo e boa atuação de Asensio) e triunfo por 4 a 2 na volta, este com um pouco de tensão. Após revés por 2 a 1 no tempo normal, os merengues impuseram seu jogo na prorrogação e marcaram três gols – dois de Cristiano (que já havia feito um no tempo normal) e um de Asensio. Placar agregado: 6 a 3. Nas semifinais, adivinhe: o Atlético de Madrid. De novo. E, mais uma vez, deu Real, que liquidou a fatura já no jogo de ida, no Bernabéu: 3 a 0, três gols de Cristiano Ronaldo, implacável na Liga dos Campeões, uma máquina de gols impressionante. Na volta, o Real conheceu sua primeira e única derrota na competição (2 a 1), insuficiente para eliminá-los, suficiente para fechar o placar agregado de 4 a 2 e colocar o time merengue em mais uma final europeia – a terceira em quatro anos. Mas o adversário seria bastante complicado: a Juventus-ITA, embalada e com jogadores em grande fase como Daniel Alves, Mandzukic, Dybala, o trio de zaga Chiellini, Bonucci e Barzagli e o goleiro Buffon.

 

Implacáveis e bicampeões

O time campeão de 2017. Em pé: Navas, Sergio Ramos, Kroos, Varane, Benzema e Cristiano Ronaldo. Agachados: Casemiro, Marcelo, Carvajal, Isco e Modric. Foto: Matthias Hangst / Getty Images.

 

Antes da grande final europeia de 2017, disputada em Cardiff, a Juventus era considerada por muitos a favorita ao título. Após eliminar Porto-POR, Barcelona-ESP e Monaco-FRA, a Velha Senhora estava em sua segunda decisão em três anos e queria acabar de uma vez por todas com a sina de vices que a perseguia desde o último título de 1996. E o torcedor bianconeri se apegava ao retrospecto recente favorável em duelos contra o Real Madrid e a grandes vitórias sobre os espanhóis, em especial o histórico triunfo nas semis de 2002-2003 (leia mais clicando aqui). Só que alguém esqueceu de avisar os italianos que do outro lado estava um time altamente perigoso e que dificilmente perdia finais de Liga dos Campeões.

Após um domínio juventino nos primeiros 20 minutos, o Real se mandou para o ataque e abriu o placar com Cristiano Ronaldo, que bateu de primeira após receber cruzamento rasteiro de Carvajal. Foi o gol de número 500 do Real Madrid na história da competição. Sete minutos depois, Mandzukic empatou num golaço acrobático. O duelo seguiu equilibrado, mas, na segunda etapa, o Real mudou a partida. Pressionou a Juventus em seu próprio campo de defesa. Forçou o erro de passe. Isco passou a jogar mais pela esquerda. O meio de campo foi engolindo os italianos. E os gols começaram a surgir. Primeiro, com Casemiro, num chutaço de fora da área, aos 16’. Três minutos depois, Modric interceptou uma rebatida da zaga, tabelou com Carvajal pela direita e cruzou para a área. Quem estava lá? Cristiano Ronaldo, que completou de primeira para fazer 3 a 1. Era só contar os minutos para o bi. Aos 45’, Cristiano cobrou falta, ela explodiu na barreira e caiu na esquerda do campo. Marcelo deixou um adversário no chão, conduziu a bola pela linha de fundo e cruzou para a área. Asensio apareceu e decretou a goleada: 4 a 1. A Juventus estava destroçada. Até a final, a equipe italiana havia levado apenas três gols em 12 jogos. Levou quatro em apenas um…

Foto: Reuters / Carl Recine Livepic.

 

Ao apito do árbitro Felix Brych, o Real Madrid era campeão da Liga dos Campeões da UEFA pela 12ª vez. Era o primeiro bicampeão desde 1990. O primeiro bicampeão na chamada era moderna do torneio, a era Champions League. Foi um título simplesmente histórico e incontestável. Em 13 jogos, nove vitórias, três empates, uma derrota, 36 gols marcados e 18 sofridos. Cristiano Ronaldo, com 12 gols, foi mais uma vez o artilheiro da competição. A dobradinha La Liga / Liga dos Campeões foi a primeira do clube desde a temporada 1957-1958. Tempos de Di Stéfano e um esquadrão que jovens só conheciam por livros, mas que aquele esquadrão de Zidane demonstrava, em lapsos e taças, como era ser dominante e absoluto em tempos modernos como na era do preto e branco e bola de capotão.

E um importante balanço da primeira temporada completa de Zidane no comando do Real: venceu quatro dos cinco torneios que disputou, seu time disputou 60 jogos, venceu 44, empatou 11, perdeu cinco, marcou 173 gols e sofreu 72. Aproveitamento: 73,3%. Ele ainda ganhou diversos prêmios, entre eles o de melhor técnico de clubes do mundo pela FIFA e o Onze d’Or de melhor treinador da temporada. Será que o francês ainda se achava um técnico ruim?

 

Mais taças para a coleção e o primeiro hexa

O Real manteve as estrelas de seu elenco e vendeu alguns nomes para fazer caixa na temporada 2017-2018. Pepe não teve o contrato renovado e foi jogar no Besiktas-TUR. James Rodríguez foi emprestado ao Bayern por 13 milhões de euros. Morata foi jogar no Chelsea-ING por 80 milhões de euros. E Danilo acabou indo para o Manchester City-ING por 30 milhões de euros. O time começou a temporada com Bale em forma e à disposição de Zidane. O problema é que Isco já era um titular absoluto e não havia um meio para escalar o galês no time, a não ser que Benzema fosse para o banco. Mas o francês, por mais que não tivesse a técnica e a velocidade de Bale, ainda marcava gols e tinha um papel tático importante. Mas, convenhamos, era um “problema” que qualquer treinador gostaria de ter. Na primeira decisão da temporada, o Real Madrid viajou até a Macedônia e venceu o Manchester United-ING por 2 a 1 na final da Supercopa da UEFA. Casemiro e Isco fizeram os tentos madrilenos, que chegaram ao quarto título do torneio em sua história. Dias depois, veio a Supercopa da Espanha contra o Barcelona. E, em dois grandes jogos, o Real venceu: 3 a 1 em pleno Camp Nou, gols de Cristiano Ronaldo – que provocou a torcida catalã mostrando a camisa, a exemplo do que fizera Messi na temporada passada, no Bernabéu -, Asensio e Piqué, contra, e 2 a 0 na volta, em casa, com gols de Benzema e Asensio.

Cristiano repetiu o gesto de Messi (à dir.) na Supercopa da Espanha.

 

Os triunfos foram ótimos para inspirar o time na busca do bi do Campeonato Espanhol, mas o apetite não foi o mesmo da temporada anterior. Da 1ª até a 14ª rodada, a equipe empatou quatro jogos, perdeu dois e nem sequer impôs perigo aos líderes, permanecendo na quarta colocação da tabela. Pela Liga dos Campeões, a equipe caiu em um grupo com dois adversários complicados – Borussia Dortmund-ALE e Tottenham Hotspur-ING – e um fraco – APOEL, do Chipre. Os merengues venceram os dois duelos contra os alemães – 3 a 1 em Dortmund e 3 a 2 em Madrid e bateram facilmente o APOEL em casa (3 a 0) e fora (6 a 0). O time de Zidane só perdeu pontos contra o Tottenham, que arrancou um empate em Madrid (1 a 1) e venceu em casa por 3 a 1. Com 13 pontos, o time se classificou em segundo lugar no grupo com quatro vitórias, um empate e uma derrota. Ainda não era o Real que a torcida queria e esperava ver. Alternava bons jogos com outros muito abaixo da média.

Em dezembro, o time viajou até os Emirados Árabes Unidos para disputar mais um Mundial de Clubes. Na semifinal, outra prova de que a fase não era boa: contra o modesto Al-Jazira-EAU, os espanhóis terminaram o primeiro tempo perdendo por 1 a 0, gol do brasileiro Romarinho. No segundo tempo, o time “recobrou a consciência” e a virada veio após gols de Cristiano Ronaldo e Bale.

Cristiano fez o seu de falta e deu o título mundial ao Real em 2017.

 

Na decisão, o Real Madrid teve pela frente o Grêmio-BRA, campeão da Libertadores e que vinha embalado após uma grande campanha na competição continental. Mas foi um duelo extremamente discrepante. O Real dominou as ações, teve mais de 60% de posse de bola, engoliu o time brasileiro principalmente no meio de campo, deu 20 chutes a gol contra apenas um (!) dos tricolores e só não fez mais gols por causa das grandes atuações de Geromel, Kannemann e do goleiro Marcelo Grohe. Foi uma diferença técnica gritante. O placar de 1 a 0 (gol de Cristiano Ronaldo cobrando falta) não refletiu o que foi a partida. Sem forçar, o Real Madrid conquistou seu sexto título mundial, o terceiro organizado pela FIFA. Mais uma vez fazia história como o primeiro hexacampeão mundial. Outra taça para a coleção merengue, que assumia de maneira absoluta o posto de maior colecionador de troféus internacionais do planeta: 24 títulos até dezembro de 2017, deixando bem para trás clubes que tanto se gabavam de serem os reis de copas como Boca Juniors e Milan, estacionados com 18. Não tinha jeito: o Real Madrid era o maior vencedor do planeta. Em todos os sentidos, de todos os jeitos.

Montagem do jornal espanhol Marca brincando com o hexa madrileno, que deixou a pentacampeã seleção brasileira “para trás”.

 

Será o fim?

Sergio Ramos e os jogadores do Leganés ao fundo: papelão na Copa do Rei.

 

Após o troféu mundial, muitos acharam que o Real encontraria o gás necessário para embalar de vez na temporada. Mas o time seguiu decepcionando. Primeiro, veio mais um revés em casa para o Barcelona pelo Espanhol – 3 a 0, com outro show de Messi. Em seguida, empate com o Celta de Vigo e derrota para o Villarreal em casa (1 a 0) que praticamente definiram a perda na luta pelo título nacional – quase 20 pontos atrás do líder. O time goleou o freguês Deportivo na sequência por 7 a 1, em casa, mas de nada adiantou. O pior ainda estava por vir. Nas quartas de final da Copa do Rei, o time encarou o Leganés e venceu o duelo de ida por 1 a 0. Até aí tudo bem. Mas, na volta, acredite: o Real perdeu por 2 a 1 em casa e foi eliminado. Com todo respeito ao Leganés, era simplesmente inadmissível um clube como o Real ser eliminado para aquele adversário. E em casa. Não adiantava dizer que “ah, mas foi com time misto, etc”. Foi um vexame. Que Zidane assumiu:

 

“É um fracasso e eu o assumo, sou o responsável. Estou muito decepcionado. Assumo sempre o que faço. É minha pior noite. Ganhando por 1 a 0 fora e começar como começamos… Não entendo o que aconteceu. Não me arrependo de ter deixado de fora Cristiano e Bale. Eu tinha uma equipe competitiva contra o Leganés no papel. No campo, não. Meu grande erro foi ter perdido essa partida em casa”.Zinedine Zidane, em entrevista ao jornal Marca (ESP), 25 de janeiro de 2018.

 

Manchete do Marca após a eliminação do Real.

 

A imprensa espanhola já dizia que aquela era uma das piores temporadas do clube em anos. Dias após o vexame, o trio BBC voltou a jogar junto após 280 dias na goleada de 4 a 1 sobre o Valencia em pleno Mestalla – quando alcançaram a marca de 400 gols (225 de Cristiano, 99 de Benzema e 76 de Bale), mas foi mais um dado curioso do que próspero. Benzema vivia péssima fase. Bale jogava pouco, quase que exclusivamente no Espanhol. Cristiano Ronaldo não era o prolífico matador de antes. A zaga passava por apuros. Os jornais diziam, também, que o cargo de Zidane estava em risco. E as oitavas de final da Liga dos Campeões – a única competição ainda palpável – começaria no dia 14 de fevereiro. O adversário? Simplesmente o Paris Saint-Germain-FRA, endinheirado, cheio de estrelas e sedento pela mais nobre das taças. O Real entrava como patinho feio na disputa. O PSG era favorito. As perspectivas eram terríveis. Parecia o fim de um ciclo. Será que só a camisa iria bastar ao Real?

 

Tomou?

Cristiano e Asensio celebram contra o PSG. Foto: As.com

 

No primeiro duelo entre espanhóis e franceses, em Madrid, a torcida merengue viu um outro Real Madrid. Viu o time copeiro que tanto levantou troféus desde 2014. O time com jogadores decisivos. E um time que sabia jogar de maneira plena a Liga dos Campeões da UEFA. O PSG até abriu o placar no primeiro tempo, mas Cristiano Ronaldo, de pênalti, empatou, aos 45’. Na segunda etapa, a entrada de Asensio colocou fogo no jogo, o Real dominou o rival e virou com Cristiano Ronaldo, oportunista, aos 38’. Três minutos depois, Marcelo, em fase estupenda, ampliou para 3 a 1 e provou ao time francês que não adiantava nada ter um monte de jogador estrelado sem um padrão de jogo. E que disputar um campeonato nacional tão fraco quanto o Francês tem suas consequências na hora do vamos ver na Liga dos Campeões. E, claro: era o Real Madrid, 12 vezes campeão da LIga dos Campeões, atual bicampeão consecutivo, oras bolas! Dizer que um time daqueles não era favorito em sua própria casa era de uma insensatez que beirava o ridículo! No futebol, camisa pesa, sim. E em competições de mata-mata, isso sempre fica mais evidente. Ela só não pesa se os onze jogadores não fizerem valer tal mística.

Foto: Quality Sport Images/Getty Images.

 

Na volta, em Paris, Zidane colocou um time mais precavido na marcação, com Casemiro e Kovacic no meio e Asensio e Lucas Vázquez na armação. Muito se falava na ausência de Bale, o desperdício que era deixar o galês no banco, mas Zidane preferia deixar seu atacante para o segundo tempo. Mais organizado, o Real cozinhou o jogo na primeira etapa e segurou o 0 a 0. No segundo, Asensio roubou de Daniel Alves, tocou para Vázquez que cruzou para Cristiano Ronaldo subir mais alto do que a zaga parisiense e fazer 1 a 0. O PSG tentou a resposta e chegou ao empate com Cavani, aos 25’, mas Casemiro, aos 35’, fechou a conta: 2 a 1. E 5 a 2 no agregado para o Real, classificado e vivíssimo na busca pelo surreal tricampeonato europeu.

 

Arte e aplausos para uma lenda

Nas quartas de final, de novo o sorteio colocou a Juventus-ITA no caminho merengue. O primeiro duelo aconteceu em Turim, com os italianos querendo a desforra pelo revés da temporada anterior. O time bianconeri sabia que não era permitido errar. Nem deixar espaços para o ataque madrileno. Mas tudo o que eles sofreram na decisão de Cardiff foi repetido naquele dia 03 de abril de 2018. Só que com um só protagonista: Cristiano Ronaldo. O que o português fez com a Juve foi algo impressionante. Uma das atuações mais impecáveis de um jogador em toda a história da competição europeia. Logo aos 3’, Marcelo tocou para Isco, que cruzou rasteiro para Cristiano Ronaldo, letal e com um só toque, estufar as redes de Buffon: 1 a 0. A Juventus não conseguia assustar a zaga madrilena. Quem assustava era o Real, que mandou uma bola no travessão com Kroos, aos 35’. No segundo tempo, Cristiano continuava perigoso, arisco. Até que, aos 19’, aconteceu o lance para a eternidade. O Real foi pra cima a fim de bombardear os italianos. Cristiano apareceu, tocou para Vázquez, este chutou forte e Buffon fez grande defesa. A bola sobrou na direita para Carvajal, que cruzou para a área. Lá, estava Cristiano Ronaldo. Ele levitou na altura do ombro do defensor e armou uma bicicleta que encontrou a bola e a mandou para o gol de Buffon, que nem se mexeu: 2 a 0. Foi um GOLAÇO tão incrível, tão formidável, que a torcida da Juventus aplaudiu o craque português.

Veja o gol abaixo com visão da arquibancada e os aplausos da torcida:

 

Ele se tornava o maior carrasco de um só time na história da Liga dos Campeões – nove gols na Juve. chegava ao 10º jogo seguido marcando gols na competição. Ao 119º gol, o maior artilheiro do torneio em todos os tempos. Era um absurdo. Mas ainda tinha mais.

Aos 27’, Marcelo invadiu a grande área, tabelou com Cristiano Ronaldo e o português deixou na medida para o brasileiro superar Buffon e fechar a conta: 3 a 0. Foi uma apoteose madrilena. A demonstração máxima da ferocidade do ataque merengue. Do talento de Isco, outro que brilhou ao acertar TODOS os 54 passes que efetuou no jogo. Uma partidaça que praticamente colocou o Real na semifinal.

 

Na decisão, mas com ressalvas

Depois de um jogo tão maiúsculo na ida, os torcedores merengues esperavam um duelo pelo menos um pouco parecido na volta. Foi, mas pendente à Juventus. A equipe italiana foi valente e precisa, abriu 2 a 0 no primeiro tempo com Mandzukic, viu Buffon realizar defesas dignas do gigante que ele sempre foi para frear o ataque rival e ainda abriu 3 a 0 no placar antes dos 20 minutos da segunda etapa. O jogo seguiu tenso, o Real teve um gol de Isco anulado por suposto impedimento, Varane cabeceou bola na trave, nada estava decidido. Não até chegar os acréscimos, quando o árbitro apitou pênalti de Benatia em Lucas Vázquez. Foi um lance bastante duvidoso, de interpretação, digno de VAR. Parecia que de fato Vázquez foi atropelado. Mas, por outros ângulos, o toque do jogador da Juve não era suficiente para o madrileno desabar daquele jeito. Mas, como não tinha nenhum auxílio tecnológico ao juiz Michael Oliver, o pênalti aconteceu, para desespero de Buffon, que reclamou tanto que foi expulso. O goleiro polonês Szczęsny entrou para tentar virar herói e assegurar a prorrogação, mas Cristiano Ronaldo converteu a cobrança, chegou aos 10 gols em cima da Juve e colocou o Real na semifinal.

O último desafio antes da final foi o Bayern München-ALE. Na ida, em Munique, Zidane foi precavido com quatro homens no meio de campo e apenas CR7 no ataque. Tal tática funcionou pouco, pois o Bayern abriu o placar aos 28’ do primeiro tempo, com Kimmich. O Real não se abateu e empatou aos 44’, com um golaço de Marcelo após pegar de primeira na entrada da grande área uma bola alçada pela direita. No segundo tempo, Zidane colocou Asensio no lugar de Isco e foi o talismã quem decretou a virada em uma das armas mais letais daquele Real: o contra-ataque. Rafinha errou um passe no meio de campo, Asensio tocou para Lucas Vázquez e este saiu em disparada. Ele devolveu para Asensio, que deu um tapa na bola e virou: 2 a 1. Foi mais uma vitória madrilena sobre o Bayern em plena Allianz Arena. Uma vitória da eficiência e da experiência de um time que conseguia vencer mesmo quando não era brilhante e quando sofria baixas na zaga – Carvajal saiu após contusão, aos 22’ do segundo tempo.

Na volta, em casa, o mesmo Kimmich abriu o placar para o Bayern logo aos 3’ de jogo e acendeu de novo o alerta no torcedor merengue: mais sofrimento? Até que, aos 11’, Benzema acabou com a seca que vivia naquela temporada da Liga dos Campeões e empatou. No comecinho do segundo tempo, o mesmo Benzema aproveitou uma bobeada do goleiro para virar o jogo: 2 a 1. O Real começou a aproveitar as brechas na marcação bávara para liquidar a fatura, mas Cristiano Ronaldo, irreconhecível, perdeu uma grande chance minutos depois após cruzamento de Marcelo. O Bayern tentava o empate na base do chuveirinho, mas a zaga madrilena não dava trégua. Só aos 18’ que James Rodríguez empatou e não comemorou em respeito ao seu ex-clube. O time alemão precisava de mais um gol, mas não foi organizado na hora de atacar. Melhor para o Real, que segurou o empate e se garantiu em mais uma final europeia, a terceira seguida, a quarta em cinco anos. Copeiro ao extremo, mas com as ressalvas de ter sofrido bastante nos dois últimos jogos em casa.

Antes de disputar o último jogo da temporada, o time merengue encerrou sua participação em La Liga com vitória sobre o Celta de Vigo (6 a 0) e empate em 2 a 2 com o Villarreal. A equipe terminou na 3ª colocação, 17 pontos atrás do Barcelona (campeão) e três pontos a menos do que o vice, o Atlético de Madrid. Faltando pouco para a final continental, muitos pensavam que Zidane iria escalar Bale entre os titulares. O galês vinha de grandes jogos pelo Espanhol, aproveitando o rodízio que o técnico francês fazia, e teve uma atuação de gala na goleada sobre o Celta. Será que La BBC ganharia vida na decisão? Ninguém sabia. Era preciso esperar. Contar os dias. Minutos. Segundos. Kiev, na Ucrânia, seria palco de um jogo histórico.

 

A dinastia

Time perfilado para a final de 2018. Em pé: Navas, Sergio Ramos, Kroos, Varane, Benzema e Cristiano Ronaldo. Agachados: Casemiro, Marcelo, Carvajal, Isco e Modric. Foto: Getty Images.

 

No dia 26 de maio de 2018, mais de 61 mil pessoas lotaram o belíssimo estádio Olímpico de Kiev para o duelo entre Liverpool-ING e Real Madrid. O time inglês vinha de uma campanha maravilhosa, recheada de gols e baseava no trio de ataque Firmino, Salah e Mané. No mata-mata, os Reds haviam despachado o Porto-POR (5 a 0 no agregado), o favorito Manchester City-ING (5 a 1 no agregado) e a Roma-ITA (7 a 6 no agregado). Era um time muito forte no ataque e que tinha em sua história um dado curioso: o Liverpool era um dos três clubes da Europa que havia derrotado o Real em uma final de Liga dos Campeões. Foi lá em 1981, quando os ingleses bateram os espanhóis por 1 a 0 – os outros felizardos foram Benfica, em 1962, e Internazionale, em 1964. Por isso e pela ótima fase de seu ataque, o time inglês acreditava demais na taça. Tinha, claro, a torcida de vários outros torcedores, que não queriam ver de novo o Real campeão.

Quando a bola rolou, os times fizeram um duelo equilibrado, estudado, tático. Até chegar os 30 minutos. Em uma disputa de bola, Sergio Ramos prendeu o braço de Salah e derrubou o egípcio. Foi um verdadeiro golpe baixo. Duro. Todos conheciam o jeito de ser do zagueiro, mas aquele lance foi realmente dispensável. Não precisava. Mas foi, talvez, premeditado? Tirar o melhor jogador deles logo no primeiro tempo… Hum, nada mal. Pois é. E foi isso que aconteceu. Salah não aguentou a dor, não conseguiu ser um herói à la Beckenbauer (leia mais clicando aqui!) e deixou o gramado aos prantos. O Liverpool sofreu um baque tremendo. Tudo passava pelos pés de seu craque, “o cara” das classificações anteriores. Sete minutos depois, foi o Real quem perdeu um jogador – Carvajal, também por lesão. O jogo seguiu favorável ao time espanhol, que manteve mais a bola em seus pés – 66% – marcou um gol com Benzema (anulado por impedimento) e acuou o Liverpool em seu campo de defesa. Ao apito do árbitro, o término da primeira etapa viu uma vantagem psicológica ao escrete de Zidane.

O golpe de Ramos em Salah. Foto: Genya Savilov / AFP.

 

No segundo tempo, o Real, predador, foi pra cima e mandou uma bola no travessão com Isco. Três minutos depois, um lance ridículo – para dizer o mínimo – provou que o Real tinha a sorte ao seu lado. Kroos fez um lançamento e o goleiro Karius fez a defesa sem problema algum. Na hora de repor a redonda em jogo, ele nem percebeu a presença de Benzema por ali. Ou estava em transe, ninguém sabe. O que aconteceu é que o goleiro jogou a bola nos pés do atacante, que esticou a perna para aproveitar o momento. Resultado: a bola entrou. Isso mesmo. Foi simplesmente grotesco. Uma falha inacreditável em plena final de Liga dos Campeões. Quatro minutos depois, o Liverpool conseguiu o empate com Mané. Era tudo o que o time inglês precisava àquela altura.

Zidane percebeu que seu time corria perigo. Cristiano Ronaldo não fazia um bom jogo. Como já não fizera nos dois duelos contra o Bayern, nas semis. Era preciso fogo. Velocidade. E Zizou colocou Bale, aos 16 minutos, no lugar de Isco. O galês queria mostrar para o técnico que ele deveria ter começado aquela final desde o início. E precisou de apenas três minutos para isso. Marcelo, pela esquerda, cruzou para a área. Bale recebeu, emendou uma meia-bicicleta e acertou o ângulo do goleiro Karius: GOLAÇO! Um reserva fazia aquilo. Uma pintura. Era a força do elenco madrileno, recheado de peças para todas as situações e momentos.

O gol acrobático de Bale. Foto: David Ramos / Getty Images.

 

O Real de 2018: Isco mais centralizado e time extremamente competitivo. E ainda tinha no banco Asensio, Vázquez, Bale…

 

O Liverpool tentou a resposta com Mané, mas um chute do senegalês acabou batendo na trave de Navas, aos 24’. Foi só. O Real manteve o controle. Esperava o momento certo para atacar, pressionar. Benzema quase liquidou tempo depois, mas Karius evitou o terceiro gol. Mas aquela noite não era do goleiro alemão. Faltando sete minutos para o fim, Bale recebeu na direita e, de fora da área, arriscou o chute. Foi despretensioso. Era um daqueles chutes para ver se o goleiro está esperto, sabe? Pois Karius não estava. Ele não segurou e engoliu um frango constrangedor… Real 3 a 1. Era o fim. Aos ingleses, só restava esperar o apito do árbitro e rezar para o Real não atacar Karius. Mas nem precisava mais. Com 62% de posse de bola, apenas cinco faltas cometidas (o Liverpool fez 18) e 12 chutes a gol, o Real Madrid venceu por 3 a 1 e conquistou sua 13ª taça europeia em 16 finais. A terceira seguida. Caía uma escrita de 42 anos. Nascia uma dinastia. Um inédito tricampeonato europeu. Algo impressionante. O tricampeonato da eficiência. Dos números incontestáveis. De jogadores competitivos ao extremo. Das vitórias soberbas em territórios rivais. De goleadas homéricas. De campanhas inesquecíveis. Nos 13 jogos daquele título, foram nove vitórias, dois empates e duas derrotas, 33 gols marcados e 16 sofridos. Cristiano Ronaldo, com 15 gols, foi o artilheiro mais uma vez, artilheiro em todos os três títulos merengues. E também no de 2013-2014. Após o jogo, ele disse, em tom enigmático: “agora vamos desfrutar desse momento. Foi muito bonito jogar no Real Madrid”.

Cristiano e sua quinta Champions na carreira. Quatro delas com o Real. Foto: Reuters.

 

Foi o tricampeonato de Bale, que saiu do banco para escrever seu nome na história do clube e da competição com dois gols, um deles já gravado na lista dos mais bonitos de todos os tempos. Gols que provaram que ele merecia mais espaço naquele time, como ele mesmo disse após o jogo:

“Estava muito desapontado por não começar o jogo. Senti que merecia, mas é o técnico quem toma as decisões. O melhor que eu tinha a fazer era entrar em campo e causar impacto, o que certamente eu fiz. Deve ter sido o melhor gol em uma final de Champions, não há palco maior. Sabemos como somos famintos, como somos preparados e como somos motivados. Sobre meu futuro, eu preciso jogar todas as semanas, e isso não aconteceu nesta temporada, Tive uma lesão, mas voltei a me recuperar logo. Vou sentar com meu agente e discutir isso”.

E foi o tricampeonato de Zidane, primeiro técnico tricampeão consecutivo na história da competição. “É incrível o que estamos vivendo, não temos palavras. A verdade é que nunca imaginei ganhar três títulos assim, desta maneira. Mas é isso o que esse clube tem, essa equipe. No final, com talento, com trabalho e com esperança, nós conseguimos”.

Bale e a Velhinha. Foto: Hannah McKay / Reuters.

 

De fato, ninguém podia com aquele Real Madrid. Foram 33 jogos ao longo do tri. Por 33 vezes, adversários tiveram chances de batê-los. Apenas quatro conseguiram. Todos em vão. Revezes incapazes de atrapalhar uma trajetória vista apenas em livros e escassos vídeos com poucas cores, a maioria preto e branco, lá dos anos 70. O impossível e quase inatingível estava sacramentado. E construído pelo Senhor Europa, o rei das 13 taças que abria seis de vantagem para o segundo colocado, Milan, com sete. O trono estava garantido por muito tempo. Décadas, provavelmente. Mas ali, em Kiev, terminava uma era…

 

O fim do Real Madrid de Cristiano

Exatos cinco dias após a final de Kiev, Zinedine Zidane, em coletiva de imprensa, anunciou sua saída do Real Madrid. Foi um anúncio bombástico, que pegou até mesmo o presidente do clube de surpresa. Zizou saía por cima, no auge, como um craque sempre deve fazer.

“Depois de três anos, essa equipe precisa de outro discurso, outra metodologia de trabalho, por isso tomei essa decisão. […] Acabamos o ano de maneira espetacular ganhando a Champions, mas tivemos momentos complicados e isso te faz pensar em uma reflexão”.

 

Zidane e o adeus. Foto: Marca.com

 

Zidane disse, também, que o melhor momento como treinador foi ter vencido o título do Campeonato Espanhol em 2016-2017 – “foi o máximo”. E o pior, obviamente, foi a queda para o Leganés na Copa do Rei de 2017-2018 – “ali eu fiquei…”. Após o anúncio do treinador, veio a Copa do Mundo e outra bomba caiu em Madrid: Cristiano Ronaldo também deu adeus para ir jogar na Juventus-ITA, justamente seu rival predileto na Liga dos Campeões, por 112 milhões de euros. Era o fim de uma história que havia começado nove anos atrás, em tempos difíceis e de taças escassas, mas que se transformaram em anos estrondosos, vertiginosos, com quatro Ligas dos Campeões, quatro Bolas de Ouro de Melhor do Mundo, três chuteiras de ouro e 451 gols em 438 jogos, média superior a um gol por partida. Ele publicou uma carta aos torcedores merengues dizendo, entre outras coisas, que estar no clube foi o melhor momento de sua carreira.

“Esses anos no Real Madrid e nesta cidade de Madrid foram possivelmente os mais felizes da minha vida. Só tenho sentimentos de enorme agradecimento para esse clube, essa torcida e essa cidade. No entanto, acredito que chegou o momento de abrir uma nova etapa em minha vida e por isso pedi ao clube que me negociasse. Eu sinto muito e peço a todos que me compreendam.

Foram nove anos absolutamente maravilhosos. Nove anos únicos. Um tempo emocionante, repleto de consideração e ainda sim duro porque o Real Madrid é de uma altíssima exigência. Tive em campo e no vestiário companheiros fabulosos, senti o calor de uma torcida incrível e juntos conquistamos 3 Champions seguidas e 4 Champions em 5 anos. E junto a eles, a nível individual, tenho a satisfação de ter ganhado 4 Bolas de Ouro e 3 Chuteiras de Ouro. Eu pensei muito e sei que chegou um momento de um novo ciclo. Vou embora, mas essa camisa, esse escudo e o Santiago Bernabéu os seguirei sempre como algo meu, em qualquer lugar. Obrigado a todos e, claro, como disse na primeira vez em que estive no Bernabéu, há nove anos: ¡Hala Madrid!”.

Sem Zidane nem Cristiano Ronaldo, não havia dúvidas: terminava uma era em Madrid. A Era Cristiano Ronaldo. Do mesmo modo que grandes esquadrões ficaram marcados como o Torino de Mazzola, o Sporting dos Cinco Violinos, Real de Di Stéfano, Ajax de Cruyff, Bayern de Beckenbauer, Liverpool de Bob Paisley, Manchester de Ferguson, Inter de Herrera, Juventus de Platini, Flamengo de Zico, Santos de Pelé, São Paulo de Telê, Inter de Falcão, Fluminense de Rivellino, Milan de Sacchi, Boca de Bianchi e o Barcelona de Guardiola e Messi, o Real Madrid 2013-2018 ficou marcado como o Real Madrid de Cristiano Ronaldo. Mas não só dele. De Ancelotti. De Zidane. De Kroos. De Modric. De Isco. De Benzema. De Bale. De Casemiro. De Sergio Ramos. De Varane. De Marcelo. De Carvajal. De Asensio. De Casillas. De todos os jogadores que fizeram daquele time um dos mais incríveis esquadrões de todos os tempos. De um dos maiores deste século XXI. Do mais copeiro. Do que só aumentou a majestade de um clube. Que construiu uma dinastia que será relembrada daqui alguns anos, décadas. Lá no ano de 2080, em uma roda de bar, se surgir o assunto futebol, vão se lembrar do time que venceu três Ligas dos Campeões seguidas em tempos de times milionários, elencos estelares. De um time que bateu sem dó nesses tais elencos estelares. Que venceu fora de casa como se estivesse em seu próprio quintal. E que teve um atacante que marcava gols como na era do preto e branco, das goleadas pirotécnicas, de médias superiores a um gol por jogo. Ah, isso só acontecia na era do Pelé, do Puskás… Pois é. Acontecia. Mas aconteceu na era das cores, da bola com chip, do VAR e da Champions League globalizada. A era do Real Madrid de Cristiano Ronaldo. Um esquadrão imortal.

 

Os personagens:

Navas: chegou ao clube após sua grande atuação na Copa do Mundo de 2014 e alternou grandes jogos com atuações medianas. Não teve o mesmo rendimento que o ídolo Casillas, mas conseguiu se firmar no time titular e ganhar a confiança de Zidane. Nas campanhas vencedoras do Real no período, viveu seu melhor momento na temporada 2015-2016, quando ficou nove dos 11 jogos que disputou na Liga dos Campeões da UEFA sem levar gols e concedeu apenas três. Disputou mais de 140 jogos com a camisa do clube no período.

Casillas: o goleiro multicampeão levantou a sonhada Liga dos Campeões em 2014 como capitão do Real e coroou de vez uma trajetória que começou lá em 1998, quando jogava no time C do Real e foi ganhando espaço no elenco titular até frequentar a elite do clube a partir de 1999. Rápido, seguro, com ótimo senso de colocação e perito em decisões, se transformou em um dos maiores ídolos da história do Real. Deixou o clube em 2015 após 17 anos vestindo as cores merengues. Foram 725 jogos pelo Real – é o segundo com mais jogos na história do clube.

Diego López: foi o goleiro titular do Real após a contusão de Casillas, no começo de 2013, e assumiu a meta do time durante praticamente todo o Campeonato Espanhol de 2013-2014 – foram 36 jogos disputados dos 38 do Real na competição. Com quase dois metros de altura, se impunha perante os rivais, mas não tinha tanta elasticidade. Acabou perdendo espaço com a chegada de Navas e deixou o Real já na temporada 2014-2015.

Carvajal: cria das canteras do Real, o espanhol passou um tempo no futebol alemão até retornar ao clube em 2013 e assumir de vez a lateral direita. Muito bom nos passes e com bom papel tático, foi um dos mais importantes jogadores do time naquele período de ouro. Não apoiava tanto ofensivamente como Marcelo, mas chegava muito bem quando subia ao ataque. Suas atuações o levaram à Seleção da Espanha. Foram 200 jogos com a camisa merengue entre 2013 e 2018.

Nacho: polivalente do setor defensivo, podia jogar como zagueiro, lateral-esquerdo ou lateral-direito com muita eficiência e regularidade. Chuta bem, tem bom passe e é muito aplicado taticamente. Jogou com mais frequência nas temporadas 2016-2017 e 2017-2018. Outro que conseguiu importantes convocações para a seleção espanhola e vaga na Copa do Mundo de 2018, na qual marcou um golaço na estreia do time contra Portugal (leia mais clicando aqui!).

Danilo: o brasileiro chegou em 2015 para ser uma boa opção às laterais. Não foi titular por causa da concorrência, mas cumpriu seu papel quando exigido. Sua melhor temporada foi a de 2015-2016, quando jogou 24 partidas em La Liga e sete na campanha do título da Liga dos Campeões. Em 2017, foi jogar no Manchester City-ING.

Sergio Ramos: ele é odiado por muitos. Principalmente pelos rivais. Não esconde de ninguém seu estilo de jogo – duro, implacável, às vezes desleal. Mas é um dos mais queridos pela torcida merengue, presente no clube desde 2005 e líder do time desde a saída de Casillas, em 2015. Capitão nato, foi a voz do Real em vários momentos, marcou gols espíritas em 2014, 2015 e 2016, fez grandes jogos e se consagrou de vez como um dos mais importantes atletas do clube em todos os tempos. Campeão de tudo, brilhou, também, pela Espanha bicampeã da Euro em 2008 e 2012 e campeã do mundo em 2010. Seu defeito é exatamente o jeito viril de jogar, que lhe rendeu alguns recordes: ser o jogador com mais cartões na história de La Liga (173) e o que mais foi expulso na história do torneio (19 vezes). Na Liga dos Campeões, é também o recordista em cartões na história do torneio (38, sendo 3 vermelhos). Haja cartão! Mas também haja taça na coleção do zagueirão – são 19 troféus com o Real Madrid e mais de 560 jogos com a camisa merengue – 8º na lista dos que mais vestiram o manto do clube na história.

Varane: alto, rápido, ótimo no jogo aéreo e em constante evolução, o francês foi uma das grandes surpresas do Real Madrid. Comprado junto ao Lens-FRA em 2011, demorou um pouco para assumir a titularidade, que só começou a acontecer na temporada 2014-2015. Na temporada 2016-2017, fez grandes jogos e marcou dois gols na caminhada do título continental merengue. Foi titular da França campeã do mundo na Copa de 2018. E, aos 24 anos, se tornou o mais jovem defensor a possuir no currículo três Ligas dos Campeões da UEFA, superando Paolo Maldini, campeão de sua terceira taça com 26.

Pepe: o português – que também adorava um cartãozinho como o companheiro Sergio Ramos – foi um dos mais frequentes titulares do Real entre 2007 e 2017. Por uma década, alternou grandes jogos com outros para se esquecer. Mesmo assim, ganhou o respeito da torcida pela fidelidade ao clube e os títulos que conquistou, além de crescer em momentos decisivos. Foram mais de 330 jogos com a camisa merengue e 13 títulos pelo clube.

Marcelo: chegou ao Real em 2007 e, ano após ano, foi ganhando espaço no time até virar titular absoluto e se tornar um dos melhores laterais-esquerdos do mundo e fazer o torcedor merengue ter um grande jogador na posição desde a saída do ídolo Roberto Carlos. Com técnica absurda, domínio de bola perfeito, passes precisos, cruzamentos, tabelinhas e golaços, foi fundamental para o período de ouro do clube principalmente por crescer nos momentos decisivos. Como ataca muito, jogando muitas vezes como um ala, tem deficiências na marcação. Já é um dos jogadores com mais jogos na história do Real (mais de 450 partidas) e cravou seu nome na história merengue.

Fábio Coentrão: o português podia jogar nas duas laterais e se destacava mais pela marcação. Acabou perdendo espaço no time com a ascensão de Marcelo e foi emprestado a partir de 2015. Fez bons jogos na era anterior a de Ancelotti, mas cumpriu seu papel na campanha do título europeu de 2013-2014 com seis jogos disputados.

Casemiro: o brasileiro chegou ao Real muito questionado, foi emprestado ao Porto em 2014, mas quando voltou… Virou simplesmente um jogador imprescindível para o técnico Zidane. Técnico, exímio ladrão de bolas e protetor do meio de campo, foi graças a ele que Kroos e Modric puderam pintar e bordar nas dezenas de jogos encantadores do Real naquele período. Além disso, marcou gols importantes – como na decisão da Liga dos Campeões de 2017. Tornou-se um dos jogadores mais respeitados no futebol europeu e ídolo da torcida. Disputou mais de 150 jogos pelo clube entre 2015 e 2018.

Xabi Alonso: jogou no Real de 2009 até 2014 e demonstrou sua enorme capacidade de meio-campista com passes precisos, presença no ataque, marcação e versatilidade. Embora tenha jogado justo na era de predomínio do rival Barcelona, não deixou o time sem antes vencer a Liga dos Campeões de 2014. Acabou não jogando a final por causa de uma suspensão, mas foi fundamental na campanha do título.

Khedira: jogou entre 2010 e 2015 no Real e foi outro a demonstrar muita regularidade no meio de campo. Ótimo nas roubadas de bola e no controle do jogo, fez grandes jogos na era Mourinho, mas perdeu espaço com a chegada de Ancelotti. Foi titular na decisão da Liga dos Campeões de 2014. Deixou o clube para jogar na Juventus.

James Rodríguez: após uma Copa do Mundo fantástica em 2014, o colombiano chegou com status de ser o novo camisa 10 do time. No entanto, foi muito abaixo do esperado, teve contusões e não apresentou o futebol de técnica e classe que o torcedor esperava. Sua melhor temporada foi a de 2014-2015, na qual disputou 46 partidas e marcou 17 gols. Acabou indo para o Bayern em 2017.

Modric: após quatro anos de brilho no Tottenham, o croata chegou ao Real em 2012 e ganhou o coração da torcida com atuações magistrais e um futebol de encher os olhos. Cerebral, rápido, com fôlego privilegiado, perigoso nos chutes, passador nato e ótimo tanto no apoio quanto na contenção, foi um dos melhores jogadores do time no período e se consagrou com um dos maiores craques do planeta. Esbanjou sua técnica, também, na Copa do Mundo de 2018 ao capitanear uma imortal Croácia vice-campeã. Disputou mais de 250 jogos e marcou 13 gols pelo Real entre 2012 e 2018.

Kovacic: outro jogador polivalente muito importante para o esquema tático de Zidane. O croata podia jogar como volante, meia e ponta com a mesma precisão e com a capacidade de driblar muito bem. Fez bons jogos no Campeonato Espanhol e se tornou um coringa muito útil naqueles anos de ouro. Foram 109 jogos e três gols entre 2015 e 2018.

Kroos: após brilhar pelo Bayern campeão do Treble e pela Alemanha campeã mundial, o alemão chegou ao Real em 2014 para agregar técnica, inteligência e precisão ao meio de campo do clube. Com atuações fantásticas, assistências, gols e muita regularidade, foi uma das mais certeiras contratações merengues em anos. Craque nato, sabia como ninguém a distribuir o jogo e criar alternativas para o ataque trucidar os rivais, além de ser especialista em bola parada. Foram 190 jogos e 12 gols pelo Real entre 2014 e 2018.

Di María: foi um dos principais jogadores na conquista da Liga dos Campeões de 2013-2014 com suas investidas, dribles e grandes jogadas no ataque madrileno. Jogou de 2010 até 2014 e faturou seis títulos com os merengues. Em 190 jogos, marcou 36 gols. Como perdeu espaço com a chegada de Bale, foi jogar no futebol inglês em 2014.

Bale: contratação mais cara da história do Real Madrid (cerca de 100 milhões de euros), o galês chegou com muita pompa ao time e iniciou sua trajetória com atuações de gala, dribles, velocidade (o zagueiro Bartra procura Bale até hoje…), gols e muita regularidade. No entanto, enfrentou um inferno astral a partir da segunda metade de 2016 com lesões que o tiraram do time e desmantelou a BBC. Mas, em 2018, voltou a jogar bem na reta final do Espanhol e teve uma atuação estrondosa na decisão da Liga dos Campeões com dois gols e o recado de que deveria jogar mais entre os titulares. Foram 189 jogos e 88 gols entre 2013 e 2018 pelo Real.

Isco: após ser revelado pelo Valencia e fazer boas temporadas no Málaga, Francisco Román Alarcón Suárez foi contratado pelo Real em 2013 e conseguiu cravar seu espaço no time mesmo com Bale no páreo. Sob as mãos de Zidane, o craque cresceu demais de produção e esbanjou técnica no meio de campo e ataque do time merengue. Marcou gols, deu assistências, participou dos grandes momentos decisivos do time entre 2016 e 2018 e entrou para a história. Foram 240 jogos e 41 gols entre 2013 e 2018 pelo Real, além de seguidas convocações para a seleção da Espanha.

Lucas Vázquez: outra cria das bases, o arisco e rápido Vázquez foi outra peça importante no esquema tático de Zidane e jogou várias partidas como titular, além de entrar no decorrer de vários jogos. Reserva de luxo, fez partidas brilhantes no Espanhol e nas Ligas dos Campeões de 2016-2017 e 2017-2018.

Benzema: forte, com bom domínio de bola, matador e sempre rondando a área adversária à procura de um erro, uma bobeada, para deixar a redonda dentro do gol. O francês, contratado em 2009, foi um dos principais nomes do prolífico ataque madrileno naquele período e se entendeu muito bem com Cristiano Ronaldo e Bale na célebre BBC. Foram 413 jogos e 192 gols pelo clube, além de participar ativamente dos momentos decisivos do time tanto na era Ancelotti quanto na era Zidane.

Asensio: chegou em 2014 ao Real, foi emprestado, mas voltou para ser um 12º jogador de Zidane em vários momentos. Rápido, com ampla visão de jogo, perito nos passes e ótimo finalizador, foi fundamental na campanha dos títulos europeus de 2017 e 2018, principalmente neste último, quando fez atuações de gala no mata-mata, em especial contra o Bayern. Foram 91 jogos e 21 gols entre 2016 e 2018.  

Morata: outra cria das bases, o atacante fez uma grande temporada em 2016-2017 ao anotar 15 gols em 26 jogos da campanha do título do Campeonato Espanhol e mostrar a força do elenco de Zidane naquela temporada. Após a taça, foi jogar no Chelsea.

Cristiano Ronaldo: o que dizer do português? O texto que você acabou de ler foi praticamente um balanço da melhor fase da carreira de um dos maiores jogadores da história do futebol mundial. Jogador que simbolizou uma era no Real Madrid. Que conseguiu se transformar no maior artilheiro da história do clube com 451 gols em 438 jogos – uma absurda média de 1,03 gols por jogo. Mais gols do que jogos. Que estraçalhou tabus. Colecionou recordes. Taças. E gols, gols e gols. Cristiano Ronaldo foi a maior máquina de gols do futebol naqueles anos. O maior finalizador do futebol, talvez um dos maiores de todos os tempos. Quando aparecia a oportunidade, ele fazia o gol. Não errava. Atleta perfeito, raramente se contundia. E mostrou perfeita sintonia com a competição mais querida pelo Real: a Liga dos Campeões. Foi o primeiro jogador a marcar em todos os jogos da fase de grupos de uma Liga, em 2017-2018. Recordista de gols em uma fase de grupos (11, em 2015-2016). Único a vencer a Liga dos Campeões por cinco vezes na era moderna. Primeiro a marcar 100 gols na Liga dos Campeões, em 2017. E, em fevereiro de 2018, o primeiro a chegar aos 100 gols na UCL por um só clube. É o dono do Top 3 das maiores artilharias da história do torneio – 17 gols (2014), 16 gols (2016) e 15 gols (2018). Cristiano Ronaldo reside hoje no Olimpo madridista. Senta ao lado de Di Stéfano, de Raúl. Representa uma dinastia. Um craque imortal.

Carlo Ancelotti, Rafa Benítez e Zinedine Zidane (Técnicos): Ancelotti conseguiu quebrar paradigmas, sepultar fantasmas e levantar com o Real a sonhada La Décima, em 2014, com uma campanha exemplar e goleadas históricas sobre o Bayern e mesmo sobre o Atlético, na final. Foi injustiçado com sua demissão, provada após o desempenho pífio de Benítez. Mas tudo voltou à normalidade com Zidane, que mostrou talento, sorte, brilho e inteligência para transformar o Real num dos times mais competitivos da história. Trabalhou o elenco, criou uma base vencedora e entrou para a história. Disputou oito finais. Venceu todas. Acumulou 104 vitórias, 29 empates e 16 derrotas. Aproveitamento de 69,8%. Foi o segundo treinador mais vitorioso da história do clube. Simplesmente fantástico.

 

Os números do Tri:

2015-2016

J V E D GM GS
13 9 3 1 28 6

 

2016-2017

J V E D GM GS
13 9 3 1 36 18

 

2017-2018

J V E D GM GS
13 9 2 2 33 16

 

TOTAL:

J V E D GM GS
33 27 8 4 97 40

 

Extras:

Melhores momentos da goleada de 4 a 0 sobre o Bayern em 2014.

 

Veja os melhores momentos da final de 2017.

Veja os melhores momentos da final de 2018.

 

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15 thoughts on “Esquadrão Imortal – Real Madrid 2013-2018

  1. Simplesmente fantástico esse esquadrão, e o Marcelo jogou barbaridades nos últimos dois anos (aquele domínio contra o Bayern…). Eu não gostava do Real e do Cr7, mas depois desses 3 títulos seguidos e da campanha de Portugal na Eurocopa de 2016 (ele fez um golaço decisivo de letra) é impossível não ser fã do Real, do Cr7… Enfim, do futebol europeu. Parabéns pelo ótimo trabalho.

  2. Ótimo texto,Imortais do Futebol.sou cruzeirense e gostaria muito q vc imortalizasse o Cruzeirão Cabuloso,q foi campeão da Copa do Brasil de 1996,quando muitos achavam impossível derrotar a supermáquina palmeirense dos 102 gols no Paulistão,e da Libertadores de 1997.abraços,cara e espero q vc me responda

  3. Texto espetacular !!. Se não houvesse o Barcelona do Guardiola, diria que foram o melhor time do século XXI. Mais pelo menos em títulos, essa dúvida não existe. Um time muito bom tecnicamente e que colecionou (e coleciona) recordes. Liderados por dois gênios (Cristiano Ronaldo e Zidane), com adições de três craques do bola (Kroos, Modric e Marcelo) e coadjuvantes de luxo (Bale, Isco, Benzema, Navas, Sérgio Ramos, Varane…).
    Um time que em taças só se compara ao próprio Real (1955-1960) e ao Santos (1960-69). Um auge que vai ser difícil de ser alcançado nesse século. E o que falar do Cristiano Ronaldo. Para mim (ão lado do Romário) é maior finalizador de todos os tempos !!. E Se os dois clubes supracitados tiveram seus ícones (Real de Di Stéfano e Santos de Pelé) esse Real pode sim ser chamado de Real do Cristiano Ronaldo. Um imortal que só escala mais o olimpo.

  4. Gostei do Real de 2014 e 2016 e odiei o Real de 2017 e principalmente o Real de 2018. Muito apito a favor e nem tanto Futebol assim. O Real de 2018 pra mim só não foi mais ridículo que o Chelsea de 2012. Saiu Campeão graças a muita sorte, apito a favor e a estrela de CR7.

  5. O Real Madrid mantem um nível que é dificil de ser superado, por exemplo o Santos de Pelé encantou o mundo, mas depois as gerações vindouras do clube da Vila Belmiro não conseguiram nem aproximar do patamar daquela máquina dos anos 60. O Real Madrid desde Puskas e Di Stefano vem montando verdadeiros esquadrões e é o maior papa títulos do mundo. Hoje praticamente não tem adversário mesmo tendo vendido Cristiano Ronaldo para a Juventus da Itália.

  6. Parabéns pelo texto, esse Real Madrid encantou o mundo com seus grandes jogadores no auge de suas carreiras, um time que ficará na história , poderia fazer também do esquadrão imortal do Chile BI campeão da copa América

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