Jogos Eternos – Vasco 1×3 Flamengo 2001

Data: 27 de maio de 2001

O que estava em jogo: o título do Campeonato Carioca de 2001.

Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Juiz: Léo Feldman

Público: 62.555 pessoas

Os Times:

Clube de Regatas Vasco da Gama: Helton, Clebson, Géder (Odvan), Torres e Jorginho Paulista; Fabiano Eller, Paulo Miranda, Pedrinho (Jorginho) e Juninho Paulista; Euller e Viola (Dedé). Técnico: Joel Santana.

Clube de Regatas do Flamengo: Júlio César, Alessandro (Maurinho), Juan, Fernando e Cássio; Leandro Ávila, Rocha, Beto (Jorginho) e Petkovic; Edílson e Reinaldo (Roma). Técnico: Zagallo.

Placar: Vasco 1×3 Flamengo. Gols: (Edílson-FLA, PEN, aos 23’, e Juninho Paulista-VAS, aos 40’ do 1º T; Edílson-FLA, aos 8’, e Petkovic-FLA, aos 43’ do 2ºT).

 

Perfeição Épica do Tri”

 

Pelo terceiro ano seguido, o Clássico dos Milhões decidia o Campeonato Carioca. Nas duas decisões anteriores, deu Flamengo. Naquela terceira, o filme parecia se encaminhar para um final diferente. O Vasco tinha a vantagem de perder por até um gol de diferença. Tinha, no papel, até mais time que o rival. Era experiente. Vinha de grandes momentos desde 1997. Mas o rubro-negro contava com uma inspiração extra: o tricampeonato. Algo para poucos no futebol do Rio, mas muito comum para o Flamengo, dono de três ‘tris’. Ele queria o quarto. A chance era única. Ter uma oportunidade como aquela poderia demorar anos, décadas. Desde 1979 que ele não era tri. E o último no estado havia sido o próprio Vasco, em 1994, status que ele queria manter. O Flamengo tinha Zagallo no banco, pé quente, Velho Lobo de grandes momentos do futebol, de grandes títulos. Tinha um novato Júlio César no gol. Um grande zagueiro (Juan). Um capetinha goleador e artilheiro no ataque (Edílson). E um maestro com a camisa 10, camisa que fora de seu ídolo e que ele vestia tão bem: Petkovic. Só que o Flamengo foi para o intervalo com um empate de 1 a 1. O título era do Vasco. A torcida cruz-maltina não via a hora. Chega de perder para o rival! Uma vez tudo bem, duas já era insuportável, mas três? Veio o segundo tempo. Petkovic começou a aparecer. Nas bolas paradas, azucrinava. Mas também aprontava com ela rolando, como no momento em que efetuou um cruzamento perfeito para o pequenino Edílson virar gigante e cabecear também de maneira perfeita para o gol logo no comecinho da segunda etapa: 2 a 1. O tempo passava e a bola não entrava. Melhor para o Vasco. Até que, aos 43’, Pet teve a seu favor uma cobrança de falta. Era a bola do jogo. Se ela entrasse, o Flamengo era tricampeão. O torcedor terminava de roer os últimos vestígios de unhas. Mordia a bandeira embrulhada. Colocava a mão no rosto. Outros não queriam nem olhar. Pet treinava à exaustão cobranças de falta. Mas repito: era de muito longe. Tinha a barreira. Tinha Helton, um ótimo goleiro, no gol. Era um desafio enorme. Por mais especialista que ele fosse, acertar dali seria uma enormidade. Pet bateu. A bola passou pela barreira. Helton saltou demais, elástico, voador. Mas a bola conseguiu passar pela única lacuna disponível no ângulo do gol do Maracanã. Ela entrou, foi se aconchegar no lindo véu de noiva que era aquele gol enorme do saudoso colosso de concreto. Foi gol. Do Flamengo. Gol de Pet. Que transformou seu apelido em uma sigla. Perfeição Épica do Tri. Foi talvez a cobrança de falta mais incrível da história daquele estádio. Por mais que o Maraca tenha visto obras primas de Didi, Rivellino, Zico e companhia, a de Pet superava o sentido lógico. Era algo quase inacreditável. Inexplicável. Inesquecível. Foi um dos gols mais gritados da história do Flamengo em uma das finais mais épicas do Clássico dos Milhões. E pensar que ele quase não aconteceu. É hora de relembrar.

 

Pré-jogo

 

Flamengo e Vasco chegaram à final sob muita tensão. A rivalidade entre os dois estava aflorada há muitos anos, mas naquela época ela era gritante. Após períodos de ouro entre 1997 e 2000, quando emendou títulos estaduais, nacionais e até continentais, o Vasco começava a cair de produção justo quando o maior rival mostrava força para voltar a brilhar. A equipe rubro-negra faturou os dois estaduais anteriores em cima do rival cruz-maltino (algo não digerido pelos vascaínos, que clamavam pela desforra), começava a lapidar boas promessas das categorias de base como Júlio César, Juan, Reinaldo e Adriano e estava na decisão do Estadual após o título da Taça Guanabara. Com o experiente Zagallo no comando técnico, o Flamengo tinha muita força ofensiva com Edílson em grande fase, ao lado de Reinaldo, e a distribuição de jogo impecável de Petkovic no meio. Porém, a semana anterior à finalíssima não foi nada boa para o clube. No primeiro duelo da final, o Flamengo perdeu de virada por 2 a 1 para o Vasco, gols de Viola e Juninho Paulista, este aos 43’ do segundo tempo (guarde bem esse número). O revés obrigava o time da Gávea a vencer a volta por dois gols de diferença. No meio do caminho, a equipe foi eliminada da Copa do Brasil após empate em 1 a 1 com o Coritiba e o clima de tensão aumentou ainda mais. Para piorar, o clube vivia atrasando salários e a estrela do time, Petkovic, ameaçava não entrar em campo por causa dos oito meses (!) sem pagamentos e de promessas que não eram cumpridas. Dias antes, a diretoria pagou todos os jogadores, menos Pet. Disseram a ele que, como eram devidos oito meses, ele iria receber dois meses atrasados de uma vez na quinta-feira, antes do duelo do domingo. A quinta chegou e Pet ficou à deriva. Veio a sexta-feira e nada. Indignado, o sérvio deixou a concentração e foi para casa.

 

“Fiquei chateado, apelei mesmo, briguei com eles e fui embora para casa, não fui para a concentração. Liguei para o meu amigo (Wilsão), falei que não ia jogar. Ele tentou me convencer, ficamos juntos até meia-noite, quando ele conseguiu me convencer que estava jogando pela torcida, que os dirigentes eram passageiros. O Wilsão me disse para depois do jogo explicar para todo mundo, ir embora, mas conversou comigo, falou: “Sem você nossas chances diminuem ainda mais”. Falei “tá bom”. Fui para a concentração, cheguei ao restaurante por volta de 0h30, estava toda a cúpula do futebol. Sem falar com eles, sentei numa mesa. O gerente de futebol (Chimello) veio falar comigo e perguntou: “Parceiro, estamos dentro?”. Respondi: “Se não estivesse, eu viria para cá?!”. Ele pediu desculpas e falou: “Está com fome, quer jantar?”. Eu disse: “Não vim aqui falar com vocês, lógico que quero jantar”. Ele pediu para sentar, deixei, mas avisei que os outros nem deveriam se aproximar. Jantei e fui dormir.” – Petkovic, em entrevista ao globoesporte.com, 26 de maio de 2011.

 

Petkovic (à dir.) era uma das armas do Flamengo para a final, mas quase ficou de fora por causa da diretoria.

 

No dia seguinte, Zagallo conversou com Petkovic e deu voto de confiança ao jogador. Ele jogaria para a torcida. Júlio César animou o sérvio dizendo “vamos lá, depois a gente quebra com eles”. Todos estavam unidos em busca do tri. Desde 1979 que o Flamengo não conseguia tal sequência no campeonato estadual. E era justamente o Vasco o último tricampeão do torneio, mas lá no longínquo ano de 1994. O jogo seria dificílimo, afinal, além da vantagem, o time de São Januário teria Viola, Juninho Paulista, Euller, Pedrinho, o goleiro Helton e o técnico Joel Santana e sua “prancheta mágica”, sempre pé quente quando o assunto era final de Carioca. Isso porque Romário, com dores na panturrilha, não iria jogar. E havia um dado curioso: nos últimos 20 anos, apenas uma vez o time que venceu o primeiro jogo perdeu o segundo e também o título (em 1997, quando o Vasco perdeu para o Botafogo a segunda partida). Mais de 60 mil pessoas eram esperadas no Maracanã, pronto para sediar um clássico para a história.

Juninho e Romário (que não jogaria a decisão), estrelas vascaínas. Foto: Fernando Maia / Agência O Globo.

 

Primeiro tempo – Lá e cá

Com o estádio dividido entre vascaínos e flamenguistas, o clima da decisão era o mais completo possível: olhares compenetrados, jogadores concentrados. O Flamengo teria que se virar sem Gamarra, ausência sentida na zaga – Fernando era seu substituto. O defensor era um dos que compunham o incrível número de atletas formado nas categorias de base entre os titulares: dos 11, sete eram da base: o quarteto da zaga, o goleiro Júlio César, o meia Rocha e o atacante Reinaldo, um enorme contraste com o experiente Vasco e suas estrelas tão acostumadas às decisões. Em um minuto, duas faltas, as duas de Viola, mostraram que aquele duelo seria bem nervoso. Na área técnica, Joel observava tudo com sua prancheta embaixo do braço. Zagallo vestia uma camisa personalizada do Flamengo com o número 13, mas teve que usar um colete amarelo para não causar confusão com a dos jogadores. Mas, para o Velho Lobo, não era problema. Afinal, uma amarelinha sempre lhe caía bem. Aos 2’, a primeira falta perigosa para o Flamengo, em Edílson. Pet foi na bola pela primeira vez. Ele mandou para a área, mas a zaga tirou. Edílson, ligado, brigava pela redonda com os zagueiros e corria demais. Sem Romário no páreo, o Capetinha tinha a chance de assumir a artilharia sozinho. Aos 4’, Beto, o outro batedor do Mengo, bateu falta e a bola desviou na zaga, indo para escanteio. Após a cobrança, o Vasco conseguiu recuperar a bola e engatilhou um contra-ataque com Juninho, a maior estrela daquele time. O pequenino saiu em disparada do meio de campo, passou por dois, chutou e Júlio César defendeu. De novo com a bola, Petkovic jogava fácil, passava pelos adversários com sua categoria e encontrava os espaços certos para passes precisos. O jogo era elétrico. Cheio de faltas. Nervoso. Aos 8’, falta de Juninho em Edílson. Pet levantou para Juan, mas o zagueiro estava impedido.

Os times em campo: Fla teve mais posse de bola, mas o Vasco era muito perigoso nos contra-ataques.

 

Aos 12 minutos já eram 12 faltas marcadas, dez do Vasco e duas do Flamengo. Uma falta por minuto. Aos 13’, após outra falta, o primeiro desentendimento do jogo entre Beto e Clebson. Ambos levaram amarelo. Aos 15’, pressão flamenguista e um chute de Juan acabou defendido por Helton. O Flamengo mandava no jogo. Tinha a posse de bola. Mas era o Vasco quem levava perigo. Aos 17’, boa jogada de Euller, que invadiu a área e demorou demais para chutar. Segundos depois, Viola apareceu, deu um tapa na bola típico de matador, mas Júlio César fez linda defesa com os pés. Na sequência, Clebson derrubou Cássio na área. Pênalti. Edílson bateu de um lado, Helton foi pro outro: gol. Flamengo na frente e 15º gol de Edílson no campeonato. Só faltava um golzinho para a vantagem ser rubro-negra. Aos 24’, quase Viola empatou ao se jogar na bola após cruzamento da esquerda. Nos minutos seguintes, o Vasco não conseguiu mais se impor e ficava travado no meio de campo. Pela esquerda, o Flamengo ameaçava bastante diante da partida ruim de Clebson, nulo na marcação. Até que, aos 30’, Euller driblou Fernando e saiu em disparada do jeito que ele mais gostava. Alessandro chegou por trás, atropelou o camisa 7 e o juiz não deu nada. Hoje, seria pênalti. E dos mais escandalosos. Mas o árbitro incrivelmente não marcou.

Passada meia hora de jogo, Odvan começou aquecimento para entrar no lugar de Geder, que sentiu a coxa. O defensor era um dos recordistas em jogos pelo time naquele campeonato – só havia ficado de fora de uma partida. Aos 33’, Paulo Miranda iniciou um ataque vindo de trás, partiu até o meio de campo, abriu os braços e pediu a aproximação dos companheiros. Ela veio. Jorginho Paulista apareceu, recebeu, foi pela esquerda, olhou para a entrada da área e viu Euller. O atacante recebeu e chutou por baixo de Júlio César. Gol. Mas não valeu. O vascaíno estava muito à frente do último homem da zaga em completo impedimento. A torcida do Vasco ficou ainda mais brava. E o jogo mais tenso, nervoso, com mais e mais faltas. Ao mesmo tempo, era aberto, com espaços para os times tocarem e tentarem jogadas, inverterem o jogo. Aos 37’, o Vasco chegou perto da área flamenguista com toques curtos, mas Juan roubou e saiu jogando com imensa categoria, mostrando que já era uma grata revelação do futebol nacional. Ele deixou vários adversários para trás e só foi parado no meio de campo com falta de Jorginho Paulista, que levou amarelo. Um minuto depois, foi Juan quem foi advertido com cartão amarelo por colocar a mão na bola perto da lateral ao se desequilibrar e parar o lance.

Até que, aos 40’, o Vasco recuperou a bola após Alessandro não conseguir rifá-la, Juan foi meio estranho na dividida com Viola, o vascaíno ganhou, entrou na área e, sem ângulo e com dois marcadores à sua frente dentro da área, só rolou para Juninho fazer: 1 a 1. Festa cruzmaltina! E volta à estaca zero para o Flamengo, obrigado a fazer mais dois gols. Aos 42’, Juninho roubou a bola de Pet e engatilhou um contra-ataque, mas o sérvio foi atrás e o parou com falta. Um minuto depois, Beto tocou errado em pleno meio de campo e Juninho aproveitou a bobeada. Ele avançou sozinho e com zaga rubro-negra totalmente desarrumada. Estava impossível o camisa 10 vascaíno. Após avançar e driblar Fernando, o meia chutou, mas Júlio César outra vez fez uma grande defesa. Àquela altura, o Flamengo precisava desesperadamente do fim do primeiro tempo. O time estava perdido. Sem rumo. O domínio do jogo naquela primeira etapa foi predominantemente rubro-negro, mas o Vasco foi quem construiu as melhores e mais precisas oportunidades. E ainda teve um pênalti claríssimo não marcado. O empate estava barato para o Mengo. Até que acabou. Após os 45 minutos, o primeiro campeão carioca do novo milênio era o Vasco da Gama.  

 

Segundo tempo – A obra-prima

Edilson marca para o Flamengo logo no começo do segundo tempo.

 

Sem modificações, os times voltaram do intervalo e logo aos 50 segundos Beto iniciou um ataque pelo meio, passou como quis pelos adversários, tocou na esquerda para Petkovic e o sérvio cruzou para Edílson. O Capetinha cabeceou, mas a bola bateu na zaga e foi para escanteio. Era a primeira mostra do que o Flamengo iria explorar naquela segunda etapa: o talento de seu camisa 10. Zagallo colocou o craque para atuar bem ali na esquerda, junto com Cássio, para explorar a fragilidade da marcação de Clebson. Aos 5’, Pet recebeu de Edílson e chutou de fora da área, mas Helton defendeu. O Flamengo era todo ataque. O Vasco nitidamente iria apenas explorar os contra-ataques. E, mesmo, recuado, as chances apareciam. Com Viola, que chutou com o pé ruim (direito). Juninho, desarmado por Juan. O time de São Januário era perigoso, mas cometia erros banais de posicionamento, como aos 7’, quando Pedrinho e Viola estavam muito à frente e desperdiçaram a chance de virar o placar quando Clebson levantou na área e o bandeirinha marcou impedimento. Foi então que, aos 8’, apareceu a jogada tão esperada pelo Flamengo. Petkovic, na esquerda, driblou Paulo Miranda, levantou a cabeça e cruzou na medida. Ele sabia que Edílson era baixinho. E viu que Odvan estava bem longe do atacante. Com isso, impôs a força necessária para a bola subir e ir caindo até chegar a uma altura perfeita para o atacante subir, alcançar e testar firme e forte pro fundo do gol de Helton: 2 a 1. Golaço! Artilharia plena do campeonato para o atacante! Faltava um gol. Com mais de meia hora de jogo, o tricampeonato era possível! O Vasco tentou responder aos 10’, com falta a seu favor na entrada da área. Naquele instante, o jogo já tinha 26 faltas do Vasco e 11 do Flamengo. Juninho bateu, a bola passou pela barreira, Júlio César nem foi, a bola raspou o travessão e foi para fora. Pet viu. E deve ter dado aquele sorrisinho como quem diz “eu faria…”.

Segundos depois, o Flamengo tentou uma triangulação pelo meio com Pet, Juan e Edílson, mas o Vasco tomou e engatilhou um contra-ataque fulminante com Euller pela esquerda. Ele saiu em disparada, óbvio que ninguém conseguiu pegá-lo (ele era o “filho do vento”), o atacante entrou na área, driblou Júlio César, mas correu tanto que ficou sem ângulo e chutou nas pernas de Leandro Ávila para ganhar o escanteio. Como no primeiro tempo, o jogo era lá e cá, eletrizante! Aos 13’, Euller, infernal, se mandou pela esquerda, entortou a espinha de Juan e obrigou Júlio César a fazer mais uma defesaça. Aliás, o duelo Juan / Euller era muito bacana de se ver. A resposta rubro-negra veio em novo ataque pela esquerda, com Pet, que tocou no meio para Beto, este tentou a bola para Reinaldo, mas a zaga vascaína ganhou.

Roma e Juninho. Foto: AE.

 

Aos 16’, Beto reclamou de dores e deixou Zagallo em alerta para mudar. Pet também foi falar com o treinador sobre as dores do meio campista, mas ele não queria sair. Quem saiu foi Reinaldo, aos 19’, para entrada de Roma. E a alteração foi um desastre. Nos três passes que deu, entre os 19’ e os 23’, ele errou os três. E dois deram contra-ataques para o Vasco. Em um deles, aos 23’, Jorginho foi em direção ao ataque pela esquerda, livre, mas tropeçou de maneira bizarra, com o bico do pé. Nelson Rodrigues teria dito que foi um leve empurrãozinho de Sobrenatural de Almeida, ser imaginário e tão atuante naquele antigo e saudoso Maracanã. Aos 25’, Pet cobrou escanteio fechado para tentar um gol olímpico, mas Helton defendeu. Na sequência, Pedrinho derrubou Roma perto da grande área. O Vasco cometia muitas faltas por ali. Era um perigo… Eles brincavam com fogo. Ou melhor, com Pet. Na cobrança, o camisa 10 chutou, a bola tocou na barreira e foi para escanteio. Após a cobrança, Helton ficou com a redonda e já engatilhou um contra-ataque com Juninho lançando com as mãos, uma virtude marcante do camisa 1. Juninho lançou para Euller, mas Júlio César saiu bem para defender.

Faltavam apenas quinze minutos. Beto, enfim, pediu para sair e foi substituído por Jorginho. Viola também saiu e deu lugar à Dedé. O jogo continuava faltoso, mas limpo, sem expulsões e imprevisível. O Vasco parava de atacar. O Flamengo seguia com a posse. Aos 37’, a torcida empurrava o time, que precisava demais do apoio de sua nação. A do Vasco não deixava por menos e respondia. Aos 38’, Euller, de novo, partiu pela esquerda, foi para a corrida, ganhou mais uma, dessa vez de Leandro Ávila, chutou, e Júlio César, em tarde inspirada, defendeu. Ele e Helton eram os melhores goleiros jovens do Brasil, sem dúvida alguma. Grandes revelações. Zagallo fez sua última alteração, aos 38’, ao colocar Maurinho no lugar de Alessandro, que correu demais naquela partida. Aos 39’, outra falta perto da área a favor do Flamengo. Pet bateu baixo, a bola passou, mas Helton pegou. O Flamengo era todo ataque. Faltavam quatro minutos. Novo escanteio para o Mengo. Pet bateu direto, Helton pegou, ligou o contra-ataque com Juninho, sempre livre pela esquerda. Euller recebeu do camisa 10 na direita, chutou fraco e o camisa 1 flamenguista pegou. Era impressionante a velocidade do jogo. A disposição. A vontade. Nada de toquinhos, cera, nada.

Zagallo, a camisa do Flamengo e uma amarelinha por cima. Foto: Hipólito Pereira/Agência O Globo.

 

Aí foi a vez de Júlio engatar um contra-ataque no meio. Cássio recebeu, mas sofreu falta. Cobrou rápido, para Juan, que tocou na direita para Maurinho. Este foi para o ataque, tentou Edílson, mas a zaga tirou. Voltou para ele, que deixou com Leandro. Naquele instante, os refletores começaram a ser ligados. Leandro tocou para Edílson, que sofreu falta de Fabiano Eller. O relógio marcava 43’. Cerca de 25 metros separavam a bola do gol. Era de longe. Naquele enorme Maracanã, aumentava ainda mais a dificuldade. Petkovic tinha mais uma chance. A última chance. As arquibancadas começaram a mandar vibrações para ele. A expectativa era enorme. No banco, os jogadores vestiam o semblante de torcedor. Estavam angustiados. Zagallo tentava encontrar alguma alusão ao número 13, mas não achava. 43 minutos… 4+3 não dava 13…43 – 10 da camisa do Pet também não…Vixe… Tudo estava nos pés de Petkovic mesmo. Ali, seria um divisor de águas, futuros. A barreira era enorme. Pet foi para a bola e bateu. Ele misturou força com precisão. A barreira inteira pulou e virou. Viu o quanto Helton saltou. A bola ainda tocou de leve o indicador do camisa 1. E entrou no único lugar inalcançável pelo cruzmaltino. Antes de tocar o travessão. No mais perfeito ângulo. Sim, foi gol. Uma obra-prima. Um dos gols mais impressionantes e lindos da história do futebol. Sim, não estou falando apenas do futebol brasileiro. Mundial. É só ver abaixo, caro leitor (a). Não é exagero. É pura constatação:

 

 

A curva que a bola fez. O jeito como caiu. A precisão e força do chute. Foi lindo demais. Emocionante demais. Decisivo demais. Pet saiu correndo extravasando, em puro êxtase, como todo flamenguista saiu pelas ruas, pelas portas dos bares e botequins, e do jeito que os milhares ali, na arquibancada, queriam correr, mas não podiam por falta de espaço. Pet foi até a beira do gramado e desabou no gramado sagrado do Maracanã como se fosse um leito de conforto, para descansar após uma semana tão estressante e de um jogo tão elétrico. Era o descanso de um campeão. De um ser que entrava para o rol dos imortais do Clube de Regatas do Flamengo. Ele não era mais Petkovic. Era um ídolo.

Adriano e Zagallo na comemoração após o gol.

 

Foi apenas o terceiro dele no campeonato. O 10º em cobrança de falta com a camisa do Flamengo. A comemoração invadiu o gramado. Jogadores reservas entraram em campo. Comissão técnica, fotógrafos. Até Nunes, o matador do esquadrão dos anos 80, estava lá, vibrando e empurrando a massa, como um amuleto. A polícia tentou ajudar a conter aquela euforia e possibilitar o recomeço do jogo. Já no meio de campo, Pet ainda estava atônito, parecia não entender o que tinha acabado de fazer. Quando a bola voltou a rolar, os 45 minutos já apareciam no relógio. A torcida cantava “Tricampeão” enquanto o árbitro sinalizava mais quatro minutos de acréscimos. Seria alusão ao quarto tricampeonato? Quando o cronômetro chegou ao exato 49’, acabou. O Flamengo era tricampeão carioca. Três vezes em cima do Vasco. Pela primeira vez, um tri conquistado sobre um mesmo rival. Era hora de extravasar. Chorar. Houve um desentendimento entre Beto e os jogadores do Vasco, mas rapidamente contido pela turma do deixa disso. Zagallo, muito emocionado, quase passou mal. Aos 69 anos, o Velho Lobo voltava a escrever seu nome na história. Fora campeão como jogador lá nos anos 50 pelo próprio Flamengo. E era como treinador também. Após respirar e se acalmar, ele falou:

 

“Os jogadores se entregaram dentro de campo. Procuraram até o final e foi merecido porque eles tiveram uma semana complicada e superaram isso tudo. É um tri gostoso demais!”Zagallo.

 

Certamente foi, para cada flamenguista. De todos os tris, aquele era o mais emblemático, o mais emocionante, o mais gritado. Nunca saiu e nunca sairá da memória do torcedor. Como nunca repetiram um gol como aquele de Pet. A Perfeição Épica do Tri.

 

Pós-jogo: O que aconteceu depois?

 

Vasco: o revés simbolizou o início de tempos tenebrosos em São Januário. O time competitivo e copeiro daria lugar a um punhado de jogadores medianos. Em 2003, o clube até levantou um Campeonato Carioca – curiosamente com Petkovic no elenco durante a campanha -, mas voltou a ser vice diante do Flamengo em quatro ocasiões: no Estadual de 2004, na Copa do Brasil de 2006 – primeira e até hoje única decisão nacional entre os rivais na história – 2011 e 2014, ambas no Estadual. Com isso, o clube continua sob uma sina difícil de ser quebrada: desde 1998 que o Vasco não termina um torneio como campeão e o Flamengo como vice.

Flamengo: ainda no embalo do título, o Flamengo disputou e venceu a Copa dos Campeões de 2001 em duas finais de tirar o fôlego contra o São Paulo de Rogério Ceni, Belletti, Fábio Simplício, Kaká, Luís Fabiano e França. No primeiro duelo, deu Flamengo: 5 a 3. No segundo, vitória tricolor por 3 a 2, mas insuficiente para tirar o título do Fla. Nesse jogo, Petkovic provou que o golaço contra o Vasco não foi obra do acaso. Foi técnica mesmo. Ele marcou um quase idêntico, com a mesma curva, mesmo trajeto, no ângulo de Rogério. No ano seguinte, Pet acabou indo para o Vasco, mas permaneceu pouco tempo por lá. Foi jogar no futebol chinês, voltou ao Vasco, ajudou o time a não ser rebaixado no Brasileiro, teve algumas passagens por outros times até voltar ao Fla em 2009, justamente o ano em que o clube venceu outro tricampeonato estadual, daquela vez sobre o rival Botafogo em todas as decisões. Pet foi um dos destaques do time na conquista do Campeonato Brasileiro daquele ano, que marcou o fim do jejum de 17 anos sem conquistas na competição. O sérvio foi um grande garçom, marcou alguns gols e deu os passes para os dois gols da vitória sobre o Grêmio por 2 a 1 que sacramentou o título nacional daquele ano. E uma curiosidade: ele não vestiu a camisa 10, já com Adriano. Ele preferiu a 43. Alusão aos 43 gols que havia marcado em sua primeira passagem pelo clube. E, principalmente, ao minuto do gol mais importante de sua carreira. E ao minuto que percorre as memórias e devaneios de todo rubro-negro até hoje.

Pet e a camisa 43.

 

Extras:

 

Veja o gol de Pet contra o São Paulo. Parece repeteco.

 

Veja os gols daquele jogaço.

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