Craque Imortal – Arsenio Erico

Nascimento: 30 de março de 1915, em Assunção, Paraguai. Faleceu em 23 de julho de 1977, em Buenos Aires, Argentina.

Posições: Atacante e Centroavante

Clubes: Nacional-PAR (1930-1933, 1942 e 1947-1949), Independiente-ARG (1934-1942 e 1943-1946) e Huracán-ARG (1946-1947).

Principais títulos por clubes: 2 Campeonatos Argentinos (1938 e 1939), 2 Copas Ibarguren (1938 e 1939), 2 Copas Aldao (1938 e 1939) e 1 Copa Escobar (1939) pelo Independiente.

1 Campeonato Paraguaio (1942) pelo Nacional.

 

Principais títulos individuais e artilharias:

Artilheiro do Campeonato Argentino: 1937 (47 gols), 1938 (43 gols) e 1939 (40 gols)

Maior Artilheiro da história do Campeonato Argentino: 295 gols em 334 jogos

Único Jogador na história do Campeonato Argentino a marcar mais de 40 gols em uma única temporada (1937 – 47 gols e 1938 – 43 gols)

Maior Artilheiro em uma só edição do Campeonato Argentino em todos os tempos: 47 gols, em 1937

Maior Artilheiro da história do Independiente: 295 gols em 325 jogos (contando apenas jogos no futebol argentino)

Maior Artilheiro da história do Clássico de Avellaneda: 19 gols

Eleito o 49º Maior Jogador do Século XX pela IFFHS

Eleito o 8º Maior Jogador Sul-Americano do Século XX pela IFFHS

Considerado o Maior Jogador Paraguaio de Todos os Tempos pela FIFA

 

“El Saltarín de Oro”

 

Em tempos de bola pesada, ele não hesitava em cabecear com uma força descomunal. Em tempos de chuteiras arcaicas e sem a parafernália tecnológica do século XXI, ele saltava como se tivesse um trampolim invisível à sua disposição e intocável aos zagueiros rivais. Em tempos de guerras constantes, vestiu a camisa da Cruz Vermelha em prol dos necessitados. Durante a excursão, encheu os argentinos de entusiasmo e foi salvo do serviço militar por um fanático torcedor do Independiente para vestir a camisa roja. Com ela, virou um mito. O maior artilheiro da história de um campeonato nacional que já teve Labruna, Masantonio, Bianchi, Sanfilippo, Palermo, Maradona e Batistuta, isso só para citar alguns. Foi comparado ao melhor bailarino de sua época, o russo Vaslav Nijinsky, pelo escritor francês Paul Morand por causa da arte em tratar a bola e marcar gols, com movimentos impressionantes e uma flexibilidade rara para futebolistas. Adjetivos para qualificá-lo sempre foram superlativos. Assim como seu futebol. Curiosamente, nunca vestiu a camisa de seu país em partidas oficiais, nunca disputou uma Copa América e recusou jogar uma Copa do Mundo pela Argentina. Ele não podia vestir outra camisa que não fosse a do Paraguai. E, indo contra as expectativas, tal atitude aumentou ainda mais o respeito dos portenhos por ele. Com uma trajetória fulminante e irretocável, Arsenio Pastor Erico Martínez, ou simplesmente Arsenio Erico, é um dos maiores futebolistas de todos os tempos e que mostrou desde a juventude que seu talento era incomparável. Rápido, finalizador pleno, técnico, driblador, com uma impulsão única e decisivo, o “saltador”, um dos muitos codinomes que ganhou na carreira, foi o grande responsável por tornar o Independiente um dos maiores times da Argentina nos anos 30 e ajudou a moldar a faceta competitiva e vencedora do time de Avellaneda. Mais do que isso, ele foi o terror do Racing e se tornou o maior artilheiro da história do clássico local em todos os tempos. Com gols, recordes, média de quase um gol por jogo e títulos, o paraguaio foi uma lenda que ajudou a enriquecer ainda mais a história do futebol. É hora de relembrar.

 

O jovem da Cruz Vermelha

 

Nascido na capital paraguaia e neto de italianos, Arsenio Erico começou desde pequeno a demonstrar enorme habilidade para o futebol de uma maneira pitoresca: fazendo embaixadinhas e malabarismo com laranjas em seu bairro. Com isso, aos 15 anos, o garoto já era titular do Nacional de Assunção e tido como a maior promessa do país. Ele começou a jogar mais pelo lado esquerdo do campo, mas seria de maneira mais avançada, pelo meio, que os técnicos iriam descobrir o verdadeiro talento de finalizador e goleador do jovem. Crescendo cada vez mais de produção, Erico temeu pelo seu futuro quando eclodiu a Guerra do Chaco entre Paraguai e Bolívia, em 1932. Ele foi convocado para o exército em estado de beligerância, em 1933, mas seria uma crueldade manter no front um garoto com tanto talento para o esporte.

Foi então que o diretor da Cruz Vermelha do país na época propôs ao governo a criação de um time para angariar fundos e ajudar os milhares de feridos por causa da guerra. A ideia foi bem aceita e chegou aos ouvidos do comandante César Molina, estreitamente ligado ao Nacional e que conseguiu convencer seus superiores a incluir o jovem na equipe. Erico foi enviado de volta à Assunção e virou o centroavante da equipe da Cruz Vermelha comandada por Domingo Cino. Vestindo o uniforme da paz e em prol dos necessitados, Erico encantou a todos com seus gols e jogadas plásticas nas viagens feitas pelo escrete paraguaio pelo Uruguai e Argentina. Nos 26 jogos disputados pela equipe humanitária, foram 81 gols marcados, sendo incríveis 56 de Arsenio Erico. As partidas contra os times vizinhos ajudaram de maneira considerável a Cruz Vermelha na captação de recursos e doações e aliviou os cofres da entidade na época.

Pela Cruz Vermelha, o craque ajudou na arrecadação de fundos e despertou o interesse dos argentinos.

 

Em solo argentino, a equipe enfrentou o River Plate e Erico deslumbrou os millonarios com três gols marcados na vitória dos donos da casa por 5 a 3. Após aquele jogo, eles começaram a flertar com o paraguaio, mas havia o empecilho da falta de dinheiro após a enorme compra de Bernabé Ferreyra. Mesmo assim, eles tentaram a contratação do atacante, mas ele já havia dado sua palavra a outro clube: o Independiente, que chegou primeiro na disputa e iniciou, em fevereiro de 1934, os trâmites para levá-lo até Avellaneda. Após intensas conversas entre o clube e o cônsul argentino Conrado L. Menchaca com o Departamento Geral de Guerra Paraguaio e a Cruz Vermelha, Erico foi definitivamente contratado em abril após a doação de 2000 pesos à Cruz Vermelha do Paraguai e o pagamento de 5000 pesos (algumas fontes, como o El Gráfico-ARG, citam 2500 pesos) ao jogador por um período de dois anos, além de 200 pesos mensais e prêmios de acordo com as arrecadações. Enfim, Erico estava livre da guerra. E pronto para mostrar em sua plenitude o talento que possuía ao futebol.

 

El Saltarín Rojo

Voando, literalmente, em um jogo contra o River em 1935.

 

A estreia de Erico pelo Independiente aconteceu em 05 de maio de 1934, contra o Boca Juniors. Ele foi discreto e, nos duelos seguintes, mostrou que precisava de mais entrosamento com os companheiros. Porém, os primeiros meses do paraguaio não foram nada bons. Ele sofreu uma grave infecção, ficou vários jogos sem jogar e ainda teve duas fraturas no braço quase que consecutivas em 1935 – ainda sim, marcou 22 gols em 18 jogos. Após repouso e fisioterapia, o paraguaio voltou naquele mesmo ano e, em 1936, conseguiu recuperar a boa forma e marcou 14 gols na Copa Campeonato, competição disputada no segundo semestre e que teve o Independiente na 4ª colocação. Mas foi em 1937 que o atacante mostrou suas grandes virtudes. Impossível com a bola nos pés e com a aptidão para marcar belos e indefensáveis gols de cabeça, Erico foi o grande artilheiro do Campeonato Argentino daquela temporada com 47 gols em 32 jogos. Ele quebrou o recorde histórico da competição ao superar a barreira dos 40 gols em um único torneio nacional e a maior quantidade de gols em um só torneio em todos os tempos. Para se ter uma ideia, o vice-artilheiro daquele ano, ninguém mais ninguém menos que José Manuel Moreno, marcou “apenas” 32 gols. Bernabé Ferreyra, badalado e caríssimo atleta do River, fez “só” 27 tentos, 20 a menos do que Erico. O paraguaio arrancou imensos elogios da imprensa com seu domínio de bola pelo alto e por baixo, pela agilidade, dribles, precisão na hora dos arremates e por “manejar a bola com a cabeça como se usasse as mãos e com os pés como se usasse uma colher”, segundo o El Gráfico da época.

Contra o Vélez, uma de suas maiores vítimas. Foto: FIFA.com

 

Durante a campanha de 1937, Erico entupiu os mais diversos adversários de gols. Veja o desempenho do jogador em algumas daquelas partidas:

 

Vélez Sarsfield 6×4 Independiente – 3 gols

San Lorenzo 3×3 Independiente – 3 gols

Argentinos Juniors 3×7 Independiente – 3 gols

Platense 2×5 Independiente – 4 gols

Independiente 8×0 Talleres – 3 gols

Huracán 2×4 independiente – 3 gols

Quilmes 1×7 Independiente – 6 gols (!)

Independiente 3×0 Boca Juniors – 2 gols

Independiente 6×1 Lanús – 3 gols

Independiente 5×2 Estudiantes – 3 gols

Independiente 3×1 Racing – 2 gols

O Independiente de 1937: Coletta, Lecea, Franzolini, Cuello, Leguizamón e Celestino Martínez. Agachados: Sastre, De la Mata, Erico, Reuben e Adolfo Martínez. Foto: História de Independiente.

 

Isso mesmo: foram 35 gols em 11 jogos, média absurda de 3,18 gols por jogo. Ao fim do campeonato, Erico teve uma média de 1,38 gols por jogo. Ele e Sabino Colleta foram os únicos do time que disputaram todos os 34 jogos do rojo no torneio. O Independiente marcou 106 gols (mesmo número do River, campeão), venceu 25 jogos, empatou dois e perdeu sete. Estava bem claro: com Erico no time, o troféu era apenas uma questão de tempo.

 

Devastadores rojos

Após uma “pequena amostra” do que era capaz, o Independiente de Erico deslumbrou a Argentina com uma campanha sensacional em 1938. Com uma linha de frente composta por Vilariño, Vicente De La Mata, Erico, Sastre e Zorrilla, a equipe de Avellaneda teve um dos melhores desempenhos de toda a história do Campeonato Argentino. Em 32 jogos, foram 25 vitórias, três empates e quatro derrotas. Mas o que mais impressionou foi a quantidade de gols marcados: 115 tentos (óbvio, melhor ataque, com média de 3,59 gols por jogo) e 37 sofridos (melhor defesa). Foi o time que mais marcou gols na história do profissionalismo argentino e também o com a melhor média de gols. Só nos primeiros três jogos como mandante, o time rojo fez 21 gols: 6 a 2 no Tigre, 9 a 0 no Almagro e 6 a 1 no Ferro Carril. Teve ainda um 4 a 2 sobre o River fora de casa, um 7 a 1 sobre o Vélez em casa, um 3 a 0 sobre o Boca em casa, um 3 a 2 no clássico contra o Racing fora e um 4 a 0 sobre o Boca fora de casa. Na última rodada, para encerrar uma campanha formidável, goleada de 8 a 2 sobre o Lanús.

O Independiente de 1938: com Erico no auge e grandes nomes em todas as posições, clube de Avellaneda fez história.

 

 

Arsenio Erico atingiu a marca de 43 gols em 30 jogos disputados e foi mais uma vez o artilheiro máximo do torneio, com destaque para seus cinco gols na goleada de 7 a 1 sobre o Vélez, os quatro na vitória de 9 a 2 sobre o Chacarita Juniors, os dois no triunfo de 4 a 0 sobre o Boca e os quatro gols dos cinco que o Independiente fez sobre o rival Racing nos dois turnos. Uma curiosidade é que Erico poderia ter feito mais gols, mas não quis. Motivo: a empresa de cigarros Piccardo realizou um concurso que iria premiar com uma generosa quantia em dinheiro o jogador que chegasse a exata marca de 43 gols naquela temporada para promover sua nova marca, o Cigarillos 43. Erico fez os 43 gols e, quando podia marcar para aumentar a conta, hesitava e deixava a bola com os companheiros. Solidário, o craque dividiu o prêmio com os outros jogadores do Independiente. Outra marca daquele time foi a maneira de jogar. Unidos e alegres, os jogadores do Independiente faziam questão de se divertir em campo e jogar bonito, para o público. Erico era um dos que mais causava furor não só pelos gols, mas por seu estilo de jogo bonito de se ver. O atacante ainda brincava e dizia quantos gols iria fazer antes de cada partida. E ele quase sempre acertava…

 

“Com meus companheiros, entrávamos em campo para oferecer um bom futebol, porque era o que gostávamos e estava em nosso sangue e em nossa alma. Todos jogávamos com alegria: Sastre, De La Mata, Zorrilla…Eram profissionais sérios, mas alegres na hora do espetáculo. Quando perdíamos, saíamos de igual maneira, com a satisfação de termos nos divertido.”Arsenio Erico, em trecho extraído do site História de Independiente (ARG), novembro de 2012.

 

Festa da torcida em Avellaneda! Foto: História de Independiente.

 

Ainda em 1938, o Independiente disputou nove amistosos – Erico marcou 11 gols – e venceu mais dois torneios: a Copa Ibarguren, vencida com uma goleada de 5 a 3 sobre o Rosario Central – dois gols de Erico,  e a Copa Aldao (também conhecida como Campeonato Rioplatense), organizada na época pelas associações de Argentina e Uruguai que reunia os campeões nacionais dos dois países. O Independiente encarou o Peñarol e, em pleno estádio Centenário, venceu por 3 a 1, com o gol do título anotado por Erico. Foi a terceira taça em apenas um ano do clube rojo. Mas o apetite ainda não havia terminado.

 

Não à Copa e mais títulos

O ano de 1938 realmente foi cheio para Arsenio Erico. Além dos gols e títulos, o craque ainda viveu uma situação embaraçosa. Às vésperas da Copa do Mundo de 1938, o paraguaio recebeu uma proposta tentadora de milhares de pesos – cerca de 200 mil, uma fortuna que valia cerca de 40 carros do ano na época – para vestir a camisa da Argentina no Mundial da França. No entanto, Erico foi convicto de si e recusou por ser fiel ao seu país. Ele era muito grato à Argentina e a tudo o que já havia conquistado no país, mas não fazia sentido algum para ele defender uma nação que não fosse o Paraguai. De maneira surpreendente, o “não” de Erico aumentou ainda mais seu respeito em solo portenho pela lealdade demonstrada à sua terra. A palavra e a honra valiam muito naquele tempo. A Argentina acabou desistindo de ir ao Mundial.

Em 1939, Erico e seu Independiente seguiram imparáveis no Campeonato Argentino. A equipe mostrou sua força logo de cara e, na segunda rodada, Erico marcou três gols na goleada de 4 a 1 sobre o Estudiantes, em casa. Ele ainda fez dois gols em cada um dos jogos dos rojos contra o Lanús (vitória por 6 a 1) e Huracán (derrota por 3 a 2, fora de casa). Na 6ª rodada, o Independiente venceu o Vélez por 5 a 0 com cinco gols do craque, e derrotou o River, na 8ª, por 2 a 1, com mais um gol de Erico. O atacante e seus companheiros continuaram ao longo da competição extremamente letais e deram ao time de Avellaneda o bicampeonato, conquistado com 27 vitórias, dois empates, cinco derrotas, 103 gols marcados (melhor ataque) e 37 sofridos (melhor defesa) em 34 jogos.

Erico e seus fãs. Foto: FIFA.com.

 

Arsenio Erico foi artilheiro da competição pela terceira vez seguida, com 40 gols em 33 jogos disputados, mais uma vez média superior a um gol por jogo. O vice-artilheiro foi Isidro Lángara, do San Lorenzo, com 34. No mesmo ano, o time venceu a Copa Escobar em cima do San Lorenzo, outra Copa Aldao (goleada de 5 a 0 sobre o Nacional-URU, com três gols de Erico) e a Copa Ibarguren (goleada de 5 a 0 sobre o Central Córdoba de Rosário, com dois gols de Erico). Com campanhas inquestionáveis e históricas, o Independiente se consagrou naquele biênio 1938/1939 como um dos mais prolíficos times do futebol argentino. A média de gols, somando os dois campeonatos, foi de incríveis 3,60 gols por partida. Só Erico marcou 83 gols dos 218 que o Independiente fez no bicampeonato. Praticamente ⅓ dos gols! Era um estrondo!

 

Seca de títulos e a volta para casa

Em 1940, o Independiente tentou, mas não conseguiu o tricampeonato e terminou com o vice. Inspirado pela inauguração de sua casa, La Bombonera (leia mais clicando aqui), o Boca foi o campeão daquele ano. No entanto, o time rojo não hesitou em aprontar das suas. Em casa, goleou o Estudiantes por 8 a 1, na 11ª rodada, com quatro gols de Erico. Na 15ª, um histórico 7 a 1 sobre o Boca Juniors em Avellaneda com dois gols de Erico – foi uma das piores derrotas dos xeneizes em sua história. Mas o melhor mesmo aconteceu na 27ª rodada: um sapeco de 7 a 0 sobre o rival Racing, com dois gols de Erico e um show dos rojos que rendeu gozações durante muito tempo e que é até hoje a maior goleada dos Diablos na história do clássico. Após tanto tempo dominando a artilharia, o craque não foi o campeão dos gols e anotou “apenas” 29 tentos nos 30 jogos que disputou, ficando quatro gols atrás dos ponteiros Cáceres e Lángara, ambos com 33.

Erico marca seu segundo gol na goleada de 7 a 0 sobre o Racing.

 

Em 1941, Erico foi vice-artilheiro do campeonato com 26 gols e viu seu Independiente começar a cair de produção – o rojo terminou na quinta posição. O grande momento daquela temporada foi a gira internacional que o clube fez e que teve como uma das paradas a cidade de Assunção, no Paraguai, em março. Erico teve a oportunidade de reencontrar o Nacional e foi ovacionado pela torcida nos amistosos que as equipes disputaram entre si. Como raramente ele jogava por lá e não era convocado para a seleção por jogar no exterior, foi um verdadeiro acontecimento para os paraguaios verem seu ídolo tão de perto. Em dois jogos que valeram a chamada Copa Fraternidad, o Independiente perdeu o primeiro duelo por 4 a 3, mas venceu o segundo por 7 a 3, com quatro gols de Erico que encantaram a torcida – isso mesmo sendo contra seu próprio time! Para compensar aquilo, o craque fez questão de judiar do Cerro Porteño dias depois ao anotar dois gols na vitória por 4 a 2 válida pela Copa Ministério de Hacienda. A equipe completou sua gira passando ainda pela Bolívia e pelo Peru.

No começo de 1942, Erico acabou se desentendendo com a diretoria do Independiente e, com a gira pelo Paraguai ainda guardada na memória, decidiu voltar ao Nacional e disse não ao Olimpia, que lhe fez uma tentadora proposta que incluía até casa com carro na garagem. Mesmo já sem o físico de outrora muito por causa da intensidade com a qual jogava e por causa das pancadas que levava dos zagueiros rivais – principalmente nos joelhos – Erico não foi o goleador dos anos 30, mas teve tempo para atuar na reta final do campeonato, ajudou o time a conquistar o título paraguaio de 1942 e saudou a dívida que tinha com o clube. No entanto, o Independiente quis o paraguaio de volta já em 1943 e ele retornou à Argentina. Por lá, não encontrou o timaço do final dos anos 30 e foi bem mais econômico nos gols. Em seu retorno, fez 17 gols em 29 partidas do campeonato nacional. Em 1944, terminou atrás dos companheiros pela primeira vez no rol de artilheiros com apenas 12 gols em 26 partidas, muito por causa da condição física e lesões que já atrapalhavam seu rendimento. No ano seguinte, melhorou, com 20 gols em 30 jogos, mas teve que operar o joelho e viu os artifícios para sua magia minguarem de vez.

Walter, Bello e Erico. Foto: El Gráfico.

 

Em 1946, Erico anotou apenas quatro gols em 19 jogos disputados pelo Independiente. No mesmo ano, foi vendido ao Huracán, mas não conseguiu uma boa sequência de jogos e deixou o Globo já em 1947 para voltar ao Nacional. Em 1949, aos 34 anos, Erico exerceu a função de jogador e treinador do time. Atuou em dez partidas, marcou cinco gols e foi vice-campeão paraguaio em 1949. Após a experiência, decidiu se aposentar de vez do futebol.

 

Uma lenda inesquecível

Após pendurar as chuteiras, Arsenio Erico foi morar na Argentina e casou-se com Aurelia Blanco, aos 45 anos de idade. O paraguaio não teve filhos e seguiu sua vida em solo portenho, com visitas regulares aos familiares em seu país. Em 1970, recebeu uma bela homenagem no estádio Defensores del Chaco antes de um amistoso entre Argentina e Paraguai, no qual ele deu uma volta olímpica e foi ovacionado pelo público. Em 1977, complicações circulatórias forçaram a amputação de sua perna esquerda. Tempo depois, no dia 23 de julho, uma parada cardíaca levou ao céu o jogador que praticamente o tocava quando marcava seus gols de cabeça. No dia seguinte, River e Independiente se enfrentaram e o time de Avellaneda venceu de virada por 2 a 1. A torcida, emocionada e em uníssono, cantou: “Se siente, se siente, Erico está presente!”…

O clube de Avellaneda cobriu todos os custos do enterro do ídolo. Tempo depois, o estádio do Nacional foi rebatizado como Estádio Arsenio Erico e a casa do Independiente, o Libertadores de América, possui uma tribuna com o nome do jogador paraguaio. O corpo de Erico permaneceu na Argentina durante décadas até ser enviado ao Paraguai em 2010, onde seus restos mortais permanecem em um mausoléu no Defensores del Chaco, o lugar mais propício para abrigar a lenda do jogador que começou justamente marcando gols em prol dos necessitados durante a Guerra do Chaco, lá nos anos 30. Um craque que colecionou adjetivos, fãs, recordes e poesias dos mais diversos admiradores. O mais famoso deles foi Eduardo Galeano, que foi perfeito na definição de Arsenio Erico:

 

“Ele tinha, escondidos no corpo, recursos secretos. Saltava o danado sem tomar impulso e sua cabeça sempre chegava mais alto do que as mãos do goleiro, e quanto mais dormidas pareciam suas pernas, com mais força descarregavam verdadeiros petardos ao gol. Com frequência, Erico açoitava de calcanhar. Não teve calcanhar mais certeiro na história do futebol. Quando Erico não fazia gols, os oferecia, servidos, aos seus companheiros”.

 

Quem também comentou sobre Erico foi Alfredo Di Stéfano, outra lenda que teve Erico como seu ídolo de infância:

 

Erico é diferente a tudo o que eu vi. Um jogador notável. Se resume, sem exageros, em seis letras: Craque. Para mim, um malabarista de circo, um artista. Perdão, um grande artista”.

 

Só faltaram algumas letrinhas após “Craque”, querido Don Alfredo: Imortal…

 

Números de destaque:

Marcou 331 gols em 372 jogos na carreira.

 

 


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