Os 10 Maiores Clássicos do Mundo

Ira. Fervor. Nervos à flor da pele. Repelir o outro causa as mais diversas atitudes. Mudar de calçada. Evitar determinado bairro. Não mencionar o nome “dele”. Jamais perdoar um antigo ídolo se ele vestir a camisa “deles”. Mas, lá no fundo (no fundo meeeesmo), existe o respeito. E a impotência em viver sem ele: o rival. O futebol move paixões e não é só um jogo. Nunca é. E, quando falamos sobre rivalidades futebolísticas, isso ganha contorções épicas, históricas, centenárias. Os clássicos instigam as mais diversas pesquisas e documentários sobre quais são os maiores, os mais famosos, os mais eletrizantes, os mais tensos. São muitos. Em diferentes países, sob várias línguas e cores. Têm a ver com religião. Com passados em comum. Com política. Com o bairro. Com a cidade. Listar os dez maiores clássicos do mundo, os dez mais pegados e com as torcidas que mais se “odeiam” foi uma tarefa dificílima. Mas o Imortais ousou em fazê-la. Confira a seguir os clássicos com mais faísca do planeta. Aqueles que mobilizam dezenas e dezenas de policiais. Que mudam o itinerário do transporte público. Que travam intensas disputas até mesmo no sports bet. Que param cidades. Países. E até o mundo. Boa leitura! 😀

 

10º – Olympiacos x Panathinaikos – Dérbi dos Eternos Inimigos

Foto: Reuters.

A rixa: os alviverdes são de Atenas, nascidos na classe média alta da capital grega. Os alvirrubros vêm de Pireu, região portuária, de classe trabalhadora e humilde. A diferença de classes criou a animosidade entre ambos.

Quando começou: em 1o de junho de 1930, na goleada do Panathinaikos sobre o rival por 8 a 2

Maior Artilheiro: Dimitris Saravakos-GRE (Panathinaikos): 16 gols

Quem mais venceu: Olympiacos – 80 vitórias (até outubro / 2018). O Panathinaikos venceu 50. Foram 67 empates.

Maiores goleadas: Panathinaikos 8×2 Olympiacos, 1º de junho de 1930

Olympiacos 6×1 Panathinaikos, 16 de fevereiro de 1936

Panathinaikos 1×6 Olympiacos, 13 de novembro de 1932

Atenas, 1930. Antes de um duelo entre Panathinaikos e Olympiacos, os alvirrubros, certos da vitória, levam caixões de madeira ao estádio simbolizando o funeral do time da capital. Em campo, uma devastação de gols alviverdes: 8 a 2. Igualmente devastados, os torcedores do Olympiacos não pensaram duas vezes sobre qual destino dar aos caixões cuidadosamente confeccionados para aquela ocasião: desmantelaram as pranchas de madeira e partiram para cima dos torcedores rivais. Acredite: foi assim, com brincadeira, goleada e selvageria, que começou a tensa rivalidade entre os maiores clubes da Grécia. De lá para cá, os confrontos sempre foram repletos de momentos controversos, muita catimba, torcidas em ponto de explosão e a famigerada guerra de classes entre ricos e pobres. A origem humilde do Olympiacos e seu rápido sucesso atraiu fãs de todo país e foi a principal forma de manifestar o descontentamento com as condições sociais e políticas em contraponto à classe média alta de Atenas. Para acirrar ainda mais essa rivalidade, os clubes construíram ao longo das décadas uma rivalidade refletida também em outros esportes, principalmente basquete (onde a briga é ainda maior do que no futebol!) e vôlei.

O Panathinaikos de 1930, que sapecou o rival por 8 a 2.

 

Após o título nacional de 1930, o Panathinaikos (fundado em 1908) viu o mais novo rival (fundado em 1925) celebrar sua primeira taça já em 1931. A equipe do Pireu conseguiu superar o time de Atenas em número de títulos e possui mais que o dobro de ligas nacionais (44) que os alviverdes (20). Em copas, o Olympiacos também leva vantagem – 27 a 18. No entanto, o Panathinaikos tem soberania quando o assunto é boas campanhas em competições europeias: eles são os únicos gregos a possuir uma disputa de final de Liga dos Campeões da UEFA no currículo, na temporada 1970-1971, quando acabaram sucumbindo diante do forte Ajax de Cruyff. Além daquela histórica campanha, os alviverdes alcançaram também duas semifinais, em 1985 e 1996.

Duelo entre rivais em 1983.

 

A intensa rivalidade sempre deu muito trabalho à polícia. Antes dos jogos, é comum torcedores levarem ao estádio bombas, sinalizadores e foguetes. Isso sem contar as brigas e emboscadas que já vitimaram dezenas de pessoas. O clássico é, sem dúvida, um dos mais perigosos para se assistir em toda a Europa e forçou até a mudança de regras da Copa da Grécia. Eis os motivos: na final de 1962, o jogo entre os inimigos eternos teve que ser cancelado por causa do clima hostil criado pelas torcidas e também pelos jogadores – o primeiro tempo teve 66 minutos e três cartões vermelhos! Os torcedores jogaram vários objetos no gramado, o gol não saiu e, para piorar, os times pareciam contentes com o empate e a possibilidade de um novo jogo para faturar mais dinheiro, afinal, não havia disputa de pênaltis. O árbitro da partida encerrou o duelo antes de acabar a prorrogação e a federação de futebol do país decidiu não remarcar um novo jogo nem dar o título a ninguém. Dois anos depois, as torcidas invadiram o gramado de um novo duelo de copa, dessa vez na semifinal, só para forçar mais uma partida. No entanto, a federação excluiu ambos e deu o título ao AEK, classificado para a final. Depois desses dois casos, as finais das copas passaram a ser decididas, em caso de empate no tempo normal e prorrogação, na moedinha… Só em 1970 que os pênaltis, enfim, se consolidaram como desempate final. A propósito: só uma vez o campeão saiu na moedinha. E foi num clássico entre a dupla, com triunfo do Panathinaikos após empate em 1 a 1, quando o ídolo e capitão Mimis Domazos escolheu o lado certo da moeda e deu a taça ao seu time, que dominou o futebol grego naqueles anos 60, em resposta ao predomínio alvirrubro nos anos 50.

Dimitris Saravakos, maior artilheiro do dérbi.

 

Nas décadas seguintes, o Olympiacos assumiu o protagonismo do clássico e do próprio futebol grego, principalmente nos anos 90, 2000 e 2010, colecionando taças nacionais e abrindo uma larga vantagem sobre o rival histórico. Nesse período, porém, os casos de selvageria cresceram ainda mais e, em 2007, causaram a morte de Mihalis Filopoulos, 22 anos, torcedor do Panathinaikos, em Paiania (11 km de Atenas), numa emboscada de hooligans do Olympiacos na mesma semana em que aconteceu na cidade um jogo de vôlei entre os dois times. Ambos os times possuem suas “torcidas” violentas e frequentemente elas dão o ar da graça nos clássicos. Tanto é que a imprensa mais espera brigas e novos “shows” dos hooligans do que o futebol em si. Desde 2004, torcedores visitantes não entram nas casas de cada equipe. Mas isso não evita problemas como o do vídeo abaixo, de 2015:

O presidente do Olympiacos na época, Vagelis Marinakis, tentou caminhar no gramado antes do jogo e a torcida do Panathinaikos começou a alvejá-lo com sinalizadores. Disso para a tentativa de acertar os jogadores alvirrubros foi um pulo. A partida atrasou mais de 15 minutos e durante o jogo mais casos de violência foram registrados (um jogador do Olympiacos foi atingido no ombro por fogos e o técnico do time quase foi acertado por uma cadeira arremessada pela torcida). Isso foi a “represália” dos alviverdes por causa de um clássico de 2014, quando o presidente do Panathinaikos foi atingido por um objeto arremessado por torcedores e jogadores da equipe alvejados por sinalizadores. Isso sem contar partidas adiadas ou com problemas em 2009, 2012…

Embora a rivalidade tenha nascido num clássico embate de ricos contra pobres, a queda brusca na economia grega fez com que as torcidas de ambos os clubes sofressem uma mudança radical e, hoje, são bastante heterogêneas, abrangendo todas as classes sociais. Ambos são do povo grego. Mas, infelizmente, parte desse povo não sabe conviver em paz nem curtir de maneira sadia uma rivalidade tão longeva.

 

9º – Roma x Lazio – Derby della Capitale

A rixa: ambos são da região do Lácio, na Itália Central. A Roma herdou o nome da capital e foi fundada em 1927 após a fusão de três times. Seriam quatro, pois a ideia era criar uma só agremiação para a região. Contatada para compor a nova equipe, a Lazio, fundada em 1900, recusou. O resto é história…

Quando começou: no dia 08 de dezembro de 1929, na vitória da Roma por 1 a 0 em plena casa da Lazio, gol de Rodolfo Volk.

Maior Artilheiro: Francesco Totti-ITA (Roma): 11 gols

O brasileiro Dino da Costa, também da Roma, possui 11 gols em partidas oficiais e um em uma partida não-oficial, por isso, deve ser contabilizado aqui também.

Quem mais venceu: Roma – 70 vitórias (até outubro / 2018). A Lazio venceu 52. Foram 64 empates.

Maiores goleadas: Roma 5×0 Lazio, 1º de novembro de 1933

Lazio 1×5 Roma, 11 de setembro de 1955

Lazio 1×5 Roma, 10 de março de 2002

Roma 0x3 Lazio, 26 de junho de 1932

Lazio 4×1 Roma, 06 de janeiro de 1998

Lazio 3×0 Roma, 10 de dezembro de 2006

Em 1927, o regime fascista em vigor na Itália queria um clube de grande porte para levar o nome da capital italiana para fora do país e que representasse a força esportiva da região. Com isso, Italo Foschi criou a AS Roma, unindo três clubes: Alba, Fortitudo e Roman. Ele iria juntar mais um, mas esse um era a Lazio, que se recusou a fazer “simbiose” e trouxe à tona naquele final de década uma das maiores rivalidades da Europa e também a maior de toda a Itália. Fanáticos ao extremo e moldados pela paixão exacerbada, os tifosi de Roma e Lazio conseguiram ocultar os títulos dos vizinhos de Milão e Turim e deram ao futebol romano o troféu de maior rivalidade do Calcio. Criados sob o fascismo, Roma e Lazio protagonizaram o primeiro duelo entre ambos em dezembro de 1929, com uma vitória da Roma por 1 a 0 na casa da Lazio, no Stadio della Rondinella. Foi uma vitória que significou muito não só pelo histórico “não” da Lazio, mas pelo fato de a Roma vir da área popular da cidade e vencer um time oriundo das camadas mais ricas. Além disso, os giallorossi sempre tiveram posição esquerdista quando o assunto era política, e os celestes, de direita. Nos anos 30 e 40, o regime de Mussolini foi uma sombra no futebol romano que acabou refletindo até mesmo no título italiano da Roma de 1941-1942, com supostas interferências na arbitragem.

O fascismo esteve estreitamente ligado ao futebol romano nos anos 30 e 40.

 

Arne Selmosson (à dir.), único jogador a marcar gols pelos dois clubes na história do dérbi.

 

Com grandes jogadores em diferentes épocas, os dois times sempre fizeram jogos equilibrados, além de jogos amistosos e festivos com jogadores de ambas as equipes, em raros momentos sem rivalidade nem desavenças. Foi assim em 1928, quando os times enfrentaram os tchecos do Viktoria Zizkov em um combinado com jogadores da Lazio e da Roma e um uniforme especial, com uma loba azul no centro – os romanos venceram por 4 a 2. Em 1973, enfrentaram o CSKA, da Rússia, outra vez com uniforme especial e time mesclado, mas perderam por 1 a 0. E, em novembro de 1979, as equipes se uniram após uma tragédia que ocorreu um mês antes, quando o torcedor da Lazio Vicenzo Paparelli foi atingido no olho por um sinalizador lançado por torcedores da Roma. Paparelli faleceu a caminho do hospital e, mesmo com a ira da torcida, o jogo não foi suspenso e continuou mesmo assim – com empate em 1 a 1. Foi o mais grave incidente em toda a história do clássico, que foi mais ameno nos anos seguintes muito por causa do ótimo futebol praticado pela Roma de Falcão, Di Bartolomei, Conte e Pruzzo, nos anos 80, e por ambas as equipes no final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando o dérbi virou o grande jogo da Itália e parava o calendário do Calcio em tempos de craques e títulos históricos para ambos os lados, com Totti, Cafu, Batistuta e Montella do lado da Roma e Nedved, Crespo, Verón, Mancini e Nesta do lado da Lazio.

O capitão da Lazio, Wilson, tenta acalmar os torcedores na fatídica partida de Paparelli.

 

Bruno Conti e Bruno Giordano, em um clássico no final dos anos 70.

 

Em 2004, outro episódio tenso tomou conta do clássico. Confrontos entre policiais e torcedores fora do estádio e até um falso rumor de que a polícia havia matado um garoto atropelado fizeram com que o presidente da federação italiana na época, Adriano Galliani, pedisse o adiamento da partida ligando para o árbitro no estádio. A bagunça começou após os torcedores verem o corpo de um garoto coberto com um lençol. Só depois que ficou claro que aquilo foi feito pelos paramédicos, pois o menino estava com dificuldade para respirar por causa das bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia e, por isso, ficou protegido pelo lençol. O saldo da bagunça: 13 detidos e mais de 170 feridos. Em janeiro de 2005, os nervos voltaram a se acirrar quando Di Canio, da Lazio, celebrou a vitória de seu time sobre a Roma (3 a 1) fazendo a saudação romana, gesto clássico do fascismo.

Festa da Lazio na Copa da Itália de 2013.

 

Desde então, o duelo perdeu o brilho internacional que tinha por causa da queda de rendimento como um todo do futebol italiano, mas, em 2013, o sonho de todo tifosi se realizou: aconteceu a primeira decisão de título entre os rivais, na final da Copa da Itália, quando a Lazio bateu a Roma por 1 a 0 no estádio Olímpico abarrotado de gente – mais de 70 mil pessoas. A Lazio pode ter desvantagem na história do duelo e sido vítima das maiores goleadas do confronto, mas levantar uma taça em cima do maior rival certamente rende muita gozação perante os giallorossi, que esperam ansiosamente pela revanche.

 

8º – Grêmio x Internacional – Gre-Nal

Foto: Renan Olaz.

A rixa: praticamente divide o coração dos torcedores do Rio Grande do Sul. Começou antes mesmo de a bola rolar, com desavenças entre dirigentes. E uma goleada massacrante de dez gols do já experiente Grêmio sobre um recém-fundado Inter. Cada jogo é uma guerra de nervos até hoje.

Quando começou: no dia 18 de julho de 1909, na goleada do Grêmio sobre o novato rival por 10 a 0.

Maior Artilheiro: Carlitos-BRA (Internacional): 38 gols

Quem mais venceu: Internacional – 156 vitórias (até outubro / 2018). O Grêmio venceu 130. Foram 131 empates.

Maiores goleadas: Grêmio 10×0 Internacional, 18 de julho de 1909

Grêmio 10×1 Internacional, 18 de junho de 1911

Internacional 6×0 Grêmio, 1º de novembro de 1938

Internacional 7×0 Grêmio, 17 de outubro de 1948

Os irmãos Henrique Poppe Leão, Luiz Madeira Poppe e José Eduardo Poppe saíram de São Paulo no início do século XX e chegaram a Porto Alegre, que passava por um intenso processo de modernização, com bondes elétricos, iluminação nas ruas e um esporte que começava a cativar a todos: o futebol. Os irmãos Luiz e José Eduardo queriam praticar o tal football que eles haviam conhecido em São Paulo, mas encontraram dificuldades pelo fato de os clubes da cidade na época, o Grêmio e o Fuss Ball, serem restritos a sócios. Com isso, decidiram, junto ao irmão Henrique, criar seu próprio clube: o Sport Club Internacional, que ganhou esse nome justamente por aceitar brasileiros e estrangeiros, em contraponto à identificação de muitos clubes na época com colônias italianas, alemãs e portuguesas.

Cartaz do primeiro Gre-Nal.

 

O Inter queria disputar seu primeiro jogo contra o mais tradicional time da cidade, o Grêmio. Em uma reunião, foi acertado o amistoso, mas o tricolor iria mandar a campo seu time reserva. O Inter não aceitou, exigiu o time titular e a data que ele queria. Os tricolores ficaram espantados com a audácia dos novatos e aceitaram mandar o time titular, mas apenas no dia 18 de julho, pois a agenda do time estava cheia. Com menos de um mês para ajustar seus jogadores, o Inter foi presa fácil e perdeu por 10 a 0. O Colorado ficou três meses sem jogar. Quase fechou as portas. Mas a insistência de seus entusiastas e a criação de um campeonato entre os times da cidade reviveu a disputa e o sentimento de dar o troco no rival. No segundo duelo entre ambos, goleada tricolor por 5 a 0 com a primeira briga: após driblar toda a defesa colorada, o gremista Edgar Booth levou um pontapé do defensor Volksmann, cansado daquela “falta de respeito”, e os jogadores começaram a desferir tapas e socos entre si. Por pouco o jogo não acabou ali mesmo. Foi a primeira briga nos Gre-Nais. E já no segundo jogo.

Carlitos, maior artilheiro do clássico.

Com esses temperos, o Gre-Nal se consolidou ano a ano como o mais pegado, disputado e acirrado clássico do futebol brasileiro. A paixão transborda tanto que ele conseguiu superar o peso do histórico Fla-Flu, a monopolização da maior cidade do país entre Corinthians e Palmeiras e o temperado duelo entre Atlético e Cruzeiro. Por mais que esses duelos sejam eletrizantes, nenhum deles consegue superar a troca de farpas, de raça e de sangue nos olhos de um Gre-Nal. Uma das melhores sínteses do que é o duelo vem de um colorado, Luís Fernando Veríssimo: “O Internacional precisa ser melhor que o Grêmio, que precisa ser melhor que o Internacional, que morre se não for melhor que o Grêmio”. E é assim mesmo. Ano após ano, se um fazia alguma coisa ou era campeão, o outro ia lá e igualava ou superava. O Grêmio começou sua história no antigo estádio da Baixada. O Inter, no mirrado Eucaliptos, que foi reformulado, virou uma das sedes da Copa do Mundo de 1950 e superou o do rival. Nos anos 50, o Grêmio construiu o Olímpico. O Inter respondeu e fez o Beira-Rio. Depois, o Grêmio criou sua Arena. E o Inter reformulou seu Beira-Rio e o tornou moderno.

Batista e Geraldão, em um dos muitos embates dos anos 80. Foto: Telmo Curcio.

No quesito títulos, o Inter começou uma histórica hegemonia no estado no final dos anos 30 justamente com uma goleada de 6 a 0 sobre o Grêmio, em 1938. Três anos antes, aconteceu o lendário Gre-Nal do centenário da Revolução Farroupilha, no qual o goleiro Lara, do Grêmio, fez grandes defesas, ajudou seu time a vencer por 2 a 0, deixou o duelo no intervalo e faleceu dois meses depois, criando a lenda de que “teria morrido em campo após defender um chute violento do rival colorado”. Em 1948, veio os 7 a 0 sobre o Grêmio em plena Baixada, maior goleada na era do profissionalismo. E, em 1954, durante um torneio de inauguração do Olímpico, o Inter fez 6 a 2 no rival sem dó nem piedade. Mas teve troco: em 1960, o Grêmio fez 5 a 1 em pleno Eucaliptos, década que teve um heptacampeonato estadual do tricolor. Mas aí vieram os anos 70, e o Inter foi octacampeão gaúcho, bicampeão brasileiro consecutivo e ainda campeão invicto, em 1979, dando ao estado os primeiros títulos nacionais de futebol.

Em 1977, o Grêmio acabou com a hegemonia do Inter no Gauchão com o famoso gol de André Catimba.

 

No final do jogo, claro, muita confusão e essa lendária e pitoresca voadora de um torcedor no árbitro do jogo, em foto captada pelas lentes do fotógrafo Telmo Curcio.

 

Só que o Grêmio venceu um brasileiro, em 1981, e se tornou o primeiro clube gaúcho campeão da América e do mundo, em 1983. Mas, em 1989, o Inter venceu o “Gre-Nal” do século, que valia vaga na final do Campeonato Brasileiro. Nos anos 90, outra vez o Grêmio se sobressaiu, faturou títulos nacionais e internacionais e deixou o rival para trás. Maaaaas, sabe como é, o Inter deu o troco. Venceu sua primeira Libertadores, em 2006, faturou o Mundial no mesmo ano e venceu outra Libertadores em 2010, igualando o número de taças da competição do rival. Até que, em 2017, o Grêmio venceu sua terceira e passou de novo o rival: 3 a 2. Mas, sabe como é, pode ter troco…

Em Gre-Nal, tem discussão até em cara e coroa, como esse em março de 2018…

 

Já são mais de 100 anos de clássico, muitos duelos eletrizantes e um ponto positivo: nunca aconteceu algo de muito grave envolvendo as torcidas. Já tivemos muitas brigas, claro, mas a única fatalidade que se tem notícia foi fruto de um acidente inesperado em maio de 1948, no Gre-Nal de número 100, quando uma das arquibancadas de madeira do estádio da Timbaúva cedeu e um torcedor de 17 anos acabou falecendo com a queda. A rixa e a ira sempre se restringiram ao campo, às provocações, às falatórias de dirigentes, jogadores e às brincadeiras. Talvez por isso que o Gre-Nal seja tão enorme, em todas as essências e sentidos. E que continue assim por mais 100 anos.

Matéria sobre a queda do torcedor em um Gre-Nal de 1948.

 

7º – Nacional x Peñarol – Clásico del fútbol uruguayo

A rixa: ¡Soy el decano! No, ¡el decano soy yo! Essa frase é ouvida há mais de 100 anos pelas ruas de Montevidéu quando um tricolor encontra um aurinegro. O Nacional, fundado em 14 de maio de 1899, se intitula o pioneiro do futebol no país, o mais antigo, o decano. Já o Peñarol possui uma origem conturbada, pois tem em suas raízes o CURCC (Central Uruguay Railway Cricket Club), fundado em 28 de setembro de 1891, que existiu com esse nome até 13 de dezembro de 1913, quando virou CURCC Peñarol e, em 12 de março de 1914, o definitivo Club Atlético Peñarol. Por isso, o Peñarol se intitula “padre y decano” do futebol uruguaio por ser oito anos mais velho que o Nacional. Mas o Nacional e muitos historiadores dizem que o Peñarol de 1914 era distinto do CURCC lá de 1891. Aí, meu amigo (a), ninguém jamais entrou em um consenso e a “guerra da paternidade” continua até hoje.

Quando começou: no amistoso Nacional 0x2 CURCC, em 15 de julho de 1900. E, de maneira mais assídua, no empate em 2 a 2 entre Nacional e o já nomeado CURCC Peñarol, em 14 de dezembro de 1913.

Maior Artilheiro: Atilio García-ARG (Nacional): 35 gols

Quem mais venceu: Peñarol – 165 vitórias (até outubro / 2018). O Nacional venceu 158. Foram 156 empates.

Maiores goleadas: Nacional 6×0 Peñarol, 14 de dezembro de 1941

Peñarol 5×0 Nacional, 25 de outubro de 1953

Peñarol 5×0 Nacional, 27 de abril de 2014

Eles dividem praticamente sozinhos a paixão de um país pequenino, mas com uma paixão futebolística enorme, que transborda. Desde o fim do século XIX, brigam pela definição sobre quem é o mais antigo clube de futebol do Uruguai. Mais do que isso, construíram uma rivalidade entre criollos (filhos de europeus e africanos ou de um casamento inter-racial com um dos pais espanhol), capitalinos (de Montevidéu) e universitários – Nacional – e britânicos, os de tierra adentro (da Villa Peñarol) e ferroviários – Peñarol. E, claro, de muitos títulos nacionais e internacionais. O fato é que Nacional e Peñarol podem se orgulhar de uma coisa: eles possuem a rivalidade mais antiga do mundo se excluirmos os clubes britânicos, obviamente. A rixa principal começou muito por causa da origem do Peñarol. O clube aurinegro contabiliza entre seus primórdios o já citado CURCC, fundado em 1891 na Villa Peñarol, em Montevidéu. A equipe de ferroviários decidiu adotar o amarelo e preto como uniforme por causa da locomotiva Rocket, criada por George Stephenson em 1829. Mas aí você deve se perguntar: de onde eles tiraram isso? É simples. Naquele ano de 1829, uma exposição realizada em Londres (ING) em homenagem à rainha Victoria teve uma competição entre locomotivas para se descobrir qual seria a escolhida para realizar o trajeto Manchester-Liverpool. Seria declarada vencedora a locomotiva que fizesse o trajeto no menor tempo possível. No páreo estavam três veículos: a Rocket, a Sans Pareil e a Novelty. No trajeto, a Sans Pareil e a Novelty tiveram problemas mecânicos e não chegaram ao destino final. Já a Rocket, toda imponente em amarelo e preto, conseguiu cumprir o objetivo e foi declarada vencedora, além de estabelecer inovações marcantes às locomotivas movidas a vapor da época.

O CURCC, motivo da discórdia do decanato.

Como o nome era muito grande e de difícil pronúncia, o clube passou a ser conhecido na época como CURCC e até mesmo Peñarol, por causa do bairro onde fora criado. O time foi campeão nacional em cinco oportunidades – entre 1900 e 1911 – e rapidamente despontou como uma das grandes forças do país. Em 1899, nasceu o Nacional, em Montevidéu, o primeiro clube a ter filhos de africanos, europeus e espanhóis na América Latina, em contraponto às origens europeias da maioria dos clubes do continente. Como o próprio nome dizia, ele era a favor do nacionalismo, criando ali uma animosidade com os europeus do CURCC – e algo que despertou bastante apoio e torcida dos universitários na cidade de Montevidéu. Já em 1900, a equipe disputou sua primeira partida contra o CURCC e perdeu por 2 a 0. Um ano depois, os tricolores ganharam usufruto do Estádio Parque Central, inaugurado um ano antes, e se encheram de orgulho por terem um grande estádio, ao contrário dos aurinegros, que jogavam no mirrado estádio Villa Peñarol. Em 1913, o CURCC começou a pensar em fechar seu departamento de futebol e passar a ser exclusivo às práticas recreativas, algo que gerou intensas discussões e a mudança de nome do diretório de futebol para CURCC Peñarol e a saída da Villa Peñarol, que já causava prejuízos ao clube na época. Em 1914, o clube mudou completamente seu nome, seus escudos, sua sede, seu quadro diretivo e virou o Club Atlético Peñarol.

No início, todos viam claramente que ele era uma continuação do CURCC, mas com o passar dos anos e a rivalidade aumentando cada vez mais, os dirigentes do Nacional passaram a questionar tal origem pelo fato de o Peñarol ser um novo clube, com novo nome e nova pessoa jurídica, pondo em cheque o decanato. Eles diziam que o CURCC não pretendia continuar como clube de futebol e que foram os empregados da empresa ferroviária que criaram o Peñarol lá em 1914. Enfim, o assunto até hoje gera discussões famigeradas e calorosas. E nunca um consenso.

Atilio García, maior artilheiro do clássico.

Em campo, os clássicos sempre foram disputados e com fases distintas em ambos os lados. Ainda nos tempos do CURCC, o duelo teve muito equilíbrio, com 23 vitórias para os aurinegros, 20 para o Nacional e 12 empates, além de um frenético CURCC 7×3 Nacional, em novembro de 1911, pela Copa Honor, jogo com maior número de gols da história do clássico. Nos anos 20 e 30, tempos de ouro da Seleção Uruguaia, os times foram os grandes “fornecedores” da Celeste nos títulos olímpicos de 1924 e 1928 e na Copa do Mundo de 1930, com destaque para os nove atletas do Nacional e cinco do Peñarol. Na década de 30, o Peñarol emendou quatro títulos nacionais seguidos, mas viu o rival superar o feito com cinco taças entre 1939 e 1943, período no qual o artilheiro Atilio García virou o maior terror da história do clássico com gols em profusão e o recorde de quatro tentos na goleada de 5 a 1 do Nacional pra cima do rival em 08 de dezembro de 1940. Em 1941, o tricolor aplicou sua maior goleada na história do clássico: 6 a 0, jogo que encerrou com chave de ouro uma sequência de oito jogos seguidos de vitórias do Nacional, recorde do clássico. Esse número chegou a dez jogos se contarmos apenas os válidos pelo Campeonato Uruguaio. Foi a partir desse período, também, que o estádio Centenário se transformou no grande palco do confronto, com públicos enormes, muita cantoria, fumaça e festas.

Jogadores do Peñarol esperam (em vão) o rival Nacional na partida “da fuga” em 1949. Foto: Padre y Decano.

Mas, no final da década, o Peñarol construiu um esquadrão fantástico que serviu como base da Celeste campeã do mundo em 1950 e que ficou conhecido como “escuadrilla de la muerte”, com nomes do quilate de Obdulio Varela, Schiaffino, Míguez, Hohberg, Ghiggia e Vidal. Aquele Peñarol, campeão invicto do Uruguaio de 1949, botou o rival para correr no chamado “clássico da fuga”. Ainda no primeiro tempo da partida realizada em 09 de outubro de 1949, o Peñarol vencia por 2 a 0 e o Nacional contabilizava dois jogadores expulsos – Tejera e Walter Gómez. Com medo de levar mais gols por causa da inferioridade numérica, os tricolores não voltaram para o segundo tempo e gerou imensas gozações dos rivais, um caso que ganhou as manchetes do país pela falta de coragem e espírito esportivo do time.

Nos anos 60, o Peñarol deixou o rival há quilômetros de distância com a conquista do bicampeonato da Libertadores em 1960 e 1961, o Mundial Interclubes de 1961 e também outra Libertadores e outro Mundial em 1966, com direito a vitórias históricas sobre o próprio Nacional. Isso sem contar o pentacampeonato uruguaio entre 1958 e 1962 e a série de 17 clássicos sem perder pelo Campeonato Uruguaio – 10 vitórias e sete empates entre 1960 e 1968. Só em 1971 que o tricolor conseguiu levantar suas primeiras taças internacionais, ao faturar a Libertadores e o Mundial naquele ano, marcado também pelo início da maior série invicta do tricolor sobre o rival: 16 jogos, com sete vitórias e nove empates, entre 1971 e 1974. Em compensação, a equipe tricolor sofreu uma barbaridade com o talento de Fernando Morena, atacante talentosíssimo que virou o maior artilheiro do Peñarol no clássico com 27 gols em 49 jogos disputados entre 1973 e 1979 e 1981 e 1983. Em 12 de novembro de 1979, uma curiosidade: a turma do seriado mexicano “Chaves” visitou o Uruguai e os atores Roberto Bolaños (o eterno Chaves) e Maria Antonieta de las Nieves (a Chiquinha) vestiram as camisas dos tradicionais rivais!

Olha quem vestiu as camisas dos rivais em 1979…

 

… Chaves e Chiquinha! Isso, isso, isso! Fotos: El País.

 

Nos anos 80, novos esquadrões aumentaram o misticismo do duelo. Em 1980, o Nacional faturou o bi da Libertadores e o bi do mundial. Em 1982, foi a vez do Peñarol voltar a levantar a América e conquistar o planeta. Entre 1984 e 1985, acumulou uma série de 14 jogos sem derrota para o rival – sete vitórias e sete empates. Em 1987, ganhou mais uma Liberta, mas perdeu o Mundial. E, em 1988, o Nacional faturou outra Libertadores e mais um Mundial, se igualando ao rival com três títulos mundiais. Em 1991, o Peñarol celebrou seu centenário e, adivinhe, o Nacional aproveitou para provocar enviando à imprensa um documento chamado “El Decanato”, retificando, entre outras coisas, que o CURCC não pretendia continuar com seu departamento de futebol e que o Peñarol era um novo clube. Sim, 100 anos depois, a discussão foi relembrada e calentada novamente… Curiosamente, foi naqueles anos 90 que ambos os times entraram em sono profundo no quesito títulos internacionais e passaram a brigar apenas em solo nacional.

O Centenário e as torcidas: quando pacíficas, elas fazem um belo espetáculo.

Falando em brigas, passaram a ser rotineiros os confrontos entre hinchas aurinegros e tricolores, algo que acabou ocasionando a morte de Walter de Posadas, de apenas 16 anos, degolado por um torcedor do Peñarol no dia 12 de junho de 1994 antes de um clássico no Centenário. Em 12 de janeiro de 2006, um torcedor do Nacional de 25 anos sofreu um violento golpe na cabeça em um clássico disputado em Maldonado e faleceu oito dias depois. Isso sem contar as dezenas de brigas antes e depois de vários clássicos tanto no Parque Central quanto no Centenário. Em novembro de 2016, pela primeira vez um clássico teve que ser suspenso por causa do comportamento dos torcedores do Peñarol na Tribuna Amsterdam. Eles brigaram com funcionários da bilheteria, com a polícia, roubaram a lanchonete do estádio e mais de 300 policiais da tropa de choque tiveram que ir ao estádio para conter o ímpeto dos barrabravas. Ao todo, 171 pessoas foram detidas.

Falando em coisas boas, uma curiosidade recente é que o Peñarol, em 2011, apresentou o chamado “maior bandeirão do mundo”, demonstrado no estádio Centenário em uma partida válida pela Libertadores daquele ano, com 309 metros de comprimento. Mas, em 2013, o Nacional mostrou a sua, com 600 metros de comprimento e que cobriu quase toda a arquibancada do Centenário. Rival é rival…

Desde então, os times buscam voltar aos seus tempos de glórias internacionais, seguem brigando cabeça a cabeça no Campeonato Uruguaio e agora disputam jogos cada um em sua própria casa, já que o Peñarol inaugurou o Campeón del Siglo, em 2016, com capacidade para 40 mil torcedores. Mesmo distantes do topo na América, os clubes continuam absolutos em qualquer pesquisa de maior rivalidade futebolística do mundo. E ainda sem saber quem é o decano do futebol uruguaio…

 

6º – Liverpool x Manchester United – The North West Derby

Foto: Richard Heathcote/Getty Images.

A rixa: localizada na região de North West England, a cidade de Manchester, um dos maiores polos industriais do país, em especial na produção de algodão, costumava utilizar o porto da vizinha Liverpool (pouco mais de 54 km de distância), o maior da Inglaterra, para exportar e importar seus produtos. Mas, perto do final do século XIX, as altas taxas cobradas pela cidade vizinha fizeram com que Manchester construísse seu próprio canal, o Manchester Ship Canal, inaugurado em 1894. Isso prejudicou demais a economia de Liverpool e seus trabalhadores. Nasceu a animosidade. E ela se estendeu ao futebol: os dois grandes times das cidades começaram a brilhar tanto em casa quanto no continente. Se transformaram nos maiores vencedores da Inglaterra. E a rivalidade econômica virou futebolística. E a maior do país.

Quando começou: na vitória do Liverpool sobre o então Newton Heath por 2 a 0, no dia 28 de abril de 1894.

Maiores Artilheiros: Sandy Turnbull-ESC (Manchester United): 9 gols

George Wall-ING (Manchester United): 9 gols

Steven Gerrard-ING (Liverpool): 9 gols

Quem mais venceu: Manchester United – 80 vitórias (até outubro / 2018). O Liverpool venceu 65. Foram 55 empates.

Maiores goleadas: Liverpool 7×1 Newton Heath, 12 de outubro de 1895

Liverpool 5×0 Manchester United, 19 de setembro de 1925

Manchester United 6×1 Liverpool, 05 de maio de 1928

Manchester United 5×0 Liverpool, 11 de setembro de 1946

Corria o final do século XIX e a cidade de Manchester estava cansada. Não era justo ser uma das maiores potências econômicas da Inglaterra e perder tanto dinheiro por causa de taxas e mais taxas no porto de Liverpool. Enfim, depois de muito pensar e estudar, eis que eles decidiram construir seu próprio canal e inaugurá-lo, em 1894. Foi um alívio. Mas com consequências. Liverpool sentiu o baque em seu balanço financeiro mensal. Não gostou nem um pouco daquela atitude. “Que consideração com o neighbour”, pensaram os críticos. Há poucos quilômetros dali, eles retrucavam: “vocês que pediram, bastards gananciosos!”. Pois bem. Aquela rixa econômica enraizou no cotidiano da região. E, claro, respingou em dois clubes de football da época: o Newton Heath, de Manchester, na ativa desde 1878, e o Liverpool Football Club, recém-criado, em 1892. Em 1894, após terminar na primeira colocação a temporada 1893-1894 da segunda divisão do futebol inglês, o Liverpool disputou a Test Match, que era uma espécie de tira-teima para ver se o time que vinha da segunda divisão realmente estava “pronto” para a elite. Os quatro melhores colocados da segundona enfrentavam os quatro piores da primeira divisão. E adivinhe quem foi o último colocado da elite daquela temporada? O Newton Heath, de Manchester. O Liverpool encontrou a melhor ocasião possível para dar o troco nos “ingratos” da região: venceu por 2 a 0 o primeiro jogo da história do duelo, foi para a primeira divisão, rebaixou os vizinhos e iniciou de vez a rivalidade do clássico.

O “canal da discórdia”, em Manchester.

Na temporada 1895-1896, o Liverpool enfrentou o rival pela segunda divisão inglesa e o goleou por 7 a 1 – foi a maior goleada da história do duelo. Em 1901, a equipe de Anfield levantou sua primeira taça nacional e, um ano depois, o Newton virou Manchester United FC oficialmente, com um novo logotipo contendo um barco e o mar, em uma clara referência justamente ao Manchester Ship Canal. A partir dali, as equipes começaram a construir uma história repleta de títulos e grandes duelos. O Liverpool foi bicampeão inglês em 1906 na mesma temporada em que o Manchester United subiu para a elite com seu novo nome. Em 1908, o United levantou sua primeira taça, levantou a Copa da Inglaterra no ano seguinte e faturou o bicampeonato inglês em 1911. Nos seguintes, porém, ambos pouco flertaram com títulos e o Liverpool fez a festa em duas ocasiões, em 1922 e 1923. Só em 1947 que os Reds venceram mais um campeonato nacional. Em 1948, o United acabou com parte do jejum levantando outra Copa da Inglaterra.

Nos anos 2000, Gerrard alcançou a dupla e virou um dos maiores goleadores, mas com a camisa do Liverpool. Foto: EFE.

Nos anos 50, os Busby Babes, do técnico Matt Busby, levaram o United aos títulos nacionais de 1952, 1956 e 1957, enfiaram 5 a 1 no rival em Old Trafford, em 1953, arrancaram um empate em 4 a 4 em Anfield na temporada 1953-1954 e fizeram uma nova geração torcer pelo clube de Manchester. Uma pena que o fatídico acidente aéreo de Munique de 1958, que matou boa parte daquele brilhante time, tenha abreviado uma trajetória que tinha tudo para ser ainda melhor. Com muita perseverança, o United se reergueu rapidamente e travou duelos energéticos com o Liverpool, já comandado pelo lendário Bill Shankly. O treinador ajudou bastante a aumentar a rivalidade do clássico nos anos 60 com seu entusiasmo. Do outro lado, Matt Busby, do United, também não deixava por menos e transformou o United no primeiro clube inglês campeão da Liga dos Campeões da UEFA, em 1968.

Após a taça continental e o título nacional de 1967, o United só venceria o campeonato inglês mais de duas décadas depois. Enquanto isso, o Liverpool entrou em seu mais vertiginoso período de glórias nos anos 70 e 80 com grandes esquadrões, que conquistaram quatro Ligas dos Campeões da UEFA, 11 títulos do campeonato inglês, três copas nacionais, quatro copas da liga inglesa e 10 supercopas nacionais. Mas o United evitou que o rival celebrasse um histórico e inédito Treble no futebol inglês na temporada 1976-1977. O Liverpool venceu o campeonato e a Liga dos Campeões e almejava levantar a taça da Copa da Inglaterra. Mas, na final de Wembley, o “azarão” United venceu por 2 a 1 e conquistou uma de suas mais celebradas taças. O troco veio em 1983, quando o Liverpool derrotou o rival na final da Copa da Liga Inglesa por 2 a 1, de virada.

Final da Copa da Inglaterra de 1977 deu Manchester.

 

No final dos anos 80 e início dos anos 90, a ascensão do hooliganismo provocou vários incidentes nos jogos entre ambos, além de cânticos provocativos relacionados ao desastre aéreo de Munique (envolvendo o Manchester, evocado pelos torcedores do Liverpool) e à tragédia de Hillsborough (envolvendo o Liverpool, evocado pelos torcedores do United). Em 1996, um torcedor do Liverpool cuspiu em Eric Cantona e outro tentou agredir o técnico Alex Ferguson com um soco enquanto eles recebiam suas premiações do título da Copa da Inglaterra vencida sobre os Reds por 1 a 0. Em 2006, durante uma partida pela Copa da Inglaterra em Anfield, torcedores do Liverpool jogaram, entre outras coisas, excrementos humanos nos torcedores do United. Em 2011, torcedores do United proferiram cantos “doentios”, segundo o Daily Mail, sobre a tragédia de Heysel e de Hillsborough contra os fãs do Liverpool em Anfield Road, e seis torcedores foram retirados do estádio por mau comportamento. Felizmente, com o aumento do policiamento e de sistemas de monitoramento e CFTV, casos graves de violência raramente acontecem.

Nos anos 90 e 2000, com a criação da Premier League, o Liverpool entrou em um jejum terrível de troféus e viu a ascensão do rival em todos os níveis, incluindo o continental, com títulos em 1999 e 2008. Mesmo assim, aconteceram duelos emocionantes. Em 1994, em Anfield, o Manchester abriu 3 a 0 em apenas 25 minutos, mas o Liverpool buscou um empate histórico e fechou o placar em 3 a 3. Em 1996, os rivais decidiram outra Copa da Inglaterra e de novo o United venceu: 1 a 0, gol do polêmico Cantona. Na temporada 1998-1999, o United levantou o inédito Treble despachando o Liverpool durante a campanha da Copa da Inglaterra, com uma vitória por 2 a 1  de virada com os dois gols nos minutos finais do jogo, quase uma prévia do que o time de Manchester iria aprontar na decisão da Liga dos Campeões daquela temporada

Owen e Gerrard com a Copa da Liga Inglesa em 2003. Foto: Getty Images.

Em 2003, veio o troco, com vitória do Liverpool por 2 a 0 na final da Copa da Liga Inglesa, com gols de Gerrard – grande carrasco dos Devils – e Owen. Na temporada 2015-2016, os rivais se enfrentaram pela primeira vez em uma competição da UEFA, nas oitavas de final da Liga Europa. E a tradição copeira do Liverpool pesou: vitória por 2 a 0 em Anfield e empate em 1 a 1 em Old Trafford. Os Reds chegaram até a final, mas acabaram perdendo para o Sevilla. Em 2009, uma das mais celebradas vitórias dos Reds: 4 a 1 em pleno Old Trafford, a primeira por quatro gols sofrida pelos Devils dentro de Old Trafford desde que a Premier League foi criada, lá em 1992-1993.

Com tantos temperos e episódios, o clássico de North West segue como o maior da Inglaterra e um dos que mais causam repulsa tanto em torcedores quanto em jogadores, a ponto de Gary Neville, um dos grandes ídolos do United nos anos 90, ter dito certa vez: “Eu não suporto o Liverpool, não suporto as pessoas, não suporto nada a ver com eles!”. E, em 1996, num jogo-treino entre os rivais, o zagueiro do Liverpool Neil Ruddock quebrou as duas pernas (!) de Andy Cole, do Manchester. Tempo depois, ele disse: “Eu não queria quebrar as duas pernas dele… Eu só queria quebrar uma…”. Pois é. A recíproca sempre foi verdadeira…

 

5º  – Estrela Vermelha x Partizan Belgrado – Dérbi Eterno

A rixa: ambos os clubes foram criados no mesmo ano (1945), com uma diferença de sete meses para cada um e uma distância de pouco mais de 1km entre si na capital Belgrado, após a dissolução da maior parte dos clubes da Iugoslávia. O Estrela Vermelha foi fundado pela Aliança Unida da Juventude Antifascista, com apoio da polícia, e herdou o legado do antigo SK Jugoslavija. Já o Partizan nasceu do clube do exército comunista da Iugoslávia. Com isso, os militares e seus adeptos simpatizaram com o Partizan, sempre raivosos, tensos. Os adeptos da Sérvia e de outras nações foram para o Estrela, mais politizados. Ambos estavam unidos para expulsar os nazistas durante a II Guerra Mundial. Mas se separaram na formação da Iugoslávia e durante as conturbadas décadas que se seguiram, com o fim do comunismo e a fragmentação do país.

Quando começou: no dia 05 de janeiro de 1947, na vitória do Estrela Vermelha por 4 a 3 sobre o Partizan, na casa do rival.

Maior Artilheiro: Marko Valok-SER (Partizan): 13 gols

Quem mais venceu: Estrela Vermelha – 108 vitórias (até outubro / 2018). O Partizan venceu 78. Foram 62 empates.

Maiores goleadas: Partizan 7×1 Estrela Vermelha, 06 de dezembro de 1953

Estrela Vermelha 6×1 Partizan, 17 de novembro de 1968

Caro leitor (a), veja o vídeo abaixo:

Imagine você, um jogador do Partizan, caminhando dentro desses túneis do Marakana para enfrentar o dono da casa, o Estrela Vermelha, justamente seu maior rival. Sinistro e aterrorizante, para dizer o mínimo. É preciso muito sangue frio e bom psicológico. Porque do lado de fora o sangue ferve, quer dizer, borbulha! O clássico sérvio é simplesmente um dos maiores barris de pólvora do mundo e de todo leste europeu. Um clássico que sempre esteve ligado às conturbadas conjunturas políticas da antiga Iugoslávia e que ficou ainda mais acirrado após a independência e consolidação da Sérvia como nação.

Após a criação de ambos no final da II Guerra, o povo iugoslavo viu militares de um lado (Partizan) e civis do outro (Estrela) quando os clubes começaram a se enfrentar em duelos tensos, com ativa participação de suas torcidas, que criaram grupos de Ultras chamados Delije (do Estrela Vermelha) e Grobari (do Partizan). Esses grupos se preparam de maneira ativa antes de cada duelo, criam bandeiras, preparam canções e, claro, focam na musculação para possíveis encontros com os rivais. Sim: não é surpresa eles saírem na porrada. Além disso, os estádios ficam cobertos por chamas, fumaça e muito barulho pirotécnico que sempre atrasa os jogos e demanda dezenas de policiais para supervisionar e tentar conter o ímpeto dos fanáticos. Nos tempos de Iugoslávia, os jogos entre ambos eram menos agressivos por conta da rivalidade que existia na época com outros dois clubes: Dinamo Zagreb e Hadjuk Split, que acabaram indo para o lado croata após a independência nos anos 90.

Um clássico no Marakana nos anos 60 e 70: públicos superavam os 90 mil.

Nos campeonatos nacionais, Estrela e Partizan construiram um verdadeiro duopólio. Eles disputavam ano a ano o título e não davam trégua aos rivais. No período iugoslavo – de 1945 até 1992 -, foram 19 títulos do Estrela Vermelha e 11 do Partizan. O Hadjuk Split foi o que mais se aproximou da dupla, com sete taças. A partir dos anos 60, ambos começaram a expandir suas forças para o continente em busca da soberania. Primeiro, o Estrela Vermelha chegou até a semifinal da antiga Copa das Cidades com Feiras – precursora da Liga Europa – de 1961-1962, mas acabou caindo diante do forte Barcelona de Kocsis e Kubala. Em seguida, o Partizan deu o troco e alcançou a final da Liga dos Campeões da UEFA de 1965-1966, com base no talento de jogadores como Vasovic, Milan Galic, Hasanagic e “Vladica” Kovacevic. Pelo caminho, os coveiros (como eram conhecidos por causa do uniforme listrado e calções pretos, além da origem militar) despacharam times como Sparta Praga, Werder Bremen e o Manchester United. Mas, na decisão, eles não foram páreos para o Real Madrid de Amancio, Gento e Zoco. Foi naquela década de 60 que o Estrela Vermelha ostentou a primeira grande invencibilidade diante do rival: nove jogos, com sete vitórias e dois empates, entre abril de 1963 e março de 1967.

Marko Valok, maior artilheiro do dérbi.

Nos anos 70, o Estrela Vermelha viveu um grande momento e flertou com os títulos da Recopa da UEFA (foi semifinalista em 1974-1975) e da Copa da UEFA (foi vice-campeão em 1978-1979, perdendo para o grande Borussia Mönchengladbach-ALE). Foi naquela época que os dérbis entre Partizan e Estrela Vermelha atraíam públicos impressionantes, principalmente no estádio do Estrela, inaugurado em 1963 e um dos maiores da Europa, a ponto de ganhar o apelido que ostenta até hoje: Marakana, em homenagem ao lendário estádio brasileiro Maracanã. Em Novembro de 1976, aconteceu o recorde de público para o dérbi na história: 102 mil pessoas no Marakana, sendo mais de 90 mil pagantes, que viram a vitória do Estrela por 1 a 0.

Nos anos 80, os times não conseguiram brigar com os grandes clubes do continente, mas coube ao Estrela Vermelha a glória máxima para o futebol do país em 1991, quando faturou a Liga dos Campeões da UEFA sobre o Olympique de Marselha com a melhor geração de futebolistas de sua história. Jugovic, Mihajlovic, Prosinecki, Pancev e Savicevic eram apenas alguns dos craques que compuseram aquele timaço, que ainda faturou o Mundial Interclubes no mesmo ano (leia mais clicando aqui). Aquela glória colocou o Estrela num patamar acima que o rival justamente em um período tenso na Iugoslávia, com conflitos armados separatistas na região dos Balcãs que tiveram a participação de membros do Partizan e do Estrela Vermelha nos confrontos como grupos paramilitares. Com o fim da guerra e a criação de novos países, entre eles a Croácia, Hadjuk e Dinamo deixaram obviamente de disputar o mesmo campeonato nacional que Estrela e Partizan e a rivalidade passou a ser exclusiva entre alvinegros e alvirrubros. Foi exatamente a partir desse período pós-1995 que os jogos ficaram cada vez mais energéticos e sangrentos.

O Estrela Vermelha com a taça europeia: glória máxima do futebol iugoslavo.

Os torcedores passaram a figurar que os clássicos entre Partizan e Estrela eram uma verdadeira extensão da guerra que muitos deles participaram. Por isso, a balbúrdia criada em cada jogo sempre se sobressaiu ao futebol. Prova disso foi o que passou o brasileiro Cléo, que jogou no Estrela Vermelha e, em 2009, trocou o clube pelo Partizan – ele foi o primeiro jogador a trocar um rival pelo outro desde 1990. Adivinhe: ele recebeu ameaças de morte dos ultras do Estrela, cartazes de seu obituário foram espalhados pela internet e nem sair de casa ele conseguiu durante um tempo. Os alvirrubros fizeram questão até de aprender xingamentos em português só para atazanar a vida do jogador. Felizmente, tudo ficou apenas na ameaça. E, no dérbi 137, naquele mesmo ano de 2009, ele marcou o gol da vitória de seu time sobre o Estrela Vermelha por 2 a 1. E na casa do Estrela! Foi de abril de 2009 até novembro de 2011, também, que o Partizan alcançou a maior sequência de vitórias seguidas no clássico: seis.

Massa da torcida do Estrela no Marakana: fanatismo puro.

Desde então, os rivais continuam a duelar pelos títulos nacionais quase sem interferências, mas não conseguem estender tal hegemonia para além de suas terras. Suas torcidas frequentemente causam estragos tremendos nos estádios, queimam cadeiras, lançam sinalizadores e brigam com a polícia como se bebessem água. E, claro, tanta selvageria já causou várias mortes, algumas noticiadas – em 2006, um adolescente de 17 anos foi morto a facadas em uma briga no subúrbio de Belgrado -, mas a maioria ocultada. Em 2011, o Estrela Vermelha cansou de ver as cadeiras de seu estádio serem queimadas pelos ultras do Partizan e removeu todas as do setor de visitantes justamente para evitar fogueiras e munições para os coveiros.

Uma coisa “super” normal é estar num clássico e de repente surgir um fogo como o da foto…

Mesmo assim, a pirotecnia feita pelas torcidas arrepia, com cores, fumaças e os cantos em som de trovão, seja no Marakana, seja no Estádio Partizan. E são essas torcidas que constroem, jogo a jogo, o mito que cerca desde os anos 40 esse clássico que foi moldado na Iugoslávia, sobreviveu às guerras, passou pela Sérvia e Montenegro e agora vive em um terceiro país, a Sérvia. Não é à toa que tal dérbi ganhou a alcunha de “Eterno”…

4º – Fenerbahçe x Galatasaray – The Intercontinental Derby

A rixa: um está do lado asiático da cidade (Fenerbahçe) e representa o povo. O outro, do lado europeu (Galatasaray), e representa a elite. São separados apenas pelo estreito de Bósforo. No começo do século XX, faziam partidas amenas, sem grandes emoções. Até pensaram em se unir num só clube, em 1912, que se chamaria O Clube Turco, ou Türkkulübü. No entanto, as Guerras dos Balcãs, confronto bélico pelas terras remanescentes do Império Otomano, minaram tal ideia e prenunciaram a I Guerra Mundial. Alguns anos depois, em 1934, um simples amistoso entre ambas as equipes terminou em pancadaria. E a rivalidade começou ali.

Quando começou: eles começaram a se enfrentar no dia 17 de janeiro de 1909, com vitória do Galatasaray por 2 a 0. Mas o “pega para capar” começou no dia 23 de fevereiro de 1934, com a pancadaria no duelo nada amistoso entre os times que terminou sem vencedor.

Maior Artilheiro: Zeki Riza Sporel-TUR (Fenerbahçe): 27 gols

Quem mais venceu: Fenerbahçe – 146 vitórias (até outubro / 2018). O Galatasaray venceu 123. Foram 118 empates.

Maiores goleadas: Galatasaray 7×0 Fenerbahçe, 12 de fevereiro de 1911

Fenerbahçe 0x6 Galatasaray, 04 de maio de 1913

Fenerbahçe 6×0 Galatasaray, 06 de novembro de 2002

Tudo era muito calmo em Istambul naquele começo de século XX. O povo turco já adorava o futebol e se divertia com os duelos entre os clubes da cidade e das adjacentes. O Galatasaray, fundado em 1905 por estudantes da Galatasaray High School, e o Fenerbahçe, fundado por cidadãos comuns do distrito de Kadiköy, em 1907, eram os mais famosos e tinham a particularidade de serem divididos pelo estreito de Bósforo. O Fener ficava do lado asiático da cidade. O Gala, do lado europeu. Eles começaram a se enfrentar em 1909, com vitória do Galatasaray por 2 a 0 na casa do vizinho. A hegemonia do time amarelo e vermelho foi absoluta nos primeiros anos e chegou a oito vitórias seguidas sobre o Fenerbahçe, recorde até hoje na história do confronto. Em 1909, aconteceu um curioso duelo: o Galatasaray não conseguiu começar a partida com seus 11 jogadores porque seis deles não cruzaram o estreito de Bósforo devido a uma grande tempestade. Só depois que a partida começou é que um deles, Emin Bülent Serdaroglu – um dos fundadores do clube – conseguiu entrar em campo. Mesmo com sete atletas, o Galatasaray golerou o Fenerbahçe por 7 a 0, um feito histórico e que é até hoje a maior goleada do confronto. Mesmo com essas particularidades, o duelo entre ambos era tranquilo a ponto de os presidentes de ambos os clubes, Ali Sami Yen (Galatasaray) e Galip Kulaksızoglu (Fenerbahçe) terem a ideia de unir os dois clubes e formar um só. Mas aí veio a Guerra dos Balcãs. A I Guerra Mundial. E tal projeto desapareceu.

Um duelo lá em 1914. Eram tempos sem ira…

Foi então que chegou o ano de 1934. Era para ser apenas um amistoso entre ambos lá no dia 23 de fevereiro, no estádio Taksim. Mas ambos queriam muito a vitória. Pareciam até entorpecidos. Com a bola parecendo o último prato de comida da terra, as jogadas foram ríspidas. Botinadas eram frequentes. O juiz suava bicas para tentar conter aquela ferocidade toda. Até que não deu mais. Era muita tensão. Que inflamou a torcida nas arquibancadas. Os jogadores saíram na mão. E o jogo foi adiado sem vencedor, mas com um resultado: o início da lendária rivalidade entre os vizinhos separados por um estreito que deu ao dérbi a alcunha de Dérbi Intercontinental, o maior clássico da Turquia, o mais perigoso, o que mais tempera estádios com fumaças e o mais ensurdecedor de todo país, que coloca o “povo” contra a “elite” em campo.

A briga do clássico de 1934 iniciou a tensa relação entre vizinhos.

Após a confusão daquele amistoso nada amigo de 1934, nunca mais os duelos entre asiáticos e europeus foi o mesmo. Seus torcedores, tão apaixonados, passaram a encarar o confronto como um acontecimento. Era preciso ser superior ao rival e vencê-lo a qualquer custo, seja em casa, seja fora. Ano a ano, o dérbi virou a grande atração do calendário futebolístico turco. Nos anos 40, a primeira grande hegemonia no duelo foi do Fenerbahçe, que ficou 18 jogos sem perder do rival entre maio de 1942 e dezembro de 1946 e sacramentou a maior série invicta da história do clássico. Em 1959, foi criada a liga profissional da Turquia e justamente os dois rivais fizeram a primeira final do Campeonato Turco, após cada um vencer seu respectivo grupo na primeira fase. Na decisão, o Galatasaray venceu a primeira partida por 1 a 0, mas o Fenerbahce goleou por 4 a 1 os “europeus” e ficou com a taça, que se somou às da Istambul League conquistadas ao longo das décadas passadas – o Fener era o recordista de títulos com 16 taças, uma a mais do que o rival. Na era profissional, porém, foi o Galatasaray quem tomou a dianteira e chegou aos 21 títulos, contra 19 do Fenerbahçe. O Gala passou a frente também em número de títulos da Copa da Turquia – 17 a 6 – e Supercopa da Turquia – 15 a 9.

O Galatasaray só conseguiu a revanche de 1959 à altura na decisão da primeira Copa da Turquia da história, em 1963, quando venceu os dois jogos por 2 a 1. O feito se repetiria em 1965, mas, nos anos 70 e 80, o Fenerbahçe conseguiu equilibrar as coisas com grandes períodos de invencibilidade sobre o rival: 13 jogos, entre 1973 e 1975, e 14 jogos, entre 1976 e 1980, além do fato de a equipe vencer seis títulos nacionais e três copas nacionais contra cinco títulos nacionais do Gala. E os amarelos ainda tiveram nos anos 70 o brasileiro Didi como técnico!

Zeki Riza Sporel, maior artilheiro do clássico.

Nos anos 90, a rivalidade esquentou ainda mais por causa de um fato histórico e inusitado. Na final da Copa da Turquia de 1996, o Galatasaray foi para o segundo jogo na casa do Fener com a vantagem do empate. Após vitória por 1 a 0 no tempo normal do time da casa, os amarelos e vermelhos empataram na prorrogação faltando quatro minutos para o fim e conquistaram o título. Não bastasse ter vencido ali, no hostil alçapão do inimigo, o ex-jogador Graeme Souness, técnico do Galatasaray, pegou uma enorme bandeira do time e a fincou no centro do gramado do Fenerbahçe, inspirado em Ulubatlı Hasan, um dos heróis da conquista de Constantinopla (atual Istambul), em 1453, pelo Império Otomano, quando colocou a bandeira otomana em um dos muros da cidade. Imediatamente, a bandeira foi tirada dali e a torcida do Fenerbahce entrou em ira profunda, arremessando fogos, objetos e tudo o que tinham nas mãos nos jogadores do Galatasaray enquanto eles levantavam a taça. Souness disse após o pitoresco episódio que viu vários torcedores do Fenerbahçe prontos para invadir o gramado com uma ira nos olhos que dava até medo. Felizmente, a polícia conseguiu conter os fervorosos ultras.

Curiosamente, foi após esse episódio que o Galatasaray entrou em seu mais vertiginoso período de conquistas, com as históricas taças da Copa da UEFA e da Supercopa da UEFA de 2000, com um esquadrão imortal que fez do clube o primeiro – e até hoje único – da Turquia a possuir troféus continentais em sua galeria. Mesmo com um time tão forte, o Galatasaray viu que em clássico nunca tem favorito ao empatar um jogo em 4 a 4 com o rival em 2001. Em 2002, o Fenerbahçe conseguiu uma goleada histórica de 6 a 0 sobre o rival. Mas, em 2005, o time amarelo e vermelho teve sua desforra e manteve a sina de vitórias em finais de Copa da Turquia ao golear o rival, que tinha o brasileiro Alex como principal maestro, por 5 a 1, com três gols do artilheiro Sukur, uma final que não sai da memória do torcedor até hoje.

Uma década depois, em 2010, casos graves de violência viraram notícia em todo mundo. Em 2010, torcedores do Galatasaray agrediram jogadores sub-17 (!) do Fenerbahçe. Um deles teve o nariz quebrado e outros 13 foram hospitalizados. Dois dos agressores foram presos. E, em um clássico disputado no dia 12 de maio de 2013, cânticos racistas da torcida do Fenerbahçe contra os jogadores do Galatasaray foram um prenúncio de uma tragédia. No final do jogo, um jovem de 19 anos e torcedor do Fenerbahçe foi espancado e morto por fanáticos do Galatasaray, em um dos mais tristes episódios do dérbi na história. Isso motivou o banimento da torcida dupla nos confrontos entre os rivais.

Desde então, o policiamento segue intenso nos duelos, casos mais graves diminuíram, mas a tensão sempre existe. A rivalidade é tão grande que algumas lojas e grandes redes precisam adequar suas cores em cada lado da cidade só para não despertar a ira dos fanáticos! Um exemplo é um Mc Donald’s localizado no lado asiático que tirou o vermelho de sua fachada por não lembrar uma das cores do Galatasaray!

O lado positivo é a verdadeira festa que as torcidas fazem antes dos jogos, com mosaicos, pirotecnia e um fanatismo gigante e que contagia há mais de um século uma das mais energéticas capitais do futebol mundial.

 

3º – Celtic x Rangers – The Old Firm Derby

A rixa: católicos de um lado. Protestantes do outro. Sectarismo puro entre Ulsters Scots (Rangers) contra os Irish Scots (Celtic), dividindo torcedores nas Irlandas. Os católicos defendem a doutrina do Celtic. Os protestantes, do Rangers. Eles começaram a se enfrentar em 1888. E a rivalidade começou a tomar contornos muito maiores que o esporte. A religião literalmente entra em campo quando os dois se enfrentam. E ainda tem questões ideológicas de Conservadorismo e Socialismo. A rixa chegou a um ponto de o Rangers não assinar com nenhum jogador que fosse católico entre 1920 e 1989. Pronto. Está formado o mais complexo clássico do mundo.

Quando começou: no dia 25 de maio de 1888, na vitória do Celtic sobre o Rangers por 5 a 2.

Maior Artilheiro: Ally McCoist-ESC (Rangers): 27 gols

Quem mais venceu: Rangers – 159 vitórias (até outubro / 2018). O Celtic venceu 156. Foram 99 empates.

Maiores goleadas: Rangers 8×1 Celtic, 1º de janeiro de 1943

Rangers 5×0 Celtic, 1º de janeiro de 1894

Rangers 5×1 Celtic, 26 de novembro de 2000

Celtic 7×1 Rangers, 19 de outubro de 1957

Celtic 5×0 Rangers, 21 de março de 1925

Celtic 5×0 Rangers, 29 de abril de 2018

Fundado em 1872 pelos irmãos McNeil e com origens na área protestante da Escócia e da Irlanda do Norte, o Rangers era um dos 11 membros fundadores da Liga de Futebol Escocesa, assim como o Celtic, fundado em 1887 pelo católico irlandês Andrew Kerins, conhecido pelo nome religioso de Brother Walfrid, membro do Instituto dos Irmãos Maristas. Em 1888, o Celtic iniciou suas atividades oficialmente em uma partida amistosa vencida por 5 a 2 contra o Rangers. Naquele duelo, diz a lenda que os locutores já disseram que seria um jogo de “dois velhos, firmes amigos”, na primeira referência ao termo Old Firm. Antes da final da Copa da Escócia entre a dupla, em 1904, o jornal esportivo Scottish Referee publicou uma charge com os dizeres “patronize a velha firma, Rangers Celtic Ltda.”, também em uma alusão ao apelido. Mas todos estavam enganados quanto à conotação do clássico. Nada de amigos. Nada de velha firma. Aquele duelo seria de aversão profunda ao outro. Repelir o verde e branco: mantra pelas bandas do Rangers. Odiar o azul: lema número 1 no Celtic. E tais características ganharam ainda mais força com a frequência de duelos entre ambos, como na final da Copa da Escócia de 1894, vencida pelo Rangers por 3 a 1; na de 1899, vencida pelo Celtic por 2 a 0; e na citada decisão de 1904, vencida pelo Celtic por 3 a 2.

A charge que ajudou a moldar o nome Old Firm. Foto: The Telegraph.

 

Foi então que chegou o mês de abril de 1909. Outra final de Copa da Escócia entre Rangers e Celtic. No primeiro jogo, disputado no dia 10, empate em 2 a 2 no Hampden Park. Uma semana depois, veio o replay, no mesmo estádio. Novo empate, em 1 a 1. A torcida acreditava que haveria prorrogação. Mas, quando ficou claro que não teria tempo extra, mas sim a possibilidade de um novo jogo, que forçaria os escoceses a gastarem mais dinheiro com ingressos, começou o caos. Eles invadiram o gramado. Houve brigas entre as torcidas. Duelos com a polícia. Garrafas e pedras arremessadas. Tentativa de invasão dos vestiários. As traves foram quebradas. Atearam fogo em alguns pontos graças aos galões de gasolina trazidos de fora para dentro do Hampden Park. A polícia não tinha controle daquela ira, que tomou conta da entrada de Somerville Drive, também em chamas. Foram mais de duas horas de caos. Centenas de feridos. O maior de todos os caos em uma partida de futebol da história de Glasgow, segundo o jornal “The Glasgow Herald”. A final não teve replay nem vencedor. Ambos os clubes foram penalizados em 150 libras cada. Dinheiro de pinga, quer dizer, de cerveja, perto do que aconteceu. Dali em diante, o Old Firm estava estabelecido como o maior clássico da Escócia, um dos mais famosos do mundo e o com mais ingredientes extra-campo de todos.

No começo do século XX, a ira religiosa ainda não era aflorada no duelo. Ela só começou a ficar mais deflagrada após o incidente da final de 1909 e com a instalação do estaleiro da Harland & Wolff, empresa naval de Belfast (Irlanda do Norte), em Glasgow, bem próximo ao estádio do Rangers, em 1912. Enfrentando problemas financeiros, a Harland & Wolff viu na Escócia a chance de progresso e geração de empregos na região. No entanto, eles tinha a política de não contratar católicos. Com isso, quem ainda não torcia para o Rangers nem era protestante, acabou se unindo às duas causas, além dos Ulster protestantes da Irlanda irem até Glasgow para trabalhar. Com a deflagração da I Guerra Mundial e a Revolta da Páscoa de 1916 na Irlanda – organizada por republicanos que buscavam a independência do Reino Unido -, aumentaram ainda mais a identidade de união do Rangers, contrariando o lado rebelde dos irlandeses que compunham boa parte da torcida e identidade do Celtic.

A gota d’água desse sectarismo aconteceu em 1920, quando o Rangers, aproveitando a popularidade da Ordem de Orange (organização protestante que atuava no Reino Unido e na Irlanda desde o século XVIII) em Glasgow, decidiu não contratar mais jogadores católicos para o seu elenco profissional de futebol. Essa política ficou desconhecida do público e era apenas off the records até 1965, quando o jogador Ralph Brand disse a um jornal que o clube possuía uma política de “apenas protestantes” quando foi jogar no Manchester City. E o clube confirmou tal costume tempo depois. “Faz parte da nossa tradição… Nós fomos formados em 1873 como um clube protestante. Para mudar isso nós perderíamos um número considerável de torcedores”, disse o vice-presidente do clube na época, Matt Taylor, em 1967. Mesmo assim, alguns jogadores católicos conseguiram atuar pelo Rangers ocultando suas ideologias. Só em 1989 que tal critério de seleção foi dissipado pelo clube azul.

O estádio Ibrox cheio: cena comum nos clássicos dos anos 30 e 40.

 

Em campo, os rivais construíram uma história de muito equilíbrio, duelos épicos e protagonismo puro no futebol escocês. Em 1928, o Rangers venceu a Copa da Escócia com uma goleada de 4 a 0 sobre o Celtic. Em 1939, mais de 118 mil pessoas lotaram o Ibrox para o Old Firm que terminou com vitória do Rangers sobre o Celtic por 2 a 1, no último duelo oficial entre ambos antes da II Guerra Mundial. Durante o conflito bélico, os rivais se enfrentaram em duelos não-oficiais (o futebol estava suspenso em todo Reino Unido), mas o Rangers contabiliza nesse período a goleada de 8 a 1 sobre o rival em 1943, o maior resultado da história do confronto. O troco aconteceu em 1957, quando o Celtic aplicou a maior goleada em uma final de um torneio britânico em todos os tempos: sonoros 7 a 1, na decisão da Copa da Liga Escocesa em um Hampden Park tomado por mais de 82 mil pessoas. O show em campo inspirou músicas, poemas e até livros. Foi como um prenúncio da década de ouro que o clube alviverde viveria nos anos 60. Sob o comando de Jock Stein – que era protestante, mas podia atuar no Celtic pelo fato de o clube não possuir políticas sectárias – a equipe alviverde dominou o futebol nacional e ainda faturou a Liga dos Campeões da UEFA de 1966-1967, quando os alviverdes venceram cinco títulos em uma só temporada, um recorde no futebol britânico. Aliás, Jock Stein dava preferência para jogadores protestantes no Celtic. Ele dizia que o foco do time deveria ser nas promessas protestantes, afinal, os católicos não seriam contratados pelo rival, por isso, a chance de enfraquecê-lo com essa atitude era maior. A cereja no bolo foi a goleada de 4 a 0 do Celtic sobre o rival na final da Copa da Escócia de 1969, jogo com maior público da história de um Old Firm: 132.870 pessoas no Hampden Park! Vale lembrar que o Celtic emendou nove títulos nacionais seguidos entre 1966 e 1974, algo que seria igualado pelo rival entre 1989 e 1997 (ambos detém a maior série de títulos seguidos na história do campeonato).

Nos anos 70, começaram a acontecer episódios trágicos e tristes no duelo. O primeiro foi em 1971, no antigo e tradicional Old Firm do Ano Novo (que era disputado no dia 1º ou 2º de janeiro), quando 66 pessoas morreram nas escadarias de número 13 do estádio Ibrox. Relatos dizem que uma criança caiu dos ombros de seu pai e isso desencadeou um efeito dominó, o que culminou na tragédia. O pior é que tal escada já havia sido motivo de alerta das autoridades de segurança desde 1963, mas nada foi feito até o fatídico 02 de janeiro de 1971.  No ano seguinte, o Rangers se reergueu de um ano ruim e foi campeão da Recopa da UEFA, conquistando seu primeiro título continental.

McCoist, maior artilheiro do clássico. Foto: Getty Images.

 

Em 1980, outro caso grave envolvendo as torcidas num Old Firm válido pela final da Copa da Escócia. O Celtic venceu por 1 a 0, mas o que ficou em evidência foi a invasão de campo de torcedores de ambos os times, que começaram a brigar entre si e causaram uma confusão imensa, muito por causa do excesso de álcool consumido por ambas as partes – isso motivou o banimento de bebidas alcoólicas em partidas de futebol na Escócia. Além disso, os clubes foram multados em 20 mil libras e mais de 200 pessoas foram presas. No final daquela década, em 1989, Mo Johnston tornou-se o primeiro jogador declarado abertamente católico a atuar pelo Rangers desde a política sectária do clube lá dos anos 1920. Nos anos 90, a rivalidade continuou alimentada até mesmo pelos jogadores, como no ano de 1998, quando Gascoigne simulou tocar uma flauta como um “legítimo membro da Orange Order” para provocar os católicos do Celtic. Ele chegou até a receber ameaças do IRA após o episódio e recebeu uma multa de 40 mil libras da associação de futebol da Escócia.

Pelo Rangers, Gascoigne tocou flauta como um legítimo protestante e provocou os católicos do Celtic…

 

Em 1999, o Rangers foi campeão escocês dentro da casa do Celtic em um jogo cheio de controvérsias, com moeda jogada na cabeça do juiz, briga entre jogador do Celtic expulso e o árbitro, invasão de campo e muita hostilidade. Ao longo da semana do título, centenas de incidentes relacionados ao duelo foram reportados e 113 pessoas foram presas! Nos anos 2000, o clássico ganhou o tempero da boa fase do Celtic contrastando com a queda brutal do Rangers, que enfrentou a falência em 2012 e ganhou até uma faixa “comemorativa” do rival. O duelo só voltou a acontecer pelo campeonato nacional em 2016. O Celtic ainda segue invicto para o rival desde a falência dos azuis e começou a colecionar grandes goleadas sobre o Rangers, incluindo um 5 a 1, em 2017, e um 5 a 0 em casa que decretou o sétimo título nacional seguido, em 2018. Felizmente, a violência no Old Firm cessou um pouco neste século XXI graças ao policiamento ostensivo. Mas a hostilidade segue intacta mesmo com a heterogeneidade entre torcedores e nas contratações de ambos os lados.

Sobrou até para o juiz no Old Firm de 1999. Foto: The Scotish Sun.

 

A torcida do Celtic assustou o rival à beira da falência, em 2012. Foto: The Scotish Sun.

 

Até hoje, Celtic e Rangers fizeram 15 finais de Copa da Escócia, com sete vitórias para cada um e uma sem vencedor. Na Copa da Liga Escocesa, foram 14 finais, com nove vitórias do Rangers e cinco do Celtic. Mesmo com o período de hiato nas divisões inferiores, o Rangers continua na dianteira em número de títulos do campeonato nacional – 54 a 49. Mais antigo dérbi do planeta, o Old Firm ainda resiste como um dos mais emblemáticos clássicos do mundo. E pronto para novos e intensos capítulos.

 

2º – Boca Juniors x River Plate – Superclásico

A rixa: ambos nasceram no bairro de La Boca, na área portuária de Buenos Aires e com raízes genovesas. O River começou suas atividades em 1901 das mãos de Leopoldo Bard (primeiro presidente) e oriundo da fusão dos clubes Santa Rosa e Los Rosales. Já o Boca iniciou sua história em 1905, fruto da ideia de adolescentes filhos de italianos. Com origens parecidas e divididos por quarteirões, a rivalidade cresceu naturalmente. Mas começou a ganhar proporções fora do controle a partir dos anos 20, quando o River se mudou para a Recoleta e passou a jogar no estádio Alvear y Tagle. Até que, nos anos 30, o clube se mudou em definitivo para Núñez, bairro nobre da cidade, e inaugurou o estádio Monumental. Com um ar de superioridade, o River construiu uma imagem elitista, em contraste à faceta popular e simplória do Boca, enraizado em seu querido bairro. Mesmo tão distante, o River jamais se esqueceu do antigo irmão. Assim como os xeneizes. Ambos passaram a colecionar títulos no futebol argentino, mais e mais torcedores e a alimentar uma rivalidade épica, que para a Argentina e move paixões incondicionais que contagia até mesmo os jogadores. Um duelo entre Boca e River nunca é um clássico. É um Superclásico.

Quando começou: algumas fontes citam o duelo do dia 02 de agosto de 1908, na vitória do Boca sobre o River por 2 a 1, em Dársena Sud. Mas a primeira partida oficial foi no dia 24 de agosto de 1913, com vitória do River Plate por 2 a 1, com o Boca como mandante, mas no estádio do Racing.

Maior Artilheiro: Ángel Labruna-ARG (River Plate): 16 gols

Quem mais venceu: Boca Juniors – 88 vitórias (até outubro / 2018). O River venceu 81. Foram 77 empates.

Maiores goleadas: Boca Juniors 6×0 River Plate, 23 de dezembro de 1928

River Plate 0x4 Boca Juniors, 12 de março de 1972

River Plate 5×1 Boca Juniors, 19 de outubro de 1941

River Plate 4×0 Boca Juniors, 19 de julho de 1942

Os nascimentos daquelas duas instituições foram sob mesmo berço, mesma origem, mesmo bairro. Porém, um deles não se sentia bem por ali. Parecia que todo aquele ambiente não lhe fazia bem. Era mais afável aos de azul e amarelo. Com isso, eles se mandaram dali. Foram para a área nobre da cidade. De herança, apenas a camisa com as cores da bandeira genovesa em branco e vermelho. E uma rivalidade ácida, recheada de capítulos eletrizantes, outros trágicos, muitos polêmicos e com craques da mais alta estirpe do futebol. Pensar em futebol argentino é pensar em Boca e River, o maior duelo das Américas. Um dos maiores do mundo. E uma rivalidade que transcende a razão. Para um boquense, é insuportável perder para um antigo vizinho que abdicou de suas raízes, que sempre causou estranheza e ira. Para um millonario, ser derrotado pelos bosteros é a maior das dores, é a ferida máxima no orgulho. Esses sentimentos são apenas alguns de um clássico que é movido exatamente por isso: sentir. Viver um Superclásico é a síntese de todas as características presentes em um jogo portenho: manchetes provocativas antes do jogo, delírio da torcida no pré-jogo, jogadas ríspidas em campo, passes precisos, gols bonitos (ora polêmicos), fintas, dribles, jogadas ensaiadas, quase sempre uma expulsão (ou duas, três…), falatórias contra a arbitragem, e, claro, muita gozação dos vencedores aos vencidos por semanas, até meses, quiçá anos.

Após a origem dos dois clubes em La Boca, na ânsia de repetir a trajetória de sucesso do decano do futebol argentino, o Alumni Athletic Club, Boca e River dividiam seus cotidianos no bairro genovês naquele começo de século XX e fizeram seus primeiros embates entre os anos de 1908 e 1913, com jogos anuais posteriormente até um hiato de quase dez anos, que começou em 1919 e só foi terminar em 1927, quando o Boca reencontrou o rival e venceu por 1 a 0. Em 1928, o Boca goleou o River por 6 a 0 e decretou a maior goleada da história do clássico, comprovando a ótima fase vivida pelos xeneizes na época, que fizeram inclusive uma excursão pela Europa que terminou com 19 jogos, 15 vitórias, um empate e apenas três derrotas. Foi então que, em 20 de setembro de 1931, um fatídico duelo chamado “Superescândalo” decretou a grande rivalidade entre ambos. Após abrir o placar, o River viu o árbitro marcar um pênalti para o Boca, aos 28’. Na cobrança, Francisco Varallo bateu e o goleiro Iribarren defendeu. No rebote, Varallo chutou e outra vez o porteiro do River evitou o gol. Na terceira tentativa, enfim, Varallo fez o gol. Acontece que ele cometeu falta clara no lance, algo confirmado pelo próprio atacante xeneize. O árbitro fez vista grossa e causou a ira dos jogadores do River. O juiz expulsou três jogadores do River por reclamação. O time millonario ameaçou retirar-se de campo. E, sem condições para prosseguir com a partida, o árbitro encerrou o duelo. A tensão em campo acabou refletindo na torcida e originando conflitos nas tribunas e do lado de fora do estádio. O Boca ganhou os pontos do jogo, acabou campeão naquele ano e nunca mais um duelo entre ambos foi amigável. Isso porque era apenas o décimo jogo entre a dupla na história…

Varallo, à esquerda, personagem do primeiro clássico polêmico da história.

 

Após aquele episódio, o River começou sua emancipação no futebol argentino e impressionou a todos quando contratou grandes nomes do esporte na época: Carlos Peucelle (por 10 mil pesos, em 1931) e Bernabé Ferreyra (por 35 mil, em 1932), extravagâncias que originaram o famoso apelido millonarios do clube. E, já em 1932, levantou o título nacional que impediu um bicampeonato seguido do rival Boca. Em 1938, inaugurou seu estádio, o Monumental, que se transformou no grande símbolo de sua imponência e grandeza no futebol argentino, a ponto de ser o habitat preferido da Seleção Argentina. Na inauguração, o River convidou o Peñarol para fazer a partida de estreia e nem sequer deu bola para o rival. Dois anos depois, em 1940, o Boca respondeu inaugurando La Bombonera, que igualmente se transformou no símbolo da paixão do Boca pelo seu bairro e por sua torcida. A estreia foi contra o San Lorenzo e não com o rival agora residindo em Núñez.

Na década de 40, a rivalidade esquentou com a força dos dois times no futebol argentino e o nascimento da inesquecível “Máquina” do River, multicampeã e com craques como Pedernera, Moreno, Loustau e Labruna, artilheiro que só não fazia chover nos superclássicos. Ele anotou 16 gols em jogos contra o Boca e foi um dos maiores símbolos da aversão millonaria ao rival. Labruna chegou a dizer que, se fosse técnico do Boca, “faria questão de perder todos os jogos só para rebaixar o rival”. Além disso, Labruna costumava tapar o nariz quando ia jogar em La Bombonera para provocar o rival. Motivo? O apelido de bosteros que o clube ganhou da torcida do River, em alusão ao forte odor quando aconteciam as famosas inundações na região de La Boca. Outra explicação para o apelido é por causa do odor de uma fábrica de tijolos próxima ao clube, que usava excrementos de animais como matéria-prima. Em 1942, o River deu sua primeira volta olímpica como campeão argentino em plena La Bombonera, após empate em 2 a 2 com o rival, feito que se repetiria em 1955 e na temporada 1985-1986. O Boca só deu uma volta olímpica no Monumental diante do River: em 1969, também após empate em 2 a 2 que sacramentou o título xeneize no Nacional daquele ano.

La Máquina em campo: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau. Uma das fotos mais marcantes do futebol mundial.

 

Após o grande período do River nos anos 40 e equilíbrio entre a dupla nos anos 50 e 60, o clássico ganhou as manchetes do país por causa de uma tragédia. No dia 23 de junho de 1968, após um empate sem gols no Monumental, os torcedores, que sofreram não só por causa do placar insosso, mas também pelo frio, queriam deixar o estádio abarrotado de gente o quanto antes. Mas, quando os torcedores do Boca se dirigiram ao portão 12, que ficava num túnel escuro e hostil abaixo das enormes escadas que compunham a arquibancada dos visitantes, deram de cara com ele fechado. Com isso, o grande fluxo de pessoas e o empurra-empurra de cima para baixo provocou uma verdadeira avalanche que matou 71 pessoas, por asfixia e pelos golpes das quedas, na chamada “Tragédia de la puerta 12”. Houve ainda mais de 60 feridos. Dizem que a própria polícia (do governo ditatorial de Juan Carlos Onganía) fechou o portão em represália aos torcedores, que jogaram copos com urina e excrementos nos oficiais que estavam nas ruas do lado de fora do estádio. Foi a maior catástrofe da história do futebol argentino. E nunca os culpados foram encontrados nem acusados. Inacreditavelmente, os clubes pouco se importaram com o ocorrido e a fatalidade caiu no esquecimento.

Nos anos 70, o Superclásico recomeçou a sua história de alegrias com jogos decisivos. Primeiro, em 1972, um alucinante River 5×4 Boca, no estádio do Vélez, se transformou em um dos jogos mais incríveis da história do duelo e também no com maior número de gols – superando os 5 a 3 do River em 1938. No mesmo ano, o River eliminou o rival do Campeonato Nacional na semifinal com uma vitória por 3 a 2, mas o título ficou com o San Lorenzo. O troco veio em 1976, na primeira final nacional entre a dupla em toda a história do futebol argentino. No Nacional daquele ano, Boca e River decidiram o título no estádio El Cilindro e deu Boca: 1 a 0, gol de Suñé, um título que embalou o clube xeneize rumo às conquistas de suas primeiras Copas Libertadores, em 1977 e 1978. Antes disso, em 1974, uma goleada do Boca de 5 a 2 pra cima do River consagrou Carlos García Cambón, autor de quatro gols – recorde até hoje inigualado no Superclásico. Mesmo com o Boca vivendo um grande momento a nível continental, o River judiou do rival em solo nacional. Primeiro, em 1977, em um jogo decisivo pelo Campeonato Argentino, a equipe conseguiu virar um jogo para 2 a 1 nos minutos finais com um belo gol de Pedro González e praticamente carimbou seu título em plena Bombonera. No ano seguinte, um clássico no Monumental terminou com vitória do River por 1 a 0 com o gol marcado por Labruna… Mas o filho! E ainda com o pai como técnico! Imagine o quanto doeu no orgulho boquense levar um gol de outro Labruna na história?!

Labruna (à dir.), maior artilheiro da história do Superclásico.

 

Na década de 80, foi a vez do River reverter os tempos de ouro do Boca e tomar para si o protagonismo no superclássico. Em março de 1980, o time millonario enfiou 5 a 2 no Boca em plena Bombonera. Em setembro de 1981, outra vitória na cancha boquense: 3 a 2, com gols de Kempes, Passarella e García – naquele ano, Maradona estreou pelo Boca em um superclásico disputado em abril e marcou um dos gols da goleada de 3 a 0 dos xeneizes. Mais tarde, em 1986, o River abrilhantou um ano inesquecível ao dar uma volta olímpica antes mesmo do jogo em plena Bombonera para celebrar o título nacional daquele ano, conquistado quase um mês antes do duelo. Para evitar conflitos, eles deram a volta longe das tribunas e arquibancadas com os barrabravas do Boca. A festa foi ainda maior pelo fato de o time vencer o rival por 2 a 0, com dois gols do ídolo Norberto Alonso. Naquele ano, o River ainda venceu sua primeira Libertadores e o Mundial Interclubes com um esquadrão memorável. Para o Boca, restou a amargura de uma seca de títulos nacionais que durou de 1981 até 1992.

Alonso (centro) vibra com um de seus gols em La Bombonera.

 

Nos anos 90, altos e baixos de ambos marcaram o duelo. Primeiro, o River aplicou um 3 a 0 (gols de Francescoli, Gallardo e Ortega) no rival em plena Bombonera, em 1994, ano do título invicto dos millonarios no campeonato nacional, e faturou outra Libertadores, em 1996. Mesmo com um grande time, o River venceu apenas dois dos 14 jogos entre outubro de 1992 e maio de 1999 em duelos nacionais disputados contra o Boca, que venceu nove – foram três empates. Um deles foi a goleada de 4 a 1 sobre o River com os famosos três gols de Caniggia, no dia 14 de julho de 1996, dias depois do título continental do River. Nesse jogo, Maradona ainda chutou um pênalti na trave, mas foi salvo por Caniggia, que consertou para o companheiro. No final da década, o Boca iniciou uma leva de duelos históricos com o rival pela Copa Libertadores. Sob o comando de Bianchi, os xeneizes eliminaram o River da competição nas quartas de final de 2000 com uma goleada de 3 a 0 no duelo de volta, no lendário retorno de Palermo após contusão, que entrou no segundo tempo e fez o gol da vitória, calando o técnico Américo Gallego, do River, que disse antes do jogo que se o Boca colocasse Palermo, ele colocaria Enzo Francescoli, já aposentado na época e insinuando que o atacante boquense não tinha condição alguma de entrar em campo. No fim, deu no que deu…

Mas o grande momento do superclásico na Libertadores aconteceu em 2004. Era semifinal. O River tinha a chance de acabar de vez com a hegemonia boquense na competição – eles haviam vencido três títulos entre 2000 e 2003. Primeiro, em La Bombonera, o Boca venceu por 1 a 0. Com torcida única – algo que seria a tona dos clássicos neste século XXI, para evitar confrontos de torcidas – a briga acabou sendo dentro de campo, com discussões, agressões, unhadas (!) e nervos à flor da pele. No duelo da volta, no Monumental, o River venceu por 2 a 1, mas não antes de Tévez, do Boca, marcar seu gol e imitar uma galinha para provocar a massa millonaria, apelido jocoso que o clube ostenta desde 1966 por causa desse jogo aqui. Na disputa de pênaltis, o Boca venceu e se garantiu em mais uma final. Foi um jogo tão histórico, tão emocionante, que ele tem um capítulo aqui no Imortais. Leia clicando aqui!

Na década de 2010, o River amargou o fundo do poço com o rebaixamento para a série B do futebol argentino, fazendo com que os boquenses mudassem o nome do rival para RiBer Plate. Os millonarios deram a volta por cima e, em 2014, eliminaram o histórico rival nas semifinais da Copa Sul-Americana após empate sem gols em La Bombonera e vitória no Monumental por 1 a 0 – o River terminou campeão. Em 2015, outra vez o River despachou o rival, dessa vez nas oitavas de final da Copa Libertadores. E com novos episódios polêmicos. Após vencer a ida por 1 a 0, em casa, o River foi à Bombonera com a vantagem do empate. Após um primeiro tempo sem gols, quando voltavam para a segunda etapa, os jogadores millonarios foram atacados com gás de pimenta caseiro feito pelos torcedores xeneizes, que lançaram a mistura no túnel de acesso ao gramado. Quatro jogadores do River foram severamente afetados nos olhos e na pele pelo gás. Após mais de uma hora de espera, o árbitro decidiu cancelar o jogo e o Boca foi eliminado por razões óbvias pela Conmebol. O clube ainda levou uma multa de 200 mil dólares e a pena de jogar seus próximos quatro jogos em competições da entidade com portões fechados. Uma punição bem branda pela selvageria causada naquela noite. No fim, quem riu foi o River: ele foi campeão daquela Libertadores, com Gallardo, um dos protagonistas de muitos embates nos anos 90 e 2000 em seus tempos de jogador, como técnico.

O insólito caso do gás jogado pela torcida contra os jogadores do River, em 2015, causou queimaduras e lesões nas córneas de alguns atletas millonarios.

 

Em 2017, os dois times fizeram a segunda final nacional da história do Superclásico: a Supercopa Argentina, que reuniu o campeão do Campeonato Argentino (Boca) e da Copa da Argentina (River). O jogo foi disputado em Mendoza e o River venceu por 2 a 0, dando o troco no revés lá de 1976. Em 2018, o maior capítulo da história do Superclásico foi escrito: a decisão da Copa Libertadores entre ambos. No primeiro jogo, em La Bombonera, empate em 2 a 2. No segundo, que era para ter ocorrido no Monumental, uma série de problemas, com torcedores do River atacando o ônibus do Boca e falta de organização e segurança fizeram com que a partida fosse cancelada e remarcada para outro local, bem longe de Buenos Aires: Madrid, Espanha, no estádio Santiago Bernabéu. E, no atípico local, deu River: 3 a 1, de virada, resultado que coroou o time millonario na maior final de todas, confirmou sua esplendorosa fase diante do rival e um dado curioso: nos 17 embates eliminatórios ou decisivos entre ambos na história, o River venceu 12, contra apenas cinco triunfos do Boca.

Vencer uma Libertadores em cima do maior rival: façanha histórica e única para o River em 2018.

 

Desde então, o duelo entre os gigantes da Argentina segue intacto em rivalidade, provocações e polêmicas. Com as torcidas únicas tanto no Monumental quanto em La Bombonera, as brigas e duelos extra-campo diminuíram, mas tal ferocidade é vista com mais frequência dentro de campo. Os jogadores, quando vestem aquelas camisas, incorporam uma história centenária, a aura de grandes heróis e toda a mística que envolve os antigos irmãos que simplesmente se odeiam. Mas que, no fundo, lá no fundo, não teriam razão para existir sem o outro.

 

1º – Barcelona x Real Madrid – El Clásico

A rixa: o Barcelona fica na Catalunha, tradicional região separatista da Espanha. É o maior divulgador da causa catalã, do idioma, da cultura, de todo um povo. O Real é de Madrid, representa o “outro” lado, com laços estreitos no antigo franquismo, no governo e no nacionalismo espanhol. Ambos possuem torcidas imensas não só na Espanha, mas em todo mundo. Construíram ao longo das décadas alguns dos mais famosos e inesquecíveis esquadrões da história do futebol. Quase todos os maiores jogadores de todos os tempos vestiram ao menos uma vez a camisa de um ou de outro. No século XXI, os clubes praticamente monopolizaram os noticiários e transmissões na TV. Possuem estruturas invejáveis. Patrocínios milionários. Estádios exuberantes. Patrimônios impressionantes. E, claro, títulos quase incontáveis. Não é apenas um clássico. É um jogo político. Um evento mundial. Barça x Real é o clássico dos clássicos. É a essência do futebol globalizado.

Quando começou: no dia 13 de maio de 1902, na vitória do Barcelona sobre o então chamado Madrid FC, por 3 a 1. Mas a rivalidade explodiu, mesmo, nos anos 1940, após a Guerra Civil Espanhola.

Maior Artilheiro: Lionel Messi-ARG (Barcelona): 26 gols

Quem mais venceu: Real Madrid – 95 vitórias (até outubro / 2018). O Barcelona venceu 92. Foram 50 empates. Obs: apenas jogos oficiais.

Se contarmos todos os jogos temos o Barcelona como maior vencedor – 112 vitórias. O Real Madrid venceu 99. Foram 60 empates.

Maiores goleadas: Real Madrid 11×1 Barcelona, 19 de junho de 1943

Real Madrid 8×2 Barcelona, 03 de fevereiro de 1935

Barcelona 7×0 Real Madrid, 1º de novembro de 1913

Barcelona 7×2 Real Madrid, 24 de setembro de 1950

Barcelona 6×1 Real Madrid, 19 de maio de 1957

Imagine a maior região econômica de um país sedenta por independência. Agora pense em uma época de opressão e guerras que reprimiram tais sentimentos por muito tempo. Como enfrentar e viver em um ambiente tão hostil? Com escapes. E o apoio a um time que virou a representação máxima de toda a Catalunha. Vestir a camisa azul e grená do Barcelona virou o mantra contra o governo espanhol. Principalmente após a Guerra Civil. Do outro lado, o Madrid FC ganhou o título de Real e virou a grande vitrine do governo Franco. Ano a ano, o clube foi construindo uma história de títulos e hegemonias, mas sempre teve percalços justamente diante do vizinho catalão. Sofreu grandes derrotas. Eliminações. Goleadas. Os merengues quase sempre levam a melhor sobre qualquer adversário no planeta. Mas, quando encaram os blaugranas, toda a imponência é reduzida a pó. Eles se comportam de maneira diferente. Ali está o rival. Ali está o único clube capaz de impor medo a um time destemido. E é assim, década após década. Se o Real monta um esquadrão competitivo, vai o Barça e monta outro tão bom quanto. Ou melhor. E vice e versa. Se o Real foi eleito o melhor clube do século XX pela FIFA, o Barça começa o novo século com shows e a alcunha de o melhor do novo milênio. É uma briga de gigantes. Requintada. Clássica. Com particularidades. Política ao extremo. E, claro, cheia de tensão e provocações. Barcelona e Real Madrid é El Clásico, o número 1 dessa lista tão complexa e com tantos duelos históricos. Pelo peso que tomou nas últimas décadas e pelo passado repleto de interferências políticas, é fácil entender o motivo de o duelo entre madrilenos e catalães estar neste posto. E entender a rivalidade entre ambos é percorrer a própria evolução do futebol ao longo de mais de um século.

O primeiro clássico, lá em 1902: tempos (ainda) tranquilos…

 

Antes da grande rivalidade tomar forma, Barcelona e Madrid FC duelavam normalmente no futebol espanhol, sendo o primeiro encontro no dia 13 de maio de 1902, pelas semifinais da Copa de la Coronación, competição amistosa organizada em Madrid como parte dos festejos da coroação do rei Alfonso XIII. O Barcelona, mais experiente (era de 1899), venceu o novato Madrid (fundado naquele ano) por 3 a 1. As equipes disputavam, juntamente com a outra grande potência do país naquele começo de século XX, o Athletic Bilbao, os principais títulos do calendário nacional. Em 1916, os times tiveram um primeiro entrevero na semifinal da Copa do Rei, quando foram necessárias quatro partidas para ver quem iria para a grande decisão. Na primeira, em Barcelona, deu Barça: 2 a 1. Na segunda, no estádio de O’Donell, em Madrid, vitória do time da capital por 4 a 1. Na terceira, um alucinante 6 a 6 também em Madrid marcou época e soa como utópico nos dias de hoje. No quarto e último duelo, os merengues venceram por 4 a 2, mas o Barcelona deixou o campo sob protestos contra a arbitragem e também por causa dos dois jogos extras terem sido disputados na capital.

Os anos passavam e nada de os times se cruzarem em finais. Era mais comum ver Athletic x Madrid decidindo um título do que Barça x Madrid, tanto é que o jogo entre bascos e madrilenos tinha a alcunha de “mais clássico” do que madrilenos e catalães. No entanto, até o início da década de 1930, o Barcelona já colecionava oito troféus da Copa do Rei contra cinco do Madrid. Só o Athletic acumulava mais: 10 taças. Era clara a vocação vencedora de ambos. Em 1929, o Barcelona venceu o primeiro Campeonato Espanhol da história, mas só voltaria a celebrá-lo nos anos 40. Já o Real (que já tinha esse nome desde 1920, após ganhá-lo do rei Alfonso XIII), foi bicampeão em 1931-1932 e 1932-1933. E, em 1936, enfim aconteceu a primeira decisão da história entre merengues e blaugranas, na Copa do Rei. Disputada no campo do Valencia, a decisão terminou com triunfo do Real por 2 a 1, em um jogo simbólico por dois motivos: foi a última partida oficial antes do início da Guerra Civil Espanhola, que pararia o futebol do país por três anos, e também o último jogo da carreira do lendário goleiro Ricardo Zamora, que mais uma vez fez grandes defesas para o Real e garantiu a taça diante dos catalães.

Zamora, herói do Real campeão de 1936.

 

Com a guerra entre republicanos e nacionalistas e a vitória do general Franco, todas as regiões espanholas que possuíam culturas e ideologias distintas, como os bascos e os catalães, foram duramente reprimidos. Franco não iria permitir a divulgação de formas culturais que não fossem “genuinamente espanholas”, muito menos em línguas diferentes do espanhol. Com isso, o Barcelona teve que tirar a bandeira da Catalunha de seu escudo e até mudar seu nome para Club de Fútbol Barcelona. Até a antiga Copa do Rei mudou de nome para Copa del Generalísimo na época. Felizmente, o ditador não extinguiu as práticas esportivas e os jogos do Barcelona passaram a ser uma forma de mostrar as qualidades que a Catalunha tinha e sua identidade. Com a construção do Camp Nou e sua inauguração, nos anos 50, o estádio virou a fortaleza na qual se refugiava a identidade catalã. E, como não poderia deixar de ser, os jogos contra o Real Madrid, lá da capital, viraram duelos políticos. O barcelonista não podia negar que o time merengue carregava em si a identidade espanhola e os ideais do General Franco, que usaria o Real como bandeira esportiva da pátria principalmente nos anos 50, no apogeu do timaço merengue pentacampeão da Liga dos Campeões da UEFA.

O início dessa nova era no futebol espanhol viu o Barça ser campeão da copa nacional em 1942 e dois duelos que catapultaram a rivalidade extrema entre madrilenos e catalães nas semifinais da competição, em 1943. No primeiro jogo, em Barcelona, o time da casa fez 3 a 0 com muita contestação merengue por causa da arbitragem e também pelo comportamento dos torcedores catalães, que vaiaram e provocaram sem parar os madrilenos. Com isso, os torcedores do Barça foram proibidos de viajar até Madrid. Lá, no dia do jogo, o ônibus que levou o Barcelona até o estádio de Chamartín foi apedrejado e hostilizado na saída do hotel pelos madrilenos.

Em campo, moedas e objetos foram jogados na grande área do Barça no começo do jogo. Nas arquibancadas, os torcedores gritavam “separatistas, separatistas!”. O goleiro catalão Miró nem sequer podia chegar perto da linha de seu próprio gol para não levar pedradas. Era um ambiente impossível de se praticar um jogo de futebol – a ponto das autoridades da Segurança Nacional irem ao vestiário do Barça e dizer que “não tinham como garantir a segurança dos jogadores” em campo, com aquele ar de “não vençam aqui, ok?”. Qual a chance de um time jogar em um ambiente daquele? Nem é preciso mencionar o juiz, que nem ligou. Com isso, só o Real jogou. O primeiro tempo acabou 8 a 0. E o jogo (jogo?) terminou 11 a 1. Foi um escândalo. E a amostra ilustrada de que o Real era o time da ditadura e o Barça o dos oprimidos. O jogador catalão Fernando Argila, em entrevista publicada no livro “Fear and Loathing in La Liga: Barcelona vs Real Madrid”, de Sid Lowe, disse: “não havia rivalidade. Não, ao menos, até aquele jogo”. A Federação Espanhola multou os times após o ocorrido em 2,5 mil pesetas. Foi tão obsceno que a goleada nem foi celebrada em Madrid e tão pouco é recordada. Mais tarde, o Real acabou derrotado pelo Athletic Bilbao por 1 a 0 na final.

Em 1953, outro episódio deflagrou ainda mais a rivalidade entre os clubes. Alfredo Di Stéfano, um dos maiores jogadores do futebol mundial na época, chamou a atenção de Barça e Real graças ao seu talento com a camisa do Millonarios-COL, que havia participado das Bodas de Ouro do Real Madrid, em 1952, e vencido os merengues por 4 a 2, com dois gols do argentino. A queda de braço foi intensa, e, por um momento, o Barcelona conseguiu um acordo com o craque. No entanto, quando o Real chegou na parada, a briga alcançou patamares enormes que precisaram de intervenção da FIFA e, dizem, do próprio governo Franco. Após muita discussão, ficou decidido que ele jogaria um período em cada clube. Mas o Barcelona não aceitou e concedeu o direito ao Real Madrid. O resto é história: o clube empilhou taças na década, faturou um pentacampeonato europeu, eliminou o rival na semifinal da Liga dos Campeões de 1959-1960 e virou o titã que conhecemos hoje em dia. Mas o Barça não deixou por menos: inaugurou seu imponente Camp Nou, formou um grande esquadrão com Kubala, Kocsis e companhia e levantou vários títulos nacionais e internacionais, além de ser o responsável por eliminar o Real Madrid pela primeira vez na história de uma Liga dos Campeões, nas oitavas de final da temporada 1960-1961, após cinco temporadas seguidas com títulos merengues.

Kubala e Di Stéfano: quase a dupla jogou junta no Barcelona…

 

…Mas o craque argentino acabou indo para o Real Madrid.

 

Nos anos 60, o Real concentrou suas ações em solo nacional e deixou os rivais muito para trás no quesito títulos. Além disso, emendou sua maior sequência de vitórias no clássico: seis triunfos, entre setembro 1962 e fevereiro 1965, igualando a mesma conquistada pelo Barça entre janeiro de 1948 e janeiro de 1949. Mas vale destacar um nobre gesto que amenizou um pouco as tensões entre catalães e madrilenos no ano de 1961. Santiago Bernabéu, lendário presidente do Real, viajou até Budapeste (HUN) e, durante um jantar, foi questionado por um dos anfitriões o que a cidade húngara poderia oferecer ao mandatário espanhol. Ele disse:

“Vive na Espanha um homem que vocês conhecem muito bem. Se chama Ladislao Kubala. Há quase 13 anos que ele deseja abraçar sua mãe, que vive aqui na Hungria. Vocês sabem tanto quanto eu que diversos problemas de ordem política impedem que esses dois seres se encontrem. Eu gostaria que vocês me ofereçam a possibilidade de brindar a Kubala, que não joga no meu clube, o abraço de sua mãe”.

As autoridades húngaras deram poucos dias depois uma permissão para que a mãe de Kubala viajasse até Barcelona para passar as festas de fim de ano e Natal com seu filho e netos. O próprio Bernabéu teve que intervir junto ao governo espanhol para a entrada da senhora, pois o franquismo proibia a entrada de pessoas oriundas de países socialistas e não mantinha relações diplomáticas com a Hungria na época. Por fim, tudo deu certo e a “guerra fria” entre Madrid e Barcelona foi rompida por uma nobre causa. Era a prova máxima de respeito que Bernabéu tinha para com Kubala, que tanto brilhou pelo Barça e foi desejado pelo próprio presidente madrileno.

Kubala (à esq.) e sua mãe, em Madrid. Foto: La Vanguardia.

 

No franquismo, de 1939 até 1975, os merengues levantaram 14 títulos nacionais, seis copas nacionais, seis Ligas dos Campeões da UEFA e um Mundial Interclubes. Já o Barcelona conquistou oito títulos nacionais, nove copas nacionais e três Copas das Cidades com Feiras (precursora da Copa da UEFA, atual Liga Europa). Placar geral: 27 títulos merengues contra 20 dos catalães (a maioria nos anos 50), que tiveram um rápido suspiro de equiparidade com a chegada de Johan Cruyff nos anos 70, que ajudou o Barça a encerrar um jejum de 14 anos sem títulos no Campeonato Espanhol na temporada 1973-1974, com direito a um histórico 5 a 0 do Barça pra cima do Real em Madrid. Naquele final de anos 70 e ao longo dos anos 80, a rivalidade entre a dupla diminuiu um pouco, sem grandes tensões e graças ao fim da ditadura. Além disso, a boa fase do Atlético de Madrid fez com que o Dérbi Madrileno ganhasse mais atenção na capital do que o próprio Barça x Real.

Cruyff no Barça, na década de 70.

 

Mas tudo começou a mudar nos anos 90 e 2000. Com investimentos cada vez maiores e grandes times, os clubes voltaram a protagonizar grandes embates e monopolizaram mais uma vez as conquistas nacionais. Além disso, os dois principais ultras – grupos que se assemelham às organizadas brasileiras – dos clubes, os Boixos Nois, pelo Barcelona, e os Ultras Sur, pelo lado do Real Madrid, ganharam força com inspirações ultranacionalistas. De um lado, os Boixos Nois nasceram com uma tendência política de esquerda e antifascista, que foi sendo apagada ao longo dos anos. Enquanto isso, ideais franquistas norteavam os grupos de torcedores merengues. Ambos torcedores carregavam um sentimento ufanista radical. Na virada do milênio, os times passaram a abrir o leque para o futebol globalizado e concentraram alguns dos principais craques do planeta. Até que, em 2000, mais um episódio reacendeu a rivalidade: o português Figo, ídolo da torcida do Barcelona, estava descontente por não ter sido valorizado como deveria após tantos jogos marcantes tanto pelo Barça quanto pela seleção de Portugal. Com isso, o Real fez uma tentadora proposta ao meia e conseguiu levá-lo para Madrid por 60 milhões de euros.

Figo pelo Barça: foi um choque a troca que o português fez naquele começo de século.
Pérez, Figo e Di Stéfano, na apresentação do craque português em Madrid.

 

Foi uma bomba. A torcida do Barcelona não perdoou a traição e Figo virou Judas na Catalunha. Era como se Messi deixasse o Barça e fosse para o Real. Ou se o goleiro Marcos, eterno xodó do Palmeiras, decidisse jogar no Corinthians. Era totalmente impensável. Mas aconteceu. E, como não poderia deixar de ser, o primeiro reencontro de Figo com a torcida no Camp Nou, em um clássico disputado no dia 21 de outubro de 2000, foi uma guerra. As quase 100 mil pessoas no gigante estádio catalão vaiaram de maneira impiedosa o português e causaram uma poluição sonora que superava o barulho da decolagem de um avião, segundo contagem de decibéis da TV3 na época. Nas arquibancadas, faixas com xingamentos, notas com o rosto de Figo e dezenas de objetos lançados ao gramado foram apenas alguns dos itens que encheram o campo e a cabeça do jogador. Para piorar, o Barça venceu por 2 a 0 e fez a festa da torcida. Em 2002, a recepção barcelonista no Camp Nou ao craque foi ainda mais severa, com muitos objetos arremessados contra ele a cada cobrança de lateral ou escanteio, incluindo uma macabra cabeça de porco (!). O jogo foi encerrado em 0 a 0 pelo árbitro antes do tempo normal por questões de segurança.

Torcedores queimam foto de Figo nas arquibancadas do Camp Nou.
Em 2002, a torcida do Barça jogou até uma cabeça de porco (no detalhe) contra seu ex-ídolo.

 

A situação vivida por Figo foi bem diferente das passadas por Evaristo e Ronaldo, brasileiros que jogaram em ambos os clubes, mas que não enfrentaram a fúria da torcida como a vivida pelo português. Após o período Galáctico do Real, o Barcelona tomou para si o protagonismo no futebol espanhol e europeu e iniciou uma fase de vitórias históricas sobre o rival, tanto em casa como fora. Na Era Ronaldinho, o destaque foi o triunfo por 3 a 0 no Santiago Bernabéu, em 19 de novembro de 2005, quando o craque brasileiro foi aplaudido de pé. E, na Era Guardiola, o time catalão emendou cinco vitórias seguidas em duelos pelo Campeonato Espanhol entre 2008 e 2010, incluindo nessa conta um 6 a 2 no Santiago Bernabéu, em maio de 2009 – com o blaugrana Puyol beijando a braçadeira de capitão (que sempre teve as cores da Catalunha) em frente à torcida merengue – e um 5 a 0 no Camp Nou, em novembro de 2010, com show do ataque e de David Villa. Na temporada 2010-2011, os rivais decidiram uma vaga na final da Liga dos Campeões da UEFA, algo que não acontecia desde 2002. E deu Barça, que devolveu o revés de uma década atrás com vitória por 2 a 0 fora de casa e empate em 1 a 1 em casa.

O Barcelona acumulou, de 2004 até 2018, 4 Ligas dos Campeões da UEFA, 3 Mundiais de Clubes, 3 Supercopas da UEFA, 9 Campeonatos Espanhóis, 6 Copas do Rei e 8 Supercopas da Espanha, totalizando 33 títulos, alcançando um patamar incrível no futebol e semelhante até ao do Real dos anos 50 e 60. Mas o clube merengue não deixou por menos e, entre 2004 e 2018, também venceu 4 Ligas dos Campeões da UEFA (sendo três de maneira consecutiva), 3 Mundiais de Clubes da FIFA, 3 Supercopas da UEFA, 4 Campeonatos Espanhóis, 2 Copas do Rei e 3 Supercopas da Espanha, um total de 19 troféus. Mesmo assim, os deuses do futebol não fizeram com que ambos decidissem uma Liga dos Campeões, sonho de todo torcedor. Eles duelaram pela taça apenas em torneios nacionais: as Copas do Rei de 2010-2011 e 2013-2014 (vitórias do Real) e as Supercopas da Espanha de 2011 (vitória do Barça), 2012 (vitória do Real) e 2017 (vitória do Real).

Messi, maior artilheiro da história do clássico.

Nessas duas décadas do século XXI, os clubes expandiram suas marcas pelo mundo, alavancaram torcidas por todos os cantos e transformaram o clássico em um evento mundial, maior até que embates entre seleções. Favoreceu, também, a quantidade de bons jogadores em ambos os times e justamente os melhores do mundo desde 2009 jogarem ou no Barça ou no Real. Com novos conflitos separatistas na Catalunha a partir da segunda metade da década de 2010 – a região aprovou uma declaração unilateral de independência em 2017, mas sem reconhecimento internacional e que sofreu intervenção do senado espanhol, que vetou a independência e manteve a interminável instabilidade política entre Espanha e Catalunha. E é claro que tudo isso refletiu no futebol.

Antes, um adendo: sempre que um campeão espanhol conquista o título com rodadas de antecedência, os adversários seguintes da campanha batem palmas antes de cada duelo em um corredor humano como forma de parabenizar os campeões e respeitar o feito – essa prática é conhecida como pasillo. Barça e Real já haviam feito o pasillo um para cada um em 1988 (Real campeão), 1991 (Barça campeão) e 2008 (Real campeão).

Mas, no clássico disputado em maio de 2018, o Barcelona, que já era o campeão espanhol, não recebeu o pasillo do Real Madrid, que se recusou a fazer tal homenagem. Foi uma resposta pelo fato de o Barça não ter feito o pasillo ao Real Madrid em dezembro de 2017, após o clube merengue conquistar o Mundial de Clubes da FIFA. A resposta dos catalães foi que “como eles não haviam participado do torneio, não fazia sentido algum realizar o pasillo”. Enfim, picuinhas que só reafirmaram o clima tão hostil de um clássico que sempre estará nos holofotes e na boca do torcedor. Um clássico que é a essência do futebol globalizado e símbolo político de um país inteiro.

Antes que você questione a ausência de algum clássico, saiba que foi bem difícil fazer uma lista com apenas 10 jogos. A vontade do Imortais era fazer com 20, mas imagine o tamanhão que ia ficar o texto? No mínimo o dobro! Por isso, essa matéria especial dará início a uma série chamada Grandes Clássicos. Em cada texto, você conhecerá a história de um duelo cheio de rivalidade. E os seguintes jogos (que quase entraram no Top 10) terão espaço garantido nessa série:

Milan x Internazionale – Derby della Madonnina

Corinthians x Palmeiras – Derby Paulista

Racing x Independiente – Clásico de Avellaneda

Flamengo x Fluminense – Fla-Flu

Al Ahly x Zamalek – Dérbi do Cairo

Liverpool x Everton – The Merseyside Derby

Atlético de Madrid x Real Madrid – El Derbi Madrileño

Borussia Dortmund x Schalke 04 – Ruhr Derby

América x Chivas Guadalajara – El Súper Clásico

Não perca! 😀


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16 thoughts on “Os 10 Maiores Clássicos do Mundo

  1. Levando em conta que foram considerados também os clássicos nacionais, não dá para deixar de fora o chamado Derby D’Itália, protagonizado entre Inter e Juventus. Envolve tudo que um clássico normalmente tem: disputas de poder, controvérsias de arbitragem, provocações e claro, muitos craques e histórias inesquecíveis. A rivalidade entre ambos é muito maior do que com os seus rivais locais (MIlan e Torino).

  2. Parabéns pelo trabalho enciclopédico. Que textão (e ao contrários dos textões que aparecem no facebosta, foi uma forma elogiosa de se referir).

    E os 10 clássicos que apareceram ao fim até podem ser importantes, mas não têm toda a história que esses 10 aí do texto possuem (com exceção, talvez, do derby de milão).

  3. Parabéns por esse especial extraordinário, uma leitura muito, mas muito agradável. O “Imortais” é uma benção pra quem gosta de histórias do futebol. Tenho “favoritado” em meu navegador desde o primeiro acesso. Mas eu não posso deixar de emitir uma opinião que sempre tive. Como há exagero sobre o GRENAL!! Um clássico marcado só por violência. Mas esse “ódio” todo, não impediu que eles se juntassem e fizessem um baita festa coletiva pra comemorar o rebaixamento do Corinthians em 2007. Eu DU-VI-DO que Corintianos e palmeirenses se juntassem pra comemorar rebaixamento de um clube de outro Estado. Esse episódio deixou bem claro sobre o oba-oba exacerbado que existe em torno do clássico gaúcho. Corinthians é Palmeiras é a VERDADEIRA maior rivalidade do Brasil. Não pode estar numa lista secundári. Grande abraço!

    1. Oi Luciano! Muito obrigado pelos elogios! Olha, confesso que quase coloquei Palmeiras e Corinthians no lugar do GreNal! É uma rivalidade gigante também, mas acabei optando pelos sulistas pela questão da divisão do estado, do passado conturbado e pela pegada entre ambos. Mas, sim, o Dérbi Paulista merecia um espaço aqui, mas tive que fazer uma escolha e doeu muito tirá-lo, tenha certeza disso! Mas esse clássico será o primeiro da série Grandes Clássicos! Obrigado mais uma vez! Abração!

  4. Grande lista. Top 3 cirúrgico.

    Minha única observação como um bom vascaíno é que gostaria de um Vasco e Flamengo na série kk, inclusive acho ele maior que o Fla-Flu. Claro que respeito a importância do Fla-Flu e o romantismo que existe ao redor dele, principalmente pelos textos de Nelson Rodrigues e pelas antigas festas no maraca, mas acho que o clássico dos milhões é mais relevante por ter uma rivalidade maior e pelo número de torcedores.

    Abraços! Esse espaço é muito legal pra quem curte a história do futebol.

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