Seleções Imortais – França 2016-2018

A França campeã do mundo. Em pé: Pogba, Umtiti, Lucas Hernández, Varane, Giroud e Lloris. Agachados: Griezmann, Matuidi, Pavard, Kanté e Mbappé. Foto: Carl Recine / Reuters.

 

Grandes feitos: Campeã da Copa do Mundo da FIFA (2018) e Vice-campeã da Eurocopa (2016).

Time-base: Lloris; Pavard (Sagna / Sidibé), Varane (Koscielny), Umtiti (Rami / Kimpembe) e Lucas Hernández (Evra / Mendy); Kanté (N’Zonzi) e Pogba; Mbappé (Moussa Sissoko), Griezmann (Fekir) e Matuidi (Payet / Tolisso / Lemar); Giroud (Gignac / Dembélé). Técnico: Didier Deschamps.

 

“Azuis Letais”

 

Saint-Denis, 10 de julho de 2016. Dezenas de milhares de pessoas entre as 75.868 presentes no belíssimo Stade de France choram. Após 90 minutos de tempo regulamentar e mais trinta de prorrogação, a França perde a Eurocopa dentro de sua própria casa para Portugal. Favorita absoluta, a equipe azul não aproveitou o calor de sua torcida. Não aproveitou o embalo da Marselhesa. Não aproveitou a lesão precoce de Cristiano Ronaldo. Enfim, não aproveitou nenhuma das chances que teve nem o peso de uma camisa campeã mundial e bicampeã europeia para liquidar um rival que buscava uma glória inédita no futebol. E que de fato conseguiu. Com fibra. Garra. E coração. Características inexistentes naquela França. Mas não havia tempo para lamentar. Faltava menos de um ano e meio para a Copa do Mundo de 2018. Era preciso construir o caminho até a Rússia. Recompor o time. Reformular esquema tático. Buscar novas alternativas. Apostar em promessas. Recuperar o orgulho de um time que ainda vivia sob a desconfiança de não conseguir se desvencilhar da Era Zidane, que começou no mesmo Stade de France, em 1998, com o título mundial, teve uma Euro pelo caminho, em 2000, e terminou no vice-campeonato mundial, em 2006. Desde então, nada de a França conseguir títulos ou voltar ao topo. Chegou 2018. E os Bleus voltaram. Ferozes. Cirúrgicos. Nada de morosidade ou posse de bola. Eles voltaram para liquidar. Aproveitar ao máximo as chances construídas e oferecidas pelos adversários. Passaram sem problemas pela primeira fase. No mata-mata, logo de cara, tiveram pela frente um titã ferido, a Argentina. Em Copa, camisa pesa. Mas eles mostraram que a deles também pesava. Na fase seguinte, outro grande titã histórico, o Uruguai. E uma nova vitória, sem sustos. Nas semis, o mais difícil rival, a Bélgica, foi batido com um gol de zagueiro e desempenho coletivo impressionante. E, na grande final, contra uma velha conhecida lá de 1998, a Croácia, o time Bleu foi letal. Cansou um rival extasiado que vinha de oito jogos disputados em sete possíveis (você vai entender depois…). Não errou. Foi como uma cobra pronta para o bote. Eficiência pura. E, depois de 20 anos, reconquistou o mundo com a seleção mais miscigenada da história. Com a maioria dos jogadores nascida em outros países ou com sangue de outras nações, principalmente africanas. Foi a mais plural das campeãs mundiais. A mais multirracial. E a campeã mais mundial, na pureza da palavra. É hora de relembrar.

 

Em busca de rumo

Henry no chão: França deu vexame na Copa de 2010. Foto: Getty Images.

 

Após o vice-campeonato mundial na Copa de 2006 e a queda já na fase de grupos da Eurocopa de 2008, o futebol francês viu o fim de uma era. Zidane, Thuram, Vieira, Barthez, Makélélé, Trezeguet e vários outros remanescentes das glórias de 1998-2000 e de campanhas recentes da seleção se aposentaram dos compromissos com os Bleus. O desempenho pífio na competição continental foi um prenúncio da tragédia maior que estava por vir. A equipe só conseguiu se classificar para a Copa do Mundo de 2010 graças a um gol marcado por Gallas após receber um passe de Henry, que ajeitou a bola escandalosamente com a mão. E, no torneio disputado na África do Sul, veio o castigo: eliminação na fase de grupos sem vencer um jogo sequer e outra vez com a França na lanterna do grupo. Além do caminho já começar torto por causa do “tapinha” de Henry, a preparação do time para o Mundial foi uma bagunça. Domenech, que já sabia que seria substituído por Laurent Blanc, não estava nem aí e levou seus jogadores mais para passear do que treinar – vide os passeios em dunas e de bicicleta, com direito a tombo de Anelka – e não demonstrou nenhum comprometimento com a parte tática ou foco no título.

Após empate sem gols na estreia contra o Uruguai, a França perdeu para o México o segundo jogo e, no intervalo, Anelka disparou palavrões ao técnico por ser substituído. A crise nos vestiários foi deflagrada na imprensa, Anelka foi cortado, os jogadores boicotaram um treinamento, o capitão Evra discutiu com o preparador físico, o vice-presidente da Federação Francesa de Futebol foi demitido, Gallas mostrou o dedo do meio para os jornalistas e, no último jogo, quando os Bleus perderam para os anfitriões por 2 a 1, Domenech não cumprimentou Carlos Alberto Parreira após o jogo. Com tudo isso e muito mais, a participação francesa na Copa terminou de maneira vexatória e totalmente inélégant. Até a ministra dos Esportes na época, Roselyne Bachelot, viajou até a África para conversar com a delegação francesa, pois a “reputação do país estava em jogo”, além de o presidente Nicolas Sarkozy conversar com Henry após o Mundial para entender o que aconteceu por lá. Enfim, foi uma bagunça inacreditável.

Domenech (à dir.) foi um dos retratos do fiasco francês em 2010.

 

Laurent Blanc bem que tentou, mas não fez a França jogar e deixou a equipe em 2012. Foto: Gustavo Bom / Global Imagens.

 

Quando assumiu a seleção, Laurent Blanc tinha como principal missão renovar um time envelhecido e sem crédito algum com mídia e torcida. A princípio, ele conseguiu parte do planejado com a classificação para a Eurocopa de 2012. Nela, o time enfim passou para a fase de mata-mata após empate com a Inglaterra (1 a 1), vitória sobre a Ucrânia (2 a 0) e derrota para a Suécia. Nas quartas de final, porém, os Bleus não conseguiram superar a futura bicampeã Espanha e perderam por 2 a 0. Apático, Blanc deixou o comando da seleção e deu lugar à Didier Deschamps, outro ex-jogador e capitão na era de ouro de 1998-2000 da equipe azul, que vinha de bons trabalhos no comando do Olympique de Marselha campeão francês de 2009-2010 e tricampeão da Copa da Liga Francesa entre 2010 e 2012. O treinador tinha plena convicção de que seria cobrado impiedosamente por resultados, mas adotou um discurso crítico em sua apresentação. “Não estou aqui para amenizar nada. Tenho confiança, mas já não podemos permitir nenhum erro”, disse o treinador em julho de 2012, logo quando chegou. Deschamps trouxe consigo seu auxiliar técnico dos tempos de Olympique, Guy Stéphan, o homem por trás das táticas e estilo de jogo executados pelo ex-capitão no clube de Marselha e que também seriam colocadas em prática na seleção.

Após títulos históricos pela França como jogador…

 

… Didier Deschamps assumiu a França em 2012 com o objetivo de retomar o orgulho do torcedor pela seleção. Foto: Eddy LEMAISTRE/Corbis via Getty Images.

 

Deschamps teria logo de cara a missão de levar a França ao Mundial do Brasil e reconstruir um padrão de jogo em menos de dois anos. Diferente de seus dois predecessores, Deschamps tinha como principal característica a de um técnico motivador, que sabia extrair o máximo de seus jogadores em busca da glória. Ele fugia do padrão estrategista e das táticas mirabolantes tão em moda na Europa. O negócio dele era falar a língua do jogador. E justamente nesse quesito que a seleção francesa estava tão carente. Ela precisava de um técnico com voz à beira do gramado, capaz de mexer com o brio de seus atletas e levar entusiasmo a eles. E, acima de tudo, renovar verdadeiramente a seleção, ainda em um processo tímido de novos convocados na gestão de Blanc.

 

Formando a base

O primeiro compromisso de Deschamps foi um amistoso contra o Uruguai, no dia 15 de agosto de 2012, em Le Havre, que terminou empatado em 0 a 0. Dali em diante, ele começou os testes para encontrar um time ideal que pudesse fazer boas Eliminatórias e classificasse a França ao Mundial. Os Bleus não foram brilhantes, mas asseguraram o segundo lugar no Grupo I com cinco vitórias, dois empates e apenas uma derrota (para a líder Espanha) e foram em busca da vaga na repescagem. Nela, um susto com a derrota por 2 a 0 para a Ucrânia, na ida, que foi superado pelo triunfo por 3 a 0 na volta, em Saint-Denis, com dois gols de Sakho e um de Benzema. Naquela época, Deschamps já baseava o time em jogadores já tarimbados em seus clubes e também na seleção mesclando com atletas jovens que poderiam render ainda mais no futuro. Antes da Copa, em amistoso disputado em março de 2014, os Bleus venceram a Holanda, em casa, por 2 a 0, com muita autoridade e jogadores como Lloris, Varane, Matuidi, Pogba e Griezmann, além de Cabaye, Valbuena, Benzema, Evra e Debuchy. Com mais jovens no elenco, a progressão da França foi visível principalmente a partir do segundo semestre de 2013 e ganhou forma naquele ano de 2014, com as vitórias sobre Holanda, Noruega (4 a 0) e Jamaica (8 a 0).

Na Copa, os Bleus tiveram a baixa de Ribéry, lesionado, mas Deschamps levou ao Brasil um bom e jovem elenco, com apenas três jogadores acima de 30 anos e nove atletas com menos de 25 anos: Varane (21), Sakho (24), Cabella (24), Griezmann (23), Mangala (23), Digne (20), Moussa Sissoko (24), Pogba (21) e Schneiderlin (24). A França até era considerada favorita por causa de sua história relativamente recente, mas não levava o peso de outros concorrentes. Por conta disso, os Bleus passaram sem grandes problemas pela primeira fase e os jovens mostraram personalidade naquele que era o primeiro grande teste da Era Deschamps. Na estreia, vitória sobre Honduras por 3 a 0, com dois gols de Benzema. Em seguida, contra a famosa retranca da Suíça – que passara a última Copa sem levar um gol sequer – a França deu show: 5 a 2, com gols de Giroud (ele marcou o 100º gol francês em Copas), Matuidi, Valbuena, Benzema e Sissoko, em uma grande partida da equipe francesa, com amplo volume de jogo e muita velocidade. No último duelo, contra o Equador, Deschamps mandou a campo um time recheado de reservas por já estar classificado e o empate sem gols bastou para a classificação em primeiro lugar.

Griezmann em ação contra o Equador, na Copa de 2014.

 

Nas oitavas, Pogba e Yobo, contra, fizeram os gols da vitória da França sobre a Nigéria no Mané Garrincha e os Bleus foram para as quartas de final. No entanto, a equipe teve pela frente a Alemanha, quase sempre uma pedra na chuteira dos franceses. E, de novo, eles machucaram: vitória dos alemães por 1 a 0, gol de Hummels, resultado que manteve o time de Joaquim Löw firme rumo ao título mundial. A eliminação foi frustrante, mas Deschamps condicionou o calor do Rio de Janeiro como um dos fatores para a queda. O fato é que o meio de campo francês, tão importante e decisivo nos últimos jogos, foi neutralizado com maestria pela Alemanha. Com um desempenho muito mais satisfatório do que o de 2010, a França já era outra sob Deschamps. Tinha mais confiança, vontade e talento. Em cinco jogos no Mundial, os Bleus levaram apenas três gols e marcaram dez. O meio-campista Paul Pogba, inclusive, foi eleito o melhor jogador jovem da Copa, com o zagueiro Varane presente entre os pleiteantes. Mas todos ainda precisavam melhorar. E não havia ocasião melhor para isso: a Eurocopa de 2016, em casa.

 

Baixa no ataque e preparação

 

Nos amistosos do segundo semestre de 2014, a França mostrou-se econômica nos gols, mas eficiente nos resultados: bateu a Espanha por 1 a 0, empatou com a Sérvia em 1 a 1, venceu Portugal por 2 a 1, a Armênia por 3 a 0, empatou com a Albânia em 1 a 1 e venceu a Suécia por 1 a 0. No ano seguinte, o time começou capengando – perdeu três dos quatro primeiros jogos que disputou -, mas se reencontrou e venceu os cinco amistosos seguintes, incluindo um 2 a 0 sobre a então campeã mundial Alemanha, em 13 de novembro de 2015, com gols de Giroud e Gignac. Dias antes daquela grande vitória, a seleção sofreu uma baixa em seu ataque: o atacante Benzema foi deixado de lado pela comissão técnica após o envolvimento do jogador em um caso de chantagem sobre o compatriota Valbuena. Benzema foi acusado e preso pela polícia francesa por pedir quantias em dinheiro à Valbuena para não divulgar um vídeo erótico do jogador. Benzema ficou impedido de entrar em contato com Valbuena em uma restrição judicial que só terminou em março de 2016. Isso acabou minando a presença do atleta (e também, claro, de Valbuena) na seleção, com posições contrárias de membros da Federação Francesa de Futebol e até do primeiro-ministro, Manuel Valls, e do ministro do esporte, Patrick Kanner. A conduta do jogador não condizia com os “ideais da seleção”, e, de fato, era tudo o que a França menos precisava naquele momento: novas intrigas e problemas. Para piorar, o atacante foi flagrado cuspindo no chão após a execução do hino da França antes de um clássico entre Barcelona e Real Madrid, quando foi feito um tributo com a Marselhesa em homenagem às vítimas dos atentados de Paris naquele mês de novembro de 2015.

 

Veja:

Filho de imigrantes argelinos, Benzema sempre se recusou a cantar a Marselhesa por considerá-la “xenofóbica”. O ato do jogador, inoportuno, não foi premeditado e ele se mostrou profundamente chocado com as acusações que recebeu por supostamente menosprezar as vítimas, principalmente após a deputada francesa Nadine Morano repudiar publicamente o jogador por cuspir após o hino.

 

“(Benzema) Cuspiu justo no fim da Marselhesa. […] (um ato) que se enquadra em desprezo e insulto às vítimas, suas famílias e toda a nação. […]. Todo mundo sabe o fascínio da juventude por jogadores de futebol. Os jogadores precisam mostrar seu melhor comportamento”, disse a deputada.

 

Com a Euro próxima, era inadmissível convocar alguém com problemas extra-campo que pudesse gerar atritos em um grupo que se mostrava coeso e unido como há tempos não se via. Por mais que Benzema tivesse suas virtudes técnicas e desfrutasse de um bom momento no Real Madrid multicampeão europeu, Deschamps tinha outros jogadores que podiam não só suprir a posição do atacante no setor ofensivo como melhorar o sistema como um todo. Griezmann gastava a bola no Atlético de Madrid. Giroud vivia boa fase e marcava gols. Payet também aparecia como figura proeminente. Matuidi e Pogba eram os flutuantes do meio de campo que podiam aparecer de surpresa no ataque e marcar gols. Enfim, o material humano à disposição de Deschamps era muito bom. Bastava continuar o trabalho que o título continental em casa viraria realidade.

Pogba faz graça: meio-campista vivia grande fase em 2016. Foto: Francisco Leon / AFP.

 

Já em 2016, a França mostrou que podia se virar muito bem sem Benzema e venceu os quatro amistosos pré-Euro: 3 a 2 na Holanda, fora de casa (gols de Griezmann, Matuidi e Giroud); 4 a 2 na Rússia, em casa (gols de Kanté, Gignac, Payet e Coman); 3 a 2 em Camarões, em casa (gols de Matuidi, Giroud e Payet) e 3 a 0 na Escócia, em casa (dois gols de Giroud e um de Koscielny). Às vésperas da competição, Deschamps convocou seus atletas e Benzema ficou mesmo de fora, como o próprio atacante já havia anunciado em suas redes sociais e a FFF também decidiu em comum acordo entre Deschamps e Noël Le Graët, presidente da entidade. O jornal francês L’Équipe fez até uma enquete em seu site na época e 73% dos torcedores de fato não queriam Benzema na seleção. A lista dos 23 jogadores de Deschamps sofreu três baixas por causa de lesões: Varane deu lugar à Adil Rami; Mathieu, também zagueiro, foi substituído por Umtiti; e Lassana Diarra acabou de fora para a entrada de Morgan Schneiderlin. Com o time definido, embalado e jogando em casa, Deschamps sabia que era hora de provar a reviravolta do futebol francês. Apresentar as novas caras da seleção. Os novos protagonistas. Um novo onze para levar a força de uma camisa bicampeã da Europa em busca do tri.

 

Pela glória

Deu trabalho, mas a França venceu a Irlanda na Euro. Foto: Reuters.

 

A estreia francesa na Euro foi contra a Romênia, que passava bem longe de seus melhores anos, lá na década de 90. Jogando no Stade de France diante de mais de 75 mil pessoas, os Bleus foram com o esquema utilizado por Deschamps em grande parte dos jogos pré-Euro, apenas com as modificações causadas pelas lesões dos zagueiros titulares. O time foi a campo com Lloris; Sagna, Rami, Koscielny e Evra; Pogba, Kanté (que vinha de uma temporada fantástica jogando muita bola no já lendário Leicester City campeão inglês) e Matuidi; Griezmann e Payet; Giroud. Após um primeiro tempo sem gols, a França abriu o placar com Giroud, viu a Romênia empatar de pênalti, mas Payet, aos 44’, marcou o gol da vitória por 2 a 1. Em seguida, na cidade de Marselha, os Bleus tiveram algumas dificuldades para vencer a Albânia por 2 a 0, com os gols de Griezmann e Payet anotados após os 45’ do segundo tempo. O time demonstrou problemas na criação de jogadas, Giroud estava com a pontaria péssima e, das 21 chances de gol criadas, apenas duas foram certas.

Payet foi um dos destaques da França na Euro. Foto: Getty Images.

 

No último jogo, já classificada, a equipe foi preguiçosa e apenas empatou sem gols com a Suíça, resultado que colocou a França nas oitavas de final para encarar a Irlanda, em Lyon. Com a mesma equipe da estreia, os comandados de Deschamps levaram um susto logo no início quando a Irlanda abriu o placar de pênalti. Os anfitriões sentiram o golpe e pouco agrediram os irlandeses no decorrer da primeira etapa. Mas, no segundo tempo, o trabalho psicológico de Deschamps deu resultado e o time foi completamente diferente: mais agressivo, ofensivo e destemido. Tais virtudes foram premiadas com dois gols, ambos de Griezmann. Primeiro, o atacante cabeceou uma bola cruzada por Sagna. Depois, recebeu de Giroud, invadiu a área e chutou no cantinho. Minutos depois, quase que o camisa 7 fez o terceiro, mas levou falta e viu o adversário ser expulso. Com um jogador a mais, a França foi absoluta e não ampliou por causa da trave – que impediu um gol de Gignac – e do goleiro Randolph, que fez grandes defesas. Apesar da vaga, a equipe ganhou dois desfalques: Kanté e Rami levaram cartões amarelos e não poderiam jogar nas quartas de final, na qual os Bleus teriam pela frente a surpreendente Islândia, classificada após derrotar a Inglaterra por 2 a 1.

Giroud celebra um dos gols na goleada sobre a Islândia. Foto: Getty Images.

 

Jogando mais uma vez no Stade de France, seu templo do futebol, sinônimo de grandes vitórias e dos sopros da conquista do mundo de 1998, a França se impôs diante da zebra islandesa. Com Umtiti e Sissoko nos lugares de Rami e Kanté, o time bleu fez seu melhor jogo na Euro. Giroud, que havia decepcionado nas partidas anteriores, abriu o placar após receber belo passe de Matuidi. Em seguida, Pogba subiu mais alto do que todo mundo após cobrança de escanteio e ampliou: 2 a 0. Ainda no primeiro tempo, Payet fez o terceiro, aos 42’. E, aos 45’, Griezmann exibiu seu faro artilheiro, fez um lindo gol e deu ares de goleada a um jogo que era tido como perigoso: 4 a 0. No segundo tempo, a Islândia diminuiu, mas Giroud fez o quinto gol três minutos após o tento islandês. Bjarnason descontou perto do final do jogo, mas a vitória foi mesmo francesa: 5 a 2. Com autoridade e bom futebol, a França estava na semifinal. A dois passos da glória em casa. Mas o desafio que vinha pela frente era enorme, tão grande quanto a ambição francesa de ser campeã: a Alemanha…

 

C’est énorme!

Griezmann (à dir.) celebra: vitória histórica contra a Alemanha!

 

Jogando em Marselha, a França reencontrou o algoz da eliminação na Copa de 2014. Que foi o mesmo na Copa de 1986. E também na de 1982, com altas doses de drama e injustiça. Enfrentar a Alemanha não trazia boas lembranças aos franceses. Afinal, eles destruíram as pretensões de título mundial da fabulosa geração de Platini lá nos anos 80. E sepultaram qualquer ambição de caneco no Mundial do Brasil. O retrospecto em grandes torneios não era bom. A única boa lembrança era a vitória na disputa pelo 3º lugar na Copa do Mundo de 1958, com a primeira grande seleção francesa, de Kopa, Fontaine e companhia. Para piorar, a Alemanha era favorita disparada, a campeã do mundo e ainda tinha destroçado o estigma de eliminações diante da algoz histórica Itália, nas quartas de final. Mais embalados, impossível. E os alemães adoravam vencer anfitriões em semifinais de grandes torneios: eram seis vitórias e apenas uma derrota. Eles até brincaram que um novo 7 a 1 estava a caminho…

Alemães disseram que iam fazer mais um “7 a 1”. Não foi bem assim…

 

Só que a França provou naquele dia 07 de julho de 2016 que estava calejada. E que a vitória no amistoso de novembro de 2015 ensinou muito. Eles não quiseram ter a bola em seus pés. Deram ela para a Alemanha. Jogaram no erro do adversário. Com foco na defesa. Com concentração. Sabiam que o favoritismo estava com a campeã do mundo. Eles que tinham a obrigação de vencer. E tudo isso foi fundamental para a França levar a cidade de Marselha à loucura. Mesmo sofrendo uma pressão enorme, o time azul se defendeu como pode e, numa falha de Schweinsteiger, que colocou a mão na bola dentro da área, viu o artilheiro Griezmann marcar, de pênalti, 1 a 0 para a França nos acréscimos do primeiro tempo. Ir para o intervalo com a vantagem no placar era tudo o que os Bleus precisavam.

Na segunda etapa, a França seguiu compacta, marcando muito e cansando o adversário (eram as táticas que tanto seriam utilizadas dois anos depois…). Na metade do segundo tempo, eis que a cobra deu o bote. Kimmich bobeou, Pogba ficou com a bola, driblou um defensor e cruzou. Neuer deu um tapa na bola, mas ela sobrou para Griezmann, que mandou a redonda pro fundo do gol: 2 a 0. A festa estava completa. Ao apito do árbitro Nicola Rizzoli, a França fez a festa em Marselha. Diante de sua gente e de seu povo, vencia a campeã do mundo e provava a força daquela nova geração de jogadores, que amadureciam a cada jogo e a cada desafio. O título parecia consumado. Dali três dias, o Stade de France estaria lotado para abrigar mais uma conquista histórica da França, como em 1998. Com todos os favoritos eliminados, quem mais poderia tirar aquela taça dos anfitriões? E, com Griezmann artilheiro com seis gols e o time jogando muito bem, como perder em casa, num lugar onde eles praticamente eram imbatíveis, ainda mais em jogos decisivos?

 

La tragédie

Na grande final, o Stade de France estava belíssimo. Mais de 75 mil pessoas lotavam o palco preferido da seleção francesa. Ali, a equipe de Deschamps queria levantar mais uma taça para sua coleção. Com o mesmo time da semifinal e toda a massa francesa ao seu lado, os Bleus nunca foram tão favoritos como naquele dia 10 de julho de 2016. Ainda mais pelo fato de o adversário ser Portugal, que vinha de uma campanha bastante irregular, recheada de empates, prorrogações, pênaltis e ainda uma seleção que não vencia a França há dez jogos – ou 40 anos!

E o filme com som de Marselhesa ao fundo e acompanhamento de champagne ganhou ainda mais força quando, aos 25’, Cristiano Ronaldo, a maior estrela e capitão de Portugal, deixou o gramado por causa de uma entrada sofrida aos 7’, por Payet. Sem sua principal referência em campo, Portugal parecia condenado ao vice. Mas o que se viu foi um jogo dramático. A França, mesmo com seu volume de jogo e todo o ambiente criado em Saint-Denis, não conseguia furar a zaga encarnada nem vencer o goleiro Rui Patrício, que fazia grandes defesas. Parecia até que os Bleus tinham certa preguiça para matar o jogo.

A França da Euro: Varane fez falta no miolo de zaga e ataque não correspondeu na final.

 

Só que o tempo foi passando e o gol não saía. Pior: Portugal ameaçava com perigo e teve algumas chances, principalmente no segundo tempo. A melhor oportunidade francesa para enfim acabar com o jogo aconteceu só no finalzinho, quando Gignac driblou Pepe na pequena área e chutou na trave. Sem gols nos 90 minutos, o duelo foi para a prorrogação. Seria a terceira de Portugal naquela Eurocopa. E a primeira da França, que sempre caminhou sob estradas lindas e sem obstáculos por conhecer sua própria casa. Mas, justo na final, ela encontrava um problema naquela viagem. Um empecilho que o renovado time francês não sabia como resolver. Por outro lado, Portugal, experiente após tantas idas e vindas sem troféus na bagagem, já sabia como se portar naquela situação. Mandou bola na trave. Pressionou. Não queria disputa de pênaltis de jeito nenhum. E, aos 4’ do segundo tempo da prorrogação, Éder, o atacante que todos esperavam o nada, fez o tudo: escapou da falta de Koscielny, encontrou o espaço deixado pelo zagueiro Umtiti e disparou um petardo de fora da área. A bola foi no cantinho, Lloris não alcançou, e ela foi deitar mansa no gol do Stade de France. Portugal 1×0 França.

Éder prepara o chute para fazer o gol do título português.

 

O relógio correu como o mais rápido ciclista no Tour de France e o jogo acabou. Portugal era campeão da Europa. A França, vice pela primeira vez na casa onde ela celebrou sua maior glória. Foi uma das maiores decepções da história do futebol do país. Uma campanha impecável destruída no último capítulo, nos últimos minutos. De nada adiantou um artilheiro que não fez gol. De nada adiantou ter o ataque mais eficiente, ineficiente. De nada adiantou um meio de campo marcador que não marcou. De nada adiantou uma zaga antes segura sem seguro. De nada adiantou uma campanha invicta com derrota no fim. De nada adiantou um estádio repleto que não pulsou na mesma sintonia do time. O lado azul ficou frio. Foi a cor do lamento. De mais um capítulo triste de uma história que não mudava. Será que os franceses ficariam sempre órfãos de Zidane, Henry, Trezeguet, Thuram? Órfãos do jogador Deschamps e reféns do técnico? Como explicar? Ora pois, coisas do futebol… Deschamps comentou sobre o revés:

 

“Nós perdemos uma oportunidade única de vencer a Euro em nossa própria casa. Não existem palavras. A decepção está aí, é enorme, e levará um tempo para digeri-la. Mas nós vencemos juntos, sofremos juntos e, hoje, perdemos juntos”.Didier Deschamps, em entrevista ao The Telegraph (Reino Unido), 11 de julho de 2016.

Desolação francesa em pleno Stade de France: cena inédita. Foto: Reuters.

 

Ainda era cedo para entender e tarde para alarmismos. A nova chance estava próxima, em 2018, em uma terra imensa chamada Rússia sob codinome Copa do Mundo.

 

Tempo de reparos e vaga assegurada

Um garoto vestindo a camisa 20 chamado Mbappé começou a mostrar do que era capaz contra a Holanda, em 2017…

 

A FFF não mandou Deschamps para a guilhotina como muitas equipes fariam. Ele seguiu no comando dos Bleus com o objetivo de levar a equipe ao Mundial da Rússia. Em setembro de 2016, disputou seu primeiro jogo pós-Euro e venceu a Itália fora de casa por 3 a 1, resultado que serviu para aumentar a auto estima do elenco. Os compromissos pelo Grupo A das Eliminatórias começaram cinco dias depois, no empate sem gols contra Belarus, fora de casa. Mas, nos três jogos seguintes, o time mostrou força em um grupo complicado e venceu: fez 4 a 1 na Bulgária, 1 a 0 na Holanda (gol de Pogba) em plena Johan Cruyff Arena e 2 a 1 na Suécia, em casa, com gols de Payet e Pogba. Em março de 2017, a equipe bateu Luxemburgo por 3 a 1, fora de casa, e mostrou que a vaga poderia ser conquistada sem repescagem. Nos três jogos seguintes naquela temporada, tropeços diante da Espanha (2 a 0, em casa, em amistoso) e Suécia (2 a 1, fora de casa, pelas Eliminatórias), e vitória sobre o Paraguai por 5 a 0, em casa, em amistoso. No dia 13 de junho, os Bleus enfrentaram a rival histórica Inglaterra em amistoso no Stade de France e venceram por 3 a 2, com gols de Umtiti, Sidibé e Dembélé.

O triunfo inspirou o time de Deschamps a uma goleada marcante contra a Holanda, de volta às Eliminatórias, por 4 a 0, com dois gols de Lemar, um de Griezmann e um de um garoto de apenas 18 anos que despontava como a maior promessa francesa na época e gastava a bola no Monaco: Kylian Mbappé, convocado pela primeira vez por Deschamps no começo daquele ano e que anotava contra a Laranja seu primeiro gol com a camisa azul. A sequência vertiginosa foi quebrada só no inesperado empate sem gols contra Luxemburgo, em casa, resultado que reacendeu as dúvidas sobre a capacidade de Deschamps conseguir um bom desempenho na Copa. Mas a desconfiança foi minada com os triunfos decisivos que decretaram a classificação francesa à Copa: 1 a 0 na Bulgária, fora de casa, e 2 a 1 sobre Belarus, em casa.

Mbappé e Lemar: as estrelas na goleada sobre a Holanda.

 

A equipe terminou na primeira colocação com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota em 10 jogos, com 18 gols marcados e seis sofridos. Giroud e Griezmann, com quatro gols cada, foram os artilheiros dos Bleus nas Eliminatórias e praticamente selaram suas vagas entre os convocados. O time teve lampejos de brilho durante a caminhada, mas ainda estava devendo. Com tanto talento disponível, parecia que Deschamps ainda não tinha encontrado a fórmula mágica para fazer aquela França “acontecer” de vez. Os principais problemas do time eram, sem dúvida, nas laterais. Mendy e Sidibé sofriam com lesões e eram dúvidas para o Mundial. Com isso, o técnico Deschamps já pensava como alternativas dois jovens de 22 anos: Pavard, do Stuttgart-ALE, e Lucas Hernández, do Atlético de Madrid-ESP. Ambos eram mais zagueiros do que laterais, mas o treinador acreditava no talento de ambos para suprir aquela necessidade. Como eles tinham características mais defensivas, a velocidade e presença de ataque de Pogba e Matuidi poderiam ser melhor exploradas. Para encerrar 2017, a França venceu País de Gales, em casa, por 2 a 0, e empatou em 2 a 2 com a Alemanha, fora.

 

Grupo fechado

Em 2018, a França disputou cinco amistosos pré-Copa, venceu três – 3 a 1 na Rússia, 2 a 0 na Irlanda e 3 a 1 na Itália -, empatou um – 1 a 1 com os EUA -, e perdeu um – 3 a 2 para a Colômbia. Quando convocou seus 23 jogadores, Deschamps priorizou os atletas mais comprometidos com o grupo e que demonstraram mais afinco com a seleção. Com exceção de Payet, cortado por causa de lesão, Deschamps levou à Rússia praticamente todos os atletas que brilharam nas Eliminatórias e outros presentes na Copa de 2014 e na Eurocopa de 2016. Ele queria um elenco jovem, unido e sem soberba. Por isso que nomes como Rabiot e Lacazette ficaram de fora. Dos 23, 14 disputariam sua primeira Copa. Só Lloris, Varane, Giroud, Griezmann, Matuidi e Pogba estavam no grupo de 2014. Além disso, 15 jogadores tinham 25 anos ou menos, exatamente a média de idade do elenco – 25,6 anos, um dos mais jovens de todo o Mundial. O goleiro Mandanda era o mais velho, com 33 anos. O mais jovem era Mbappé, com 19. E, dos 23 atletas, 19 tinham alguma ligação com outras pátrias que não eram a França. Umtiti, por exemplo, era de Camarões. Mandanda, do Congo. Mbappé, filho de pai camaronês e mãe argelina. Lucas Hernández, filho de mãe espanhola. Pogba, filho de pais da Guiné. Semelhanças que deixavam o torcedor esperançoso com uma coincidência de 20 anos atrás: a seleção campeã do mundo de 1998 também tinha vários atletas com origens em outras nações – Zidane (com origem argelina), Thuram e Henry (de Guadalupe), Desailly (de Gana) e Vieira (de Senegal) eram os mais notáveis exemplos.

Na base da conversa e motivação, Deschamps começou a trabalhar principalmente o lado psicológico para construir um bom trabalho na Rússia. Ele sabia das qualidades de seu time – contra-ataque, velocidade, concentração, marcação plena do meio de campo, enorme poder de finalização de Griezmann e Mbappé – e, por isso, fez com que essas virtudes chegassem em suas plenitudes. Nos treinamentos, Deschamps falava com cada jogador individualmente para saber como ele estava e sentir se ele poderia ir ao jogo ou não. Ele nunca falava de tática ou coisas mais técnicas. Esse trabalho era para Guy Stephan, seu parceiro desde 2012 nos Bleus. O atacante Giroud disse à época do Mundial que Deschamps era “muito bom para deixar os jogadores motivados por ser um vencedor e ter muito a passar sobre sua carreira aos atletas. Com as conversas individuais, ele conhece os problemas de cada um e ajuda a formar um grupo unido”.

Prova disso é que Deschamps foi o principal motivador para o zagueiro Pavard começar a assumir a titularidade da equipe na lateral mesmo com uma característica mais de defensor. Com a desconfiança da imprensa sobre a capacidade do jovem de 22 anos em assumir a posição, Deschamps foi quem estimulou o garoto a não sentir a pressão, expor suas qualidade e se arriscar no ataque quando preciso (algo que seria demonstrado em um certo jogo na Copa…). No Grupo C do Mundial, ao lado de Austrália, Dinamarca e Peru, a França era favorita. Mas não iria cair no mesmo erro de 2016 e subir em tal patamar.

 

Roteiro predefinido

França foi a primeira seleção da história a ter um lance a seu favor após consulta do famigerado VAR. Foto: AFP.

 

A estreia da França na Copa foi contra a Austrália, tida como a figurante do grupo. Os Bleus deram margem a tal rótulo logo nos primeiros oito minutos, com pelo menos quatro chances de gol criadas e muita velocidade. No entanto, o time azul começou a parar na marcação australiana e não conseguiu tirar o zero do placar. Só no segundo tempo que os franceses, enfim, abriram o marcador. E graças ao uso do VAR, estreante naquele Mundial e utilizado pela primeira vez na história justamente naquela partida. Griezmann foi derrubado na área e, no primeiro momento, o árbitro não viu falta. Algum tempo depois ele preferiu ver o replay e aí sim marcou o pênalti. Griezmann, especialista em penalidades, bateu e fez 1 a 0. Curiosamente, a França também foi protagonista em outros momentos de estreia em Copas: fez o primeiro gol, em 1930, participou da primeira decisão por pênaltis, em 1982, fez o primeiro gol de ouro, em 1998, e marcou o primeiro gol com a tecnologia do chip na bola, em 2014.

A Austrália ganhou sobrevida quando Umtiti colocou a mão na bola e também ofereceu um pênalti ao rival, que converteu: 1 a 1. Satisfeita com o empate, a equipe da Oceania ficou recuada e trouxe a França ao seu campo de defesa. Erro que custou caro. Deschamps fez mudanças na equipe, mandou o time para cima e foi premiado com mais um gol “tecnológico”, aos 36’, quando Pogba chutou, a bola bateu em Behich, no travessão e saiu. Antes, porém, ela já havia cruzado a linha e notificou o árbitro por causa da tecnologia do chip. Com o 2 a 1 no placar, os Bleus cadenciaram a partida até o final e asseguraram os primeiros três pontos na Rússia.

No duelo seguinte, contra o Peru, Deschamps mudou um pouco o time. Como ia enfrentar uma defesa mais forte, o treinador tirou Dembélé e colocou um centroavante de ofício, Giroud, que poderia fazer muito bem o pivô para as investidas de Griezmann e Mbappé. No meio de campo, Tolisso deu lugar a Matuidi e o time azul foi com o 11 ideal que seria a marca registrada da França naquela Copa. Com personalidade, a equipe foi pra cima logo de cara e criou boas chances até encontrar o gol aos 34’. O peruano Guerrero perdeu a bola para Pogba no campo de defesa e o meio-campista deixou com Giroud, que chutou prensado e viu a bola sobrar para Mbappé, livre, fazer o primeiro e único gol do jogo. O camisa 10 se tornou naquele dia o jogador francês mais jovem a marcar um gol em Copa do Mundo em todos os tempos. Ele ainda quase marcou de calcanhar no primeiro tempo, mas não conseguiu pegar em cheio na bola.

No segundo tempo, os franceses adotaram a tática de se fechar e esperar o Peru em seu campo de defesa. Seguros de si, conseguiram controlar os nervos e o adversário, que só assustou com uma bola na trave de Aquino. Aos 30’, os franceses saíram de novo para o ataque de maneira mais incisiva com a entrada de Dembélé, que chutou da entrada da área, aos 36’, e assustou o goleiro peruano, em novo trabalho de Giroud como pivô. Ao apito do árbitro, a França estava classificada, e o Peru, eliminado. Parecia até o roteiro da Eurocopa de 2016: jogos econômicos, alguns sustos, mas resultados satisfatórios.

No terceiro jogo, a equipe foi a campo com quase meio time de reservas para encarar a Dinamarca, praticamente classificada. Como o empate era de bom tamanho para ambas as partes, o jogo terminou 0 a 0. Foi o único de toda a Copa. Com sete pontos ganhos, a França estava classificada. Mas ainda não empolgava sua torcida, que lembrava dos fantasmas de 2016 e também de 2014, quando o time caiu no primeiro grande desafio que enfrentou. E o temor aumentou ainda mais quando ficou definido o lado da chave dos franceses, justamente o mais difícil, com vários campeões mundiais. Para piorar, o adversário francês nas oitavas de final seria simplesmente a Argentina, vice-campeã na Copa anterior. A albiceleste não estava jogando bem, fato, mas a camisa pesadíssima em Mundiais impunha respeito. Era o primeiro grande teste de fogo dos Bleus.

 

O debute para a história

Mbappé fuzila… Goleada francesa em Kazan. Foto: Laurence Griffiths / Getty Images.

 

Quem esperava um jogo totalmente a favor da França diante de uma Argentina bagunçada e cheia de problemas ficou surpreso com o futebol disputado naquele dia 30 de junho de 2018. A França não começou no ataque como nos duelos anteriores. Foi paciente. Ficou ali, estudando os defeitos argentinos e como explorá-los. E sacou logo de cara sua mais preciosa “arma”: Mbappé. O jovem fez naquele dia seu melhor jogo na Copa e uma apresentação digna dos mais lendários craques em Copas do Mundo. Logo aos 6’, o camisa 10 passou por três marcadores, sofreu falta, Griezmann cobrou e a bola bateu na trave! Aos 10’, outra disparada do craque, nova fileira de marcadores passada para trás até Marcos Rojo derrubá-lo na área. Pênalti. Griezmann bateu e fez: 1 a 0. A Argentina se mandou para o ataque, mas não conseguia furar a marcação francesa, concentrada, impecável. Quando contra-atacava, os europeus chegavam ao ataque em poucos toques, porém precisos. Kanté, no meio de campo, marcava Messi e corria incansavelmente. A França criava várias oportunidades, mas se mostrava displicente na hora de finalizar. Só aos 41’ que a Argentina conseguiu encontrar um gol graças ao talento de Di María, que acertou um chutaço de fora da área e marcou um golaço.

Mbappé vira o jogo para a França. Foto: Alexander Hassenstein / Getty Images.

 

Na segunda etapa, a Argentina virou o jogo para 2 a 1 aos 3’, com Mercado, e a tal da força da camisa parecia que estava prevalecendo. Bem, só parecia. Nove minutos depois, Pavard, que tanto gerou desconfiança da mídia francesa, mas que tanto recebeu apoio de Deschamps para se mandar ao ataque e chutar quando fosse possível, mandou um petardo de primeira e marcou um golaço para a França: 2 a 2. E os Bleus engoliram a Argentina de vez. Sete minutos depois, outro ataque azul, Hernández cruzou, Matuidi chutou no zagueiro, a bola sobrou para o camisa 10 francês que, com um corte, tirou Enzo Pérez da jogada e chutou por baixo de Armani. Chute seco, forte, preciso: 3 a 2. Quatro minutos depois, nove toques definiram outra obra-prima naquele jogo. Na defesa, Umtiti tocou para Lloris, que deixou com Kanté. O volante passou para Matuidi, que fez o passe para Giroud. O centroavante só esperou uma pessoa vir pela direita e tocou levemente na bola como quem diz: faz! E quem vinha para fazer? Mbappé, como um foguete, bateu de chapa e ampliou: 4 a 2. Era o segundo dele no jogo. Gol que o colocou na história das Copas. Motivo? Desde 1958 que um jovem com menos de 20 anos não marcava dois gols num mata-mata de Copa. E sabe quem havia sido o último? Simplesmente Pelé… Mbappé tinha participação direta em três dos quatro gols franceses.

Vibração francesa: um triunfo como aquele inspirou demais!

 

Aos 25’, Giroud quase fez o quinto. E a França seguiu pressionando e pressionando, mas a bola parecia morosa, cansada, e não entrava. Até que, nos acréscimos, a Argentina marcou o terceiro e ainda acreditou no milagre. Mas era tarde demais: França 4×3 Argentina. Um jogaço histórico, único, marcante, que possui detalhes próprios aqui no Imortais – o link está no final deste texto!

A vaga estava garantida e o primeiro titã, derrotado. Se alguém ainda duvidava do poder de fogo da França, tratou de rever conceitos. E o mundo do futebol ganhava de vez um novo talento para acompanhar e adorar: Mbappé.

 

Deixem que se cansem

Griezmann, Varane e Mbappé celebram um dos gols na vitória sobre o Uruguai.

 

A França que venceu a Argentina mostrou um lado que seria amplamente visto naquela fase de mata-mata da Copa. Ela era eficiente e enganava seus rivais. Dava a bola para eles e dizia “pode ficar, daqui a pouco eu pego isso aí e você vai ver…”. Ela cansava o adversário. Era a personificação de uma “cascavel”. Estava sempre pronta para dar o bote, sempre em um contra-ataque mortal, rápido. Tinha qualidade nos passes, no controle. Era tão fria que até os russos da Sibéria ficavam espantados. Prova disso foi a posse de bola da Argentina ao final do jogo: quase 60%. Eles não se preocupavam em ficar tocando a bola para um lado e para o outro sem propósito. O foco era a definição, o arremate, o gol. Era ser eficiente. Se isso era bonito de se ver ou não, pouco importava. Os franceses queriam resultados.

Nas quartas, a equipe teve pela frente outro titã cheio de história: o Uruguai, bicampeão mundial e que vinha de um grande triunfo sobre Portugal com show de Cavani. No entanto, justamente o atacante não poderia jogar pela Celeste por conta de uma lesão. Do lado francês, Matuidi, com excesso de cartões amarelos, também era desfalque na partida e Tolisso jogou em seu lugar. França mais fraca sem ele? Nada disso. Os Bleus foram outra vez predominantes e, com Kanté mais recuado, Pogba e Tolisso ditaram os ritmos das ações no meio de campo para que Griezmann e Mbappé pudessem criar as jogadas ofensivas. No primeiro tempo, o Uruguai ficou mais com a bola e dificultou as saídas dos franceses pelas laterais e praticamente anulou o trabalho de pivô de Giroud, que tinha a ingrata tarefa de brigar com Giménez e Godín. Depois de muito equilíbrio, Varane subiu mais alto que Stuani após cobrança de falta de Griezmann e fez o primeiro gol da França: 1 a 0. Pouco depois, o Uruguai tentou responder com Cáceres, mas Lloris fez uma defesaça, uma das mais bonitas da Copa, e evitou o gol de empate da Celeste.

Na segunda etapa, aos 16’, Griezmann chutou de fora da área sem muitas pretensões, mas uma falha de Muslera transformou a tentativa descompromissada em gol. E frango: 2 a 0. Foi uma ducha de água fria no Uruguai, que não teve mais forças ofensivas nem psicológicas para reverter o resultado. Ao final do jogo, a classificação para a semifinal estava garantida. O time provou que a eficiência, mesmo num dia abaixo do esperado, ainda imperava: mais de 80% de aproveitamento nos passes, quase o dobro de passes do Uruguai e 11 chances de gol, além de mais posse de bola do que os sul-americanos: 58% contra 42%.

A França da Copa: time cirúrgico, rápido e letal nos contra-ataques. Só podia resultar em caneco!

 

Antes da semifinal, contra a perigosa Bélgica, a França levou um susto: Mbappé sofreu o deslocamento de três vértebras após um movimento brusco ao se levantar da cama. Deschamps e a FFF decidiram esconder a lesão da mídia para não levantar alarde nem “dar a dica” ao rival e evitar pancadas propositais na região lesionada do jovem francês. Tal fato só seria divulgado no dia 23 de julho, pela revista France Football, após a Copa. Sob tratamento intensivo, Mbappé foi garantido pelos médicos na partida contra os belgas. Em campo, o camisa 10 foi o responsável pelas aberturas na bem armada retaguarda rival. Com dribles e passes, fez as jogadas mais perigosas da França no primeiro tempo, dominado pela Bélgica, mas equiparado pelos Bleus. Pavard quase deixou o seu após receber passe de Mbappé. E Giroud se atrapalhou na hora de dominar quando recebeu cruzamento do camisa 10. Não havia dúvidas de que ele era talento puro naquele time francês.

Pavard briga pela bola com Hazard, da Bélgica. Foto: Reuters.

 

No comecinho do segundo tempo, a França abriu o placar após cobrança de escanteio em que Umtiti subiu mais do que a zaga belga e mandou a bola pro gol. Logo sem seguida, Mbappé fez mais um lance impressionante – isso tudo mesmo lesionado! – que por uma doce ironia que a Copa do Mundo sempre adora aprontar não terminou em gol. Ele recebeu na área, passou a bola com um pé e rolou de calcanhar como o outro para Giroud terminar a obra-prima com gol. Mas, na hora do chute, ele foi prensado pela zaga. A Bélgica tentou o empate controlando a posse de bola e investindo contra a zaga francesa. Mas superar aquela barreira era quase impossível. Em jogadas aéreas, Varane e Umtiti tiravam todas, reinavam absolutos. Pelo chão, o meio de campo brecava, os laterais ajudavam e até o ataque se encarregava de conter De Bruyne, Hazard e companhia. Já com a vaga garantida, restou aos Bleus gastar o tempo nos minutos finais e até arriscar com Griezmann e Tolisso. Mas o 1 a 0 estava de bom tamanho.

Gol de Umtiti colocou a França na final.

 

Pela terceira vez em seis Copas, a França estava na final. Embora tenha tido 40% de posse de bola contra 60% da Bélgica, outra vez os números serviram para comprovar a eficiência francesa: 19 chances de gol contra 9 da Bélgica; 44 bolas recuperadas contra 34 dos belgas; 16 desarmes e apenas seis faltas cometidas contra 16 da Bélgica. Além disso, Mbappé efetuou 15 dribles e, em oito deles, se sobressaiu perante seus rivais. O trabalho estava quase completo. Faltava apenas um desafio. Com roteiro muito parecido com o de 2016, afinal, eles seriam mais uma vez favoritos diante de um adversário que buscava sua primeira glória: a Croácia de Modric, Perisic e Mandzukic.

 

Calma, confiança e concentração

Craques franceses treinam no dia 12 de julho. Foto: REUTERS/Gleb Garanich.

 

Disputar uma final de Copa do Mundo exige demais de um time. E, para aquele jogo, Didier Deschamps ressaltou ainda mais os três princípios que norteavam seus jogadores na Rússia: calma, confiança e concentração. Em coletiva um dia antes da decisão, o técnico falou sobre esses fundamentos e também comentou sobre seu rival.

 

“Preparamos o time da melhor maneira possível sob três palavras importantes: calma, confiança e concentração. […] É verdade que a Croácia tem mais experiência de clubes, porque os jogadores atingiram maturidade e estão juntos há um tempo na seleção, mas nós enfrentamos times talentosos que tinham mais experiência que nós, mais jogos, experiências, óbvio porque temos um time jovem. Temos nove jogadores que estavam lá na Euro. Eles sabem bem o que aconteceu, infelizmente, como terminou. O que aconteceu há dois anos serve para aqueles nove jogadores para amanhã. Claro que queremos fazer diferente, mas só quem vive é que pode mudar a atitude e ver as coisas diferentes. A final é sempre um jogo específico”.

 

Ainda no assunto Euro, Pogba, em coletiva de imprensa no dia 12 de julho, confessou que a soberba foi a principal causa da derrota naquela ocasião para Portugal e que tal erro não seria cometido novamente.

 

“Na Euro, nós pensávamos que já estava feito depois da vitória contra a Alemanha. Pensamos que Portugal estava derrotado antes. Dessa vez, estamos todos concentrados em não cometer o mesmo erro. Estamos felizes por nossa campanha, mas ainda não ganhamos a Copa do Mundo”.

 

Com a espinha dorsal daquele vice-campeonato e os novatos de 2018, a França tinha o equilíbrio necessário para ser bicampeã mundial depois de 20 anos. Mais: poderia ser a campeã mundial com a menor média de idade desde a Argentina de 1978. Os Bleus tinham média de 25,6 anos, enquanto a Argentina de Kempes, Bertoni e Passarella tinha 25,2. A Croácia,  adversário da final, era um velho conhecido da França, pois foi o mesmo que perdeu a semifinal de 1998 por 2 a 1, de virada, com os famosos e espíritas gols de Thuram. Era hora de mostrar mais uma vez o lado cobra. Dar o bote sobre um adversário que vinha de três prorrogações e um jogo a mais disputado justamente por causa desses tempos extras. Nunca o veneno poderia ser aplicado de maneira tão plena. Mas era preciso muito cuidado com o espírito guerreiro dos croatas, sempre com cartas nas mangas e fôlego de maratonistas. Antes do duelo, Pogba, grande entusiasta do time nos vestiários, deixou um recado que resumiu bem o sentimento dos franceses para fazer história:

 

“Todos sabemos o caminho que fizemos. Conhecemos isso. Com nossos corações, com nossos olhos, estamos concentrados. Rapazes, não podemos esquecer, talvez eu seja repetitivo, estamos a 90 minutos de escrever a história. Noventa minutos. Uma partida. Fizemos sei lá quantos jogos em nossas vidas, mas essa é uma partida e muda tudo, muda toda a história. Há duas equipes, uma taça. Eles estão na mesma, também querem a taça. Perdemos uma final, sabemos. Hoje não deixaremos outro time pegar o que é nosso. Eu quero que essa noite fique na memória de todos os franceses que irão nos assistir. Seus filhos, seus netos, seus bisnetos. Hoje, temos 90 minutos para entrar na história pelo resto da vida. Agora estou olhando para vocês, não vou gritar, eu quero que nós entremos em campo como líderes e guerreiros. E então eu quero ver as lágrimas, não lágrimas de tristeza, mas de alegria, se abraçando em campo”.

 

Leia mais sobre as preleções do meio-campista na Trivela, parceira do Imortais, clicando aqui. 

 

Campeões da eficiência

Festa de Pogba e dos jogadores: França foi mais venenosa do que nunca na decisão. Foto: Shaun Botterill / Getty Images.

 

Com quase 80 mil pessoas no estádio Luzhniki, a França tinha o favoritismo para levar a taça, mas não era a dona da maioria dos torcedores nas arquibancadas como na decisão da Euro de 2016. Pela campanha dramática e simpatia, os croatas eram os preferidos, ainda mais pelo fato de terem a chance de levantar o mais cobiçado troféu do futebol mundial pela primeira vez. E, no embalo da torcida, o time croata sufocou a França em seu próprio campo de defesa e não deixou os Bleus jogarem nos primeiros minutos de jogo. O problema é que a equipe francesa deixava claro sua tática: destruir as jogadas dos rivais e esperar o momento para dar o bote, sem se desgastar e desgastando um cansado time croata. Até que, aos 18’, Griezmann literalmente se jogou em um lance com Brozovic e o árbitro Pitana caiu no conto da carochinha: falta. Na cobrança, o mesmo Griezmann mandou na área, Mandzukic resvalou de cabeça na bola e ela entrou no gol: 1 a 0. Foi o primeiro gol contra em uma final de Copa na história.

Dez minutos depois, o time croata chegou ao empate. Em cobrança de falta ensaiada, Modric mandou na área, Lovren tocou de cabeça, Vida ajeitou a bola para Perisic, este driblou Kanté com um corte seco com a perna direita e chutou de perna esquerda: golaço! Croácia 1×1 França. Mas os Bleus não se abalaram. Seis minutos depois, o mesmo Perisic viu a bola tocar sua mão em lance que o árbitro teve que consultar o VAR. Sem o recurso, o argentino nem teria apitado nada. Era um lance de total interpretação. Depois de alguns minutos, ele decidiu marcar pênalti. Griezmann bateu e fez 2 a 1. Com três gols no placar, já era a final de Copa com mais gols no primeiro tempo desde a decisão de 1974 entre Holanda e Alemanha!

Mbappé deixou o dele na final. Foto: Carl Recine / Getty Images.

 

No segundo tempo, a tática croata da posse de bola seguiu em voga, mas a França foi ainda mais traiçoeira e eficiente. Num contra-ataque, Pogba lançou Mbappé na direita. O jovem driblou, esperou e a bola sobrou para Griezmann. O camisa 7 deixou com o mesmo Pogba, que chutou uma vez, mas prensado. Na segunda tentativa, a bola foi parar no fundo do gol: 3 a 1. Aquele gol praticamente matou as esperanças croatas. Seis minutos depois, Mbappé chutou no mesmo canto do terceiro gol e fez 4 a 1. A Croácia não tinha mais forças. Todo o cansaço que eles não demonstraram nas outras partidas parecia surgir ali, de uma vez, no gramado do Luzhniki. Quatro minutos depois, Lloris até tentou ajudar ao cometer uma falha bisonha após receber um recuo na pequena área e, ao tentar driblar Mandzukic, perder a disputa com o atacante, que chutou pro gol e diminuiu para 4 a 2. O gol animou momentaneamente a equipe do técnico Dalic, mas a eficiente e muito bem armada França não deixou o brilho de Modric, Rakitic e companhia aparecer.

Deschamps aos céus! Foto: Michael Dalder / Reuters.

 

Ao apito final, o mundo era dos Bleus depois de 20 anos. Uma chuva torrencial começou a cair no estádio no momento da premiação. Era para lavar a alma, literalmente, depois de tantos anos de resultados ruins, brigas, polêmicas, falta de compromisso e uma derrota sofrida em casa. Mesmo com a chuva, a festa francesa ganhou ainda mais beleza com as fotos temperadas pela água e captadas com maestria pelos fotógrafos em Moscou. Se os críticos buscavam beleza naquele título, lá estava ela, no contraste do dourado da taça com o azul da camisa da França e os vários tons de seus jogadores, que representavam a plenitude de um país multirracial e do futebol globalizado. Foi a consagração definitiva de um elenco repleto de talento e que cumpriu com o que dele se esperava: ser eficiente e vencer. Teve lampejos de arte? Claro que teve. Eles poderiam ter jogado de maneira mais bonita? Provavelmente. Mas talvez a beleza não levasse ao título. Ainda mais com o histórico que a Copa do Mundo tem de ser avessa às previsões e esquadrões artísticos tidos como favas contadas para vencer. Ganha quem tem mais eficiência e cumpre os objetivos, como Deschamps – que se tornou apenas o terceiro homem na história a ser campeão mundial como jogador e técnico, algo só igualado por Zagallo e Beckenbauer – disse após a decisão em entrevista coletiva:

 

“Não jogamos uma grande partida, mas mostramos força mental e marcamos quatro gols… O grupo trabalhou duro e tivemos alguns momentos difíceis no caminho, foi muito doloroso perder a Euro dois anos atrás, mas nos ensinou uma lição”.

 

 

Pogba, Taça FIFA e Mbappé: festa francesa na final! Foto: David Ramos / FIFA via Getty Images.

 

E a França provou isso invicta em sete jogos, com seis vitórias, um empate, 14 gols marcados, seis sofridos e time com mais jogos sem levar gols – quatro. De fato, a Copa ficou em boas mãos. De jogadores que entraram garotos e saíram homens, transformados pela imortalidade e por uma conquista que supera a barreira dos tempos.

 

À espera de novas taças

Hugo Lloris com a Taça FIFA: será que vem mais taças por aí? Foto: Shaun Botterill/Getty Images.

 

Com um time tão jovem, a França campeã do mundo ainda pode render muito mais. Eles ainda deverão disputar a Eurocopa de 2020 e a Copa do Mundo de 2022. Pode até acontecer um relaxamento natural no pós-título e o rendimento cair um pouco – como já vimos na Liga das Nações, na qual os Bleus não conseguiram alcançar a fase final. Mas, se eles quiserem jogar um pouquinho, é bom os adversários se prepararem. Pode vir mais veneno por aí…

 

Os personagens:

 

Lloris: muito sereno e dedicado, o camisa 1 virou capitão definitivo da seleção em 2012, ainda nos tempos de Laurent Blanc. E não deixou mais o posto. Mesmo com sua clara timidez, foi o porto seguro do time em várias ocasiões e uma referência do setor defensivo com atuações seguras e defesas de todos os tipos. Só falhou na decisão do Mundial e quando podia. Fez uma grande Copa do Mundo e com muito trabalho por causa do estilo de jogo francês. Com o título de 2018, Lloris entrou para o seleto grupo dos goleiros capitães que ergueram uma Copa, ao lado dos italianos Combi (1934) e Zoff (1982) e do espanhol Casillas (2010). É um dos cinco jogadores com mais jogos pela seleção francesa na história: 108 partidas, até novembro de 2018, atrás apenas de Thuram, Henry, Desailly e Zidane.

Pavard: “transformado” em lateral por Deschamps, Pavard fez uma Copa brilhante e mostrou muita personalidade. Seguro no setor defensivo, ainda foi peça importante nas investidas de ataque e marcou o gol mais bonito da Copa na vitória épica contra a Argentina por 4 a 3. Com apenas 22 anos, jogou futebol de veterano e provou ter uma grande carreira pela frente. Se será um novo Thuram, aí é outra história…

Sagna: fez carreira no Arsenal, pelo qual jogou como zagueiro e lateral-direito. Foi a primeira opção na lateral-direita da França por muitos anos após as aposentadorias de Thuram e Sagnol. Fez várias partidas na Era Deschamps e foi titular na campanha do vice da Eurocopa de 2016.  Disputou 65 jogos com a camisa dos Bleus.

Sidibé: o lateral começou a ser convocado por Deschamps em 2016 e foi titular em várias ocasiões, principalmente na temporada de 2017. No entanto, as lesões e a ascensão de Pavard acabaram levando o jogador para a reserva. Foi convocado para a Copa e levou sua medalha de campeão.

Varane: alto, rápido, ótimo no jogo aéreo e em constante evolução, o francês foi eleito um dos melhores zagueiros da Copa do Mundo e foi simplesmente impecável no miolo de zaga ao lado de Umtiti. Marcou um gol na partida contra o Uruguai, esbanjou vigor físico nas jogadas aéreas e ganhou praticamente todas as divididas com atacantes e meias no Mundial. Convocado desde 2013, Varane tem mais de 50 jogos pela seleção. O zagueiro disputou todos os sete jogos da França na Copa, cometeu apenas duas faltas (!), não levou nenhum cartão e recuperou 47 bolas. Desempenho de craque. Como de fato ele foi e é.

Koscielny: um dos principais defensores do Arsenal desde 2010, o bom zagueiro francês acabou de fora da Copa por causa de uma lesão no tendão de Aquiles, embora não tivesse grandes chances graças às boas fases de Varane e Umtiti. Antes, foi um dos principais jogadores da equipe e titular na campanha da Euro de 2016. Disputou 51 jogos pela seleção entre 2011 e 2018.

Umtiti: o zagueirão foi outro que cresceu bastante de produção após uma Euro decepcionante e se transformou em um dos grandes zagueiros do futebol mundial. Forte no jogo aéreo e no combate contra os atacantes, foi um dos pilares da zaga francesa na Copa e parceiro perfeito de Varane. Marcou o gol da classificação para a final, contra a Bélgica, e demonstrou muita energia e vigor físico. Outro que não levou cartões e cometeu poucas faltas – apenas seis em seis jogos disputados no Mundial.

Rami: convocado desde 2010 para a seleção, o zagueiro foi um dos titulares do time na Euro de 2012 e como substituto de Varane na Euro de 2016. De fora da Copa de 2014, foi convocado em 2018, mas não atuou em nenhum jogo.

Kimpembe: foi titular apenas no duelo contra a Dinamarca, na fase de grupos, como substituto de Umtiti. Outro jovem – 23 anos -, começou a ser convocado por Deschamps em 2018. Pode atuar, também, como lateral-esquerdo.

Lucas Hernández: polivalente do setor defensivo, pode atuar como zagueiro ou lateral-esquerdo com a mesma qualidade. E foi na lateral que o jogador cravou seu nome na história da seleção a partir de 2018, ano em que começou a ser convocado e rapidamente ganhou a confiança de Deschamps. Hernández disputou todos os jogos da campanha do título, deu duas assistências para gols e foi um dos principais nomes do setor defensivo francês.  

Evra: o veterano lateral foi titular na campanha da Euro de 2016 e cumpriu seu papel com boas partidas e a experiência de tantos e tantos jogos pela França – foram 81 partidas entre 2004 e 2016. Por causa da idade – tinha 35 anos em 2016 -, acabou de fora da sequência do trabalho de Deschamps após o vice-campeonato europeu e deu lugar aos mais jovens.

Mendy: com passagens por todas as seleções de base da França, o lateral-esquerdo ganhou a titularidade em algumas partidas sob o comando de Deschamps a partir de 2017, esbanjando velocidade e qualidade no passe. No entanto, as lesões atrapalharam sua permanência entre os titulares e Mendy acabou indo para a reserva de Hernández. Jogou apenas parte do jogo contra a Dinamarca, ainda na fase de grupos.

Kanté: disputou os sete jogos da França na Copa e demonstrou o mesmo futebol dos tempos de Leicester City que o consagrou como um dos maiores volantes do futebol mundial. Incansável, foi o principal destruidor de jogadas dos adversários e grande artífice do esquema tático de Deschamps. Recuperou 61 bolas, deu 365 passes e correu 68,5 km em 595 minutos. Um verdadeiro gigante no bicampeonato.

N’Zonzi: com a concorrência quase desleal no meio de campo, foi reserva no time de Deschamps, mas ainda sim disputou cinco jogos na Copa, sendo titular contra a Dinamarca e entrando no decorrer dos outros quatro jogos. Muito tranquilo, tem bom passe e controle de bola.

Pogba: se Lloris foi o capitão em campo, Pogba foi o líder fora dele, a voz nos vestiários e o combustível para inflamar os franceses rumo à volta por cima. Com o futebol primoroso de seu começo de carreira, o meio-campista foi um gigante no Mundial da Rússia e sepultou todas as críticas do pré-Copa por causa de seu rendimento. Teve classe nos passes. Astúcia nos desarmes. Precisão nos arremates. Frieza nos momentos decisivos. E vigor físico de sobra nos seis jogos que disputou. Com mais de 60 partidas pela seleção francesa, Pogba já é um dos maiores meio-campistas da história do futebol de seu país.

Mbappé: ele já era conhecido pelo futebol rápido e explosivo nos tempos de Monaco, mas foi com a camisa da seleção que o jovem provou ser uma estrela. Sem se importar com o peso de uma competição como a Copa do Mundo e com uma maturidade impressionante para os seus 19 anos, Mbappé foi o grande destaque da França no Mundial e uma das maiores revelações do futebol em anos. Rápido, técnico e com incrível raciocínio para criar jogadas e dribles, o repertório do garoto no Mundial foi o mais variado possível e fundamental para a França sair da Rússia com o título. Disputou os sete jogos da campanha e marcou quatro gols, sendo um na fase de grupos, dois nas oitavas e um na final. Precisa de mais? Já está na história. E tudo com apenas 19 anos…   

Moussa Sissoko: outro com passagens por todas as seleções de base da França, o talentoso meio-campista começou a integrar o time principal dos Bleus em 2009 e chegou à Copa de 2014, atuando como titular na partida contra a Suíça, além de ter sido titular em quatro jogos da campanha da Euro de 2016. Por conta da renovação pela qual Deschamps promoveu após o vice-campeonato continental, Sissoko não foi convocado para o Mundial da Rússia.

Griezmann: decisivo, talentoso, perigosíssimo na bola parada, com ampla visão de jogo e craque. Antoine Griezmann foi tudo isso e muito mais na caminhada francesa rumo à glória. Após um promissor debute na Real Sociedad, foi no Atlético de Madrid que o jogador apareceu para o mundo a partir de 2014 com gols, jogadas precisas e muita eficiência, justamente o mote que transformou a França em campeã do mundo. Foi presença constante em listas dos melhores jogadores do mundo entre 2016 e 2018 e o jogador que mais produziu gols diretamente e indiretamente para o time francês na Copa: ele anotou quatro e deu duas assistências. Ao lado de Mbappé e Pogba, formou a “sainte trinité” do título.

Fekir: o habilidoso meia começou a ser convocado em 2015 por Deschamps, mas não teve grandes chances por causa da concorrência no setor ofensivo. Mesmo reserva, disputou seis jogos na Copa e cumpriu seu papel.

Matuidi: ao lado de Pogba e Kanté, formou o ótimo meio de campo francês que dominou os adversários e foi o setor símbolo da conquista. Com fôlego de sobra, grande ladrão de bolas, impecável na marcação e leitura do jogo, Matuidi teve uma importância tática fundamental para a França tanto na Copa quanto na Euro de 2016. Além de tudo isso, aparece bem no ataque, dá assistências e marca gols. Convocado desde 2010, tem 77 jogos pelos Bleus e nove gols.

Payet: o meia demonstrou muito talento na Euro e foi um dos grandes nomes da França na campanha do vice-campeonato. Era presença certa na Copa, mas se lesionou na final da Liga Europa de 2018 e teve que ser cortado. Se tivesse ido à Rússia, iria agregar ainda mais qualidade ao setor ofensivo.

Tolisso: a França era talvez a seleção com maior quantidade de bons meio-campistas entre os convocados na Copa de 2018. E Tolisso foi um dos exemplos, com qualidade nos passes e na marcação. Disputou cinco jogos durante a caminhada francesa e foi titular na vitória sobre o Uruguai por 2 a 0. Foi dele, inclusive, o passe para Griezmann marcar um dos gols do jogo.

Lemar: polivalente do setor ofensivo, capaz de atuar tanto pela esquerda quanto pela direita, Thomas Lemar começou a ser convocado por Deschamps em 2016, após suas ótimas atuações pelo Monaco. Foi o destaque na goleada de 4 a 0 sobre a Holanda pelas Eliminatórias e praticamente cravou sua vaga na Copa após esse jogo. No Mundial, foi titular apenas na partida contra a Dinamarca, pela fase de grupos.

Giroud: após uma boa Euro em 2016 e bons jogos nas Eliminatórias, Giroud entrou em uma maré terrível na Rússia e passou a Copa inteira sem marcar gols, destoando bastante dos 11 titulares. Mesmo assim, abriu espaços nas zagas adversárias, ajudou em tabelas, deu uma assistência e fez bem o pivô para Griezmann, Mbappé e os meio-campistas em jogadas ofensivas. Mas, no geral, foi muito abaixo do esperado. Felizmente para os franceses que sua falta de pontaria não fez falta para o conjunto da obra no final! Só acabou com a zica na Liga das Nações de 2018, com um gol na vitória contra a Holanda por 2 a 1 no Stade de France. Convocado desde 2011, tem 33 gols em 87 jogos pela seleção.

Gignac: figura carimbada em várias convocações da França entre 2009 e 2016, o atacante esteve no grupo da Euro, mas não foi titular. Entrou no decorrer de algumas partidas e, na decisão contra Portugal, poderia ter sido o herói do título se a trave não tivesse impedido seu gol nos instantes finais. Após o vice, não foi mais chamado pelo técnico Deschamps.

Dembélé: ágil, técnico e muito habilidoso, é outra grande revelação do futebol francês que ainda tem muito futuro pela frente. Começou a ser convocado por Deschamps em 2016 e, jogo a jogo, foi cravando seu espaço no elenco com ótimas atuações em amistosos e nas Eliminatórias, atuando como ponta ou mesmo segundo atacante. Na Copa, atuou em quatro partidas e foi titular na estreia contra a Austrália.

Didier Deschamps (Técnico): ele pode não ter explorado toda a capacidade do elenco fantástico que tinha em mãos. Ele pode ter sido pragmático em alguns jogos. Ele pode ter sido pouco ousado. Mas ele foi campeão. Invicto. Com méritos. E usando e abusando da eficiência e do erro praticamente zero, virtudes que dominam um esporte cada vez mais competitivo e sagaz. A história de Deschamps como treinador não começou por acaso. Ele conduziu com maestria um grande time do Monaco a uma final de Liga dos Campeões da UEFA lá em 2004. Depois, trouxe a Juventus de volta à Série A italiana. Continuou escrevendo sua história pelo Olympique de Marselha, campeão francês de 2009-2010 após 18 anos de jejum, justamente na época em que ele próprio era jogador do OM. Até que, em 2012, assumiu uma seleção francesa em frangalhos e começou a reconstruir a imagem dos Bleus convocando atletas jovens e inspirando confiança a eles, treinando jogadas ensaiadas à exaustão, transformando zagueiro em lateral e elevando a mística de uma camisa que não brilhava há quase uma década. Na Euro de 2016, conduziu a França até a final, mas o vice trouxe à tona contestações sobre seu trabalho, o tal excesso de confiança e a incapacidade de matar o jogo quando podia. Virada a página, Deschamps classificou os Bleus para o Mundial sem repescagem, e, com uma retaguarda impecável, um meio de campo de combate e uma linha de frente rápida e devastadora em contra-ataques, catapultou a França até à final e foi campeão exatamente com as virtudes que sempre deixou aflorar no time: eficiência e erro zero, ensinamentos da derrota de dois anos atrás. Com isso, Deschamps se tornou apenas o terceiro homem campeão do mundo como jogador e treinador. Com arte ou sem arte, isso pouco importa. Ele já está no rol dos imortais do futebol.

 

Leia mais sobre o jogaço entre França e Argentina clicando aqui!

 

Extras:

Veja os lances da vitória da França sobre a Alemanha na Euro de 2016.

 

Veja a goleada da França sobre a Holanda em 2017.

 

Veja os gols de França 4×3 Argentina.

 

Veja os lances da final da Copa.

 

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