Craque Imortal – Henry

Foto: Alan Walter

 

Nascimento: 17 de agosto de 1977, em Les Ulis, França.

Posições: Atacante e Centroavante

Clubes: Monaco-FRA (1994-1999), Juventus-ITA (1999), Arsenal-ING (1999-2007 e 2012), Barcelona-ESP (2007-2010) e New York Red Bulls-EUA (2010-2014).

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Francês (1996-1997) pelo Monaco.

2 Campeonatos Ingleses (2001-2002 e 2003-2004), 2 Copas da Inglaterra (2001-2002 e 2002-2003) e 2 Supercopas da Inglaterra (2002 e 2004) pelo Arsenal.

1 Mundial de Clubes da FIFA (2009), 1 Liga dos Campeões da UEFA (2008-2009), 1 Supercopa da UEFA (2009), 2 Campeonatos Espanhóis (2008-2009 e 2009-2010), 1 Copa do Rei (2008-2009) e 1 Supercopa da Espanha (2009) pelo Barcelona.

Principais títulos por seleção: 1 Copa do Mundo da FIFA (1998), 1 Eurocopa (2000) e 1 Copa das Confederações (2003) pela França.

Principais títulos individuais e artilharias:

2º Lugar no Ballon d’Or: 2003

2º Melhor Jogador do Mundo da FIFA: 2003 e 2004

Maior Artilheiro da História da Seleção Francesa: 51 gols em 123 jogos

Maior Artilheiro da História do Arsenal: 228 gols em 377 jogos

Eleito o Melhor Jogador da História do Arsenal na lista dos 50 melhores de todos os tempos do clube

5º Maior Artilheiro da História da Premier League: 175 gols em 258 jogos

Melhor Jogador Jovem da UNFP: 1996-1997

Melhor Jogador da Temporada pela PFA: 2002-2003 e 2003-2004

Eleito para o Time do Ano da Premier League: 2000-2001, 2001-2002, 2002-2003, 2003-2004, 2004-2005 e 2005-2006

Eleito para o Time do Século da PFA: 2007

Eleito o Melhor Jogador do Ano pela FWA: 2002-2003, 2003-2004 e 2005-2006

Jogador da Temporada do Campeonato Inglês: 2003-2004 e 2005-2006

Chuteira de Ouro da Europa: 2003-2004 (30 gols) e 2004-2005 (25 gols)

Artilheiro do Campeonato Inglês: 2001-2002 (24 gols), 2003-2004 (30 gols), 2004-2005 (25 gols) e 2005-2006 (27 gols)

Artilheiro da Copa das Confederações: 2003 (4 gols)

Maior assistente do Campeonato Inglês: 2002-2003 (20 assistências)

Eleito para o Time do Ano da UEFA: 2001, 2002, 2003, 2004, 2006

Eleito para o time do ano da MLS: 2011, 2012 e 2014

Bola de Ouro de Melhor Jogador da Copa das Confederações: 2003

Melhor jogador da MLS: 2013

Légion d’Honneur: 1998

Onde d’Or: 2003 e 2006

FIFA 100: 2004

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA: 2006

Eleito para o All-Star Team da Eurocopa: 2000

Inserido no Hall da Fama do Futebol Inglês: 2008

 

“The King Henry”

Por Rafael Abduche

 

Ele foi um daqueles jogadores que não aparecem toda hora. Um atleta completo tanto no físico quanto na técnica. No alto dos seus 1,88m, ele tinha habilidade para costurar defesas adversárias e não foram raros os gols marcados pelo craque quando ele partia do meio-campo. Chutava de dentro e de fora da área. E com os dois pés. Podia jogar aberto ou como centroavante. Era acima de tudo letal e cerebral. Após revelar-se um enorme talento no principado de Mônaco, ganhou os holofotes com curtas, porém marcantes exibições durante a caminhada do primeiro título mundial da França, em 1998. Ali, ele já provava ter estrela. Mas foi com a camisa 14 do Arsenal que Thierry Daniel Henry, ou simplesmente Henry, construiu seu legado, fama e lenda. O francês foi a referência máxima da mais gloriosa e inesquecível era de toda a história dos Gunners. Virou unanimidade mundial. Com a bola nos pés, tudo era possível para ele. Gols e mais gols, artilharias e mais artilharias, prêmios e mais prêmios que catapultaram Henry ao rol dos maiores atacantes de todos os tempos. Dono de uma carreira brilhante, foi eleito por duas vezes o segundo melhor jogador do mundo. E conseguiu a proeza de ser o maior artilheiro da história da seleção francesa. Levando em consideração que a França já teve lendas do calibre de Fontaine, Kopa, Platini, Cantona e Zidane, isso só para citar alguns, não é pouca coisa. Claro que houveram percalços, decepções e polêmicas, mas, entre alegrias e frustrações, Henry foi um dos melhores atacantes que o planeta já viu. É hora de relembrar.

 

Da periferia de Paris ao glamour de Mônaco

Henry no Clairefontaine, aos 14 anos, e no Monaco, alguns anos depois.

 

Les Ulis é a típica vizinhança da periferia parisiense. Ruas estreitas, marcadas por um amontoado de prédios, portas e janelas, onde vivem muitos imigrantes que tentam a sorte quilômetros de distância de suas casas. Foi nesse cenário, no dia 17 de agosto de 1977, que nasceu Thierry Henry. Seu pai, Antoine, vinha de Guadalupe, enquanto que sua mãe, Maryse, nascera em Martinica, duas ilhotas no Caribe que têm status de departamentos ultramarinos franceses. Os dois foram à Paris em busca de melhores condições de vida.

Desde pequeno, Thierry já mostrava vocação para o futebol com os amigos de bairro. Seu pai era uma das pessoas que mais o apoiava nessa empreitada, concedendo ao garoto o direito de se dedicar mais ao futebol do que aos estudos – algo que nem sempre é raro quando as condições de vida não são as melhores. Por isso mesmo, o jovem Henry – ou Titi, como era carinhosamente apelidado por seus pais – ingressou cedo no mundo da bola. Aos seis anos, ele já dava o pontapé inicial no CO Les Ulis, um clube de bairro da região onde nasceu. Claramente melhor que os companheiros da mesma idade, Henry progredia e seu talento não cabia mais nas redondezas. Com isso, aos 13 anos, ele foi para o US Palaiseau, onde progrediu rapidamente, passou por clubes como o ES Viry-Châtillon e INF Clairefontaine até ser descoberto por olheiros do Monaco. Lá, ele ia encontrar quem seria grande mentor de sua carreira: Arsène Wenger.

O atacante estreou pela equipe principal do Monaco em 1994, com 17 anos. Atuando como ponta esquerda, Henry já mostrava ao futebol francês aquela que seria uma de suas marcas registradas e repetida por muitos jogadores do mundo da bola nos anos seguintes: a jogada com o “pé trocado”. Com força física e habilidade incomuns, ele partia da esquerda para o meio, atacando a área e deixando seus marcadores para trás. Após clarear o espaço à sua frente, ele deferia o chute mortal, muitas vezes no canto esquerdo do goleiro, que nada podia fazer.

Henry e Barthez pelo Monaco.

 

O garoto que ainda usava “dreads” dava os primeiros passos para encantar o futebol francês. Na temporada 1995-1996, ele conquistou o título da Ligue 1 atuando como titular e vencendo o título de melhor jogador jovem da temporada. As atuações convincentes fizeram com que o técnico da seleção francesa na época, Aimé Jacquet, o convocasse pela primeira vez em 1997 – ele já havia sido campeão europeu sub-19 com a França, sendo artilheiro do time com sete gols no torneio. Enquanto isso, as atuações no Monaco só melhoravam – um exemplo foi a campanha do time francês na Liga dos Campeões da UEFA de 1997-1998, na qual chegou às semifinais. Eles perderam para a vice-campeã Juventus, mas Henry guardou o dele no jogo da volta. O francês deixou uma boa impressão e os italianos cresceram os olhos com o talento do garoto. Antes, no entanto, ele teria o maior desafio da carreira pela frente: a disputa da Copa do Mundo.

 

O debute Mundial e a decepção na Itália

Henry e o amigo e companheiro Trezeguet, na goleada de 4 a 0 sobre a Arábia: se a dupla fosse titular durante toda aquela Copa, caminhada francesa teria sido bem menos dramática! Foto by Popperfoto/Getty Images.

 

Na Copa de 1998, em pleno território francês, Henry chegou como um dos mais promissores jogadores do time. Uma curiosidade é que Henry decidiu escolher para a disputa do torneio a camisa 12. Motivo? Era o número que seu ídolo, Marco van Basten, utilizou na conquista da Eurocopa de 1988 pela seleção da Holanda! Aliás, foi em Van Basten que Henry buscou inspiração para aperfeiçoar seus chutes de média e longa distância e o poder de finalização. Titular nos dois primeiros jogos, ele fez três gols na fase de grupos, um contra a África do Sul e dois contra a Arábia Saudita.

Mesmo com tanto talento, o jovem acabou no banco de reservas no mata-mata por opção do técnico, que preferiu o insosso Guivarc’h. Azar de Jacquet, pois os gols minguaram e a França teve que suar bastante e recorrer aos zagueiros – Blanc, nas oitavas, fez o gol de ouro na classificação contra o Paraguai, e Thuram anotou os dois gols da vitória sobre a Croácia, nas semis – para conseguir chegar à final. Isso sem contar o 0 a 0 contra a Itália, nas quartas, com a vaga vindo só na decisão por pênaltis. Muitos questionaram a ausência do jovem camisa 12 e esperavam uma aparição dele na aguardada final contra o Brasil. Mas nem precisou. Os Bleus venceram com facilidade por 3 a 0 e ficaram com o título. Henry iria entrar, mas a expulsão de Desailly no segundo tempo fez com que o técnico Jacquet alterasse os planos para não ficar tão exposto na defesa.

Henry beija a Taça FIFA: campeão do mundo com apenas 20 anos.

 

Mesmo na reserva em boa parte da campanha, Henry foi o artilheiro da França com três gols e se consagrou de vez como campeão mundial com apenas 20 anos. Naquele momento, clubes de toda a Europa voltavam às atenções para o jovem prodígio. Em uma transferência de mais de 10 milhões de euros, Henry foi contratado pela Juventus, naquela que seria a passagem mais apagada de sua carreira. Na Velha Senhora, ele jogou apenas 20 partidas em uma temporada, e marcou míseros três gols. O jogador não se adaptou ao estilo defensivo do futebol italiano. Mesmo assim, ele não teve nem uma segunda chance. Culpa de um velho conhecido: Arsène Wenger.

 

A nova era em Highbury

O momento que mudou para sempre a história do Arsenal: a chegada de Henry, em 1999.

 

A oficialização da ida de Henry para o Arsenal, em 03 de agosto de 1999, ocorreu de forma no mínimo informal, para não dizer pitoresca. Antes do negócio ser fechado, o atacante se encontrou com seu antigo técnico Arsène Wenger durante um voo. Em um bate-papo, ele afirmou que gostaria de defender o Arsenal – onde Wenger estava trabalhando. O treinador ficou pensando naquelas palavras e, anos mais tarde, quando o clube inglês vendeu Nicolas Anelka, Wenger não pensou duas vezes em contratar o ainda jovem atleta que estava em baixa na Juventus. A quantia, no entanto, não deixou de ser surpreendente: 11 milhões de libras para alguém que só tinha feito sucesso em um clube do próprio país.

Nos Gunners, uma mudança tática produzida por Wenger mudou a forma de Henry jogar, potencializando suas virtudes e transformando o atacante francês em uma máquina de fazer gols. Ele passou da ponta esquerda para virar centroavante, tornando-se muito mais letal. No Arsenal, Henry marcou tudo quanto foi tipo de gol: de cabeça, de direita, de esquerda, de dentro e de fora da área. No primeiro ano com o novo clube, houve desconfiança pelo fato do atacante não ter marcado nas oito primeiras partidas. Isso seria deixado para trás conforme ele fosse se adaptando ao estilo de jogo inglês, certamente mais físico comparado ao que ele estava acostumado.

Henry no seu debute pelo Arsenal, em 06 de agosto de 1999, contra o Leicester City.

 

Henry só desabrochou para valer no Arsenal na temporada 2000-2001, formando o embrião do que seria uma das melhores gerações que vestiram o uniforme dos Gunners. Foi nessa temporada, inclusive, que ele marcou um dos gols mais marcantes de toda a sua passagem pelo Arsenal. Em uma partida contra o Manchester United pela Premier League, o francês recebeu um passe no pivô, fora da área. Antes mesmo de dominar, ele deu um toquinho que levantou a bola e, sem deixar ela cair no chão, bateu no ângulo, deixando o goleiro e ex-companheiro de Monaco Barthez imóvel. Era de fato um dos melhores gols da Premier League até hoje, e o início da trajetória que imortalizou o camisa 14 do Arsenal. Aliás, ele só escolheu a camisa 14 pelo fato de a 12 ter dono na época.

 

“Quando eu cheguei, Christopher Wreh já vestia a número 12, então eu peguei o número que estava vago. Ele até se dispôs a me conceder o número, mas eu não gosto desse tipo de coisa, chegar e já pegar a camisa de determinado jogador que já está no clube há um tempo antes de mim. Por isso, eu não aceitei e fiquei com a 14 mesmo.”Thierry Henry, em entrevista à Four Four Two (Reino Unido), 23 de agosto de 2017.

 

Mas não era só no Arsenal que Henry fazia bonito. Pela seleção, ele conquistou a Eurocopa de 2000 terminando o torneio mais uma vez como artilheiro do time com três gols. Além disso, ele integrou a seleção do torneio. A competição sediada pela Holanda e pela Bélgica foi conquistada com muito suor. A França perdia a final contra a Itália até os acréscimos do segundo tempo, quando Wiltord empatou. Na prorrogação, Trezeguet fez o gol de ouro e deu o segundo título europeu aos Bleus. Aos 23 anos, Henry já tinha conquistado tudo o que podia com a seleção de seu país. Faltavam os títulos pelo Arsenal.

 

Construindo a lenda

Na temporada 2001-2002, vieram logo de cara três títulos: Campeonato Inglês, Copa da Inglaterra e Supercopa da Inglaterra. Com 32 gols, o francês encantava os torcedores nas tardes de sábado no antigo estádio Highbury ao lado do goleiro David Seaman, do zagueirão Sol Campbell, dos meio-campistas Patrick Vieira e Robert Pires, e do gênio Dennis Bergkamp. Um dos principais momentos foi no clássico contra o Tottenham em 2002, quando Henry marcou um gol épico arrancando de seu próprio campo de defesa, driblando quem via pela frente e finalizou chutando da entrada da área. Na comemoração, ele foi correndo em direção à torcida rival e deslizou no gramado de Highbury encarando os rivais, num momento histórico que seria muito bem relembrado anos depois…

Veja o golaço:

 

A pose acima renderia uma estátua a Henry anos depois.

 

As atuações incríveis lhe renderam o posto de segundo melhor jogador do mundo em 2003, perdendo o título para o seu compatriota Zinédine Zidane. Ainda em 2003, Henry brilhou na Copa das Confederações vencida pela França. Ele marcou quatro gols, foi o artilheiro da competição, melhor jogador do torneio e ainda fez o gol do título na final contra Camarões. Quando marcou o gol, ele o dedicou a Marc-Vivien Foe, camaronês que faleceu naquela competição após um ataque cardíaco.

 

Invencíveis

Henry e Pires, em 2004.

 

Goleador e jogador do ano: troféus comuns na carreira de Henry.

 

Se 2003 foi um ano ótimo para Henry e para o Arsenal, 2004 foi ainda melhor. Essa geração de jogadores conseguiu um feito impressionante, um recorde que demorou exatos 115 anos para ser alcançado: ser campeão invicto do Campeonato Inglês. O único clube que havia atingido tal marca fora o Preston North End da longínqua temporada 1888-1889. A diferença, no entanto, é que os Gunners fizeram 38 partidas no campeonato, contra 22 do Preston. Foi algo notável e raríssimo de se ver nos principais campeonatos do mundo, incluindo o Campeonato Brasileiro, que desde suas origens só registrou uma única vez um campeão invicto, o Inter, em 1979. Henry, de quebra, foi o artilheiro do campeonato com 30 gols, inaugurando uma hegemonia de três anos como o maior marcador da liga – Didier Drogba roubou esse posto somente na temporada 2006-2007, quando Henry passou a maior parte do tempo machucado. O resultado de mais um ano de futebol em alto nível lhe rendeu outra premiação da FIFA como segundo melhor jogador do mundo em 2004. Dessa vez, o francês perdeu o título para o extraterrestre Ronaldinho Gaúcho.

 

Grito engasgado

Cara de mau e bola na rede: terror dos zagueiros!

 

A temporada de 2005-2006 parecia ser toda de Henry, já que ele teve a chance de se consagrar conquistando o único título que faltava em sua carreira àquela altura: a Liga dos Campeões da UEFA. E, naquele torneio, Henry fez mágica dentro de campo. Após uma primeira fase sem sustos, o primeiro grande desafio surgiu contra o Real Madrid, nas oitavas de final. Naquela noite, o Santiago Bernabéu assistiu a uma das maiores atuações da carreira de Henry. Logo no primeiro minuto o craque deixou Reyes na cara do gol, mas Casillas defendeu. Aos dez, foi a vez de enfiar bola açucarada para Ljungberg, mas a zaga chegou travando. Segundos depois, ele desferiu uma cabeçada que passou raspando a trave do Real. Na segunda etapa, os Gunners continuaram a pressionar. Aos três minutos, Henry pegou a bola no meio-campo, se desvencilhou de Ronaldo, deixou Beckham para trás e passou como quis por mais dois defensores merengues para, de perna esquerda, vencer Casillas.

Henry deixava os marcadores para trás e os companheiros na cara do gol a todo instante, e o Real agradeceu por perder de apenas 1 a 0. Na volta, empate sem gols e Arsenal classificado. Após passar pela Juventus nas quartas e pela sensação Villarreal nas semis, os Gunners chegaram à decisão sem sofrer um gol sequer no mata-mata.

A partida final contra o Barcelona tinha um sabor especial para Henry. Quiseram os Deuses do futebol que ela fosse jogada no Stade de France, em Paris. O Arsenal chegava até como favorito à final, e foi melhor no primeiro tempo, mesmo com a expulsão do goleiro Lehmann. O próprio Henry teve duas chances, defendidas por Valdés. Os Gunners abriram o placar ainda na primeira etapa: Henry cobrou falta na cabeça de Campbell, que testou para o fundo das redes. Já no segundo tempo, o Barcelona pressionava, mas o Arsenal saía com perigo. O próprio Henry perdeu uma chance chutando fraco para a defesa de Valdés. No entanto, a pressão catalã se transformou em gols nos pés de Eto’o e Belletti. Com isso, o Arsenal seguia sua sina na Liga dos Campeões, mesmo com um dos melhores times de sua história. Foi uma das maiores decepções da carreira do craque.

A decepção de Henry após o vice na Liga dos Campeões de 2005-2006. Foto: PA.

 

Um alento para Henry naquela temporada é que ela representou a quebra de uma marca pra lá de expressiva: ele se tornou o maior artilheiro da história do Arsenal, ultrapassando Ian Wright. Os gols que superaram o recorde foram marcados na fase de grupos da Liga dos Campeões, em um jogo fora de casa contra o Sparta Praga-RCH. O primeiro deles um golaço em que o atacante recebe longo lançamento de Kolo Touré, controla a bola e acerta uma trivela que beija a bochecha da rede do gol de Blazek. Além dessa marca em campo, fora dele Henry se mostrava cada vez mais importante para o grupo. Tanto é que foi ele o escolhido para ser capitão da equipe após a saída de Viera para a Juventus.

 

Prata na Copa e despedida

Como um foguete e sem marcação, Henry marcou esse gol aí e eliminou o Brasil na Copa de 2006.

 

A oportunidade de redenção da derrota na Liga dos Campeões para Henry estava próxima: a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006. A França não figurava nem de longe entre as favoritas no início do torneio, mas com o passar do tempo, os Bleus ganharam corpo sob a batuta de Zidane e o faro de gol de Henry. Na primeira fase insossa da França, Henry marcou contra a Coreia do Sul e Togo dois gols que ajudaram a classificar o time. Além disso, ele foi às redes nas quartas-de-final, quando fez o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Brasil. Após a vitória contra Portugal nas semis, também por 1 a 0, a França chegou à decisão com muita força. No entanto, o time acabou perdendo para a Itália nos pênaltis após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar e ficou com o vice. Henry não deixou sua marca e acabou substituído na prorrogação por causa de fortes dores nas pernas.

Em dois meses, Henry acabou vice-campeão dos dois torneios mais importantes do mundo. Também em 2006, o craque e seu Arsenal de despediram do estádio Highbury, que acabou demolido – o clube iria mudar-se para o moderno Emirates Stadium. A última partida aconteceu no dia 07 de maio de 2006, contra o Wigan, pelo Campeonato Inglês. Perdendo por 2 a 1, o Arsenal conseguiu a virada para 4 a 2, adivinhe, graças a Henry, que marcou três gols. O último gol da história do estádio, claro, foi dele, após anotar de pênalti o quarto gol. Na comemoração, o francês beijou o gramado em profunda gratidão a um lugar que tanto fez bem a ele e onde ele tanto alegrou torcedores e fãs do futebol com gols fantásticos, jogadas brilhantes e momentos inesquecíveis que deram a Henry a alcunha de “The King of Highbury”.

Em um dia de tristeza pelo adeus àquela casa de 93 anos de histórias, Henry e seu Arsenal deram ao torcedor os últimos momentos de alegria de Highbury e encerraram com chave de ouro uma era marcante na história do clube naquele dia.

 

Encontrando Pep

Após uma temporada de menos brilho – e muitas lesões – em 2006-2007, chegava a hora do ídolo dos Gunners respirar novos ares. Em junho de 2007, o francês foi contratado pelo Barcelona por 24 milhões de euros. Já consagrado, ele não tinha que provar mais nada a ninguém. Mas poderia brigar pelo título que ainda lhe faltava no currículo: um torneio continental de clubes. A passagem de Henry pelo Barcelona foi marcada por altos e baixos. No início, muitos mais baixos do que altos. Na primeira temporada, em 2007-2008, houve quem duvidasse de que ele voltaria aos velhos tempos. Sob o comando de Frank Rijkaard, ele marcou 12 gols no Campeonato Espanhol, e, mesmo sendo artilheiro do time na temporada com 19 tentos, os críticos no Camp Nou acreditavam que os 24 milhões de euros pagos ao Arsenal seriam jogados fora.

Guardiola e Henry: na Catalunha, francês voltou a acumular títulos.

 

Mas, na segunda temporada, Pep Guardiola assumiu o clube e Henry se redescobriu na Catalunha. Enquanto comentarista do canal britânico Sky Sports, Henry lembrou que Pep o ensinou a jogar bola novamente. “Depois de tudo o que eu tinha atingido a nível de clubes, de repente eu via o jogo de uma forma diferente. Entendia mais os espaços, entendia o que era ficar na sua posição e entendia dar 100% em absolutamente tudo o que você fizer.” Antes da temporada 2008-2009, no entanto, Pep convidou o jogador para bater um papo sobre assuntos além do futebol em um café de Barcelona, para que ele pudesse entender quais as necessidades de seu jogador. Henry nunca escondeu que Pep é uma de suas inspirações como treinador.

Nos blaugranas, o francês participou de uma das maiores equipes da história do futebol. Formando um tridente ofensivo com Messi e Eto’o, ele recuperou o bom futebol dos tempos de Gunners. Em uma partida contra o Valencia – na qual ele marcou um hat-trick – em dezembro de 2008, o primeiro gol de Henry lembrou os tempos de Highbury: após um lançamento açucarado de Yaya Touré, o atacante mostrou que ainda tinha força e velocidade para chegar à frente dos zagueiros e tocou por cima do goleiro. Essa vitória por 4 a 0 deixou o Barça a seis pontos de distância na liderança da Liga, e os Culés caminharam tranquilos para conquistar o campeonato.

No Barça, enfim, Henry conquistou o único grande título que faltava em sua carreira: a Liga dos Campeões. E mais uma vez Henry foi decisivo. Depois de uma fase de grupos sem sustos, o francês deu as caras logo no primeiro jogo do mata-mata, contra o Lyon. Ele marcou o gol que arrancou um importante empate para os catalães na França. No jogo da volta, 5 a 2 para o Barça e mais um gol de Henry. Na fase seguinte, ele marcou um gol e deu assistência para Messi na vitória por 4 a 0 contra o Bayern München.

Enfim, campeão europeu!

 

Aquela caminhada acabaria em Roma, com uma vitória por 2 a 0 contra o Manchester United de Alex Ferguson. Por causa de uma lesão no tornozelo, Henry quase ficou de fora da decisão, mas jogou muito bem 72 minutos daquela partida. E ainda quase marcou um gol, quando driblou Ferdinand, chutou rasteiro e viu Van der Sar defender. Com aquela conquista, a galeria de grandes troféus do atacante estava completa.

 

A mão da discórdia

Durante muito tempo, Henry foi o sinônimo de respeito e admiração por parte dos franceses. Tanto é que depois do fiasco na Eurocopa de 2008 – na qual os Bleus foram eliminados na primeira fase -, ele era o herdeiro natural da braçadeira de capitão da equipe, uma vez que o ídolo Lilian Thuram estava se aposentando. Mais do que um líder fora de campo, ele batia recordes dentro das quatro linhas. No jogo contra a Lituânia válido pelas eliminatórias dessa mesma Eurocopa, Henry marcou dois gols que o alçaram como maior artilheiro da história da seleção francesa, superando o gênio Platini. Àquela altura, ele tinha ido 43 vezes às redes com a camisa dos Bleus.

Mas como que um jogador com esse currículo poderia virar o símbolo de malandragem – na pior conotação que a palavra pode ter? Como um ídolo nacional poderia ter a imagem questionada e manchada dentro de seu país? Esse turning point começou em uma partida amistosa contra a Colômbia ainda em 2008, em um prelúdio do que estaria por vir. Foi o 100º de Henry pelos Bleus, mas quando foi substituído, inexplicavelmente foi vaiado por parte do Stade de France. Era um retrato claro dos tempos de desunião, da falta de respeito entre torcida e time, e dos que faziam pouco caso dos descendentes de imigrantes.

No entanto, o grande clímax dessa relação conturbada ocorreu na partida de repescagem para a Copa do Mundo de 2010, contra a Irlanda. Os Bleus haviam vencido o primeiro jogo em Dublin por 1 a 0. Logo, um simples empate em casa carimbaria o passaporte da França para a África do Sul. No entanto, a Irlanda dominava o jogo e o experiente Robbie Keane abriu o placar na primeira etapa. A França se segurava na falta de pontaria irlandesa e nas defesas de Lloris, e o jogo caminhou para o tempo extra. Aos 13 minutos da prorrogação, Malouda cobrou uma falta na área que passou por todo mundo. A bola quicou e sobrou no segundo poste com Henry, que, para não perder o controle, ajeitou a pelota duas vezes (!) com a mão esquerda e cruzou para o zagueiro Gallas mandar para a rede com o goleiro Shay Given já batido. O árbitro sueco Martin Hansson correu para o meio-campo e ignorou o protesto dos irlandeses.

Então… Parece que tem uma mão aí…

 

Após a partida, a imprensa mundial só falava do assunto, e Henry, na zona mista, admitiu a jogada: “Sim, toquei com a mão, mas não sou o árbitro. Eu estava atrás de dois irlandeses, a bola bateu na minha mão e continuei a jogada.” Na entrevista coletiva, o técnico Raymond Domenech perguntou para a imprensa quem não estava contente com a classificação ao Mundial. Mesmo com as justificativas, a relação de Henry com o povo francês ficou estremecida. O sempre polêmico Éric Cantona afirmou que, se ele estivesse vestindo o uniforme irlandês naquele jogo, Henry não duraria três segundos na frente dele…

Mesmo após as apelações da Irlanda junto à FIFA, a França ficou mesmo com a vaga e virou a grande vilã do torneio antes mesmo de ele começar. O fato é que, depois do episódio, a titularidade de Henry começou a ser contestada, até porque ele era reserva àquela altura no Barcelona. Raymond Domenech afirmou em seu livro que estava com dúvidas até se levaria Henry para disputar o torneio na África. Ele incluiu o craque na pré-lista de 30 nomes e foi até Barcelona conversar com quem outrora era titular indiscutível. Nesse bate-papo, Henry se mostrou disposto a ficar no banco, talvez com receio de ser desconvocado.

Dito e feito. Henry estava entre os 23 que iriam para a África do Sul e se tornou o único jogador francês a disputar quatro Copas do Mundo. Mas seu tempo de jogo foi reduzido a quase zero. Durante a Copa, ele entrou no empate contra o Uruguai e na derrota contra a África do Sul, e ficou no banco durante toda a derrota contra o México. Aquela seleção era o retrato de um time rachado, cuja principal estrela estava isolada. Em um treinamento antes da partida contra a África do Sul, um motim do elenco liderado pelo capitão Evra terminou em uma greve dos jogadores, que se recusaram a treinar. Isso se deu após a exclusão do atacante Anelka, que xingou Domenech quando soube que ia ser substituído no intervalo da partida contra o México.

Henry no chão: França deu vexame na Copa de 2010. Foto: Getty Images.

 

Em seu livro, o treinador chegou a dizer que sua influência no time era nula, assim como a de Henry. Inclusive, a relação do craque com o selecionador francês sempre foi conturbada. Um pouco antes do polêmico episódio da mão, uma reportagem do jornal Le Parisien divulgou um diálogo entre o então capitão dos Bleus e Domenech, no qual o craque afirmou: “Professor, eu digo em nome do grupo. Nós ficamos entediados durante os treinos. Eu já estou há 12 anos na seleção e nunca passei por essa situação. Nós não sabemos como nos posicionar e organizar em campo”.

Em rede nacional, Henry admitiu uma conversa com Domenech, mas não o teor dela. Já era claro o esgotamento do craque na seleção de seu próprio país, o que ficou escancarado após a partida contra a Irlanda e a Copa do Mundo. Cerca de um mês após o fiasco francês na África, Henry anunciou que iria se aposentar da seleção francesa. Mais do que isso, ele iria jogar a quase seis mil quilômetros de casa.

 

Aventura na MLS

Em 2010, Henry assinou com o New York Red Bulls, dos EUA, onde ele permaneceu durante os últimos quatro anos de sua carreira. Indiscutivelmente uma estrela mundial, o jogador foi com o intuito de fortalecer ainda mais o esporte no país. E ele não fez feio dentro de campo. Apesar de não ter conquistado nenhum título, foram 52 gols em quatro temporadas. Além disso, Henry integrava constantemente a lista de melhores jogadores da MLS. Em 2011, o jogador foi homenageado pelo Arsenal com a inauguração de uma estátua sua bem em frente ao Emirates Stadium. O monumento reproduzia a emblemática comemoração do golaço contra os Spurs lá de 2002. Muito emocionado, o atacante não escondeu as lágrimas e agradeceu demais o reconhecimento do clube a tudo o que ele fez vestindo a camisa vermelha e branca.

Henry durante a homenagem. Foto: Site oficial do Arsenal.

 

“Eu nunca imaginei, nem em meus sonhos mais loucos, que teria uma estátua como essa em frente ao estádio do time que amo e torço. A imagem da estátua é um exemplo perfeito do amor que tenho por este clube. Eu de joelhos encarando o Emirates com o Highbury (o l local onde ficava o antigo estádio do clube fica perto do Emirates) atrás é incrível. Também gostaria de agradecer aos torcedores, vocês sempre foram especiais e sempre tentei dar o meu melhor, apesar de saber que às vezes isso não foi o suficiente. Mas sempre dei tudo no campo por vocês e pelo clube”. – Thierry Henry, em depoimento reproduzido no Globoesporte.com, 09 de dezembro de 2011.

 

Henry vai à loucura: logo em seu primeiro jogo no retorno ao Arsenal, ele marcou o gol da vitória.

 

Nesse meio tempo, em 2012, o atacante ainda teve tempo de se despedir de fato do Arsenal. Devido à diferença dos calendários, Henry foi emprestado durante dois meses para o clube londrino enquanto a MLS estava pausada. Ele chegou, vestiu sua favorita camisa 12 (enfim, vaga!), e revolveu os torcedores em nostalgia. Logo na reestreia, Henry entrou no segundo tempo em um difícil duelo contra o Leeds United, válido pela Copa da Inglaterra, e marcou o gol do triunfo por 1 a 0 ao seu estilo: posicionado bem na linha dos zagueiros e à espera do momento certo para sair em disparada após receber o passe, fugir do impedimento e marcar com um toque seco na bola, no canto do goleiro. Ele disputou apenas sete jogos e marcou dois gols em seu breve retorno pelos Gunners.

 

Aposentadoria e novos desafios

Thierry Henry se aposentou em 2014, aos 37 anos, após quatro anos em Nova York. Ele não conseguiu ficar longe dos gramados por muito tempo e decidiu seguir a carreira de técnico. O início não poderia ser em outro clube: no Arsenal, onde ele comandou os juniores a partir de fevereiro de 2015. No ano seguinte, Henry aceitou o desafio de ser assistente técnico da Seleção Belga de futebol e ajudou com seus conhecimentos a equipe a se classificar para a Copa do Mundo da Rússia e conseguir um notável 3º lugar. Um dos grandes nomes do time no Mundial, Romelu Lukaku, comentou que Henry foi o grande responsável pelo crescimento dele como jogador, aperfeiçoando suas técnicas dentro e fora da área. Após a competição, Henry assumiu o Monaco, seu antigo clube dos tempos de jogador, e espera ter o mesmo brilho que teve lá nos anos 90 e 2000. Se ele terá o mesmo sucesso na beira do gramado, só o tempo dirá. O que é certo é que o jovem Titi já está no Hall da Fama do futebol mundial, tendo iluminado tardes e noites dos torcedores de Monaco, Arsenal, Barcelona e New York Red Bulls, além da seleção francesa, é claro. Um craque imortal.

 

Números de destaque:

Marcou 411 gols em 915 jogos na carreira.

 

Leia mais sobre o Arsenal de Henry clicando aqui!

 

Extras:

Veja o lindo gol de Henry contra o Manchester na temporada 2000/2001.

 

Veja o adeus à Highbury

 

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