Técnico Imortal – Carlos Bianchi

Nascimento: 26 de Abril de 1949, em Buenos Aires, Argentina.

Times que treinou: Stade de Reims-FRA (1985-1988), Nice-FRA (1989-1990), PSG-FRA (1990-1991), Vélez Sarsfield-ARG (1993-1996), Roma-ITA (1996-1997), Boca Juniors-ARG (1998-2001, 2003-2004 e 2013-2014) e Atlético de Madrid-ESP (2005-2006).

Principais títulos por clubes: 1 Mundial de Clubes (1994), 1 Copa Libertadores da América (1994), 1 Copa Interamericana (1996) e 3 Campeonatos Argentinos (1993-Clausura, 1995-Apertura e 1996-Clausura) pelo Vélez Sarsfield.

2 Mundiais de Clubes (2000 e 2003), 3 Copas Libertadores da América (2000, 2001 e 2003) e 4 Campeonatos Argentinos (1998-Apertura, 1999-Clausura, 2000-Apertura e 2003-Apertura) pelo Boca Juniors.

Principais títulos individuais: Treinador do Ano na América do Sul: 1994, 1998, 2000, 2001 e 2003

Melhor Técnico do Mundo pela revista World Soccer: 2000

Melhor Técnico do Mundo pela IFFHS: 2000 e 2003

Prêmio à Excelência Esportiva pela Universidade de CEMA: 2003

Técnico com maior número de títulos da Copa Libertadores em todos os tempos: 4 conquistas

Técnico mais vencedor da história do futebol argentino com nove títulos

 

“O Mago das Américas”

 

Nos tempos de atleta, ele foi um verdadeiro terror para os zagueiros. Marcava gols de todos os jeitos, a todo momento. Bastava uma piscada mais longa do adversário que lá estava ele com a bola em seu domínio dentro da área e pronto para fuzilar o goleiro. Foi assim na Argentina. Foi assim na França. Quando se aposentou, não aguentou ficar por tanto tempo longe dos gramados. Decidiu virar técnico, lá mesmo no clube pelo qual havia encerrado a carreira de jogador. Foram alguns anos no Velho Continente como treinador, mas sem nenhum título conquistado. Em 1993, ele estava em sua terra natal e voltou ao clube de seu coração. E começou justamente em Liniers a provar seu talento como estrategista e técnico copeiro. Deu ao Vélez Sarsfield sua primeira Copa Libertadores, conquistada em pleno Morumbi e sobre o poderoso São Paulo de Telê Santana. Não contente, faturou um Mundial de Clubes sobre o não menos poderoso Milan de Capello. Continuou vencendo e convencendo. Foi parar na Itália. Não vingou. Virou comentarista de TV na Copa do Mundo de 1998. Até que voltou mais uma vez a sua terra natal. Dessa vez em La Boca. E, de novo, transformou a história de um clube. Mas de maneira mais portentosa. Destruiu jejuns. Fez do Boca Juniors campeão da América após mais de 20 anos. Fez desse mesmo Boca campeão do mundo sobre o Real Madrid. Repetiu o título continental no ano seguinte, uma dobradinha jamais igualada na competição desde 2001. O mundo escapou tempo depois. Mas, em 2003, lá estava ele vencendo de novo a América. Era a quarta taça. E o recorde. Meses depois, lá estava ele vencendo o Mundial de Clubes. De novo contra o Milan, que àquela altura tinha Dida, Maldini, Pirlo, Shevchenko… O Boca Juniors estava no topo como um dos clubes mais famosos, temidos e vencedores do planeta. E seu técnico não precisava provar mais nada a ninguém. A lenda já estava construída. Carlos Arcecio Bianchi, El Virrey, fez tudo isso e muito mais. Foi um dos mais emblemáticos técnicos da história. Um dos mais temidos e famosos do continente naqueles anos 90. Um verdadeiro pesadelo para clubes brasileiros. E o maior especialista no maior torneio das Américas. É hora de relembrar a carreira do “Mago”.

 

Dos gols às preleções

Bianchi em campo: artilheiro nato.

 

Muitos não sabem, mas Carlos Bianchi foi um notável atacante antes de virar treinador. Notável mesmo! Ele iniciou sua carreira aos 18 anos no Vélez Sarsfield e rapidamente ganhou uma vaga no time titular por causa do faro de gol apurado, agilidade e frieza dentro da área. Foi campeão argentino em 1968 e artilheiro dos campeonatos de 1970 e 1971 até se transferir para o futebol francês. Por lá, foi artilheiro em mais três torneios jogando pelo Stade de Reims e chamou a atenção do PSG, que contratou o atacante em 1977. Em Paris, Bianchi foi artilheiro de mais dois campeonatos franceses (71 gols nos dois torneios, incluindo incríveis 37 tentos na temporada 1977-1978) e mesmo assim não ganhou vaga no time da Argentina na Copa de 1978 – ele disputou apenas 14 jogos e marcou sete gols pela albiceleste – por jogar no estrangeiro em tempos de prioridade aos jogadores que atuavam na Argentina. Muitos diziam, também, que era pelo fato de ele sempre pensar mais em si e na carreira e pouco ligar para a seleção. Quem ganhava, claro, eram os clubes, que contavam com os gols de Bianchi para brigar de igual para igual com os adversários. O argentino voltou ao Vélez nos anos 80 para ser artilheiro mais uma vez e se consagrar como maior artilheiro da história do clube com 206 gols em 324 jogos, além de ser o 11º maior artilheiro da história do futebol de seu país e ser o jogador argentino com maior número de gols em campeonatos nacionais no mundo por vários anos, até ser superado por Lionel Messi. Bianchi anotou 385 gols em campeonatos nacionais, sendo 206 na Argentina e 179 na França. Um feito impressionante levando em consideração a quantidade de grandes atacantes que a Argentina já produziu (e produz) e também por Bianchi ter deixado para trás nomes como Di Stéfano e Labruna, por exemplo.

Toda essa carreira lendária terminou em 1984, no Stade de Reims, clube que ele guardava muita simpatia. Embora tenha acumulado números impressionantes e recordes individuais, faltava no currículo dele mais títulos. O solitário título nacional de 1968 era muito, mas muito pouco pelo tanto que ele havia feito no futebol. Para mudar essa história, Bianchi decidiu virar técnico e iniciou sua trajetória no próprio Stade de Reims em março de 1985, substituindo Pierre Phelipon.

Bianchi quis implantar no Reims o tradicional lado aguerrido do futebol argentino aliado às suas próprias características pessoas como determinação, otimismo e contundência. Os métodos de Bianchi eram também disciplinadores e baseados sobretudo na força, algo pouco comum no futebol francês. Embora desse liberdade para os jogadores mais talentosos, ele queria que todos ajudassem na marcação em esquemas compactos que dificultavam o jogo do adversário. Mas, como o clube passava por uma péssima fase na segunda divisão, nada disso deu resultado e a teoria não foi aplicada na prática. Entre 1989 e 1991, Bianchi tentou a sorte no Nice e no PSG, mas fracassou. Com isso, tirou um tempo sabático para descansar, estudar e questionar a si mesmo: será que valeria a pena continuar como técnico de futebol?

 

A chegada do Virrey

Em 1993, Carlos Bianchi retornou à Argentina. Sua vinda foi vista com ceticismo pelo fato de ele supostamente ter se importado pouco com seu país lá nos anos 70 e 80 ao decidir fazer carreira na França e ter se identificado com o país europeu. Além disso, Bianchi era visto como mercenário e individualista por muitos. Mas toda aquela imagem seria mudada pelo próprio treinador. Ele voltara a pedido de seu clube do coração: o Vélez Sarsfield, que buscava um técnico para comandar um time promissor e cheio de revelações em suas categorias de base. Bianchi aceitou não só por ser o Vélez, mas também por estar seguro da experiência que tinha no futebol, em especial pelo período em que estudou os campeonatos europeus e suas táticas, principalmente com o lendário técnico Arrigo Sacchi naquele começo de anos 90. Bianchi via no clube de Liniers o local ideal para pôr em prática tudo aquilo que havia aprendido e tratar de levantar os títulos que tanto lhe foram hostis nos tempos de jogador.

Bianchi deixou bem claro à diretoria que queria um trabalho a longo prazo, com foco nas categorias de base, para que o clube não precisasse gastar rios de dinheiro em jogadores. E, a fim de impor essa nova filosofia, trouxe antigos colegas dos tempos de jogador para comandarem a escola infantil (novidade criada por Bianchi) do clube: Pedro Larraquy, Osvaldo Piazza e Heriberto Correa. Quando chegou para iniciar os treinamentos, Bianchi já conhecia bem cada jogador e assistido a vários jogos anteriores do Vélez. Com gratas revelações como Bassedas, Pellegrino, Almandoz, Pompei e Turo Flores, aliados aos já tarimbados Chilavert, Trotta e Basualdo, Bianchi formou um grupo unido, com espírito vencedor e sem pecuinhas, intrigas ou corpo mole. Todos eram iguais e todos jogariam por um ideal em todo torneio que tivessem pela frente: o título. Os experientes davam conselhos aos jovens, e os jovens inspiravam os mais experientes a darem o melhor de si. E havia também algo fundamental que começou a transparecer ainda mais naquela estadia de Bianchi no Vélez: ele respeitava os jogadores para ser respeitado, transmitia confiança, valorizava o grupo como um todo e falava a linguagem do jogador, sem frases sem nexo ou metáforas. Dizia o que era para ser dito, a verdade nua e crua e ponto – um claro exemplo iria acontecer antes da final do Mundial de Clubes de 1994, como você conhecerá logo mais.

Com a base formada, treinamentos harmoniosos e o elenco na mão, Bianchi, enfim, tinha as ferramentas para mostrar seu valor. E começar a reescrever sua história – e do próprio Vélez – no futebol.

 

O trampolim para a América

A primeira competição que Bianchi teve pela frente foi o Clausura de 1993. E, após assumir a liderança na quarta rodada, o time do Mago não a largou mais. Jogo a jogo, o Vélez foi derrotando seus rivais e conquistando os resultados para garantir por antecipação o título argentino com 10 vitórias, sete empates e apenas duas derrotas em 19 jogos, além de 23 gols marcados e apenas sete sofridos, “culpa” do ótimo sistema defensivo formado pelo goleirão Chilavert e pela linha de quatro composta por Almandoz, Trotta, Sotomayor e Cardozo. Como não poderia deixar de ser, o grande destaque do time foi o conjunto, muito sólido, muito entrosado. Por mais que Asad e Flores se destacassem no ataque e Basualdo fosse até jogador da seleção argentina, o Vélez não tinha um jogador que chamava o protagonismo para si. Era um todo. E esse todo carimbou a vaga do time na Copa Libertadores de 1994, o principal objetivo de Bianchi para a temporada seguinte.

 

A primeira coroação

O Vélez no duro embate contra o Júnior, de Valderrama (à dir.).

 

Mesmo campeão e com a vaga na Liberta garantida, o Vélez de Bianchi quase venceu o título do Apertura de 1993, mas o título escapou por um ponto para o River Plate. Já em 1994, Bianchi iniciou a trajetória que ele tanto almejava antes mesmo de conquistar o Clausura: levar o Vélez a níveis internacionais. Mas tal desafio seria complicadíssimo logo na fase de grupos, pois o time de Liniers teria pela frente Boca Juniors, Palmeiras e Cruzeiro. “Só” isso. Como sobreviver a times tão tradicionais e tão históricos? Jogando como se não houvesse amanhã, apostando no fator casa e no mesmo espírito do título do Clausura de 1993. Após empatar com o Boca e o Cruzeiro em 1 a 1 nos dois jogos, a equipe de Bianchi venceu o Palmeiras por 1 a 0, venceu o Boca em plena La Bombonera por 2 a 1 (com gol no último minuto e um jogador a menos) e venceu o Cruzeiro por 2 a 0. Com a vaga garantida, perdeu o último jogo para o Palmeiras por 4 a 1 e ainda sim se classificou em primeiro lugar.

Nas oitavas, o rival foi o Defensor-URU e o Vélez passou nos pênaltis após dois empates. Nas quartas, eliminou o Minerven-VEN após empate fora e triunfo em casa (2 a 0) e despachou o Júnior-COL de Carlos Valderrama após derrota fora (2 a 1), vitória em casa (2 a 1) e triunfo nos pênaltis (5 a 4). Com muito drama, o Vélez alcançou sua primeira final de Libertadores na história. Por mais que tivesse uma equipe chata de se enfrentar e muito entrosada, todos pensavam que aquilo já era o limite para o time argentino. Principalmente após a definição do adversário: o São Paulo de Telê, então bicampeão do torneio e bicampeão mundial, uma máquina de jogar bola, conhecido em todo mundo e que iria decidir em casa. Óbvio que o tricolor era favorito. Óbvio que ninguém em sã consciência apostaria no Vélez, ainda mais vendo o sofrimento que foi para a equipe se classificar nos mata-matas contra times relativamente mais fracos do que os próprios que ele havia enfrentado lá na fase de grupos.

Mas aí entrou Bianchi. Com seu entusiasmo único, o treinador trabalhou de maneira incansável para armar uma equipe capaz de derrotar aquele perigoso adversário. Ele apostava na vitória em casa, no calor das 50 mil pessoas no José Amalfitani e segurar o resultado no caldeirão do Morumbi. Dito e feito. Na ida, Asad fez 1 a 0 e garantiu a vitória do Vélez. Na volta, o Morumbi transbordava gente e confiança. Todos acreditavam em um tricampeonato tricolor. Algo que não era visto na Libertadores desde o tri e o tetra do Independiente lá nos anos 70. Mas Bianchi armou seu time para não deixar aquela taça escapar. Todos os jogadores estavam concentrados, focados, aguerridos, confiantes. Basta ver a foto abaixo, antes de a bola rolar. Eles estavam prontos para tudo e fariam de tudo para sair daquele ambiente tão hostil com a taça de campeão.

Em pé: Roberto Trotta, Marcelo Gómez, Mauricio Pellegrino, Héctor Almandoz, José Luis Chilavert, Flavio Zandoná e José Basualdo. Agachados: Christian Bassedas, Turu Flores, Omar Asad e Raúl Cardozo. Perceba o entusiasmo nos jogadores. Era tudo pela América!

 

Com um esquema de jogo compacto, sem dar espaços e neutralizando as principais jogadas do rival, o Vélez foi absoluto no jogo defensivo e deixava claro que queria o empate. O São Paulo teve que abusar do chuveirinho, sem sucesso. Müller até abriu o placar aos 33’, mas foi só. Na segunda etapa, o temor dos argentinos aumentou quando Cardozo foi expulso, seguido de Bianchi, que não pôde acompanhar os minutos finais. A tensão só aumentou, o jogo ficou faltoso ao extremo e o placar inalterado. Com isso, a decisão foi para os pênaltis. E nela brilhou Chilavert, que defendeu a cobrança de Palhinha e viu seus companheiros – ele incluso – acertarem todas as suas cobranças que garantiram o 5 a 3 e o histórico título da Libertadores ao Vélez.

Foram seis vitórias, cinco empates, três derrotas, 15 gols marcados e 12 sofridos. Asad foi o artilheiro do time com seis gols, seguido de Flores, com quatro. Bianchi, enfim, conquistava um título internacional e acabava com sua sina pessoal de não ter sorte quando o assunto era títulos. Mas a reviravolta estava apenas começando…

 

No topo do mundo

Se o Vélez de Bianchi havia sido tratado com desdém diante do São Paulo, imagine contra o Milan-ITA na final do Mundial de Clubes de 1994? Pois é. Primeiro: o time italiano era campeão europeu após golear (eu disse golear) o famoso Dream Team do Barcelona-ESP de Johan Cruyff, Romário, Stoichkov e companhia por 4 a 0. Era praticamente a seleção italiana em campo com Tassotti, Baresi, Maldini, Albertini, Donadoni e Massaro e os reforços de Desailly, Boban e Savicevic. E comandados por Fabio Capello. O São Paulo já havia vencido aquele Milan em 1993, mas era o São Paulo. Agora, naquele ano de 1994, ninguém acreditava que um time com fama zero pudesse vencer um esquadrão experiente, forte e com uma zaga quase intransponível.

O Vélez de Bianchi em 1994: defesa compacta, meio de campo estruturado e Asad iluminado.

 

Só que aquela gente não conhecia Bianchi. E não tinha ideia do trabalho que ele fez. Na preleção, ressaltou que os primeiros minutos seriam fundamentais para o futuro do Vélez no jogo. Era simplesmente proibido levar um gol. Resistir, defender, correr, fechar os espaços. Passados os primeiros minutos, aí sim, impor o jogo do Vélez, a velocidade e “agredir” um dos pontos fracos daquele time: o líbero Baresi, que já tinha 34 anos, vinha de um ano difícil por causa de lesão e tinha problemas com atacantes velozes. E Bianchi apostou suas fichas em Asad, tão bajulado por causa do excesso de peso. Primeiro, obrigou o atacante a chegar aos 93 quilos quando viu, meses antes da final, que ele estava pesando quase 95. E disse que se ele não perdesse peso, perderia o jogo. Foi então que, na manhã do dia da final, Bianchi tirou a prova com Asad e a balança apontou 92,5 kg. Mesmo com aquele “montante”, Asad tinha uma raríssima velocidade para seu corpanzil e conseguia disparos poderosos. E essa confiança de Bianchi em seu futebol foi fundamental para o jogador entrar tinindo na decisão. Segundo o ótimo site Futebol Portenho (leitura obrigatória para quem ama história do futebol! 😀 ), Bianchi teria dito, ao pé da letra, para que Asad focasse seu futebol em Baresi da seguinte maneira: “mostra-lhe a bunda e atira-lhe a merda!”.

Bem, Asad não fez isso, mas deu muito trabalho para o veterano defensor. Com dribles, presença de área e jogadas incisivas, foi o grande destaque do time em campo. O Vélez sobreviveu aos primeiros minutos como Bianchi mandou, e, na segunda etapa, abriu o placar em pênalti cobrado por Trotta. E, sete minutos depois, Asad mostrou habilidade e oportunismo para fazer 2 a 0 e decretar a vitória e o título mundial ao Vélez. No fim das contas, a final da Liberta havia sido bem mais difícil… E Asad foi eleito o melhor jogador da final e presenteado com um carro, que acabou repartido entre todos a pedido de Bianchi antes mesmo da viagem, para que os egos não se exaltassem. Afinal, o Vélez era o grupo. E o grupo deu ao Vélez o momento mais nobre e inesquecível de sua história.

 

Novas taças e o adeus

Arte: Site oficial do Vélez.

 

Em 1995, Bianchi voltou ao Japão com o Vélez logo em abril, para a disputa da Recopa Sul-Americana, mas acabou derrotado pelo Independiente por 1 a 0, em jogo com arbitragem bastante contestada. De volta à América, o time do Mago acabou eliminado nas quartas de final da Libertadores diante do River Plate curiosamente nos pênaltis, outrora especialidade do time de Liniers. Mas a equipe deu a volta por cima no segundo semestre com o título do Apertura com seis pontos de vantagem sobre o vice-campeão, Racing. O Vélez venceu 13, empatou dois e perdeu quatro dos 19 jogos que disputou, anotando 29 gols e sofrendo apenas 13 – melhor defesa. O título foi coroado com uma categórica vitória por 3 a 0 sobre o Independiente em plena Avellaneda.

Em fevereiro de 1996, Bianchi faturou mais uma taça com o Vélez: a Copa Interamericana, antigo torneio disputado entre o vencedor da Libertadores e o vencedor da Copa dos Campeões da CONCACAF. O rival dos argentinos foi o Cartagines, da Costa Rica. Após empate sem gols na ida, o Vélez venceu a volta por 2 a 0 (dois gols de Flores). Ainda em 1996, Bianchi levou o Vélez a mais um título nacional – o Clausura – com apenas uma derrota em 19 jogos e de novo a melhor defesa – 18 gols sofridos. Acontece que Bianchi acabou deixando o clube faltando quatro jogos para o fim do torneio após receber uma proposta da Roma-ITA. Mesmo já na capital italiana, Bianchi conseguiu uma dispensa de 72 horas na época e viu do próprio estádio o empate sem gols com o Independiente que deu o título ao clube no dia 18 de agosto de 1996.

O goleiro Chilavert celebra: Vélez faturou o Clausura de 1996.

 

Bianchi comemorou com eles e participou dos festejos que se estenderam por toda a noite. Ao término do jogo, o Mago deu um efusivo abraço em Osvaldo Piazza, amigo e técnico que assumiu o Vélez naquela reta final. Bianchi disse que o ciclo, enfim, estava fechado. “Agora sim se pode dizer que o ciclo foi fechado. Esse foi o último (título), tinha que cortar o cordão umbilical”, comentou o técnico na época ao jornal La Nación, com lágrimas nos olhos e diante da euforia dos 50 mil torcedores que vibraram pelo título e agradeceram sem parar por tudo o que El Virrey havia feito (de novo) pelo Vélez.

A propósito: o apelido Virrey surgiu após o jornalista Víctor Hugo Morales dizer que Bianchi era o “vice-rei” de Liniers por ter obtido sucesso como jogador e treinador do clube. A alusão é a Santiago Antonio María de Liniers y Bremond, quando este era o 10º Vice-Rei de Liniers no Vice-Reinado do Rio da Prata, entre 1807 e 1809. Como o bairro onde o Vélez fica se chama Liniers em referência a esse vice-rei (ou Virrey), o apelido acabou pegando.

 

Decepção à romana e novo período sabático

Em Roma, Bianchi era a esperança de devolver ao clube da capital os tempos de glória e encerrar um jejum de títulos que já durava cinco anos. Com o argentino Abel Balbo vivendo grande fase, Bianchi baseou seu esquema de jogo no compatriota e tentou implantar a mesma filosofia vencedora no Vélez na loba. O início foi bom, com vitórias contundentes, incluindo um 3 a 0 sobre o Milan (de fato, um grande freguês do Virrey). Mas dali em diante o time não se encontrou mais, perdeu muitos jogos e foi eliminado precocemente tanto na Copa da Itália quanto na Copa da UEFA, além de fazer uma campanha pouco expressiva no Campeonato Italiano.

Para piorar, o técnico entrou em atrito com o presidente da Roma na época, Franco Sensi, ao demonstrar interesse no atacante finlandês Jari Litmanen, um dos destaques do Ajax campeão europeu de 1995, e querer despachar na negociação um jovem promissor da Roma: ninguém mais ninguém menos que Francesco Totti, que não estava entre os preferidos do técnico. Mas o italiano desequilibrou em um torneio triangular disputado em fevereiro de 1997 e fez com que o presidente Sensi ordenasse sua permanência em Roma. Litmanen não foi contratado. Sorte da Roma, azar de Bianchi, que foi demitido antes mesmo do término da temporada.

Sem propostas, Bianchi decidiu ficar um tempo sem trabalhar e virou comentarista esportivo em vários veículos de comunicação, inclusive durante a Copa do Mundo da França, em 1998. Até que, antes mesmo de terminar a competição, Bianchi recebeu um contato da Argentina. Era o Boca Juniors, em crise, sob um jejum angustiante e precisando de um técnico capaz de arrumar a bagunça na qual se encontrava o gigante xeneize. E Bianchi aceitou…

 

A escrita de uma nova era

Bianchi e seus pupilos: a história nunca mais seria a mesma.

 

Assim como nos tempos de Vélez, Bianchi encontrou no Boca vários jovens talentos, mas um ambiente bastante conturbado. Os veteranos Maradona e Caniggia já haviam deixado o clube, a torcida não tinha mais paciência com o excesso de resultados ruins e conversas privadas entre diretoria e jogadores eram frequentemente vazadas na imprensa. Um “cabaret”, como disse certa vez o jogador Latorre. Com suas tradicionais conversas e estudos, Bianchi começou a organizar tudo à sua maneira. Conversou com os jogadores e, durante três dias, fez treinos diários de seis horas para entender as qualidades de cada um. Entre as conversas, ele teve algumas mais privadas com os três homens de frente do time: Palermo, Guillermo Schelotto e um tal de Juan Román Riquelme. Bianchi percebeu que o jovem meia estava subjugado no time, atuando como volante pela esquerda e “amarrado” por ter de ajudar na marcação. Era um sacrilégio! Aquele jogador não poderia ficar ali, preso, sem criar. Ele deveria ficar no centro de tudo e armando as jogadas. Deveria exercer a função do meia, do clássico camisa 10.

“Quando vi suas características, não tive dúvidas: para mim, era o 10 ideal, esse jogador que pode fazer jogar os atacantes, os pontas ou um volante chegando de surpresa. Ele podia embalar toda a equipe com sua sapiência. E, depois dele, estavam Guillermo e Palermo, que para mim eram feitos um para o outro por causa de seus estilos de jogo”.Carlos Bianchi, em entrevista ao El Gráfico (ARG), fevereiro de 2013.

 

Riquelme e Palermo, expoentes da era mais vertiginosa da história do Boca.

 

Segundo Bianchi, o esquema de jogo do Boca deveria obrigatoriamente passar por esse tridente. E, com o grupo em suas mãos e o respeito de todos, ele tratou de mostrar serviço já na disputa do Apertura de 1998. Acontece que nem o mais otimista esperava uma resposta tão rápida. O Boca foi campeão invicto e encerrou o jejum de seis anos sem títulos nacionais com 13 vitórias e seis empates em 19 jogos, marcando 45 gols (melhor ataque) e sofrendo 18 (melhor defesa). Córdoba, Ibarra, Bermúdez, Samuel, Arruabarrena, Cagna e companhia formavam um sistema defensivo e de marcação entrosado ao extremo, muito parecido com aquele Vélez de 1994. A diferença ficava no ataque, com o talento estrondoso de Riquelme e o faro de gol apuradíssimo de Palermo, artilheiro do certame com 20 gols em 19 jogos, recorde na era dos torneios curtos. No ano seguinte, o Boca faturou o bicampeonato nacional e ainda quebrou o recorde de invencibilidade do profissionalismo argentino ao alcançar 40 jogos (!) sem derrota. Tais títulos credenciaram o clube de La Bombonera na disputa da Copa Libertadores de 2000, competição que os xeneizes não venciam desde o longínquo ano de 1978.

 

Rei empossado

“Aquí es Bocaaaa!”. Foto: AFP.

 

Na Libertadores de 2000, Bianchi começou a construir sua lenda de especialista em torneios mata-matas, e, em especial, na competição sul-americana. Ele armou um time dinâmico, forte em casa e que conseguiu ressuscitar a mística de uma camisa adormecida há mais de duas décadas no continente. Mais do que isso, transformou completamente a própria história do Boca Juniors. Na fase de grupos, passou sem grandes problemas em primeiro lugar, com quatro vitórias, um empate e uma derrota em seis jogos. Na sequência, eliminou o El Nacional-EQU e despachou o rival River Plate nas quartas com uma inesquecível vitória por 3 a 0, com direito a gol de Palermo, que vinha de um período de seis meses parado devido a uma contusão.

O Boca da Libertadores de 2000: meio de campo pegador era um terror para os adversários, além da habilidade de Riquelme e Schelotto.

 

Desdenhado pelo técnico do River na época – que não acreditava no retorno de Palermo no Superclásico, Bianchi apostou na entrada do atacante no segundo tempo. E deu certo. O treinador depositou muita confiança em seu artilheiro mesmo voltando de lesão porque sabia que ele poderia criar problemas ao River. “Quando quebrei a tíbia uma vez e voltei, disputei seis jogos e marquei três gols. Não estava pronto para jogar, mas um goleador dentro da área, ahhh, se lhe cai uma, ele sabe aproveitar. Palermo não estava 0km, mas sabia que ele poderia criar problemas”, disse BIanchi em entrevista ao El Gráfico, em 2013. Essa confiança emocionou Palermo, que não escondeu as lágrimas após o gol e a consequente classificação. Aquilo era só um exemplo do talento de Bianchi em motivar seus atletas e fazer com que eles acreditassem em tudo. Não havia obstáculo. Não havia rival imbatível. Havia muita, mas muita confiança.

A emoção de Palermo: Bianchi confiou no artilheiro.

 

Na semifinal, o Boca eliminou o América-MEX após golear em casa por 4 a 1 e perder por 3 a 1 um jogo complicadíssimo no estádio Azteca, com o gol salvador anotado pelo zagueiro Samuel. Na decisão, Bianchi encarou o Palmeiras de Felipão, favorito e então campeão do torneio. O cenário era bem parecido com o de 1994: primeiro jogo em casa, segundo jogo em SP. Mas, diferente daquele ano, o Boca apenas empatou em 2 a 2 com o Verdão e se viu obrigado a vencer no Morumbi ou segurar um novo empate em busca dos pênaltis. Como sempre, Bianchi não quis falar após o jogo de ida. Deixou para os treinamentos, para a tática. E para o psicológico. Descobriu dias antes da final em SP que Felipão já se “sentia campeão” e usou aquilo como combustível para inflamar seus jogadores. Fez 50 fotocópias de tal declaração e espalhou pelo vestiário. Quando os jogadores viram aquilo, claro, ficaram ainda mais enervados para dar a volta por cima. Além disso, Bianchi se precaveu e estudou como os jogadores do Palmeiras batiam seus pênaltis. Com as informações em mãos, as transmitiu a Carlos Ischia, da comissão técnica, que colocou o papel atrás do gol de Córdoba. Após o término da partida (0 a 0) e a definição por pênaltis, Bianchi foi conversar com o goleiro para enfatizar como chutavam tais jogadores. O colombiano foi com tudo para a disputa, esbanjou confiança e defendeu os chutes de Asprilla e Roque Júnior. O Boca converteu todas as suas cobranças e foi campeão da América após 22 anos. Já Bianchi conquistou seu segundo título continental no Morumbi e de novo batendo o favorito e nos pênaltis. Mas a lenda estava apenas começando…

 

Campeão do mundo e o bicampeonato em casa

Após a conquista continental, o Boca não perdeu o embalo e faturou o título do Apertura do Campeonato Argentino, aproveitando a queda de rendimento do rival River Plate nas rodadas finais. No final da temporada, a equipe viajou a Tóquio para enfrentar o Real Madrid-ESP na final do Mundial de Clubes. Contra os espanhóis, Bianchi outra vez estudou muito bem o rival e descobriu uma das chaves: Delgado era mais rápido que os defensores madrilenos e, por isso, ganhou a vaga de titular ao lado de Palermo. Além disso, Bianchi concentraria uma marcação acirrada em Figo feita por Matellán e Serna manteria os olhos bem abertos no atacante Raúl.

O Boca campeão do mundo em 2000: começo fulminante e disciplina tática foram essenciais para o título.

 

Com a organização de sempre e vontade nas alturas, o Boca fez, talvez, o maior início de jogo da história dos Mundiais: dois gols em apenas seis minutos, ambos com a assinatura de Palermo e participação precisa de Riquelme no segundo gol, após roubar a bola no meio de campo e fazer um lançamento de 50 metros estonteante para o atacante xeneize. Bianchi ficou estupefato com o 100% de aproveitamento nos dois ataques de seu time, temeu quando o Real diminuiu com Roberto Carlos, seis minutos depois, e mandou uma bola na trave, mas seu time controlou bem a partida e Riquelme, ah, Riquelme, foi o dono da bola durante todo o jogo. Com seu domínio de bola, dribles e visão, o camisa 10 foi o enganche que fez do Boca campeão do mundo. Um título mágico e marcante para Bianchi por um motivo familiar e por um motivo especial.

“Eu já não tinha mais meu pai, infelizmente, porque faleceu em 1997. No Mundial de 1994, o ‘viejo’ pagou a passagem dos netos (se emociona)… Meu pai era uma coisa extraordinária. Em 2000, toda minha família estava lá. […] E teve outra coisa também: uma revista espanhola fez uma matéria comigo um mês antes da final e eu contei que, em 1997, meu filho estava com sua família em Madrid e que o ídolo do meu neto era o Raúl. E disse que fui a uma loja e comprei todo o uniforme do Real com o nome do Raúl para ele. Pois você acredita que, após a decisão do Mundial de Clubes, veio um dirigente do Real Madrid ao nosso vestiário com uma camiseta número 7, do Raúl e enviada por ele, para meu neto? Ele havia lido a matéria e mesmo após o jogo, mesmo após a derrota, teve esse gesto para comigo e meu neto. É extraordinário. Em gestos como esse que você vê a grandeza de um jogador, a disciplina, a ética e a conduta que você deve seguir para sua vida”.Carlos Bianchi, em entrevista ao El Gráfico (ARG), fevereiro de 2013.

Após um ano inesquecível, Bianchi teve uma difícil missão: manter aquele time competitivo. Para ele, o mais difícil era exatamente repetir, continuar ganhando. E ele tratou de conversar com seus atletas para que o apetite pela vitória fosse mantido. E ele teve a “sorte”, como ele sempre frisou, de ter ao seu lado jogadores que lhe escutavam e que tinham a mesma gana por títulos que ele próprio. E, na Copa Libertadores de 2001, o Boca refez seu caminho até a final com a autoridade do campeão que era. Mesmo sem Palermo, Samuel e com algumas mudanças no elenco, passou como quis na fase de grupos – cinco vitórias e uma derrota em seis jogos. Nas oitavas, eliminou o Júnior-COL com uma vitória (3 a 2) e um empate (1 a 1). Nas quartas, enfrentou o Vasco de Romário e Juninho Pernambucano e venceu com uma autoridade absoluta: 1 a 0 fora e 3 a 0 em casa (com direito a gol de bicicleta do zagueiro Matellán!).

Nas semis, o Boca reencontrou o Palmeiras e, de novo, eliminou o rival nos pênaltis com outra atuação épica de Riquelme. Naquele jogo, inclusive, Bianchi foi alvo da torcida rival ao ser atingido por uma lata de cerveja na cabeça enquanto descia para os vestiários após o final do primeiro tempo. Ele viu o restante do jogo das tribunas após receber atendimento médico. Mesmo de longe, ajudou o goleiro Córdoba com novas dicas para que o colombiano voltasse a ser o carrasco dos alviverdes por intermédio de Roberto Prado, membro da comissão técnica da equipe.

Na decisão, o rival foi o Cruz Azul-MEX, e o Boca venceu lá no México por 1 a 0. Na volta, em uma La Bombonera simplesmente efervescente, o time, por incrível que pareça, perdeu por 1 a 0 e o jogo foi para os pênaltis. Mas, de novo, venceu e ficou com o bicampeonato continental, celebrado em uma rara vez em casa, algo que só havia acontecido em 1978 – e que desde então não se repetiu para o clube. A impressão que todos tinham após aquele título era que o Boca era um time imbatível. De um jeito ou de outro, ele vencia. Bianchi havia criado uma máquina com engrenagens perfeitas, em profundo funcionamento, sem ruídos. Jogar em La Bombonera virou sinônimo de medo para os adversários. E a camisa do Boca passou a ser temida em todo o mundo, conhecida em cada canto.

Riquelme, ídolo xeneize, com a Libertadores de 2001.

 

O time ainda almejava o título mundial no final do ano, mas o Bayern München-ALE venceu por 1 a 0 com um gol na prorrogação em uma partida muito contestada por Bianchi por causa da arbitragem e pelo fato de Delgado ter sido expulso logo no começo do jogo. Após o revés, o treinador não renovou seu contrato com o Boca por desavenças com o presidente – a relação entre os dois era bem ruim – e deixou os xeneizes órfãos. A torcida lamentou profundamente a saída de seu Mago e o clube sentiu a ausência de Bianchi na temporada de 2002, quando não levantou títulos e foi eliminado pelo Olimpia nas quartas de final da Libertadores.

Com os resultados ruins, a torcida passou a interferir diretamente no dia a dia do clube para que a diretoria contratasse Bianchi novamente. Técnico do Boca na época, Óscar Tabárez soube da pressão que a torcida infringiu pela volta do Mago e fez um sincero pronunciamento aos jogadores no dia 04 de dezembro de 2002:

“Senhores, os dirigentes me disseram que vão buscar Bianchi, o eleito pela gente e que tem mais votos na comissão diretiva. Eu gostaria de ficar com vocês, mas sinto que com Bianchi não posso competir. Agora, se ele dizer não, eu posso brigar pelo cargo com qualquer outro técnico”.

De fato, não tinha como competir com alguém que havia vencido seis títulos com o Boca, incluindo duas Libertadores e um Mundial, em tão pouco tempo. Macri iniciou novas conversas com El Virrey, que aceitava voltar desde que fosse devidamente valorizado e não sofresse a pressão das eleições no clube que se aproximavam. Depois de muita conversa, enfim, a diretoria acertou a volta de Bianchi, que chegou com ares messiânicos em 29 de dezembro e deixou a torcida do Boca em êxtase profundo. Ninguém tinha dúvidas: a aura do mais temido da América estava de volta.

 

Imponência incontestável

Em 2003, Bianchi encontrou o Boca sem Riquelme. Era uma perda considerável. Não tinha mais o goleiro Córdoba. Nem o zagueiro Bermúdez. Nem vários outros presentes nas conquistas de 2000 e 2001. Mas tinha Tévez. Clemente Rodríguez. Abbondanzieri. Battaglia. E um elenco que só precisava de alguns ajustes para entrar nos trilhos novamente. Bianchi sabia da responsabilidade que tinha. E que nada menor do que um título seria aceito. A expectativa era enorme. E, com sua experiência, soube construir mais um time copeiro. Logo quando chegou, viu que Tévez vinha de um campeonato sul-americano pela seleção sub-20 da Argentina. E plena convicção que aquele time tinha condições de alcançar as finais de todos os torneios que iria disputar, principalmente a Libertadores. Mas ele precisava de Tévez inteiro. Por isso, deu 15 dias de férias para o jogador mesmo a contragosto do próprio, que queria jogar e não perder nada. Mas Bianchi o convenceu de maneira simples e objetiva: “Acá, el que toma las decisiones soy yo”. Pergunte se Carlitos retrucou… Hehe, de jeito nenhum!

O Boca de 2003: time experiente, com Tévez voando baixo e meio de campo muito organizado.

 

Quando voltou, o atacante simplesmente voou. Ao lado de Delgado, formou uma dupla de ataque afiada que embalou o Boca à classificação para as oitavas de final em segundo lugar no Grupo 7, com três vitórias, dois empates e uma derrota. O adversário no primeiro embate do mata-mata foi o Paysandu-BRA, que vivia uma fase incrível em sua história. Tão incrível que protagonizou uma das maiores zebras da Libertadores em todos os tempos: venceu o primeiro jogo em plena La Bombonera por 1 a 0, gol de Iarley – leia mais clicando aqui.

Não é truque nem montagem: o placar mostra mesmo Boca 0x1 Paysandu!

 

Foi um pesadelo para Bianchi. Toda aquela fama de carrasco de brasileiros, de bicho-papão dos mata-matas, destroçada pelo “Papão da Curuzu”. Para piorar, o duelo da volta seria em Belém. E a viagem foi cheia de percalços. A comitiva xeneize demorou 17 horas para chegar, os jogadores sofreram com a umidade, o calor e a chuva. E o gramado, segundo Bianchi, parecia um “campo de alfaces”. Era um ambiente totalmente hostil. Mas o treinador foi em busca da vitória. Armou o time com três atacantes. E disse: “temos que ganhar. Primeiro ganhar, depois de quanto”. Era questão de orgulho. Ele não admitia uma eliminação assim, de sopetão, para um adversário desconhecido, com tanta coisa para se fazer e um time que podia render mais. Os jogadores entenderam o recado. E o Boca fez 4 a 1 antes mesmo da metade do segundo tempo. O Paysandu ainda diminuiu aos 40’, mas os argentinos se fecharam nos minutos finais e garantiram o placar de 4 a 2. Enfim, tudo voltara à normalidade. E dali em diante eles não perderam mais. Nem sequer empataram. Só venceram.

Tévez: principal estrela do Boca em 2003.

 

Nas quartas, duas vitórias por 2 a 1 sobre o Cobreloa-CHI. Nas semis, contra o América de Cali-COL, 2 a 0 em casa e 4 a 0 fora. E, na grande final, contra o embalado e veloz Santos de Robinho, o apogeu: vitória por 2 a 0 em casa, gols de Delgado. E, no Morumbi, lugar de tantas alegrias para Bianchi – ele chegou a dizer certa vez que precisava comprar uma casinha no bairro paulista… -, vitória por 3 a 1 com imensa categoria. O Boca era pentacampeão da América. Conquistava seu terceiro título em apenas quatro anos. E Bianchi alcançava sua quarta taça na carreira. Àquela altura, se o técnico fosse um clube – suponhamos um CABJ (Club Atlético Bianchi Juniors), ele era o quarto com mais títulos na história da competição, atrás apenas de Independiente (7), Peñarol (5) e o próprio Boca (5). Ele era ou não era o “Mago da América”?

Bianchi, a Liberta e o Morumbi: cena se repetiu três vezes na história.

 

Após a conquista continental, Bianchi foi buscar o “carrasco” Iarley para reforçar o Boca no segundo semestre. E, no Apertura 2003, o time sobrou de ponta a ponta: 11 vitórias, seis empates, duas derrotas, 31 gols marcados (melhor ataque) e 11 sofridos (melhor defesa) em 19 jogos. A conquista foi um aperitivo para o Mundial de Clubes, onde os argentinos enfrentaram o poderoso Milan de Dida, Maldini, Pirlo e Shevchenko. Bianchi mais uma vez preparou tudo de antemão: fez questão de focar na conquista do título nacional antes de viajar para o Japão graças ao adiantamento do duelo contra o Arsenal de Sarandí. Viu inúmeros jogos do Milan, garantiu Iarley no time titular e propôs um revezamento com seus outros dois atacantes, Schelotto e Tévez, pelo fato de o primeiro vir de lesão e o segundo por um longo período sem jogar devido a uma suspensão imposta pela AFA. Com isso, Guillermo jogaria um tempo e Tévez o segundo. Com o placar em 1 a 1 já no primeiro tempo, Bianchi postergou um pouco a presença de Guillermo e colocou Tévez depois dos 20’ da segunda etapa. O duelo foi para a prorrogação e cada um jogou uma hora, ficando bom para ambas as partes e sem desgastar nem um, nem outro.

Nos pênaltis, o Boca venceu por 3 a 1 e celebrou o tricampeonato mundial dele e também de Bianchi. E de novo: àquela altura, se ele fosse o CABJ, o Bianchi Juniors era o “clube” com mais títulos mundiais em todo planeta, a exemplo de Peñarol (3), Nacional (3), Milan (3), Real Madrid (3) e Boca (3). De novo: ele era ou não era um Mago?

 

Lugar incomum, nova ida à Europa e manager

A “troca de carinhos” entre River e Boca em 2004 foi memorável…

 

Em 2004, o Boca voltou a tratar a Libertadores como vedete e outra vez caminhou a passos largos. Passou em primeiro na fase de grupos (quatro vitórias e duas derrotas), eliminou o Sporting Cristal-PER, nas oitavas, com duas vitórias (3 a 2 e 2 a 1), passou por mais um brasileiro – o São Caetano – nas quartas (0 a 0, 1 a 1 e vitória nos pênaltis por 4 a 3) e encarou o River Plate na semifinal. Esse jogo foi um verdadeiro acontecimento na época por ser um dos duelos mais quentes do mundo do futebol em uma fase tão derradeira de Libertadores (é que a sonhada e surreal final entre a dupla ainda não tinha acontecido…). Cada jogo teve uma só torcida e, em La Bombonera, o Boca venceu por 1 a 0 em jogo cheio de polêmicas, brigas e expulsões. O placar foi bem magro, mas o Boca foi valente no Monumental, perdeu por 2 a 1 e forçou a disputa de pênaltis, sua especialidade. Nela, os xeneizes venceram por 5 a 4 e conseguiram uma das mais energéticas classificações de sua história – leia mais clicando aqui.

Prestes a vencer sua quarta Libertadores em apenas cinco anos, o Boca Juniors era o imenso favorito na final. Ainda mais pelo adversário ser o desconhecido Once Caldas-COL, que jogava em uma retranca absurda fora de casa e soltava suas asinhas na Colômbia. Tal tática havia eliminado o Santos e o São Paulo nas fases anteriores. E eles repetiram a dose. Na ida, em La Bombonera, empate sem gols. Na volta, em Manizales, empate em 1 a 1. De novo, disputa de pênaltis. E, por mais incrível que pudesse parecer, os jogadores do Boca erraram todos os seus chutes. Isso mesmo. Quatro cobranças, quatro erros. O Once Caldas errou dois, mas fez dois, e venceu por 2 a 0. Era o fim.

Depois de impressionantes 15 vitórias em duelos eliminatórias pela Libertadores (quatro em 2000, quatro em 2001, quatro em 2003 e três em 2004), Bianchi conhecia uma derrota. Justo na final. Justo para uma zebra. Justo quando poderia repetir um bicampeonato em tão pouco tempo. Na volta para a Argentina, abatido, Bianchi decidiu que era hora de partir. Ele nunca foi direto sobre o motivo da saída, mas dizem que foi não só por causa da derrota, mas também pela excessiva venda de jogadores que acometia o clube naquela época.

Em 2005, Bianchi aceitou o desafio de comandar o Atlético de Madrid-ESP. Mas, depois de apenas 26 jogos, deixou o comando do clube. Em 2009, voltou à Argentina como manager do Boca Juniors, atuando nas categorias de base e no Departamento de Futebol. No entanto, meses depois, começou a sofrer pressão para assumir o cargo de técnico do clube mais uma vez. Ele foi enfático dizendo que queria continuar na função de manager até o fim de seu contrato, em junho de 2010. Pelo fato de a pressão aumentar cada vez mais, decidiu renunciar ao cargo em janeiro de 2010.

 

Quando o retorno não foi bom

Em 2012, quando perguntavam para Bianchi se ele não queria voltar a treinar algum clube, ele dizia que estava cansado do futebol “por causa das banalidades, da corrupção, da falta de respeito e de moral”. E dizia que estava dormindo “uma siesta, uma bela siesta”. Mas, em dezembro daquele mesmo ano, Bianchi resolveu acordar de tal siesta ao aceitar o convite do Boca para um terceiro ciclo no clube. Outro que voltou após seis meses, em fevereiro de 2013, foi Riquelme. Pronto. A torcida do Boca ficou em polvorosa. Só que o casamento entre ele, clube e o próprio Riquelme não foi nem de longe o mesmo. Com uma equipe bem abaixo do que ele estava acostumado, o treinador só conseguiu classificar o Boca para as quartas de final da Libertadores, fase em que acabou caindo para o Newell’s Old Boys-ARG.

Nos torneios nacionais, o Boca não foi Boca, perdeu uma invencibilidade de 10 anos em Superclásicos para o River em La Bombonera e, em agosto de 2014, Bianchi deixou o clube em definitivo após 74 jogos, 26 vitórias, 23 empates, 26 derrotas e, pela primeira vez, nenhum título conquistado. Mais uma vez foi enigmático em sua saída dizendo que “aconteceram algumas coisas que ele não entendeu e preferia guardar para si”. Depois disso, se retirou em definitivo do futebol, mas segue participando de entrevistas, programas e eventos ligados ao esporte.

 

Mago imortal

Com uma carreira brilhante e incontestável, Carlos Bianchi construiu um legado de ouro no futebol. Sempre teve a paixão futebolística e a gana pela vitória. E transformou isso em títulos pelo Vélez, seu eterno xodó, e pelo Boca, onde virou um titã intocável e ganhou até estátua. Nunca quis nem precisou comandar a seleção argentina. Seu gênio forte e ideais nunca casaram com os dirigentes da AFA. No final das contas, foi bom para o Vélez e para o Boca, que tiveram Bianchi em sua plenitude e podem contar e mostrar para quem quiser ver que, um dia, tiveram o Mago da Libertadores em suas terras. Um homem que soube como ninguém vencer os mais diversos e temidos times não só na América, mas também do outro lado do mundo. Que conseguia derrotar adversários mais técnicos que seu próprio time com táticas específicas, muito trabalho psicológico e o mantra de que nada é impossível e todos têm chances. Foi assim em 1994. Foi assim na invencibilidade de 1998 e 1999. Foi assim em 2000. Foi assim em 2001. Foi assim em 2003. E será para sempre. Um técnico imortal.

 

Números de destaque:

Sob o comando de Bianchi, o Vélez de 1993-1996 disputou 182 jogos, venceu 89, empatou 55, perdeu 38, marcou 255 gols e sofreu 154.

Sob o comando de Bianchi, o Boca 1998-2001 disputou 228 jogos, venceu 125, empatou 64, perdeu 39, marcou 433 gols e sofreu 244.

Sob o comando de Bianchi, o Boca 2003-2004 disputou 90 jogos, venceu 51, empatou 23, perdeu 16, marcou 157 gols e sofreu 83.

 

 

Leia mais sobre os times comandados por Bianchi clicando nos links abaixo!

Vélez 1993-1996

Boca 1998-2003

 

Extras:

Veja o gol da vitória do Vélez sobre o São Paulo no primeiro jogo da final da Liberta de 1994.

 

Veja matéria sobre a finalíssima.

 

Veja os gols da vitória sobre o Milan em 1994.

 

Veja a vitória sobre o River em 2000.

 

Veja os gols da vitória sobre o Real em 2000.

 

Veja a goleada sobre o Vasco em 2001.

 

Veja a vitória sobre o Santos em 2003.

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2 thoughts on “Técnico Imortal – Carlos Bianchi

  1. Na época eu ficava questionando como que esse cara ainda não era técnico da seleção argentina. Mas vendo o material humano que tem vestido a albiceleste nos últimos anos, eu vejo que ele foi muito esperto de não aceitar essa bucha. Ser técnico da seleção argentina mancharia a brilhante carreira dele.

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