Seleções Imortais – Brasil 1997-1999

O Brasil de 1997. Em pé: Taffarel, Aldair, Gonçalves, Cafu, Flávio Conceição e Roberto Carlos. Agachados: Dunga, Romário, Leonardo, Denílson e Ronaldo.

 

Grandes feitos: Bicampeã Invicta da Copa América (1997 e 1999), Campeã da Copa das Confederações da FIFA (1997) e Vice-campeã da Copa do Mundo da FIFA (1998). Conquistou a primeira Copa América fora de casa e o primeiro bicampeonato continental da história da Seleção Brasileira.

Time-base: Taffarel (Dida); Cafu (Zé Maria), Aldair (Antônio Carlos), Júnior Baiano (Gonçalves / Odvan / João Carlos) e Roberto Carlos; Dunga (Mauro Silva / Emerson), César Sampaio (Flávio Conceição), Juninho Paulista (Leonardo / Zé Roberto / Alex / Giovanni) e Denílson (Djalminha / Rivaldo / Ronaldinho); Ronaldo e Romário (Edmundo / Bebeto / Amoroso). Técnicos: Zagallo (1997-1998) e Vanderlei Luxemburgo (1998-1999).

 

“La Canarinha, su fenómeno y sus estrellas”

Imagine dois dos maiores goleiros da história do Brasil e do mundo jogando na mesma época, à disposição. Imagine dois dos maiores laterais da história do Brasil e do mundo juntos, no mesmo time. Imagine dois dos maiores centroavantes do planeta juntos, no mesmo time. Imagine um dos maiores meias da história nesse mesmo time. Imagine várias opções de bons jogadores para a proteção do meio de campo. Time perfeito? Quase. A defesa era o ponto fraco. No entanto, todas as qualidades descritas conseguiam suprir esse pequeno porém. E, com grandes jogos e ineditismo, esse time assumiu o protagonismo em um território antes dominado por portenhos: a América do Sul. Entre 1997 e 1999, a Seleção Brasileira de futebol conseguiu títulos históricos da Copa América jogando fora de casa, algo que ela jamais havia alcançado. Sempre nas vezes em que fora campeã, a Canarinha só levantava o caneco jogando em casa. Mas, naquela reta final de século, ela tratou de mudar a sua própria história com títulos na Bolívia e no Paraguai destroçando quem via pelo caminho com um time de craques e um ataque devastador, que se reinventava a cada momento. A dupla Ro-Ro, formada pelos gênios Romário e Ronaldo, deram uma média superior a três gols por jogo à seleção e formaram uma das mais lendárias duplas de ataque da história, algo que pouca gente notou na época. Com eles, o Brasil faturou a Copa das Confederações e a Copa América de 1997. Depois, Ronaldo e Amoroso formaram a dupla do bicampeonato de 1999. E, para ajudar esses diferentes duos, muita qualidade nos pés de Rivaldo, Djalminha, Juninho Paulista, Denílson, Zé Roberto, Leonardo e os laterais Cafu e Roberto Carlos. Naquela época, ver a seleção era uma atração. Um acontecimento. Uma equipe que praticamente não perdia. Líder inalcançável no ranking da FIFA. Era o time do momento, a camisa mais famosa da Terra. Propagandas recheavam a TV (como não recordar os craques brasileiros causando no aeroporto?). Multidões paravam para ver. Era bonito demais. Emocionante demais. Só um adversário atrapalhou aquela história: a França de Zidane, na famigerada Copa do Mundo de 1998. Bem, nem tudo é perfeito… É hora de relembrar.

 

Uma bonança fenomenal

A equipe que venceu a Copa Umbro de 1995. Em pé: Zetti, César Sampaio, Aldair, Márcio Santos, Jorginho e Dunga. Agachados: Edmundo, Juninho Paulista, Ronaldo, Roberto Carlos e Zinho.

 

Após uma cardíaca final no Rose Bowl contra a Itália, em 1994, o Brasil conquistou a Copa do Mundo da FIFA depois de 24 anos (leia mais clicando aqui!). Foi o título da garra, da disciplina tática, da marcação e, claro, de Romário, sem dúvidas o grande nome da equipe comandada por Carlos Alberto Parreira. Mesmo com o título, muitos se perguntaram na época se aquele era mesmo o futebol brasileiro, pois a tal da arte tão conhecida no mundo havia se perdido em boa parte dos jogos disputados nos EUA. Mário Zagallo, coordenador técnico na campanha de 1994, assumiu o comando da seleção para mudar aquele modo de jogo e pincelar os talentos que surgiam para aproveitá-los, principalmente, na busca pelo Ouro Olímpico nos Jogos de Atlanta, em 1996. Adepto do futebol bem jogado e um visionário, Zagallo tinha experiência suficiente para colocar aquela equipe no caminho da “beleza futebolística”, do Jogo Bonito brasileiro que ele mesmo mostrou ao mundo na Copa de 1970, quando era o treinador do time tricampeão no México. O primeiro desafio do Velho Lobo seria a Copa América de 1995, no Uruguai. Antes, ele testou alguns jovens na Copa Umbro, torneio amistoso disputado na Inglaterra em junho daquele ano.

Os protagonistas foram Juninho Paulista, Edmundo, César Sampaio e um atacante talentosíssimo que gastava a bola no PSV-HOL na época: Ronaldo, cada vez mais conhecido como Ronaldinho. O carequinha era uma verdadeira máquina de fazer gols, com uma explosão estonteante e piques de tirar o fôlego de qualquer rival. Com a bola dominada, era quase imparável. Em solo europeu, Ronaldo foi um dos destaques da campanha vitoriosa brasileira no torneio, após triunfos sobre Suécia (1 a 0), Japão (3 a 0) e a anfitriã Inglaterra na final, por 3 a 1, com gols de Ronaldo, Edmundo e Juninho Paulista. Mesmo com o bom desempenho, Ronaldo ainda foi preterido por Zagallo na disputa da Copa América e viu Túlio – em grande fase no Botafogo da época – e Edmundo formarem a dupla de ataque titular. O Brasil ainda não conseguia encaixar seu melhor jogo, mas alcançou a final da competição com 100% na primeira fase, passando pela Argentina nas quartas e pelos EUA na semi. Na decisão, os brasileiros empataram em 1 a 1 no tempo normal com o Uruguai de Francescoli e perderam nos pênaltis por 5 a 3. Foi a 14ª taça do Uruguai na competição, enquanto o Brasil ainda tinha suas minguadas quatro conquistas, todas em casa. Era um estigma muito desconfortável. Tão vitoriosa no mundo, a equipe sempre penava em sua própria casa.

Aldair, Dunga e Francescoli, na final de 1995. Foto: Conmebol.

 

Mas havia um alento. O país tinha muitos, mas muitos bons jogadores em ótimas formas. Havia material humano para dois, três times fantásticos. No gol, Taffarel era o titular, mas Dida surgia com uma força absurda após brilhar pelo Vitória e jogando muito no Cruzeiro. Para as laterais, Roberto Carlos e Cafu já eram uma unanimidade, mas havia também Zé Roberto (que podia jogar no meio de campo), Jorginho e Zé Maria. Para a zaga, Aldair reinava absoluto e podia ganhar a companhia de Márcio Santos, Gonçalves ou mesmo André Cruz. No meio de campo, a quantidade de peças era ainda maior: Dunga, Mauro Silva, Flávio Conceição, Giovanni, Leonardo (que também podia atuar na lateral), Djalminha, César Sampaio, Juninho Paulista, Denílson… Isso só para citar alguns. E, para o ataque, além de Ronaldo e Edmundo, o Brasil contava com Romário – de volta após merecidas férias pós-tetra -, Bebeto, Túlio, Paulo Nunes, Donizete e Sávio. Isso sem contar os jovens que iriam disputar as Olimpíadas de Atlanta em 1996, entre eles Caio, Rivaldo e Luizão. Zagallo tinha em mãos uma geração que há tempos não se via por aqui. E esse imenso leque de possibilidades era refletido nos jogos da própria seleção. Em 1996, a equipe disputou 13 jogos, venceu nove, empatou três e perdeu apenas um – 2 a 0 para o México, pela Copa Ouro, no qual o adversário jogou com seu elenco titular enquanto o Brasil atuou com a seleção olímpica.

Juninho, em 1995: meia foi um dos mais utilizados por Zagallo na época.

 

Roberto Carlos disputa bola com o nigeriano Kanu, nos Jogos de 1996.

 

Naquele ano de 1996, a expectativa era de que o Brasil pudesse ficar com o sonhado e então inédito Ouro Olímpico, mas a equipe acabou sucumbindo diante da Nigéria de Kanu e companhia na semifinal por 4 a 3. Na disputa do terceiro lugar, o Brasil bateu Portugal por 5 a 0 e teve que se contentar com o bronze. Vale lembrar que Ronaldo não jogou em suas melhores condições na época por vir de uma pequena cirurgia no joelho. Mesmo com aquele revés, não havia tempo para lamentar e nem motivos. Aquele time ainda poderia ganhar muito mais para o Brasil. Ainda mais com a volta de um certo Baixinho…

 

A dupla Ro-Ro

Não é montagem: ELES jogaram juntos pela seleção!

 

Em 1997, Zagallo deixou de lado o período de testes promovido entre 1995 e 1996 e passou a convocar com mais frequência o que de melhor havia no futebol brasileiro. E é claro que um jogador estava incluído nessa lista: Romário, que passaria já no primeiro amistoso do ano, contra a Polônia (vitória brasileira por 4 a 2), a fazer dupla de ataque com Ronaldo, já uma estrela mundial e jogando muito, mas muito no Barcelona. As arrancadas eram cada vez mais rápidas. Os gols, cada vez mais bonitos. As jogadas, cada vez mais exuberantes. Agora, imagine um atacante no auge da forma e com essas qualidades jogando ao lado de um centroavante letal, mortífero dentro da área e aclamado como um dos maiores da história do futebol mundial, herói do tetra? Era um verdadeiro sonho para qualquer amante do futebol! E, para delírio dos brasileiros, aquela dupla vestia a camisa amarela!

Dali em diante, o Brasil se transformou em uma máquina de fazer gols. Nos dois amistosos seguintes, goleadas de 4 a 0 contra Chile (dois gols de Ronaldo e dois de Romário) e México (três gols de Romário e um de Leonardo). No quarto jogo do ano, em Oslo, a única derrota: 4 a 2 para a Noruega, eterna asa negra do Brasil, com os gols brasileiros anotados por Djalminha e Romário. Em junho, a seleção foi até a França disputar um torneio amistoso na terra da Copa do Mundo de 1998. Como na época ainda vigorava a regra de que o campeão vigente do torneio não precisava disputar as Eliminatórias, a viagem serviu como preparação para o Mundial e conhecer um pouco da organização e preparativos para a competição.

Roberto Carlos enche o pé: lateral marcou um gol épico contra a França em 1997.

 

No primeiro jogo, contra a anfitriã, o Brasil empatou em 1 a 1 com um dos gols mais lendários da história anotado por Roberto Carlos. A uma distância de 35 metros do gol, ele partiu, deu a corridinha clássica e encheu o pé. Foi então que algo inexplicável aconteceu. A bola iria explodir na barreira. Mas não explodiu. Ela fez uma curva, passou a barreira como se tivesse vida própria ou fosse teleguiada e foi parar no fundo do gol de Barthez, que só ficou olhando, incrédulo. Aliás, o estádio todo ficou perplexo. Aquele gol não foi só um gol. Foi o gol mais impressionante de toda a carreira do craque e ganhou o noticiário de todo o planeta pela trajetória que aquela bola fez. Tempo depois, a CNN elegeu o gol de Roberto como “lance esportivo do ano”, superando até as cestas incríveis de Michael Jordan no Chicago Bulls. O chute de trivela a 130km/h (!) do brasileiro ficou tão famoso que intrigou até os físicos, que começaram a fazer estudos para tentar explicar o inexplicável (leia mais clicando aqui).

No duelo seguinte, o Brasil fez um jogaço contra a Itália, que teve que usar uma comissão de respeito para tentar parar Ronaldo: Maldini e Cannavaro… E nem assim adiantou. A Itália começou melhor e abriu 2 a 0, com gols de Del Piero e Aldair, contra, em lances que já adiantavam o grande ponto fraco daquele time brasileiro: a jogada aérea. Muitos gols seriam concedidos após lances assim. E esse problema iria trazer consequências graves algum tempo depois…

Uma imagem vale mais que mil palavras: Maldini, Ronaldo e Cannavaro. Colossos do futebol mundial em um só lance. Que nostalgia…

 

Lombardo, contra, diminuiu para o Brasil após jogada de Roberto Carlos. Del Piero colocou a Itália de novo na frente, mas a seleção Canarinho mostrou seu poder de fogo e diminuiu com Ronaldo – após deixar dois marcadores no chão e chutar sem chances para Pagliuca -, e empatou com uma obra-prima de Romário, construída após tabelinha na boca da área italiana entre Leonardo e Ronaldo, que tocou para o Baixinho entrar como uma flecha por entre os defensores, driblar Pagliuca e tocar para o gol vazio. Só mesmo o Brasil para fazer uma bagunça danada na tão aclamada defesa italiana da época!

 

Veja os gols:

Foi uma partida épica entre dois titãs do futebol, duas escolas tradicionais no futebol. E um verdadeiro deleite para os olhos ver tantos craques jogando tão bem. Na última partida do torneio, o Brasil venceu a Inglaterra por 1 a 0 (gol de Romário) e terminou na segunda colocação com cinco pontos, atrás da Inglaterra, com seis. Aquele foi um belo treino para o Brasil embarcar com confiança rumo à Bolívia para a disputa da Copa América. E acabar de vez com a escrita de só vencer a competição jogando em casa.

 

Sem rivais

Zagallo levou à Bolívia o que tinha de melhor. E um detalhe: metade dos convocados para a Copa América de 1997 jogava no Brasil. O treinador armou o time com a base que disputou o Torneio da França e apostava no entrosamento cada vez maior entre Ronaldo e Romário, além da boa fase de Leonardo atuando como meia e ainda o talento de Djalminha, Denílson e Zé Roberto. Com tantas opções, ele podia se dar ao luxo de até revezar algum jogador se fosse necessário. E, se alguém levasse cartão ou algo do tipo, havia substituto à altura. No Grupo C da Copa, ao lado de México, Peru e Costa Rica, o Brasil iniciou sua caminhada com algumas desatenções na defesa, mas o ataque sublime. Djalminha abriu o placar, aos 20’. González, contra, fez 2 a 0. Ronaldo fez o terceiro e o quarto ao seu estilo, cortando o defensor com um drible curto e já chutando para o gol. Romário fechou a conta em 5 a 0 e mostrou o primeiro cartão de visitas da seleção.

Djalminha (à esq.) em ação contra o México.

 

Contra o México, principal rival daquela primeira fase, a equipe brasileira sofreu nos pés de Hernández, atacante que abriu 2 a 0 para os mexicanos na primeira meia hora de jogo. Aldair diminuiu no comecinho da segunda etapa e, na sequência, entrou a genialidade de Romário. O craque invadiu a área driblando os adversários e chutou de surpresa, ao seu estilo, com grata contribuição de Romero para empatar: 2 a 2. A virada veio com Leonardo, que roubou do adversário na lateral direita, foi em direção à área, puxou pro lado e chutou de fora da área para marcar um golaço, deixando três mexicanos pelo caminho. Que pintura! A vitória por 3 a 2 praticamente garantiu o Brasil na liderança do grupo, que foi sacramentada após a vitória por 2 a 0 contra a Colômbia, num jogo que ficou marcado pelas vaias à seleção pelo fato de ela não ter jogado bonito! Até Ronaldo foi vaiado! Perceba o nível de exigência da torcida na época com o time. Não bastava vencer. Tinha que dar show.

O time da Copa América: laterais fortes no ataque, meio de campo criativo e ataque devastador.

 

Nas quartas de final, o Brasil enfrentou o Paraguai, com uma grande geração de futebolistas comandada por Chilavert, Gamarra, Arce, Acuña e o técnico Carpegiani, uma seleção que faria uma boa Copa do Mundo e daria um trabalho danado à França nas oitavas de final. Mas o dia era de Ronaldo, que marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 e classificou o Brasil para a semifinal. E o craque ainda perdeu um pênalti, defendido por Chilavert. Nas semis, o Brasil enfrentou o Peru, que passara pela Argentina nas quartas. Mas o time Canarinho simplesmente destroçou os peruanos. Denílson abriu o placar com um minuto de jogo. Flávio Conceição, em chutaço de fora da área, ampliou, aos 28’. Romário, aos 36’, fez o terceiro com seu “chute surpresa”, seco. Leonardo, aos 45’, fez o quarto após cruzamento de Cafu. Na segunda etapa, Romário fez o quinto após passe açucarado de Ronaldo. Leonardo, aos 10’, fez o sexto. E Djalminha fechou a goleada após cruzamento de Roberto Carlos: 7 a 0. Parecia treino. Como era bom ver o Brasil FAZER sete gols… 🙁

Com 100% de aproveitamento, o Brasil estava na final. E teria vários adversários pela frente: a altitude de La Paz, a anfitriã Bolívia, praticamente toda a torcida contra, a ausência de Romário por causa de uma contusão e o estigma de nunca vencer a competição fora de casa.

 

“Vocês vão ter que me engolir!”

No dia 29 de junho de 1997, mais de 40 mil pessoas lotaram o estádio Hernando Siles, em La Paz, para a final da Copa América entre Bolívia e Brasil. A cidade e sua altitude de quase quatro mil metros eram perigos claros ao futebol rápido e ofensivo do Brasil, além de ter sido ali que a equipe perdeu a histórica invencibilidade em Eliminatórias de Copa do Mundo, em 1993. O Brasil tentou construir sua vitória logo no início, mas as investidas dos donos da casa, em especial com Etcheverry, geravam perigos ao time brasileiro. Até que, aos 40’, Denílson chutou após sobra do goleiro em cobrança de falta de Roberto Carlos, Edmundo desviou e o Brasil fez 1 a 0. Mas a alegria durou pouco. Cinco minutos depois, Sánchez chutou de longe, Taffarel não segurou e amargou seu segundo frango em La Paz, assim como em 1993: 1 a 1. Será que o Brasil iria sucumbir outra vez? De jeito nenhum! Na segunda etapa, a seleção continuou em cima e os nervos começaram a se acirrar. Edmundo acertou um soco em um boliviano sem que o árbitro visse. Embora os bolivianos tivessem feito pressão para o juiz expulsar o brasileiro, isso não aconteceu. Imediatamente Zagallo tirou o Animal e colocou Paulo Nunes.

Minutos depois, o alívio quando Ronaldo fez 2 a 1 para o Brasil. No minuto final, quando a contagem regressiva já havia começado no banco brasileiro, Zé Roberto fez 3 a 1 e decretou o título histórico e inédito fora de casa da seleção. Era o fim da zica. Encerrar o século sem vencer uma Copa América fora de casa? Nem a pau! O Brasil era campeão! Na altitude desumana. Contra a torcida contra que aplaudiu o Brasil no final. Era o título após 35 longos dias em regime semi-fechado, jogadores querendo um lugar no time titular e Zagallo contornando como podia as vontades de todos. Foi a taça da dupla Ro-Ro e também do próprio técnico, que usou a conquista para calar os críticos que tanto o azucrinaram desde a derrota para a Noruega e pelo segundo lugar do Torneio da França, além dos recorrentes problemas no sistema defensivo. Os principais alvos revelados pelo próprio técnico eram Juca Kfouri e Juarez Soares. A todos eles, Zagallo lançou um sonoro “vocês vão ter que me engolir!”, em um dos momentos mais emblemáticos do Velho Lobo. Pelo menos naquele momento, todos tiveram que engolir mesmo…

Ronaldo, Cafu e Denílson com a taça.

 

 

Zagallo prepara a famosa frase “vocês vão ter que me engolir!”

 

O Brasil foi campeão com seis vitórias em seis jogos, 22 gols marcados e três sofridos. Ronaldo foi o vice-artilheiro da competição com cinco gols, um a menos do que Hernández, do México, com seis. Leonardo e Romário, ambos com três, completaram a lista dos artilheiros. Após o título, o Brasil ainda disputou seis amistosos. E venceu todos: 2 a 1 na Coreia do Sul, 3 a 0 no Japão, 4 a 2 no Equador, 2 a 0 no Marrocos, 3 a 0 em País de Gales e 2 a 1 na África do Sul.

Nesses jogos, Zagallo voltou a fazer testes no time e convocou jogadores como Rodrigo Fabri – estrela da Portuguesa que surpreendeu no Brasileiro de 1996 -, os atacantes Sonny Anderson, Dodô e Christian, o zagueiro Cléber, o lateral Russo, o volante Zé Elias, promoveu uma integração cada vez maior do meia Rivaldo e ainda deu chances para Bebeto e Zinho. No gol, o técnico apostou mais em Dida, campeão da América com o Cruzeiro, e levou o goleirão para o próximo compromisso daquela equipe: a Copa das Confederações, a primeira com a chancela da FIFA.

 

Encerramento com chave de ouro

O Brasil dos Carecas. Em pé: Júnior Baiano, Zé Roberto, Dida, Aldair, César Sampaio e Cafu. Agachados: Ronaldo, Flávio Conceição, Romário, Leonardo e Denílson.

 

No torneio intercontinental, disputado na Arábia Saudita, o Brasil estreou contra os donos da casa de visual novo e controverso: os jogadores estavam de cabeça raspada, após brincadeira iniciada por Júnior Baiano, Zé Roberto e Flávio Conceição, que entraram nos quartos dos atletas para raspar as cabeças de todos, algo que gerou confusões e abalou um pouco o grupo. Leonardo, Juninho, Rogério Ceni, Gonçalves e Doriva foram alguns dos que deixaram bem clara a insatisfação.

 

“Quando cheguei, a Seleção já estava concentrada e todo mundo de cabelo raspado. Eu tinha vaidade com o cabelo, falei para passar máquina quatro, falaram que iam passar, e já vieram com a zero no meio do cabelo. O clima ficou meio estranho, teve gente que não gostou, mas depois que todo mundo estava de cabelo cortado, um mais estranho que o outro, as histórias foram engraçadas e não ficou nenhum melindre. Depois da chateação, todos entraram na brincadeira”, disse Juninho Paulista, em junho de 2013, em entrevista ao canal SporTV.

 

Passada a “intriga da maquininha”, o Brasil venceu sem complicações os árabes por 3 a 0, com dois gols de Romário e um de César Sampaio. Na sequência, a equipe empatou sem gols com a Austrália – resultado que encerrou a sequência de 14 vitórias seguidas na temporada –  e venceu o México (adversário constante e complicado do Brasil na época) por 3 a 2, gols de Romário, Denílson e Júnior Baiano. Na semifinal, a equipe enfrentou a República Tcheca, vice-campeã da Eurocopa de 1996 e que representava seu continente no lugar da Alemanha, que declinou da disputa. Com Pavel Nedved, Poborsky e Smicer, os europeus esperavam surpreender o time brasileiro na base dos contra-ataques e do talento de Nedved. No entanto, eles só aumentaram a lista das vítimas da dupla Ro-Ro, responsável pelos gols da vitória por 2 a 0.

O Brasil da Copa das Confederações: ataque ainda mais prolífico e meio de campo que fechava os espaços.

 

Na grande final, o Brasil reencontrou a Austrália, que tinha conseguido segurar o ímpeto brasileiro lá na primeira fase. Bem, na hora da verdade, tudo ficou bem claro: o Brasil era muito superior. Ronaldo abriu o placar logo aos 15’, após assistência de Denílson. O mesmo Ronaldo fez 2 a 0 e Romário, após cruzamento de Cafu, ampliou. No segundo tempo, Romário fez o quarto. Ronaldo, imparável, anotou o quinto. E Romário fechou a conta em uma das mais perfeitas finais da história da seleção: Brasil 6×0 Austrália. Virou três, acabou seis. Ronaldo fez três gols. Romário também. Em cinco jogos, o Brasil venceu quatro, empatou um, marcou 14 gols e sofreu dois. Aquele foi o primeiro título da seleção na história do torneio. Denílson foi eleito o melhor jogador e Romário terminou como artilheiro com sete gols. Ronaldo, com quatro tentos, foi um dos destaques e terminou a temporada como bicampeão do prêmio de Melhor Jogador do Mundo pela FIFA e também vencedor do Ballon d’Or da France Football de 1997.

 

Flávio Conceição e Romário fazem a festa.

 

A final contra a Austrália encerrou uma temporada simplesmente incrível do Brasil. Foram 23 jogos, 20 vitórias, dois empates e apenas uma derrota. Foram 71 gols marcados (média de 3,08 gols por jogo) e 19 gols sofridos (para uma zaga contestada, a média menor que um gol por jogo até que foi boa…). Foi a seleção brasileira mais prolífica da história. Uma das mais encantadoras. Um time que dele era esperado nada menos do que futebol arte e gols, muitos gols. E que teve a dupla Ronaldo e Romário em seu esplendor, com uma sintonia poucas vezes vista na história do esporte. Ronaldo marcou 15 gols em 20 jogos. Já Romário anotou 20 gols em 17 jogos e se transformou no jogador com maior número de gols pela seleção em uma só temporada! Era unânime: o Brasil era o maior do mundo, o atual campeão do mundo e o favorito absoluto para ser campeão do mundo de novo.

 

A questão defensiva

Zagallo em treinamento de 1998. Foto: GP.

 

Mesmo com tanto favoritismo e jogadores decisivos, a Seleção Brasileira ainda era tema de um assunto que rondava os programas televisivos, os debates e as entrevistas: a zaga. Após os amistosos disputados entre fevereiro e abril de 1998, o time de Zagallo caiu de produção. Foram três vitórias – entre elas um 2 a 1 sobre a Alemanha em Stuttgart -, dois empates e duas derrotas – para os EUA, por 1 a 0, e para a Argentina em pleno Maracanã por 1 a 0, gol de Claudio López. Diversas celebridades do futebol começaram a questionar a defesa brasileira após aqueles jogos. Beckenbauer, em entrevista à Bild, disse que “o miolo de zaga é o calcanhar de Aquiles do Brasil”. Os questionamentos surgiam principalmente nos duelos contra grandes seleções. Na viagem à Europa que englobou o amistoso contra a Noruega e o Torneio da França, em 1997, foram sete gols sofridos em quatro jogos. No amistoso contra a Alemanha, já em 1998, o gol do adversário surgiu após falha de Aldair, que não vinha em sua melhor fase há algum tempo. Contra a Jamaica, também em 1998, Júnior Baiano deu uma cotovelada no adversário e foi expulso. Dunga e César Sampaio precisavam correr em dobro para conter os avanços dos laterais brasileiros, ultra ofensivos, e dar mais apoio à dupla de zaga. O time demonstrava no setor defensivo falta de entrosamento e estabilidade emocional. No gol, Zagallo voltou a apostar em Taffarel em 1998 e deixava claro que Dida seria o reserva na Copa mesmo com o baiano em melhor fase que o gaúcho.

O setor defensivo era um dos que mais Zagallo mudou ao longo daqueles anos. Foram testadas várias duplas de zaga: Aldair / Júnior Baiano; Gonçalves / Aldair; Célio Silva / Aldair; Júnior Baiano / Gonçalves; Gonçalves / André Cruz; César / Gonçalves; Célio Silva / Márcio Santos, entre outras. Foram 12 duplas diferentes em 34 jogos, uma média de uma a cada três partidas. No entanto, os números ainda davam crédito para os zagueiros. Com Aldair e Júnior Baiano – a dupla preferida de Zagallo – jogando juntos, o Brasil havia sofrido apenas quatro gols em dez jogos disputados. Era uma eficácia quase igual a da equipe do tetra em 1994. Zagallo se defendia dizendo que “não se podia cobrar daquela Seleção a mesma eficácia do time de 1994”. Que o time iria correr “mais riscos” pelo estilo de jogo ofensivo. Para piorar, a elevada média de idade de alguns dos jogadores que compunham o conjunto defensivo, como Dunga e Aldair, com 35 e 33 anos, respectivamente, gerava temor para os duelos contra adversários mais rápidos – basta ver o desempenho de Aldair contra a Itália, em 1997, quando ele sofreu uma barbaridade para conter Del Piero.

 

Uma das alternativas para a zaga seria André Cruz, mas a grave lesão do defensor minou esse plano B. Além dele, Júlio César, em grande fase, era preterido por Zagallo pelo fato de “não ter espírito de seleção”. E Gonçalves não vivia seus melhores dias no Botafogo. Muito se comentava sobre a falta de treinamentos quanto ao posicionamento da zaga. O Velho Lobo optava mais por coletivos antes de amistosos ao invés de treinos táticos. Ele dizia que “o time precisava de tempo para treinar e que era possível variar o sistema defensivo”. O assunto rendia horas e horas de debate, mas o Brasil ainda sim era muito forte. Cafu e Roberto Carlos, mesmo com foco na ofensividade, davam o primeiro combate quando o ataque rival vinha pelos lados. E tinham fôlego de sobra para ir e voltar. Mas é claro que eles não podiam fazer isso a todo momento justamente para os volantes não se sobrecarregarem e a bomba cair sobre os zagueiros. Por outro lado, adversários diziam que o Brasil não tinha problemas. A revista Placar (nos bons tempos da publicação…) de maio de 1998 trouxe uma série de depoimentos de possíveis adversários do Brasil naquela Copa, que foram unânimes em dizer que o time brasileiro era o melhor do mundo. Veja alguns deles:

 

“O Brasil não tem pontos fracos”.  – Cesare Maldini, técnico da Itália.

 

“O Brasil é um time tecnicamente muito forte. Não há nenhum time no mundo que tenha tantos jogadores bons. Às vezes, eles diminuem o ritmo, adormecem você, e, no momento seguinte, fazem a jogada mortal”. – Andreas Möller, meia da Alemanha.

 

“Se esse (a defesa) é o ponto fraco do Brasil, eu gostaria que a Inglaterra tivesse o mesmo problema. Como o Brasil é muito bom, as pessoas ficam procurando pretexto para derrubar”. – Alan Shearer, atacante da Inglaterra.

 

“Quem não teme (a Seleção Brasileira)? É o time que mostrou em toda a história os maiores craques e as maiores seleções. Na Copa de 1994 mereceu ganhar”. – Paolo Maldini, defensor da Itália.

 

“Precisamos ter muita atenção. Ninguém pode se iludir que, marcando só o Ronaldinho, o time brasileiro é menos forte. […] Não posso fazer uma classificação dos jogadores brasileiros. São 22 craques. Se o Brasil tivesse a oportunidade de usar 40 jogadores, seriam 40 craques”. – Zinedine Zidane, meia da França. Depoimentos colhidos da revista Placar, Maio de 1998.

 

Zagallo e algumas das estrelas daquele Brasil em 1998.

 

Após mais dois amistosos – empate em 1 a 1 contra o Athletic Bilbao-ESP, em jogo não-oficial, e vitória por 3 a 0 sobre Andorra -, o Brasil estava pronto para a Copa. No aquecimento para o Mundial, a empresa Nike até fez uma propaganda que correu o mundo com os jogadores brasileiros brincando com a bola no aeroporto do Galeão, no Rio, enquanto o voo para a França não decola. Foi um claro exemplo do poder que aquele time tinha no imaginário do torcedor. Ver a propaganda é um deleite. Confira abaixo:

 

Após a “bagunça” no aeroporto, Zagallo convocou os nomes esperados – com exceção de Juninho Paulista, Flávio Conceição e Márcio Santos, lesionados (leia mais clicando aqui) – e o elenco, enfim, viajou em busca do penta com um dos maiores favoritismos de sua história. Mas, logo na preparação, uma considerável baixa no elenco iria atrapalhar os planos do título…

 

O corte e o susto

Romário chora na coletiva de imprensa na qual foi anunciado seu corte: ele deveria ter ficado.

 

Nem bem havia esquentado seus motores, o Brasil perdeu um de seus principais nomes. Com uma lesão na panturrilha, Romário acabou cortado da Copa. Mesmo com o Baixinho garantindo que estaria recuperado ao longo do torneio – a exemplo do que viveu o italiano Baresi na Copa de 1994. Emerson foi chamado para o lugar do craque e Bebeto iria assumir a vaga deixada pelo camisa 11, embora Edmundo estivesse em melhor fase. Romário não escondeu a mágoa e revelou que tal corte teria sido motivado por Zico, coordenador técnico da equipe na época. O Baixinho, de fato, deveria ter permanecido com o grupo. Tanto é que ele voltou a jogar pelo Flamengo dois dias após as quartas de final da Copa. Faltou confiança e paciência da comissão.

Passado o primeiro problema, o Brasil se estabeleceu na França com todos os holofotes sobre Ronaldo. O astro brasileiro era uma verdadeira febre mundial. Centenas de repórteres cobriam o dia-a-dia do jogador, assim como patrocinadores, fãs e muita, muita gente. Era o maior assédio para um só jogador da Seleção Brasileira desde os tempos de Pelé. Ele era “o cara” da Copa. A vedete. E aquele clima todo, claro, atingiu a seleção, que se inflou em uma grande auto-confiança. A torcida não esperava outra coisa que não fosse o título mundial com o melhor jogador do mundo e a seleção mais estrelada do planeta.

O Brasil da Copa. Em pé: Taffarel, César Sampaio, Rivaldo, Aldair, Júnior Baiano e Cafu. Agachados: Ronaldo, Roberto Carlos, Leonardo, Bebeto e Dunga. Foto: AFP.

 

A equipe estreou no Stade de France contra a Escócia pelo Grupo A da Copa. César Sampaio, logo aos 4’, abriu o placar. Collins, de pênalti, empatou. Mas, no segundo tempo, Boyd, contra, em jogada de Cafu, decretou a vitória do Brasil, que não jogou o que sabia e manteve a sina de estreias apenas mornas em Mundiais. No duelo seguinte, o time de Zagallo encarou o Marrocos e não teve dificuldades para vencer por 3 a 0, gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto. Após a vitória, um susto: Ronaldo sentiu dores no joelho direito, algo que já lhe incomodava desde maio. Os médicos diagnosticaram uma tendinite, que passou a ser tratada com analgésicos. No duelo seguinte, contra a asa negra Noruega, derrota por 2 a 1, mas a liderança do grupo foi garantida com seis pontos. Ainda sem demonstrar o futebol vistoso da temporada anterior, o Brasil não empolgava. Mas, no mata-mata, a esperança era de que o time poderia acordar. E acordou.

 

Emoções fenomenais!

Ronaldo: astro brasileiro era o maior jogador do mundo em 1998.

 

Nas oitavas, o Brasil encarou o Chile, da dupla Zamorano e Salas. Perigo para a zaga brasileira? Não quando se tem Ronaldo e César Sampaio iluminados. Com dois gols de cada um, o Brasil fez 4 a 1 e apresentou ao público seu primeiro grande jogo no Mundial, com a imponência do campeão que era. Mas o duelo seguinte seria o primeiro desafio de peso daquele time: a Dinamarca, dos irmãos Laudrup e do lendário goleiro Peter Schmeichel. Era uma seleção de respeito, que passava pela melhor fase de sua história, iniciada com a conquista da Eurocopa de 1992 (leia mais clicando aqui). E o jogo foi simplesmente alucinante. Logo aos dois minutos, os temores defensivos surgiram quando Jorgensen abriu o placar sem qualquer problema. Oito minutos depois, Ronaldo atraiu a marcação para si e deu passe para Bebeto, livre, empatar. Aos 27’, Dunga roubou uma bola preciosa ainda no campo de defesa da Dinamarca, tocou para Ronaldo, que outra vez foi garçom e serviu Rivaldo, que virou para 2 a 1. O Brasil estava com tudo!

O Brasil no Mundial: meio de campo era muito forte com a presença de Rivaldo, mas ataque ficou enfraquecido sem Romário.

 

Mas, no começo do segundo tempo, outra falha defensiva gerou o gol rival. Roberto Carlos furou bisonhamente uma bicicleta dentro da grande área e a bola sobrou para Brian Laudrup empatar: 2 a 2. Novo drama. Mas o Brasil, naquele dia, tinha Rivaldo. O camisa 10 jogou muito e, nove minutos depois do gol dinamarquês, fez 3 a 2 em um chutaço de fora da área sem chance alguma para Schmeichel. A Dinamarca ainda pressionou, teve três boas chances sempre na bola alçada na área, mandou uma bola no travessão de Taffarel, mas a vitória ficou com o Brasil, que outra vez mostrou enorme poder de fogo, mas muitos espaços na defesa e uma letargia angustiante nas jogadas aéreas.

 

Veja os gols:

Na semifinal, o time canarinho reencontrou a Holanda, adversária nas quartas de final da Copa de 1994. Mas aquela Holanda era diferente. Muito mais forte. Com uma equipe fantástica, repleta de craques como Van der Sar, Frank de Boer, Davids, Bergkamp, Kluivert e que se dava ao luxo de deixar Seedorf no banco (leia mais sobre esse timaço clicando aqui). E, naquele dia, a cidade de Marselha viu o melhor jogo da Copa. E um dos melhores da história dos Mundiais. Após um primeiro tempo morno, o Brasil começou com tudo e abriu o placar com Ronaldo no primeiro minuto, ao seu estilo. Dali em diante, o Fenômeno provou em cada lance, cada disparada, porque era o melhor do mundo. Ele só não fez mais uns três gols porque a Holanda tinha Davids e Frank de Boer, que jogaram absurdamente bem naquele dia. A dupla teve um trabalho imensurável para conter aquela máquina vestindo a camisa 9 do Brasil. Ronaldo estava com apetite, queria gols e mais gols. Ele “só” tinha marcado quatro até aquele jogo. Pouco, ele pensava. Mas a Holanda também era um perigo em suas jogadas pelas laterais, principalmente pela direita, aproveitando a ausência de Cafu, suspenso, e jogando nas costas do ineficaz Zé Carlos. A todo momento, chuveirinhos e mais chuveirinhos chegavam na área brasileira e quase todos ficavam com Kluivert, em fase esplendorosa e um dos maiores cabeceadores da história do futebol holandês. Felizmente, Taffarel estava iluminado e conseguia vencer o duelo particular com o atacante.

Mas, quando tudo parecia caminhar para uma vitória brasileira, Kluivert, enfim, acertou uma cabeçada certeira e empatou o jogo faltando pouco para o fim: 1 a 1. Prorrogação. E com Gol de Ouro. Outra vez o jogo pegou fogo, com chances para ambos os lados e muita, muita emoção. A bola não entrou e a decisão foi para os pênaltis. Nela, brilhou Taffarel, que defendeu as cobranças de Ronald de Boer e Cocu e garantiu a classificação do Brasil para a final. Foi um jogo épico. E, claro, ele tem um capítulo especial aqui no Imortais. Leia mais sobre ele e veja os melhores momentos clicando aqui!

 

Um dia para esquecer

O Brasil estava onde todos imaginavam no dia 12 de julho de 1998: no Stade de France, para a final da Copa do Mundo. A adversária era a França, anfitriã, com Zidane crescendo de produção e um elenco recheado de estrelas. Era um grande time, mas que ainda não tinha o valor que merecia por não possuir títulos. Todos aguardavam um jogaço, ainda mais depois do duelo entre brasileiros e holandeses e também do embate dos franceses contra a sensação Croácia. Imagine Ronaldo aprontando para cima de Desailly, Deschamps e companhia? Rivaldo infernizando Karembeu? Taffarel defendendo os chutes de Djorkaeff e Zidane? Enfim, a expectativa era gigantesca. Mas tudo começou a mudar de figura quando a escalação inicial do Brasil apareceu com o nome de Edmundo no ataque. Ele ao lado de Bebeto. Sim, Ronaldo estava fora. Como assim? O que havia acontecido? Algo que até hoje gera polêmica e teorias da conspiração.

Às 14h03 daquela tarde, Ronaldo perdeu a consciência ao sofrer uma crise convulsiva tônico-clônica generalizada, que acabou difundida como convulsão na mídia para facilitar o entendimento. Ele tremeu com violência, sua musculatura enrijeceu, ele babou, mudou de cor, se transfigurou. Roberto Carlos, companheiro de quarto do jogador, rapidamente foi pedir ajuda e encontrou Edmundo, que chamou o Dr. Lídio Toledo. Ele avaliou o jogador e percebeu a convulsão. Na sequência, o médico Joaquim da Mata também avaliou o jogador e pediram para todos que estavam ali no quarto saíssem para que Ronaldo pudesse descansar. Três horas depois, o jogador foi levado para a Clinique des Lilas, em Paris, para fazer uma bateria de exames. Enquanto era examinado, poucos acreditavam que ele tinha condições de jogo. E ele na verdade nem deveria ser escalado. As primeiras horas após uma crise como essa, segundo os médicos, são as mais perigosas. A pessoa entra num estado de letargia, fica sonolenta, morosa, sem noção do que está passando ou fazendo.

Zagallo não foi comunicado do ocorrido. Só depois. E, enquanto ainda não se tinha uma notícia atualizada e com menos de duas horas para o início do jogo, Edmundo foi escalado. Mas, tempo depois, o técnico recebeu o comunicado dos médicos Lídio Toledo e Joaquim da Mata de que Ronaldo tinha condições de disputar a decisão pelo fato de os exames não acusarem nada. Ainda na clínica, Ronaldo mostrava ansiedade e disse aos médicos que queria jogar e até prometeu marcar um gol. Faltando apenas uma hora para a partida, Ronaldo chegou ao estádio e encontrou Zagallo. O técnico conversou com o atacante e mudou a escalação. Zagallo disse: “O melhor jogador do mundo pede para jogar, os médicos liberam, vou fazer o quê? Escalei.”

Zidane marca um de seus gols na final.

 

Mas o que pouca gente percebeu era que o Brasil já tinha perdido a Copa ali. Os médicos acabaram pressionados em escalar o jogador muito por causa da expectativa e dos patrocinadores envolvidos. Eles ficaram com o receio de serem culpados em barrar o “melhor do mundo” justo na final. Em caso de derrota do Brasil, a culpa cairia no colo deles. Se fosse qualquer outro jogador, não jogaria. Mas era Ronaldo. “O” cara. Lídio Toledo comentou o episódio:

 

“Veja minha situação: Ronaldinho diz que está bom e o médico veta. O time perde. No dia seguinte, o jogador declara que estava bem e que fulano-de-tal o barrou. Vou ter que mudar de país. Vou para o Pólo Norte virar esquimó!”. – Lídio Toledo, em entrevista ao repórter Luís Estevam Pereira e publicada no Especial de 35 anos da revista Placar, novembro de 2005.

 

Mas tudo aquilo foi provavelmente uma consequência de tudo o que Ronaldo passou na França. O excesso de responsabilidade jogado em cima dele, bem como o enorme contingente de pessoas na cola do atacante abalaram emocionalmente o jogador. Com 21 anos, tudo aquilo foi demais para o jovem, que não demonstrava o mesmo carisma e alegria dos tempos de Cruzeiro, PSV, Barcelona e Internazionale. Ele tinha na maioria das vezes o semblante tenso, de uma pessoa com enorme responsabilidade e tido como salvador da pátria, rei.

Na entrada das equipes no gramado, era visível que Ronaldo não estava bem. Ele entrou de cabeça baixa, com os companheiros tentando animá-lo. César Sampaio chegou a dizer que “a todo momento os jogadores olhavam para ele pensando que ele teria uma crise de novo”. Muitos até temiam pela vida do atacante. E, como não poderia deixar de ser e diante de um cenário tão tenso, só a França jogou. Para evitar que o atacante cabeceasse, ficou combinado que ele não iria participar das jogadas aéreas do time quando o adversário atacasse. A princípio, o atacante, de 1,83m, iria marcar Zidane, de 1,85m. Coube a Leonardo, de 1,77m, a atribuição. Péssima escolha. Zidane subiu sozinho duas vezes no primeiro tempo para fazer 2 a 0 França. No segundo tempo, bastou os Bleus cozinharem o jogo e Petit ainda fazer 3 a 0, nos acréscimos, e decretar o “un, deux, trois…. Zéro!” tão gritado pelos franceses. A França foi campeã mundial pela primeira vez. E o Brasil amargou seu segundo vice na história das Copas.

A desolação brasileira com o vice. Foto: Ross Kinnaird /Allsport/Getty Images.

 

Zagallo consola Ronaldo: ninguém esperava aquela derrota. Pelo menos não daquela maneira… Foto: Acervo Estadão.

 

Derrota jamais digerida, os brasileiros atribuíram o revés ao “piripaque” de Ronaldo, disseram que a final foi “comprada”, surgiu o “se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas”, enfim, várias teorias. Mas é de se pensar como teria sido aquela final com Ronaldo inteiro. Ou mesmo Romário ao lado dele. Ou mesmo Romário no banco para poder entrar no lugar do camisa 9. Como não existe máquina do tempo, o placar foi aquele mesmo. Para um time tão acostumado a vencer, um revés inesperado, ainda mais em final de Copa, não dava para engolir…

 

Hora do profexô

Após a Copa, Zagallo deixou o comando técnico do Brasil com um retrospecto impressionante: ele perdeu apenas seis dos 72 jogos como técnico da Seleção entre 1995 e 1998. Foram 53 vitórias e 13 empates, a seleção marcou 174 gols (média de 2,42 gols por jogo) e sofreu 58 (média inferior a um gol por partida), e ainda venceu a Copa das Confederações, a Copa América e ficou com o vice da Copa do Mundo. No dia 11 de agosto de 1998, Vanderlei Luxemburgo foi anunciado como novo técnico da equipe. Badalado na época, o treinador vinha em uma ascensão notável desde o início da década, que começou com o título paulista pelo Bragantino, em 1990, teve um bicampeonato brasileiro pelo Palmeiras, em 1993 e 1994, um inesquecível título Paulista em 1996 pelo mesmo Palmeiras e um título Brasileiro pelo Corinthians, em 1998. Desde 1997 que o treinador já era o preferido da imprensa e da torcida por seu jeito energético e estrategista de comandar as equipes, características que eram vistas como muito promissoras para a seleção. Luxemburgo deixou bem claro que iria renovar o time. Com isso, Taffarel, Aldair, Júnior Baiano, Leonardo, Bebeto e Dunga não tiveram mais chances com o novo treinador. Romário, desafeto de Luxa desde os tempos de Flamengo, também não seria convocado naqueles primeiros compromissos.

O primeiro desafio foi um amistoso contra a Iugoslávia, no Maranhão, em partida com vários nomes novos na equipe como o goleiro André, o lateral Felipe, o zagueiro Antônio Carlos, os volantes Marcos Assunção e Vampeta, e os meias Marcelinho Carioca, Alex e Jackson. O Brasil empatou em 1 a 1, mas fez as pazes com a torcida nos dois amistosos seguintes: 5 a 1 contra o Equador, nos EUA, e 5 a 1 em cima da Rússia, em Fortaleza. Luxemburgo tinha como missão preparar a equipe para mais uma Copa América, em junho de 1999, e fazia questão de levar jogadores jovens mesclados com outros experientes. Ele testou vários nomes no começo da temporada e, após cinco amistosos – três vitórias, um empate e uma derrota -, a equipe viajou para o Paraguai com alguns nomes conhecidos e outros novos. O time base era formado por Dida; Cafu, João Carlos (ou Odvan), Antônio Carlos e Roberto Carlos; Emerson, Flávio Conceição, Zé Roberto e Rivaldo; Amoroso (que vivia a melhor fase da carreira) e Ronaldo. Como opções, o técnico ainda tinha à sua disposição Alex e um novato magricela conhecido como Ronaldinho Gaúcho, que gastava a bola no Grêmio e era tido como mais nova promessa do futebol nacional. Luxa apostou no garoto. E não iria se arrepender…

 

A volta da alegria

Zé Roberto, Alex, Ronaldinho Gaúcho e Luxemburgo.

 

No dia 30 de junho de 1999, o Brasil fez sua estreia na Copa América contra a Venezuela. E, com autoridade, o time canarinho não encontrou dificuldades para fazer 2 a 0 no primeiro tempo (gols de Ronaldo e Emerson) e ampliar para 4 a 0 antes dos 20’ da segunda etapa com gols de Ronaldo e Amoroso. Até que, aos 30’, Ronaldinho Gaúcho, que tinha acabado de entrar, marcou o épico gol em que chapelou um zagueiro, passou por outro e fuzilou o goleiro. Foi o primeiro gol dele pela equipe titular. O Brasil ainda fez mais dois gols, com Amoroso e Rivaldo, e fechou a conta em 7 a 0. No duelo seguinte, contra o México, Amoroso, logo aos 8’, recebeu de Ronaldo e abriu o placar. Tempo depois, Emerson tocou para Alex fora da área e o meia acertou um chutaço para fazer seu primeiro gol pela seleção, um golaço! No segundo tempo, o México diminuiu, mas o placar ficou mesmo em 2 a 1.

Brasil 1999. Em pé: Cafu, Dida, Rivaldo, João Carlos, Antônio Carlos e Flávio Conceição.
Agachados: Amoroso, Roberto Carlos, Emerson, Zé Roberto e Ronaldo.

 

Para encerrar a campanha da primeira fase, o time de Luxa venceu o Chile por 1 a 0, gol de Ronaldo (capitão do time naquele jogo), em jogo que teve como destaque a defesa de Dida em uma cobrança de pênalti e o encerramento da partida antes do previsto por causa de uma intensa neblina que pairou sobre o estádio paraguaio naquela noite. A vitória carimbou a vaga da seleção nas quartas de final para enfrentar ninguém mais ninguém menos que a Argentina, comandada por Marcelo Bielsa e com nomes como Sorín, Samuel, Ayala, Zanetti, Simeone, Riquelme, Ortega e Palermo.

 

Nos embalos dos erres!

Rivaldo, estrela daquele Brasil de 1999.

 

Com quase 30 mil pessoas no estádio em Ciudad del Este, o clássico entre Brasil e Argentina era o grande duelo daquelas quartas de final. Com vários craques em campo, o jogo teve todos os ingredientes de uma grande partida de futebol. Havia também a expectativa em torno de Ronaldo, que enfrentava pela seleção seu primeiro adversário de peso desde o Mundial de 1998. E ele não decepcionou. A Argentina começou melhor e abriu o placar em chute de Sorín que resvalou em João Carlos e enganou Dida. Mas Rivaldo, aos 32’, cobrou uma falta que deixou estático o goleiro Burgos e eufórica a torcida brasileira para empatar: 1 a 1. Na segunda etapa, Zé Roberto ajeitou na entrada da área e Ronaldo encheu o pé para virar o jogo: 2 a 1. O jogo pegou fogo e a Argentina se mandou para o ataque, mas o Brasil se segurava com as defesas de Dida e a boa atuação de seu setor defensivo. Mas, aos 32’, a Argentina teve um pênalti a seu favor. Ayala foi para a bola, chutou rasteiro no canto direito e Dida defendeu! Que fase vivia o camisa 1! O placar ficou mesmo 2 a 1 e a seleção garantiu a classificação para a semifinal.

O Brasil campeão da América em 1999: time equilibrado, goleador e decisivo.

 

Antes da final, o adversário foi outra vez o México. E o Brasil tratou de liquidar tudo no primeiro tempo, com gols de Amoroso (oportunista, aproveitando uma sobra dentro da área), e Rivaldo, chegando com tudo na entrada da área e chutando de primeira. O Brasil estava na final de novo. O adversário? A jovem seleção do Uruguai. Era hora de um pequeno acerto de contas pelo revés de 1995.

 

O histórico bicampeonato

A decisão de 1999 colocou o favorito Brasil frente ao Uruguai, que levou uma equipe jovem para a disputa do torneio. Nomes como Carini, Magallanes e Zalayeta eram os mais conhecidos. O jogo começou truncado, com os uruguaios congestionando o meio de campo e reduzindo os espaços dos brasileiros. Mas aquela ligeira equiparidade durou pouco. Aos 20’, Rivaldo tocou de cabeça após cobrança de falta de Flávio Conceição e fez 1 a 0. Seis minutos depois, o mesmo Rivaldo driblou o zagueiro Lembo e deu um toque cheio de classe na saída do goleiro para fazer 2 a 0. No começo da segunda etapa, Ronaldo recebeu de Rivaldo, esperou o momento certo do quique da bola e mandou um petardo indefensável para o gol: 3 a 0.

O Brasil ainda perdeu mais três chances claras, mas tudo já estava consolidado: a seleção era bicampeã consecutiva da Copa América pela primeira vez. E ambas fora de casa! Era o fim das escritas. E ficava estabelecida a maior hegemonia do time na história da competição: desde 1993 que a Canarinha não perdia. Eram 20 jogos de invencibilidade, com 17 vitórias e três empates. Em 1993 e 1995, caiu apenas nos pênaltis. E em 1997 e 1999 foi campeã vencendo todos os jogos. Naquele título de 1999, foram seis jogos, seis vitórias, 17 gols marcados (melhor ataque) e dois sofridos (segunda melhor defesa, atrás apenas do Paraguai, que levou um). Rivaldo (eleito também o melhor jogador da competição) e Ronaldo foram os artilheiros da Copa com cinco gols cada, seguidos de Amoroso, com quatro. Enfim, o Brasil consolidava uma era fantástica de sua história. A era mais “portenha” de uma Canarinha que impôs sua força no continente sul-americano como nenhuma outra equipe brasileira havia imposto.

 

À espera do penta

Depois do título, Luxemburgo preparou um time misto para a disputa da Copa das Confederações de 1999, em julho. Com nomes como Evanílson, Serginho, Alex, Vampeta, Beto, Ronaldinho Gaúcho como titular, Christian e Warley, a equipe estreou bem goleando a Alemanha por 4 a 0, bateu os EUA (1 a 0) e a Nova Zelândia (2 a 0), massacrou a Arábia Saudita (8 a 2), mas perdeu a final para o anfitrião México por 4 a 3. Era o início do fim da Era Luxemburgo. O técnico não conseguiu manter o bom futebol do time, que perdeu dois jogos pelas Eliminatórias e ainda fez uma campanha bem abaixo do esperado nas Olimpíadas de 2000. Luxa foi demitido no final daquele ano. Para piorar, Ronaldo começou a sofrer sérias contusões no joelho e o Brasil entrou em um inferno astral tremendo, a ponto de a classificação para a Copa de 2002 ser colocada em xeque. Só após a chegada de Felipão e a recuperação de Ronaldo que as coisas começaram a andar e o filme, enfim, teve um final feliz, como o Imortais já relembrou aqui.

No entanto, nem o time do penta teve o dote artístico da equipe de 1997-1999. Mesmo sem o título mundial, aquela seleção entrou para a história pelas conquistas continentais, pelo ineditismo e pelas partidas épicas que protagonizou. Com técnica, muitos gols e jogadores fantásticos em seus auges, o Brasil foi parar na estratosfera do futebol e virou a maior seleção do planeta, posição consolidada após o penta de 2002. Tal posto foi dela até meados de 2006, quando o time do famigerado “quadrado mágico” caiu em outra Copa do Mundo. Desde então, a equipe perdeu a identidade, perdeu o encanto e esqueceu do futebol arte que tanto encantou gerações. Para quem nasceu neste século XXI, deve ser difícil acreditar que um dia o Brasil teve uma seleção encantadora, que dificilmente perdia, que não chorava, que não jogava de maneira bur(r)ocrática e que não tinha jogadores mais preocupados com a própria imagem do que com o time. Existe, claro, a esperança de que um dia o Brasil volte a ser Brasil, embora seja difícil na atual conjuntura. Ainda bem que temos grandes craques do passado para recordar e muitas histórias para relembrar. Como a da Canarinha bicampeã da América. Uma seleção imortal.

 

Os personagens:

Taffarel: no rol dos maiores goleiros da história do Brasil, Taffarel viveu momentos conturbados no início da era Zagallo. Com algumas falhas após a Copa América de 1997, perdeu a vaga para Dida, mas recuperou o posto antes do Mundial de 1998. Na França, fez seu papel e salvou o Brasil na semifinal contra a Holanda. Após o vice, se retirou em definitivo da seleção. Mas o camisa 1 tinha crédito de sobra. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Dida: jogando muito, Dida só não foi titular na Copa de 1998 por Zagallo ainda apostar no veterano Taffarel. Após a Copa, o goleirão assumiu de vez a titularidade e não saiu mais. Foi fundamental na conquista da Copa América de 1999 com muita segurança e dois pênaltis defendidos em momentos cruciais da campanha. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Cafu: absoluto na lateral-direita, foi um dos poucos a ostentar um lugar cativo na equipe. Com fôlego infinito, cruzamentos impecáveis e muita liderança, foi um ícone daquela geração. Desde então, nenhum lateral-direito brasileiro conseguiu chegar aos pés de Cafu com a amarelinha. Em 2002, foi o capitão do penta. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Zé Maria: surgiu como grande promessa para a lateral-direita do Brasil, mas não foi nenhuma ameaça ao reinado de Cafu. Jogava o simples, com bom passes, cruzamentos e muita regularidade. Foi titular em várias ocasiões durante a temporada de 1997. No entanto, acabou preterido pelo técnico Zagallo na convocação para a Copa de 1998. Disputou 43 jogos e marcou dois gols pelo Brasil.

Aldair: após uma Copa do Mundo perfeita em 1994, o zagueiro passou a ser contestado pelas más atuações em 1996 – principalmente nas Olimpíadas -, e em alguns jogos de 1997. Os títulos daquele ano amenizaram um pouco a crise, mas o jogador voltou a sofrer na Copa do Mundo de 1998 e não repetiu o desempenho de quatro anos antes. Mesmo assim, é um dos maiores defensores da história do futebol brasileiro e ídolo de clubes como Flamengo, Benfica e Roma. Disputou 81 jogos e marcou três gols pela seleção. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Antônio Carlos: ganhou espaço com a chegada de Luxemburgo e fez uma boa Copa América em 1999. Bom no jogo aéreo e veloz, dava mais mobilidade ao setor defensivo. Disputou quase 40 jogos pela seleção.

Júnior Baiano: o zagueirão não vivia sua melhor fase na época e foi um dos que mais desapontaram na Copa de 1998. Como tinha prestígio com Zagallo e outros zagueiros em melhor fase estavam contundidos, ele acabou sendo o titular. Com Luxemburgo, perdeu de vez espaço na seleção.

Gonçalves: após ser campeão brasileiro pelo Botafogo, em 1995, o zagueiro rapidamente ganhou espaço no time brasileiro e foi figura constante nas convocações de Zagallo. Foi titular em vários jogos, inclusive na campanha do título da Copa América de 1997. Na Copa de 1998, não foi titular absoluto (só jogou contra a Noruega e contra o Chile) por causa da baixa estatura e a fragilidade do jogo aéreo brasileiro, que exigia defensores mais altos – apesar de nem assim ter resolvido…

Odvan: vivendo grande fase no Vasco multicampeão da época, o defensor foi lembrado por Luxemburgo e atuou como titular em algumas partidas da Copa América de 1999 e amistosos. Tinha força física e se impunha perante os atacantes rivais. Fez 12 jogos pela seleção entre 1998 e 1999, mas caiu de produção e não foi mais convocado.

João Carlos: outro que foi aproveitado por Luxemburgo por causa da boa fase que vivia pelo Cruzeiro e depois pelo Corinthians. Ganhou a titularidade na Copa América de 1999 e não deixou mais o time até a conquista do título. Foram apenas dez jogos com a amarelinha.

Roberto Carlos: o lateral-esquerdo era o maior em sua posição no planeta entre 1997 e 1999. Jogava muito, tinha um míssil na perna esquerda e conseguia se transformar em um ponta-esquerda tamanha sua classe no ataque. Foi bem abaixo do esperado na Copa de 1998, quando enfeitou demais e falhou em várias ocasiões, principalmente no jogo contra a Dinamarca. Deu a volta por cima nos anos seguintes até a conquista do penta. Foi, sem dúvida, um dos maiores laterais da história do futebol. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Dunga: mesmo com a idade chegando, o volante capitão do tetra seguiu com muito vigor e liderança até a Copa de 1998. Com desarmes precisos, bons passes e seu estilo raçudo, capitaneou o Brasil nas conquistas de 1997 e no vice-campeonato mundial. Após a Copa, não foi mais convocado por Luxemburgo. Disputou mais de 90 jogos com a camisa da seleção e marcou seis gols.

Mauro Silva: após ser quase esquecido entre 1995 e 1996, o volante voltou a ser chamado em 1997 por Zagallo e participou de alguns jogos daquele ano histórico. Não foi titular absoluto, mas não decepcionou quando exigido. Em 1998, só atuou em quatro jogos e não foi convocado para a Copa. Disputou 59 jogos pela seleção na carreira.

Emerson: um dos principais meio-campistas brasileiros da época, Emerson só não foi titular na Copa de 1998, após ser convocado no lugar do cortado Romário, porque César Sampaio e Dunga vinham muito bem. Depois, ganhou a vaga em definitivo com a chegada de Luxemburgo e jogou muita bola. Virou capitão do time tempo depois, mas uma brincadeira em um treinamento dias antes da estreia brasileira na Copa de 2002 causou uma lesão no volante, que foi cortado. E perdeu, de novo, a chance de ser campeão mundial.

César Sampaio: viveu a melhor fase da carreira com a camisa da seleção e também do Palmeiras. Muito técnico e jogador que chamava o jogo, Sampaio foi um dos principais jogadores do Brasil no Mundial da França. Com a chegada de Luxemburgo, acabou perdendo espaço. Disputou 49 jogos e marcou seis gols com a amarelinha, sendo três só na Copa de 1998.

Flávio Conceição: outro grande volante do futebol brasileiro nos anos 90. Marcava muito bem, tinha exímio controle de bola, armava jogadas e batia bem faltas, além de chutar com precisão de fora da área. Outro que se destacou nas conquistas continentais do Brasil, participando dos dois títulos. Em clubes, brilhou no Palmeiras e no grande Deportivo La Coruña da virada do milênio.

Juninho Paulista: rápido, habilidoso, técnico e driblador, o meia foi um dos principais nomes do time de Zagallo entre 1995 e 1997. Jogava muitas vezes como titular e também entrava no decorrer dos jogos. Era nome certo para a Copa de 1998, mas uma grave lesão meses antes do Mundial minaram suas chances. Foi recompensado em 2002, quando foi um dos convocados de Felipão na conquista do penta.

Leonardo: outrora lateral-esquerdo da seleção, Leonardo mostrou seu talento também como meia quando Zagallo assumiu o time. Presente na conquista do tetra, Leonardo jogou com a camisa 10 na Copa América de 1997 e foi simplesmente fundamental para o título. Marcou gols, deu passes e foi um dos grandes artífices daquele ataque dos sonhos. Após o vice-mundial, perdeu espaço no time de Luxemburgo. Disputou 60 jogos pelo Brasil.

Zé Roberto: o “super Zé” era um dos principais talentos do Brasil naqueles anos 90 e foi reconhecido com convocações constantes para a seleção. Jogava mais como meia e às vezes como lateral-esquerdo, sua posição de origem. Veloz, habilidoso e com um fôlego impressionante, ajudou bastante o elenco brasileiro tanto na passagem de Zagallo quanto na de Luxemburgo. Entre 1995 e 2007, seu período atuando pelo Brasil, foram 84 jogos e seis gols, incluindo duas Copas do Mundo disputadas – 1998 e 2006 (ele acabou de fora da convocação de 2002).

Alex: genial com a bola nos pés, Alex passou a ser utilizado com mais frequência por Luxemburgo naquele ano de 1999. Com visão de jogo privilegiada, passes precisos e especialista em chutes de longe, cobranças de faltas e golaços, era um dos principais em sua posição na época. No entanto, como alternava grandes jogos com outros bem apáticos, não cravou seu espaço no time. Brilhou no Palmeiras, no Cruzeiro da Tríplice Coroa de 2003 e no Fenerbahçe-TUR, onde é um verdadeiro deus e tem até estátua.

Giovanni: após ser um dos principais nomes do futebol brasileiro em 1995 por suas atuações pelo Santos, o meia ganhou espaço no time de Zagallo, mas nunca repetiu o bom futebol. Jogou pouco como titular e só foi titular na Copa do Mundo na partida de estreia. Com a chegada de Luxemburgo, perdeu mais espaço ainda e sumiu.

Denílson: infernal com a bola nos pés, driblador nato, especialista em atrair a marcação para si e abrir espaços para os companheiros, Denílson viveu seu auge naquela época. Foi titular em boa parte dos jogos da Era Zagallo. Não costumava marcar gols, mas até ele deixou alguns naquele ataque dos sonhos de 1997. Foi para a Copa de 1998 e integrou também o elenco do pentacampeonato de 2002.

Djalminha: virtuose da bola, Djalminha mostrou que era um jogador diferenciado após brilhar no Flamengo, no Guarani e em definitivo no grande Palmeiras de 1996. Ganhou algumas chances com Zagallo e esteve no elenco campeão da América de 1997, atuando inclusive como titular em alguns jogos. No entanto, seu temperamento acabou minando suas chances de disputar a Copa de 1998. Iria para a de 2002, mas outra vez uma atitude extracampo acabou deixando o craque de fora da lista de Felipão. Uma pena, pois ele tinha um futebol estonteante. Djalminha disputou apenas 14 jogos pela seleção e marcou seis gols.

Rivaldo: de fora da conquista da Copa América de 1997, o meia foi lembrado por Zagallo para a Copa de 1998 e não decepcionou. Jogou muito, foi a grande estrela do triunfo sobre a Dinamarca e manteve a boa forma nos anos seguintes. Brilhou no título da Copa América de 1999 e carregou o Brasil nas Eliminatórias, além de ser fundamental na campanha do penta, em 2002. Um craque imortal. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Ronaldinho: o garoto aprontou na Copa América de 1999 logo em sua primeira bola, quando marcou aquele gol antológico contra a Venezuela. No entanto, Luxemburgo preferiu não expor tanto o jovem e diminuiu o oba-oba em torno do craque. Após a decepção nas Olimpíadas de 2000, o meia ganhou espaço no time de Felipão e foi titular na campanha do penta. Depois, virou um extraterrestre e passou a ser o maior espetáculo da Terra. Leia mais clicando aqui.

Ronaldo: ver aquele atacante no auge da forma com a camisa 9 do Brasil foi simplesmente inesquecível para qualquer amante do futebol. O apogeu do craque coincidiu justamente com uma época vertiginosa do futebol brasileiro. Ele e a amarelinha tinham uma simbiose perfeita. Suas arrancadas, gols e conquistas o transformaram num mito, o verdadeiro Fenômeno. A famigerada convulsão de 1998 e as lesões quase sepultaram sua carreira, mas ele deu exemplo, conseguiu a volta por cima e voltou como uma fênix para levar o Brasil ao título de 2002, com dois gols na decisão. Ronaldo foi um dos maiores craques de todos os tempos. Incontestável. Único. Imortal. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Romário: após um período “sabático” da seleção, o Baixinho voltou em 1997 para transformar o Brasil em uma máquina de fazer gols. Foi o artilheiro do time na temporada, papou dois títulos e formou talvez a mais lendária dupla de ataque da história da seleção. Seu corte em 1998 foi um sacrilégio que prejudicou demais o time. Com ele na França, o Brasil com certeza teria sido outro. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Edmundo: outro que vivia ótima fase após gols e mais gols pelo Vasco, o Animal só não conseguiu espaço no time titular por causa da volta de Romário, em 1997, e por seu temperamento explosivo. Se estivesse mais tranquilo, teria sido titular em 1998 ao lado de Ronaldo, mas perdeu a vaga para Bebeto.

Bebeto: não vinha bem em 1998, mas foi lembrado por Zagallo e ganhou a vaga de titular após o corte de Romário. Ainda sim, marcou gols, mas não foi o rápido e oportunista atacante de 1994. Com Luxemburgo, não foi mais convocado. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Amoroso: multi goleador pela Udinese da época, Amoroso fez uma ótima dupla de ataque com Ronaldo na conquista da Copa América de 1999. Foi o vice-artilheiro do time e essencial no título. Tempo depois, sofreu com contusões e só retomou a boa fase no Borussia Dortmund do começo dos anos 2000 e no São Paulo campeão da América e do mundo em 2005.

Zagallo e Vanderlei Luxemburgo (Técnicos): o Velho Lobo trouxe de volta à seleção o futebol ofensivo e goleador que ele sempre foi adepto. Claro que o modo de jogo da equipe sobrecarregava a defesa, mas os resultados de 1997 foram impagáveis. O lado negativo foi a fase ruim da maioria dos zagueiros brasileiros no período, as lesões de André Cruz e Márcio Santos e a falta de confiança em outros jogadores que poderiam contribuir mais (como Júlio César, zagueiro do Borussia Dortmund na época que vinha em grande fase). O vice-campeonato mundial em 1998 somado ao corte prematuro de Romário e erros na convocação deram um fim melancólico ao trabalho do treinador, mas é preciso destacar os números deixados por ele e a temporada inesquecível de 1997. Na sequência, Luxemburgo começou a montar, aos poucos, o time que viria a ser campeão do mundo em 2002. Com mais oportunidades para os jovens, a manutenção de Roberto Carlos, Cafu, Rivaldo e Ronaldo e seu estilo competitivo, Luxa fez do Brasil campeão da América em 1999 com autoridade. No entanto, os maus resultados na sequência e problemas extracampo minaram sua estadia na seleção.

 

Extras:

 

Veja a campanha do Brasil na Copa América de 1997.

 

Veja a campanha do Brasil na Copa América de 1999.

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11 thoughts on “Seleções Imortais – Brasil 1997-1999

  1. Perfeito o texto e retratou muito bem meu sentimento – e acredito, que o de muitos outros torcedores – pois quando penso em seleção brasileira a primeira que me vem a mente é a de 1997-1999. Craques como Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos e Cafú! Éramos felizes e não sabíamos…

    1. Grande época da seleção brasileira. A seleção brasileira do período 2004-2006 também poderia ser considerada como imortal apesar do fracasso do seu quadrado mágico na copa mas foi a última grande seleção que o Brasil teve depois disso só decepção !

  2. Adorei o texto sobre essa seleção, só mais uma prova de que nem sempre as melhores seleções ganham a copa. as com melhores craques ou ou excelentes jogadores na pior das hipóteses, copa do mundo é um torneio curto e super difícil ganha quem erra menos seja na defesa, na criação e na finalização.
    parabéns pelo excelente texto.

  3. Acho essa seleção melhor que a penta-campeã, que também foi muito boa. O futebol mágico do Brasil nessa época produzia grandes jogadores, clubes como Vasco, Corinthians e Palmeiras protagonizavam partidas memoráveis e isso se refletiu na Seleção. E pensar que a última grande partida de copa que fizemos foi na final contra a Alemanha já no longínquo 2002… Restam sites maravilhosos como o Imortais para ter nostalgia.

    Abs!

  4. Belíssimo texto! Este site é maravilhoso, muito obrigado.
    (Ah, essa camisa de 98 é sensacional. É mais caprichada que as das décadas anteriores mas não tão espalhafatosa quanto a de 94 com aquela marca d’água e a de 2002 com aquelas listras verdes.)

  5. O Texto ficou sensacional, uma pena que essa geração é mais lembrada pelo vice na Copa do que pelos títulos nas Américas. Para mim eu acho que só falta duas gerações da seleção brasileira que precisam ser imortalizadas: a seleção de 1938 (que conseguiu o primeiro pódio do Brasil em copas) e a seleção de 1949-50. Fica a sugestão

  6. sem duvidas, mario jorge lobo zagallo e vanderlei luxemburgo foram treinadores fizeram dessa seleção um marco na historia. um estava encerrando a participação como tecnico na seleção, e o outro, estava começando o seu auge da carreira.

  7. O que matou essa seleção foi a defesa horrorosa. Junior Baiano, Odvan, Gonçalves.. Pura forçação de barra. Bons pro futebol BR mas não tinham nível pra jogar em seleção, muito menos disputar copa do mundo.

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