Wembley – A Catedral do Futebol

 

Nome: Wembley Stadium

Localização: Londres, Inglaterra

Inauguração: 28 de abril de 1923

Reinauguração: 09 de março de 2007

Partida Inaugural: Bolton Wanderers 2×0 West Ham United, 28 de abril de 1923

Primeiro gol: David Jack, do Bolton, no jogo Bolton Wanderers 2×0 West Ham United

Proprietário: The Football Association

Capacidade: 90.652 pessoas

Recorde de público pagante: 126.047 pessoas no jogo Bolton Wanderers 2×0 West Ham United, 28 de abril de 1923. O público estimado foi de 300 mil pessoas.

Recorde de público pagante após a reinauguração: 89.874 pessoas no jogo Cardiff City 0x1 Portsmouth, na final da Copa da Inglaterra de 2008.

 

Por décadas, ele foi um lugar de adoração. Ali, torcedores de diferentes clubes, classes e nacionalidades, fanáticos ou não, prestigiavam qualquer que fosse o evento. Os ecos da multidão criavam uma atmosfera única, contagiante. O som não escapava. Ficava ali, batia no concreto, voltava e formava nuvens e mais nuvens que davam àquele templo uma acústica impressionante. Um grito de gol não era apenas um grito de gol. As palmas após uma apresentação eram mais que palmas. E o bis de uma música levava à emoção qualquer artista, qualquer cantor. Era um lugar construído para o épico. Para o impensável. Era onde o mágico acontecia. Onde aconteceu grandes eventos. Grandes finais. Um lugar que comoveu quando virou pó, mas ressurgiu moderno, pronto para mais décadas de histórias e simbolismo. O Wembley Stadium – também conhecido antigamente pelo nome de Empire Stadium – pode parecer apenas mais um para quem não o conhece, mas possui talvez uma das maiores mitologias envolvendo um estádio em todo o mundo. Ele nasceu enorme e logo em sua primeira partida de futebol, uma final de Copa da Inglaterra, cravou um número impressionante de público que até hoje não foi superado e até levanta dúvidas: 300 mil pessoas. Utopia? Se tratando de Wembley, de jeito nenhum. Ele resistia a tudo e todos. Era feito para isso. E viveu para a enormidade. É hora de conhecer mais sobre o antes, o durante e o depois da Catedral do Futebol.

 

Símbolo do Império Britânico

Wembley em obras: templo do futebol inglês e mundial.

 

Após o fim da 1ª Guerra Mundial, o Governo Britânico decidiu organizar em Wembley Park, no norte de Londres, a Exposição do Império Britânico, um mega evento que seria realizado de 23 de abril de 1924 até 31 de outubro de 1925 com mostras de tudo o que o Império produzia e tinha a oferecer. O objetivo principal era apresentar aos outros países a força britânica no pós-guerra. Embora tivessem saído vitoriosos do conflito bélico, os britânicos viam sua supremacia ameaçada tanto na economia – que não vinha bem – quanto em sua tão aclamada indústria naval por causa da ascensão de Japão (na época também um Império) e EUA, curiosamente aliados do Reino Unido no conflito e presentes no Tratado Naval de Washington de 1922 – assinado por EUA, Império do Japão, Império Britânico, 3ª República da França e Reino da Itália, as potências navais do planeta na época -, que estipulou um limite de toneladas aos navios e evitou – pelo menos por um breve período – uma corrida armamentista que pudesse desencadear outra guerra.

Para atrair ainda mais o público e comprovar a força britânica, o rei George V queria construir um estádio enorme, digno da grandeza do Império. E, em 1922, as obras foram iniciadas ao custo total de 750 mil libras esterlinas e executadas pela Sir Robert McAlpine Ltd., com projeto dos arquitetos Sir John William Simpson e Maxwell Ayrton e do engenheiro Sir Owen Williams. Embora o custo fosse alto para a época, o nomeado Empire Stadium seria inicialmente demolido logo após o evento do Império, mas a ideia foi dissolvida. As obras começaram no local onde ficava a Watkin’s Tower, uma torre que tinha como objetivo ser a mais alta do mundo, mas como ela nunca foi concluída, acabou demolida em 1907. No entanto, para suplantar um ícone que nunca vingou, o futuro “Estádio do Império” teria como grande destaque duas torres com 38 metros cada uma chamadas de “Torres Gêmeas”, erguidas em ferro e concreto, assim como todo o estádio. As arquibancadas teriam uma amplitude única – embora algumas pilastras prejudicassem a visão em alguns pontos -, além de uma pista em volta do gramado para corridas e as tribunas envolvidas por uma cobertura. Uma curiosidade é que o estádio teria um imponente portão vermelho para o acesso da Majestade e de membros da Família Real.

Em 1923, já quase pronto…

 

O estádio levou exatos 300 dias para ficar pronto. Foram utilizadas 25 mil toneladas de concreto, 1500 toneladas de ferro e meio milhão de rebites! Com uma arquitetura icônica com colunas e abóbadas, o estádio misturava o clássico e o novo de maneira harmoniosa e simétrica. A data de abertura do estádio ficou marcada para o dia 28 de abril de 1923, ocasião da final da Copa da Inglaterra entre Bolton e West Ham. Dias antes do jogo, um batalhão da infantaria militar londrina testou a força das arquibancadas durante quinze minutos para assegurar a qualidade do estádio. E tudo estava realmente impecável. Mesmo com a inauguração, a FA (Football Association) não tinha certeza se o estádio realmente estaria cheio para a final e tratou de fazer uma intensa campanha de marketing para atrair o público dizendo que era o “maior estádio de todos” e realçando a capacidade de 125 mil pessoas, além de explorar a presença de um time londrino na decisão – o West Ham United -, o que poderia atrair simpatizantes da própria cidade. Com transporte público próximo, o estádio era de fácil acesso para pessoas de Londres e de cidades próximas. Os jornais acreditavam que cerca de 5 mil torcedores do Bolton – rival do West Ham na decisão – estariam na capital e centenas de milhares viriam de cidades próximas.

 

O batismo de 300 mil pessoas!

As catracas na entrada de Wembley. Foto: Getty Images.

 

No dia do jogo, poucos oficiais foram designados para a segurança da partida e isso se mostraria um erro tremendo. Os portões foram abertos às 11h30, três horas e meia antes do início da partida. Uma multidão começava a chegar de todos os cantos e de todas as maneiras, a grande maioria composta por simpatizantes e curiosos como se fossem para um evento cívico ou festivo. Durante uma hora e meia, o fluxo de pessoas até que estava normal, mas, a partir das 13h, Wembley começou a encher de maneira considerável. Pessoas que tinham seus bilhetes com assento pré-marcado não tinham como chegar até o número descrito no papel por causa da bagunça que estava se formando no estádio. Nem um pontual reforço policial ajudou a conter o público.

O lendário dia da super lotação…

 

Barreiras foram montadas nos portões, mas a multidão derrubou-as e começou a entrar. Com isso, as esperadas 125 mil pessoas foram crescendo para 150, 160, 200, 240 até chegar a incríveis 300 mil pessoas – embora até hoje o número não seja exato devido às proporções épicas que o evento tomou. Não era possível ver o gramado. Nem mesmo as traves. Era um mar de gente impressionante. Já era o maior público em um evento esportivo (excluindo corridas) na história. O problema é que, daquele jeito, era impossível um jogo de futebol acontecer. Alguém tinha que fazer alguma coisa. Pelo menos dissipar a multidão para fora das marcações do campo. Até os jogadores do Bolton tiveram dificuldades para chegar ao estádio e percorreram vários metros a pé, pois era impossível qualquer veículo ultrapassar aquela gente.

O lendário cavalo branco que ajudou a conter a massa.

 

Parecia um show de música tamanha a quantidade de pessoas em campo! Fotos: Yahoo Sports.

 

Foi então que o rei George V chegou ao estádio, e, com o hino “God Save The King”, a multidão mostrou mais respeito e disposição em colaborar com a organização. Policiais montados em cavalos entraram no gramado e começaram a afastar o público para fora do campo de jogo. As investidas iniciais não surtiram efeito, até a chegada do cavaleiro George Scorey e seu cavalo, Billie. Com sua imponência e de cor branca, o cavalo se impunha perante as pessoas e foi um divisor de águas naquela organização. No fim, a partida aconteceu e o jogo teve características bastante peculiares e um peso histórico que superou gerações. Leia mais sobre ele clicando aqui.

 

Símbolo londrino

A fama do Empire Stadium rapidamente ecoou por toda a Inglaterra e também pelo continente europeu. No ano seguinte, como previsto, ele recebeu milhões de pessoas durante a Exposição do Império, mas muitos ainda o consideravam “financialmente inviável”. No entanto, Sir Arthur Elvin, que conseguiu catapultar uma pequena fortuna vendendo cigarros em um quiosque durante a Exibição, fez uma proposta à Wembley Company – que comandava o estádio após a morte de seu antigo administrador, James White – de pouco mais de 120 mil libras, e conseguiu assumir o comando do estádio e potencializar seus rendimentos com as corridas de cachorros conhecidas como Wembley Greyhounds, iniciadas em 1927, além de oferecer um lar definitivo para a seleção inglesa de futebol e também para as finais da FA Cup. Em 1929, o estádio passaria a receber jogos de Rúgbi, esporte que crescia em popularidade por todo o país, e abrigou a final da Challenge Cup daquele ano entre Wigan e Dewsbury. No mesmo ano, a primeira corrida de motos Speedway foi sediada no estádio e até um clube da categoria foi criado: o Wembley Lions, que disputou provas até 1971, ano de seu fechamento.

Buck Lucas, em 1924. (Foto: Getty Images).

 

O australiano Lionel Van Praag e sua moto, em 1932. (Foto: Getty Images).

 

Corrida de speedway, em 1938.

 

Insana corrida em Wembley, em 1936. Tinha de tudo no estádio Londrino!

 

Com esses e outros eventos, Wembley ganhou vida própria e virou definitivamente um marco da cidade. Em 1928, a Seleção Inglesa, então invicta no estádio, perdeu seu primeiro jogo: 5 a 1 para a Escócia. No entanto, o English Team continuaria invicto para equipes não-britânicas por mais algum tempo. Em 1934, o estádio ganhou a companhia da Empire Pool, uma arena multiuso utilizada na época para esportes aquáticos, eventos artísticos entre outras modalidades. Ela foi um dos complexos esportivos, inclusive, dos Jogos do Império Britânico de 1934 e do Campeonato Europeu de Esportes Aquáticos de 1938. A arena foi renovada ao longo dos anos e é a segunda maior arena coberta de Londres, atrás apenas da O2 Arena.

A Empire Pool, em 1934, com Wembley ao lado.

 

Atleta carrega a tocha olímpica nos Jogos de 1948. Foto: Getty Images.

 

Após a 2ª Guerra Mundial, Wembley foi o palco principal dos Jogos Olímpicos de 1948, realizados em Londres. Na abertura dos Jogos – os primeiros desde Berlim-1936 -, mais de 85 mil pessoas lotaram o estádio, que recebeu também a cerimônia de encerramento e disputas de atletismo, hipismo, as finais do futebol e de hóquei de grama – que teve uma histórica vitória da Índia sobre a Grã-Bretanha por 4 a 0, na primeira medalha de ouro do país desde a independência. Vários atletas se consagraram no estádio, entre eles o tcheco Emil Zátopek, um dos maiores corredores de todos os tempos, ouro na prova de 10 mil metros e prata na de 5 mil metros daquele ano. Mas, a partir da década de 1950, o estádio assumiria de vez o protagonismo no futebol com partidas épicas e momentos marcantes.

 

Matthews, os Mágicos Magiares e a Copa de 1966

Stanley Matthews (à esq.), na The Matthews Final.

 

O ano de 1953 foi inesquecível para o estádio de Wembley. Em maio, na final da Copa da Inglaterra entre Blackpool e Bolton, mais de 100 mil pessoas viram uma apresentação histórica de um dos maiores craques de todos os tempos: Sir Stanley Matthews. Com incríveis 38 anos, o ponta fez uma partida simplesmente estonteante. Ele foi o responsável direto pelas jogadas dos três gols que viraram o 3 a 1 para 4 a 3 a favor do Blackpool naquela decisão. Foi o primeiro título de Matthews na competição e tal final acabou conhecida como The Matthews Final tamanha qualidade e poder de decisão do craque. A atuação dele foi tão marcante que acabou ganhando um destaque maior do que os três gols anotados por Stan Mortensen, primeiro a conseguir tal feito no torneio.

Meses depois, em novembro, a Inglaterra recebeu a Hungria para um amistoso em Wembley. O English Team ainda tinha a mania de querer duelar em sua casa contra as “equipes do momento”, para ver se elas eram mesmo tudo aquilo. Invictos contra seleções estrangeiras jogando em casa, os ingleses achavam que tal hegemonia iria durar para sempre. Mas, naquele dia, as 100 mil pessoas presentes no estádio viram uma apresentação histórica, que quebrou paradigmas e mostrou uma nova maneira de se jogar futebol pelos Mágicos Magiares comandados por Puskás, Kocsis, Czibor, Hidegkuti e companhia. Os húngaros venceram por 6 a 3, destruíram a invencibilidade inglesa e provaram ser o melhor time do mundo. Leia mais sobre esse jogo clicando aqui.

Em 1956, Matthews voltou a dar show em Wembley em um amistoso entre Inglaterra e Brasil, no primeiro encontro entre as duas seleções na história. Com 41 anos (!), o ponta deu um baile em ninguém mais ninguém menos que Nilton Santos, um dos maiores laterais-esquerdos de todos os tempos. E a Inglaterra venceu por 4 a 2 – com Gylmar dos Santos Neves defendendo dois pênaltis e evitando um revés maior.

No final da década de 1950, Wembley também passou a abrigar partidas de futebol gaélico (muito popular na Irlanda) e também de hurling, de origem celta e semelhante ao hóquei. No começo dos anos 1960, o estádio recebeu uma imponente cobertura feita em alumínio e vidro translúcido em todas as arquibancadas, além de placar eletrônico, melhorias que já visavam a Copa do Mundo de 1966, realizada no país pela primeira vez. E foi em Wembley que a Inglaterra venceu sua primeira e única Copa ao derrotar a Alemanha por 4 a 2 em uma das mais polêmicas decisões da história, na qual Geoff Hurst fez o famoso “gol fantasma”, bola que não cruzou totalmente a linha e gera discussões até hoje. Leia mais clicando aqui!

 

A foto acima é uma das mais famosas e lendárias da história do futebol: Moore, a Jules Rimet aos céus, e o English Team campeão do mundo em 1966. Foto: Getty Images.

 

Polêmicas à parte, o estádio presenteou o torneio com imagens marcantes e a consagração de grandes craques do esporte com aquele título, entre eles Gordon Banks, Bobby Charlton e o lendário Bobby Moore, capitão do English Team e que já havia brilhado naquele estádio vestindo a camisa do grande West Ham daqueles anos.

 

Para sentir o futebol. E a música também

Nos anos seguintes, Wembley ganhou um status único de lar do futebol, o grande reduto do esporte mais popular do mundo. Para alimentar ainda mais essa fama, a Catedral do Futebol ganhava todo dia cuidados muito especiais com seu gramado. Ele era aparado diariamente com perfeição milimétrica: nem mais, nem menos do que 18 milímetros de altura. No interior do estádio, os torcedores tinham restaurantes, bares e uma decoração que inspirava a paixão pelo futebol. Seu ar exterior parecendo com o de um castelo transformava uma simples partida em um acontecimento. Não por acaso, o estádio foi sede de cinco finais de Liga dos Campeões da UEFA. A primeira aconteceu em 1963, quando o Milan de Nereo Rocco venceu o Benfica de Coluna. Em 1968, foi a vez do Manchester United de Best, Law e Charlton derrotar o Benfica. Em 1971, o Ajax de Cruyff e Rinus Michels venceu ali sua primeira taça europeia sobre o Panathinaikos-GRE. Em 1978, o Liverpool faturou seu segundo título na decisão contra o Club Brugge-BEL. E, em 1992, Barcelona e Sampdoria-ITA fizeram a última final do antigo Wembley, com triunfo dos catalães. Além disso, o estádio sediou a final da Recopa da UEFA de 1965, entre West Ham e 1860 Munich, e de 1993, entre Parma-ITA e Royal Antwerp-BEL.

Cesare Maldini (à esq.) e Mário Coluna antes da final europeia de 1963.

 

Matt Busby e Bobby Charlton após o título europeu do United em 1968. Foto: Getty Images

 

Festa em Wembley no primeiro título europeu do Ajax, em 1971.

 

Em 1972, Wembley virou pela primeira vez um reduto musical de grande porte. Foi realizado no local o The London Rock and Roll Show, com a presença de nomes como Bo Diddley, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Bill Haley & His Comets, Chuck Berry entre outros. Foi o início da transformação do estádio em um dos mais icônicos “palcos” do planeta. Por sua amplitude, o grande gramado e as pistas que o envolviam, ele podia receber uma quantidade absurda de público. E a vista do palco era simplesmente impressionante, talvez a mais bela e fotogênica da história. A comprovação veio na década de 1980, quando o Live Aid, um dos maiores festivais de música de todos os tempos, foi realizado no estádio e atraiu mais de 70 mil pessoas espalhadas pelas arquibancadas e pelo gramado. O show arrecadou mais de 100 milhões de libras em prol do combate à fome na Etiópia e foi um sucesso mundial. Entre os shows, destaque para o do Queen, que fez uma performance inesquecível que ganhou destaque no aclamado filme “Bohemian Rhapsody”. Um ano depois do evento, em 1986, o mesmo Queen fez shows históricos pela “The Magic Tour”.

 

Queen e Wembley: momento ímpar da música. Foto: Neal Preston.

 

Multidão em um dos shows de Michael Jackson em Wembley.

 

Wembley também abrigou shows memoráveis de artistas como Madonna, The Who, Tina Turner, David Bowie, Genesis, Johnny Cash, The Bee Gees, Elton John, Spice Girls, Oasis, The Rolling Stones, U2, Eagles, Bon Jovi entre outros. E um destaque maior fica por conta de Michael Jackson, que foi o artista com mais apresentações na história do estádio: foram 15 shows e mais de 1,1 milhão de ingressos vendidos! Em cada um de seus sete shows da “Bad World Tour” em 1988, por exemplo, o “Rei do Pop” levou mais de 72 mil pessoas em cada um e estabeleceu um recorde que entrou no Guinness Book com 504 mil ingressos vendidos. O Rei ainda ganhou uma homenagem da organização do estádio após a conquista. Na época, inclusive, até a Princesa Diana e o Príncipe Charles assistiram a performance do astro.

 

Mais (!) esportes e a Euro de 1996

Muhammad Ali, em 1963.

 

Além da música, do rúgbi, das corridas de cachorros, das corridas de motos, do hurling, do futebol gaélico e do futebol, Wembley ainda tinha espaço para mais eventos e esportes! Em 1951, partidas de hóquei feminino foram realizadas anualmente até 1969, e depois entre 1971 e 1991. Em 1963, o lendário pugilista Muhammad Ali enfrentou o inglês Henry Cooper em um combate visto por 55 mil pessoas. O estadunidense venceu após cinco rounds. Em 1974, uma surreal corrida de Stock Car aconteceu em evento promovido por Trevor Redmond. Por causa do risco de danificar os arredores do gramado, as corridas só aconteceram duas vezes e ainda sim ocasionaram alguns prejuízos ao estádio. Um ano depois, o motociclista e artista performático estadunidense Evel Knievel, que protagonizava saltos insanos com sua moto, tentou, diante de 90 mil pessoas, saltar por cima de 13 ônibus enfileirados após descer uma enorme rampa. Ele até conseguiu, mas, na aterrissagem, Knievel se acidentou e quebrou a pélvis… Ele afirmou na época que jamais saltaria novamente, mas mudou de ideia meses depois.

Veja o salto:

 

Knievel salta…

 

… Mas a aterrissagem não foi tão boa…

 

O Papa João Paulo II, em 1982.

 

O estádio antes de uma final de FA Cup, em 1995.

 

Times de Futebol Americano também utilizaram o estádio em partidas de pré-temporada entre 1983 e 1993. E, em 1992, o SummerSlam de luta livre da WWF foi realizado no estádio e atraiu mais de 80 mil pessoas. Em 1996, o estádio voltou a abrigar uma grande competição futebolística com a realização da Eurocopa. O estádio foi palco das partidas da Inglaterra na fase de grupos, nas quartas de final e também na semifinal, quando o English Team de Paul Gascoigne acabou eliminado pela Alemanha nos pênaltis após empate em 1 a 1 no tempo normal. A decisão, também em Wembley, terminou com vitória dos alemães por 2 a 1 sobre a República Checa, decidida com o primeiro Gol de Ouro em uma competição internacional na história, anotado por Bierhoff.

Gascoigne e a comemoração emblemática em Wembley, na Euro de 1996.

 

 

O adeus em prol da modernidade

Banks e Pelé, no adeus ao estádio.

 

Em 1996, após algumas reformas para a Eurocopa, já se comentava sobre uma profunda reestruturação do estádio. Os primeiros projetos previam uma ampla mudança interna, mas com a preservação da fachada e suas torres. No entanto, no final da década, ficou decidido que Wembley seria demolido para dar lugar a um estádio totalmente novo, moderno, com o que de mais avançado existia no planeta. Óbvio que uma chuva de críticas sobre tal “crime” começaram a surgir, mas de nada adiantou. O último jogo oficial foi uma simbólica vitória da Alemanha sobre a Inglaterra por 1 a 0, em outubro de 2000, pelas Eliminatórias da Copa de 2002. O gol foi marcado por Dietmar Hamann. E, no mesmo ano, um evento especial marcou a despedida do velho Wembley. Na ocasião, Pelé, que curiosamente jamais havia jogado ali, cobrou um pênalti com Gordon Banks no gol. E o Rei, enfim, marcou um gol no lendário goleiro inglês, empatando o “duelo” iniciado lá na Copa de 1970, quando o camisa 1 fez a aclamada “defesa do século”.

Com um gol do maior jogador de todos os tempos em cima de um dos maiores goleiros de todos os tempos, Wembley ganhava uma despedida digna. Dava adeus da maneira como o mundo lhe conheceu com uma aura mística, sublime, única. E uma contribuição indelével ao futebol mundial. Foi triste ver aquele monumento ir embora, assim como foi triste ver a mudança drástica pela qual passou outro templo do futebol, o Maracanã. Mas o resultado final iria trazer muitos benefícios para a cidade e para todos.

O estádio já em ruínas, em 2003.

 

A demolição do estádio começou em setembro de 2002, dando início a um projeto desenhado pelos escritórios Populus e Foster and Partners e orçado em mais de US$ 1 bilhão. A ideia era construir um estádio com todos os lugares cobertos e capacidade para 90 mil pessoas, teto removível, centenas de bares e lanchonetes e um imponente arco com 315 metros de diâmetro e altura máxima de 133 metros, capaz de produzir shows de luzes com suas 228 lâmpadas de LED e fogos de artifício, além de ser o novo marco do estádio. Foram consumidos mais de 90 mil metros cúbicos de concreto, 23 mil toneladas de aço, escavações de mais de 35 metros de profundidade e cerca de 3500 trabalhadores participaram de sua construção, que começou em 2002 e terminou em 2007 após superar problemas políticos e financeiros, reformular a estação de Wembley Park – que passou a comportar a passagem de 40 mil pessoas por hora – e todo o entorno do estádio. Moderno e um símbolo do século XXI, Wembley manteve o ar nostálgico principalmente com estátuas erguidas em sua volta, pôsteres, quadros, tours personalizados e referências a grandes momentos vividos pelo antigo Wembley.

O grande arco de Wembley virou seu mais imponente símbolo, visto de vários pontos da cidade.

 

Vista aérea do novo Wembley.

 

Interior do estádio.

 

Icônica estátua de Bobby Moore na entrada de Wembley.

 

Grande parte das ruínas do antigo Wembley foram utilizadas na construção do Parque Northala Fields, aberto em 2008 e a apenas 20 minutos do estádio. Após partidas festivas, o estádio recebeu seu primeiro jogo oficial no dia 24 de março de 2007, no empate em 3 a 3 entre as seleções Sub-21 de Itália e Inglaterra, visto por quase 60 mil pessoas. O italiano Giampaolo Pazzini marcou o primeiro gol do novo Wembley, com apenas 28 segundos de jogo, além de ter feito o primeiro hat-trick do estádio.

O parque Northala Fields foi construído com as ruínas de Wembley.

 

Como esperado, Wembley virou o reduto das partidas da Inglaterra e o Tottenham Hotspur também passou a mandar seus jogos no estádio a partir de 2017. Além disso, o estádio abriga as finais das Copas nacionais e diversas partidas decisivas, além de duelos de rúgbi, a final da Challenge Cup e da NFL London Games e duelos de boxe. Em 2011, o estádio voltou a abrigar uma final de Liga dos Campeões da UEFA, dessa vez entre o Barcelona de Guardiola e o Manchester United, com vitória histórica dos catalães por 3 a 1. Em 2013, uma “invasão alemã” tomou conta de Londres na final europeia entre Bayern München e Borussia Dortmund, com vitória do time de Munique por 2 a 1.

Final da Copa da Inglaterra de 2008 registrou maior público em uma partida do novo Wembley: quase 90 mil pessoas.

 

Manchester e Barça fizeram uma final europeia histórica em 2011. Foto: Getty Imagens.

 

Wembley assumiu o protagonismo, também, nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, ao sediar as finais do futebol masculino e feminino daquele ano. O estádio sediará, também, as semifinais e a final da Eurocopa de 2020.

Wembley como uma das sedes olímpicas de 2012.

 

Na área de entretenimento, Wembley continua com sua vocação para grandes shows e já foi palco de apresentações de artistas como George Michael (primeiro a se apresentar no novo estádio, em 2007), Metallica, The Killers, Coldplay, Madonna, AC/DC, Rihanna, Adele (recordista do novo estádio com 98 mil pessoas em seu show de 2017) entre outros.

 

Referência mundial

Final da Challenge Cup de Rúgbi de 2014, em Wembley.

 

O estádio de Wembley é uma das maiores obras da Inglaterra e um exemplo de tecnologia. Totalmente conectado, com modernos sistemas de segurança, monitoramento e um serviço de internet formidável. Ele não possui mais o ar nostálgico de décadas passadas, mas seu nome e imponência seguem intactos. Com duas Olimpíadas, uma Copa do Mundo, uma Eurocopa e várias decisões épicas no currículo, Wembley é um ícone das várias épocas do esporte e da cultura mundial. E, assim como esse mundo em constante mutação, também se renovou para continuar atual e pronto para tudo e todos. Assim como há quase um século atrás.

Você sabia que Wembley é um dos 20 maiores estádios do mundo? Confira a lista completa clicando aqui.

 

Curiosidades:

  • O Liverpool foi o time que mais levantou troféus em Wembley: 17 conquistas em quatro competições diferentes;

 

  • Tony Adams, ídolo do Arsenal, foi o jogador com mais partidas na história do velho Wembley: 60 jogos;

 

  • Em novembro de 2000, pouco antes da demolição do antigo Wembley, Pelé lamentou jamais ter jogado no estádio. “Há coisas na minha vida que não têm muita explicação, e essa é uma delas”, disse o Rei em entrevista à BBC. E pensar que ele quase jogou por lá em 1963, quando o técnico do Brasil, Aymoré Moreira, convocou quase todo o time do super Santos da época para tentar derrotar a Inglaterra em Wembley. No entanto, o Rei sofreu um acidente automobilístico e foi substituído por Amarildo. E o Brasil acabou empatando em 1 a 1;

 

  • Wembley entrou para o Guinness Book, o livro dos recordes, por sediar o maior show de tributo a um artista em todos os tempos: foi em 1992, em homenagem a Freddie Mercury, para um público de 72 mil pessoas;

 

  • O novo Wembley foi o primeiro estádio de grande porte do mundo com todos os assentos cobertos. O teto removível do estádio tem uma área de 40 mil m²;

 

  • Ir ao banheiro é a coisa mais tranquila para os torcedores em Wembley. São 2618 sanitários no estádio, mais do que qualquer outro no planeta;

 

  • A circunferência de Wembley mede 1 km;

 

  • Aproximadamente 56 km de cabos de energia conectam Wembley de todas as formas e jeitos;

 

  • Cerca de 4 mil pilares formam a fundação do estádio. A mais profunda delas tem 35 m;

 

  • A melhor maneira de se chegar em Wembley é de transporte público. São duas estações de metrô próximas, uma de trem e oito linhas de ônibus;

 

  • Em maio de 2015, uma bomba de 50 quilos supostamente lançada pela Alemanha nazista durante a II Guerra Mundial foi encontrada a 200 metros do estádio pelo exército britânico. Ela estava em um canteiro de obras e foi levada a um local não divulgado para ser desarmada em segurança;

 

  • No mesmo ano de 2015, um britânico de 24 anos escalou e caminhou pelo arco de 133 metros de Wembley;
O jovem que escalou o grande arco de Wembley, em 2015. Foto: APTN.

 

  • Em 2018, o dono do Fulham, Shahid Kahn, fez uma proposta milionária para comprar Wembley. Ele ofereceu cerca de 800 milhões de libras pelo estádio, mas a proposta foi retirada por ele mesmo após a falta de consenso entre acionistas e a própria FA;

 

  • Wembley possui categoria quatro estrelas da UEFA, a máxima concedida pela entidade aos estádios da Europa.


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