Esquadrão Imortal – São Paulo 1943-1949

O São Paulo de 1949. Em pé: Ruy, Savério, Mauro Ramos, Mário, Bauer e Noronha. Agachados: Friaça, Ponce de León, Leônidas, Remo e Teixeirinha.

 

Grandes feitos: Pentacampeão do Campeonato Paulista (1943, 1945, 1946 – invicto, 1948 e 1949) e Tetracampeão da Taça dos Campeões Estaduais Rio-SP (1943, 1945, 1946 e 1948). Consolidou o São Paulo como um dos maiores clubes do Brasil.

Time-base: Gijo (King / Mário / Poy); Piolim (Savério) e Renganeschi (Virgílio / Mauro Ramos); Ruy (Zarzur), Bauer (Zezé Procópio) e Noronha; Luizinho (Barrios / China / Friaça), Sastre (Lelé / Ponce de León), Leônidas da Silva, Remo e Teixeirinha (Pardal). Técnicos: Jorge de Lima “Joreca” (1943-1947) e Vicente Feola (1947-1949).

 

“Rolo Compressor Tricolor”

Após um início promissor nos anos 1930, com títulos e fama repentina, o São Paulo quase sumiu para sempre. Mas ressurgiu. No entanto, o recomeço foi árduo. Nada de títulos. Não era nem uma caricatura do clube que fora um dia. Mero coadjuvante, o tricolor não figurava na lista dos favoritos ao título paulista, restrito apenas a Corinthians e ao ainda denominado Palestra Itália. Já em 1943, em uma reunião na Federação Paulista de Futebol, os dirigentes discutiam sobre o campeonato daquele ano e surgiu a previsão sobre quem seria o campeão: Corinthians ou Palmeiras – já com esse nome. E os presidentes “decidiram” na moeda: se desse cara, seria o Corinthians. Coroa, o Palmeiras. Um dirigente tricolor contestou: “e o São Paulo?”. Com aquele olhar de desdém, os rivais responderam: “só se a moeda cair em pé”. Pois bem. O ano seguiu e o São Paulo causou o “fenômeno”. A moeda caiu em pé. Assim como caiu em 1945. Em 1946. Em 1948. Em 1949. Cinco títulos. A maior hegemonia da década. Nunca na história um cara e coroa foi tão imprevisível. Ninguém garantia que a moedinha poderia cair deitada. Nunca ela fora tão arisca. Como foi arisco aquele time tricolor, que fez festas históricas no recém-inaugurado Pacaembu. Que trouxe Leônidas da Silva, maior craque brasileiro da época, e abarrotou o estádio com mais de 70 mil pessoas em seu debute. Que bateu de frente contra tudo e todos. Que deu shows e aplicou goleadas na base do talento, velocidade e dribles de Luizinho, Teixeirinha, Sastre, Remo e Friaça. Que teve talvez a mais famosa linha média da história do futebol brasileiro com Ruy, Bauer e Noronha, gigantescos, donos do meio de campo, da retaguarda. E que revelou um futuro campeão mundial: o inesquecível Mauro Ramos de Oliveira. Isso sem contar os goleiros Gijo, King e o lendário Poy. Foi um dos melhores e mais vencedores esquadrões do São Paulo em todos os tempos, devastador, como um Rolo Compressor. E que catapultou de vez o clube ao rol dos gigantes do futebol brasileiro. É hora de relembrar.

 

Hora de recomeçar

O primeiro São Paulo, de 1930.

 

Se tem um clube com um início de história bem peculiar e conturbado, ele se chama São Paulo. Tudo começou em janeiro de 1930, quando ex-jogadores e simpatizantes da Associação Atlética das Palmeiras e do Club Athletico Paulistano se uniram para formar o conhecido São Paulo da Floresta, que tinha esse nome por jogar no antigo campo da AA das Palmeiras, a Chácara da Floresta. Já em 1931, o clube conquistou o Campeonato Paulista no embalo do craque Friedenreich, mito do futebol, e dava mostras de que tinha um grande futuro. Foi também vice-campeão estadual em 1930, 1932, 1933 e 1934. Mas a diretoria tricolor começou a bater cabeça rapidamente. Primeiro, comprou um luxuoso palacete como nova sede na Rua Conselheiro Crispiniano, o Trocadero. Isso gerou uma dívida de 190 contos de réis, uma fortuna na época, que forçou a negociação do campo da Floresta e uma fusão com o Clube de Regatas Tietê, que acabou momentaneamente com o futebol do clube.

Acontece que muitos conselheiros e membros eram contra essa fusão e a extinção do departamento de futebol. Alguns foram até à Justiça para impedir tal consumação. Mas nada dava certo. Outros membros fundaram o Independente Esporte Clube – que durou poucos meses – e vários jogadores foram jogar no Rio de Janeiro. Até que, em junho de 1935, foi fundado o Clube Atlético São Paulo, dirigido pelo tenente Porfírio da Paz. E, em dezembro de 1935, nasceu em definitivo o São Paulo Futebol Clube, com as mesmas cores, uniformes e escudo do “antigo” São Paulo. Porfírio da Paz e Manoel Carlos Mecca (primeiro presidente do clube) saíram rapidamente à procura de jogadores na capital e também no Paraná. Após algumas contratações – entre elas o imponente goleiro King -, o São Paulo fez dois jogos treinos e venceu ambos: 7 a 3 sobre o Paulista e 3 a 2 sobre o Palestra. Em 25 de janeiro de 1936, o clube planejou seu primeiro jogo oficial, contra a Portuguesa Santista, justamente no aniversário da cidade de São Paulo. Por causa disso, horas antes do jogo, a Secretaria da Educação (!) proibiu a partida devido ao desfile militar que iria ocorrer em prol das festividades. Porfírio da Paz, revoltado, foi até a Avenida Paulista, local do desfile. Ele subiu ao palanque e exigiu do secretário, Cantídio Sampaio, a liberação. Após muita conversa, a partida foi realizada e o tricolor venceu a Briosa por 3 a 2.

Os campeões de 1931.

 

Naquele ano, o time ficou em nono lugar no Paulista e ainda enfrentava dificuldades financeiras com poucos sócios, sem campo oficial e a concentração dividida: metade dos jogadores ficava em uma torre da Igreja da Consolação e a outra na casa do presidente do clube. Tantos empecilhos criaram o bordão “clube da fé” ao tricolor, pois todos viam que só com fé ele poderia algum dia brigar de igual para igual com os gigantes da capital Corinthians e Palestra. Em 1938, o clube encontrou no estádio Antônio Alonso uma oportunidade para ter, enfim, uma casa. Para isso, os tricolores propuseram uma fusão com o dono do estádio, o Clube Atlético Estudantes Paulista, que caíra em um golpe de um empresário e quase foi à falência. O clube aceitou, e o São Paulo conseguiu um campo. Com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, outro alento: todos os clubes de origem alemã foram obrigados a trocar de nome. E no Canindé havia um que só praticava ginástica, o Deutsch Sportive. O tricolor comprou o clube por um valor bem abaixo do mercado e permitiu aos sócios continuar frequentando a sede do Canindé. Enfim, o São Paulo tinha um lugar para treinar. Com mais boas notícias do que más, tudo começava a prosperar no tricolor. Até tudo mudar de vez em 1942.

 

A chegada do craque

A chegada do “Bonde” em São Paulo: 10 mil pessoas celebram Leônidas.

 

Em 1940, a cidade de São Paulo ganhou um novo estádio: o Pacaembu, inaugurado em abril daquele ano e capaz de receber até 70 mil pessoas. O estádio era o maior do Brasil na época e considerado também o mais moderno de toda a América Latina. O charmoso estádio, bem localizado e de fácil acesso, iria simbolizar uma nova era ao futebol paulista. Na inauguração, aconteceu um desfile com as delegações de equipes de São Paulo. Na época, eram proibidas ostentações de bandeiras estaduais. Mas, quando entrou a delegação do São Paulo, o estádio ovacionou o clube justamente por possuir o mesmo nome e cores do estado. Somando o fato de que os paulistanos não aprovavam o governo do presidente Getúlio Vargas, foi um claro contragolpe à represália da época. E que fez nascer outro apelido ao tricolor: O Mais Querido, criado pelo jornal “A Gazeta Esportiva”, que em sua manchete do dia seguinte publicou: “O Clube Mais Querido da Cidade”.

Embalado com aquela nova era, apto a jogar no estádio após um acordo com a prefeitura e com uma das primeiras torcidas uniformizadas do país – a TUSP, Torcida Uniformizada do São Paulo, que muitos dizem ter sido a primeira do Brasil – e com a fama crescendo cada vez mais, o São Paulo precisava transformar tudo aquilo em títulos. Mas ainda era uma tarefa difícil. Embora tenha vencido o Torneio Início do Campeonato Paulista em 1940, a grande vedete do tricolor era o torneio estadual. Em 1941, o time quase faturou o caneco, mas ficou com o vice. Foi então que, em 1942, a diretoria tricolor foi buscar no Flamengo um craque incontestável: Leônidas da Silva, maior jogador do país desde Friedenreich e grande destaque brasileiro na Copa do Mundo de 1938. Mesmo com tanto talento e um futebol primoroso, houve um grande questionamento por causa do alto valor pago pelo clube: 200 contos de réis, a contratação mais cara da história do futebol brasileiro na época e que muitos pensaram que era uma tremenda mentira pelo fato de o anúncio ter sido feito num dia 1º de abril.

Nove dias depois, o “Bonde de 200 contos” (apelido que Leônidas ganhou por causa do valor de sua contratação) chegou à Estação do Norte, no Brás, em São Paulo, e foi recebido por cerca de 10 mil pessoas que o levaram até o centro de treinamento do tricolor, no Centro, em profundo êxtase. A chegada do craque em solo paulista foi algo incrível na época pelo fato de se tratar do maior jogador brasileiro e a maior estrela do futebol nacional. Mesmo assim, muitos duvidavam que Leônidas, já com 29 anos, pudesse render alguma coisa no São Paulo. Pobres ingênuos…

A estreia de Leônidas da Silva pelo São Paulo aconteceu em 24 de maio de 1942, no Pacaembu, em um clássico contra o Corinthians. O entusiasmo do público para ver o astro foi tão grande que o estádio paulistano recebeu naquele dia o seu maior público da história: 71.280 pessoas. A partida terminou empatada em 3 a 3 e Leônidas não deixou sua marca, mas valeu pela intensidade do jogo e pela presença do craque em campo. Depois da partida, Leônidas superou a desconfiança de todos e virou a estrela máxima do São Paulo até o final dos anos 40. Graças ao “Diamante Negro”, o tricolor deixou de ser apenas mais um clube no estado para virar uma força dentro dele e em todo Brasil.

No São Paulo, Leônidas fez uma grande parceria com o argentino Sastre (à esq.).

 

Além dele, o time trouxe Zezé Procópio, Noronha, Ruy e Zarzur. Outro que desembarcou no tricolor, mas em 1943, foi o argentino Sastre, lenda do Independiente dos anos 30, que teve Arsenio Erico, que ganhou o apelido de “DeSastre” dos rivais por causa da idade – 32 anos. Mas tanto ele quanto Leônidas iriam destruir todas as desconfianças rapidamente. O time foi 3º colocado no Paulista de 1942 e teve o segundo melhor ataque com 77 gols em apenas 20 jogos – só atrás do Corinthians, vice-campeão, com 78. Era a primeira mostra do que aquele time iria aprontar no futebol paulista. Na ponta-direita, Luizinho era um virtuose no setor, com velocidade, muitos gols e habilidade. E, na esquerda, o ataque era ainda mais devastador com Remo e Pardal e também Teixeirinha.

 

A moeda caiu em pé!

Em 1943, em uma reunião na sede da Federação Paulista de Futebol que definiria o calendário do Campeonato Paulista daquele ano, entre as conversas de dirigentes e membros, surgiu a história já contada no início deste texto, sobre quem seria o campeão. Desde 1937 que ou Corinthians ou Palmeiras levantava a taça. Por isso, surgiu a frase de que a disputa parecia “cara ou coroa”. Só se ela caísse em pé daria tricolor. Se parasse no ar, a Portuguesa venceria – ainda sem o status que possui na capital, o Santos não foi mencionado na época. Algumas fontes dizem que o dirigente tricolor que contestou sobre o campeão foi Frederico Menzen, presidente do clube entre 1936 e 1937. Outras citam Décio Pedroso, presidente na época. Mas o fato é que aquele desdém provocou o São Paulo, que iniciou em março, com uma goleada de 4 a 1 sobre o Comercial, a caminhada na competição para provar que ele podia, sim, ser campeão.

Com uma ótima base, o reforço de Sastre e comandado por Jorge de Lima, o Joreca, o time tricolor fez um primeiro turno sem grandes sustos. Após o triunfo sobre o Comercial, a equipe tropeçou no Ypiranga (2 a 1), mas venceu o São Paulo Railway (5 a 1), o Jabaquara (4 a 2), empatou com a Portuguesa (1 a 1), perdeu para o Corinthians (2 a 1), empatou com o Juventus (1 a 1), goleou o Santos (6 a 1), a Portuguesa Santista (8 a 1) e derrotou o Palmeiras por 2 a 1.

No returno, a equipe não perdeu mais e emendou nove vitórias seguidas: 2 a 1 no São Paulo Railway, 2 a 1 no Comercial, 3 a 2 no Jabaquara, 2 a 1 no Ypiranga, 3 a 0 na Portuguesa, 9 a 0 na Portuguesa Santista – com seis gols de Sastre, feito que fez dele o jogador que marcou mais gols em um só jogo com a camisa do São Paulo na história -, 3 a 2 no Juventus, 2 a 0 no Corinthians e 4 a 1 no Santos. Na última rodada, bastava um empate contra o Palmeiras, no dia 03 de outubro de 1943, para a equipe vencer o sonhado título paulista. E foi exatamente isso que aconteceu. Mais comedido e protegendo sua zaga, a equipe não atacou como de costume e segurou o 0 a 0 em um Pacaembu com mais de 42 mil pessoas. O jogo foi dramático muito por causa da entrada que Sastre levou de um rival alviverde que fez com que o argentino só cumprisse número durante todo o segundo tempo – ele fez questão de ficar em campo, contrariando os médicos e em uma época na qual as substituições ainda eram proibidas.

A equipe na partida contra o Palmeiras, em 1943.

 

Fotos: Arquivo Histórico do São Paulo FC.

 

No time campeão de 1943, força vinha da direita, com as jogadas de Luizinho e, claro, o talento de Leônidas e Sastre.

 

O resultado sacramentou o título histórico do São Paulo em 1943. Foram 20 jogos, 15 vitórias, três empates, duas derrotas, 63 gols marcados e 21 sofridos. Leônidas foi o artilheiro do time com 15 gols, seguido de Sastre, com 13, e Luizinho, com 12. Na comemoração, milhares de torcedores saíram pelas ruas da cidade e, no dia seguinte, o grêmio são-paulino criou um carro alegórico com uma moeda em pé gigante, simbolizando a famosa história, que curiosamente ainda não era tão conhecida. Só a partir daquela passeata e das reportagens dos jornais “A Gazeta Esportiva” e “O Esporte” que tudo se popularizou, presenteando o futebol brasileiro com mais uma história curiosa e emblemática.

 

Máquina de gols e a conclusão da linha média

 

Ainda em outubro de 1943, o São Paulo venceu o Torneio dos Campeões Estaduais Rio-SP, uma espécie de tira-teima para ver quem era o maior time do principal eixo futebolístico do país na época. Na decisão, a equipe enfrentou o Flamengo, campeão carioca, e goleou por 3 a 0, gols de Remo, Pardal e Luizinho. No ano seguinte, o time não conseguiu manter a coroa e foi vice-campeão com três pontos a menos do que o Palmeiras, mas registrou o melhor ataque da competição com 69 gols em apenas 20 jogos, uma média de 3,45 gols por jogo! Isso se deve, claro, ao ataque estupendo do tricolor. Luizinho, Leônidas, Sastre, Remo e Teixeirinha estavam impossíveis naquele ano. Aliás, Luizinho foi o artilheiro daquele campeonato com 22 gols muito graças às suas artimanhas pré-jogo. O jogador, além de ser talentoso e perigosíssimo no ataque, alertava os zagueiros rivais sobre o perigo que Leônidas representava. Com isso, a marcação sempre era focada no Diamante Negro, abrindo várias lacunas para o ponta-direita fazer a festa! Entre as goleadas do tricolor, destaque para o histórico 9 a 1 pra cima do Santos, a maior goleada da história do clássico San-São. E por falar no clássico, naquele mesmo dia dos 9 a 1, em 18 de junho de 1944, o São Paulo aplicou 14 a 0 na partida preliminar disputada no mesmo Pacaembu, pelos aspirantes. Isso mesmo: o São Paulo fez 23 gols no Santos em um só dia! Algo simplesmente inesquecível para qualquer torcedor. Vale lembrar que o São Paulo ficou de dezembro de 1940 até setembro de 1948 sem perder para o Santos. Foram 21 jogos, com 17 vitórias e quatro empates, a maior série invicta da história do duelo.

Manchete de jornal da época mostra o dia do show tricolor pra cima do Santos. Foto: Arquivo Histórico do São Paulo FC.

 

Mas não foi apenas o Santos que sofreu com o ataque devastador do tricolor naquele ano de 1944. A equipe ainda goleou o São Paulo Railway (8 a 2 e 6 a 1), o Jabaquara (6 a 2), a Portuguesa Santista (7 a 4), o Comercial (5 a 2) e o Corinthians (4 a 0, com três gols de Pardal e um de Luizinho).

No final de 1944, o São Paulo promoveu à equipe principal um jogador que iria transformar aquele esquadrão que já era bom em algo sublime: Bauer, um volante técnico, que jogava de cabeça erguida e que iria fechar a linha média mais famosa da história do clube e, talvez, do futebol brasileiro, ao lado de Ruy e Noronha. O entrosamento dos três no meio de campo, na proteção ao setor defensivo e no apoio ao ataque era algo impressionante. Eles se entendiam tão bem que alternavam as posições dependendo do jogo. Ruy podia ir para o meio, Bauer para a direita e Noronha para a esquerda. E vice-versa. Ruy era o cerebral, que orientava o time, dava passes precisos, a referência naquele setor e que podia atuar como quarto-zagueiro. Noronha era a vitalidade, marcador que não desgrudava do adversário e com um fôlego privilegiado. Era também o xerife, que não hesitava em dar broncas nos companheiros, até mesmo em Leônidas. Já Bauer era categoria pura, passes impecáveis, que ganharia anos depois o singelo apelido de “Monstro do Maracanã” vestindo a camisa da seleção brasileira.

Ruy, Bauer e Noronha: a linha média mais famosa da história do São Paulo.

 

Com esse trio, King no gol, Piolim, Virgílio e Renganeschi como opções para a zaga, e Luizinho, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha no ataque, não havia dúvidas: aquele São Paulo tinha todo o favoritismo ao título paulista de 1945. Era ver para crer. E aplaudir.

 

O Rolo Compressor bicampeão

Luizinho, Sastre, o técnico Joreca, Bauer e Noronha. Foto: Arquivo Histórico do São Paulo FC.

 

A campanha tricolor em 1945 começou com cinco vitórias: 6 a 2 no Jabaquara, 3 a 1 no Ypiranga, 1 a 0 no Palmeiras, 4 a 1 no Juventus e 3 a 2 no Corinthians. Após empate em 1 a 1 com o Santos, a equipe emendou mais sete vitórias, incluindo um histórico 12 a 1 no Jabaquara, maior goleada da história do clube, com direito a quatro gols de Leônidas, quatro de Remo, três de Teixeirinha e um de Barrios. Foi o legítimo “vira seis, acaba doze”, pois a primeira etapa terminou 6 a 0. Aquela foi, também, a maior goleada da história do Pacaembu e do Campeonato Paulista. Já perto da reta final, o time só perdeu para o Timão (2 a 1), goleou o Santos (4 a 0), venceu a Portuguesa e o Comercial, ambos por 2 a 1, e derrotou o Ypiranga por 3 a 2 na antepenúltima rodada, resultado que coroou o time como campeão paulista com duas rodadas de antecipação.

Cumprindo tabela, o tricolor empatou com o Palmeiras (1 a 1) e goleou a Portuguesa Santista por 5 a 1. A equipe venceu 17, empatou dois e perdeu apenas um dos 20 jogos. Os comandados de Joreca tiveram o melhor ataque com 70 gols (estrondosa média de 3,5 gols por jogo) e sofreram apenas 20. Leônidas, com 16 gols, foi mais uma vez artilheiro do time na competição. Em seguida, vieram Teixeirinha, com 13, além de Sastre e o paraguaio Barrios (que chegou no começo de 1944, após passagem pelo Boca Juniors-ARG), ambos com 10 gols. Era visível o crescimento daquele esquadrão, que tinha como ponto forte o jogo coletivo, a troca de passes precisa, a movimentação constante de seus jogadores e um físico notável de seus atletas.

Uma das formações do time de 1945. Em pé: Piolim, Virgílio, Ruy, Bauer, Noronha e Gijo. Agachados: Barrios, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha.

 

Mas o auge daquele timaço aconteceu em 1946. Logo no dia 1º de janeiro, em um amistoso, o São Paulo aplicou 5 a 1 no Corinthians, e, em março, fez 3 a 2 no rival. Era um prenúncio do que estava por vir. No Paulistão, com a mesma base campeã do ano anterior, o time emendou seis vitórias seguidas: 4 a 0 no Jabaquara, 5 a 2 na Portuguesa Santista, 3 a 1 no São Paulo Railway, 4 a 3 no Ypiranga, 7 a 3 no Juventus e 2 a 1 no Corinthians. Após empatar em 1 a 1 com a Portuguesa, o tricolor venceu o Comercial por 6 a 2, bateu o Santos por 3 a 2, empatou em 1 a 1 com o Palmeiras e venceu mais sete jogos seguidos: 2 a 0 na Portuguesa Santista, 4 a 2 no Comercial, 1 a 0 no Ypiranga, 2 a 0 no Santos, 4 a 0 no Jabaquara, 2 a 0 no São Paulo Railway e 2 a 1 no Corinthians (a quarta vitória seguida sobre o rival no ano).

Os invictos de 1946: auge dos comandados de Joreca se deu com a plenitude do trio Ruy, Bauer e Noronha, que até alternava de posições, e a força do ataque.

 

Após empatar em 1 a 1 com a Portuguesa e massacrar o Juventus por 7 a 0, o tricolor foi para a última rodada brigar pelo título invicto contra o Palmeiras. E o jogo, como não poderia deixar de ser, foi tenso. Mais de 40 mil pessoas viram um duelo disputado, com chances para ambos os lados e nervos à flor da pele. No segundo tempo, Luizinho e Remo foram expulsos, bem como Og e Villadoniga, do Palmeiras, após ambos trocarem sopapos por causa de uma entrada de Luizinho no goleiro Oberdan. Naquela confusão, Renganeschi sofreu uma pancada e se lesionou. Como não eram permitidas substituições, ele foi deslocado para a ponta-esquerda só para fazer número. Mas o defensor fez mais do que isso. Aos 38’, Bauer cruzou para a área, a bola bateu no travessão e, na sobra, Renganeschi apareceu de surpresa para encostar na redonda e empurrá-la para dentro do gol: 1 a 0. O São Paulo era bicampeão paulista. E campeão invicto de 1946 com 17 vitórias e três empates em 20 jogos. Foram 62 gols marcados (melhor ataque) e 20 sofridos (melhor defesa). Incríveis 92,5% de aproveitamento. Teixeirinha, com 14 gols, foi o artilheiro do time, seguido de Leônidas, com 12, e Luizinho e Remo, com 10 cada.

Renganeschi marca o gol do título invicto de 1946. Foto: Arquivo Histórico do São Paulo FC.

 

Além do troféu estadual, o time ainda levou a cobiçada Taça dos Invictos, entregue pelo jornal “A Gazeta Esportiva” na época ao time que superasse 22 jogos sem derrota. O tricolor atingiu a marca de 23 jogos sem perder após vencer o Corinthians por 2 a 1, em setembro de 1946. Tal série começou a ser construída nos últimos seis jogos de 1945 e foi ampliada naquela campanha de 1946, que terminou em 26 jogos de invencibilidade ao término da temporada. O time atingiria a marca de 30 jogos sem perder somando os quatro primeiros jogos da campanha de 1947. Além da hegemonia no estado, o São Paulo ainda faturou mais duas Taças dos Campeões Estaduais Rio-SP: em 1945, com vitória por 2 a 1 sobre o fortíssimo Vasco da época, e em 1946, após triunfo por 3 a 1 sobre o Fluminense de Ademir de Menezes. De fato, o tricolor era um dos mais fortes times do país na época. O torcedor são-paulino lamenta profundamente o fato de não existir Libertadores na época… Já imaginou os estragos daquele Rolo Compressor em um torneio continental? Vixe…

 

Renovação para novos títulos

 

A partir de 1947, o São Paulo passou por uma reformulação no elenco. O técnico Joreca deixou o comando do time para a chegada de Vicente Feola, que já possuía outras passagens pelo clube. Com seu espírito conciliador, observador dos jogadores e muito amigável, ele trouxe ainda mais harmonia ao time, propondo sempre conversas e sem deixar possíveis egos aflorarem. Ele não fazia o estilo técnico mandão e gostava de ouvir seus atletas a fim de encontrar o melhor para o time. Foi naquela mesma época que Paulo Machado de Carvalho assumiu mais uma vez a presidência do tricolor (a primeira foi em 1940) e iniciou uma relação de muita amizade com Feola que seria levada até a Seleção Brasileira nos anos 1950, quando o “Marechal da Vitória” indicou o treinador à CBD para o cargo de técnico da equipe canarinho. O resultado seria o histórico e inédito título na Copa do Mundo de 1958.

No elenco, foi promovido ao time titular um zagueiro com uma classe exuberante que se tornaria anos depois um dos mais técnicos da história do futebol brasileiro: o mineiro Mauro Ramos de Oliveira, que faria dupla de zaga com Savério, destaque do time de aspirantes. Para o gol, o clube trouxe Mário, e, em 1949, o argentino Poy assumiria a meta tricolor. A base do meio de campo foi mantida e o ataque, apesar da saída de Luizinho, ganhou os aportes de Ponce De León (ex-Botafogo) e China.

Vicente Feola, técnico do São Paulo bicampeão em 1948 e 1949.

 

Se as taças não vieram em 1947 (a equipe foi apenas a 4ª colocada), no ano seguinte o clube voltou com força total. Feola armou um time muito forte no setor defensivo, que preenchia os espaços e dificultava as ações ofensivas dos adversários. Mauro Ramos e Savério formaram uma dupla tão entrosada quanto as anteriores dos títulos de 1943, 1945/1946 e deram muita segurança para a comissão de frente tricolor. A campanha do Paulista de 1948 começou com empate em 2 a 2 com o Comercial, vitória sobre o Nacional (6 a 1), derrota para o Juventus (2 a 1) e nove vitórias seguidas: 2 a 0 na Portuguesa Santista, 2 a 0 no Corinthians, 3 a 2 no Ypiranga, 2 a 1 no Palmeiras, 1 a 0 no Jabaquara, 2 a 0 na Portuguesa, 3 a 2 no Santos, 2 a 0 no Jabaquara e 3 a 0 no Comercial.

Em outubro de 1948, o tricolor perdeu a chance de completar 10 vitórias consecutivas ao ser derrotado pelo Santos por 2 a 1, na primeira vitória do Peixe sobre o rival desde agosto de 1940. Mas o São Paulo emendou mais quatro vitórias seguidas – 2 a 0 na Portuguesa Santista, 3 a 1 no Ypiranga, 2 a 0 no Corinthians e 8 a 0 no Juventus e não perdeu o embalo. Aliás, foi nesse último jogo contra o Juventus, no Pacaembu, em novembro de 1948, que Leônidas realizou a bicicleta mais famosa de sua carreira, quando o fotógrafo Alberto Sartini registrou o exato momento em que o craque assinava sua marca registrada em pleno ar, com toda sua classe e precisão, para marcar o terceiro gol tricolor no jogo. A foto se tornou uma das mais difundidas da história e sinônimo da jogada – e de Leônidas. O Diamante Negro marcou outros quatro gols de bicicleta no Pacaembu vestindo o manto são-paulino.

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

 

Na sequência da campanha, o tricolor empatou em 3 a 3 com o Palmeiras, venceu a Portuguesa por 2 a 1 e bateu o Nacional por 4 a 2, jogo que sacramentou outro título paulista do clube. Foram 16 vitórias, dois empates e duas derrotas em 20 jogos, com 54 gols marcados (melhor ataque) e apenas 19 sofridos (melhor defesa). Leônidas foi mais uma vez artilheiro do time com 11 gols, seguido de Ponce de León, com 10, China, com oito, e Lelé, com sete.

Uma das formações do time de 1948.

 

Em janeiro de 1949, o São Paulo começou a temporada faturando outra Taça dos Campeões Estaduais Rio-SP, ao derrotar o Botafogo por 2 a 1 (gols de Remo e China). Com a mesma base campeã e a chegada de Friaça (ex-Vasco) para o ataque, o time ganhou ainda mais poder ofensivo e voou como nos tempos do time imbatível de 1946. Foi uma temporada ainda mais marcante pelas duas goleadas que o time aplicou no adversário que mais lhe atazanou naquela época: o Palmeiras, único que, com exceção do título do Corinthians em 1941, impediu o São Paulo de conquistar todos os títulos daquela década. No primeiro encontro, dia 24 de julho de 1949, o tricolor aplicou 5 a 1 no Verdão, com dois gols de Ponce de León, dois de Teixeirinha e um de Leônidas. No returno, Remo (duas vezes), Ponce de León e Friaça fizeram os tentos da goleada de 4 a 2 do São Paulo sobre o rival alviverde. Além de massacrar o alviverde, o tricolor ainda goleou adversários como Juventus (8 a 2), Nacional (5 a 0) e Ypiranga (5 a 1), além de aumentar para sete jogos a invencibilidade para o rival Corinthians na época com uma vitória (3 a 2) e um empate (3 a 3).

Ao final do campeonato, o São Paulo foi campeão com uma rodada de antecedência e oito pontos à frente do Palmeiras. Foram 16 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas em 22 jogos, com 70 gols marcados (melhor ataque) e 23 sofridos (melhor defesa). Era o quinto título paulista do tricolor, feito que deu ao clube a posse definitiva da Taça Federação Paulista de Futebol, concedida pela entidade à equipe que vencesse o campeonato três vezes seguidas ou cinco alternadas. Além da campanha inquestionável, Friaça ainda foi artilheiro do Paulistão daquele ano com 24 gols. No entanto, aquela taça simbolizaria o fim de uma era.

O esquema do time de 1949: zaga era impecável, meio de campo seguro como sempre e ataque renovado com Friaça pela direita.

 

No ano seguinte, o tricolor perdeu a chance do tri por um ponto de diferença para o Palmeiras. Ruy, Noronha e Leônidas deixaram a equipe e a força do time dos anos 40 esmaeceu. O tricolor ainda foi campeão em 1953 e 1957 – este sob a batuta de Zizinho -, até os anos seguintes serem de total jejum em prol de um sonho: a construção do Morumbi, que sugaria todos os recursos do clube. Após mais de uma década sem taças, o São Paulo só voltaria a levantar taças em 1970, para voltar à sua rotina vitoriosa até conquistar o Brasil e o mundo nos anos seguintes.

 

O esquadrão da consolidação

Com taças históricas e craques do mais alto calibre, o São Paulo dos anos 40 é tido por muitos como um dos maiores esquadrões de todos os tempos do futebol sul-americano. Pela falta de torneios nacionais e continentais, esse time raramente aparece em listas de grandes times, mas deveria. Com médias formidáveis, um sistema defensivo coeso e organizado e um toque de bola envolvente, foi um time moderno para a época e referência em futebol bem jogado. Joreca e Feola construíram uma equipe que raramente perdia e entrava certa da vitória. Só não se sabia o placar. Além disso, aquele São Paulo ostentou vantagem nos confrontos diretos contra todos os seus rivais entre 1943 e 1949. Veja o retrospecto:

 

  • Contra o Corinthians: 23 Jogos / 12 Vitórias / 05 Empates / 06 Derrotas
  • Contra o Palmeiras: 20 Jogos / 09 Vitórias / 07 Empates / 04 Derrotas
  • Contra o Santos: 20 Jogos / 14 Vitórias / 03 Empates / 03 Derrotas

 

Foi um absolutismo notável, jogos memoráveis, títulos para a eternidade e um legado único. Foi o esquadrão que catapultou o São Paulo ao rol dos grandes clubes do Brasil. Que fez tremer os então gigantes da capital que achavam que tudo se resumia a um Dérby. E que provou, sem precisar de física nem teorias, que uma moeda pode cair em pé. Um esquadrão imortal.

A estátua de Leônidas no museu do São Paulo.

 

Os personagens:

 

Gijo: sempre bem colocado e privilegiado por contar com a famosa linha média tricolor a sua frente, o goleiro não teve grandes trabalhos durante o período em que esteve no gol do clube. Jogou no São Paulo de 1944 até 1947 e participou do grande esquadrão bicampeão de 1945-1946. Disputou 143 pelo tricolor na carreira e é o segundo na posição com melhor aproveitamento na história do clube: 68,3%.

King: grandalhão e imponente debaixo das traves, o arqueiro foi um dos destaques do histórico título de 1943 com grandes defesas e muita regularidade. Jogou até 1947 no clube e disputou 204 jogos. Era irmão de Teleco, ídolo do Corinthians. O apelido curioso surgiu por causa do filme “King Kong”, de 1933, pelo fato do goleiro conseguir segurar a bola com uma mão da mesma maneira que o gorila gigante segurou a mocinha Ann Darrow na clássica película. Mas, no dia a dia, o Kong acabou caindo em desuso e ficou só King mesmo.

Mário: é o goleiro com maior aproveitamento de pontos da história do clube com 69,75%. Chegou em 1948 e disputou 108 jogos com a camisa tricolor, vencendo 70 deles, empatando 16 e somando apenas 22 derrotas. Acabou perdendo espaço com a chegada de Poy, que virou titular absoluto principalmente após 1949.

Poy: lenda são-paulina com 524 jogos disputados entre 1949 e 1962, foi durante muitos anos o maior goleiro da história do clube até o surgimento de um certo Rogério Ceni. Seguro, sério, capaz de defesas incríveis e muito regular, o argentino escreveu seu nome na história por ser fiel ao clube e se tornar ídolo da torcida. É o terceiro goleiro com mais jogos vestindo a camisa do São Paulo.

Piolim: após uma rápida passagem em 1937, voltou em 1942 para ser titular do time campeão de 1943. Cumpria bem seu papel no setor defensivo com boa marcação e bons passes. Não costumava ir ao ataque. Deixou o tricolor em 1947.

Savério: cria das bases, foi um dos principais jogadores do time de aspirantes do tricolor nos anos 1940 até ganhar uma vaga no time titular. Conseguiu seu espaço e formou dupla com Mauro Ramos no bicampeonato de 1948/1949.

Renganeschi: zagueiro clássico, raçudo e destemido, ganhou a idolatria da torcida pelo gol que garantiu o título invicto de 1946 ao tricolor. Forte e muito bem no jogo aéreo, o argentino foi um dos principais jogadores de seu tempo. Atuou no clube de 1944 até 1948, disputando 107 jogos. Marcou apenas um gol. Exatamente o do título daquele ano histórico. Foi o bastante.

Virgílio: fez uma notável dupla de zaga com Piolim nos títulos de 1943 e 1945. Não era tão alto, mas compensava com velocidade, boa colocação e vitalidade.

Mauro Ramos: de estilo refinado, passes precisos e senso de colocação pleno, foi um dos maiores zagueiros da história do futebol brasileiro. Sua classe imperava em campo e se tornou um símbolo do futebol bem jogado. Jogou no São Paulo de 1948 até 1959 e participou de quatro conquistas do Campeonato Paulista. Pela seleção, foi capitão do time bicampeão do mundo na Copa de 1962 e ainda titular no lendário Santos de Pelé nos anos 1960. Disputou 498 jogos pelo tricolor, o 9º que mais vestiu a camisa do clube na história. Em sua cidade natal, Poços de Caldas (MG), existe uma estátua em sua homenagem. Um craque imortal.

Ruy: com categoria no domínio de bola, cerebral, técnico e arquiteto de grandes jogadas, foi um dos maiores meio-campistas da história do São Paulo. Podia jogar, também, como zagueiro, compondo o setor defensivo nas investidas dos adversários. Jogou de 1944 até 1953 no São Paulo e foi um dos principais nomes do timaço daquela era de ouro. Foram 273 jogos e seis gols com a camisa tricolor e a eterna idolatria da torcida. Ganhou espaço, também, na seleção, com várias convocações e jogos como titular. Ídolo eterno do clube.

Zarzur: jogou ao lado de Friedenreich e companhia lá no título de 1931, passou pelo San Lorenzo-ARG e pelo Vasco e voltou em 1942 para ser campeão paulista mais duas vezes, em 1943 e 1945. Jogava com muita categoria no meio de campo e também ajudava a defesa com precisão na marcação. Encerrou a carreira no próprio São Paulo, em 1945.

Bauer: foi o “Monstro do Maracanã”, o volante que encantou a todos na Copa do Mundo de 1950 e que virou ídolo do São Paulo entre 1944 e 1957, período em que venceu cinco títulos paulistas, disputou 400 jogos e marcou 18 gols. Tinha um domínio de bola impecável e matava a redonda no peito como poucos. Sua categoria contribuiu demais para a fama daquela linha média tricolor. Ajudava o setor ofensivo com suas passadas largas e cruzamentos. Era cria das bases do clube. Pela seleção, Bauer disputou mais de 25 partidas e foi capitão do escrete canarinho na Copa do Mundo de 1954.

Zezé Procópio: após colecionar títulos estaduais no futebol mineiro, o lateral-direito e volante chegou ao São Paulo em 1943 para ser campeão estadual mais uma vez. Jogou muito bem e ajudou a equipe tanto na marcação – seu ponto forte – quanto no apoio ao ataque. Deixou a equipe em 1944 para encerrar a carreira no Palmeiras.

Noronha: atuava pelo lado esquerdo e fechava a linha média mais famosa da história do São Paulo. Incansável, marcador pleno e com uma vitalidade impressionante, foi outro que virou símbolo daquele timaço e ganhou espaço na seleção. Jogou de 1942 até 1951 no São Paulo e disputou 298 jogos, marcando 13 gols. Participou de todos os cinco títulos paulistas dos anos 1940.

Luizinho: ponta-direita rápido, com capacidade para driblar tanto para a direita quanto para a esquerda, dono de um chute forte e certeiro e perito em cruzamentos, tidos como “meio gol”, foi o maior em sua posição nos anos 1930. Jogou no São Paulo da Floresta entre 1930 e 1935, no Palestra e voltou ao tricolor em 1941 para ser multicampeão paulista em 1943, 1945 e 1946. Forte, também, nas jogadas aéreas, Luizinho costumava treinar cabeçadas fingindo que a porta do vestiário era o gol. Jogou as Copas de 1934 e 1938 pela seleção. É um dos maiores artilheiros da história do São Paulo com 173 gols em 264 jogos nas duas passagens pelo tricolor.

Barrios: o paraguaio marcou vários gols e conseguiu deixar sua marca no time tricolor bicampeão em 1945/1946. Sua melhor temporada foi a de 1945, quando marcou 10 gols. Disputou 98 jogos e marcou 40 gols pelo clube.

China: mesmo sem ser titular, marcou gols importantes nas campanhas dos títulos de 1948 e 1949 e foi um dos homens de frente do ataque do time de Feola. Atuava como ponta-direita e era muito veloz com a bola dominada.

Friaça: dono de um chute poderoso e muito veloz, o ponta-direita já vinha de muito sucesso no grande Vasco dos anos 1940 quando chegou ao tricolor para confirmar ainda mais seu talento. Foi artilheiro do Paulista de 1949 e um dos principais destaques do time campeão daquele ano.

Sastre: o argentino chegou cercado de desconfiança, mas calou todos os críticos com gols, jogadas espetaculares e a categoria de um dos mais brilhantes atacantes de seu tempo. Líder e muito identificado com o clube, foi fundamental naquela mudança de patamar do São Paulo no cenário futebolístico paulista e brasileiro. Ganhou os títulos de 1943, 1945 e 1946 e é o dono do recorde de gols em um só jogo com a camisa tricolor: seis, na goleada de 9 a 0 sobre a Portuguesa Santista, em 1943. Disputou 128 jogos e marcou 56 gols pelo São Paulo entre 1943 e 1946.

Lelé: outro que veio do grande Vasco daquela época, atuava mais pelo lado direito e tinha um chute poderosíssimo na perna direita. Foi um dos destaques do setor ofensivo do time no bicampeonato de 1948/1949.

Ponce de León: apesar do nome diferente, era brasileiro, nascido no Rio de Janeiro. Atuava como meia ou atacante e tinha o faro de gol apurado. Foi fundamental para os títulos de 1948 e 1949. Disputou 107 jogos e marcou 52 gols pelo tricolor entre 1948 e 1950.

Leônidas da Silva: mito, lenda, incontestável. O Diamante Negro possui, no memorial do São Paulo, uma enorme escultura sua cujo retrato é ele aplicando a bicicleta, sua marca registrada. Foi ele quem transformou para sempre a história do tricolor e acabou de vez com o estigma de que o clube não podia brigar com os rivais Corinthians e Palmeiras. Não só brigou como goleou, atropelou e dominou. Com Leônidas, o São Paulo virou grande, fez história e catapultou sua trajetória dali em diante. Artilheiro pleno do time na época, o craque provou que mesmo com mais de 30 anos ainda podia jogar muito futebol. Disputou 211 jogos e marcou 144 gols pelo São Paulo entre 1942 e 1950. É o 8º maior artilheiro da história do clube. E foi ele quem levou a maior quantidade de gente em toda a história do Pacaembu. Coisa de craque imortal. Leia mais sobre essa lenda clicando aqui.

Remo: meia-esquerda pequenino, mas valente, rápido e rompedor de defesas, foi um dos principais nomes do poderoso setor ofensivo do São Paulo naquela década de ouro. Jogou de 1940 até 1951 no tricolor, com 348 jogos e 107 gols marcados. Outro que participou de todos os cinco títulos paulistas do Rolo Compressor.

Teixeirinha: quinto jogador com mais jogos na história do São Paulo – 525 partidas entre 1939 e 1956 – e 4º maior artilheiro da história do clube com 188 gols, o ponta-esquerda foi um terror para os zagueiros com sua velocidade, as clássicas jogadas pela linha lateral e uma regularidade impressionante. Outro que foi revelado pelo tricolor e que participou de todos os títulos daquela década.

Pardal: foi o ponta-esquerda do time campeão de 1943 e um dos grandes garçons para Leônidas e companhia naquele ataque tricolor. Não era tão goleador como Teixeirinha, por isso acabou perdendo espaço no time titular após a temporada de 1943. Foi campeão, também em 1945 e 1946.

Jorge de Lima “Joreca” e Vicente Feola (Técnicos): Joreca chegou ao São Paulo em 1943 e ficou até 1947, conquistando três títulos paulista e atingindo uma marca histórica: foi o técnico com maior aproveitamento de pontos do tricolor em todos os tempos – 72,87%. Além disso, foi o único a vencer um Paulistão de maneira invicta pelo clube. O curioso é que o português acabou virando treinador depois de trabalhar como jornalista e árbitro, tendo apitado inclusive a estreia de Leônidas pelo São Paulo em 1942! Por ter boa dicção e conhecer bem o futebol, aceitou o convite de Décio Pedroso para assumir o São Paulo em 1943. Depois dele, Vicente Feola manteve a pegada do time campeão e faturou um bicampeonato com uma nova maneira de trabalhar, adotando muita conversa e algumas concentrações. Feola é o técnico com mais jogos na história do São Paulo: 532 partidas em oito passagens diferentes entre 1937 e 1960, com mais de 62% de aproveitamento. Adepto do futebol ofensivo, mas sem descuidar da defesa, encontrou um equilíbrio notável e fez do tricolor a equipe com a melhor defesa do campeonato tanto em 1948 quanto em 1949. E foram essas características que ele levou à seleção brasileira campeã do mundo em 1958. Ambos são imortais no tricolor.

 

Leia mais sobre outros grandes times do São Paulo clicando nos links abaixo!

São Paulo 1985-1987

São Paulo 1991-1994

São Paulo 2005-2006

São Paulo 2006-2008

 

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6 thoughts on “Esquadrão Imortal – São Paulo 1943-1949

  1. Ficou Show!!! Mais um excelente trabalho do Imortais. O legado dessa equipe foi muito importante… A modernidade da equipe com movimentação inovadora, no meio e no ataque. A força ofensiva com troca de passes, e já usando a preparação física, que fazia Leônidas ainda atuar como um diamante.

    Obrigado!!!

  2. Voçê acha que esse time do são Paulo bateria de frente com qual time europeu da época se existisse o mundial de clubes? E seu site é impecável cara valeu.

    1. Olha, ele jogaria de igual para igual com qualquer um, seja Torino, seja Sporting. É que na época a II GM prejudicou bastante o futebol europeu. Por aqui, esse São Paulo faria grandes jogos também contra La Máquina do River e também contra o Penarol, base do Uruguai na Copa de 1950.
      Obrigado pelo comentário e elogios!

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