Esquadrão Imortal – Fluminense 1969-1971

O Flu de 1970. Em pé: Oliveira, Félix, Denílson, Galhardo, Assis e Marco Antônio. Agachados: Cafuringa, Didi, Mickey, Samarone e Lula.

 

Grandes feitos: Campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa – precursor do Campeonato Brasileiro (1970), Bicampeão do Campeonato Carioca (1969 e 1971) e Bicampeão da Taça Guanabara (1969 e 1971). Conquistou o primeiro título nacional da história do clube.

Time-base: Félix (Jorge Vitório); Oliveira (Toninho), Galhardo, Assis e Marco Antônio; Denílson (Silveira) e Didi (Lulinha); Cafuringa (Wilton), Flávio (Mickey), Samarone (Cláudio Garcia / Jair) e Lula (Gilson Nunes). Técnicos: Telê Santana (1969), Paulo Amaral (1970) e Zagallo (1971).

 

“Esquentando os motores…”

 

O barulho nas Laranjeiras começava a incomodar a vizinhança naquele final de anos 1960. Todos os dias, antes dos treinos no estádio do Fluminense, era possível ouvir sons parecidos com uma oficina de alguma equipe de Fórmula 1. Engrenagens tocavam ali, propulsores jogavam acolá e um mecânico-chefe passava as informações necessárias para tudo fluir bem. O ronco era potente, mas ainda faltavam alguns ajustes. Mesmo assim, eles colocaram aquela máquina para funcionar. Sabe como é, para amaciar o motor. Foi assim durante três anos. Muitos cochilos foram interrompidos, principalmente os vespertinos. Mas, como a maioria da vizinhança era tricolor de coração, ninguém se importou. Valia a pena perder umas horinhas de sossego para curtir a calmaria posterior. Entre 1969 e 1971, o Fluminense montou seu primeiro protótipo de máquina. O primeiro esquadrão apelidado assim por sua torcida e pela imprensa. Foi o prenúncio do time que entraria para a história alguns anos depois, entre 1975 e 1976, já com Rivellino, Doval, Gil e companhia. Mas aquela primeira máquina conseguiu o que nem o time de Riva foi capaz: um título brasileiro, histórico, com vitórias categóricas, únicas. Conquistou ainda um bicampeonato estadual e apresentou um futebol de primazia, com peças ajustadas e em sintonia do gol ao ataque. Tinha Félix, goleiro da seleção do tricampeonato mundial no México. Tinha Marco Antônio, outro tricampeão. Tinha Galhardo e Assis, uma das duplas de zaga mais entrosadas da história do clube. Tinha Denílson, o “destruidor” do meio de campo e pioneiro na função de cabeça de área. Tinha Samarone, ponta de lança vibrante, cheio de personalidade. Tinha Flávio, o goleador que fez muita gente relembrar do eterno Waldo. E ainda Lula, imparável na ponta-esquerda, o talismã Mickey, Cafuringa, Wilton… E teve Telê Santana, em seu primeiro trabalho na carreira e responsável pela montagem de um time que todo torcedor tricolor sabe a escalação até hoje de cor e salteado. É hora de relembrar.

 

A solução está em casa

Telê Santana, nos tempos de jogador: ele virou técnico do time de juvenis e passou a treinar os profissionais tempo depois.

 

Depois de conquistar o título estadual de 1964 e a Taça Guanabara em 1966 (competição criada em 1965 e que definia o representante do Estado da Guanabara – hoje cidade do Rio de Janeiro – na Taça Brasil até 1968), o Fluminense chegava ao ano de 1969 querendo superar de vez os rivais e reconquistar a coroa no Rio. Em 1968, o Tricolor fez um péssimo campeonato estadual terminando na 8ª colocação o primeiro turno, atrás de todos os principais rivais. Na segunda fase, ficou apenas na 6ª colocação. Dos 18 jogos, venceu apenas cinco e nenhum clássico. O clube tinha bons jogadores e até remanescentes do título da Guanabara de 1966 – tais como Jorge Vitório, Oliveira, Denílson, Samarone e Lula -, mas precisava de alguns reforços para conseguir brigar com o forte Botafogo da época, com o rival Flamengo e com o Vasco. 

Para isso, a diretoria foi atrás de um goleiro já em 1968 e trouxe Félix, de 30 anos, que vinha de boas temporadas na Portuguesa, além do atacante Flávio (ex-Corinthians) e o meia-atacante Mickey (ex-Caxias), estes dois em 1969. Chegaram também Galhardo e Assis para o miolo de zaga, Marco Antônio para a lateral-esquerda (este recém-promovido dos juvenis), o meio-campista Lulinha, Wilton e Cafuringa, ambos opções para a ponta-direita.

O artilheiro Flávio seria fundamental para as conquistas de 1969 e 1970.

 

Mas o principal reforço que o Flu ganhou naquele ano foi no banco de reservas. Campeão carioca com a equipe de juniores, o ex-jogador e ídolo do clube Telê Santana, o “Fio de Esperança”, foi promovido ao comando do time principal a fim de montar uma equipe que pudesse conquistar o título estadual. Telê estudou bastante o elenco, e, com muito treino, percebeu que era possível almejar algo no primeiro semestre. O time contou com um bom trabalho de preparação física graças a Antônio Clemente, que fez um minucioso trabalho nos treinamentos em Petrópolis. A equipe disputou sete amistosos entre janeiro e o início de março, venceu quatro (incluindo um 2 a 0 pra cima do Botafogo em General Severiano, antes da viagem até Petrópolis), empatou dois e perdeu apenas um. O elenco era pequeno, por isso, segundo Telê, seria difícil manter o ritmo até o final da temporada. Mas dava para tentar algo grande no Campeonato Carioca…

 

Entrosamento e vitórias

O goleiro Félix vibra: carreira do jogador mudou completamente quando chegou ao Flu.

 

O Campeonato Carioca de 1969 teria dois turnos. No primeiro, 12 times brigariam por oito vagas jogando todos contra todos. Os classificados iriam para o segundo turno e também jogariam entre si. Quem somasse mais pontos ao final dos dois turnos seria o campeão. Por isso, era primordial conquistar pontos em jogos contra adversários mais frágeis e jogar tudo ou nada contra os rivais de peso nos clássicos no Maracanã. O tricolor começou vencendo a Portuguesa por 1 a 0 e bateu o Madureira por 6 a 1 na sequência. No primeiro clássico, contra o Botafogo, empate em 1 a 1, mesmo resultado do jogo contra o Bonsucesso, primeiro tropeço da equipe na competição. Após vencer o Olaria (2 a 1) e o São Cristóvão (3 a 0), o tricolor venceu o Vasco por 2 a 1 e se encheu de moral para a reta final do turno. Só que a equipe tropeçou diante do América (derrota por 2 a 0) e empatou sem gols com o Flamengo, mas tomou fôlego com as vitórias sobre o Campo Grande (3 a 1) e Bangu (3 a 1), resultados que mantiveram o Flu na vice-liderança com 17 pontos, mesmo número do líder Botafogo, que permanecia com a ponta pelo critério de gols marcados.

 

Campeão sob os olhares de 171 mil pessoas 

Cláudio Garcia chuta a bola na decisão de 1969: Flu campeão. Foto: Arquivo / Cedoc.

 

Brigando de igual para igual com o rival alvinegro, o Flu já mostrava um notável entrosamento e padrão de jogo pré-definido. A zaga era segura e Denílson figurava como grande referência na função de cabeça de área, desarmando com uma precisão absurda e sempre tocando para os companheiros na sequência. Lula, Samarone e Flávio eram os principais artífices do ataque com velocidade, criatividade, e, claro, gols – o Flu tinha o segundo melhor ataque do primeiro turno com 22 gols em 11 jogos. 

No segundo turno, o tricolor venceu a Portuguesa por 2 a 0, empatou sem gols com o Vasco e emendou três vitórias seguidas contra América (2 a 1), Bangu (3 a 0) e Bonsucesso (2 a 0). Com essas vitórias e a queda de rendimento do Botafogo – que perdeu dois clássicos naquele turno, para o Flamengo (2 a 1) e Vasco (2 a 0) -, o Fluminense assumiu a liderança e tinha a chance de ser campeão por antecipação da melhor maneira possível: em caso de vitória sobre o rival Flamengo, no Maracanã. Por ser uma decisão antecipada e pelo rubro-negro também brigar pela taça, o estádio recebeu um público simplesmente estrondoso: 171.599 pagantes! E três horas antes do jogo, por volta das 13h, o Maracanã já estava praticamente lotado, com as torcidas dividindo o espaço do colossal estádio!


Veja imagens daquele jogo no vídeo a seguir:

Sob uma atmosfera única, o jogo fez jus ao cenário daquele 15 de junho de 1969. Wilton abriu o placar para o Flu, mas Liminha empatou. Cláudio fez mais um, o goleiro flamenguista foi protestar alegando impedimento e recebeu cartão vermelho. Mesmo com dez jogadores, o Flamengo empatou com Dionísio, mas Flávio fez o terceiro gol que sacramentou o título carioca do Tricolor. A festa tomou conta do Rio e varou a madrugada nas Laranjeiras! Na última rodada, nem a derrota por 3 a 1 para o Botafogo atrapalhou a festa. O Flu foi campeão com 12 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas em 18 jogos, além de 35 gols marcados e 15 sofridos. Flávio, do Flu, foi o artilheiro da competição com 15 gols marcados e provou que a diretoria acertou em cheio em sua contratação, além de Lula, que pintava e bordava na ponta-esquerda.

 

Os campeões de 1969. Em pé: Marco Antônio, Félix, Galhardo, Denílson, Assis, Oliveira, Telê Santana (técnico) e Antônio Clemente (preparador físico). Agachados: Santana (massagista), Wilton, Cláudio, Flávio, Samarone e Lula.

 

Foi a taça que abriu as portas para Telê Santana se tornar um dos mais lendários técnicos do futebol mundial. E que levou o goleiro Félix à titularidade da Seleção Brasileira que seria tricampeã mundial na Copa do ano seguinte. Além dele, Marco Antônio também seria convocado para a reserva imediata do lateral Everaldo.

 

Nova taça e balanço positivo

Entre junho e agosto de 1969, o Flu disputou a Taça Guanabara, que, como já dito anteriormente, era uma competição independente do Campeonato Carioca. E, ainda no embalo do título estadual, o Tricolor abocanhou mais um troféu. A equipe venceu os quatro primeiros jogos – 2 a 0 no Bangu, 3 a 1 no América, 1 a 0 no Bonsucesso e 2 a 0 no Campo Grande -, empatou com o Vasco sem gols, perdeu para o Flamengo (2 a 1) e venceu o Botafogo por 1 a 0. No segundo turno, nem o empate sem gols com o Flamengo e a derrota por 1 a 0 para o Botafogo tiraram o time do páreo. Na última rodada, a vitória por 1 a 0 sobre o América – gol de Flávio, aos 41’ do segundo tempo -, sacramentou o título tricolor. Foi a segunda taça de Telê Santana no comando do time, que se tornou o Rei do Rio naquele ano. 

No segundo semestre, o desafio era o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que a partir daquele ano de 1969 seria a única competição nacional organizada pela CBD após a extinção da Taça Brasil, em 1968. Por ter um elenco mais enxuto que os rivais, a equipe acabou apenas na quarta colocação no Grupo B e ficou de fora das finais. Mas o time ainda teve um momento de puro prazer: goleou o rival Flamengo por 4 a 1 na 6ª rodada, com três gols de Lula e um de Flávio. Ao término da temporada, o Flu contabilizou 55 jogos disputados, 30 vitórias, 14 empates, 11 derrotas, 82 gols marcados e 39 sofridos. Segundo o Jornal dos Sports da época, o clube teve um lucro de NCr$ 2 milhões e revelou “a coragem da diretoria em promover Telê ao comando do time titular”. O que ajudou nas conquistas estaduais foi o baixo número de contratempos com os atletas – o caso mais grave foi de Samarone, que teve um cálculo renal e uma torção no joelho. Para a temporada seguinte, a diretoria pensava em novas contratações para deixar o elenco ainda maior e com mais opções para o andamento das competições.

 

A chegada do “tirano”

Paulo Amaral (centro) no início de seus trabalhos no Fluminense. Foto: Acervo / O Globo.

 

Em janeiro de 1970, o técnico Telê Santana, que não vivia às mil maravilhas com a diretoria,  deixou o clube para comandar o Atlético-MG. Sem perder tempo, o Flu contratou Paulo Amaral, célebre preparador físico da seleção brasileira bicampeã do mundo em 1958 e 1962, para assumir a prancheta tricolor. Com estilo totalmente diferente de seu antecessor, Amaral impôs uma linha de trabalho bastante rígida, com foco primordial na preparação física, obviamente, e na regularidade. Disciplinador ao extremo, Amaral não media as palavras quando alguém ia mal no treino ou no jogo e o clima no Flu foi totalmente outro naquele ano de 1970. O próprio treinador admitia seu estilo:

 

“Sou exigente com os jogadores, porque eu e eles somos empregados do clube e temos uma missão a cumprir: aquela que nos é confiada pela direção do clube e pela sua torcida e que nada tem a ver com nossos problemas pessoais”. – Paulo Amaral, em entrevista à revista Placar, 06 de novembro de 1970.

 

Embora fosse linha dura, o treinador manteve o elenco do Flu competitivo usando a mesma base deixada por Telê e sem as “várias” contratações prometidas pela diretoria e não cumpridas. No Campeonato Carioca, o tricolor foi líder do primeiro turno com oito vitórias, dois empates e apenas uma derrota em 11 jogos, com destaque para o triunfo por 2 a 0 sobre o Flamengo no clássico Fla-Flu. No segundo turno, outra vitória sobre o Flamengo por 2 a 0 e disputa ponto a ponto com o Vasco até a penúltima rodada, quando o cruzmaltino venceu o Botafogo por 2 a 1 e o Flu acabou empatando sem gols com o América, resultado que deu o título ao Vasco com uma rodada de antecedência. 

No último jogo, o Flu enfrentou justamente o campeão e venceu por 2 a 0, mas era tarde demais. O Tricolor terminou apenas um ponto atrás do rival na classificação geral. Em 18 jogos, foram 12 vitórias, quatro empates, duas derrotas, 37 gols marcados (melhor ataque) e 12 gols sofridos (melhor defesa). Flávio, com 18 gols, foi mais uma vez artilheiro do torneio. De fato, o empate com o América acabou pesando demais na luta pelo bi.

 

Hora do Brasileiro

Samarone, um dos destaques do Flu.

 

Os tropeços no Carioca e na Taça Guanabara (a equipe terminou com o vice) não foram suficientes para derrubar Paulo Amaral, que ganhou um voto de confiança da diretoria e manteve-se no cargo para a disputa do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que teria os mesmos 17 clubes da edição anterior. Seria a última edição do torneio naqueles moldes e com tal nome, pois em 1971 a competição seria renomeada para Campeonato Brasileiro tal como conhecemos hoje. 

O torneio de 1970 teria um prestígio ainda maior após o título da Seleção Brasileira na Copa do Mundo daquele ano. De quebra, aquele seria o único campeonato brasileiro da história com todos os campeões mundiais jogando no Brasil! Seria um privilégio sem igual para o torcedor ver os craques do tri vestindo as camisas de seus clubes e brigando pelo título nacional. Pelé no Santos, Tostão no Cruzeiro, Jairzinho no Botafogo, Rivellino no Corinthians, Gérson no São Paulo, Carlos Alberto Torres no Santos, Félix no Fluminense, Everaldo no Grêmio… Isso só para citar alguns dos titulares. E, com o time mais entrosado que nunca, o Flu entrou na competição querendo o título. O sistema de disputa era relativamente simples (se tratando de CBD…): os times eram divididos em dois grupos. Jogavam todos contra todos e os dois melhores de cada grupo avançavam para a fase final, também todos contra todos. Quem somasse mais pontos no quadrangular final seria o campeão.

A estreia tricolor foi contra o Corinthians, no Maracanã, em 26 de setembro, e o Flu venceu por 1 a 0, gol de Flávio. Na rodada seguinte, de novo no Maraca, vitória de virada por 2 a 1 sobre o fortíssimo Cruzeiro, com dois gols de Lula. Ainda aproveitando o fator casa, o Flu venceu o Grêmio por 2 a 1, gols de Lula e Marco Antônio, em jogo curioso que ficou marcado pelo duelo entre Everaldo e Cafuringa. O ponteiro do Flu disse antes do jogo que iria “deitar e rolar” pra cima do lateral-esquerdo da seleção do tri e arriscar vários dribles. Mas ele foi simplesmente anulado pelo gremista, que ao final da temporada venceria a Bola de Prata da revista Placar

O Flu de 1970: defesa sólida, meio de campo marcador e ataque rápido. Trinca perfeita para o título brasileiro!

 

Na quarta rodada, a vitória por 3 a 0 sobre o América (dois gols de Flávio e um de Samarone) provaram que o Flu era, sim, candidato ao título nacional. Só na rodada seguinte que o time tropeçou pela primeira vez (derrota por 1 a 0 para o Bahia, em Salvador), mas levantou em seguida com a vitória por 1 a 0 sobre o Santa Cruz no Recife (gol de Flávio). Nos três jogos seguintes, empate em 1 a 1 com o São Paulo de Gérson e Pedro Rocha (com o gol carioca anotado por Marco Antônio), derrota por 2 a 0 para o Inter em Porto Alegre e vitória no clássico contra o Vasco por 3 a 1 (gols de Flávio, Silveira e Marco Antônio, artilheiro como nunca!). 

Na 10ª rodada, goleada de 6 a 1 sobre a Ponte Preta (três gols de Flávio, dois de Lula e um de Didi) e um triunfo categórico de 3 a 0 sobre o Palmeiras de Ademir da Guia em São Paulo, com Félix defendendo um pênalti cobrado por César e três gols de Flávio. Em 11 jogos, o Flu já acumulava oito vitórias e era líder de seu grupo. Bem armado, com preparo físico invejável e equilíbrio notável entre defesa e ataque, o Flu teve a parte tática aprimorada por Paulo Amaral e o time se baseava na “destruição” de jogadas com Denílson, na armação e cadência de Samarone e nos gols do artilheiro Flávio. Nas laterais, Oliveira e Marco Antônio iam e voltavam com a mesma frequência, sem deixar espaços, e com o tricampeão marcando gols importantes e jogando muita bola. Só que, ao final do primeiro turno, algumas dúvidas iriam pairar sobre o clube carioca.

 

É mesmo favorito?

Reportagem declarando o técnico do Flu o “culpado” pela queda de rendimento do time.

 

Após a vitória grandiosa sobre o Palmeiras, o Fluminense caiu de produção nas cinco rodadas finais do Robertão. O time empatou em 1 a 1 com o Botafogo jogando sem Flávio, expulso contra o São Paulo, e com Mickey (autor do gol tricolor) em seu lugar. No duelo seguinte, derrota por 1 a 0 para o Santos no Pacaembu, seguida de um empate em 1 a 1 com o Flamengo (gol de Cafuringa). Na 15ª rodada, duelo decisivo contra o Atlético-MG de Telê, o arquiteto daquele Flu. E, em um Mineirão com quase 60 mil pessoas, o Galo venceu por 3 a 1 jogando um futebol eficiente e com a base que seria, no ano seguinte, campeã brasileira. Na última rodada, o empate em 1 a 1 com o Atlético-PR (ainda sem o ‘h’ na época) classificou o Flu para o quadrangular final na segunda posição do Grupo B – atrás do Cruzeiro -, com oito vitórias, quatro empates, quatro derrotas, 26 gols marcados e 16 sofridos em 16 jogos. 

Contra o Atlético-PR, Flu sofreu na mão do juiz.

 

Mesmo com a vaga, surgiam rumores de que o clima não estava bom no clube e que os jogadores não aprovavam mais o técnico Paulo Amaral. Por causa do estilo rude, os atletas passaram a se sentir mais inseguros, lembrando que o peso de uma derrota era maior com o castigo sendo as broncas impiedosas do treinador nos vestiários. A revista Placar até fez uma matéria na época destacando o clima hostil que Amaral criava no Flu, dizendo que “ele estava condenado a ser culpado pelo fracasso do Fluminense assim que ele perder mais pontos no Robertão”. Só que, embora fosse duro no trato com os jogadores e sempre bravo nos treinamentos – os quais via das arquibancadas das Laranjeiras, por cima, e aos berros -, ele trabalhava de maneira séria e honesta. E por isso que o time, de um jeito ou de outro, ia para frente. 

Mesmo com esse clima, o Flu era descrito como um “time forte, duro, mecânico e pouco humano, mas com a malícia de Samarone e a alegria de Cafuringa”. A torcida acreditava em uma boa campanha naquele quadrangular. E no título que iria acabar com a hegemonia paulista na competição (Palmeiras, duas vezes, e Santos, eram os únicos campeões do Robertão na época).

 

Brasil Tricolor!

Menção à “Máquina Tricolor” na revista Placar já no quadrangular final.

 

Os adversários do Flu não seriam nada digestos: Palmeiras, Cruzeiro e Atlético-MG. E, para piorar, o artilheiro Flávio – com 11 gols na primeira fase e artilheiro da competição – estava de fora do primeiro jogo por problemas musculares. Justo ele, o homem-gol do time. Mas não havia tempo para lamentar. Mickey, que sempre entrava bem no time, foi escalado por Paulo Amaral no ataque e foi exatamente dele o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Palmeiras no dia 13 de dezembro, no Maracanã. Para o duelo seguinte, o Flu teve que ir até Minas encarar o Cruzeiro de Tostão. E, com uma vitória na bagagem, o técnico Amaral estava disposto a ir pra cima para sair com a vitória do Mineirão e ficar muito perto do título, afinal, Galo e Raposa empataram e deixaram o Flu sozinho na liderança. “Não vamos entrar para jogar na defesa, mas também não vamos correr de qualquer maneira para dar campo ao adversário”, disse Amaral à revista Placar na época. O time jogaria em bloco, marcando muito, com Denílson sempre na proteção da defesa e desmantelando as tabelinhas de Tostão e companhia. Didi e Samarone teriam que criar as jogadas para Mickey, outra vez titular, tentar o gol. Pelas pontas, Lula e Cafuringa tentariam pegar os azuis desprevenidos e explorar os contra-ataques.

E, mesmo longe de casa, o Flu venceu por 1 a 0, outro gol de Mickey, incorporando o faro artilheiro de Flávio com toques de “Sobrenatural de Almeida” como Nelson Rodrigues tanto gostava. O time carioca sofreu bastante com as faltas duras dos mineiros e a vista grossa do árbitro, que ainda prejudicou o Tricolor ao expulsar Samarone sem motivo para tanto, após o jogador chutar uma bola para longe. Mesmo assim, o Flu mostrou personalidade e neutralizou as principais jogadas cruzeirenses, com destaque para a ótima partida do goleiro Félix e do cabeça de área Denílson.

Faltava pouco para o título. Um empate com o Galo no Maracanã daria o primeiro caneco nacional ao Fluminense em sua história. No dia 20 de dezembro de 1970, 130 mil pessoas encheram o templo do futebol para o duelo entre Flu e Galo. Sem Samarone (suspenso) e Flávio (contundido), o Flu foi a campo com Félix; Oliveira, Assis, Galhardo e Marco Antônio; Denílson e Didi; Cafuringa, Mickey, Cláudio Garcia e Lula. Após uma pressão inicial do Atlético, o Flu tomou as rédeas do jogo e, após lançamento de Didi, Mickey, de novo ele, cabeceou firme contra o gol de Renato para abrir o placar, aos 33’ do primeiro tempo. O substituto de Flávio naquela reta final completava a trinca de gols. Um gol em cada jogo daquele quadrangular. Simplesmente decisivo! O Maracanã explodiu. Pouco importava a goleada que o Palmeiras ia construindo contra o Cruzeiro – o Verdão venceria por 4 a 2. Aquele 1 a 0 dava o título ao Fluminense. 

Mickey corre pro abraço: ele marcou em todos os jogos do quadrangular final!

 

No segundo tempo, debaixo de muita chuva, o Galo empatou, mas o time tricolor se segurou, jogou com uma raça arrebatadora e segurou o resultado que lhe convinha, preciso, como uma máquina em pleno funcionamento. Ao apito do árbitro José Favilli Neto, o Fluminense era pela primeira vez campeão do Brasil. Conquistava a glória no ano do tri, no campeonato das estrelas, no torneio dos sonhos. Vários torcedores invadiram o gramado e pegaram as camisas dos jogadores como recordação.

Foram 19 jogos, 10 vitórias, cinco empates, quatro derrotas, 29 gols marcados e 16 sofridos. Flávio, com 11 gols, foi o artilheiro do time e só não foi o do torneio pelo fato de ele não ter atuado na reta final. Com isso, Tostão passou o atacante tricolor e terminou na liderança dos goleadores com 12 tentos. O troféu classificou o Flu para a Copa Libertadores de 1971, bem como o Palmeiras, vice-campeão. A frase do goleiro Félix após o jogo resumia muito bem o momento do clube na época. “Pra mim foi o máximo. Depois que vesti a camisa do Fluminense, fui campeão carioca, ganhei a Taça Guanabara, a Copa do Mundo e o Robertão. O que posso querer mais?”.

Denílson (à dir.) ergue a Taça de Prata.

 

 

Mickey, sem dúvida o grande nome do time no quadrangular, também expressou sua emoção com o título:

 

“Depois da cabeçada, fechei os olhos, de emoção. Eu vi o gol. Ouvi a explosão da torcida. Não olhei para a cara do Renato (goleiro do Atlético). Tive vontade de chorar. Era a minha consagração. Afinal, entrei no time para substituir o Flávio. Tinha que fazer os gols que ele fazia, senão não teria coragem de receber o pagamento no fim do mês. Aceitei ser reserva, porque o Flávio é o maior goleador brasileiro, mas jurei a mim mesmo que ninguém sentiria falta dele”. – Mickey, em entrevista à revista Placar, 25 de dezembro de 1970.

 

Novo comando e queda precoce na Liberta

Da esquerda para a direita, em treino do Fluminense, em 1971: Zagallo, Flávio Minuano (ao fundo), Carlos Alberto Parreira, Cafuringa (encoberto por Parreira), um membro da comissão técnica, Júlio Amaral e Mickey. Foto: Acervo Terceiro Tempo.

 

O título brasileiro não seria suficiente para manter o técnico Paulo Amaral no Flu em 1971, e a diretoria trouxe o técnico Zagallo para a disputa da Copa Libertadores. Na época, a competição só dava vaga ao primeiro colocado de cada grupo na primeira fase e, ao lado do Palmeiras e dos venezuelanos do Deportivo Itália e do Deportivo Galícia, a briga seria praticamente restrita entre cariocas e paulistas. Mas tudo deu errado. O Flu até venceu o Palmeiras em SP (2 a 0), o Deportivo Itália na Venezuela por 6 a 0 e os dois jogos contra o Galícia (4 a 1, em casa, e 3 a 1, fora), mas tropeçou onde não poderia tropeçar: no Maracanã. As derrotas para o Palmeiras (3 a 1) e o surpreendente revés por 1 a 0 para o Deportivo Itália custaram a vaga aos cariocas, que terminaram na segunda posição com oito pontos, atrás do classificado Palmeiras, com 10. O campeão daquela temporada acabaria sendo o Nacional-URU

A decepção na Libertadores teria que ficar para trás e o clube focou suas atenções na disputa do Campeonato Carioca, que tinha como favorito o Botafogo de Carlos Alberto Torres, Paulo César Caju, Jairzinho e Brito, todos campeões mundiais com a seleção brasileira no ano anterior. No primeiro turno, o Flu manteve-se invicto, com três vitórias – incluindo um 3 a 1 no Vasco (gols de Denílson, Lula e Marco Antônio) – e três empates, suficientes para classificar o time à fase final. Do outro lado, o Botafogo venceu cinco e empatou um dos seis jogos – incluindo uma vitória sobre o Flu por 1 a 0 – e confirmou o favoritismo. 

No segundo turno, todos jogariam contra todos em partidas de ida e volta. Nas primeiras duas rodadas, o Flu empatou com o Olaria sem gols e perdeu para o Botafogo por 1 a 0 em um jogo bastante polêmico. A vitória do clube alvinegro em 18 de abril seria a única derrota do Fluminense na competição e só aconteceu por causa de um pênalti mal marcado pelo juiz e amplamente divulgado pela mídia na época. Jairzinho se jogou na área sem ninguém próximo a ele o suficiente para derrubá-lo e mesmo assim o árbitro assinalou a penalidade. Esse resultado acabaria influenciando bastante a reta final do torneio.

 

A vitória rendeu muita comemoração do lado botafoguense e Paulo César Caju chegou a posar com uma faixa de campeão para uma edição da revista Placar dias após o clássico. Mas aquela soberba acabaria mexendo com os brios dos rivais. E, claro, do Fluminense, ainda mais com um técnico energético como Zagallo.

 

Quem é mesmo o campeão?

O famoso lance que rende discussões entre alvinegros e tricolores até hoje.

 

Antes quase 100%, o Botafogo começou a tropeçar nas próprias pernas e na soberba exatamente após a vitória sobre o Flu. Nas cinco rodadas seguintes, o alvinegro empatou quatro jogos e venceu apenas um. O Flu seguiu invicto, e, faltando quatro rodadas para o fim, o Botafogo tinha quatro pontos de vantagem sobre o Tricolor. Acontece que o alvinegro empatou com o Bonsucesso e com o América e perdeu o clássico para o Flamengo por 2 a 0 no dia 13 de junho. Já o Flu venceu dois jogos e empatou um, resultados que diminuíram a diferença para apenas um ponto. Com isso, o duelo entre a dupla no dia 27 de junho se transformou em uma decisão. O Botafogo jogaria pelo empate. Ao Flu, só interessava a vitória. O clima de final foi tão grande que o Maracanã recebeu mais de 160 mil torcedores, sendo 142.339 pagantes, o maior da história do “Clássico Vovô”. 

E o Flu conseguiu uma vitória do jeito mais saboroso possível: com um gol no finalzinho e após um lance chorado pelos alvinegros até hoje. No lance do gol de Lula, o lateral tricolor Marco Antônio teria feito falta no goleiro Ubirajara que não foi assinalada pelo árbitro. O lance acabou sendo uma doce vingança justamente pelo jogo lá do turno da segunda fase. E, com a vitória por 1 a 0, o Fluminense faturou mais um título estadual. A equipe terminou com oito vitórias, cinco empates e apenas uma derrota na segunda fase, com 23 gols marcados (melhor ataque) e 10 sofridos. Na classificação final, o Flu foi absoluto: 20 jogos, 11 vitórias, oito empates, uma derrota, 30 gols marcados (melhor ataque) e 13 gols sofridos (melhor defesa dentro dos que participaram das duas fases do campeonato). 

 

“Essa conquista foi especial. Antes de entrar em campo (contra o Botafogo), fizemos um pacto pela vitória; afinal, se deixaram a gente chegar até a final, não poderíamos desperdiçar a chance de sermos campeões. Lembro-me de que foi um jogo duríssimo. No ataque do Botafogo anterior ao nosso gol, mandei para escanteio uma falta cobrada pelo PC Caju. Depois da defesa, ele veio falar ‘como eu tinha conseguido pegar aquela bola’. Ele estava de brincadeira, né? Eu mesmo, quando treinávamos na seleção, dizia para ele chutar sempre no canto do goleiro, que, normalmente, já se prepara para pular para o lado onde fica a barreira. Fingi que ia fazer isso, mas voltei e espalmei. No escanteio, saí socando tudo, a bola foi para o Oliveira e aconteceu o ataque em que saiu o nosso gol”. Félix, em entrevista publicada no livro “Os dez mais do Fluminense”, de Roberto Sander, Maquinária Editora, 2009.

Mickey, do Flu, comemorando mais um gol na vitória por 3 a 1 sobre o Flamengo na Taça Guanabara. Foto de Arquivo / Agência O Globo – Negativo: 73954.

 

Para confirmar a boa fase, o Tricolor ainda venceu a Taça Guanabara em agosto daquele ano, conquistada após vitória por 3 a 1 sobre o Flamengo em novo show de Mickey, que anotou os três gols do jogo. Nessa partida, o técnico tricolor foi o ex-zagueiro Pinheiro (técnico do time de juniores do clube na época), que assumiu o comando da equipe pelo fato de Zagallo estar a serviço da seleção. 

 

À espera da versão turbo

A primeira Máquina Tricolor acabou perdendo potência no segundo semestre e fez uma campanha bem abaixo das expectativas no Campeonato Brasileiro. O time só voltaria a brilhar em 1975, quando Rivellino e uma nova geração de craques transformaram o Flu em um dos esquadrões mais fortes e encantadores do país, a versão “turbo” e mais conhecida da Máquina Tricolor (leia mais clicando aqui).

Mas é preciso enaltecer a primeira das máquinas, aquela de 1969-1971, que faturou títulos históricos, revelou novos ídolos e manteve o tricolor absoluto na maioria dos clássicos que disputou. Contra o Vasco, por exemplo, a equipe ficou 13 jogos sem perder entre abril de 1969 e julho de 1971, com oito vitórias e cinco empates, período no qual Lula se consagrou como o maior carrasco vascaíno com a camisa tricolor. Ele marcou 12 gols contra o rival e é até hoje o maior goleador do Flu na história dos confrontos. E, contra o Flamengo, o Flu disputou 11 jogos entre maio de 1970 e dezembro de 1971, venceu seis e empatou cinco, retrospecto que por pouco não igualou a maior série invicta do clube em Fla-Flus lá dos anos 1930, de 12 jogos. Em 12 de dezembro de 1971, o Flu aplicou um novo 4 a 1 sobre o rival rubro-negro, com dois gols de Mickey, um de Marco Antônio e um de Silveira, um verdadeiro Grand Finale para um time imortal.

 

Os personagens:

 

Félix: com mais de 300 jogos pelo Flu e participação decisiva nos títulos daquela era de ouro, o goleiro é até hoje um dos maiores ídolos da história tricolor. Alternava partidas magníficas com outras um pouco abaixo da média, mas sempre crescia nos momentos decisivos. Prova disso são seus títulos e, claro, sua participação na Copa de 1970. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Jorge Vitório: era o goleiro do Flu até a chegada de Félix, em 1968. Foi para a reserva, mas ainda sim disputou 171 partidas como titular entre 1965 e 1973, com aproveitamento de quase 60%.

Oliveira: chegou em 1966 após bons jogos no Paysandu e dominou a lateral-direita tricolor até 1973, disputando mais de 340 jogos. Era muito eficiente na marcação e proteção do setor direito da defesa para que os atacantes não se preocupassem muito em voltar. Conquistou três estaduais, três Taças Guanabaras e um título nacional pelo Flu.

Toninho: o lateral podia atuar tanto na direita quanto na esquerda com a mesma eficiência, adquirida quando passou a ser treinado por Paulo Amaral, em 1970. Tinha fôlego para ir ao ataque e voltar rapidamente, mas não conseguiu brigar pela posição com Oliveira e Marco Antônio, que viviam ótimas fases e eram mais focados do que ele.

Galhardo: outro que não brincava em serviço, Galhardo foi um dos principais nomes do setor defensivo do Tricolor naquela época. Se posicionava bem e não era de aparecer. Mostrou enorme entrosamento com Assis. Disputou 162 jogos entre 1968 e 1971.

Assis: era mais técnico do que o companheiro de zaga e podia atuar, também, na lateral-esquerda. Começou no Remo antes de brilhar pelo Fluminense, pelo qual disputou mais de 400 jogos.

Marco Antônio: foi um dos mais eficientes e talentosos laterais-esquerdos da história do futebol brasileiro. Lançado por Telê Santana no time titular com apenas 18 anos, Marco Antônio não sentiu o peso da responsabilidade e virou titular absoluto do time. Apoiava bem o ataque e não deixava a zaga desprotegida. Técnico e com ampla visão de jogo, marcava vários gols – foram 28 em 328 jogos disputados como titular entre 1969 e 1976. Tanto talento levou o garoto à seleção que disputou e venceu a Copa de 1970. 

Denílson: cabeça de área, destruidor de jogadas, responsável pelo apoio ao ataque e protetor da zaga. Forte, alto (1,90m) e dono do meio de campo tricolor. Denílson foi a referência máxima do miolo central naquela primeira versão da Máquina. Ganhou o apelido de “Rei Zulu” pela dominância em campo. Disputou 435 jogos e marcou 17 gols no período em que esteve no Fluminense, de 1962 até 1973. É o 7º jogador com mais jogos pelo Flu na história. Foi convocado algumas vezes para a seleção e disputou nove jogos, incluindo dois na Copa do Mundo de 1966, mas não conseguiu brilhar por causa da alta concorrência na época.

Silveira: polivalente, atuava na zaga e também no meio de campo. Marcava gols em suas investidas ao ataque – foram 29 em 316 jogos pelo tricolor – e foi uma das mais importantes peças do time entre 1966 e 1975. Conquistou quatro Cariocas e o Brasileiro de 1970 pelo Flu.

Didi: não confunda este Didi com o homônimo bicampeão mundial com a seleção brasileira em 1958 e 1962 e que também jogou no Flu. Didi Rodrigues jogou de 1969 até 1973 e atuava no meio de campo, armando jogadas e municiando o ataque com passes e lançamentos, enquanto Denílson cuidava da marcação e proteção. Muito habilidoso, foi essencial na conquista nacional de 1970. 

Lulinha: meia-armador, não era titular absoluto, mas entrou em vários jogos entre 1970 e 1971. Disputou 51 jogos e marcou dois gols pelo Flu. 

Cafuringa: ponta-direita habilidoso, jogou no Flu de 1967 até 1977, disputando 336 jogos e marcando 26 gols. Foi um dos principais nomes do time na época e uma das principais armas ofensivas tanto do time campeão carioca de 1969 quanto do campeão nacional em 1970. 

Wilton: outro ponta-direita de qualidade, alternava com Cafuringa na posição, mas levava desvantagem pelo companheiro ser mais técnico. Ficou famoso pelo gol que marcou com uma “marota” ajudinha da mão em um Fla-Flu de 1968. Disputou 195 jogos e marcou 19 gols pelo tricolor entre 1967 e 1975. 

Flávio: um dos mais letais artilheiros do futebol brasileiro no final dos anos 1960 e boa parte dos anos 1970, Flávio Minuano tinha um chute poderoso, cabeceava bem, era perigoso nas cobranças de falta e não desperdiçava uma chance dentro da área. Por onde passou, marcou gols e cravou seu nome nas mais diversas artilharias de campeonatos. Após boa passagem pelo Corinthians, chegou ao Flu em 1969 e logo de cara faturou o Carioca e foi artilheiro do torneio com 15 gols. No ano seguinte, marcou 18 e foi outra vez artilheiro. E, no mesmo ano, só não foi artilheiro do Brasileiro por ter se contundido na reta final. Disputou 114 jogos e marcou 93 gols pelo Flu, uma ótima média de 0,82 gol por jogo. Anos depois, foi artilheiro no grande Inter campeão brasileiro de 1975.

Mickey: o atacante ganhou o apelido do famoso personagem da Disney em sua cidade natal, Presidente Getúlio (SC), por ter as orelhas grandes. Mas Adalberto Kretzer se destacava mesmo pelo futebol e pelo poder de decisão que incorporou naquela era de ouro pelo Flu. O jogador assumiu a titularidade após a contusão de Flávio na reta final do Brasileiro de 1970 e foi simplesmente essencial na conquista do título com um gol em cada jogo do tricolor. Jogou de 1969 até 1974 no Flu e marcou 27 gols em 98 jogos. Tinha grande visão de jogo, se movimentava bastante e era muito dedicado. Foi campeão, também, pelo Bahia, pelo São Paulo e pelo Ceará.

Samarone: um dos maiores ídolos da história do Fluminense, Samarone jogou de 1965 até 1971 pelo Flu, disputando 211 jogos e marcando 51 gols. Tinha muita personalidade e vibração e era essencial nas jogadas de ataque da equipe na época, principalmente sob o comando de Telê Santana. Chutava muito forte de fora da área e possuía enorme visão de jogo. Só não teve ainda mais destaque por causa das seguidas lesões que sempre o atormentavam. Nelson Rodrigues dizia que Samarone “fazia jogadas de um virtuosismo, de uma beleza, inexcedíveis”.

Cláudio Garcia: atuava como meia ou atacante e fez boas partidas pelo Tricolor, com muita regularidade e polivalência no setor ofensivo. Jogou de 1967 até 1971 no clube carioca, disputou 164 jogos e marcou 35 gols.

Jair: atuava como centroavante e jogou várias partidas como titular no período em que esteve no Flu – 97 dos 131 jogos. Anotou 32 gols e permaneceu no clube de 1969 até 1973. 

Lula: depois de brilhar no futebol potiguar, foi visto por um olheiro do Fluminense, que o contratou em 1965. Foi emprestado ao Palmeiras, mas voltou em 1967 para jogar até 1974 e fazer história. Rápido, oportunista e prolífico, foi essencial no esquema tático do time atuando pela ponta-esquerda nas grandes conquistas daquele período. Disputou 377 jogos e marcou 102 gols pelo Flu. Outro que brilhou no Internacional campeão brasileiro de 1975, reeditando a parceria de sucesso ao lado de Flávio.

Gilson Nunes: atuava aberto pelas pontas do ataque e jogou como titular em boa parte dos anos 1960 até perder espaço em 1969, com a chegada de Telê. Ficou de 1963 até 1969 no Flu, pelo qual disputou 156 jogos e marcou 31 gols.

Telê Santana, Paulo Amaral e Zagallo (Técnicos): os três foram vencedores e escreveram seus nomes na história do clube, mas é inegável o papel decisivo do Mestre Telê na montagem do time que viria a ser campeão brasileiro em 1970. O treinador moldou um time forte, disciplinado taticamente e que conseguia encarar qualquer adversário de igual para igual. Com essas virtudes, o Flu foi campeão carioca em 1969. Telê teve aproveitamento de 63% naquela passagem pelo Tricolor, com 34 vitórias, 16 empates e 12 derrotas em 62 jogos. Em 1970, Paulo Amaral aumentou a vitalidade e vigor físico da equipe e, mesmo com os tropeços na reta final da primeira fase do Robertão e a perda do título estadual, deu a volta por cima graças à boa fase de Mickey e ao elenco focado no título. Naquela passagem vitoriosa pelo Flu, Paulo Amaral acumulou 34 vitórias, 15 empates e 09 derrotas em 58 jogos, com 104 gols marcados e 45 sofridos, um aproveitamento de 67%. Já Zagallo foi campeão carioca em 1971 destronando o favorito Botafogo, mas não conseguiu um sucesso maior por desavenças com o elenco, em especial Samarone. O Velho Lobo teve quase 55% de aproveitamento, com 23 vitórias, 18 empates e 12 derrotas em 53 jogos. Leia mais sobre a carreira de Telê Santana clicando aqui. 

 

O Imortais deixa aqui um agradecimento especial a Alexandre Berwanger, que concedeu várias imagens, informações e estatísticas essenciais para a produção dessa matéria. Muito obrigado! 🙂

 

Extra:

 

Veja uma reportagem especial sobre o título brasileiro de 1970.

 

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2 thoughts on “Esquadrão Imortal – Fluminense 1969-1971

  1. Podia fazer os imortais do futebol do flu, 1949 a 1960, flu foi bicampeão do Rio são Paulo 1957 e 1960, vicecampeao do Rio são Paulo em 1954, campeão carioca em 1951 e1959 campeão da copa rio Internacional em 1952, conquistou a zona sul da taça Brasil em 1960 ainda teve a taça olímpica em 1949.

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