Jogos Eternos – Flamengo 5×0 Grêmio 2019

 

Data: 23 de outubro de 2019

O que estava em jogo: uma vaga na final da Copa Libertadores da América de 2019

Local: Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã), Rio de Janeiro, Brasil

Juiz: Patricio Loustau (ARG)

Público: 69.981 pessoas

Os Times:

Clube de Regatas do Flamengo: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; Gerson (Diego, aos 41’ do 2º T) e Willian Arão; Éverton Ribeiro, De Arrascaeta (Piris da Motta, aos 23’ do 2º T) e Bruno Henrique (Vitinho, aos 28’ do 2º T); Gabriel Barbosa. Técnico: Jorge Jesus.

Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense: Paulo Victor; Paulo Miranda, Pedro Geromel, Kannemann e Cortez; Alisson (Thaciano, aos 30’ do 2º T), Matheus Henrique, Michel, Maicon (Diego Tardelli, aos 17’ do 2º T) e Everton; André (Pepê, aos 12’ do 2º T). Técnico: Renato Gaúcho.

 

Placar: Flamengo 5×0 Grêmio. Gols: Bruno Henrique-FLA, aos 41’ do 1º T; Gabriel Barbosa-FLA, aos 1’ e aos 10’ (pênalti), Pablo Marí-FLA, aos 21’ e Rodrigo Caio-FLA, aos 25’ do 2º T.

 

“Qual é o melhor mesmo?”

 

“O Grêmio tem o melhor futebol do Brasil com resultado. O Grêmio gosta de ganhar, gosta da bola, gosta de agredir. Não ganhou seis títulos em dois anos e meio à toa. Encara qualquer time na casa do adversário de igual para igual”. A declaração que você acabou de ler foi proferida por Renato Gaúcho logo após a classificação de seu time sobre o Palmeiras-BRA, no Pacaembu, nas quartas de final da Libertadores de 2019. Ele tratou o avanço tricolor como “épico” e se gabava pelas conquistas à frente do clube desde 2016. Só que Renato parecia ter esquecido que o seu time havia feito um bom jogo, sim, mas que não era mais o mesmo de 2018. Muito menos o de 2017, ano do título da Liberta. A zaga havia se transformado em uma peneira – principalmente após a saída do goleiro Marcelo Grohe. O caldeirão da Arena não era mais decisivo. E ele não esperava o que vinha pela frente. Seu adversário nas semifinais seria o Flamengo, clube que já ostentava uma rivalidade com os gaúchos desde a final do Brasileiro de 1982, vencido pelo rubro-negro em pleno Olímpico. E era o Flamengo de Jorge Jesus, o técnico que faz o simples. Que manda seu time jogar um futebol pra frente, ofensivo. Sem essa de futebol de resultado, de atacante voltar para marcar, de covardia e tantas besteiras que somos obrigados a ver nos gramados brasileiros há muito, muito tempo. Era um Flamengo que buscava uma final de Libertadores desde 1981, o ano de seu único título, tempos que muitos torcedores por um momento pensaram que jamais iriam voltar. Mas, durante 90 minutos do dia 23 de outubro de 2019, a ode ao futebol ofensivo, ao ataque sem limites e ao tempo artístico dos anos 1980 voltaram. O que o Maracanã presenciou naquela noite foi um espetáculo. Uma apresentação colossal. Um estrangulamento. Depois de abrir o placar no final do primeiro tempo em um ataque mortal, o Flamengo matou o Grêmio. Fez quatro gols em apenas 25 minutos. Primeiro, com Gabriel, num chute explosivo. Depois, de pênalti, com o mesmo camisa 9. Em seguida, saiu o quarto, em jogada aérea, repetida minutos depois no quinto gol. O Fla ainda fez outro, mas este acabou anulado por impedimento. Placar? 5 a 0. Os jogadores do Grêmio ficaram atordoados. Tiveram que se segurar. A Libertadores ganhava uma de suas maiores goleadas em uma fase semifinal da história. Só o Atlético Nacional-COL, nos 6 a 0 sobre o Danubio-URU, em 1989, e o San Lorenzo-ARG, nos 5 a 0 sobre o Bolívar-BOL, em 2014, conseguiram tanto. Estava consolidado o show, a vaga ao rubro-negro na decisão após 38 anos e o veredicto: o Flamengo era o verdadeiro dono do melhor futebol do Brasil. Ou seria da América? É hora de relembrar.

 

Pré-jogo

O belo cartaz feito pela Conmebol – e publicado no Twitter da entidade -, com a cidade de Santiago ao fundo, deu contornos mitológicos ao duelo!

 

A definição de Flamengo e Grêmio como um dos duelos das semifinais da Libertadores ratificou a condição dos times mais competitivos do Brasil em 2019. Eram as equipes mais badaladas e as que praticavam o futebol mais bem jogado do país, em especial o time carioca, que vinha em uma crescente notável desde que o técnico português Jorge Jesus assumiu o Mengo em meados de junho. Ele, enfim, conseguiu fazer o time jogar bola (após a saída de Abel Braga) com a quantidade de bons jogadores que tinha: Filipe Luís, Rafinha, Gabriel Barbosa, Bruno Henrique e De Arrascaeta eram só alguns dos famosos que começaram a engrenar com o estilo de futebol ofensivo proposto por Jesus. 

O início teve um susto, com a eliminação nas quartas de final da Copa do Brasil para o futuro campeão Athletico-PR, mas a equipe deu a volta por cima, engatou uma grande sequência de vitórias no Brasileirão, assumiu a liderança e levou a boa fase também para a Libertadores, na qual o Flamengo estava nas oitavas de final após se classificar em primeiro lugar no complicado Grupo D – ao lado de LDU-EQU, Peñarol-URU e San José-BOL – com 10 pontos, três vitórias, um empate e duas derrotas em seis jogos. 

O primeiro desafio foi contra o Emelec-EQU, que derrotou o time carioca no Equador por 2 a 0. Na volta, vitória rubro-negra por 2 a 0 e triunfo nos pênaltis por 4 a 2. Nas quartas, duelo doméstico contra o Internacional. No primeiro jogo, no Maracanã, vitória carioca por 2 a 0, com dois gols de Bruno Henrique. Na volta, no Beira-Rio, Rodrigo Lindoso fez 1 a 0 para o Inter, mas Gabriel empatou e sacramentou a classificação do Flamengo às semifinais, algo que não acontecia desde 1984, quando a semifinal ainda era em formato triangular. Curiosamente, quem eliminou o time 35 anos atrás foi o Grêmio, o adversário dos cariocas na semi do novo século.

Jorge Jesus mudou completamente a forma de jogar do Flamengo e fez o time “pegar no breu”. Foto: Nelson Almeida / AFP.

 

O tricolor gaúcho, embora viesse de anos inesquecíveis com grandes títulos em 2016, 2017 e 2018, não empolgava mais como outrora. O goleiro Marcelo Grohe, o atacante Jael e o meia Cícero haviam deixado o time, Luan sofria com contusões e a Arena não impunha mais a pressão que tanto impôs nos anos de ouro da equipe. O divisor de águas foi a eliminação dentro de casa para o River Plate nas semis da Libertadores de 2018, quando o Grêmio vencia os argentinos por 1 a 0 (e tinha 2 a 0 no agregado) e permitiu a virada por 2 a 1, resultado que eliminou o time gaúcho. E os resultados em 2019 eram a prova de que o time dava sinais de esgotamento.

Luan e Everton comemoram: cena ficou mais escassa em 2019.

 

Na Copa do Brasil, a equipe foi eliminada nas semifinais para o Athletico-PR após vitória em casa por 2 a 0, derrota por 2 a 0 na volta e revés nos pênaltis por 5 a 4. No Brasileiro, o time colecionou resultados ruins em casa (derrota por 2 a 1 para o Santos, 5 a 4 para o Fluminense e 1 a 0 para o Bahia, além dos empates em 3 a 3 com a Chapecoense e 0 a 0 com o Corinthians) e muitos tropeços fora muito por causa do técnico Renato Gaúcho alternar demais os jogadores do time titular e poupá-los demasiadamente. Até o dia 21 de outubro, a equipe estava na 7ª posição com 11 vitórias, oito empates e oito derrotas que praticamente minaram as pretensões tricolores no torneio, afinal, perder oito jogos é muita coisa para um clube que tinha total condição de brigar pelo título nacional.

Na Libertadores, a equipe se classificou em segundo lugar no Grupo H, com 10 pontos e duas derrotas, incluindo uma de 1 a 0 para o Libertad-PAR em plena Arena. Com apenas a 12ª melhor campanha entre os 16 classificados, o tricolor conseguiu a vingança contra os paraguaios ao vencer tanto o duelo da ida (2 a 0) quanto da volta (3 a 0). Nas quartas, nova apresentação abaixo da média em casa e derrota por 1 a 0 para o Palmeiras, em reedição de um clássico marcante nos anos 1990. Mas, na volta, os gaúchos decidiram a classificação ainda no primeiro tempo com o placar de 2 a 1, de virada, em pleno Pacaembu. O Grêmio se mostrava mais perigoso fora de casa do que dentro dela. Conseguia os resultados que precisava, mas ainda longe do futebol praticado em parte de 2018 e principalmente em 2017.

Alisson deixou o seu na vitória sobre o Palmeiras.

 

Mesmo assim, a equipe era tida pela imprensa como uma das que mais praticava o “bom futebol” no Brasil. Perto do nível dos outros times, era mesmo. Mas qual era o melhor: Grêmio ou Flamengo? O tira-teima começou no primeiro duelo entre cariocas e gaúchos, na Arena. E o time rubro-negro simplesmente “amassou” o rival. Trucidou os gaúchos com uma velocidade impressionante, toques envolventes e várias alternativas no ataque. Foram quatro gols. Mas apenas um valeu, de Bruno Henrique, no segundo tempo. Os outros três foram anulados pelo VAR. O Grêmio só conseguiu seu gol faltando três minutos para o fim do jogo, com Pepê. Foi nítida a supremacia do Flamengo, o volume de jogo e as alternativas que contrastavam com a falta de ímpeto gremista e o frágil sistema defensivo, que tinha no goleiro Paulo Victor sua grande debilidade. Ele não inspirava confiança alguma e fazia o torcedor tricolor clamar por Marcelo Grohe, Danrlei, Dida, Mazarópi, Lara e tantos outros craques que já vestiram o manto do Imortal. O empate dava a falsa sensação de que tudo estava aberto. Por mais que o Grêmio tivesse mais camisa na Libertadores que o Flamengo, a vantagem era carioca não só por poder jogar pelo empate sem gols, mas pela diferença técnica que tinha. O Flamengo “deitava” até jogando com time reserva no Brasileiro, seja em casa, seja fora. O Grêmio, perdia.

Gabriel e Bruno Henrique: dupla deu um trabalho danado à zaga gremista na Arena. Foto: REUTERS/Sergio Moraes.

 

No dia do jogo, o Maracanã estava efervescente e recebeu quase 70 mil pessoas, que formaram um grande mosaico com os dizeres “Até o fim” e a taça Libertadores em seguida. A Nação acreditava na vitória, mas sabia que o adversário era hostil. Os primeiros minutos seriam fundamentais para a manutenção da vantagem. O Flamengo vinha completo, com sua escalação ideal. Já o Grêmio apostava em André sozinho no ataque e nas investidas de Everton e Alisson pelas pontas, além da marcação de Maicon pelo meio e no entrosamento da dupla Geromel e Kannemann na defesa. O ambiente era maravilhoso. E a expectativa de um grande jogo, o mais esperado da temporada no futebol brasileiro.

 

Primeiro tempo – Da contenção tricolor à abertura rubro-negra

O jogo começou sem espaços, tático. O Grêmio jogava mais pela esquerda, com sua estrela Everton, que parecia correr mais que qualquer outro gremista. Aos 5’, Bruno Henrique disparou pela direita e só foi contido por um carrinho de Kannemann, que levou amarelo. Se o tricolor fosse para a final, o zagueiro não poderia jogar por estar pendurado. A cobrança de falta acabou pouco incisiva e o Grêmio conseguiu se reorganizar, marcando no campo flamenguista e dificultando a saída de bola. Em compensação, dava espaços atrás, o que levava perigos em contra-ataques e roubadas de bola – como no lance já mencionado de Bruno Henrique. Aos 10’, Cortez perdeu para De Arrascaeta, que fez a jogada com Éverton Ribeiro, mas o chute pegou na zaga. Na sequência, Gabriel recebeu na área, cabeceou e o goleiro Paulo Victor defendeu. Só aos 18’ que aconteceu o primeiro grande lance do Grêmio. Everton recebeu na esquerda, driblou Rodrigo Caio e cruzou na área, mas Maicon, que não tinha faro artilheiro, chutou fraco e sem perigo. Se fosse Luan, Lucas Barrios, Jael…

O Grêmio seguiu com sua marcação avançada e dificultando a troca de passes do Flamengo, mas, aos 26’, Éverton Ribeiro conseguiu quebrar a linha defensiva tricolor ganhando dividida de Michel no meio de campo. Ele partiu em direção ao ataque, tocou na direita para Rafinha, que cruzou para Bruno Henrique na área. O atacante apareceu por trás de Cortez, cabeceou e a bola tirou tinta do pé da trave esquerda do goleiro! Mesmo sofrendo com a marcação em linha do rival, era o Flamengo que criava mais chances e de maneira mais incisiva. Quando chegava, o Grêmio não chutava e Diego Alves era um mero espectador do jogo. Paciente, o rubro-negro via que seu gol era questão de tempo. Rafinha aparecia constantemente pela direita, empurrando Cortez para a defesa e abrindo espaços. E, com espaços, o Flamengo era letal. O Grêmio começou a errar mais as saídas de bola, principalmente no meio de campo.

Rápido e sempre ligado, Bruno Henrique foi um dos principais nomes do ataque flamenguista.

 

Aos 30’, em disputa entre Willian Arão e Everton, o gremista levou amarelo por chutar o adversário em lance de total destempero, acirrando os nervos dos dois lados. Com a marcação incisiva, o Grêmio passou a cansar. Everton ia e voltava do ataque, fazendo aquela velha função tão amada pelos técnicos retranqueiros e burocráticos que perpetuam no Brasil há vários anos (poxa, até tu, Renato? 🙁  ). Era um desgaste visível, algo não visto no Flamengo. Gabriel era atacante. Ponto. Não tinha que ficar voltando que nem um condenado para recuperar a bola. Imagine fazer isso durante os 90 minutos? Haja perna! E, quando ela for necessária para o ofício – que é atacar – o que vai acontecer? Oras, vai pedir arrego! 

Alisson e Rodrigo Caio. Foto: Mauro Pimentel / AFP.

 

Enquanto isso, aos 34’, De Arrascaeta chutou pro gol (ou tentou cruzar?) pela direita após boa jogada de Éverton Ribeiro, e Paulo Victor teve que espalmar. No rebote, Gabriel chutou, mas a bola ficou com a zaga. Aos 37’, o Grêmio conseguiu uma rara troca de passes, sonorizada por vaias pela torcida flamenguista. Aos 39’, Gerson tocou na área para Gabriel, que dominou e bateu seco. O goleiro gremista defendeu bem, sem rebote, em outra grande chance carioca.

O Grêmio foi com um esquema muito defensivo e que acabou desgastando Alisson e Everton, que tinham que recuar. Com André sozinho e nulo no ataque, o Flamengo deitou. E goleou.

 

Aos 40’, Alisson dividiu com o goleiro Diego Alves e ganhou escanteio. Renato deu bronca no jogador para ele ter agilidade na cobrança, mas o meia pediu calma ao treinador para retomar o fôlego. Renato, que demonstrava muito nervosismo, recuou. A cobrança não surtiu efeito e, aos 41’, eis que o Flamengo encontrou o que precisava: espaço. E um contra-ataque perfeito. Éverton Ribeiro roubou a bola de Maicon perto do meio de campo e deixou com Gerson. Este tocou para Bruno Henrique, que saiu em disparada pelo meio e deixou com Gabriel. O atacante chutou pro gol, Paulo Victor espalmou, mas deu rebote fácil para Bruno Henrique, que só teve o trabalho de empurrar a bola pro gol: 1 a 0. Festa no Maraca! E outro lance decisivo do atacante, que já havia participado de 11 dos 18 gols do Flamengo àquela altura na Libertadores. Além disso, foi o gol de número 25 do jogador em 50 jogos na temporada. A cada dois jogos, um gol do atacante!

Bruno Henrique corre pro abraço: 1 a 0 Mengo! Foto: Sergio Moraes / Reuters.

 

Marcar um gol no final do primeiro tempo foi perfeito para o Flamengo. O time foi para o intervalo com a vantagem de 2 a 1 no agregado e ainda esfriou o rival, que só poderia buscar pelo menos o empate no segundo tempo. Mas, jogando daquela maneira e sem alternativas ofensivas, o Grêmio não dava mostra alguma de reação. Em compensação o Flamengo…

 

Segundo tempo – É o ai Jesus!

Logo no primeiro minuto, Gabriel deixou o seu. Foto: Bruno Baketa / AGIF.

 

A saída para a etapa complementar foi do Flamengo. E, ao contrário do que muito time faz hoje em dia, não chutou para trás como permite a FIFA há algum tempo. Tocou pra frente, como nos velhos tempos. Como o Flamengo dos anos 1980 tanto fazia. E isso foi o prenúncio do que estava por vir. Ofensividade. Apetite pelos gols. Fazer o que o VAR tirou em Porto Alegre. Mostrar como se joga futebol. Provar qual era o melhor time do Brasil. Depois de alguns passes, Filipe Luís tocou para De Arrascaeta, que passou para Bruno Henrique. Ele perdeu a bola para Geromel, mas foi brigar por ela e conseguiu recuperá-la do capitão gremista. O camisa 27 invadiu a área, chutou cruzado e Éverton Ribeiro bateu, mas a bola desviou e foi para escanteio. De Arrascaeta cobrou, a zaga desviou e a bola passou por todo mundo, mas não por Gabriel. Ele bateu de primeira, do jeito que veio, e marcou um golaço: 2 a 0.

Era tudo o que o Flamengo queria. E tudo o que o Grêmio temia. O tricolor não poderia mais continuar no jogo da “pressão sem pressão”, com o perdão do trocadilho. Tinha que se mandar para o ataque. E isso ia gerar os espaços para o rubro-negro, principalmente no meio de campo, setor no qual o time era absoluto. E, aos 7’, Bruno Henrique recebeu de Filipe Luís, escapou da falta do primeiro marcador, mas foi derrubado por Geromel na sequência. Pênalti! Gabriel foi para a bola e bateu firme, clássico, como manda o manual do matador: 3 a 0.

Festa rubro-negra após o terceiro gol. Foto: André Durão / GE.

 

Aos 13’, Pepê entrou no lugar de André, que foi direto para o banco, sentou e demonstrou seu descontentamento. Alguns assentos depois estava Renato, sentado, indignado, totalmente o oposto do Renato do primeiro tempo, em um momento de puro retrato do clima no qual se encontrava o Grêmio. Enquanto isso, Jorge Jesus continuava andando pra lá e pra cá, com sua clássica faceta séria como se seu time estivesse atrás do placar. O Flamengo dominava tudo. Tinha o campo para si. O Maracanã era sua casa, seu quintal. Ali, ele fazia o que queria e como queria. Toques rápidos, dribles. Aos 17’, Willian Arão tocou de calcanhar para Éverton Ribeiro, que lançou Gabriel pela esquerda, que tocou para Bruno Henrique fazer o quarto. Bem, seria o quarto se não fosse impedimento apontado pelo VAR e só depois confirmado pelo assistente.

Na sequência, Renato tirou Maicon e colocou Diego Tardelli. A substituição pouco mudou o cenário do jogo. E, aos 20’, o Flamengo teve escanteio a seu favor após jogada de Filipe Luís e De Arrascaeta. O uruguaio cobrou, Pablo Marí subiu mais alto que Geromel e cabeceou em cima do goleiro Paulo Victor, que aceitou: 4 a 0. Goleada rubro-negra! Parecia gol de pelada! Em campo, os jogadores do Grêmio temiam por um desastre ainda maior. Alisson pediu para Éverton Ribeiro que “não fizessem graça” para “ninguém perder a cabeça”. Ribeiro disse que o Fla iria “respeitar até o final”. E a melhor maneira de respeitar era continuar atacando. Após o quarto gol, vários torcedores gremistas começaram a deixar o Maracanã.

Marí marca o quarto…

 

… Virou goleada!

 

Na sequência, De Arrascaeta saiu para a entrada de Piris Da Motta, em ação do técnico Jesus para poupar o uruguaio, que vinha de séria lesão no joelho, mas mesmo assim conseguiu jogar muito bem naquele jogo. Três minutos depois, Gerson fez tabela com Gabriel e o centroavante sofreu falta. Enquanto via seu time se preparar para a cobrança, a torcida fazia uma festa imensa, cantava, tremulava camisetas. Na cobrança, Éverton Ribeiro mandou a bola na cabeça de Rodrigo Caio, sozinho, que testou para fazer o quinto gol. Enquanto os flamenguistas vibravam, Renato era o retrato puro da incredulidade. Paralisado, ele não acreditava no que via…

A festa de Rodrigo Caio (foto: André Durão / GE)…

 

…E o contraste com a imagem de Renato.

 

O treinador tricolor tirou Alisson e colocou Thaciano apenas por protocolo. Na saída de campo, Alisson foi direto para o banco de reservas sem nem sequer olhar para Renato e sem ele olhar para seu jogador. Cada um queria ficar no seu canto, isolado. Enquanto isso, o Flamengo atacava. Gabriel puxou ataque aos 33’ e o gol só não saiu porque a zaga bloqueou o chute final.

Aos 39’, Everton chutou da entrada da área e fez com que Diego Alves desse seu primeiro grande pulo para sua primeira defesa no jogo! Aos 39’ do segundo tempo… Aos 41’, Diego entrou no lugar de Gerson e recebeu a braçadeira de capitão de Éverton Ribeiro. A torcida foi à loucura com o retorno do meia, que ficou tanto tempo longe por lesão. O Grêmio tentou fazer seu gol de honra, mas não tinha mais fôlego nem pontaria. Por outro lado, aos 44’, Diego quase deixou o seu e evitou uma catarse ainda maior no Maracanã. A torcida seguia na festa. Cantava “Olê, olê, olê, olê, Mister, Mister”, em alusão ao técnico Jesus, que fazia jus ao hino flamenguista e transformava aquele jogo tido como difícil e parelho no verdadeiro “ai Jesus” rubro-negro. De fato, após o quinto gol, o Flamengo diminuiu o ritmo. Pareceu confortável com aquela goleada histórica, a maior do clube em cima do Grêmio em todos os tempos e apenas a terceira maior em uma fase semifinal de Libertadores, após os 6 a 0 do Atlético Nacional-COL sobre o Danubio-URU, em 1989, e os 5 a 0 do San Lorenzo-ARG sobre o Bolívar-BOL, em 2014.

Ao apito do árbitro, o Flamengo estava na final da Libertadores após 38 longos anos. Mas chegava de maneira épica, histórica, na contramão de tudo o que vimos nos últimos anos no Brasil. Chegava jogando um futebol ofensivo, rápido, encantador. Chegava sem receios nem medos. Com autoridade. Com a noção de que pode vencer bem. E com uma goleada que já está nos registros das maiores de todos os tempos da principal competição das Américas. Na celebração, os jogadores vibraram com a torcida em uma sintonia total com o time. Sabe quando tudo se completa? Era assim que estava o Maracanã ao fim daquela noite. Completo. Como foi o Flamengo e sua atuação de gala e alta estirpe em 23 de outubro de 2019.

 

Pós-jogo: o que aconteceu depois?

Flamengo: a atuação magistral rubro-negra, uma das maiores em sua mais que centenária história, ganhou as manchetes de vários jornais do mundo. A exaltação maior foi pelo futebol bonito e eficiente apresentado pelo time, inclusive o jornal argentino Olé, que disse que a equipe brasileira era o Flashmengo, em alusão à velocidade do time de Jorge Jesus. Na decisão contra o River Plate-ARG, o Flamengo espera conquistar o bicampeonato e consagrar de vez esse esquadrão que encantou o país no segundo semestre de 2019 jogando simplesmente como os times brasileiros jogavam: pra frente, marcando gols em profusão e sem covardia. Como Bruno Henrique disse após o jogo, em entrevista ao UOL Esporte: “O Jorge Jesus sempre pede para jogar e desfrutar em campo. Fala sempre isso. Que temos que ter alegria, prazer de jogar futebol diante de uma torcida dessa e um clube tão grande. É isso que sempre fala para gente”. De fato, desfrutar é preciso. O futebol agradece.

O time que já está no imaginário de muito torcedor rubro-negro. Em pé: Diego Alves, Pablo Marí, Filipe Luís, Willian Arão, Rodrigo Caio e Bruno Henrique. Agachados: Gabriel Barbosa, Rafinha, Éverton Ribeiro, De Arrascaeta e Gerson.

 

Grêmio: com uma derrota de 6 a 1 no agregado, o revés abalou profundamente o time gaúcho. Foi a maior goleada da história do clube na Libertadores e a maior derrota na Era Renato. O treinador disse no pós-jogo que “até uma mulher grávida faria gol no Grêmio” na noite do dia 23 de outubro, um discurso batido e já usado por ele em 2005, quando seu time na época – o Vasco – levou de 7 a 2 do Athletico-PR no Brasileiro daquele ano. Ele disse também que o Flamengo marcou em “cinco falhas nossas”, tentando buscar uma explicação. O fato é que a derrota foi um fim de ciclo, salientado até mesmo pela diretoria gremista, que dois dias depois adiou a conversa que teria para renovação de contrato com o técnico pelo fato de o clube estar “sem clima”. Tudo o que Renato fez no Grêmio desde 2016 ficou na história. Mas é inegável que desde o segundo semestre de 2018 a equipe não era a mesma. E uma derrota como essa exige profunda reflexão e mudanças. Leva tempo, mas o Imortal saíra dessa como já saiu de tantos outros momentos difíceis.

Algumas capas de jornais do dia seguinte. Foto: montagem do site http://www.ninhodanacao.com.br/2019/10/24/as-capas-dos-jornais-flamengo-classificado-pra-final-da-libertadores/

 

Extra:

Veja os gols e melhores momentos do jogo.

 

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