Craque Imortal – Ricardo Bochini

Bochini e seus “mimos”: ele venceu cinco Libertadores e dois Mundiais.

 

Nascimento: 25 de Janeiro de 1954, em Zárate, Argentina. 

Posição: Meio-campista

Clube: Independiente-ARG (1972-1991).

Principais títulos por clubes: 2 Mundiais de Clubes (1973 e 1984), 5 Copas Libertadores da América (1972, 1973, 1974, 1975 e 1984), 3 Copas Interamericanas (1973, 1974 e 1976) e 4 Campeonatos Argentinos (1977-Nacional, 1978-Nacional, 1983-Metropolitano e 1988-1989) pelo Independiente.

Principal título por seleção: 1 Copa do Mundo da FIFA (1986) pela Argentina.

Principais títulos individuais:

Futebolista Argentino do Ano: 1983

3º Melhor Jogador Sul-Americano do Ano: 1983

Eleito para o Time do Ano da América do Sul do jornal El País: 1989

Jogador com maior número de jogos na história do Independiente: 714 jogos

Jogador com maior número de títulos na história do Independiente: 13 taças

 

“Toda a Maestria de El Bocha”

 

Alguns jogadores conseguem mudar para sempre a história de um clube. São raros, mas eles existem. E um deles conseguiu moldar para sempre a identidade e galeria de troféus de um dos mais vitoriosos times da Argentina. Entre 1972 e 1991, um enganche clássico, simplesmente o dono do meio de campo do Independiente, foi a referência máxima das ações ofensivas de seu time em diferentes épocas. Começou logo com uma coleção de quatro taças da Libertadores e um Mundial de Clubes. Em 1977, venceu um título nacional derrotando um rival hostil e também o regime militar. Nos anos 1980, voltou a capitanear uma nova geração de talentos para levantar outra Libertadores e mais um Mundial. Fiel ao rojo, ele nunca vestiu outra camisa (a não ser a da seleção). Se transformou no jogador com mais títulos da história do clube – 13 taças. No que mais vestiu a camisa do rojo – 714 jogos. No quarto maior artilheiro do clube – 108 gols. No jogador que virou nome da rua do estádio que ele ajudou a rebatizar por causa da quantidade de Libertadores que ganhou. É difícil sintetizar Ricardo Enrique Bochini, maior patrimônio da história do Independiente e um dos mais talentosos jogadores do futebol argentino e mundial. Ele era o autêntico camisa 10, capaz de mudar uma partida com um passe, um lançamento. Tinha cadência e velocidade nas medidas certas. Ele mesmo dizia que preferia ver um companheiro celebrar um gol do que ele mesmo fazer o seu. Reverenciado e respeitado até mesmo por rivais. Ídolo de Maradona, foi para a Copa do Mundo de 1986 muito por causa do próprio Dieguito, que sabia que ele merecia estar no elenco. Dito e feito. Bochini não foi titular, mas jogou alguns minutos contra a Bélgica, o suficiente para trocar passes com Maradona, um momento mágico para a história dos Mundiais. Teve uma longa carreira pela seleção, mas acabou de fora das Copas de 1978 e 1982 por indiferenças com os técnicos e por lesões. Mesmo assim, disputou 28 partidas entre 1973 e 1986 (12 anos, nove meses e dois dias, até o exato jogo contra a Bélgica no Mundial de 1986), uma das mais longas carreiras internacionais da história. É hora de relembrar a carreira desse ícone do esporte sul-americano.

 

Vencendo a timidez

Nascido em Zárate, cidade próxima ao Rio Paraná, no centro-leste argentino, Bochini desde cedo queria ser jogador de futebol. Torcedor do San Lorenzo na infância, cresceu admirando o grande time campeão argentino de 1959, do artilheiro Sanfilippo, e ainda o time campeão nacional em 1968, com Rendo, Veglio e companhia. Após jogar em clubes pequenos de sua cidade, Bochini conseguiu espaço no Belgrano de Zárate aos 13 anos até ganhar uma vaga no time principal tempo depois. No entanto, a timidez e o medo de errar quase prejudicaram o início de carreira do jovem garoto, que temia fazer alguma coisa errada diante do público. Mas sua estreia não poderia ser melhor: ele saiu do banco durante um jogo no qual o Belgrano perdia por 2 a 0 para dar quatro assistências e seu time vencer por 6 a 2 (!). Seu talento chamou a atenção do Villa Dálmine, de Campana, mas o jovem não ficou pelo fato de seu pai ter um pedido de trabalho negado pelo clube.

Com 15 anos, conseguiu arrumar uma passagem para Buenos Aires a fim de tentar a sorte no clube de seu coração, o San Lorenzo. Mas foi uma decepção. Os técnicos fizeram pouco caso do garoto, inventando desculpas sobre limite de idade e Bochini nem bola chutou. Ele tentou também o Boca, mas foi dispensado por ser “magro demais e tecnicamente mediano”. Foi então que ele se dirigiu até Avellaneda e, após um só teste, conseguiu uma vaga nos juniores do clube após encantar Nito Veiga, responsável por observá-lo.

 

A revelação do craque

O início no rojo não foi fácil. Bochini levava cerca de cinco horas diárias entre ônibus, trem e metrô para ir de sua cidade até Buenos Aires, encarando a correria da cidade e passando fome muitas vezes. Sem dinheiro, El Bocha teve que parar de ir aos treinamentos por algum tempo e trabalhar com seu pai para ajudar a família, algo que instigou os dirigentes do Independiente, que foram até Zárate descobrir o que tinha acontecido. Após o “veredicto”, o clube custeou três passagens semanais para Bochini ir até Avellaneda. Um ano depois, o jovem conseguiu um espaço na pensão do clube para dormir – e evitar os longos deslocamentos – e um emprego temporário em um curtume para conseguir custear suas despesas antes de se tornar profissional.

Foi então que, em 1972, Bochini começou a figurar no time profissional e chamava a atenção pela perfeição nos passes e visão de jogo assombrosa. Ele conseguia deixar um companheiro na cara do gol com facilidade incrível. Além disso, seu estilo de jogo conhecido como pausa, por pensar a partida, cadenciar e antever jogadas, seria uma marca em sua carreira. Em pouco tempo, o meia iria iniciar a parceria lendária com o atacante Daniel Bertoni, sendo a dupla uma das mais famosas e laureadas da história do futebol argentino e sul-americano. Bochini fez sua estreia no time principal logo após a conquista da Libertadores de 1972 – competição que ele venceu por estar no grupo, mas não disputou nenhuma partida. Ainda em 1972, marcou seu primeiro gol pelo Independiente justamente no clássico de Avellaneda contra o Racing, mas o duelo terminou com vitória alviceleste por 2 a 1.

Bochini e Bertoni, lendas do Independiente.

 

Em 1973, jogou mais e foi eleito a revelação do Campeonato Argentino pela prestigiada e clássica revista El Gráfico. E, na Libertadores, participou apenas da última partida da final. E foi o suficiente para já começar a escrever sua história no clube. Ele e Giachello saíram do banco para mudar o jogo desempate contra o Colo-Colo-CHI, que estava empatado em 1 a 1. Na prorrogação, Bochini fez a jogada que resultou no gol de Giachello, o do título do rojo naquela Liberta e que significou a supremacia do clube de Avellaneda no torneio com quatro títulos, superando o compatriota Estudiantes (na época com três) e o Peñarol-URU (também com três).

No entanto, Bochini foi decisivo mesmo no Mundial de Clubes daquele ano. Após a recusa do grande Ajax-HOL em disputar o torneio, coube à Juventus-ITA, vice-campeã europeia, ser a adversária dos argentinos. Mas os italianos só aceitaram com uma condição: jogo único em solo italiano, para que eles não fossem até Buenos Aires muito por conta do jogo sujo pelo qual os argentinos eram conhecidos na época – principalmente após a sangrenta final entre Estudiantes e Milan de 1969 – leia mais clicando aqui. Os argentinos toparam, e, no duelo disputado no Estádio Olímpico de Roma, o Independiente venceu por 1 a 0 com um golaço (que ficou conhecido como “gol fantasma”) de Bochini, originado após tabelinha entre ele e seu companheiro Bertoni e finalizado com um toque sutil, de craque, na saída do lendário goleiro Dino Zoff. O gol transformaria para sempre a carreira de Bochini, como ele comentou ao Diário Publicable.

 

“Foi uma partida muito importante para a minha carreira. O gol me deu a oportunidade de ficar famoso, não apenas para o Independiente mas para todas as pessoas que acompanhavam futebol na Argentina. E, além disso, a partida foi transmitida pela emissora RAI para vários países no mundo, algo que também foi benéfico para mim e para o clube”. 

 

Veja o gol:

Bertoni e Bochini com a taça do Mundial de 1973.

 

O título mundial levou Bochini às manchetes de vários jornais com apenas 19 anos. Naquele mesmo ano, no 23 de setembro de 1973, ele estreou pela seleção argentina na vitória por 1 a 0 sobre a Bolívia pelas Eliminatórias para a Copa de 1974. 

 

Multicampeão

Verón, do Estudiantes, Cárdenas, do Racing, e Bochini, do Independiente, em foto especial do El Gráfico com os únicos três clubes argentinos campeões mundiais até aquela metade de anos 1970.

 

Em 1974, Bochini teve um ano mágico pelo Independiente. O craque faturou mais uma Libertadores, dessa vez como protagonista. Jogando como senhor do meio de campo e orquestrando as ações de seu time, Bochini marcou um dos gols da vitória por 2 a 0 no segundo jogo da final contra o São Paulo-BRA, resultado que forçou o terceiro duelo, também vencido pelos rojos, por 1 a 0. No mesmo ano, o meia deu show em um clássico contra o Racing e marcou três gols na goleada de 4 a 1 sobre o rival em partida válida pelo Metropolitano de 1974. No Campeonato Nacional do mesmo ano, Bochini deixou outra vez sua marca na vitória por 2 a 0 sobre o rival de Avellaneda. El Bocha seria um dos maiores carrascos do Racing na história com nove gols marcados, atrás apenas da lenda Arsenio Erico (19 gols) e de Vicente de la Mata (10 gols). A decepção ficou por conta da final do Mundial de Clubes, perdida para o Atlético de Madrid-ESP após vitória por 1 a 0 na ida e derrota por 2 a 0 no Vicente Calderón, em Madri.

Em 1975, mesmo alternando sua vida de futebolista com o serviço militar obrigatório, Bochini outra vez deu passes precisos na campanha do Independiente rumo ao tetracampeonato consecutivo da Libertadores, vencido após três duelos contra o Unión Española-CHI. Diferente das outras temporadas, a equipe acabou não disputando o Mundial de Clubes por falta de acordo de datas entre argentinos e europeus. Vale lembrar que os clubes do Velho Continente já viviam às turras com o torneio na época, que por pouco não deixou de existir no final daquela década – leia mais clicando aqui. Mas, para o meia, o grande jogo da campanha do título continental foi o 3 a 0 sobre o Cruzeiro, na segunda fase, que carimbou a vaga na final. Na comemoração, os argentinos proferiram a famosa frase “la copa se mira y no se toca”, em alusão ao predomínio incontestável deles no torneio. Só em 1976 que a hegemonia do Independiente seria encerrada na Libertadores – curiosamente por um clube brasileiro, o Cruzeiro. E, junto com ela, o time multicampeão se desfez. No entanto, surgiriam outros jogadores para tentar algo que nem o timaço da América conseguiu: o caneco do campeonato argentino.

 

A maior final da vida

Em 1977, Bochini conseguiu o que ele e o Independiente buscavam desde o início da década: um título nacional. Mas não foi um título qualquer. Foi talvez o maior título nacional da história do clube pelas circunstâncias e por tudo o que o rojo teve que superar. Comandado pelo ex-jogador Pastoriza, o Independiente fez a decisão contra o Talleres, de Córdoba, um forte time que havia desbancado River Plate e Racing pelo caminho e contava com três jogadores que estariam na Argentina campeã do mundo em 1978 – Luis Galván, Valencia e Oviedo. Além de ter um bom elenco, o Talleres ainda contava com o apoio do general Luciano Menéndez, da ala forte da ditadura argentina da época e que tinha o singelo apelido de “El Cachorro” (Menéndez seria condenado por 139 crimes de lesa humanidade e recebeu 12 condenações à prisão perpétua). Imagine um sujeito desses com poder? E imagine que ele queria ver o Talleres campeão de qualquer maneira só para alavancar seu prestígio junto ao centro poder da ditadura!

Pois bem. O Independiente teve que enfrentar tudo isso naquela decisão. No primeiro jogo, em Avellaneda, empate em 1 a 1. Na volta – que era justamente o aniversário de Bochini, 25 de janeiro, já de 1978 -, na casa do Talleres , o time rojo teria que vencer ou empatar em dois gols ou mais, pois havia critério de gols marcados fora. No dia do jogo, a cidade inteira se uniu pelo Talleres. E um convidado “especial” estava entre os 25 mil espectadores no estádio dos azuis: o general Menéndez. Mesmo em um território hostil, o Independiente saiu na frente com um gol de Outes. No intervalo, porém, tudo começou a mudar. O general Menéndez e o presidente do Talleres, Amadeo Nuccetelli, foram aos vestiários “conversar” com o árbitro de maneira nada amigável. E, na saída para o segundo tempo, o juiz começou a facilitar as coisas para os anfitriões. 

Intimidado pelo general, o árbitro começou a garfar o Independiente no segundo tempo.

 

Primeiro, assinalou um pênalti para o Talleres após toque de mão fora da área, aos 15’. Cherini converteu e empatou. Aos 30’, Bocanelli fez um gol com a mão da maneira mais descarada possível e o árbitro validou a virada do time da casa. Rubén Galván, do Independiente, ficou furioso, foi tirar satisfação com o árbitro e levou vermelho. Trossero, idem. E Larrosa também. O Independiente ficou com oito jogadores. Os que ainda estavam em campo quase deixaram o gramado por indignação e repulsa a um roubo tão explícito. Só o técnico Pastoriza que conseguiu apaziguar os ânimos inflando seus jogadores. “Joguem, sejam homens, porque se pode ganhar”, disse o treinador. Bochini foi um dos que também queria deixar o gramado, mas acabou convencido a permanecer graças a Pastoriza. 

Faltando 15 minutos para o fim e com três jogadores a menos, muitos esperavam uma goleada do Talleres. Mas o Independiente foi valente. Pastoriza colocou Bertoni – que não entrou como titular por estar voltando de lesão – e Biondi para ter mais força ofensiva. Ele não queria ver seu time acuado atrás. O Talleres, claro, foi pra cima, mas o excesso de individualismo de seus jogadores foram dando mais fibra ao rojo. Até que, aos 38’, Bochini e Bertoni invadiram a área rival com suas tabelinhas inconfundíveis, além da ajuda de Biondi, para construírem um dos gols mais gritados pela torcida do Diablo em todos os tempos. Bochini tocou para Bertoni, que passou para Biondi. Este deixou de lado na saída do goleiro e Bochini apareceu para chutar alto, forte, de primeira, por cima da cabeça de um jogador do Talleres. A bola estufou as redes e fez com que a torcida do Independiente presente no estádio derrubasse o alambrado e invadisse o gramado em puro êxtase. Os jogadores do Independiente celebraram como se fosse um título mundial, ou mais uma Libertadores. Bochini, no dia de seu aniversário de 24 anos, dava de presente à nação roja o título nacional. 

A festa da torcida…

 

… E de Bochini!

 

Nos minutos seguintes, o Independiente segurou o 2 a 2 e conseguiu o inimaginável. Até mesmo a torcida do Talleres reconheceu aquela façanha e aplaudiu os campeões. E a festa continuou na volta para casa, quando mais de dois mil torcedores receberam os jogadores no aeroporto de Ezeiza e outros 30 mil encheram as ruas de Avellaneda até o cortejo em La Doble Visera, estádio do Independiente. Para Bochini, foi um dos melhores dias de sua vida e superou até mesmo a final do Mundial de 1973.

 

“Isto supera. Se juntam muitas coisas. Meu aniversário, a primeira vez que saio campeão (argentino) com o Independiente, porque até agora havia ganhado somente Copas. E tudo o que envolveu a partida. […] Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Não é comum conseguir empatar uma partida com 3 homens a menos, faltando tão poucos minutos e em um campo tão difícil quanto o do Talleres”. – Ricardo Bochini, em trechos publicados no ótimo site Futebol Portenho, 25 de janeiro de 2013.

 

Bochini estava definitivamente no rol dos imortais do Independiente. No ano seguinte, iria conquistar o título do Campeonato Nacional. No entanto, anos difíceis começariam para El Bocha. 

 

As decepções pela seleção e escassez de taças

Após viver seu melhor período pela seleção argentina entre 1976 e 1977, disputando 14 partidas, entre torneios e amistosos, Bochini estava crente de que iria para a Copa do Mundo de 1978, mas ele não foi chamado por César Menotti, naquela que foi uma das maiores decepções de sua carreira.

 

“Eu participei da gira de 1976 pela Europa, também estive na série no campo do Boca de 1977. Vinham técnicos de outros países e do Brasil e diziam “Como pode o Bochini não estar na seleção? Ele deve jogar como titular!”. Larrosa, Bertoni, Galván e Pagnanini, meus companheiros de Independiente na seleção, me diziam que a qualquer momento o Menotti me chamaria. Eu estava na disputa com Norberto Alonso. Acho que o Menotti preferia a mim, porque o Beto não esteve na gira de 76. Por isso que pensei que iria ao Mundial. Mas ele chamou o Alonso de última hora”. – Ricardo Bochini, em entrevista ao El Gráfico, junho de 2009.

 

A Argentina acabou campeã do mundo em 1978, mas certamente teria muito mais talento e alternativas com Bochini em campo. E Norberto Alonso nem sequer figurou entre os titulares e entrou no decorrer de apenas três jogos… Após o Mundial, Bochini ficou cinco anos – de 1979 até 1984 – sem ser convocado para a albiceleste. Em 1982, devido a uma grave lesão nos joelhos que o tirou dos gramados por quase seis meses, não foi chamado para o Mundial da Espanha e perdeu outra oportunidade de disputar o principal torneio do futebol. Bochini só seria relembrado para a seleção em 24 de agosto de 1984, em amistoso contra a Colômbia. Pelo Independiente, El Bocha seguiu intocável, mas uma entressafra minou as chances de título do clube tanto na Argentina quanto no âmbito internacional.

 

A volta do Maestro

Bochini em ação contra o Estudiantes.

 

Em 1983, Bochini e seu Independiente voltaram com tudo no futebol argentino. Já com uma nova safra de talentos como Carlos Enrique, Giusti, Marangoni, Burruchaga, além de Trossero, remanescente do emblemático título de 1977, o Independiente demorou para engrenar, mas foi com tudo na reta final do Metropolitano de 1983 e faturou o título da melhor maneira possível: vitória por 2 a 0 na última rodada sobre o rival Racing, que acabou rebaixado faltando três dias para o Natal. Imagine a felicidade dos rojos? Virou quase uma data religiosa para eles celebrar aquele título e também a primeira queda do rival de Avellaneda!

No ano seguinte, Bochini e companhia foram com força máxima para a disputa da Copa Libertadores. E, após superar vários rivais, o time argentino alcançou a final para enfrentar o Grêmio, então campeão da América e do mundo. No primeiro jogo da final, o estádio Olímpico, em Porto Alegre, estava lotado para ver uma vitória do Grêmio. Ninguém esperava outro resultado. Talvez, no mais trágico cenário, um empate. No entanto, o que se viu aquele dia foi uma verdadeira aula de futebol do Independiente. Pastoriza disse para Enrique, lateral-esquerdo, anular Renato Gaúcho. E ele o fez com perfeição. Do outro lado, Clausen destroçou qualquer ação de Tarciso. Eram laterais rápidos e marcadores plenos. Não se importavam em ir até a linha de fundo. Eles fechavam lá atrás para o quadrado mágico tomar conta do ataque. Pastoriza também fez com que seu time reduzisse os espaços do Grêmio, atacando-o lá no campo de defesa para atordoar o soberbo De León. 

Depois de apenas cinco minutos com a bola em seus pés, o time da casa passou de dominador para dominado. O Independiente tratou a redonda com carinho, tocava de um lado para o outro, parava, acelerava. Aos 24’, De León tocou para frente, mas Marangoni interceptou com um chute. A bola foi parar nos pés de Bochini, o Maestro. Ele cadenciou. Esperou. O rei de “La Pausa” olhou Burruchaga e tocou. O meia entrou na área tricolor como um foguete e marcou um lindo gol: 1 a 0. O Grêmio tentou responder, mas, nas chances que teve, não conseguir passar por Goyén, intransponível no gol.

 

Na segunda etapa, o rojo seguiu com a autoridade de um time hexacampeão da América em busca do sétimo título. Continuou com sua cátedra. Ocupando cada espaço do gramado do Olímpico. Ganhando todas na defesa com sua dupla de zaga. Chegava ao ataque e só não fazia mais por causa do goleiro tricolor, da trave e de uma ligeira falta de pontaria. Antes mesmo do fim do jogo, o estádio aplaudiu aquele partidaço dos argentinos. Aos jogadores gremistas, restava a certeza de que eram inferiores. Como bem disse Bochini: “quando começou a partida, nos vaiaram. Ao final, as 80 mil pessoas nos aplaudiram em pé. Tínhamos que ter vencido por 5 a 0. Foi um baile”. Foi mesmo. Um monólogo. Uma aula escrita em vermelho. Até De León, zagueiro gremista, salientou a qualidade do rival naquela partida:

 

“Em uma ação, tocaram a bola 12 vezes e a jogada terminou com a bola no travessão. O Independiente nos atropelou. Tinha um timaço e a magia de Bochini”. – Hugo De León, em entrevista ao Clarín.com (ARG), 23 de agosto de 2011.

 

No dia seguinte, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, deu nota 10 para todos os jogadores do Independiente. Eduardo Rafael, jornalista da tradicional revista El Gráfico (ARG), disse que a atuação do Independiente foi “superlativa” e que “em anos de cobertura futebolística poucas vezes viu uma superioridade tão notável em uma final como aquela”. 

 

Novas taças internacionais e a única Copa

Burruchaga, Trossero e Bochini com a Liberta de 1984.

 

Apenas três dias depois do duelo no Olímpico, La Doble Visera viu um duelo mais parelho do que o jogo anterior, com o Grêmio mais seguro na defesa e o Independiente sem se arriscar muito no ataque. Com isso, a partida foi baseada na marcação, na luta e na tática. O goleiro João Marcos, do Grêmio, salvou o tricolor em várias chances – principalmente em uma chegada de Burruchaga -, e o 0 a 0 não saiu do placar. Ao apito do árbitro, eis que a torcida do rojo soltou o grito de “campeón!” entalado na garganta desde 1975. O Independiente reconquistava a América com categoria, autoridade e futebol. Para muitos, aquele esquadrão era tão bom ou superior que o próprio Independiente tetra nos anos 1970 ou o time bicampeão nos anos 1960. 

O técnico Pastoriza entrava na história, também, como um dos privilegiados a vencer a Libertadores como jogador e técnico. E Bochini, o Maestro, acumulava sua quinta Libertadores na carreira. A campanha do rojo foi incontestável: 12 jogos, sete vitórias, quatro empates e apenas uma derrota, com 16 gols marcados e sete gols sofridos. Com incríveis sete taças, o Independiente ganhava de vez a condição de Rey de Copas, o maior campeão da Libertadores e com a invejável marca de sete vitórias nas sete finais disputadas.

Meses depois, o Independiente foi ao Japão e faturou o título do Mundial de Clubes sobre o Liverpool-ING com vitória por 1 a 0, no primeiro jogo entre um time argentino contra uma equipe inglesa após a fatídica Guerra das Malvinas. Uma final muito além do futebol. Política. Leia mais clicando aqui!

Em 1986, Bochini acabou convocado para a Copa do Mundo, enfim, sua primeira chance de disputar um Mundial. Por não ser muito amigo do técnico Carlos Bilardo, Bochini acabou na reserva praticamente toda a Copa. Ele só jogou alguns minutos da semifinal contra a Bélgica, quando a partida já estava definida a favor dos sul-americanos. Reza a lenda que Maradona teria chegado perto de Bochini e dito ao ídolo: “venha, Maestro, estávamos lhe esperando”. Foi praticamente uma “homenagem” ao meia, mas ele poderia muito bem ter começado como titular desde o início. Afinal, já pensou Bochini e Maradona juntos no meio de campo? Pena que só Bilardo não tenha pensado nisso…

Bochini (terceiro da esquerda para a direita) na festa do título mundial de 1986.

 

Sobre os poucos minutos com Bochini naquele jogo, Maradona foi emblemático: “Quando vi que Bochini entrava em campo, me pareceu que tocava o céu, por isso a primeira coisa que fiz foi buscar uma tabela com ele. Nesse momento, senti que estava fazendo uma tabela com Deus.”

A Argentina foi campeã e Bochini ganhou sua medalha de campeão do mundo, embora ele nunca tenha se sentido assim por não ter contribuído mais com o time. Por isso, Bochini se despediu da seleção logo após o Mundial. Foram 28 jogos na carreira vestindo a camisa albiceleste e a decepção de não ter jogado a Copa de 1978, certamente a que ele mais teria ajudado sua seleção.

 

Último caneco e a aposentadoria do Maestro

Bochini, quando completou 500 jogos pelo Independiente, em 1986.

 

Em 1989, Bochini levantou mais um título argentino pelo Independiente. Dois anos depois, em 1991, se aposentou do futebol aos 37 anos muito por causa das seguidas lesões nos joelhos, principalmente após uma sofrida no empate em 1 a 1 com o Estudiantes, em 05 de maio de 1991. Sua despedida aconteceu no final do mesmo ano, em jogo festivo cuja renda foi toda destinada a ele para sanar os dois anos de salários atrasados que o Independiente lhe devia – embora tenham lhe dado o dinheiro de 15 mil entradas, e não das 40 mil que estavam em La Doble Visera naquele dia… Curiosamente, nunca mais o Independiente venceu a Libertadores depois do adeus de seu maior craque. A partir daquele ano, a torcida do rojo ficou órfã do mestre da pausa. Os gramados do futebol argentino deixaram de contemplar os passes bochinescos, adjetivo criado em homenagem a ele para exemplificar os passes feitos com precisão cirúrgica.

Bochini até tentou seguir carreira como técnico do próprio Independiente, mas sua timidez e seu jeito introspectivo não o deixaram prosperar. Ele gostava mesmo de estar em campo. Ou de observar sem ser notado, por isso virou auxiliar do clube e buscar novos talentos, além de ser conselheiro do rojo e participar de eventos ligados ao futebol no país, bem como trabalhar para a AFA como observador de jovens craques.

Maradona (à dir.) beija a mão de Bochini.

 

Bochini virou nome de duas ruas na Argentina: uma em Zárate, sua cidade natal, e outra em Avellaneda, exatamente onde o estádio Libertadores de América fica: a Rua Ricardo Bochini, 751. Em 2005, ano do centenário do Independiente, Bochini ganhou uma estátua de bronze na sede do rojo. Em 2007, entrou para o Hall da Fama do Futebol Argentino. E, em 2008, o pequenino Club Atlético Famaillá, de Tucumán, batizou seu estádio como Estádio Ricardo Enrique Bochini.

Essas homenagens ainda são pouco perto de tudo o que o meia fez para o Independiente e para o futebol argentino. Um jogador único, símbolo de uma era e um dos que mais bem tratou a bola em todos os tempos. Bochini não jogava para ele. Jogava para o time. Pelo time, fazia tudo o que estava a seu alcance. E não era pouco. Não foi à toa que a torcida do Independiente cantava: Sólo le pido a Dios que Bochini juegue para siempre, siempre para Independiente, para toda la alegría de la gente”. Ele realmente fez a alegria de muita gente. Um craque imortal.

 

Números de destaque:

Disputou 714 jogos e marcou 108 gols pelo Independiente.

Disputou 28 jogos pela Seleção Argentina. Não marcou gols.

 

Extra:

Veja lances mágicos de Bochini.

 

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