Jogos Eternos – São Paulo 4×0 Athletico-PR 2005

Data: 14 de julho de 2005

O que estava em jogo: o título da Copa Libertadores de 2005

Local: Estádio do Morumbi, São Paulo, Brasil

Juiz: Horácio Elizondo (ARG)

Público: 71.986 pessoas

Os times

São Paulo Futebol Clube: Rogério Ceni; Fabão, Lugano e Alex Bruno; Cicinho, Mineiro, Josué, Danilo e Júnior (Fábio Santos, aos 40’ do 2º T); Amoroso (Diego Tardelli, aos 33’ do 2º T) e Luizão (Souza, aos 27’ do 2º T). Técnico: Paulo Autuori

Club Athletico Paranaense: Diego; Jancarlos, Danilo, Durval e Marcão (Rodrigo Beckham, aos 15’ do 2º T); Cocito, André Rocha (Alan Bahia, aos 37’ do 2º T), Evandro e Fabrício; Lima (Fernandinho, aos 15’ do 2º T) e Aloísio. Técnico: Antônio Lopes

Placar: São Paulo 4×0 Athletico-PR. Gols: (Amoroso-SPO, aos 16’ do 1º T; Fabão-SPO, aos 7’, Luizão-SPO, aos 25’ e Diego Tardelli-SPO, aos 44’ do 2º T).

 

“MorumTRI: A Obsessão pela América”

 

O torcedor são-paulino se acostumou a empilhar taças na América do Sul nos anos 1990. Foram 9 títulos, incluindo duas conquistas da Copa Libertadores, em 1992 e 1993, com o ídolo Telê Santana no comando. Isso tudo fez da torcida tricolor uma verdadeira obcecada por torneios sul-americanos. Porém, um longo período de “vacas magras”, em que o time sequer disputava a competição (o tricolor ficou de fora do torneio entre 1995 e 2003) deixou preso na garganta o grito de campeão em um jejum que parecia não ter fim. Mesmo com o eficiente trabalho que se iniciara um ano antes, em 2004, com a contratação de jogadores bons e baratos, como Fabão, Danilo, Josué e Grafite, do Goiás, e Mineiro, do São Caetano, o time comandado por Cuca chegou até às semifinais da Libertadores, mas sucumbiu diante do Once Caldas. A torcida chamava o próprio time de “amarelão”, estigma que acompanhava o Tricolor por anos e anos. Isso até chegar a noite de 14 de julho de 2005, uma quinta-feira de inverno na capital paulista. Em um Morumbi com mais de 70 mil torcedores ensandecidos, o São Paulo tinha pela frente a primeira decisão brasileira da história da Libertadores. Após empate em 1 a 1 na ida, contra o Athletico-PR (que ainda era “Atlético”), bastava uma simples vitória para o terceiro título do São Paulo. Mas aquela ocasião merecia um placar muito mais que simples. Tinha que ser elástico, portentoso, para fazer jus ao time que iria iniciar um período soberano em sua história. Amoroso fez 1 a 0. Gritou “vai São Paulo!”. Ele foi. No final do primeiro tempo, Rogério Ceni mandou com a força do pensamento o pênalti batido por Fabrício na trave. Na segunda etapa, Cicinho mandou na cabeça de Fabão. Gol e emoção do zagueirão. Tempo depois, Luizão deixou o seu. E também chorou. O Morumbi fazia jus à fama de Templo de Emoções. E, para fechar, Diego Tardelli saiu do banco para dar números finais: 4 a 0. O São Paulo se transformava no primeiro clube brasileiro tricampeão da América. Consagrava de vez Rogério Ceni, um dos artilheiros do torneio com impressionantes cinco gols. Nas arquibancadas, gritos de “olê, olê, olê, olê, Telê, Telê”, em homenagem ao Mestre, ainda vivo na época, que pôde ver a continuidade de seu trabalho lá dos anos 1990. O passaporte para o Japão estava carimbado. E era só o início… É hora de relembrar um dos maiores vareios em finais da história da Libertadores.

 

Pré-Jogo – “El Morumbi te Mata”

O Morumbi na final da Libertadores de 2005: mais de 71 mil pessoas.

 

Há 11 anos que a torcida tricolor esperava por uma noite de final de Libertadores em seu estádio, o Morumbi. Em 1994, cerca de 90 mil pessoas assistiram uma vitória por 1 a 0 sobre o Vélez Sarsfield-ARG de Carlos Bianchi e Chilavert, na decisão do torneio. Porém, nos pênaltis, o Tricolor acabou derrotado pelos “hermanos” e viu ruir o sonho do tri. Após o revés trágico em 2004 para o Once Caldas, o tricolor manteve a base, contratou novos nomes como os pentacampeões Júnior e Luizão, e o atacante Amoroso, trouxe o técnico Emerson Leão e partiu em busca do sonho da América.

Antes, o time tricolor faturou o Campeonato Paulista, que serviu como “aperitivo” para o torcedor. A obsessão continental falava mais alto. E, com “São” Paulo Autuori (Leão deixou o time no meio da campanha da Libertadores), o sonho do tri começou a se materializar em jogos marcantes. Contra o Palmeiras, nas oitavas, triunfos memoráveis tanto no Palestra Itália quanto no Morumbi. Nas quartas, um 4 a 0 sobre o Tigres-MEX com dois gols de falta de Rogério Ceni. E, na semifinal, 2 a 0 em casa e 3 a 2 em pleno Monumental sobre o River Plate-ARG (um dos favoritos).

Rogério Ceni, estandarte do tricolor.

 

Tinindo, o São Paulo chegou à primeira decisão entre dois clubes de um mesmo país na história da competição. E, na noite de 14 de julho de 2005, mais de 70 mil torcedores marcaram presença em um Morumbi abarrotado. Desde a tradicional chegada da delegação, com recepção calorosa da torcida, até o apito inicial, o pensamento era um só: bater o Athletico-PR, surpresa da competição, e soltar o grito de campeão.

Embora o tricolor paulista não esteja bem cotado entre os favoritos para levar o título da Libertadores neste ano de 2020, com cotações de 27-1 (entre os brasileiros, só fica à frente do Santos), em 2005 a situação era completamente diferente. Isso porque o time havia empatado o jogo de ida, disputado no Beira-Rio, em Porto Alegre (o estádio do Furacão na época não comportava o limite mínimo de 40 mil torcedores exigido pela Conmebol), por 1 a 1, e bastava uma vitória simples no Morumbi para o tricampeonato se concretizar. Naquela Libertadores, antes da decisão, foram seis jogos no estádio e seis vitórias: Universidad de Chile (4 a 2), Quilmes-ARG (3 a 1), The Strongest-BOL (3 a 0), Palmeiras-BRA (2 a 0, nas oitavas), Tigres-MEX (4 a 0, nas quartas) e River Plate-ARG (2 a 0). Todos os adversários foram completamente dominados no Cícero Pompeu de Toledo. “El Morumbi te Mata” foi a máxima que ganhou as manchetes sul-americanas e acompanhou o São Paulo por anos durante a Libertadores. Faltava, no entanto, “matar” o último confronto.

Amoroso vibra na vitória sobre o River: atacante foi fundamental para a reta final do São Paulo na Libertadores.

 

Jogando completo, num 3-5-2 clássico com uma zaga muito segura comandada por Lugano, laterais rápidos e altamente técnicos (Júnior e Cicinho), volantes marcadores (Josué e Mineiro), e um ataque altamente entrosado como Danilo, Amoroso e Luizão, o São Paulo era favorito, embora o Athletico tivesse suas qualidades, principalmente com Aloísio e Lima no ataque e o experiente técnico Antônio Lopes, campeão da América em 1998 com o Vasco. O Furacão vinha de uma campanha surpreendente, eliminando Cerro Porteño-PAR, Santos-BRA e Chivas Guadalajara-MEX, sempre jogando bem tanto em casa quanto fora. Só que o time rubro-negro era estreante em final continental. E não tinha noção do que era um Morumbi com mais de 70 mil pessoas em plena final de Libertadores…

 

Primeiro Tempo – Alívio e suspense

Paulo Autuori colocou em campo o mesmo time que empatou o jogo de ida por 1 a 1. Logo nos primeiros minutos, o São Paulo já mostrou a que veio e impôs o ritmo da partida. Danilo e Cicinho tiveram boas chances para abrir o placar antes dos dez minutos de jogo, mas não demorou muito para o Morumbi explodir. Aos 16 minutos, Lugano cobrou falta no campo de defesa e encontrou Danilo. O meia não dominou bem e a bola sobrou para Luizão, que devolveu de calcanhar para o camisa 10 chutar rasteiro. Diego defendeu, mas no rebote, após dividida com o goleiro, a bola sobrou para Amoroso, o “talismã” do tricampeonato, que tocou de cabeça para abrir o placar e deixar aliviados mais de 70 mil pessoas no estádio e milhões espalhados pelo Brasil.

Amoroso marcou o primeiro gol do tricolor.

 

O Tricolor não diminuiu o ritmo em nenhum instante. Cicinho e Danilo quase ampliaram o marcador em chutes que passaram raspando na trave. Naquele instante, era jogo de um time só, e a goleada parecia questão de tempo. A velocidade dos laterais tricolores Júnior e Cicinho deixavam “presos” Jancarlos e Marcão, que tinham que se desdobrar para tentar conter o ímpeto dos rivais. Sem sucesso, eles não conseguiam e abriam espaços para Danilo e Amoroso, isso quando o próprio Cicinho não aparecia chutando pela direita ou Júnior pela esquerda. Limitado tecnicamente, o Athletico só arriscava em cruzamentos esparsos para a área que não ofereciam perigo algum ao goleiro Rogério Ceni, mero espectador do jogo. Aos 42’, Amoroso tocou para Danilo, que bateu cruzado. A bola raspou a trave de Diego e quase entrou.

Pênalti de Fabrício bate no pé da trave: era o início do fim para o Furacão… Foto: Gazeta do Povo.

 

Porém, nos acréscimos do primeiro tempo, o zagueiro Alex Bruno segurou Aloísio dentro da área e o árbitro argentino Horácio Elizondo marcou pênalti para o Athletico. O nervosismo tomou conta do Morumbi. Destaque do Furacão na campanha, o meia Fabrício foi para a cobrança que poderia deixar tudo igual. No gol, Rogério Ceni, concentrado, dizia: “eu vou pegar, eu vou pegar”. Quando Fabrício chutou, Rogério acertou o canto, a bola bateu na trave e a torcida comemorou como um gol. A vantagem, portanto, foi mantida até o intervalo. Visivelmente abatido, o Athletico não aparentava nenhuma chance de reação. Já o São Paulo tinha todo o combustível possível para concretizar sua obsessão.

 

Segundo Tempo – Goleada e apoteose

Fabão comemora seu gol com o uruguaio Lugano. Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press.

 

Faltavam apenas 45 minutos para a glória. O 1 a 0 era suficiente para levantar a taça, mas aquele São Paulo sempre queria mais. E, logo aos 7 minutos, da etapa final, Cicinho cobrou um escanteio na cabeça de Fabão. O zagueiro subiu mais alto do que Durval e cabeceou forte, no ângulo, sem qualquer reação do goleiro Diego: 2 a 0. Na comemoração, o camisa 3 não escondeu a emoção e foi aos prantos, assim como muitos tricolores em puro êxtase nas arquibancadas.

Os times em campo: com muita qualidade tática e técnica, o São Paulo sobrou.

 

Mas a decisão ainda carecia da marca do maior artilheiro brasileiro na história da Libertadores: Luizão, que fazia naquela noite sua última partida pelo São Paulo, pois o atacante já havia acertado sua transferência para o futebol japonês. Aos 25 minutos, Júnior entrou na diagonal e tocou para Amoroso, o “cara” da noite. O atacante entortou a defesa athleticana e cruzou na medida para Luizão apenas chapar a bola para o fundo da rede: 3 a 0. Foi o quinto gol de Luizão na Libertadores – ele terminou como artilheiro da equipe ao lado de Rogério Ceni – e o 29º do jogador em toda a história da competição. Na comemoração, o jogador também deixou as lágrimas caírem e desabou no gramado para receber a vibração e abraços de seus companheiros.

Luizão às lágrimas: São Paulo com a mão na taça!

 

Àquela altura, a festa já estava armada. O Morumbi já começava a virar “Morumtri”. E o Athletico não tinha mais forças para reagir. A superioridade tricolor era plena. No meio de campo, Mineiro e Josué pareciam se multiplicar. Nas laterais, apenas Cicinho e Júnior jogavam. No ataque, só o São Paulo pressionava. E, na defesa, Lugano, Fabão e Alex Bruno não deixavam nenhum atacante rubro-negro entrar. Aos poucos, os técnicos foram mexendo em seus times ou para poupar seus jogadores (no caso de Autuori) ou para tentar algum milagre (no caso de Antônio Lopes). Amoroso e Luizão saíram para as entradas de Souza e Diego Tardelli, respectivamente, e Júnior saiu para a entrada de Fábio Santos. Do lado athleticano, Marcão, Lima e André Rocha foram substituídos por Rodrigo Beckham, Fernandinho e Alan Bahia, mas nenhum deles conseguiu aumentar a ofensividade do Furacão. Já nos minutos finais, o São Paulo decidiu fechar a conta com mais um gol. Aos 44’, Diego Tardelli, que estava há 11 minutos em campo, recebeu de Mineiro, cortou o marcador e bateu no canto direito do goleiro, que nada fez: 4 a 0. 11 minutos em campo e um gol. 11 anos desde o vice de 1994. Curioso simbolismo de um gol histórico! A Libertadores via uma das maiores goleadas em uma final na história, curiosamente aplicada pelo dono da maior goleada em uma só partida em todos os tempos – em 1993, o São Paulo fez 5 a 1 na Universidad Católica no primeiro jogo da decisão.

Horácio Elizondo deu dois minutos de acréscimo, mas sequer esperou até os 47’. De alguma forma, ele sabia que a torcida tricolor já havia esperado mais de uma década por aquele momento. Mas a espera, enfim, havia acabado. A apoteose tomou conta do Morumbi e coroou uma torcida que cantou e gritou do início ao fim. O São Paulo era tricampeão da Libertadores.

Coube a Rogério Ceni, o goleiro-artilheiro, a encarnação pura do torcedor dentro de campo, como se o mais fanático são-paulino tivesse a chance de erguer o troféu da América no lugar de um jogador comum, levantar a taça de campeão quase que em êxtase. O goleiro vivenciou todo o período de jejum, de decepções, de derrotas que ainda doíam. Mas Ceni jamais largou seu posto. Persistiu, defendeu, fez gol, sofreu, e foi recompensado no final. Naquela noite, a capital da América era São Paulo. E o Morumtri era o epicentro da emoção. A mais clara explicação da obsessão.

 

Pós-Jogo: O que aconteceu depois?

São Paulo: O título da Libertadores foi apenas o início de uma era que marcou o futebol brasileiro na segunda metade da década de 2000. O título da Libertadores carimbou a passagem para o Japão, em dezembro, onde o time desafiaria o Liverpool pelo título mundial – que veio em uma vitória simples, por 1 a 0, gol de Mineiro.

Aos poucos, o time tricampeão da Libertadores e trimundial foi se desfazendo. Em 2006, Amoroso e Cicinho também deixaram o clube e o técnico Paulo Autuori também se despediu do São Paulo após a conquista em Yokohama, dando lugar a outro grande ídolo da história tricolor: Muricy Ramalho. Com a espinha dorsal mantida, a “Era Tricolor” continuou a todo vapor. Muricy comandou o São Paulo nos títulos brasileiros de 2006, 2007 e 2008, um tricampeonato inédito na história da competição, mas não conseguiu repetir o sucesso na Libertadores. Em 2006, lutando pelo bi consecutivo e pelo tetra no geral, o São Paulo perdeu a decisão para o Internacional de Fernandão e Rafael Sóbis, que teve o talento e a magia que faltaram ao Athletico em 2005. Os colorados venceram em pleno Morumbi por 2 a 1 e seguraram um empate em 2 a 2 no Beira-Rio, curiosamente o estádio onde começou a epopeia do tri do São Paulo em 2005. Mas naquele ano de 2006 teve um alento: o título brasileiro foi confirmado após um duelo contra… O Athletico-PR, no Morumbi! Deu empate (1 a 1), mas foi o suficiente para mais uma festa após um duelo contra os rubro-negros.

Em pé: Rogério Ceni, Danilo, Lugano, Fabão e Alex Bruno. Agachados: Luizão, Cicinho, Amoroso, Júnior, Josué e Mineiro. Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press.

 

Athletico-PR: o Furacão passou por maus momentos após o vice-campeonato continental, chegou a cair para a Série B e só voltou a se reerguer em 2013, quando ficou com o vice da Copa do Brasil. Mas a desforra veio mesmo em 2018 com o título da Copa Sul-Americana em cima do Junior-COL, na Arena da Baixada já de cara nova, apta para receber mais de 40 mil torcedores e bem diferente de 2005. Exatamente naquele mês de dezembro de 2018, o clube mudou de nome, escudo, uniformes e virou o Athletico que conhecemos hoje. E parece que a mudança vem trazendo bons fluídos, pois no ano seguinte o time faturou a inédita Copa do Brasil pra cima do Internacional em pleno estádio Beira-Rio, curiosamente o mesmo daquela final de Libertadores de 2005 e que tanto os torcedores rubro-negros queriam esquecer. Nada como um dia (e um título!) após o outro!

Extra:

Veja os melhores momentos da final!

 

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