Craque Imortal – Djalminha

Nascimento: 09 de dezembro de 1970, em Santos, SP, Brasil.

Posições: Meia e Ponta-esquerda

Clubes: Flamengo-BRA (1989-1993), Guarani-BRA (1993-1994 e 1994-1995), Shimizu S-Pulse-JAP (1994), Palmeiras-BRA (1996-1997), Deportivo La Coruña-ESP (1997-2004), Austria Viena-AUT (2002-2003-empréstimo) e América-MEX (2004).

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Brasileiro (1992), 1 Copa do Brasil (1990), 1 Campeonato Carioca (1991) e 1 Copa SP de Futebol Júnior (1990) pelo Flamengo.

1 Campeonato Paulista (1996) pelo Palmeiras.

1 Campeonato Espanhol (1999-2000), 1 Copa do Rei (2001-2002) e 2 Supercopas da Espanha (2000 e 2002) pelo Deportivo La Coruña.

1 Campeonato Austríaco (2002-2003) pelo Austria Viena.

Principal título por seleção: 1 Copa América (1997) pelo Brasil.

Principais títulos individuais: 

Bola de Ouro da revista Placar: 1996

Bola de Prata da revista Placar: 1993 e 1996

 

“Maestro, Boleiro, Genial e Genioso”

Por Guilherme Diniz

Tem jogador que faz o básico. Tem jogador que cumpre o que o técnico pede e nada mais que isso. Mas tem jogador que faz mais. Que improvisa. Que encontra a solução num curto espaço do gramado. Que dribla. Que sai do lugar comum. E tem boleiro. Aquele com a arte nos pés. Com visão de jogo plena. Capaz de deixar companheiros na cara do gol de maneira impressionante. Ou de deixar estatelados no chão os mais brucutus zagueiros. O boleiro ganha a torcida. Ganha jogos. Ganha campeonatos. É a atração, o cara que resolve, que sabe o que fazer com a bola. E ela sempre retribui. Por quase 20 anos, o futebol teve em gramados dos mais diversos cantos do planeta um craque assim. Que cumpria ordens, claro, mesmo não aprovando 100% o que lhe era dito, mas que fazia mais. Era um boleiro, um craque genial e genioso ao mesmo tempo, que não levava desaforo para casa e sabia de seu potencial. Djalma Feitosa Dias, mais conhecido como Djalminha, foi um dos maiores meias da história do futebol brasileiro. Um craque maiúsculo, com habilidade fora do comum, que arriscava jogadas plásticas, que dava chapéu, carretilha para se desvencilhar de adversários, não para menosprezar. Eram artifícios “comuns” para um jogador incomum. Batia pênalti com cavadinha e popularizou ainda mais o estilo em sua época. Com a camisa do Flamengo, brilhou menos do que poderia pelo curto tempo em que ficou por lá. No Palmeiras, foi o cérebro do melhor time da história do profissionalismo do Campeonato Paulista e que marcou mais de 100 gols em 1996. Mas foi no Deportivo La Coruña que o meia virou rei e ajudou o clube da Galícia a levantar um inédito título nacional, entre outras taças. Por ser genioso, acabou não sendo lembrado em muitas premiações individuais (uma tremenda injustiça) nem tendo o espaço que merecia na seleção brasileira, pela qual poderia ter sido campeão do mundo em 2002. Uma pena, mas que em nada diminuiu a sua história. É hora de relembrar.

 

A figura paterna

Djalma Dias e o filho Djalminha. Foto: Alexandre Battibugli / Revista Placar.

 

Djalminha nasceu sob a inspiração de seu pai, Djalma Dias, notável zagueiro da primeira Academia do Palmeiras nos anos 1960 e que acumulou quase 50 jogos pela seleção brasileira. Nascido em Santos (SP), o jovem cresceu no Rio, terra onde seu pai jogou os últimos anos da carreira, no Botafogo, entre 1976 e 1977. Habilidoso desde cedo, Djalminha se inspirava nos jogos do time de veteranos conhecido como Milionários, que ele costumava ver no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, que tinha, além de seu pai, astros como César Maluco, Djalma Santos, Edu, Zé Maria, Chicão, Garrincha, entre outros. “Eu olhava tudo o que eles faziam. Naquela época, só queria saber de futebol”, disse Djalminha à revista Placar em abril de 2002. Nada escapava de seus olhares. Cada drible e cada lance eram vistos com muita atenção para serem aplicados quando ele decidiu iniciar sua carreira no Flamengo, que vivia um momento de ouro naqueles anos 1980 e colhia os louros da geração de Zico, Júnior e companhia.

Mais do que isso, a equipe vinha se reconstruindo e queria manter a rotina de títulos na década que iria começar seguindo o lema “craque o Flamengo faz em casa”. E, de fato, o clube estava prestes a revelar para o futebol uma nova geração de talentos como Marcelinho Carioca, Paulo Nunes, Júnior Baiano, Piá, Fabinho e… Djalminha, já tido como um gênio nas partidas dos juniores que disputava naquele final de anos 1980. Para se ter uma ideia, em 1987, com 16 anos, Djalminha entrou para completar um treino da Seleção de Masters, onde jogava seu pai, e o garoto arrebentou com o treinamento, chamando mais atenção do que a estrela máxima daquele encontro: Pelé. O meia era um pandemônio e entortava os rivais com uma habilidade impressionante. A bola que precisava correr, não ele, por isso o garoto sabia como dar um passe, um drible, um lançamento. Mas chamava a atenção também seu temperamento, pois ele facilmente se metia em discussões. Era o boleiro nato que não fugia da briga.

Mesmo com esse jeito de ser, Djalminha começou a ganhar espaço entre os profissionais do Flamengo já em 1989, durante a campanha do Campeonato Carioca. Sua estreia aconteceu na vitória por 1 a 0 do rubro-negro sobre o América-RJ, no Maracanã, quando o time era treinado por Telê Santana, que conhecia como ninguém um jogador de talento. O jovem entrou no lugar de Renato Carioca e jogou ao lado de Bebeto, Zinho, Marquinhos, Jorginho, Zé Carlos e Aílton. Após outro jogo em dezembro, contra o Grêmio, pelo Campeonato Brasileiro, Djalminha voltaria aos gramados em 1990. Para não sair mais.

 

Um novo maestro para a Nação adorar

O Fla da Copinha: base subiu praticamente inteira para o time profissional. Foto: Placar.

 

Em 1990, Djalminha ganhou de vez os noticiários com suas atuações pelo Flamengo na Copa SP de Futebol Júnior. Jogando ao lado do zagueiro Júnior Baiano, do lateral Piá, do polivalente Fabinho, do volante Fábio Augusto e dos meio-campistas Marquinhos e Marcelinho Carioca, além dos atacantes Nélio e Paulo Nunes, o craque arrasou e foi um dos destaques da campanha vitoriosa do rubro-negro. Para se ter uma ideia, na semifinal, o Flamengo goleou o Corinthians (maior vencedor da história do torneio) por 7 a 1 com incríveis cinco gols de Djalminha! Na decisão, o Mengo venceu o Juventus por 1 a 0 num golaço por cobertura de Júnior Baiano, após, claro, passe perfeito de Djalminha. O time carioca faturou a taça com um dos maiores – para muitos, o maior – esquadrões da história da Copa SP. Foi o primeiro título de Djalminha e também a revelação definitiva do jogador para o grande público.

 

Veja a goleada de 7 a 1 sobre o Corinthians:

E o gol da vitória na final:

Na festa do título, o jovem recebeu os cumprimentos de seu pai, Djalma Dias, presente no Pacaembu naquele dia. Infelizmente, aquele seria o último grande momento de Djalminha ao lado de seu pai, pois Djalma Dias iria falecer em maio daquele mesmo ano, com apenas 51 anos, vítima de um AVC.

Claro que as comparações de Djalminha com Zico não demoraram a surgir e isso acabou pesando naquele início de carreira do meia, que também passou, assim como o Galinho de Quintino, pelo processo de fortalecimento muscular e clínico para que ele crescesse alguns centímetros e ficasse mais forte, o chamado “craque-laboratório”. Djalminha chegou a revelar anos depois que a cobrança era muito grande para todo meia de talento que surgia na Gávea naquela época.

 

“A cobrança maior, a dificuldade, foi no Flamengo. O Zico havia parado e era aquele negócio: qualquer camisa 10 vindo da base era o “novo Zico”. Então, eu passei por isso, o Marcelinho Carioca passou por isso, o Marquinhos passou por isso. E isso prejudicou porque é uma coisa impossível de acontecer, o Zico é insubstituível, não vai ter um novo Zico. Podem surgir jogadores de qualidade no Flamengo, que honrem aquela camisa 10, mas um novo Zico não tinha como e essa cobrança existia”. Djalminha, em entrevista ao UOL, 20 de julho de 2018.

 

Assim como vários jogadores da campanha do título da copinha, Djalminha rumou direto para o time profissional – já treinado por Jair Pereira – e foi um dos jogadores que mais disputou jogos naquela temporada. Mesmo com vários nomes de peso no elenco, ele conseguiu ser titular e ajudou o rubro-negro a conquistar de maneira invicta a Copa do Brasil de 1990, atuando em seis dos dez jogos da campanha rubro-negra. Djalminha ainda jogou alguns amistosos no exterior e partidas do Campeonato Brasileiro, mas este o time carioca não foi bem. Na temporada, Djalminha disputou 41 jogos e anotou sete gols.

Já no ano seguinte, o craque atuou em vários jogos da campanha do título Carioca de 1991 e consagrou de vez seu período no rubro-negro com o título do Campeonato Brasileiro de 1992. Naquele ano, o meia marcou os mesmos sete gols de dois anos antes, mas em menos jogos – 28 partidas. Embora não tivesse sido titular absoluto na campanha, o craque foi fundamental pela visão de jogo privilegiada e talento com a bola nos pés. Ainda sim, parecia que o meia ainda rendia menos do que podia. Ele merecia mais espaço, mais liberdade. Até que, em 1993, tudo começaria a mudar.

 

Saída para melhor

A briga entre Djalminha e Renato Gaúcho, com Marcelinho Carioca (ao centro) apartando a dupla.

 

Após o título nacional, Djalminha seguiu no Flamengo, mas por pouco tempo. Sua última partida aconteceu em julho de 1993, na derrota de 3 a 2 para o Fluminense, em Niterói, pelo Torneio Rio-SP. Foi naquele dia, em pleno Fla-Flu, que o craque se desentendeu com Renato Gaúcho, seu companheiro de Fla, e a turma do deixa disso teve que apartar a dupla para evitar uma briga maior – apesar do clima quente, os dois são amigos nos dias de hoje. Foi um lance bobo, de jogo, que fez com que a diretoria “convidasse Djalminha a se retirar” do clube, segundo o próprio jogador. Não havia mais clima para seguir na Gávea, embora o meia quisesse ficar por lá.

Sem ressentimento e maduro para assumir o que fazia – ele sempre teve muita personalidade -, Djalminha acabou indo para o Guarani, onde fez grandes jogos, teve uma rápida passagem pelo Japão, e voltou para encantar os amantes do futebol com jogadas plásticas e passes precisos principalmente em 1994, quando atuou ao lado de Luizão e Amoroso, uma das mais lendárias duplas de ataque do Bugre e que faria história no futebol mundial nos anos seguintes por outros clubes. O craque jogou também ao lado de Fábio Augusto, seu companheiro de Flamengo lá em 1990.

 

Em apenas 96 jogos, Djalminha marcou 47 gols pelo Bugre e teve a então melhor marca da carreira. Isso se deu não só ao entrosamento com os companheiros de ataque, mas também com o estilo de jogo ofensivo proposto pelo técnico Carlos Alberto Silva. O Guarani chegou longe no Brasileiro de 1994 e alcançou o 3º lugar, com Amoroso no topo da artilharia ao lado de Túlio, do Botafogo, com 19 gols. Por causa da ida ao Japão em 1994, Djalminha acabou de fora de muitos jogos da grande campanha do Brasileirão, mas conseguiu cravar seu nome na história do Bugre. Jogando cada vez melhor, era questão de tempo até o meia ser requisitado por um grande clube. E a oportunidade surgiu já em 1995, quando o Palmeiras comprou o passe do jogador para montar mais um esquadrão.

 

O maestro do ataque dos 102 gols

Além de Djalminha, o Palmeiras ainda trouxe no final de 1995 o atacante Luizão, tacada certeira da diretoria alviverde para aproveitar o entrosamento da dupla. E, com eles, o reforço do lateral-esquerdo Júnior, do técnico Vanderlei Luxemburgo e a manutenção de jogadores como Velloso, Cléber, Cafu, Galeano, Amaral, Rivaldo e Müller, o Palmeiras começou o ano de 1996 com grandes expectativas. E elas foram de fato correspondidas.

Na pré-temporada, Luxemburgo começou a testar o poder de fogo de seus comandados. Armou o time com Velloso no gol, Cléber e Sandro na zaga, os velozes e habilidosos Júnior e Cafu nas laterais e Flávio Conceição e Amaral no meio de campo, além da possibilidade de Galeano atuar por ali também em algumas partidas. Mas era do meio para frente que a coisa engrenava. Os meias eram Rivaldo e Djalminha. Ambos técnicos, inteligentíssimos, capazes de decidir jogos sozinhos, com um chute, um passe, uma jogada. E, no ataque, Müller se transformou em uma invenção do treinador. Como já estava com 30 anos e sem a velocidade de antes, Luxa fez com que ele usasse seu conhecimento para abrir espaços na zaga e efetuar passes precisos e na medida para o centroavante de ofício Luizão, uma verdadeira máquina de gols na época. O volume de jogo do time nos treinos era impressionante. A velocidade, contagiante. E os gols, em profusão. Mesmo com tantas estrelas no setor ofensivo, Luxa conseguia ter um time forte, também, na defesa, com a força e entrosamento dos zagueiros, o fôlego para ir, voltar e marcar dos laterais e a aplicação tática incrível de Amaral, Flávio Conceição e Galeano.

Rivaldo e Djalminha: artistas do super ataque do Verdão.

 

No dia 19 de janeiro de 1996, o primeiro jogo amistoso foi contra o Grêmio, então campeão da América e que tinha perdido o Mundial Interclubes do ano anterior apenas nos pênaltis para o fortíssimo Ajax-HOL. Mesmo sem sua força máxima, o Palmeiras venceu por 2 a 1 de virada e começou com o pé direito a temporada. Dias depois, a equipe foi até o estádio Castelão, em Fortaleza (CE), disputar o torneio amistoso Euro-América ao lado de Flamengo e Borussia Dortmund-ALE, campeão alemão, um dos principais times europeus da época e que seria campeão da Liga dos Campeões da UEFA de 1996-1997 e do Mundial Interclubes de 1997. E, no duelo contra os germânicos, o Palmeiras aplicou uma sonora goleada de 6 a 1 que fez os aurinegros perderem o rumo de volta pra casa. Rivaldo marcou três. Luizão, Cafu e Elivélton fecharam a conta. E provaram o poder do ataque alviverde. Aqueles jogos foram apenas prenúncios para o Campeonato Paulista, disputado em turno e returno por 16 equipes. Os campeões de cada turno fariam a final após as 30 rodadas. Se um mesmo time vencesse os dois turnos, ele obviamente seria o campeão sem a necessidade de uma final.

Em pé: Júnior, Cafu, Sandro Blum, Cléber, Galeano e Velloso. Agachados: Flávio Conceição, Rivaldo, Luizão, Djalminha e Müller. Esse foi o time que enfiou 6 a 0 no Santos na Vila Belmiro.

 

A estreia do time alviverde foi em casa, contra a Ferroviária. Resultado: 6 a 1. Em seguida, veio o Novorizontino, fora, e outro massacre: 7 a 1. Três dias depois, uma vitória magra por 3 a 0 sobre o Mogi Mirim e o empate sem gols contra o União São João na sequência fez todos acreditarem que a “potência” daquele Palmeiras havia minguado. Ledo engano. A equipe goleou o Juventus em casa por 4 a 1, bateu o São Paulo por 2 a 0, venceu a forte Portuguesa da época por 3 a 1 e, na primeira fase da Copa do Brasil, massacrou o Sergipe por 8 a 0 com quatro gols de Luizão. Em março, primeiro derby do ano contra o Corinthians e vitória por 3 a 1, com gols de Djalminha (com menos de um minuto de jogo!), Júnior e um contra de Célio Silva.

Contra o Guarani, em casa, o Verdão venceu por 3 a 1, e, em dois jogos fora de casa, bateu o Araçatuba por 2 a 1 e o Botafogo de Ribeirão Preto por 8 a 0, com direito a cavadinha de Djalminha em cobrança de pênalti, um estilo que iria marcar a carreira do jogador. Ele não foi o criador do artifício, popular desde muito tempo e célebre inclusive pelos pés de Panenka, da Tchecoslováquia campeã da Europa em 1976, mas não há dúvidas de que o brasileiro ajudou a popularizar o estilo. Embora fosse criticado por bater pênaltis assim, Djalminha não via desrespeito nem diferença entre a “bola entrar no meio ou no canto do gol”, o importante era entrar! O próprio técnico Luxemburgo, naquela época, passou a criticar o jogador, que tinha que se explicar várias vezes que não fazia aquilo por desrespeito.

O fato é que Djalminha se divertiu como nunca na carreira, como ele mesmo disse à Placar em abril de 2002: “foi o time onde mais me diverti, dava gosto de jogar. A gente entrava para ganhar e golear”. Ao término da campanha avassaladora do Palmeiras – que teve ainda um 6 a 0 sobre o Santos em plena Vila Belmiro -, o time ostentou 27 vitórias, dois empates, uma derrota, 102 gols marcados (melhor ataque, óbvio) e 19 sofridos (melhor defesa) em 30 jogos. Aproveitamento: 92,2%. Impressionantes 83 pontos de 90 disputados – o vice-campeão, São Paulo, teve 55 pontos. Democrático, o Palmeiras não fez o artilheiro do torneio (foi Giovanni, do Santos, com 24 gols), mas sim vários goleadores, sendo os principais:

Luizão: 22 gols

Rivaldo: 18 gols

Djalminha: 15 gols

Müller: 15 gols

Cléber: 7 gols

Elivélton: 6 gols

 

O único porém daquele time foi ter perdido a final da Copa do Brasil mesmo favorito para o Cruzeiro dentro do Palestra Itália e de virada (2 a 1), com o primeiro gol alviverde arquitetado por Djalminha e feito por Luizão. Foi o Palestrazo alviverde, uma das mais dolorosas derrotas do time na história. Ainda em 1996, Djalminha foi eleito o melhor jogador do Brasileirão pela revista Placar e levou tanto a Bola de Ouro quanto a Bola de Prata, consagrando um de seus melhores anos da carreira. Leia muito mais sobre o Palmeiras de 1996 clicando aqui!

 

A única taça com a amarelinha

Como não poderia deixar de ser, Djalminha foi, enfim, lembrado para a seleção brasileira e convocado para a disputa da Copa América de 1997, na Bolívia. O então técnico Zagallo levou o que tinha de melhor e apostava no entrosamento cada vez maior entre Ronaldo e Romário, além da boa fase de Leonardo atuando como meia e ainda o talento de Djalminha, Denílson e Zé Roberto. Com tantas opções, ele podia se dar ao luxo de até revezar algum jogador se fosse necessário. E, se alguém levasse cartão ou algo do tipo, havia substituto à altura. No Grupo C da Copa, ao lado de México, Colômbia e Costa Rica, este o primeiro adversário do Brasil, em uma caminhada iniciada com algumas desatenções na defesa, mas o ataque sublime. Djalminha abriu o placar, aos 20’. González, contra, fez 2 a 0. Ronaldo fez o terceiro e o quarto ao seu estilo, cortando o defensor com um drible curto e já chutando para o gol. Romário fechou a conta em 5 a 0 e mostrou o primeiro cartão de visitas da seleção.

Contra o México, principal rival daquela primeira fase, a equipe brasileira sofreu nos pés de Hernández, atacante que abriu 2 a 0 para os mexicanos na primeira meia hora de jogo. Aldair diminuiu no comecinho da segunda etapa e, na sequência, entrou a genialidade de Romário. O craque invadiu a área driblando os adversários e chutou de surpresa, ao seu estilo, com grata contribuição de Romero para empatar: 2 a 2. A virada veio com um golaço de Leonardo e a vitória por 3 a 2 praticamente garantiu o Brasil na liderança do grupo, que foi sacramentada após a vitória por 2 a 0 contra a Colômbia.

Nas quartas de final, o Brasil enfrentou o Paraguai e Ronaldo marcou os dois gols da vitória por 2 a 0. Nas semis, o Brasil enfrentou o Peru e deu show. Denílson abriu o placar com um minuto de jogo. Flávio Conceição, em chutaço de fora da área, ampliou, aos 28’. Romário, aos 36’, fez o terceiro. Leonardo, aos 45’, fez o quarto após cruzamento de Cafu. Na segunda etapa, Romário fez o quinto após passe açucarado de Ronaldo. Leonardo, aos 10’, fez o sexto. E Djalminha fechou a goleada após cruzamento de Roberto Carlos: 7 a 0. Parecia treino. Na decisão, Djalminha acabou não jogando, mas o Brasil venceu a Bolívia por 3 a 1 e faturou sua primeira Copa América longe de casa, com seis vitórias em seis jogos, 22 gols marcados e três sofridos.

A taça continental foi a única de Djalminha com a seleção. Ele acabou preterido por Zagallo na convocação para a Copa de 1998. No entanto, o craque estava prestes a virar uma estrela do futebol internacional após acertar sua ida ao Deportivo La Coruña-ESP, em 1997, que na época já tinha um grande time e conseguia enfrentar de igual para igual qualquer equipe da Espanha. Mas, com Djalminha, o Dépor iria conseguir muito mais que isso…

 

O auge do maestro

Jogando ao lado dos brasileiros Mauro Silva, Donato e Flávio Conceição, além de grandes jogadores como Roy Makaay, Pauleta, Víctor entre outros, Djalminha encontrou o ambiente ideal para deslanchar e dar show. E o primeiro grande desafio do craque foi o Campeonato Espanhol de 1999-2000, que começou com uma goleada de 4 a 1 sobre o Alavés, em casa, com três gols de Makaay e um de Djalminha. A partir dali, o time iria manter uma boa sequência de resultados até alcançar o topo da tabela, sempre com a dupla Makaay e Djalminha jogando muito. Era bola de Djalminha para Makaay e gol do Deportivo! Com uma sintonia que lembrava bastante o dueto com Luizão nos tempos de Palmeiras, Djalminha virou um ídolo instantâneo do clube e a chance de título já era visível mesmo com a sempre temida dupla Barcelona e Real Madrid no páreo. Mas, no 06 de fevereiro de 2000, o time de Corunha encarou em casa o Real Madrid em um duelo decisivo para as pretensões de título de ambas as equipes. O Real vinha com seu “11 ideal” com nomes como Casillas, Sanchís, Hierro, Roberto Carlos, Redondo, Helguera, Guti, Raúl e Morientes, além do técnico Vicente del Bosque. Mas, em campo, o Deportivo realizou, talvez, sua partida mais marcante e inesquecível em toda a história da liga espanhola.

A lambreta para a história!

 

Com sua linha de frente irresistível e querendo jogo a todo instante, o time sufocou o Real desde o início e mostrou quem mandava no Riazor. E, naqueles primeiros minutos, Djalminha começou a mostrar seu repertório de jogadas sublimes e lances que o tornaram durante alguns anos um dos mais geniais meias do futebol mundial. O primeiro e mais notável aconteceu quando ele recebeu uma bola na entrada da área, e, com uma tranquilidade impressionante, deu um passe de carretilha para a ponta da grande área que deixou atônitos e sem reação alguma pelo menos cinco jogadores do Real que acompanhavam o lance (bem como todo o estádio!). Uma pena que Víctor não tenha feito o gol na sequência, mas nem precisava, pois o time continuou no ataque e chegou ao primeiro tento em uma cabeçada fulminante de Makaay. A imagem do lance de Djalminha ganhou o mundo pela beleza e plasticidade imensas, algo que raramente vemos no futebol atual e que a grande maioria dos jogadores não consegue copiar por pura falta de técnica e ousadia.

Veja abaixo:

Com passes perfeitos e dribles desconcertantes, Djalminha foi o nome do jogo e deixou o seu gol aos 17´, em cobrança de falta impecável. O Real diminuiu com Morientes ainda no primeiro tempo, mas Víctor fez 3 a 1 aos 3´do segundo tempo. Rápido, organizado e letal, o Deportivo dava show e enchia de alegria sua torcida, que ainda gritou mais duas vezes graças aos gols de Turu Flores, aos 25´e aos 35´. Com 5 a 1 no placar, a massa azul e branca gritava “olé” e via o Real ficar 10 pontos longe na zona de classificação. Hierro diminuiu no finalzinho, mas a goleada já estava escrita: 5 a 2. O resultado deixou o Deportivo mais confortável na liderança graças aos tropeços de Barcelona e Zaragoza naquela mesma rodada.

A decisão do título ficou para a última rodada, no dia 19 de maio de 2000, contra o Espanyol, no Riazor. Mais de 36 mil torcedores coloriram o estádio para o duelo decisivo. O Deportivo começou logo aos 3´a mostrar que iria escrever sua própria história. Donato, remanescente da primeira metade dos anos 1990, abriu o placar para os azuis e brancos de cabeça, para alegria da fanática torcida. Aos 34´, Manuel Pablo fez boa jogada e cruzou para o matador Roy Makaay fazer 2 a 0. No segundo tempo, o time tentou marcar mais um, mas a vitória por 2 a 0 permaneceu até o fim. Com o triunfo, o Deportivo sagrou-se pela primeira vez na história campeão do Campeonato Espanhol de futebol, após 21 vitórias, seis empates, 11 derrotas, 66 gols marcados (segundo melhor ataque), 44 gols sofridos e 69 pontos (cinco a mais que o vice, o Barça) em 38 jogos disputados. Roy Makaay foi o artilheiro do time com 22 gols em 36 jogos e a principal referência na frente. Djalminha, com 10 gols, foi o vice-artilheiro do time na competição e sem dúvida um dos principais responsáveis pelo título histórico do clube, que levou mais de 200 mil pessoas às ruas durante a celebração! Era o máximo, o surreal, o incrível para a carreira do craque!

Na temporada 2000-2001, o time da Galícia faturou logo de cara o título da Supercopa da Espanha após empatar em 0 a 0 com o Espanyol, na ida, e vencer os catalães por 2 a 0 na volta, no Riazor, com gols de Djalminha e Diego Tristán. O grande foco do time seria a Liga dos Campeões da UEFA, disputada pela primeira vez pelos azuis e brancos na história. Selecionados no Grupo E, ao lado de Panathinaikos-GRE, Hamburgo-ALE e Juventus-ITA, os espanhóis demonstraram maturidade e sangue frio para encarar rivais com bastante bagagem internacional e conquistar a primeira posição do grupo, deixando de fora justamente os “favoritos” Hamburgo e Juventus. Foram duas vitórias e quatro empates em seis jogos.

Na segunda fase de grupos, o time voltou a ficar na liderança após três vitórias (3 a 1 no PSG-FRA, fora de casa, com gols de Naybet, Turu Flores e Makaay; 2 a 0 no Galatasaray-TUR, em casa, com gols de Víctor e Djalminha; 4 a 3 no PSG-FRA, em casa, com três gols de Pandiani e um de Tristán), um empate (1 a 1 com o Milan-ITA, fora) e duas derrotas (para Milan, em casa, e Galatasaray, fora, ambas por 1 a 0) em seis jogos, deixando de fora italianos e franceses. No mata-mata, porém, o time caiu já nas quartas de final diante do Leeds United-ING após perder por 3 a 0 fora de casa e vencer por 2 a 0 em casa, resultado insuficiente para a vaga na semifinal.

Em território nacional, o Deportivo não foi bem na Copa do Rei, mas mostrou que o título de 2000 não havia sido um mero acaso e brigou até o fim pelo caneco do Campeonato Espanhol. Jogando em casa, a equipe mostrou-se quase imbatível e venceu 15 dos 19 jogos que disputou, com apenas uma derrota e três empates. Fora de casa, o time fez grandes jogos e conseguiu sua primeira vitória jogando no Camp Nou contra o Barcelona na história: 3 a 2, com mais um show de Djalminha, que fez um gol e deu um passe para Víctor anotar o segundo (o terceiro também foi de Víctor), e um triunfo por 1 a 0 sobre o Valencia em pleno Mestalla. No fim, o time não conseguiu alcançar o Real Madrid e terminou na segunda colocação com 22 vitórias, sete empates, nove derrotas, 73 gols marcados (terceiro melhor ataque) e 44 sofridos em 38 jogos.

 

A explosão que custou uma Copa

Jogando muito, Djalminha era tido como presença certa na Copa de 2002 pela seleção. O meia chegou a ser convocado por Felipão algumas vezes e até marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre a Arábia Saudita, em fevereiro de 2002. Mas o temperamento explosivo do meia, que levava cartões vermelhos muitas vezes evitáveis, além da discordância do jogador com as ideias do técnico do Deportivo, Javier Irureta, acabavam gerando atritos que ficavam cada vez mais frequentes, apareciam na mídia e levaram o jogador até a esquentar o banco de reservas do clube galego, principalmente no primeiro semestre de 2002. O meia era contra o treinador, que não deixava o Deportivo jogar de maneira mais ofensiva por ter “mentalidade de time pequeno, que ficava confortável em chegar na quarta, quinta posição de um campeonato”.

O estopim dessa relação aconteceu nas vésperas da decisão da Copa do Rei de 2002 – que seria vencida pelo Deportivo sobre o Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu – quando, em um treinamento, Djalminha não concordou com a marcação de um pênalti e começou a discutir com o auxiliar Paco Melo. O técnico Irureta foi defender o auxiliar e Djalminha discutiu com Irureta. O treinador xingou o brasileiro, que retrucou com uma encarada e uma ligeira cabeçada, que chegou ao Brasil como se tivesse sido uma “enorme” cabeçada. Não foi tudo isso, como você pode ver no vídeo abaixo, mas o caso ganhou repercussão, na época ninguém ficou sabendo que Irureta xingou o brasileiro e tudo caiu como uma bomba na mídia.

 

“Não sou muito de me arrepender das coisas que eu faço. Não estava louco, fora de si. Não estava anormal. Se a consequência foi essa, paguei, depois se arrepender não adianta. De repente podia ter não feito e não ter ido. Depois que acontece, fica muito mais fácil falar. […] Se o Felipão diz que atrapalhou, tenho que acreditar nele [risos]. Ele já deu entrevistas dizendo que atrapalhou, que eu seria convocado. Não gosto muito do se… Não aconteceu porque não tinha que ser, está tudo certo. Lógico que gostaria de participar da Copa, independente de ser para ganhar. Ganhando, melhor ainda”, disse o jogador em entrevista ao UOL Esporte, em agosto de 2013.

Com a repercussão do caso na imprensa, Felipão deixou Djalminha de fora e levou um ainda novato Kaká para a disputa da Copa de 2002. No fim, todo mundo sabe: o Brasil foi campeão mundial e o craque acabou perdendo a chance de faturar o título. Uma pena, pois ele iria agregar bastante ao time canarinho, principalmente com a possibilidade de reeditar a dupla com Rivaldo no meio de campo ou mesmo como uma alternativa para as etapas complementares substituindo o meia e jogando ao lado de Ronaldinho ou vice e versa.

Veja o craque comentando sobre o caso na TV UOL:

 

Fim da alegria

O desentendimento com Irureta custou a permanência de Djalminha também no Deportivo. Ele acabou emprestado ao futebol austríaco na temporada 2002-2003, voltou tempo depois à Espanha, mas deixou o clube da Galícia já em 2004 para uma breve estadia no futebol mexicano. Com 34 anos e sofrendo com lesões, o meia decidiu se aposentar dos gramados naquele ano muito por “falta de tesão”, como ele mesmo diz. Nada mais alegrava o jogador, que reclamava de treinamentos, concentração e de todo o ambiente futebolístico. Na volta ao Brasil, Djalminha ficou dois meses curtindo a aposentadoria, mas decidiu retomar a vida no esporte jogando Showbol, perfeito para um craque como ele. O jogador foi inclusive o artilheiro da conquista do Brasil no Mundialito da modalidade, em 2006, na Espanha, com seis gols e muita exuberância no país onde ele tanto deu show. Anos depois, vestiu a camisa do Flamengo e também faturou títulos de Showbol até virar comentarista da ESPN Brasil, em 2015.

 

Para sempre no rol dos Craques

Embora nunca tenha tido o brilho que merecia na seleção brasileira ou mesmo a chance em um grande clube europeu, Djalminha conseguiu, em 14 anos como profissional, cravar seu nome como um dos mais técnicos meias do futebol brasileiro e mundial. Sua visão de jogo, seus malabarismos com a perna esquerda e os dribles humilhantes sobre os adversários foram um deleite a qualquer amante do futebol. Boleiro nato, Djalminha levou a campo a malícia, o jeito malandro, o futebol imarcável e que não obedecia regras. Ele fazia as suas. E as fez com maestria. Se ele deixou a impressão de que fez menos do que poderia, imagine em sua plenitude? Vixe… Haja chapéu, canetas… Um legítimo craque imortal.

 

Números de destaque:

Disputou 133 jogos e marcou 28 gols pelo Flamengo.

Disputou 96 jogos e marcou 47 gols pelo Guarani.

Disputou 90 jogos e marcou 50 gols pelo Palmeiras.

Disputou 186 jogos e marcou 50 gols pelo Deportivo La Coruña.

Disputou 14 jogos e marcou cinco gols pelo Brasil.

 

Leia mais sobre o Flamengo 1990-1992 clicando aqui!

Leia mais sobre o Palmeiras 1996 clicando aqui!

Leia mais sobre o Deportivo La Coruña dos anos 2000 clicando aqui!

Leia mais sobre o Brasil 1997-1999 clicando aqui!

 

Extras:

Veja grandes lances de Djalminha.

 

Veja gols de Djalminha em cobranças de pênaltis com cavadinha.

 

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1 thought on “Craque Imortal – Djalminha

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