Craque Imortal – Gerrard

Foto: AP

 

Nascimento: 30 de maio de 1980, em Whiston, Inglaterra.

Posições: Meia e Volante.

Clubes: Liverpool-ING (1998-2015) e LA Galaxy-EUA (2015-2016).

Principais títulos por clube: 1 Liga dos Campeões da UEFA (2004-2005), 1 Copa da UEFA (2000-2001), 1 Supercopa da UEFA (2001), 2 Copas da Inglaterra (2000-2001 e 2005-2006), 3 Copas da Liga Inglesa (2000-2001, 2002-2003 e 2011-2012) e 1 Supercopa da Inglaterra (2006) pelo Liverpool.

Principais títulos individuais: 

Jogador com maior número de jogos como capitão do Liverpool na história: 473 jogos

Maior artilheiro da História do Liverpool na Liga dos Campeões da UEFA: 30 gols

na lista de jogadores com mais jogos disputados pelo Liverpool na história: 710 jogos

5º Maior Artilheiro da História do Liverpool: 186 gols

Maior Artilheiro da História do The North West Derby entre Liverpool x Manchester United: 9 gols

Melhor Jogador de Clube do Ano da UEFA: 2005

3º colocado no Ballon d’Or: 2005

Jogador do Ano da PFA: 2005-2006

Jogador Jovem do Ano da PFA: 2000-2001

Eleito para o Time do Ano da Premier League pela PFA: 2000–2001, 2003–2004, 2004–2005, 2005–2006, 2006–2007, 2007–2008, 2008–2009 e 2013–2014

Honra ao Mérito PFA: 2015

Futebolista do Ano da FWA: 2008-2009

Futebolista Mais Popular do Mundo pela IFFHS: 2006

Onze d’Argent: 2005

Futebolista do Ano da FA: 2007 e 2012

FIFA FIFPro World XI: 2007, 2008 e 2009

Eleito para o Time do Ano da UEFA: 2005, 2006 e 2007

UEFA Ultimate Team of the Year: 2015

UEFA Team of the Century: 2017

Eleito para o All-Star Team da Eurocopa: 2012

Eleito o Melhor Jogador da Final da Liga dos Campeões da UEFA: 2005

Eleito para o Time do Ano da ESM: 2008-2009

Eleito para o Time dos Sonhos dos primeiros 20 anos da Premier League: 2012

MLS All-Star: 2015

Eleito para o Hall da Fama do Futebol Inglês: 2017

BBC Goal of the Season: 2006

Maior Assistente da Premier League: 2013-2014 (13 assistências)

Ordem do Império Britânico: 2007

Eleito o Maior Jogador da História da Liverpool pelo jornal The Telegraph: 2015

 

“This is GERRARD!”

Por Guilherme Diniz

 

O lema “This is Anfield” que tanto amedronta os rivais antes da entrada no gramado de Anfield Road ganhou, a partir de 1998, a companhia de outro. Na verdade, de uma lenda. De um ser que vestiu o manto do Liverpool FC como parte integrante de si. E que, após utilizar pela primeira vez a braçadeira de capitão, iria levar o clube ao fim dos tempos difíceis e da escassez de títulos. Ele comandaria vitórias épicas. Ele iria impulsionar o feito mais incrível da história do futebol europeu, o Milagre de Istambul. E jogaria tanto em outra decisão que ela seria batizada com o singelo nome de The Gerrard Final, assim como outra lenda inglesa conseguiu décadas atrás – um tal de Sir Stanley Matthews. Aquele capitão era o torcedor em campo, aquele que nunca deixava o Liverpool caminhar sozinho. Com a bola nos pés, superava os adversários como um touro, em passadas largas, rápidas, imparáveis. Não fugia da briga, encarava tudo e todos. Tinha técnica, força, visão de jogo, precisão nos passes, nos chutes e o tento para gols históricos. Foi o maior capitão da história do Liverpool e o que mais vezes vestiu a lendária braçadeira dos Reds, superando Ron Yeats, Emlyn Hughes e Alex Raisbeck. Para ele, o futebol nunca foi só bater bola, mas sim lidar com tudo o que vem com ele. Steven George Gerrard catapultou seu nome na história como um dos mais talentosos e completos meio-campistas de todos os tempos, um dos maiores do futebol inglês (para muitos, o maior) e ícone de um Liverpool que conseguiu superar vários rivais poderosos e endinheirados na primeira década do século XXI. Com Gerrard, o time de Merseyside deixou os tempos sombrios de lado para retomar o orgulho e voltar ao pelotão de frente do futebol. Faltou um título da Premier League e alguma glória com a seleção, claro, mas isso não diminuiu o tamanho do craque em seu clube e também no esporte. Por anos, em Liverpool, além de This is Anfield, havia também This is Gerrard. É hora de relembrar.

 

O futuro é logo ali

 

Esse tem futuro, pode escrever! 😀

 

Gerrard nasceu em Whiston, cidade com pouco mais de 14 mil habitantes, localizada em Merseyside e cerca de 12,8 km de distância de Liverpool. Como praticamente todo garoto inglês, o jovem era apaixonado por futebol e tinha camisetas de vários clubes, entre eles Tottenham, Real Madrid, Barcelona, Norwich e até do Manchester United. Seus familiares também contribuíam para o gosto do garoto e tentavam convencê-lo de que o Everton era o time para se torcer na região. Só que Gerrard dava mais ouvidos ao seu pai, que contou-lhe as grandes histórias do Liverpool. E, depois de conhecer as lendas de Bill Shankly e do esquadrão que dominou a Europa entre 1975 e 1984, aí não teve jeito: Gerrard foi para o lado vermelho de Merseyside. Na TV ou nos estádios, o jovem se encantava com Ian Rush e John Barnes, ícones dos Reds, e Paul Gascoigne, lenda da seleção inglesa, seus ídolos de infância. E, após gastar a bola pelo Whiston Juniors, chamou a atenção do Liverpool, para onde foi aos nove anos de idade.

Não demorou muito para o garoto mostrar que tinha um talento impressionante. Certa vez, marcou 12 gols nos 27 a 0 que seu time aplicou no rival em um jogo de infantis. Leve e veloz, passava pelos adversários como se eles não estivessem lá. Tinha uma técnica incrível já com com oito, nove anos de idade. Mas, no final dos anos 1980, mais precisamente em 15 de abril de 1989, o jovem sofreu um baque enorme quando seu primo, Jon-Paul Gilhooley, de apenas 10 anos, foi uma das 96 vítimas da Tragédia de Hillsborough, ocorrida em uma partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pelas semifinais da Copa da Inglaterra – leia mais na Trivela, parceira do Imortais.

Aquilo poderia desmotivar para sempre o pequeno Gerrard de seguir em frente. Mas ele continuou. Era um torcedor do Liverpool e queria construir uma história no clube, a melhor forma possível para homenagear seu primo. Aos 12 anos, o jovem já era uma das principais promessas dos Reds e recebia elogios inclusive de ex-jogadores do Liverpool, como Steve Heighway, do esquadrão multicampeão dos anos 1970 e 1980 e diretor das categorias de base da equipe na época, que fez questão de destacar o talento do jogador em um artigo de jornal publicado em 1992. Heighway disse que Gerrard “já jogava na equipe sub-14 mesmo tendo apenas 12 anos, com destaque para seu enorme talento e fanatismo pelo Liverpool. Sua atitude para orientar os companheiros e o desenvolvimento pessoal é uma alegria de se ver e que a comissão técnica estava genuinamente empolgada”.

Gerrard crescia a cada dia e foi para o time profissional juntamente com outra grande promessa, o atacante Michael Owen, seu grande amigo. A dupla enchia a torcida de esperança para a retomada do caminho das glórias, pois era uma época difícil para os Reds, que viam o Manchester United e o Arsenal dominarem o futebol inglês naqueles anos 1990, enquanto o Liverpool vivia cada vez mais de seu passado de glórias dos anos 1970 e 1980.

 

Estreia e titularidade

Gérard Houllier e Roy Evans, comandantes do Liverpool no início da temporada 1998-1999, foram os responsáveis pelo início da carreira profissional de Gerrard, que assinou seu primeiro contrato em novembro de 1997. Por atuar no meio de campo, o jovem demorou um tempo para estrear no time principal, pois Redknapp, Steve McManaman, Patrik Berger e Paul Ince eram os titulares preferidos dos treinadores e não davam brecha para aquele magricela de 18 anos, ao contrário de seu companheiro Michael Owen, que já confirmava as expectativas no ataque do time sendo o artilheiro do clube tanto na Premier League (18 gols) quanto na temporada (23 gols no total), além de ter brilhado na Copa do Mundo de 1998 com um golaço em um épico duelo contra a Argentina. Mas o período no banco de reservas serviu para o jogador se ambientar com a atmosfera de Anfield Road e perder o medo e a tensão que ainda perambulavam naquela época.

“Eu era fascinado pelo barulho de Anfield, algo que só via pela TV. Estar ali, presente, era de fato um sonho para mim. […] Eu estava cercado de jogadores milionários com 60, 70 jogos internacionais e 500 partidas na carreira. Eu me senti muito intimidado. Era estranho para mim estar sentado ao lado de jogadores que até pouco tempo eram heróis para mim”, comentou Steven Gerrard sobre aquele início de carreira à revista Four Four Two, em 05 de janeiro de 2015. Por outro lado, esses mesmos jogadores ajudaram Gerrard a crescer, principalmente Redknapp e Paul Ince, “estudados” pelo jovem tanto dentro como fora de campo para que ele soubesse como se portar e atuar pelo clube.

A estreia de Gerrard no time principal aconteceu no dia 29 de novembro de 1998, contra o Blackburn, mas durou apenas alguns minutos. Os jogos seguintes foram ruins e o jovem mostrava muito nervosismo naquele seu início pelos Reds. Ainda sim, Gerrard disputaria 13 jogos na temporada graças à lesão de Redknapp, que abriu uma vaga para o jogador no meio de campo. Segundo o próprio Gerrard, aqueles primeiros meses como profissional não lhe passavam a impressão de que ele “pertencia” ao Liverpool. Só na temporada 1999-2000, com 19 anos, que o jogador, enfim, teve esse sentimento ao atuar em 31 partidas na temporada e marcar seu primeiro gol (aliás, um golaço) passando por dois marcadores e chutando no canto direito do goleiro do Sheffield Wednesday, em 05 de dezembro de 1999, em Anfield, na vitória por 4 a 1 do Liverpool. Gerrard começava a demonstrar algumas de suas principais qualidades naquela temporada: chutava muito bem de dentro e fora da área, tinha força nas corridas e desarmes, não se limitava apenas em defender no meio de campo e se mandava ao ataque com uma dominância incrível. Além disso, era raçudo, às vezes em excesso, o que lhe custou sua primeira expulsão já em 1999, em um clássico contra o Everton.

Owen e Gerrard: dupla de ouro do Liverpool no final dos anos 1990. (Photo by Martin Rickett – PA Images/PA Images via Getty Images)

 

 

Gerrard sofreu, também, as primeiras dores nas costas naquela época, resultado de seu crescimento acelerado e excesso de jogos na adolescência. Ele sofreu ainda problemas na virilha, algo que iria atormentar várias vezes o craque ao longo de sua carreira e exigir quatro cirurgias distintas. Tal problema atrapalhou a participação do jovem na Eurocopa de 2000 pela seleção inglesa. Ele atuou apenas como substituto na vitória por 1 a 0 sobre a Alemanha, na fase de grupos. A estreia do craque pelo English Team foi em maio, em amistoso contra a Ucrânia vencido por 2 a 0. Mas o craque iria se recuperar a tempo para fazer uma temporada inesquecível em 2000-2001.

 

Dono do meio de campo e as primeiras glórias

Embora fosse um meio-campista e gostasse de atuar na posição, o jogador era muitas vezes escalado pelas pontas e até como lateral, algo que prejudicava seu rendimento e também a expectativa de marcar mais gols. Após solucionar em um primeiro momento as dores nas costas e na virilha, Gerrard conseguiu convencer o técnico Houllier de que sua posição era o meio e melhorou em todos os sentidos, principalmente no quesito gols. Foram 10 naquela temporada em 50 partidas disputadas – ele foi um dos oito jogadores do elenco com mais de 50 jogos disputados. O Liverpool terminou na terceira posição a Premier League, mas deu show nas copas, vencendo simplesmente todas que disputou: Copa da Inglaterra – vitória de virada sobre o Arsenal por 2 a 1, com dois belos gols de Owen -; Copa da Liga Inglesa – empate em 1 a 1 e vitória nos pênaltis por 5 a 4 sobre o Birmingham City -; e Copa da UEFA, atual Liga Europa. Gerrard participou de todas as competições e foi decisivo na finalíssima continental contra o Deportivo Alavés, na qual marcou um gol no alucinante 5 a 4 que sacramentou o primeiro título europeu do clube após 17 anos de jejum – leia mais clicando aqui!

Gerrard fuzila: dois gols em menos de 20 minutos deram uma falsa impressão de goleada do Liverpool contra o Alavés.

 

 

Jogando ao lado de Carragher, Hyypiä, Owen, Hamann, Babbel, Smicer e Heskey, Gerrard realizou o sonho de ser campeão por seu time do coração. E ainda em dose tripla! O craque jogou tanto naquela temporada que foi eleito o Melhor Jogador Jovem de 2001 pela PFA (Professional Footballers’ Association), um prêmio mais do que merecido a um craque que não só jogava bem no meio de campo, mas que também dava passes aos seus companheiros (foram dele as duas assistências para a vitória por 2 a 0 sobre o Porto, nas quartas de final da Copa da UEFA), arriscava bombas de fora da área que causavam pânico aos goleiros – como em seu primeiro gol no clássico contra o Everton vencido por 3 a 1 em setembro de 2001 -, e começava a se mostrar uma grande arma ofensiva daquele Liverpool.

 

A goleada épica e ausência na Copa

Com a braçadeira de capitão: cena seria mais comum a partir de 2003.

 

Além de brilhar pelo Liverpool, Gerrard virou uma constante, também, na seleção inglesa. Ele voltou ao time em março de 2001, na vitória por 2 a 1 sobre a Finlândia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2002. Mas foi em setembro de 2001 que ele participou de um momento único. O craque anotou seu primeiro gol pelo English Team (um golaço, assim como seu primeiro pelo Liverpool!) na histórica goleada de 5 a 1 (de virada) sobre a Alemanha em pleno estádio Olímpico de Munique, pelas Eliminatórias da Copa, na primeira vitória inglesa sobre os rivais desde a final da Copa do Mundo de 1966. Gerrard marcou o segundo gol da vitória e ainda deu uma assistência para um dos três gols anotados pelo seu companheiro Owen. Heskey deu números finais ao placar.

Veja abaixo:

Comandada pelo sueco Sven-Göran Eriksson, aquela Inglaterra era um timaço, com Seaman, Campbell, Gary Neville, Ashley Cole, Ferdinand, Beckham, Scholes e Owen, além de McManaman, Carragher, Hargreaves e Fowler no banco de reservas. Gerrard disputou mais quatro jogos pela seleção até abril de 2002, mas uma nova lesão na virilha – era a sexta lesão, sendo quatro na virilha, desde novembro de 2000 – minou suas chances de convocação para a Copa e ele teve que operar meses antes do Mundial. Sem o craque, a Inglaterra acabou eliminada nas quartas de final para o campeão Brasil. O jogador ficou muito chateado, claro, mas mostrou serenidade na época:

 

“No curto prazo, é um grande golpe, mas tenho apenas 21 anos e estou confiante de que essa cirurgia significa que estarei envolvido em outros grandes torneios da seleção no futuro. Minha prioridade agora deve ser me preparar para o início da próxima temporada com o Liverpool”.Gerrard, em entrevista à BBC (UK), 14 de maio de 2002.

 

O meio-campista teria uma nova chance anos depois. Antes, era preciso manter o foco em seu time do coração para uma nova – e inesquecível – etapa.

 

The Captain

Owen e Gerrard erguem a taça da Copa da Liga Inglesa de 2003.

 

No dia 06 de novembro de 2002, Gerrard foi pela primeira vez capitão do Liverpool, durante a vitória por 3 a 1 sobre o Southampton pela Copa da Liga Inglesa. Mas a braçadeira só seria dele em definitivo no ano de 2003, quando o craque herdou a liderança do zagueiro Hyypiä. Foi o último ato do técnico Houllier ao craque, pois o francês deixou o clube após mais uma temporada sem títulos em 2003-2004, dando lugar ao espanhol Rafa Benítez, que fizera um trabalho excepcional à frente do Valencia-ESP (leia mais clicando aqui). O técnico teve, logo de cara, a missão de convencer o capitão Gerrard a não se transferir para o endinheirado Chelsea-ING, que estava disposto a pagar mais de 20 milhões de libras pelo jogador. Ele era um desejo do técnico dos Blues, o português José Mourinho, fã do futebol de Gerrard e que nunca escondeu de ninguém que desejava contar com o jogador em alguma equipe sua.

No entanto, Benítez conseguiu convencer o craque a ficar em Merseyside dizendo que era possível o clube vencer algo na temporada 2004-2005, principalmente após as contratações de Xabi Alonso, Luis García, Cissé e Morientes, que ajudaram a fortalecer um elenco que havia perdido a estrela Michael Owen, negociado ao Real Madrid. Sem Owen, o principal craque do Liverpool era Gerrard, que carregou o time em suas combalidas costas nos primeiros meses da temporada. O craque tinha em sua cabeça que todo capitão do Liverpool era campeão e o receio de carregar o fardo de “ah, esse não foi”. Era difícil para ele. E se tornou ainda mais durante a caminhada na Liga dos Campeões da UEFA, que começou na repescagem contra o Grazer AK, da Áustria. No primeiro jogo, em Graz, os Reds venceram por 2 a 0, com dois gols de Gerrard. No entanto, os austríacos venceram por 1 a 0 a partida de volta, em Anfield, e quase complicaram a vida dos ingleses, que passaram, mas com muito sufoco.

Drogba e Gerrard, ícones de duas gerações brilhantes de seus clubes, Chelsea e Liverpool.

 

Na fase de grupos, eles enfrentaram Monaco-MC, Deportivo La Coruña-ESP e Olympiacos-GRE, um grupo longe de ser fácil. No primeiro turno, a equipe venceu Monaco (2 a 0, em casa), perdeu para o Olympiacos, fora, por 1 a 0, e empatou em casa com o Deportivo em 0 a 0. No returno, vitória por 1 a 0 sobre os espanhóis em pleno Riazor e derrota por 1 a 0 diante do Monaco, no Stade Louis II. Na última partida, em Anfield, contra o Olympiacos, os ingleses precisavam de uma vitória confortável para não se preocuparem com o outro jogo. Mas os gregos abriram o placar (gol de Rivaldo) e colocaram a vaga inglesa em risco – eles precisavam de uma diferença de dois gols. Só no segundo tempo que o time de Benítez conseguiu respirar. Pongolle, Mellor e Gerrard, este com um lindo gol aos 41 minutos, decretaram o placar de 3 a 1 que classificou o Liverpool em segundo lugar no grupo (10 pontos, três vitórias, um empate e duas derrotas em seis jogos), à frente do Olympiacos graças ao saldo de gols e por ter um gol a mais do que a equipe grega.

Gerrard desolado: craque fez contra na final da Copa da Liga Inglesa contra o Chelsea.

 

O gol salvador de Gerrard foi crucial para a classificação dos Reds. Mas, logo após a vitória por 3 a 1 sobre o Bayer Leverkusen-ALE na ida das oitavas de final da Champions, o craque passaria por um momento indigesto. No dia 27 de fevereiro de 2005, na final da Copa da Liga Inglesa, Gerrard marcou contra o primeiro dos três gols do Chelsea na vitória dos Blues por 3 a 2 sobre os Reds que decretou o título da equipe de Mourinho. Justo em uma final e justo contra o Chelsea, o capitão falhou. Era preciso se redimir. Com a Premier League totalmente fora de cogitação – os Reds estavam na 5ª colocação – só havia a Liga dos Campeões no horizonte. Mas, embora a camisa fosse tradicional e pesada, outras equipes eram favoritas, incluindo o próprio Chelsea de Mourinho. Mas Gerrard iria fazer do torneio continental a ponte para sua imortalidade no futebol.

 

Capitão do Milagre

Após derrotar mais uma vez o Bayer por 3 a 1, na partida de volta das oitavas, na Alemanha, o Liverpool encarou a poderosa Juventus de Buffon, Cannavaro, Nedved, Del Piero, Ibrahimovic e companhia nas quartas de final e venceu por 2 a 1 o duelo de ida, em Anfield. Hyypiä fez o primeiro em jogada que começou após escanteio cobrado por Gerrard, e Luis García anotou o outro em chutaço de fora da área. Na volta, o 0 a 0 bastou para a classificação dos ingleses, que encararam o Chelsea em duelo cercado de expectativa e muito equilíbrio. Na ida, na casa dos Blues, empate sem gols. Na volta, Gerrard deu um belo toque para a jogada do gol da vitória por 1 a 0 ser concluída por Luis García, logo aos 4’ do primeiro tempo. Os Reds derrotaram o inimigo, vingaram a derrota lá de fevereiro e se garantiram em Istambul, local da grande final da Liga dos Campeões.

Nela, o adversário era a verdadeira seleção do Milan, com Dida, Maldini, Cafu, Stam, Pirlo, Seedorf, Kaká e Shevchenko, um timaço excepcional e que era franco favorito. E os prognósticos começaram a se confirmar com menos de um minuto de jogo, quando Maldini anotou o primeiro gol rossonero. Crespo fez o segundo, aos 39’, e mais um aos 44’, decretando 3 a 0 para o Milan ainda no primeiro tempo. “Senti que a ocasião era grande demais para mim. Me senti perdido”, disse Gerrard anos depois sobre aquele primeiro tempo. Mas o craque não desistiu.

 

“Tínhamos 45 minutos para recuperar algum orgulho. E acho que os fãs mereciam isso. Então, senti essa responsabilidade comigo. Senti que deveria arriscar mais”.

 

De fato, ele arriscou. Bem como seu time. Inflamado pelo apoio incondicional da torcida em Istambul, que cantou “You Will Never Walk Alone”, o Liverpool começou a escrever o “Milagre de Istambul”, que começou com Gerrard, autor do gol de cabeça logo aos 9’. Na comemoração, ele levantou os braços para o seu povo. Era um “vamos, gritem por nós, que nós faremos por vocês”. E fizeram. Smicer fez o segundo dois minutos depois. E, três minutos depois, quando Gerrard recebeu para fazer o terceiro, ele sofreu pênalti. Xabi Alonso bateu, Dida defendeu, mas o mesmo Xabi Alonso pegou o rebote e fez o terceiro: 3 a 3.

Gerrard levanta a torcida em Istambul: rumo ao Milagre!

 

Gerrard jogava uma das maiores partidas de sua carreira. Além da liderança, ele dividia bolas, dava carrinho e não deixava seus companheiros baixarem a guarda em nenhum momento. Após 90 minutos e outros 30’ de prorrogação, a decisão foi para os pênaltis. Nela, Gerrard não precisou bater. Ele já havia feito sua parte. Seus companheiros – e principalmente Dudek – garantiram o placar de 3 a 2 e o título histórico, o primeiro da Liga dos Campeões da UEFA do clube após 21 anos.

Gerrard com a Liga dos Campeões: capitão jogou as duas finais continentais vencidas pelo Liverpool em 2001 e 2005.

 

A cena de Gerrard levantando o troféu ficou marcada na história, na memória e na retina do torcedor. Foi a representação máxima da mística do Liverpool e de seu capitão, o líder de uma façanha épica, única. Gerrard foi eleito o homem do jogo e ganhou ainda o prêmio de jogador do ano da UEFA. Lembra que o capitão tinha o receio de não ser lembrado como um capitão vencedor? Bem, aquilo não era mais um problema para ele…

 

Permanência, The Gerrard Final e a primeira Copa

Na temporada 2005-2006, Gerrard voltou a ser cobiçado pelo Chelsea. Embora fosse campeão da Europa e tivesse alcançado o status de ídolo, ele sabia que os Reds dificilmente aguentariam mais uma temporada sem o poder de contratação de outros clubes. A oferta dos Blues na época era de quase 32 milhões de libras. Os fãs do Liverpool, ao saberem da situação, ficaram irados. Na porta de Anfield, Gerrard teve sua camisa rasgada, queimada e foi chamado de traidor em pichações. Diante de tudo aquilo, ele pensou bem na situação, teve uma conversa franca com seu pai e seu irmão e decidiu ficar, assinando um contrato de quatro anos. Outro jogador teria ido. Mas ele permaneceu. “Mais valia um título pelo Liverpool do que vários pelo Chelsea. Significa muito mais para mim”, disse o jogador na época.

Isso aliviou de vez os ânimos da torcida, que viu seu capitão alcançar a grande marca de 23 gols marcados, a maior de sua carreira na época, e ser o artilheiro do time. No entanto, o Liverpool mais uma vez sucumbiu na Premier League – foi 3º colocado – e também em uma disputa de Mundial de Clubes, ao ser derrotado pelo São Paulo de Rogério Ceni, que defendeu uma cobrança de falta épica do inglês, em um dos lances mais memoráveis do torneio. Na Liga dos Campeões, o Liverpool foi eliminado dentro de casa para o Benfica nas oitavas de final.

A defesa de Rogério no chute de Gerrard: cena que emoldura quadros e mentes tricolores…

 

As boas memórias para o jogador foram, além do grande número de gols, os títulos da Supercopa da UEFA e também da Copa da Inglaterra, esta muito especial para o camisa 8. Diante de mais de 71 mil pessoas em Cardiff, o Liverpool encarou o West Ham United e levou dois gols nos primeiros 30 minutos de jogo. Cissé diminuiu ainda no primeiro tempo e Gerrard empatou no comecinho da segunda etapa. Konchesky fez o terceiro dos Hammers, mas nos acréscimos, Gerrard marcou um golaço espetacular e empatou o jogo. Nos pênaltis, ele fez o seu e ajudou o Liverpool a vencer por 3 a 1 e garantir mais uma taça para sua coleção. O craque jogou tanto naquela final que ela recebeu o nome de The Gerrard Final, situação bem parecida com a vivida por outra lenda inglesa, Sir Stanley Matthews, que transformou a decisão da Copa da Inglaterra de 1953 em The Matthews Final após dar três passes para gols e jogar muito na vitória de virada de seu time, o Blackpool, por 4 a 3 sobre o Bolton.

Gerrard foi eleito naquela temporada o Melhor Jogador do Ano pela PFA, o primeiro do Liverpool a receber a honraria desde John Barnes, em 1988.

Veja o golaço:

Em 2006, Gerrard conseguiu realizar o sonho de disputar uma Copa do Mundo pela Inglaterra. O craque era titular em um meio de campo dos sonhos ao lado de Lampard, Joe Cole e Beckham. A equipe inglesa era uma das favoritas ao título, mas a rivalidade dos jogadores em seus clubes acabou prejudicando o rendimento da própria seleção, além da falta de um esquema de jogo que privilegiasse o futebol do quarteto do meio de campo.

 

Em pé: Robinson, John Terry, Ferdinand, Gerrard, Ashley Cole e Lampard. Agachados: Carrick, Beckham, Rooney, Joe Cole e Hargreaves. Nem assim a Inglaterra foi bem na Copa de 2006…

 

Ferdinand, Lampard e Gerrard admitiram tempo depois que as rixas nutridas entre Manchester United, Chelsea e Liverpool, respectivamente, criavam um bloqueio na hora de eles pensarem no bem comum. Gerrard marcou seu primeiro gol em Mundiais na vitória inglesa por 2 a 0 sobre Trinidad e Tobago, na fase de grupos, e ainda no empate em 2 a 2 com a Suécia. A Inglaterra alcançou as quartas de final, mas sucumbiu diante de Portugal, após empate sem gols no tempo normal e derrota nos pênaltis por 3 a 1 – Gerrard acabou desperdiçando sua cobrança. Após o Mundial, ele seguiu nas convocações do time inglês e foi nomeado vice-capitão pelo técnico Steve McClaren, um prenúncio de que em breve ele poderia ser o líder do English Team.

 

Novos tempos difíceis

Gerrard já era uma unanimidade no futebol. Ganhava os mais diversos prêmios e honrarias, além de possuir o respeito até mesmo dos torcedores rivais. Os jogadores também prestavam suas honras ao craque, como o brasileiro Ronaldinho, que disse em 2007 que Gerrard “era um dos melhores do mundo em sua posição”, e Zidane, que comentou em 2009 que o inglês “não tinha a fama de Messi e Cristiano Ronaldo, mas era o melhor do mundo por conseguir construir jogadas, desarmar adversários e ainda marcar gols, além de dar confiança aos seus companheiros, algo que você não pode aprender, você nasce com isso”. O craque voltou a liderar seu Liverpool a uma final de Liga dos Campeões na temporada 2006-2007 e com outra vitória diante do Chelsea em uma semifinal, mas o filme de Istambul não se repetiu e a equipe perdeu para o Milan de Kaká e Inzaghi por 2 a 1, em Atenas.

Em 2007, o “milagre” não se repetiu contra o Milan.

 

Na temporada 2007-2008, com Fernando Torres e Mascherano, Gerrard viu um time forte como há tempos ele não via, mas o sonho de ser campeão ruiu outra vez com apenas um 4º lugar na Premier League e eliminações nos torneios de mata-mata. Na virada da década, após o fracasso de investidores americanos no clube, o Liverpool estagnou novamente. Pela seleção, o craque foi titular na Copa de 2010, marcou um gol no empate em 1 a 1 contra os EUA, na estreia da fase de grupos, mas a Inglaterra foi eliminada pela Alemanha após derrota por 4 a 1 nas oitavas de final, a maior do English Team na história dos Mundiais. Gerrard virou capitão da equipe em 2012, alcunha que ele usufruiu na Eurocopa daquele ano. No entanto, o time inglês passava por um período complicado e foi eliminado nos pênaltis para a Itália nas quartas de final – Gerrard converteu sua cobrança. Ele seguiu como capitão até a Copa do Mundo de 2014, mas o English Team foi eliminado na primeira fase e deu adeus ao sonho do bi. No mês de julho de 2014, ele anunciou sua despedida da seleção após 114 jogos e 21 gols.

 

O escorregão e o adeus

Na temporada 2011-2012, Gerrard sofreu bastante por causa das lesões na virilha e perdeu boa parte dos jogos do Liverpool – ele disputou apenas 18 dos 38 jogos dos Reds na Premier League. No entanto, o craque foi o primeiro jogador desde Ian Rush, em 1982, a marcar três gols em um derby de Merseyside, nos 3 a 0 do Liverpool sobre o Everton em março de 2012, justamente em sua partida de número 400 pelos Reds na Premier League. Em vários momentos, enquanto se recuperava, Gerrard conseguiu curtir mais a família e ia até as arquibancadas de Anfield para ver os jogos. Em agosto de 2013, o craque deu outra prova de amor ao Liverpool e recusar uma proposta do então campeão europeu Bayern München.

Foi então que, na temporada 2013-2014, ele voltou com tudo para tentar o título inglês, a taça que ousava escapar de suas mãos. O Liverpool vinha forte, com a dupla de ataque formada por Luis Suárez (em grande fase) e Sturridge, além do meia brasileiro Philippe Coutinho, do meio-campista Henderson, do meia Sterling e do defensor Skrtel. Gerrard deu 13 assistências (foi o recordista na Premier League), Suárez fez 31 gols e o time de Anfield anotou 101. A equipe liderava o torneio desde a 32ª rodada e vinha de uma vitória emocionante contra o concorrente direto, o Manchester City, por 3 a 2, de virada, em Anfield, na 34ª rodada. Mas, na 36ª rodada, em casa, contra o Chelsea, tudo deu errado. Há várias semanas que Gerrard sentia dores nas costas e fazia muitos sacrifícios para jogar – muitas vezes contra as recomendações dos médicos. O capitão tomou analgésicos para aliviar as dores e entrou no jogo contra os Blues baleado. Ele não deveria estar lá, mas desejava e sabia que era um duelo decisivo.

 

O fatídico lance que custou a vitória contra o Chelsea.

 

Gerrard estava mais tenso do que de costume. Parecia prever algo. Até que o capitão recebeu uma bola no meio de campo já nos acréscimos do primeiro tempo, escorregou e deixou a redonda livre para Demba Ba sair em disparada e fazer o primeiro gol do Chelsea. No segundo tempo, os Blues aumentaram e venceram por 2 a 0 em Anfield. A derrota fez o Liverpool perder a liderança já na rodada 37, após empate em 3 a 3 com o Crystal Palace após os Reds estarem vencendo por 3 a 0. Na última rodada, não adiantava mais vencer o Newcastle como eles venceram. O título ficou com o Manchester City. Foi o mais perto que Gerrard chegou do troféu da Premier League. Foi um baque para o jogador, que começou a pensar no futuro e na aposentadoria.

 

“Tem sido provavelmente os três piores meses da minha vida. Eu tenho sofrido muito quando passo pelos vestiários depois e nas semanas e meses seguintes. Quando algo assim acontece, é preciso enfrentar, levantar a cabeça e aceitar o que aconteceu. Você não pode mudar. Foi cruel. Uma pessoa escorrega em qualquer momento de sua vida, na escada, no chão o que seja. Para mim, aconteceu em campo e em um momento ruim e eu tenho que enfrentar isso”. – Gerrard, em entrevista ao The Guardian (UK), 30 de julho de 2014.

 

De fato, qualquer um poderia ter escorregado, mas justo o capitão? Coisas do futebol, mas talvez por ele ser o único que tivesse moral e força para levantar a cabeça e receber o perdão da torcida. Gerrard sentiu que precisava parar. Com isso, anunciou que a temporada 2014-2015 seria sua última no Liverpool. Ele se despediu de Anfield no dia 16 de maio de 2015, na derrota por 3 a 1 para o Crystal Palace, com homenagem dos jogadores vestindo a camisa 8 e as arquibancadas reproduzindo mosaicos com os dizeres “Captain” e “S8G”, além da música “You Will Never Walk Alone” cantada em uníssono. A partida em si pouco importou. O dia era do capitão, que escrevia seu último capítulo como jogador no estádio onde ele tanto brilhou. Com microfone em punho ao final da partida e muito emocionado, Gerrard se dirigiu ao seu povo dizendo estar “absolutamente devastado porque nunca vou jogar para esses torcedores novamente”.

Gerrard comemora com Suárez: capitão se transformou no maior artilheiro do Liverpool na história do clássico contra o Manchester United em 2014: 9 gols no total.

 

O capitão acabou declinando da aposentadoria apenas para uma pequena aventura no futebol dos EUA e disputou 38 jogos pelo LA Galaxy entre 2015 e 2016 até se aposentar em definitivo dos gramados em novembro de 2016, aos 36 anos, por já sentir demais o peso da idade, as longas viagens pelos EUA durante a Major League Soccer e o clima bem mais hostil e diferente da Inglaterra.

 

Novos desafios para uma lenda

Foto: Getty Images.

 

Após pendurar as chuteiras, Gerrard começou a treinar a equipe de juniores do Liverpool em 2017. Muitos começaram a especular que o ídolo poderia assumir em breve o time principal dos Reds, mas ele acabou assumindo o Rangers-ESC em maio de 2018, onde espera repetir a trajetória de sucesso que teve como jogador – ele já venceu três prêmios de melhor técnico do mês na liga escocesa em 2019. Com títulos históricos, dezenas de prêmios individuais e recordes, Steven Gerrard está para sempre no rol dos maiores jogadores da história do futebol. Exigente e perfeccionista, nunca admitiu menos do que a vitória. E foi um dos raros exemplos de fidelidade e amor a clube, uma camisa. Em um documentário de 2018 sobre sua vida chamado “Make Us A Dream” (está disponível no Amazon Prime Video), o craque disse, quando deixou o Liverpool, que “deu tudo o que podia”. A resposta de seu pai foi perfeita e sintetizou muito bem o que seu filho fez nos gramados: “Não precisa me dizer isso. Eu vi com meus próprios olhos”. Nós também! Um craque imortal.

 

Números de destaque

 

Disputou 710 jogos e marcou 186 gols pelo Liverpool.

Deu 114 assistências pelo Liverpool.

Disputou 38 jogos e marcou 5 gols pelo LA Galaxy.

Disputou 114 jogos e marcou 21 gols pela Inglaterra.

 

Leia mais sobre o Liverpool 2004-2007 clicando aqui!

 

Extra:

Veja grandes momentos de Gerrard.

 

 

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6 thoughts on “Craque Imortal – Gerrard

  1. sensacional !!!!! esse cite muito obrigado por relembrar esses grandes craques do futebol mundial …. se não for pedir muito vocês poderiam relembrar a carreira do eterno goleiro do São Paulo Rogério Ceni abraço a todos

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