Pacaembu – Romântico Paulista

Foto: Dário Oliveira/Folhapress.

 

Por Guilherme Diniz

 

Nome: Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho

Localização: São Paulo, SP, Brasil

Inauguração: 27 de Abril de 1940

Partida Inaugural: Palestra Itália 6×2 Coritiba, no dia 28 de Abril de 1940

Primeiro gol: Zequinha, do Coritiba, no jogo Palestra Itália 6×2 Coritiba, 28 de Abril de 1940

Proprietário: Prefeitura de São Paulo

Capacidade: 37.730 pessoas

Recorde de público: muitas fontes citam que 71.280 pessoas acompanharam o jogo São Paulo 3×3 Corinthians, em 24 de maio de 1942, na estreia de Leônidas da Silva pelo tricolor. No entanto, a partida Palmeiras 1×1 Santos, pelo Campeonato Brasileiro de 1977, recebeu um público de 73.532 pessoas, comprovada em matéria do jornal “O Estado de S. Paulo” e fornecida por Sérgio Miranda Paz ao Imortais (a prova está no texto!). Portanto, consideramos esse jogo de 1977 como o recordista.

 

Durante décadas, ele foi sinônimo de domingo. Com sol, então, mais ainda. Chegar à praça Charles Miller e topar com aquela construção elegante estilo Art déco era magnífico. Uma ode ao passado. Das turmas que chegavam aos montes para empurrar seu time. Dos pais com seus filhos devidamente uniformizados. Dos vendedores e seus quitutes. Da galera do batuque. Tudo fazia parte do ritual. Chegar cedo era crucial. Só depois que chegava o momento de passar pelas catracas, subir as arquibancadas, sentar e esperar a hora do jogo, do verdadeiro romance, que podia ser do Campeonato Paulista, de Copa do Mundo, de Brasileiro, de Libertadores. Democrático, nunca fechava as portas e permitia aos cidadãos praticarem exercícios ou apenas caminharem por seus arredores. Um verdadeiro símbolo da cidade de São Paulo e do esporte brasileiro, o Estádio Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido como Pacaembu, completa 80 anos neste ano de 2020 de maneira peculiar. Sem festas, sem futebol. Ele é ajudante em um dos momentos mais delicados da humanidade neste século, a pandemia da covid-19, abrigando leitos hospitalares como trégua aos hospitais paulistanos. É a vocação de um estádio que sempre integrou e ajudou no desenvolvimento da metrópole não só no âmbito esportivo, mas também cultural e social. É hora de conhecer as histórias e curiosidades desse patrimônio nacional.

 

O mais moderno da América do Sul

Foto: Werner Haberkorn.

 

Com o futebol se consolidando como esporte mais popular do Brasil naquela década de 1930, a cidade de São Paulo ainda se mostrava atrás da vizinha Rio de Janeiro quando o assunto era estádio. Os cariocas tinham, além das Laranjeiras, o Estádio de São Januário, então maior do Brasil. Foi então que, a partir de 1935, começaram a surgir projetos para a construção de um que realmente fizesse jus à maior cidade do país e que pudesse abrigar os clubes que se expandiam a cada dia na cidade, em especial Corinthians e Palestra Itália – que viraria Palmeiras tempo depois. Com a ideia do presidente Getúlio Vargas de transformar o esporte em uma propaganda de prosperidade do Brasil para o mundo, a prefeitura de São Paulo tirou do papel o projeto de um estádio em 1936, na administração do prefeito Fábio Prado e do governador Armando de Salles Oliveira, que inauguraram a pedra fundamental para o início das obras em um amplo terreno no bairro do Pacaembu, zona oeste da cidade e de fácil acesso aos mais diversos pontos estratégicos da capital paulista.

A ideia inicial previa dois lances de arquibancadas laterais, portões estrategicamente posicionados, esculturas e muro ornamental. No entanto, após a posse do novo prefeito, Prestes Maia, bem como da política do Estado Novo de 1937 de Getúlio, o projeto ganhou algumas alterações, com a inclusão de um ginásio, de uma piscina e a urbanização do entorno, com rampas laterais (que depois virariam ruas) e as arquibancadas em formato de “U”, com uma concha acústica ao fundo para a realização de shows e eventos, algo que dava ao estádio um status multiuso tão comum nas arenas atuais. A fachada, construída em tijolos e concreto, teria inspiração no lendário Estádio Olímpico de Berlim, com belas e imponentes colunas.

O desfile de inauguração do estádio, em 1940. Foto: Arquivo Nacional.

 

O Escritório Técnico Ramos de Azevedo – Severo e Villares foi o responsável pelo projeto e construção do estádio e boa parte do terreno foi doado pela Companhia Urbanizadora City, de origem inglesa, fundada na capital em 1912 e que já havia atuado na construção de bairros planejados como Jardim América, o próprio bairro do Pacaembu, Alto de Pinheiros entre outros. A doação era uma estratégia da companhia para ganhar de vez a simpatia dos poderes públicos para seus empreendimentos e futuros projetos.

Palestra e Corinthians, em 1940.

 

O futuro estádio mudaria completamente o bairro e iria promover uma profunda reforma urbanística na região, exatamente como propunha o Estado Novo. Em apenas quatro anos, o estádio tomou forma e foi inaugurado no dia 27 de abril de 1940, com uma grande cerimônia prestigiada por mais de 50 mil pessoas e que contou com as presenças do presidente Getúlio Vargas – bastante vaiado pelo público paulista, que não aprovava o político desde o golpe de estado contra o paulista Washington Luís, em 1930, e a repressão à Revolução Constitucionalista de 1932 -, do interventor federal Adhemar de Barros e do prefeito Prestes Maia.

Com uma beleza impressionante e arquitetura estilo Art déco, o estádio ganhou de maneira instantânea a simpatia dos paulistanos, embora tudo aquilo fosse um projeto do estado a fim de usar o esporte como propaganda política e exemplo da “força do governo”, muito comum naquela época também na Europa, como nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, com a propaganda de Hitler de sua Alemanha nazista, e a promoção do fascismo por Benito Mussolini com a seleção italiana bicampeã do mundo em 1934 e 1938.

Vista aérea do Pacaembu. Note a concha acústica ao fundo. Foto: Werner Haberkorn / Acervo do Museu Paulista da USP.

 

Durante aquela inauguração, uma curiosidade: aconteceu um desfile com as delegações dos clubes de São Paulo e, na época, eram proibidas ostentações de bandeiras estaduais. Mas, quando entrou a delegação do São Paulo FC, o estádio ovacionou o clube justamente por possuir o mesmo nome e cores do estado. Somando o fato de que os paulistanos não aprovavam o governo do presidente Getúlio Vargas, foi um claro contragolpe à represália da época. E que fez nascer outro apelido ao tricolor: O Mais Querido, criado pelo jornal “A Gazeta Esportiva”, que em sua manchete do dia seguinte publicou: “O Clube Mais Querido da Cidade”.

A equipe na partida contra o Palmeiras, em 1943.

 

Mas não foi o tricolor que teve a honra de estrear o estádio, mas sim seus rivais mais “velhos”, Corinthians e Palestra Itália, que entraram em campo no dia seguinte para um mini-torneio chamado Taça Cidade de SP, ao lado de Atlético-MG e Coritiba. O primeiro jogo foi entre Palestra e Coritiba e os paulistas venceram por 6 a 2, mas coube ao coxa-branca Zequinha anotar logo no primeiro minuto de jogo o primeiro e histórico gol do estádio. No final de semana seguinte, o Palestra bateu o Corinthians por 2 a 1 e faturou o torneio, sendo o primeiro campeão do Estádio Municipal do Pacaembu, nome oficial do local na época – vale lembrar que a Portuguesa foi campeã de um Torneio Relâmpago dias antes, mas em jogos curtos, que não duravam 90 minutos. O estádio foi considerado o mais moderno da América do Sul e também o maior do Brasil, com capacidade para 70 mil pessoas. Além do futebol, o Pacaembu abrigava piscinas, quadra de tênis e pista de atletismo, sendo um verdadeiro centro esportivo da cidade.

 

Anos tricolores e sede da Copa de 1950

A primeira década de vida do Pacaembu foi repleta de grandes jogos e marcada pela hegemonia do São Paulo, maior campeão paulista do período com cinco títulos. O sucesso do tricolor se deu principalmente à contratação de Leônidas da Silva, um dos maiores craques de todos os tempos e responsável por um dos recordes de público da história do estádio: 71.280 pessoas, no dia 24 de maio de 1942, exatamente a data de sua estreia pelo São Paulo, no empate em 3 a 3 com o Corinthians. Ele não deixou sua marca, mas o público foi ao delírio com a grande estrela brasileira na época em solo paulistano e jogando tão perto do público após ser o artilheiro da Copa de 1938 e gastar a bola no Vasco, no Botafogo dos anos 1930 e no Flamengo. Leônidas superou a desconfiança de todos por causa de sua idade na época – tinha 29 anos – e virou a estrela máxima do São Paulo até o final dos anos 1940. Foi no Pacaembu que Leônidas protagonizou a lendária bicicleta da célebre foto de Alberto Sartini, em 1948, em duelo contra o Juventus.

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

 

Graças ao “Diamante Negro”, o tricolor deixou de ser apenas mais um clube no estado para virar uma força dentro dele e em todo Brasil. Foi o São Paulo, também, o responsável pela maior goleada que o Pacaembu já viu: 12 a 1 no Jabaquara, no Campeonato Paulista de 1945. O jogo virou seis e acabou 12.

Maior goleada da história do Pacaembu em destaque.

 

 

Recortes do jornal “O Estado de S. Paulo” de 13 de dezembro de 1977 mostram o jogo Palmeiras 1×1 Santos, que quebrou o recorde de público do Pacaembu, superando a estreia de Leônidas lá nos anos 1940 e o jogo Corinthians 1×2 Ponte Preta, de 26 de agosto de 1977, que teve 962 pessoas a menos do que o duelo entre alviverdes e alvinegros. Imagens: Acervo do jornal “O Estado de S. Paulo” / Imagens cedidas por Sérgio Miranda Paz.

 

Mas quem também fez história no estádio foi o Palmeiras, que “nasceu” campeão exatamente no Pacaembu, em 1942, quando venceu o São Paulo por 3 a 1 no primeiro jogo após sua mudança de nome de Palestra Itália para Palmeiras, devido às consequências da 2ª Guerra Mundial, quando Getúlio Vargas declarou apoio aos países Aliados e começou a reprimir qualquer alusão aos países do Eixo – no qual estava a Itália. Com isso, várias instituições e agremiações tiveram de mudar de nome. Naquele dia 20 de setembro de 1942, o Verdão foi campeão paulista e a frase do técnico Armando Del Debbio ganhou os livros: “O Palestra morre líder, e o Palmeiras nasce campeão”.

Em 1950, o estádio foi um dos escolhidos como sede de alguns jogos da Copa do Mundo, de volta ao cenário futebolístico após o hiato de 12 anos causado pela 2ª Guerra Mundial. Por ser novo, o estádio era um dos modelos dentre todos os selecionados e inspiração para as obras e melhorias exigidas pela FIFA, que também deu seus pitacos a 23 dias do início da Copa ao exigir tratamento do gramado e ampliação das cabines de imprensa. O Pacaembu foi o segundo maior estádio do Mundial, perdendo apenas para o colossal Maracanã, construído especialmente para o torneio.

 

Vista aérea do Pacaembu lotado.

 

Seis partidas foram disputadas no charmoso palco paulistano, entre elas o empate em 2 a 2 do Brasil contra a Suíça, válido pelo Grupo 1 e diante de 42 mil pessoas. Uma curiosidade é que o técnico brasileiro Flávio Costa, sabendo da rixa entre cariocas e paulistas e com vários atletas do Rio em sua seleção, decidiu mexer na equipe e escalou mais atletas de SP para o duelo contra os europeus. Com isso, ganharam espaço Ruy, Bauer, Noronha e Friaça (todos do São Paulo), Baltazar (Corinthians) e Jair da Rosa Pinto (Palmeiras). Mesmo assim e ainda mais por causa do empate, a torcida não perdoou o técnico, que precisou sair com escolta policial para não apanhar (!). Vale lembrar que Jair era titular absoluto da Seleção (jogou as 6 partidas da Copa), e Friaça e Baltazar já haviam jogado na partida anterior, na estreia do Brasil, no Rio, contra o México (Friaça ainda jogou mais 2 partidas, incluindo a final). Portanto, apenas os médios Rui, Bauer e Noronha, todos do São Paulo, é que de fato “ganharam espaço” no time. Deve-se notar, ainda, que Bauer acabou ganhando a posição de titular e, depois dessa, jogou as outras 4 partidas do torneio.

Jogo do Brasil contra a Suíça, pela Copa do Mundo de 1950, no estádio do Pacaembu. Foto: Divulgação/Veja SP.

 

O futuro campeão Uruguai também jogou no Pacaembu em 1950.

 

As outras partidas no Pacaembu foram: Suécia 3×2 Itália, Itália 2×0 Paraguai, Suécia 3×1 Espanha (com o gol espanhol anotado pelo lendário artilheiro Telmo Zarra) e duas partidas do futuro campeão Uruguai: o empate em 2 a 2 com a Espanha (os gols uruguaios foram de Obdulio Varela e Ghiggia, exatamente os grandes carrascos brasileiros no Maracanazo) e a vitória de virada da Celeste por 3 a 2 sobre a Suécia, com dois gols de Míguez e um de Ghiggia.

 

Timão, Lusa e o Santos de Pelé

A mítica linha de ataque do Corinthians de 1951: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário.

 

Após a Copa, o Pacaembu viu grandes jogos do Corinthians campeão paulista de 1951, 1952 e do histórico torneio de 1954, que celebrava o IV Centenário da cidade de São Paulo. Foram anos de muitos gols e bailes marcantes de um time que tinha Gylmar dos Santos Neves, Roberto Belangero, Baltazar, Cláudio, Luizinho entre outros. Para muitos, aquele é o maior esquadrão da história do Timão por causa do futebol bonito e ofensivo praticado, a qualidade dos craques e que teve simplesmente os dois maiores artilheiros do clube em todos os tempos jogando juntos (Cláudio, com 305 gols, e Baltazar, com 267 gols).

Julinho Botelho, Renato, Nininho, Pinga e Simão: a linha de frente mais famosa da história da Lusa.

 

Quem também deu show no estádio naquela década foi a Portuguesa de Nena, Noronha, Julinho Botelho, Djalma Santos e Brandãozinho, que venceu dois Torneios Rio-SP (uma das principais competições do Brasil na época) em 1952 e 1955 vencendo grandes jogos no estádio, incluindo um 4 a 2 sobre o Vasco, 3 a 2 no Palmeiras, 5 a 1 no Santos e 5 a 1 no Bangu. Quem também sofreu com aquele esquadrão foi o Corinthians, que perdeu de 7 a 3 para a Lusa no Paulista de 1951.

Gylmar, goleiro do Santos, olha a bola no fundo do gol do Pacaembu: o Palmeiras era campeão paulista de 1959.

 

Após 1955, quem começou a dar as cartas foi o Santos de Pelé, que seria a maior força do estado até o fim dos anos 1960 e só teria o Palmeiras e sua Primeira Academia como rival capaz de interromper sua hegemonia no Campeonato Paulista – entre 1960 e 1969, o Santos venceu oito títulos estaduais! Só não venceu todos porque o Palmeiras conseguiu levantar os canecos de 1963 e 1966. Antes, em 1958, a dupla protagonizou um dos jogos mais malucos da história do estádio: Palmeiras 6×7 Santos, em 06 de março de 1958, com viradas no placar, atuações magistrais de vários craques e até a suposta morte de cinco pessoas que sofreram ataques cardíacos fatais de tanta emoção – esse jogo será relembrado em breve pelo Imortais!

 

Mudança de nome e reformas

Em 1961, o Pacaembu ganhou o nome oficial que o acompanha até hoje: Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, em homenagem ao “Marechal da Vitória” que liderou a delegação brasileira na campanha do título da Copa do Mundo de 1958, na Suécia, e também no bicampeonato de 1962. Estreitamente ligado ao esporte, o advogado e empresário paulistano ajudou a criar vários veículos de comunicação, entre eles a Rede Record de TV e a Rádio Record. Entusiasta nato, Carvalho ganhou fama pelos discursos que inflamavam jogadores e os enchiam de esperança e teve papel crucial na decisão do Mundial de 1958 da seleção, quando burlou a superstição dos brasileiros pela impossibilidade de usar as camisas amarelas contra a Suécia e chegou com as camisas azuis dizendo: “Turma, o Brasil vai jogar de azul, que a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida”. A artimanha deu certo e a seleção venceu os anfitriões por 5 a 2.

São Paulo, SP. Ano de 1972. No estádio do Pacaembu lotado, Pelé salta para tentar marcar gol de cabeça contra o São Paulo. No lance aparecem o goleiro Sérgio e o zagueiro Samuel, ambos do São Paulo, e Alcindo, do Santos, em segundo plano. Foto: Domício Pinheiro/AE.

 

Em 1963, o Pacaembu foi escolhido como principal sede dos Jogos Pan-Americanos daquele ano. O estádio foi palco de provas de atletismo, natação e lutas de boxe, esporte que já era figura presente no local desde os anos 1940. E, ainda, para competições de luta-livre, judô, uma prova de hipismo, e as cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos. Em 1969, o estádio passou por uma grande reforma e ganhou um novo lance de arquibancadas apelidado de “tobogã”, para cerca de 10 mil pessoas, que ganhou o lugar da concha acústica, demolida. Além do novo espaço, o estádio ganhou um placar eletrônico e encerrou mais uma década ainda mais moderno. Antes, em 1968, o fato em destaque no futebol foi a vitória do Corinthians por 2 a 0 sobre o Santos, que significou o fim do jejum de vitórias do Timão sobre o alvinegro praiano, que ficou 11 anos sem perder para o rival.

Nos anos 1970, mais precisamente em setembro de 1974, Pelé se despediu do estádio onde ele tanto brilhou e marcou 127 gols em 159 jogos. Naquele década, o Corinthians adotou de vez o estádio como sua casa, deixando de lado o Parque São Jorge e criando um elo marcante com o Pacaembu, enquanto o São Paulo passaria a jogar no recém-inaugurado Morumbi, e o Palmeiras em seu Parque Antártica. Em 1972, o Pacaembu recebeu pela primeira vez uma final de Copa São Paulo de Futebol Júnior, tradicional competição que iria alternar suas sedes decisivas até o estádio municipal receber em definitivo a partir de 2003 (com uma interrupção apenas em 2008) todas as finais desde então.

Em novembro de 1983, o Pacaembu abrigou um comício que é considerado o embrião das Diretas Já.

 

Em 1983, o Pacaembu passou por outra reforma para recompor seu péssimo estado de conservação. Foram recuperadas as estruturas de concreto das arquibancadas, marquises e passarelas, reformados os bancos dos setores de numeradas, feitos reparos nos pisos e paredes dos banheiros, adequações nas instalações elétricas entre outros. Um ano depois, em seu aniversário de 44 anos, o Pacaembu recebeu uma pintura idêntica a utilizada em sua inauguração de 1940, enchendo de nostalgia os amantes do futebol e do estádio.

 

Shows e um momento triste

Na década de 1980 e início da de 1990, shows, desfiles e espetáculos começaram a acontecer com mais frequência no Pacaembu. Em 1988, a cantora Tina Turner foi a primeira grande atração musical da história do estádio. Porém, um mês antes, houve um “Xou da Xuxa” especial de Natal que, apesar da chuva, levou bastante gente ao estádio, e que foi uma espécie de “treino” para os grandes shows que lá aconteceriam nos anos seguintes. Em 1991, o tenor Luciano Pavarotti emocionou os brasileiros em uma apresentação histórica. No ano seguinte, foi a vez do festival Hollywood Rock agitar a cidade, seguido pelo Free Jazz Festival, em 1993, por Paul McCartney e o evento Monsters of Rock, em 1994, e uma nova edição do Monsters of Rock no ano seguinte, além de uma apresentação dos Rolling Stones em 1995. Todos esses espetáculos levaram mais de um milhão de pessoas ao estádio. Alguns anos depois, várias bandas também se apresentaram no local como Iron Maiden, Pearl Jam e AC/DC.

Briga generalizada de 1995 foi um dos momentos mais tristes da história do estádio. Foto: Arquivo / ESPN Brasil.

 

Em 20 de agosto de 1995, um episódio lamentável aconteceu durante a final da Supercopa São Paulo de Futebol Júnior entre Palmeiras e São Paulo. Após um gol na morte súbita que decretou a vitória alviverde por 1 a 0, torcedores (?) invadiram o gramado e começaram a brigar entre si. Como o tobogã estava em reforma, eles foram até o local e pegaram pedras, madeiras e tudo o que viam pela frente para criar um verdadeiro cenário de guerra. Foram 102 feridos, sendo 80 torcedores e 22 policiais, e a morte de um torcedor de apenas 16 anos. Além do saldo deplorável no quesito humano, partes do alambrado e das arquibancadas foram destruídos. Após novas reformas, o estádio voltou a receber jogos naquele mesmo ano. E um deles seria mais do que especial…

 

Jogos de arrepiar

Antes de citar o jogo de 1995, vale destacar a decisão do Campeonato Brasileiro de 1994 entre Corinthians e Palmeiras, que aconteceu no Pacaembu e terminou com título alviverde, que sacramentou o bicampeonato do lendário esquadrão de Roberto Carlos, Flávio Conceição, César Sampaio, Rivaldo, Evair, Edmundo e companhia. Já em 1995, o Pacaembu viu uma das maiores viradas da história do torneio nacional: Santos 5×2 Fluminense, pela semifinal, com atuação mágica de Giovanni, que só não fez chover naquele dia. Dias depois, o estádio abrigou a decisão entre Santos e Botafogo, que terminou 1 a 1 e cheia de polêmicas por causa de um gol irregular do Fogão e outro anulado do Peixe que interferiu diretamente no resultado, beneficiando o alvinegro carioca, campeão daquele ano.

Giovanni deu show na goleada santista sobre o Flu em 1995.

 

Em 1998, o Pacaembu ganhou a mais nobre homenagem possível ao ser tombado pelo CONDEPHAAT como patrimônio histórico. Por causa dos elementos urbanísticos e importância paisagística, as imediações do estádio também foram tombadas: a ponte da Av. General Olympio da Silveira sobre a Av. Pacaembu, o muro do Cemitério do Araçá, na lateral da Av. Major Natanael e a Praça Charles Miller.

Os jogadores do São Caetano na decisão da Libertadores de 2002. Foto: Acervo/Gazeta Press.

 

 

Em 2002, foi a vez da Copa Libertadores virar vedete no estádio com a decisão entre Olimpia-PAR e o surpreendente São Caetano, que precisava apenas de um empate para levantar o título inédito. O Azulão até abriu o placar, mas os paraguaios viraram e venceram nos pênaltis. Foi o segundo “forasteiro” campeão da América no estádio – o primeiro havia sido o Peñarol-URU, sobre o Palmeiras, em 1961, quando os uruguaios seguraram o empate em 1 a 1 após vitória na ida, em Montevidéu, por 1 a 0. Vale lembrar que o São Caetano fez a festa no Pacaembu em 2004, ao celebrar o título do Campeonato Paulista daquele ano.

Em 1961, o lendário Peñarol de Spencer segurou um empate com o Palmeiras e foi campeão da América.

 

Neymar vibra após abrir o placar na decisão da Libertadores de 2011.

 

Homenagem dos corintianos a Sócrates, em 2011.

 

Festa alvinegra na Libertadores de 2012.

 

Show da torcida corintiana na decisão da Liberta foi histórica no Pacaembu em 2012.

 

Só em 2011 que o estádio viu um clube brasileiro ser campeão da Libertadores. Foi o Santos de Neymar, que quebrou aquela escrita ao vencer o Peñarol-URU por 2 a 1 e encerrar um jejum de 48 anos sem títulos da Liberta. No mesmo ano, o Corinthians levantou mais um título brasileiro ao empatar com o rival Palmeiras no dia do falecimento do ídolo alvinegro Sócrates. Em 2012, o mesmo Corinthians bateu o temido Boca Juniors-ARG por 2 a 0 e levantou a Copa Libertadores pela primeira vez e de maneira invicta justamente no estádio que ele teve como casa durante tanto tempo.

 

Novas reformas e privatização

Ainda nos anos 2000, o Ginásio do Pacaembu foi reformado e entregue com arquibancadas para 4 mil pessoas e uma quadra poliesportiva. Em 2007, o gramado do estádio também foi repaginado e devidamente abençoado pelo Papa Bento XVI, que realizou uma grande missa no local naquele ano. Em 2015, foi a vez do complexo aquático passar por uma ampla modernização.

Na segunda década deste século, o estádio viu o número de jogos diminuir consideravelmente muito por causa da inauguração da Arena Corinthians, em 2014, que fez com que o Timão deixasse de utilizar o local. Com isso, o Pacaembu passou a abrigar mais eventos e outros esportes – como rugby – e virar atração turística graças ao Museu do Futebol, inaugurado em 2008 e imperdível não só pelo acervo do museu, mas também por ele permitir uma verdadeira imersão no estádio e seu interior.

Na imagem, o projeto de como ficará o prédio que será construído onde hoje está o tobogã.

 

Em 2017, surgiu a proposta da prefeitura de privatizar o estádio como forma de torná-lo mais útil e reduzir os gastos de um local que ficava cada vez mais deficitário. Em 2018, foi aprovada a concessão do Pacaembu sob valor de R$ 111 milhões à concessionária Allegra, que poderá explorar o local por 35 anos. Entre os projetos futuros da nova administradora estão a demolição do tobogã para a construção de um edifício múltiplo de 44 mil m2, bem como a instalação de uma cobertura. No entanto, tais medidas são polêmicas pelo fato de o estádio ser tombado, o que impede mudanças bruscas em sua arquitetura, fato que tem gerado imbróglios e impedido um avanço maior no projeto.

Vista aérea de como ficará o estádio segundo o projeto da Allegra.

 

Os leitos instalados no estádio em 2020. Foto: Estadão Conteúdo.

 

Enquanto o futuro do Pacaembu segue incerto, o estádio completa 80 anos ajudando quem precisa com os leitos hospitalares instalados em um gramado que tanto abrigou jogos incríveis, mas que agora acolhe pessoas que talvez um dia até estiveram por ali, nas arquibancadas, gritando e torcendo, mas que torcem por um alívio. Se depender do romântico Pacaembu, esse alívio vai vir, seguido da emoção, presente desde 1940 nesse patrimônio de São Paulo e do Brasil.

O Imortais agradece ao leitor Sérgio Miranda Paz por importantes adendos e retoques a alguns dados e informações deste texto! Obrigado! 🙂

 

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1 thought on “Pacaembu – Romântico Paulista

  1. Olá, pessoal dos Imortais do Futebol!
    Excelente texto! Conta a história e as curiosidades do Pacaembu com precisão e objetividade. Sérgio Paz

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