Vila Belmiro – Reino do Futebol

 

Por Guilherme Diniz

Nome: Estádio Urbano Caldeira

Localização: Santos (SP), Brasil

Inauguração: 12 de outubro de 1916

Partida Inaugural: Santos 2×1 Ypiranga, 22 de outubro de 1916

Primeiro gol: Adolpho Millon, do Santos, no jogo Santos 2×1 Ypiranga 

Proprietário: Santos Futebol Clube

Capacidade: 17.923 pessoas

Recorde de público: 32.986 pessoas no jogo Santos 0x0 Corinthians, 20 de setembro de 1964. OBS: como este jogo durou apenas sete minutos, outra partida também é considerada a recordista, por ter sido completa: Santos 0x5 Palmeiras, em 15 de fevereiro de 1976, com 31.662 pagantes.

 

Depois de uma caminhada pela Praia do Gonzaga, próximo ao canal 2, vire à direita na Av. Bernardino de Campos e siga em frente. Quando avistar a placa Rua dos Guararapes, vire à esquerda. Dois quarteirões depois você verá a rua Dom Pedro I. Vire à direita. Na esquina com a rua José de Alencar, eis que surge um monumento histórico. Erguido há mais de 100 anos no coração da cidade de Santos. Construído para abrigar o clube com a maior pontaria do futebol mundial. E também os primeiros selecionáveis alvinegros, Arnaldo da Silveira e Adolpho Millon. Palco de “feitiçarias” de Feitiço. De shows de Patusca. Berço do Rei Pelé. Das molecagens dos Meninos da Vila de 1978. De novos meninos nos anos 2000 e as pedaladas de Robinho. De dribles e golaços de Neymar. De esquadrões. Da arte. Perna de pau ali nunca teve vez. Craques, por outro lado, sempre foram bem vindos. Venerados. Adorados. Rede vazia jamais foi tolerada. Ali é lugar de gol. Muitos gols. Definitivamente, um Reino do Futebol, na mais pura essência. O estádio Urbano Caldeira, mais conhecido como Vila Belmiro, é um dos mais icônicos estádios do Brasil, da América e do planeta. Casa do Santos Futebol Clube, é um dos poucos templos centenários do esporte nacional e sinônimo de espetáculo. É hora de conhecer toda a história e curiosidades da Vila mais famosa do mundo.

 

Uma nova praça de esportes

Fundado em 1912, o Santos não tinha um estádio para chamar de seu naqueles primeiros anos de existência. O clube jogava em três diferentes campos da cidade: na Avenida Ana Costa, na Avenida Conselheiro Nébias e no Campo do Clubes dos Ingleses. Nesses locais, o time santista acumulou números invejáveis: 32 jogos, 27 vitórias, quatro empates e apenas uma derrota! Mesmo com um grande retrospecto, em 1915, a diretoria levantou em uma de suas reuniões a necessidade de se construir um estádio próprio, uma “Praça de Esportes”, como diziam na época. Para isso, foi instituída uma comissão a fim de tratar do assunto e coube a Urbano Caldeira, então primeiro secretário alvinegro e ex-jogador do clube, apresentar um terreno à diretoria. Luiz Suplicy Filho, membro da comissão, também foi atrás de um local, mas ambos foram rejeitados. Só algum tempo depois que Urbano Caldeira encontrou outro local, próximo ao bairro Campo Grande, chamado de Vila Operária, que tinha tal alcunha por ser habitada por trabalhadores. Em dezembro de 1915, a tal Vila passou a se chamar Vila Belmiro, em homenagem ao ex-prefeito da cidade Belmiro Ribeiro de Morais e Silva, que doou ao município diversos terrenos, entre eles o cogitado pela diretoria alvinegra.

Entusiasta do projeto, Urbano Caldeira passou a liderar o movimento do novo estádio e o negócio foi fechado entre maio e junho de 1916, com a aquisição do terreno – próximo a duas linhas de bonde e perto do canal 2 – de 16.650 metros quadrados. O valor da transação foi de 66.600 contos de réis, o equivalente a seis prêmios da Loteria Federal em junho de 1916, época da efetivação do negócio. Por meio de um empréstimo, a diretoria conseguiu fazer o pagamento e recebeu a escritura definitiva da compra em 1922. Durante as quitações das parcelas, os cartolas criaram uma campanha para arrecadar fundos e ajudar no pagamento do terreno e construção da casa alvinegra.

Urbano Caldeira, lenda alvinegra e entusiasta do estádio.

 

Por causa das dimensões acanhadas, o estádio não poderia ser muito grande, por outro lado, a previsão de conclusão era rápida. E, em quatro meses, ele foi erguido nos arredores das ruas Tiradentes, Princesa Isabel (à época chamada de Rua da Abolição), José de Alencar (à época chamada de Rua Guarani) e Dom Pedro I.

Chamado de “Campo do Santos” e também “Praça de Esportes”, o estádio foi inaugurado em 12 de outubro de 1916, mas os festejos não puderam ser totalmente realizados. Motivo? Uma chuva torrencial caiu sobre a cidade naquele dia. Por conta disso, a partida inaugural entre Santos e Ypiranga, da capital paulista, teve que ser adiada e realizada dez dias depois, em 22 de outubro. Mesmo assim, foram disputados jogos entre os sócios do clube e organizada uma programação especial para as crianças, já que o dia 12 de outubro era dia delas.

A Vila em 1916: uma só arquibancada. E de madeira!

 

Adolpho Millon, autor do primeiro gol da história da Vila.

 

No dia 22 de outubro, cerca de 2 mil pessoas compareceram ao estádio com apenas um lance de arquibancadas de madeira e o restante do gramado composto por cercas do mesmo material, para, enfim, o primeiro jogo da história da Vila. O público teve à sua disposição linhas de bondes especiais até o local e estavam com traje de gala para o evento único na cidade. Em campo, o Santos fez bonito e venceu por 2 a 1, com os dois gols anotados por Adolpho Millon, um dos 39 fundadores do clube, grande craque do time na época e convocado para a primeira seleção brasileira da história, em 1914. O Santos jogou com: Odorico; Américo e Arantes; Pereira, Oscar e Junqueira; Adolpho Millon, Jarbas, Marba, Tedesco e Arnaldo Silveira (este também convocado para a seleção nacional em 1914). Foi um dia de enorme festa para os amantes do Peixe, que curtiram ainda shows de música durante a noite pelas ruas da cidade.

 

Alçapão da Vila

Com dimensões acanhadas e o gramado bem próximo às arquibancadas, a casa santista passou rapidamente a “jogar” com o time, literalmente. Conforme o clube ia crescendo e disputando mais torneios, a fama da praça de esportes alvinegra subiu a serra e virou um problema para os tradicionais clubes da capital. A partir da segunda metade dos anos 1920, o Santos flertou constantemente com o título do Campeonato Paulista e provava ano a ano sua vocação ofensiva com goleadas impressionantes. Em 1927, por exemplo, o time acumulou 17 vitórias seguidas na Vila, incluindo 12 a 1 no Ypiranga (maior goleada da história do estádio), 10 a 1 no Guarani, 11 a 3 no Americano e 11 a 2 no Barra Funda. Somando jogos pelo Paulista, internacionais e amistosos disputados na Vila no final dos anos 1920 e começo dos anos 1930, o Santos teve 55 vitórias, nove empates e apenas quatro derrotas em 68 jogos. O time atingiu sua maior invencibilidade jogando em casa exatamente naquela época – 35 partidas, com 29 vitórias e seis empates entre junho de 1929 e dezembro de 1930.

Foi entre 1927 e 1930 que o estádio ganhou de vez o apelido de “alçapão” e também de “espantalho” por causa dos números e a supremacia alvinegra, além dos placares elásticos que costumava construir por ali. Até equipes internacionais sofriam com o Peixe, como os argentinos do Tucumán (4 a 1) e Huracán (4 a 1) e os uruguaios do Rampla-URU (5 a 1). Até a seleção da França entrou para a lista de “vítimas”, pois perdeu de 6 a 1 para o Santos logo após participar da primeira Copa do Mundo da FIFA na história – o craque e ídolo santista Feitiço anotou quatro gols. Nesses anos de ouro, o time aplicou 27 goleadas com diferença mínima de quatro gols (!) e foi a equipe paulista que mais venceu (87 vitórias) e mais fez gols (331). Um fato que ajudou também o desempenho santista foi a primeira grande reforma iniciada pela diretoria em 1928, que ampliou as arquibancadas do tablado central cobrindo toda a extensão do gramado, além de alguns lances atrás dos gols e do lado oposto à arquibancada principal.

Jornal destaca a vitória do Santos sobre a Seleção da França, em 1930.

 

Com uma lendária linha ofensiva formada por Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista – além de Siri e Hugo -, aquele Santos provou de vez que o DNA alvinegro era ofensivo ao extremo. Em 1927, por exemplo, esses atletas compuseram o “ataque dos 100 gols” que fez exatos 100 tentos em 16 jogos no Campeonato Paulista daquele ano, uma média absurda de 6,25 gols por jogo! É até hoje a maior média de gols de uma equipe em uma competição oficial na história. O título escapou por um ponto, pois o Santos perdeu por 3 a 2 para o Palmeiras (Palestra Itália na época) no quadrangular final. O Acervo Histórico do Santos, parceiro do Imortais, encontrou uma referência a essa fama do estádio alvinegro na época (que já tinha como apelido Vila Belmiro, em alusão ao bairro):

“A Vila Belmiro é, hoje, o espantalho de todo mundo. Descer a serra para enfrentar o Santos significa perigo à vista. Há um quadro gigante de técnica, cheio de fibra e tradição, que tem o nome de Santos Futebol Clube, Campeão da Técnica e da Disciplina” (Jornal Diário de São Paulo, em 13 de outubro de 1929).

 

A Vila ficou mais moderna a partir de 1931 com a inauguração do sistema de iluminação, permitindo jogos no período noturno na casa alvinegra. A primeira partida com refletores aconteceu em 21 de março de 1931, no empate em 1 a 1 do Santos contra um combinado da cidade.

A Vila iluminada pela primeira vez, em 1931. Foto: A Tribuna

 

Jornal de 1933 traz o novo nome do estádio: Urbano Caldeira.

 

Em 24 de março de 1933, dias após o falecimento de Urbano Caldeira, a diretoria alvinegra aprovou a oficialização do nome do estádio como Estádio Urbano Caldeira, como justa homenagem ao homem que tanto trabalhou para que o sonho da casa santista pudesse se tornar realidade. Com isso, o “Campo do Santos” virou Estádio Urbano Caldeira, mas já era chamado popularmente de Vila Belmiro. Em 1935, o Santos venceu seu primeiro Campeonato Paulista da história, após anos de vices e grandes campanhas sem taças. Sem dúvida foi um presente místico de Caldeira pela homenagem de dois anos antes…

 

Quando a Vila virou Reino

Em 1945, o Santos começou a substituir as arquibancadas de madeira por estruturas de concreto. A primeira parte a ser transformada foi a lateral oposta à área coberta, da rua Dom Pedro I, o popular “retão”. Cinco anos depois, o estádio ganhou um ginásio e mais um lance de arquibancadas de concreto, onde hoje ficam as letras SFC. Entre 1953 e 1955, foram construídos novos lances em concreto atrás de um dos gols e em toda área social, além de ser erguida a marquise central. Sobre ela, novos refletores foram instalados para aumentar a capacidade de iluminação do estádio. Uma curiosidade é que em 06 de maio de 1950 aconteceu uma luta de boxe (!) entre os pesos-pesados Joe Louis e Tommy Giorgio. A renda da luta serviu para ajudar no financiamento das obras do estádio. Outra forma que a diretoria encontrou para angariar fundos na época foi o Cine Santos, com exibição de filmes nas dependências da Vila.

Uma das primeiras arquibancadas de concreto da Vila, em foto de 1950. Foto: Décio Brier / Santos FC.

 

Em 1960, o clube completou a curva do anel de arquibancadas de um dos gols e inaugurou o famoso e icônico portão principal, dando uma cara ainda mais moderna ao estádio, que ganharia em 1962 a novíssima “arquibancada do retão”, acabando de vez com estruturas de madeira e eliminando as torres de iluminação – os refletores passaram ao topo das arquibancadas. Essas últimas intervenções deixaram a Vila com o visual ostentado até hoje e aumentou a capacidade do estádio para pouco mais de 30 mil pessoas.

Foi durante esse longo processo de modernização que o Santos venceu o Campeonato Paulista de 1955, encerrou um jejum de 20 anos sem troféus na competição estadual e começou a construir seu mais emblemático esquadrão. Afinal, já naquele final de anos 1950, o clube viu nascer ali, na Vila, o jogador mais famoso e fantástico de todos os tempos: o Rei Pelé. Com seus gols em profusão, jogadas espetaculares e uma sintonia perfeita com as várias lendas que vestiram o manto alvinegro ao longo dos anos 1960 como Gylmar, Mauro Ramos, Zito, Mengálvio, Pepe, Coutinho e Toninho Guerreiro, Pelé transformou a Vila Belmiro em um dos estádios mais famosos e temidos não só no Brasil, mas no mundo. Vários clubes de diversos países passaram a enfrentar o Peixe e foram derrotados sem piedade, um a um, em jogos para a história.

O garotinho Pelé: maior de todos os Meninos da Vila.

 

A Vila foi palco do título Paulista de 1960, da Taça Brasil de 1961 (com direito a goleada de 5 a 1 sobre o Bahia) e os Paulistas de 1961, 1964 e 1965. Em 1962, foi na Vila que o Santos enfrentou o fortíssimo Peñarol em uma das finais da Copa Libertadores, em duelo que terminou 3 a 2 para os uruguaios após muita confusão na “noite das garrafadas” – leia mais clicando aqui! Tempo depois, o Santos deu o troco no time aurinegro em campo neutro e faturou sua primeira Copa Libertadores.

Coutinho e Pelé: dupla decidiu e Santos faturou sua primeira Libertadores.

 

Em 1964, a Vila presenciou dois momentos marcantes. O primeiro aconteceu em 20 de setembro, no duelo entre Santos e Corinthians pela antepenúltima rodada do primeiro turno do Campeonato Paulista. Ambos estavam na ponta da tabela e disputavam a liderança isolada da competição. A empolgação com a partida, somada a fase de esplendor que vivia o Santos e o jejum pelo qual passava o Corinthians diante do rival – desde 1957 que o Santos não perdia para o Timão –  foi tanta que a Vila registrou seu recorde de público em todos os tempos: 32.986 pessoas, sem contar as mais de 2 mil que ficaram do lado de fora do estádio!

O jogo do recorde, em 1964…

 

… Excesso de público fez a partida durar apenas sete minutos…

 

Acontece que o jogo durou apenas sete minutos. Por conta da superlotação, parte do alambrado da arquibancada atrás do gol, que vinha de uma reforma ocorrida em 1962, cedeu por causa do excesso de pessoas apoiadas. Um “bolo humano” se formou, houve muita correria, mas graças ao grande trabalho da Guarda Civil, da Polícia Marinha e da Polícia do Exército, não foi registrada nenhuma vítima fatal. Foram 181 feridos, mas sem muitas gravidades. O jogo teve que ser anulado pelo árbitro Armando Marques e remarcado para dez dias depois, no Pacaembu (houve empate em 1 a 1). O Santos foi campeão estadual naquele ano. Vale lembrar que anos depois, em 15 de fevereiro de 1976, no jogo Santos 0x5 Palmeiras, válido pelo Torneio Governador do Estado, a Vila Belmiro registrou 31.662 pagantes, jogo que segue de maneira oficial como recordista no estádio por ter sido completo.

Felizmente ninguém se feriu gravemente.

 

O outro grande momento da Vila em 1964 aconteceu no dia 21 de novembro, quando Pelé marcou oito gols na vitória santista sobre o Botafogo-SP por 11 a 0 pelo Campeonato Paulista. Foi o recorde de gols de um só jogador na história do estádio, superando os sete anotados por Araken Patusca nos 12 a 1 sobre o Ypiranga, em 1927. Aliás, Pelé é o artilheiro máximo da Vila com 288 gols, seguido de Feitiço, com 162, e Pepe, com 152 gols. Zito, eterno volante do esquadrão dos anos 1960, é o jogador que mais vezes jogou na Vila: 218 jogos, seguido de Pelé, com 210, e o lateral-esquerdo Léo, com 209.

Time do Santos em 1964. Em pé: Lima, Zito, Haroldo, Ismael, Modesto e Gylmar. Agachados: Toninho Guerreiro, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Foto: Acervo / Gazeta Press.

 

Na Era Pelé, o Santos teve quatro períodos de invencibilidades dentro da Vila Belmiro:

  • 34 jogos, 32 vitórias e dois empates entre julho de 1958 e maio de 1959;

  • 32 jogos, 25 vitórias e sete empates entre setembro de 1966 e maio de 1968;

  • 29 jogos, 24 vitórias e cinco empates entre janeiro de 1956 e novembro de 1956 (aqui, vale lembrar que Pelé assinou seu primeiro contrato profissional em junho de 1956);

  • 24 jogos, 21 vitórias e três empates entre agosto de 1962 e novembro de 1963

 

A trajetória profissional de Pelé na Vila terminou em 02 de outubro de 1974, quando o Rei se ajoelhou no gramado e agradeceu a torcida em seu jogo de despedida do clube, na vitória por 2 a 0 sobre a Ponte Preta.

 

Meninos da Vila e novas reformas

Time campeão paulista em 1978.

 

Após a saída de Pelé e sua aposentadoria, o Santos viveu uma crise existencial e também financeira. Perder o maior jogador de todos os tempos e tudo o que ele trazia tanto dentro quanto fora de campo mexeu bastante com o clube, que não excursionou mais pelo mundo e parou de brigar por títulos. Isso até 1978, quando o técnico Formiga comandou uma geração de garotos talentosos apelidada de Meninos da Vila. Pita, Juary, Rubens Feijão, Claudinho, Toninho Vieira, Zé Carlos, Joãozinho, Nilton Batata, João Paulo e Ailton Lira formaram um grande time que faturou o Campeonato Paulista de 1978, batendo na decisão o São Paulo de Rubens Minelli, campeão brasileiro no ano anterior. O título serviu para provar que o Peixe ainda podia fazer bonito mesmo sem o Rei e encheu de orgulho seu torcedor, que acompanhou novos shows da garotada da base na Vila Belmiro. Alguns anos depois, em 1983, o time voltou a fazer uma campanha de destaque e alcançou o vice-campeonato brasileiro, perdendo a decisão para o Flamengo de Zico. Em 1984, o Peixe venceu outro Campeonato Paulista, com destaque para o goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez, que protagonizou a série de defesas mais sensacional da história da Vila Belmiro, em um duelo contra o América de São José do Rio Preto. Veja abaixo:

 

Após pequenas reformas pontuais, a Vila passou por uma mais abrangente em 1996, quando o anel de arquibancadas atrás do gol do fundo, onde hoje ficam os visitantes, foi finalmente completo. Falando em visitantes, o Corinthians – mais precisamente o meia alvinegro Marcelinho Carioca – entrou para a história da Vila Belmiro naquela década de 1990 com um gol antológico que rendeu placa ao jogador do Timão. Foi naquele exato ano de 1996, no empate em 2 a 2 entre Santos e Corinthians, que o “pé de anjo” recebeu de Tupãzinho na entrada da área, deu um chapéu no marcador, e, sem deixar a bola cair, fuzilou para o gol. Veja abaixo:

 

Nas arquibancadas, um espectador ilustre viu tudo aquilo de perto: Pelé. O Rei encomendou uma placa e entregou o presente ao jogador corintiano um mês depois. Homenagem mais do que justa pela beleza do lance e por valorizar ainda mais a arte do futebol que a Vila Belmiro sempre gostou.

A famosa entrada principal da Vila.

 

Em 1999, o estádio recebeu um dos mais modernos e potentes sistemas de iluminação do Brasil e, em 2003, ganhou um placar eletrônico, instalado atrás do gol da entrada principal. Três anos depois, camarotes térreos começaram a ser feitos à beira do gramado e também na parte superior, acima do espaço dos sócios. Em 2009, os dois níveis do retão deixaram de abrigar arquibancadas e ganharam cadeiras, além de o estádio dar mais preferência aos sócios e ter sua capacidade reduzida para menos de 20 mil pessoas. As cadeiras do retão ganharam estilização especial com a formação dos dizeres Santos F.C., enquanto as das sociais exibem a sigla SFC. Em 2013, mais camarotes foram construídos atrás do gol do fundo, fechando a série de modernização do estádio.

 

Novos Meninos e o Centenário

Durante aquele processo de modernização da virada do século, a Vila viu nascer uma nova geração de Meninos, em especial Diego e Robinho, estrelas do time que acabou com o jejum de grandes conquistas do Peixe e levantou o Campeonato Brasileiro de 2002. Em 2004, veio o bicampeonato nacional e uma série de títulos estaduais – em especial o de 2006, quando o Santos encerrou o jejum de 21 anos sem títulos Paulistas e venceu todos os 10 jogos disputados na Vila. Em 2009, outra vez a Vila foi palco do surgimento de um novo craque: Neymar. O jovem foi fundamental para os títulos da Copa do Brasil e do Paulista, em 2010, atuando ao lado de Ganso, André e Robinho, que retornou ao Peixe para formar um dos mais cultuados esquadrões santistas da história.

Diego e Robinho comandaram o Santos em 2002.

 

Neymar e Ronaldinho deram espetáculo na Vila em 2011.

 

Em 2011 veio o ápice com o título da Copa Libertadores e ainda outro momento marcante: o jogo Santos 4×5 Flamengo, pelo Campeonato Brasileiro, quando Neymar marcou um gol épico e ganhou ao final daquela temporada o Prêmio Puskás da FIFA de gol mais bonito do ano. Teve ainda grande atuação do bruxo Ronaldinho e muito, muito futebol arte.

 

Entre 2014 e 2016, o estádio passou por novos ajustes, em especial nas dimensões do gramado, que passou a medir 105m x 68m, o padrão na Copa do Mundo de 2014. Falando em Copa, a Vila abrigou alguns treinos da seleção da Costa Rica e parece ter dado sorte: eles alcançaram as quartas de final, a melhor campanha do país na história dos Mundiais.

 

Em 2016, a Vila Belmiro completou 100 anos de história e um amistoso entre Santos e Benfica-POR (adversário do Peixe na conquista do emblemático Mundial de Clubes de 1962) foi a grande atração – o jogo terminou 1 a 1. Os atletas presentes na partida ganharam medalhas comemorativas, ídolos foram homenageados e houve ainda uma programação especial para os torcedores e para as crianças, afinal, sempre que a Vila faz aniversário, a criançada comemora também. De fato, não há data melhor, pois alegria é o que pode definir o 12 de outubro e a própria Vila Belmiro, alçapão do Santos, patrimônio do futebol e reino do espetáculo.

 

Segredo revelado: a lendária Bola de Ouro

Em 1965, quando o Santos foi enfrentar o Palmeiras no Palestra Itália em partida válida pela rodada final do Campeonato Paulista daquele ano, um presente especial seria entregue ao clube alvinegro: uma Bola de Ouro. Por já ser campeão estadual por antecipação, a equipe só cumpria tabela diante do rival da capital. O mimo, curiosamente, foi idealizado por irmãos palmeirenses da família D’orio, que acreditavam piamente que o Verdão iria vencer o título em 1965. No entanto, a encomenda mudou de dono e foi entregue ao campeão Santos em plena casa alviverde.

Para a surpresa de todos, a tal da Bola de Ouro era de uma preciosidade sem igual. Para começar, a inscrição “confecção D’orio” é enfeitada com 34 rubis. Além disso, existe outra linha adornando a frase, com mais 39 rubis, totalizando 73 rubis! A bola é de ouro maciço de 18 quilates e possui valor incalculável. Ela é, hoje, o segundo troféu mais valioso do Brasil, atrás apenas da Taça Jules Rimet, vencida pela seleção brasileira após o tricampeonato na Copa do Mundo de 1970. Porém, a original foi roubada e uma réplica se encontra na sede da CBF. Portanto, a Bola de Ouro pode ser considerada “em termos técnicos” como a mais valiosa do nosso futebol, pois é a original, sem cópias. Claro que, pelo simbolismo, a Jules Rimet (mesmo sendo a réplica) é a campeã, afinal, ela data de abril de 1929, sendo levantada pela primeira vez na Copa de 1930, pelo Uruguai.

A Bola de Ouro ficou escondida do público durante muito tempo na Vila Belmiro e nem sequer exibida no Memorial de Conquistas do clube. No entanto, durante as festividades dos 100 anos do clube, em 2012, ela apareceu e pôde ser contemplada pela primeira vez, em local bastante controlado. Depois das festividades, voltou ao seu cofre guardado a sete chaves. E só sai de vez em quando…

 

O que já disseram sobre jogar na Vila:

 

“A Vila Belmiro com 20 mil sufoca mais que o Maracanã com 80 mil. Parece que os torcedores estão gritando do nosso lado!”.Juninho Paulista, pentacampeão pelo Brasil na Copa de 2002.

 

“Eu já joguei em estádios lotados por todo o mundo, mas pelo jeito que a Vila foi construída, jogar aqui é onde a gente mais sente a pressão da torcida!”.Raí, ex-craque do São Paulo e do PSG.

 

“O meu maior medo é enfrentar o Santos na Vila, porque lá o bicho pega. É muito mais tensão, muito mais influência do que o Morumbi ou qualquer outro estádio lotado!”.Vanderlei Luxemburgo, técnico que também já viveu o outro lado, a favor do Peixe.

 

“O estádio mais difícil de se jogar é na Vila Belmiro!”. Rogério Ceni, ex-goleiro do São Paulo.

 

“Para nós é o céu, para os outros, o inferno. A Vila é um estádio urbano, e tem a coincidência do nome do estádio. Um dos poucos estádios urbanos como Pacaembu, o Couto Pereira, então, para chegar à Vila, já se sente o clima. É diferente de estádios mais afastados. Ali o clima acontece fora. A Vila é um caldeirão. Tem toda uma pressão de torcida, de ambiente. É místico. E não contam os espíritos que vivem por lá”. – Modesto Roma, ex-presidente do Santos.

 

Foto: Nelson R. de Lima Filho.

 

Curiosidades:

  • A Vila Belmiro foi palco do primeiro jogo televisionado ao vivo da história do Brasil. Em 1955, a TV Record transmitiu Santos 3×1 Palmeiras, pelo Campeonato Paulista daquele ano;

  • Até hoje, o Santos tem um aproveitamento superior a 70% jogando na Vila. É um dos mais altos do futebol mundial;

  • Em 2003, foi construído o Memorial das Conquistas, que abriga as principais taças levantadas pelo Peixe ao longo da história, além de prêmios de jogadores e souvenires únicos. Pelé e Neymar possuem grande destaque no memorial. Quem visita o local conhece, também, os vestiários, a sala de imprensa e o campo de jogo;

  • A Vila possui um Centro de Memória e Estatística, que assegura a conservação, organização e restauração de documentos, objetos, livros, revistas e tudo o que há de valioso relacionado ao Santos. Quem comanda com maestria esse departamento é o pesquisador e historiador Guilherme Guarche;

  • Em 2010, foi inaugurada a Loja Oficial do Santos, com 430m2 e que comercializa diversos artigos do clube.

 

Extra:

Veja um vídeo especial produzido pelo Santos com a Vila “falando” sobre ela mesma.

 

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1 thought on “Vila Belmiro – Reino do Futebol

  1. Uma observação curiosa sobre o Santos dos primeiros anos. O uniforme oficial do clube era a listrada, a qual passou a ser a de nº 2 hoje.

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