Esquadrão Imortal – Bayern München 2019-2020

Bayern_Munich_2019-2020
Em pé: Alaba, Neuer, Alphonso Davies, Lewandowski, Goretzka e Boateng. Agachados: Kimmich, Thomas Müller, Gnabry, Thiago e Perisic. Foto: Poolfoto Panoramic / POOL / UEFA.

 

Grandes feitos: Campeão Invicto da Liga dos Campeões da UEFA (2019-2020), Campeão da Supercopa da UEFA (2020), Campeão do Campeonato Alemão (2019-2020) e Campeão da Copa da Alemanha (2019-2020). Foi o primeiro time da história a vencer a UCL com 100% de aproveitamento, registrou a mais avassaladora campanha do torneio em todos os tempos e conquistou o segundo Treble da história do clube.

Time-base: Neuer; Kimmich (Pavard), Boateng (Süle), Alaba (Javi Martínez) e Alphonso Davies (Lucas Hernández); Goretzka (Tolisso) e Thiago; Gnabry (Philippe Coutinho), Thomas Müller e Coman (Perisic); Lewandowski. Técnicos: Niko Kovac (de janeiro até novembro de 2019) e Hans-Dieter “Hansi” Flick (a partir de novembro de 2019).

 

“Der BlitzBayern”

 

Por Guilherme Diniz

 

Novembro de 2019. Com uma atuação desastrosa, o Bayern München, heptacampeão seguido do Campeonato Alemão, invicto na fase de grupos da Liga dos Campeões da UEFA e com jogadores tarimbados no elenco perde de 5 a 1 para o Eintracht Frankfurt e despenca para a 4ª colocação na Bundesliga. Não é sempre que vemos um time como o Bayern ser surrado em território alemão. E isso teve consequências. A diretoria imediatamente dispensou o técnico Niko Kovac e colocou interinamente o treinador Hans-Dieter Flick, pupilo de Joachim Löw na seleção da Alemanha. O conhecimento de causa ajudou. Jogo após jogo, ele arrumou o time. Recuperou jogadores que não rendiam. E criou um rolo compressor. Um time que buscava de maneira incessante um gol. Dois. Vários. Muitos. O que desse para fazer. Nada de toquinho pro lado sem propósito. Era ataque atrás de ataque. Primeiro, veio o título do Campeonato Alemão (o 8º seguido…). Depois, a Copa da Alemanha. E, por último, como um legítimo Grand Finale, a Liga dos Campeões da UEFA com 100% de aproveitamento. Foram 11 vitórias em 11 jogos. Sete por goleada. E uma delas simplesmente avassaladora: 8 a 2 pra cima do Barcelona de Messi. Durante a 2ª Guerra Mundial, a imprensa criou um termo para classificar os ataques rápidos de surpresa das forças alemãs que não davam qualquer tempo para os inimigos organizarem suas defesas: Blitzkrieg, ou “guerra-relâmpago”. Essa tática, além de ter o efeito surpresa, tinha também como características a rapidez e a intensidade dos ataques e fez com que a Alemanha quase dominasse toda a Europa naqueles anos 1940. Bem, na temporada 2019-2020, o Velho Continente conheceu outro tipo de Blitz, dessa vez no futebol: a BlitzBayern. É hora de relembrar as façanhas de um dos mais demolidores esquadrões deste século XXI.

 

Onde foi parar La Bestia Negra?

Em 2014, contra o clube mais temido do mundo, o Real mostrou força e atropelou o Bayern em plena cidade de Munique: 4 a 0.

 

Após conquistar um inédito Treble na temporada 2012-2013 com um esquadrão que serviu como base da seleção alemã campeã da Copa do Mundo de 2014 – nada mais nada menos do que sete atletas (seis deles titulares!) eram da Nationalelf -, o Bayern tentou manter a hegemonia no continente europeu ao contratar o técnico Pep Guardiola, que vinha de um trabalho simplesmente sensacional no Barcelona. No entanto, o espanhol só conseguiu tornar o Bayern absoluto dentro de casa e não estendeu a dominância para a Europa. O clube caiu seguidas vezes nos mata-matas da Liga dos Campeões sofrendo derrotas elásticas, como em 2014, para o Real Madrid-ESP (revés de 4 a 0 em plena Allianz Arena na semifinal) e em 2015, para o Barcelona-ESP (3 a 0 no Camp Nou, na semifinal). Em 2016, a equipe caiu de novo na semifinal, mas diante do Atlético de Madrid-ESP.

Em 2017, já sob o comando de Carlo Ancelotti, os alemães perderam para o Real Madrid nas quartas de final, e, em 2018, com Jupp Heynckes de volta ao comando técnico, caiu (de novo…) para o Real Madrid, nas semifinais. De fato, a fama de “Bestia Negra” dos bávaros ostentada durante várias décadas contra rivais espanhóis havia caído por terra. E, com as aposentadorias de Philipp Lahm e Xabi Alonso, em 2017, e a posterior saída de Arjen Robben, em 2019, o clube de Munique se viu obrigado a renovar o plantel na temporada 2018-2019. Para isso, a diretoria apostou no croata Niko Kovac, que assumiu o time e ganhou os aportes do meia alemão Serge Gnabry, contratado em 2017, mas que estava emprestado ao 1899 Hoffenheim-ALE, do meio-campista alemão Leon Goretzka (que veio sem custos, após o término de seu contrato junto ao Schalke 04-ALE), e o lateral-esquerdo e ponta Alphonso Davies, nascido em Gana e naturalizado canadense, que estava no Vancouver Whitecaps-CAN. A Bundesliga foi conquistada pela 7ª vez seguida graças a um ótimo segundo turno, com apenas uma derrota em 19 partidas. Além disso, os bávaros venceram a Copa da Alemanha e a Supercopa da Alemanha. Embora a hegemonia em casa tenha sido mantida, o time alemão amargou uma eliminação nas oitavas de final da Liga dos Campeões da UEFA para o futuro campeão Liverpool-ING com mais um revés em casa – 3 a 1 -, uma queda precoce que não acontecia desde 2010-2011.

Bayern perdeu para o Liverpool em plena Allianz Arena em 2018-2019.

 

Apesar disso, os títulos credenciaram Kovac a mais uma temporada e a diretoria contratou novos e pontuais reforços: chegaram os franceses Benjamin Pavard e Lucas Hernández, ambos titulares da França campeã da Copa do Mundo de 2018, o meia croata Ivan Perisic, ex-Internazionale-ITA e titular da Croácia vice-campeã mundial, além do meia brasileiro Philippe Coutinho, por empréstimo, do Barcelona-ESP. Por outro lado, o clube viu a saída de outra bandeira de tempos de glória: o francês Franck Ribéry, que foi jogar no futebol italiano. Deixaram Munique, também, o zagueiro Mats Hummels (voltou ao Borussia Dortmund-ALE), o meia James Rodríguez (voltou ao Real Madrid-ESP), e o português Renato Sanches, negociado junto ao Lille-FRA.

Hansi Flick (à dir.) em seus tempos como auxiliar do técnico da Alemanha Joachim Löw. Foto: Martin Rose/Bongarts/Getty Images.

 

Quem também chegou ao Bayern em julho de 2019 foi Hans-Dieter “Hansi” Flick, novo auxiliar técnico de Niko Kovac após a saída de Peter Hermann. Flick havia sido jogador do Bayern nos anos 1980 atuando como meio-campista e esteve no time tetracampeão alemão entre 1986 e 1990 e vice-campeão europeu em 1987, derrotado pelo Porto-POR de Futre, Madjer e companhia. Flick tinha uma grande experiência no futebol por ter trabalhado na função de auxiliar de Joachim Löw entre 2006 e 2014 e ajudado a montar a Alemanha 3ª colocada na Copa do Mundo de 2010 e campeã da Copa de 2014. Além disso, foi diretor esportivo da Federação Alemã de Futebol (DFB) entre 2014 e 2017 para depois ser diretor do 1899 Hoffenheim, onde havia trabalhado como técnico no começo dos anos 2000.

Pavard, reforço do Bayern para a temporada 2019-2020.

 

Com um elenco fortalecido e vários jogadores aptos para atuarem em diferentes posições, o Bayern era mais uma vez candidato a todos os títulos em disputa na temporada. Seu único ponto fraco talvez fosse (por mais irônico que pudesse parecer) o setor ofensivo, já que Robert Lewandowski não tinha um substituto à altura caso sofresse alguma lesão ou estivesse suspenso – como centroavante de ofício para reposição a equipe só tinha Jann-Fiete Arp e Joshua Zirkzee, embora Thomas Müller e Serge Gnabry pudessem atuar mais centralizados caso necessário. A dúvida era se o time iria conseguir expandir seu domínio para o continente ou permanecer mais uma temporada “apenas” com taças domésticas.

 

Máquina desequilibrada

Bayern começou com o pé esquerdo a temporada: derrota para o Borussia na final da Supercopa da Alemanha.

 

O primeiro desafio aconteceu no dia 03 de agosto, na final da Supercopa da Alemanha contra o Borussia Dortmund. Jogando com a base da temporada anterior, o Bayern perdeu por 2 a 0 e viu a chance da primeira taça ruir. Dias depois, os bávaros passaram pelo primeiro desafio na Copa da Alemanha (vitória por 3 a 1 sobre o Energie Cottbus) e empataram em 2 a 2 contra o Hertha BSC na estreia do Campeonato Alemão. Nas duas rodadas seguintes, boas vitórias contra o Schalke 04 (3 a 0, fora de casa, com três gols de Lewandowski) e 6 a 0 sobre o Mainz 05, em casa. Já em setembro, a equipe empatou em 1 a 1 com o RB Leipzig (fora), venceu o FC Köln por 4 a 0 em casa, o Paderborn por 3 a 2 (fora) e perdeu por 2 a 1 para o 1899 Hoffenheim em plena Allianz Arena, resultado que tirou a liderança dos bávaros já no começo de outubro.

Lewandowski destroçou o Schalke 04 com três gols. Foto: REUTERS/Ralph Orlowski.

 

Durante esse período, a equipe estreou na Liga dos Campeões da UEFA com uma vitória por 3 a 0 sobre o Estrela Vermelha-SER (gols de Coman, Lewandowski e Thomas Müller), em casa, e viajou até Londres para enfrentar o então vice-campeão europeu Tottenham-ING. Mesmo jogando longe de seus domínios, o Bayern foi simplesmente avassalador e venceu de virada por 7 a 2, com quatro gols (!) de Gnabry, dois de Lewandowski e um de Kimmich. Sem dúvida, aquela goleada histórica marcou o primeiro grande jogo do time na temporada, uma apresentação de pura ofensividade, busca incessante pelo gol, time ligado ao máximo e criando várias e várias alternativas. No entanto, por mais brilhante que a equipe tivesse sido, as oscilações continuaram no Campeonato Alemão, a começar pelo já citado revés diante do 1899 Hoffenheim, ocorrido dias após a goleada sobre o Tottenham.

Na fase de grupos da UCL, Bayern atropelou o Tottenham fora de casa: 7 a 2. Foto: Reuters/Paul Childs.

 

Na oitava rodada, o time empatou fora de casa com o Augsburg em 2 a 2, venceu o Union Berlin por 2 a 1, em casa, e teve sufoco para bater o Bochum por 2 a 1 pela Copa da Alemanha. Na Liga dos Campeões, os alemães foram até a Grécia e venceram o Olympiacos por 3 a 2, confirmando a liderança no grupo, mas outra vez com o time levando gols. Os problemas defensivos e a impressão de que o elenco rendia menos do que podia geraram debates na imprensa alemã sobre o trabalho de Kovac, que deu uma declaração bem infeliz no final de outubro de 2019 sobre seu time.

 

“Precisamos acomodar o que temos. Você precisa ter os tipos de jogadores. Não pode tentar andar a 200 km/h em uma estrada se pode atingir apenas 100 km/h. Temos tipos diferentes de jogadores. Precisamos encontrar a mistura certa e acho que o nosso Gegenpressing (nome dado ao estilo do técnico alemão Jürgen Klopp, de pressão e contrapressão intensas) também é bom e, claro, pode sempre melhorar”. – trecho extraído de reportagem da Trivela, parceira do Imortais.

Aí não né, Niko!

 

Essa declaração não pegou nada bem para o croata. E sua situação só iria piorar dias depois…

 

Na “crise” (re)nasceu o esquadrão

Festa do Eintracht: 5 a 1 pra cima do Bayern… Foto: Hasan Bratic/picture alliance via Getty Images.

 

Na 10ª rodada da Bundesliga, em 02 de novembro, o Bayern visitou o Eintracht Frankfurt e levou uma impiedosa sacolada: 5 a 1. O resultado manteve os bávaros apenas na 4ª colocação de um campeonato em que eles empilhavam taças (eram sete conquistas seguidas) e não admitiam intrusos nem concorrentes. Eles só tinham vencido metade dos dez jogos iniciais do torneio e viam a hegemonia perto do fim. Com isso, não teve jeito: a diretoria demitiu o técnico Niko Kovac e manteve de maneira interina Hansi Flick. O executivo do clube, o ex-craque Karl-Heinz Rummenigge, disse que os “pobres resultados recentes e o jogo apresentado pelo time exigiam uma ação”, e por isso o clube decidiu pela saída de Kovac após reunião entre ele, Uli Hoeness, presidente dos bávaros, e Hasan Salihamidzic, diretor esportivo.

A estreia de Flick foi na Liga dos Campeões da UEFA, na 4ª rodada da fase de grupos. O time mostrou mais leveza, dinâmica e venceu o Olympiacos-GRE, em casa, por 2 a 0. Três dias depois, a equipe encarou o Borussia Dortmund em confronto direto pela ponta da tabela da Bundesliga e goleou por 4 a 0, com dois gols do artilheiro Lewandowski, um de Gnabry e outro de Hummels, contra. Dias depois, nova goleada de 4 a 0, fora de casa, contra o Fortuna Düsseldorf. Três dias depois, outro massacre: 6 a 0 no Estrela Vermelha-SER em pleno estádio Marakana, com quatro gols de Lewandowski. Já em dezembro, o Bayern venceu o Tottenham, em casa, por 3 a 1 e confirmou sua classificação às oitavas da UCL com seis vitórias em seis jogos, 24 gols marcados e apenas cinco sofridos. Obviamente que a diretoria não pensou duas vezes e anunciou que o técnico Flick iria permanecer no comando da equipe até o final da temporada.

Deixa comigo!

 

Com um time bastante ofensivo e que buscava a bola a todo momento, era praticamente outro Bayern. Nem as derrotas para o Bayer Leverkusen e Borussia Mönchengladbach pela Bundesliga acabaram com os créditos que Flick ganhou. Afinal, ele emendou seis vitórias seguidas no Campeonato Alemão – sendo três por goleada: 6 a 1 no Werder Bremen, em casa; 4 a 0 no Hertha BSC, fora; e 5 a 0 no Schalke 04, em casa -, resultados que colocaram os bávaros na liderança já na 20ª rodada do torneio e pela primeira vez desde a 6ª rodada. E aquele desempenho rápido era fruto do trabalho de Flick, que conhecia muito bem o clube, e, principalmente, os jogadores. Ele gostava de ouvir os atletas, entender o que acontecia e ajudava no que podia para que eles melhorassem de maneira considerável e progressiva. Os anos de experiência no futebol, no conhecimento da própria estrutura do Bayern e na seleção ajudaram bastante a reconstruir um time que podia, sim, correr muito mais que 200 km/h…

 

A concepção da BlitzBayern

Thomas Müller e Kimmich.

 

O que mais chamava a atenção naquele Bayern era a maneira como construía suas vitórias. Era ataque atrás de ataque, pressão na saída de bola do adversário, um trabalho coletivo notável e aproveitamento impressionante nos chutes a gol. Lewandowski se confirmava cada vez mais como uma máquina de fazer gols, mantinha a tradição do Bayern de contar com ótimos atacantes e esbanjava um rendimento espetacular não só na Bundesliga, mas também na Liga dos Campeões. Thomas Müller era mais garçom do que nunca e redescobriu seu futebol sob o comando de Flick, ganhando confiança e aparecendo como um dos mais importantes atletas do elenco pela diversidade no repertório de jogadas, pela entrega e por apresentar um perigo constante às zagas adversárias.

Thomas Müller voltou a jogar bem sob o comando de Flick e virou o maior garçom do time.

 

Müller até disse no começo de 2020 que “os jogadores puderam adicionar suas preferências com bases em suas posições, destacando os pontos fortes e fracos”, algo fundamental para se extrair o que de melhor um atleta pode oferecer. É como uma ferramenta: você não pode querer cortar uma corrente com um alicate de cutícula. É preciso um alicate corta vergalhão, no mínimo. Esse entendimento, por mais banal que seja, é muitas vezes esquecido por treinadores que jamais se dão ao trabalho de ouvir, apenas de delegar e impor isso ou aquilo.

Gnabry virou uma das principais armas ofensivas do Bayern de Flick. Foto: Getty Images.

 

Quem também jogava cada vez mais era Thiago Alcântara, comandante do meio de campo com passes perfeitos e muita classe. Gnabry crescia de produção com chutes potentes e gols decisivos e Alphonso Davies desbancou o campeão do mundo pela França em 2018, Lucas Hernández, para assumir a lateral-esquerda com muita regularidade, dribles e velocidade. Isso sem contar o polivalente Kimmich, ótimo no meio de campo, mas que também podia atuar na lateral-direita com exímia precisão e ainda aparecer no ataque para marcar gols e ajudar na construção de jogadas.

Alphonso Davies tomou para si a lateral-esquerda e não largou mais!

 

A dominância daquele time sobre os adversários rendia elogios não só na imprensa, mas também internamente. Os executivos não escondiam a satisfação em ver o Bayern jogando um futebol atrativo e que tinha a volta dos valores do clube. Era um resgate ao timaço de 2012-2013 e também ao comandado por Guardiola. Mas aquele Bayern seria ainda mais devastador.

 

Hegemonia mantida

Neuer ergue a taça da Bundesliga. Foto: Getty Images.

 

O desempenho do Bayern foi notável não só no mês de dezembro, mas principalmente na virada do ano, após assumir a liderança da Bundesliga em fevereiro. No dia 05 daquele mês, os bávaros saíram perdendo para o 1899 Hoffenheim nas oitavas de final da Copa da Alemanha e viraram para 4 a 1. Mesmo levando dois gols nos minutos finais do jogo, a equipe de Munique se classificou com a vitória por 4 a 3. Dias depois, o empate sem gols com o RB Leipzig, pela 21ª rodada da Bundesliga, seria o último jogo com pontos perdidos da equipe do técnico Flick até o fim da temporada. Nos 13 jogos restantes, 13 vitórias (seis por goleada), 42 gols marcados – média de 3,23 gols por jogo -, e mais um título alemão para a coleção (levantado com duas rodadas de antecedência, após vitória por 1 a 0 sobre o Werder Bremen fora de casa, gol de Lewandowski). A campanha foi incontestável: 34 jogos, 26 vitórias, quatro empates, quatro derrotas, exatos 100 gols marcados (melhor ataque) e 32 gols sofridos (melhor defesa).

Lewandowski foi mais uma vez o artilheiro do campeonato com 34 gols em 31 jogos, média superior a um gol por jogo. Lewa foi também o jogador que mais vezes chutou a gol: 140 vezes, prova máxima de que é preciso arriscar sempre, não importa o ângulo ou a distância. Falando em chutes, o Bayern foi o time que:

 

  • Mais chutou a gol no torneio: 620 vezes;
  • O que mais carimbou a trave dos adversários: 19 vezes;
  • O que mais fez gols de pênaltis: 6 gols;
  • O que teve melhor aproveitamento de passes: 88%.
Mais uma para a coleção: Copa da Alemanha!

 

Thomas Müller confirmou sua volta por cima com 21 assistências, o campeão no quesito na competição. Kimmich foi o campeão da posse de bola e também o que percorreu a maior distância (397,9 km). Além da oitava taça seguida na Bundesliga, o Bayern venceu a Copa da Alemanha após derrotar o Schalke 04 por 1 a 0 nas quartas de final, bater o Eintracht Frankfurt por 2 a 1 nas semis e vencer o Bayer Leverkusen por 4 a 2 na decisão, com dois gols de Lewandowski, um de Gnabry e um de Alaba. Vale destacar que o rendimento do time não foi afetado de nenhuma maneira mesmo com a paralisação do futebol na Alemanha a partir do início de março e que se estendeu até o começo de maio de 2020 por conta da pandemia da COVID-19. Pelo contrário. Quando o clube voltou à ativa, em 17 de maio, retornou vencendo e com o faro de gols apurado, determinante para os títulos da Bundesliga e da Copa da Alemanha. Mas o apogeu daquele esquadrão seria, de fato, no âmbito continental.

 

Die Verwüstung!

Após superar sem sustos seus adversários na fase de grupos da Liga dos Campeões da UEFA, o Bayern simplesmente atropelou seu primeiro adversário no mata-mata. Contra o Chelsea-ING, nas oitavas, os bávaros venceram o duelo de ida, em Londres, por 3 a 0, com dois gols de Gnabry e um de Lewandowski, resultado que praticamente selou a classificação. A volta só aconteceu em 08 de agosto, com a Allianz Arena de portões fechados por conta da pandemia da COVID-19. Mesmo sem torcida, o time alemão goleou mais uma vez: 4 a 1, com dois gols de Lewandowski, um de Perisic e outro de Tolisso. Já eram oito jogos e oito vitórias no torneio. O time vinha de 19 vitórias seguidas e não havia perdido um jogo sequer em 2020, ano no qual os bávaros já contabilizavam 22 jogos, 21 vitórias e um empate. Nessas 21 vitórias, 11 foram com quatro gols ou mais. Culpa principalmente de Lewandowski, que marcava um gol a cada 72 minutos e somava 53 gols na temporada (34 em 31 jogos só na Bundesliga). Era demolição atrás de demolição!

O Bayern que venceu o Chelsea em Londres: com Kimmich no meio de campo e Pavard na lateral-direita, equipe demonstrava não só força ofensiva, mas também equilíbrio defensivo.

 

Lewandowski estava imparável naquela temporada!

 

Os duelos a partir das quartas de final seriam únicos, com portões fechados e todos realizados na cidade de Lisboa, em Portugal, nos estádios da Luz e José Alvalade. A final, que seria disputada em Istambul-TUR, também foi transferida para Lisboa, no Estádio da Luz. O primeiro adversário dos alemães naquela etapa seria o Barcelona-ESP, que havia superado o Napoli-ITA após empate em 1 a 1 no primeiro jogo e vitória por 3 a 1 na volta. Mesmo com Messi, Suárez e companhia do outro lado, o Bayern era favorito pela fase que vivia e o entrosamento notável do time. Mas as camisas pesadas e o retrospecto de grandes jogos entre a dupla tornava o duelo ligeiramente aberto em possibilidades. No dia do jogo, o técnico Flick colocou o que tinha de melhor em campo, com exceção de Coman, que vinha de lesão e ainda não estava 100% fisicamente, abrindo espaço para o croata Perisic. Na lateral-direita, o francês Pavard, com lesão no tornozelo, deu lugar ao polivalente Kimmich, que vinha muito bem atuando improvisado no setor.

Quando a bola rolou, o Bayern precisou de apenas quatro minutos para fazer 1 a 0, com Thomas Müller. O Barça até empatou, em gol contra de Alaba, mas Perisic, aos 22’, Gnabry, aos 27’, e Thomas Müller, aos 31’, fizeram 4 a 1 para os alemães. A BlitzBayern ganhava um novo contorno, ainda mais ofensivo, uma verdadeira devastação (ou Verwüstung, em alemão). Dono do meio de campo, o Bayern sufocava o Barça, controlando completamente as ações, construindo alternativas, girando a bola, alternando seus atletas. E tudo com categoria, técnica. Se um blaugrana tinha a bola, dois, três do Bayern apareciam. O nível de concentração e apetite daquele Bayern assustava até quem não entendia muito de futebol, que poderia perguntar “nossa por que esse time de branco joga e ataca tanto e o outro não consegue fazer nada e fica acuado? É jogo real isso ou profissionais contra time de meninos?”, parafraseando um narrador célebre em outro jogo célebre que surgia na cabeça de muita gente àquela altura –  principalmente dos brasileiros…

Perisic (à esq.) comemora o segundo gol. Foto: Manu Fernandez / Pool / AFP.

 

No segundo tempo, após um rápido alívio do Barça com um gol de Luis Suárez, o Bayern ligou seu modo Blitz mais uma vez e fez o quinto após o lateral Alphonso Davies receber na esquerda, passar por Messi, deixar Vidal no chão, ir pra cima de Semedo, parar, olhar, gingar, levar para a esquerda, conduzir a bola até a linha de fundo e cruzar para Kimmich fazer o gol. Os alemães seguiram no ataque e só não fizeram mais gols de maneira instantânea por causa das defesas de Ter Stegen. Mas, aos 36’, tocando de pé em pé e circulando a área catalã pela 4878947ª vez, o Bayern fez mais um após Philippe Coutinho conduzir até a linha de fundo e cruzar para Lewandowski cabecear livre e fazer o dele: 6 a 2.

Davies chama Semedo para dançar…

 

… E Kimmich conclui a jogadaça! Foto: Manu Fernandez / Pool / AFP.

 

 

Aos 40’, Messi perdeu a bola para Lewandowski, que deixou para Thiago. O camisa 6, ex-jogador do Barça, avançou, tocou para Müller, que esperou, pensou em tocar para Lewa, mas viu Philippe Coutinho aparecer livre na esquerda. O alemão lembrou da Lei do ex. E não hesitou: rolou para o brasileiro, que adiantou um pouco a bola, mas teve tempo de chutar para fazer: 7 a 2. Justo um brasileiro fazendo o sétimo gol para um time alemão… Acha que acabou? Que nada! Quatro minutos depois, circulando a área blaugrana como predador nato que era, o Bayern apareceu com Thiago, que tocou para Lucas Hernández e este, de cabeça, ajeitou para Philippe Coutinho, de novo, fazer o oitavo: 8 a 2. Hecatombe bávara! Ou melhor, Octatombe!!!!

A Lei do ex entrou em ação no final da partida…

 

Era algo espantoso, inimaginável, histórico. Não era um jogo entre um gigante contra um time mediano. Eram dois gigantes, 10 títulos europeus em campo, escolas clássicas do futebol, etc, etc. Mas, naquele dia, era o espetáculo de um só time e a demolição escancarada de um clube que vinha há tempos padecendo, sucumbindo e vivendo de seu passado. Os dois gols de Philippe Coutinho eram o retrato exato daquilo: um jogador reserva, emprestado ao Bayern pelo próprio Barça e que custou quase 150 milhões de euros aos cofres blaugranas.

Os times em campo: com movimentação constante, marcação adiantada e fome de bola, o Bayern engoliu o Barcelona.

 

Após dois minutos de acréscimos, o árbitro apitou o final do jogo e ficou consolidada a classificação do Bayern e a pior derrota do Barcelona em competições europeias em toda a história. Uma partida para as enciclopédias e todo e qualquer livro sobre o esporte neste século XXI. E que rendeu números impressionantes:

 

  • Foi a pior derrota do Barcelona em 69 anos, desde os 6 a 0 sofridos para o Espanyol em La Liga de 1950-1951;
  • Foi a primeira vez que o clube catalão sofreu oito gols desde os 8 a 0 sofridos para o Sevilla, na Copa do Rey de 1946 (que na época ainda era chamada de Copa del Generalísimo);
  • Foi apenas o sexto jogo em toda a história que o Barcelona sofreu oito gols ou mais;
  • Foi a primeira vez que o Barcelona levou mais de cinco gols em uma partida de Liga dos Campeões da UEFA;
  • Foi a pior derrota da história do Barcelona em qualquer competição da UEFA;
  • Foi a pior derrota da carreira de Messi, superando os 6 a 1 sofridos para a Bolívia em 2009, com o craque defendendo a seleção argentina;
  • Foi a primeira vez na era moderna da Liga dos Campeões da UEFA que uma equipe marcou oito gols em uma fase eliminatória. E a primeira desde os 9 a 1 do Real Madrid sobre o FC Swarovski Tirol em 1991;
  • O Bayern fez quatro gols em apenas 31 minutos no primeiro tempo;
  • Foi a maior goleada a partir das quartas de final em qualquer competição europeia desde os 8 a 0 do Rangers-ESC sobre o Borussia Mönchengladbach-ALE pela Recopa da UEFA de 1960;
  • Foi a primeira vez que uma equipe marcou oito gols em um mata-mata de UCL na era moderna do torneio, a partir de 1992-1993;
  • O número de gols do Bayern foi maior do que o número de finalizações do Barça no jogo inteiro: 8 a 7;
  • O Bayern ampliou para 28 jogos seguidos sua invencibilidade;
  • Foi a 12ª goleada do Bayern por quatro gols ou mais nesse período de 28 jogos;
  • Com 35 gols em nove jogos, o Bayern quebrou seu recorde de gols marcados em uma única Liga dos Campeões da UEFA;
  • Com cinco gols, Thomas Müller se tornou o maior carrasco do Barcelona em Liga dos Campeões, empatado com o ucraniano Shevchenko;
  • Müller alcançou ainda os 23 gols em mata-matas da era moderna da UCL, o terceiro com mais gols, atrás apenas de Cristiano Ronaldo (67) e Messi (47);
  • Com a eliminação do Barcelona, a Espanha ficou sem times em uma semifinal de UCL pela primeira vez desde 2006-2007.

 

Os números e recordes na verdade foram migalhas perto do que foi aquela partida. O desempenho coletivo e técnico do Bayern demonstrou o imenso profissionalismo de um time que, por mais irônico que possa soar, respeitou o Barcelona com uma aula de futebol ofensivo, intenso, dinâmico. Em nenhum momento eles passaram o pé sobre a bola ou deram toquinhos desrespeitosos. Se eles perceberam que o rival dava espaços para um placar mais elástico, por que ficar gastando o tempo? Eles continuaram atacando, jogando futebol, marcando gols, sendo esportivos. Isso só engrandeceu ainda mais a partida e o feito memorável e eterno do Bayern, que naquele dia apresentou ao continente sua BlitzBayern e decretou de vez o fim de vários jogadores que antes eram símbolos do barcelonismo e de uma era de glórias. Leia mais sobre esse jogo clicando aqui!

 

100%: O maior campeão da história!

Müller, Lewandowski e Gnabry: trio demolidor daquele Bayern.

 

Após o estrondo causado nas quartas de final, o Bayern obviamente saltou direto para o topo dos clubes favoritos ao título europeu. E, na semifinal, provou ser mesmo candidatíssimo ao caneco. Contra o Lyon-FRA, que vinha embalado após eliminar a Juventus-ITA de CR7 e o Manchester City-ING de Guardiola, os alemães venceram de maneira categórica por 3 a 0, com dois gols de Gnabry no primeiro tempo e um de Lewandowski já na etapa complementar. Outra vez o time de Flick apresentou maior volume de jogo, chutou mais (nove no gol contra apenas três dos franceses), teve 64% de posse de bola, 603 passes completos contra apenas 278 do Lyon e oito desarmes contra apenas dois do rival.

Lewa deixou o seu contra o Lyon.

 

Com méritos inquestionáveis, o Bayern estava na final. Eram dez jogos e dez vitórias. Absurdos 42 gols marcados e média de 4,2 gols por jogo. Desses 42 gols, 14 saíram nos 15 minutos finais, prova de o time ter um vigor físico notável e liquidar os rivais enquanto eles já pediam água. Com 230 finalizações, sendo 99 delas no gol, praticamente de cada duas a três finalizações, uma ia para as redes. Já era o ataque com maior média de gols marcados da era moderna da Liga dos Campeões da UEFA, atrás apenas do Real Madrid de 1959-1960, com 4,4 gols por jogo.

Coman celebra o gol do título da UCL contra o PSG.

 

O time da decisão: Coman deu mais velocidade no lado esquerdo, Kimmich voltou à lateral e Goretzka manteve a qualidade no meio de campo.

 

No último desafio, o Bayern encarou o PSG-FRA, que disputava pela primeira vez em sua história uma final de Liga dos Campeões. O trio Di María, Neymar e Mbappé era a esperança da conquista inédita dos parisienses. Mas, em campo, o Bayern nem precisou se esforçar muito para coroar a mais avassaladora campanha de um campeão na história do torneio. Com defesas sensacionais de Manuel Neuer – um gigante que defendeu a maioria das bolas apenas usando as pernas e pés – e um gol de Coman, aos 14’ do segundo tempo – curiosamente ex-jogador do clube parisiense e dispensado anos antes (a Lei do ex foi aplicada impiedosamente pelos bávaros naquela fase final…) -, os alemães venceram por 1 a 0, foram campeões da Europa pela sexta vez e confirmaram a mais impressionante campanha da história da Liga dos Campeões da UEFA: 11 vitórias em 11 jogos, 43 gols marcados e 8 gols sofridos. Foi o primeiro campeão com 100% de aproveitamento em um torneio europeu em toda a história! De quebra, confirmou o segundo Treble dos alemães (o primeiro foi em 2012-2013). O Bayern atingiu ainda as seguintes marcas:

 

  • Recorde de vitórias consecutivas na Liga dos Campeões: 11 vitórias;
  • Maior goleada em uma fase de mata-mata da era moderna da Liga dos Campeões da UEFA: 8 a 2 no Barça;
  • Melhor ataque de um clube campeão na história da UCL – 43 gols em 11 jogos;
  • Maior média de gols marcados na era moderna do torneio – 3,90 gols por jogo, atrás apenas dos 4,4 gols por jogo do Real Madrid 1959-1960, que fez 31 gols em sete jogos.
O goleiro Neuer foi simplesmente uma muralha na decisão!

 

Não havia outro final para o Bayern: campeão!

 

Thiago, um dos principais destaques do Bayern naquela UCL.

 

Robert Lewandowski, com 15 gols, foi o artilheiro do torneio e ainda o campeão em assistências com seis passes para gols. Gnabry, com nove gols, foi o vice-artilheiro do time e o 3º na lista de goleadores da competição. Tolisso e Alphonso Davies, ambos com quatro assistências, também se destacaram entre os garçons. A Velhinha Orelhuda consagrou um dos maiores esquadrões que a Europa já viu. Um time que terminou a temporada com uma sequência de 30 jogos de invencibilidade, sendo 29 vitórias (21 consecutivas!) e um empate. Uma equipe que não marcou gol em apenas um dos 52 jogos disputados (a fatídica final da Supercopa da Alemanha). E que venceu 33 dos 36 jogos disputados sob o comando de Hansi Flick, aproveitamento de 91,67%.

 

Números da Temporada:

 

 

 

Artilheiros:

 

 

Números com Hansi Flick:

 

 

Superá-los? Quase impossível!

Reprodução: site oficial do Bayern.

 

A temporada 2019-2020 foi sem dúvida uma das mais marcantes da história do Bayern. Por isso e por tudo o que ela representou ao clube no quesito títulos, volta por cima e futebol apresentado, ela mereceu um capítulo exclusivo e à parte aqui no Imortais – mesmo com a enorme possibilidade de o time bávaro seguir fazendo novas vítimas na temporada 2020-2021 (eles venceram a Supercopa da UEFA já em setembro de 2020, com vitória por 2 a 1 sobre o Sevilla-ESP). Vencer com recordes impressionantes, um apetite por gols digno de alguns dos mais inesquecíveis esquadrões e até seleções que já escreveram seus nomes na história do futebol e levantar a Liga dos Campeões da UEFA com 100% de aproveitamento foi simplesmente enorme, imensurável e que nenhum time jamais conseguiu. Nem o Real Madrid de Di Stéfano ou de Cristiano Ronaldo. Nem o Benfica de Eusébio e Coluna. Nem a Grande Inter. Nem o Manchester United de Charlton, Best e Law. Nem o Ajax de Cruyff. Nem o Bayern de Beckenbauer. Nem o Liverpool de Paisley. Nem o Milan de Sacchi. Nem o Barcelona de Guardiola. Só o Bayern de Lewandowski, Thomas Müller, Neuer, Kimmich, Thiago, Hansi Flick e companhia. Um esquadrão devastador, recordista, goleador e imortal.

 

Os personagens:

 

Neuer: o goleiro chegou ao Bayern em 2011 e assumiu a meta do time bávaro de maneira absoluta. Ano após ano, se consagrou como um dos maiores da história de seu país, titular da Alemanha campeã da Copa de 2014 e presente no esquadrão campeão do primeiro Treble lá em 2012-2013. Após a aposentadoria de Philipp Lahm em julho de 2017, Neuer virou capitão do Bayern e teve a honra de erguer as taças conquistadas entre 2018 e 2020. Na temporada 2019-2020, o camisa 1 superou as lesões que o atormentaram na época 2018-2019 e foi simplesmente sensacional, com defesas impressionantes e os bloqueios que tanto o consagraram ao longo da década, principalmente em chutes à queima roupa. Com uma capacidade rara de defender com os pés e pernas e sempre bem colocado, Neuer ressurgiu categoricamente e foi um gigante para o novo Treble do Bayern. São 388 jogos com a camisa do Bayern e uma média inferior a um gol sofrido por jogo pelo clube. Ele é o único goleiro da história a vencer dois Trebles por um clube na Europa. Mais um imortal para o seleto rol de grandes goleiros do Bayern, ao lado de Sepp Maier e Oliver Kahn.

Kimmich: sem dúvida um dos mais completos jogadores do futebol alemão na atualidade, Kimmich pode atuar como zagueiro, volante, meio-campista mais avançado e também lateral, apto a exercer funções tanto defensivas quanto ofensivas. Tanta eficiência e regularidade transformaram o jogador em um dos mais utilizados pelos técnicos Kovac e Flick na temporada 2019-2020: foram 51 jogos disputados e sete gols marcados. Kimmich começou a temporada atuando mais no meio de campo e foi deslocado para a lateral após a lesão de Pavard. Foi simplesmente impecável na reta final da Liga dos Campeões da UEFA. Entre 2015 e 2020, disputou mais de 220 jogos com a camisa do clube bávaro.

Pavard: “transformado” em lateral por Didier Deschamps na seleção francesa campeã da Copa do Mundo de 2018, Pavard foi contratado para esta posição pelo Bayern e possibilitou ao companheiro Kimmich que atuasse mais no meio de campo, onde ele rende mais. O francês também pode atuar na zaga e foi muito bem na temporada com qualidade nos passes, eficiência na marcação e ainda perigosos chutes de fora da área. Pavard disputou 47 jogos na temporada e marcou quatro gols. Só não esteve na reta final da UCL por conta de uma lesão que o tirou de combate – e fez Kimmich retornar à lateral.

Boateng: no Bayern desde 2011, o defensor sempre foi um dos titulares absolutos do clube alemão e esteve presente nos grandes times da equipe ao longo da década de 2010, inclusive no time do primeiro Treble. Mesmo sem demonstrar muita técnica com a bola nos pés, se garante na força física, nas bolas aéreas e na velocidade, embora esta última já não seja uma de suas virtudes por conta da idade. Versátil, pode atuar não só na zaga, mas também nas duas laterais. Algumas lesões atrapalharam seu rendimento na temporada 2019-2020, mas conseguiu fazer bons jogos e disputou 38 partidas. Em dezembro de 2019, alcançou a marca de 300 jogos pelo Bayern na carreira.

Süle: grata revelação que despontou no 1899 Hoffenheim a partir de 2012, o zagueirão chegou ao Bayern em 2017 e foi titular em vários jogos em suas primeiras duas temporadas pelo clube. Com as contratações de novos atletas para o setor defensivo e uma lesão ligamentar que sofreu, foi parar na reserva, mas se recuperou perto do fim da temporada e entrou em algumas partidas quando necessário. Tem força física, eficiência no jogo aéreo (Süle tem 1,95m de altura!) e boa técnica para a posição.

Alaba: meio-campista de origem, virou titular absoluto da lateral-esquerda graças ao técnico Jupp Heynckes lá no time do primeiro Treble. Na temporada 2019-2020, demonstrou técnica também para atuar como zagueiro, e foi nessa posição que atuou a maior parte da temporada após a ascensão meteórica de Alphonso Davies. Alaba acumulou 386 jogos e 31 gols pelo Bayern entre 2009 e 2020.

Javi Martínez: revelado pelo Athletic Bilbao-ESP, Martínez chegou ao Bayern como a então maior contratação da história do clube (40 milhões de euros) lá em 2012, e justificou cada centavo com um futebol de altíssima qualidade tanto na marcação do meio de campo quanto no apoio às estrelas do ataque. Sofreu com lesões nas últimas temporadas e também com a concorrência no meio de campo, indo parar na reserva. O espanhol jogou muitas vezes como zagueiro tanto com o técnico Kovac como com Flick. Fez o gol do título da Supercopa da UEFA na decisão contra o Sevilla.

Alphonso Davies: sem dúvida uma das maiores revelações do futebol mundial no final da década, o jogador possui uma incrível história de superação. Filho de liberianos, Davies nasceu em um campo de refugiados em Gana, em novembro de 2000, após seus pais fugirem da guerra civil que assolava a Libéria na época. A família de Davies entrou em um programa social, e, quando o garoto completou cinco anos, conseguiu se mudar com seus pais para o Canadá. Por lá, Davies começou a tomar gosto pelo futebol, foi descoberto pelo Vancouver Whitecaps aos 14 anos e já entrou em campo como titular do time aos 16. Em janeiro de 2019, o Bayern percebeu o potencial do jovem e contratou Davies por 10 milhões de euros. Mesmo sendo ponta de origem, se destacou como lateral-esquerdo, desbancou o campeão do mundo Hernández e fez com que Alaba fosse para a zaga. Veloz, driblador e criativo, fez jogos marcantes e foi fundamental para o sucesso ofensivo do Bayern na temporada. Foram 43 jogos disputados, três gols marcados e a jogadaça do quinto gol dos 8 a 2 sobre o Barça cravada para sempre na memória do torcedor bávaro. Tem uma brilhante carreira pela frente.

Lucas Hernández: polivalente do setor defensivo, pode atuar como zagueiro ou lateral-esquerdo com a mesma qualidade. Veio ao custo de 80 milhões de euros (atleta mais caro da história do Bayern) com a bagagem do título mundial pela França e boas apresentações pelo Atlético de Madrid, mas jogou pouco por causa da boa fase de Alphonso Davies e uma séria lesão no tornozelo. Foram apenas 25 jogos na temporada 2019-2020, mas o francês é uma peça importante para a zaga do time nos próximos anos.

Goretzka: gigante do meio de campo, não só pela presença física imponente mas também pela eficiência nos desarmes e construção de jogadas, o alemão foi fundamental para o sucesso do Bayern na temporada com grandes atuações, principalmente na reta final da Liga dos Campeões da UEFA. O técnico Hansi Flick deu mais liberdade ao meio campista para que ele contribuísse com sua técnica e domínio de bola na armação. A tática deu super certo, afinal, o jogador participou ativamente de vários gols do time, além de marcar os seus. Em 38 jogos na temporada, Goretzka marcou oito gols.

Tolisso: após boas temporadas no Lyon, chegou ao Bayern em 2017 e foi titular do meio de campo em boa parte da época 2017-2018 com sua boa forma física e presença no ataque. Sofreu uma contusão que o tirou de praticamente toda a temporada 2018-2019. Retornou em 2019-2020 e foi ótimo na fase de grupos da Liga dos Campeões da UEFA e também em alguns compromissos da Bundesliga. No mata-mata da UCL, perdeu posição no meio de campo, mas cumpriu seu papel nos títulos históricos. Foram 28 jogos e quatro gols.

Thiago: foi levado por Guardiola ao Bayern em 2013 para ser o protagonista do meio de campo do time, mas suas primeiras temporadas foram abaixo do esperado. Acabou crescendo ao longo do tempo, mas sem dúvida viveu seu auge entre 2018 e 2020 com a camisa do Bayern. Com muita classe, passes precisos, enorme habilidade e talento, Thiago deu o tom de criatividade no ataque do Bayern de Hansi Flick. Disputou 40 jogos e marcou três gols na temporada 2019-2020.

Gnabry: outro jogador simplesmente essencial na trajetória demolidora do Bayern em 2019-2020. Jogando mais aberto pelo ataque, Gnabry cravou seu espaço no time com muitos gols, assistências e se consolidou como um dos mais perigosos pontas da Europa. O alemão ficou atrás apenas de Lewandowski nas artilharias do clube na temporada. Foram 12 gols na Bundesliga, nove gols na Liga dos Campeões da UEFA e dois na Copa da Alemanha, totalizando 23 gols em 46 jogos. Gnabry ainda deu 10 passes para gols na Bundesliga. Não é à toa que ele virou figura constante nas convocações da Alemanha, principalmente em 2019.

Philippe Coutinho: chegou ao Bayern para tentar reencontrar o bom futebol dos tempos de Liverpool e Vasco, no entanto, embora tenha começado bem sob o comando de Niko Kovac, acabou caindo de produção e voltou a sofrer com contusões, além de ver seus concorrentes jogarem mais. Com isso, Philippe Coutinho foi para o banco, mas fez alguns bons jogos quando entrou e ainda teve tempo para fazer valer a Lei do ex nos 8 a 2 sobre o Barcelona. O brasileiro disputou 38 jogos e marcou 11 gols na temporada 2019-2020.

Thomas Müller: quando muitos diziam que ele não era mais o mesmo e que estava com os dias contados em Munique, eis que Hansi Flick conseguiu resgatar um dos mais simbólicos e vencedores jogadores do Bayern na década. Ver o que Thomas Müller jogou a partir de dezembro de 2019 é como acompanhar uma fênix. O craque foi decisivo, demonstrou sua enorme leitura de jogo e senso de posicionamento, marcou gols e virou o maior garçom da equipe na conquista da Bundesliga com 21 assistências, além de oito gols marcados. Na Liga dos Campeões, voltou a ser o carrasco e goleador-nato na fase de mata-mata e marcou quatro gols, dois deles no Barcelona, sua vítima preferida. Com gana, raça e o Bayern correndo em suas veias, encarnou o torcedor-jogador. Ídolo da torcida e imortal do clube, Müller celebrou seu segundo Treble na carreira e confirmou ainda mais o status de um dos atletas mais importantes do Bayern e do futebol alemão neste século XXI. Foram 50 jogos e 14 gols na temporada 2019-2020.

Coman: o francês chegou em 2017 ao Bayern, e, mesmo com vários concorrentes para a posição de ponta-esquerda, conseguiu espaço no time titular mesmo sofrendo com algumas lesões. Rápido, técnico e driblador, cria várias chances de gol e também deixa os seus. Foram oito gols em 38 jogos na temporada 2019-2020, o mais importante deles o do título da Liga dos Campeões da UEFA, curiosamente contra o clube que o revelou (e o dispensou…), o PSG.

Perisic: o croata chegou para ser uma peça de reposição, mas foi titular em vários jogos e conseguiu deixar o novato Coman no banco. Com experiência e poder de decisão, marcou oito gols em 35 jogos e fez grandes exibições na Liga dos Campeões, atuando em 10 jogos e marcando três gols.

Lewandowski: vive o auge da carreira e demonstrou isso na temporada espetacular que fez pelo Bayern, a ponto de ofuscar em diversas oportunidades os extraterrestres Cristiano Ronaldo e Messi. Lewa marcou absurdos 55 gols em 47 jogos (média de 1,17 gols por jogo), foi o artilheiro da Bundesliga pela quinta vez (34 gols em 31 jogos), artilheiro da Liga dos Campeões da UEFA (15 gols em 10 jogos, o primeiro artilheiro da UCL vestindo a camisa do Bayern desde Dieter Hoeneß, em 1982), artilheiro da Copa da Alemanha pela quinta vez (6 gols em 5 jogos), maior assistente da Liga dos Campeões da UEFA (seis assistências) e Melhor Futebolista na Alemanha em 2020. Lewandowski aperfeiçoou ainda mais seu estilo de jogo e foi não só o goleador pirotécnico (capaz de marcar gols em profusão e em questão de poucos minutos, como já vimos aqui) que o consagrou, mas também um atacante solidário, que atrai a marcação para si e deixa os companheiros que vêm de trás livres e prontos para finalizar ao gol. O polonês já é um dos maiores goleadores do Bayern em todos os tempos com 246 gols em 289 jogos, o 2º na lista dos maiores artilheiros do clube, atrás “apenas” de Gerd Müller e seus 563 gols em 605 jogos. Simplesmente imortal!

Niko Kovac e Hans-Dieter “Hansi” Flick (Técnicos): o croata fez uma boa temporada em 2018-2019, mas o inconsistente início de trabalho em 2019-2020, a infame declaração sobre “velocidade” e a sapecada de 5 a 1 sofrida para o Eintracht Frankfurt custaram seu emprego. Ele deixou o Bayern com 69% de aproveitamento – 45 vitórias, 12 empates e oito derrotas em 65 jogos. Hansi Flick assumiu o comando técnico em novembro de 2019 e nem o mais fanático torcedor poderia imaginar a revolução que o então assistente faria. Mas, no fundo, ele sabia de seu potencial. Com entendimento de causa, amizade com os jogadores e explorando as qualidades e vontades específicas de cada um, Flick criou um time devastador, ofensivo e com um apetite para gol como poucas vezes vimos no futebol. Seus números demonstrados no gráfico que você viu acima provaram isso. Já está na história do Bayern e do próprio futebol.

Hansi Flick e os mimos de 2019-2020.

 

Extra:

Veja os gols da campanha 100% do Bayern na UCL.

 

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4 thoughts on “Esquadrão Imortal – Bayern München 2019-2020

  1. Sensacional. Belo texto. Por favor na categoria Jogos Eternos, coloque a partida Barcelona 2 x 2 Chelsea pela semifinal da UCL de 2011-2012

  2. Imortais, eu acho que esse texto foi maravilhoso, mas não acha que foi precipitado já lançar nos Esquadrões Imortais? O feito desse Bayern 100% foi realmente coisa de time imortal, mas ainda tem muita coisa pela frente. O time alemão pode levantar mais canecos nesse ano e ainda em 2021, 2022… Creio que esse esquadrão imortal ainda tem muita coisa para mostrar.

    Já imaginava que esse Bayern virasse esquadrão na galeria do Imortais, mas não agora. Independente de tudo, abraço!

    1. É que foi um feito histórico, uma temporada incrível que mereceu um capítulo especial, assim como o Flamengo de 2019, por exemplo. Obrigado pelo comentário e prestígio!

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