Ao Rei, com carinho

 

Vossa Majestade,

 

Como amante do futebol, sempre fui seu fã. Embora tenha nascido quase 50 anos após sua vinda a este mundo, tive a oportunidade de ver, em filmes, vídeos e documentários seus mais diversos lances e obras-primas, além de ler muito, mas muito a respeito de você. E, obviamente, jamais encontrei palavras suficientes para descrever o que você fez.

Você nasceu em Três Corações (MG), talvez o mais perfeito nome de cidade para abrigar um personagem que sempre teve milhões de fãs. Um só coração seria pouco para confortar tanto carinho.

Em 1950, viu seu pai chorar após a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa do Mundo em pleno Maracanã. Cheio de si, confortou Seu Dondinho dizendo “Não chore, papai. Vou ganhar uma Copa do Mundo para você”. De fato, você era um garoto à frente de seu tempo. Sabia das coisas…

Já em Bauru (SP), com apenas 11 anos, já entortava rivais maiores do que você e marcava mais gols do que os atacantes experientes do Bauru Atlético Clube.

Aos 15 anos, você chegou à então pacata Vila Belmiro, que em pouco tempo iria se tornar a Vila mais famosa do mundo.

 

Quem te levou lá foi Waldemar de Brito, que não hesitou em dizer que você seria “o maior jogador de futebol do planeta”. Já em seu primeiro ano no Santos Futebol Clube, em um amistoso contra o Corinthians aqui de minha cidade, Santo André (SP), você fez seu primeiro gol, ainda conhecido como Gasolina pelos novos companheiros, e não Pelé.

Aos 16 anos, virou titular do Santos e já venceu seu primeiro Campeonato Paulista.

Em 1958, aos 17 anos, você embarcou com a seleção brasileira para a disputa de sua primeira Copa do Mundo, na Suécia. Por lá, fez uma dupla com um tal de Garrincha e colocou os europeus na roda.

Na semifinal, contra a França de Fontaine e Kopa, você marcou três gols na vitória por 5 a 2 e se tornou o mais jovem jogador a alcançar um hat-trick em um Mundial.

Falando em Fontaine, que foi o artilheiro do Mundial com 13 gols, ele disse que quando te viu jogando ficou com a “sensação de que deveria pendurar as chuteiras”…

Em plena final, contra os anfitriões suecos, você marcou dois gols, um deles uma das maiores obras de arte da história das Copas, e ajudou o Brasil a vencer por 5 a 2 e faturar seu primeiro Mundial. A promessa feita ao Seu Dondinho estava cumprida. E em apenas oito anos!

No mesmo ano, você faturou mais um Paulistão e anotou 58 gols em 38 jogos, recorde até hoje na competição – e que, vamos combinar, jamais será igualado ou superado.

Em 1959, você foi requisitado até na seleção do Exército. Cumpriu com o dever e ajudou seu time a vencer o Campeonato Sul-Americano da categoria.

 

De volta ao Peixe, conheceu um tal de Coutinho e iniciou uma das mais emblemáticas parcerias do futebol mundial. Com suas tabelinhas, vocês confundiam as defesas e marcavam gols, gols e mais gols.

Ainda em 1959, em uma partida contra o Juventus (SP), você fez seu gol mais bonito, aquele dos quatro chapéus seguidos, três nos adversários e um no goleiro, antes de estufar as redes. Foi um gol tão bonito que você socou o ar de emoção, criando sua comemoração mais famosa. Pena que não havia smartphone ou 9987798879 câmeras no estádio como hoje em dia para gravar aquela exuberância…

Mas foi na década de 1960 que aconteceu seu apogeu. Foram taças e mais taças pelo Santos, o Gol de Placa no Maracanã contra o Fluminense, em 1961, as cinco Taças Brasil consecutivas e as conquistas das Copas Libertadores de 1962 e 1963, com vitórias épicas sobre Peñarol-URU e Boca Juniors-ARG  – este derrotado em plena La Bombonera, que na verdade se tremeu toda ao ver você por ali, não é mesmo?

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E em 1962 você venceu outra Copa do Mundo mesmo não jogando em todos os jogos após sofrer uma lesão – o Mané cuidou do resto…

Mas você queria um título mundial com o Santos. E, em 1962, derrotou o Benfica em pleno Estádio da Luz com uma goleada por 5 a 2, naquele que é o maior jogo da história do Santos FC, com três gols seus e ofuscando totalmente um tal de Eusébio

 

No ano seguinte, outro Mundial, conquistado após embates duríssimos contra o Milan, que bateu adoidado em você no primeiro jogo, em Milão, e ainda sim você marcou dois gols, lembra?

A partir de 1964, o Brasil ficou pequeno para você e seu Santos. Começaram as excursões, os amistosos, e sua fama foi crescendo. Em 1966, na Copa do Mundo da Inglaterra, você virou o alvo de todos os rivais do Brasil. E foi o atleta mais caçado em um Mundial na história. Mesmo sendo forte, rápido e esguio, o que fizeram com você foi covardia total. E o Brasil caiu já na primeira fase. Foi um momento difícil. Você até pensou em abandonar a seleção, lembra? Ufa, ainda bem que a ideia estapafúrdia foi esquecida!

Em 1969, você conquistou duas marcas incríveis. A primeira foi ter parado duas guerras na África em excursões do Santos. O primeiro cessar fogo aconteceu na Guerra do Congo Belga entre as forças Kinshasa e Brazzaville, para que as cidades pudessem assistir aos jogos do Peixe. Outro conflito paralisado por conta do Santos foi a Guerra de Biafra, na Nigéria.

Foi também o ano do gol 1000, aquele contra o Vasco, de pênalti, no Maracanã, na primeira vez em que você tremeu (poxa, se você tremeu, imagine um ser mortal? Sairia correndo para o túnel do Maraca!). A bola foi parar no fundo do gol, a apoteose tomou conta do gramado e você dedicou o tento a todas as crianças pobres e carentes do Brasil.

Em 1970, você viajou para o México para disputar sua última Copa do Mundo. E tratou de fazer dela a sua Copa.

Você quase fez gol de meio de campo. Mas deixou o seu na estreia contra a Tchecoslováquia.

Você cabeceou uma bola letal contra o goleiro Gordon Banks e este defendeu, na Defesa do Século – que, vamos combinar, teve esse peso não só pela dificuldade do lance, mas porque foi você quem cabeceou…

Você deu um passe sensacional para Jairzinho fazer o gol da vitória naquele mesmo jogo angustiante contra a Inglaterra.

Você marcou dois gols contra a Romênia no último jogo da fase de grupos.

Você foi garçom mais uma vez ao dar um passe para Tostão em um dos gols da vitória por 4 a 2 sobre o Peru de Cubillas, nas quartas de final.

Nas semifinais, contra o fantasma do Uruguai, você não marcou gol, mas protagonizou dois lances épicos: o chute de bate-pronto e o posterior drible de corpo sensacional sobre o goleiro Mazurkiewicz, jogada que só não terminou em gol por causa de um tufo de grama que resvalou na bola!

E, na final contra a Itália, você subiu mais do que todos os rivais para abrir o placar e deu o passe para o chute de Carlos Alberto Torres que selou o gol coletivo mais bonito da história das Copas, fechando a goleada de 4 a 1, do tri, da posse definitiva da Taça Jules Rimet.

Um ano depois, você se despediu da seleção em um Maracanã lotado aos pedidos de “fica, fica”. Mesmo com a coroa de Rei, você sabia que era hora de dizer adeus. Quatro Copas disputadas e três títulos, não precisava de mais.

Em 1974, foi a vez de se despedir do Santos depois de 18 anos, seis meses e 26 dias. Você se ajoelhou no gramado da Vila, agradeceu, chorou e questionou se “iriam te esquecer”…

 

Em 1975, você foi jogar nos EUA e ajudou a popularizar o futebol por lá vestindo a camisa do New York Cosmos. Mesmo com 35 anos, os zagueiros tiveram muito trabalho para pará-lo, afinal, você tinha um físico invejável, melhor do que muito garotão na época.

Como não poderia deixar de ser, você faturou um troféu por lá, em 1977, seu último ano como jogador profissional.

Sua despedida foi em um amistoso contra o Santos, claro, e você jogou um tempo por cada equipe – o jogo foi 2 a 1 para o Cosmos, com um dos gols do time estadunidense anotado por você, de falta.

Lembra que você perguntou se iriam te esquecer? Bem, no começo dos anos 1980, você foi eleito o Atleta do Século.

Em 1990, em seu aniversário de 50 anos, o San Siro, em Milão, foi palco de sua partida de aniversário.

Johan Cruyff, lenda holandesa, disse que você foi o “único jogador que superou as barreiras da lógica”.

Andy Warhol, cineasta americano, disse que você contrariou a teoria dele dos “15 minutos de fama, que você terá 15 séculos de fama”.

Você ganhou todos os prêmios possíveis de melhor jogador do século XX.

Inclusive fez a revista France Football revisar sua premiação do Ballon d’Or, em 2015, e lhe conceder 7 prêmios, além do prêmio de honra Ballon d’Or Prix d’Honneur, no final de 2013.

Photo: PATRICK SEEGER/dpa

 

Você foi selo postal, capa de milhares de revistas e tem um museu próprio.

Você é talvez a personalidade mais famosa do planeta há décadas.

Você é o único que conquistou três Copas do Mundo como jogador.

Você virou sinônimo de futebol.

Você é o maior artilheiro da história da seleção brasileira, do Santos e do futebol.

Você fazia a bola pesada dos anos 1950 e 1960 parecer a hiper leve do século XXI.

Vários ousaram tirar seu posto de Rei, mas nenhum conseguiu. Nem os craques deste século alcançaram o que você alcançou.

Por isso que jamais haverá alguém como você, Rei.

Obrigado por ter nascido e nos brindado com sua arte, Rei.

E parabéns pelos seus 80 anos de vida.

Saúde, prosperidade e luz.

Você é o Imortal dos imortais aqui do Imortais, hoje e sempre.

 

23 de outubro de 2020

#Pelé80Anos

 

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2 thoughts on “Ao Rei, com carinho

  1. Sem comentários. Melhor conteúdo que já vi sobre os 80 anos do Pelé.

    Em um tempo onde qualquer evocação ao passado é vista como “saudosismo”, você soube mostrar como o legado do Rei é atemporal.

    Se com todas as facilidades, os dois monstros não conseguiram superar o Rei, quem mais vai conseguir?

    Obrigado, Guilherme. Obrigado, Pelé.

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