O jogador que nunca jogou


 

Na literatura e no cinema existem inúmeras histórias de grandes mentirosos que realizaram façanhas inimagináveis. Pessoas que se passaram por médicos, famosos e até pilotos de avião. Nos esportes não é diferente. Um brasileiro fez algo que nos jogos de hoje seria impossível. Simplesmente fingindo e inventando histórias, Carlos Henrique Raposo conseguiu viver 20 anos do futebol profissional sem mesmo chutar uma bola…

 

O maior malandro do futebol mundial

Carlos Henrique Raposo nasceu no Rio Grande do Sul, em 1963, e sempre sonhou em ser famoso. Queria viver viajando, ser entrevistado e amado pelo público. E percebeu que uma das profissões que oferecia isso e muito mais era o futebol. Foi assim que Raposo decidiu se tornar jogador profissional sem saber direito como chutar uma bola.

Após chegar ao Rio de Janeiro ainda garoto e frequentar as categorias de base do Botafogo e do Flamengo, o jogador (?) foi seguindo de clube em clube sempre escapando das partidas graças às suas amizades com grandes nomes do futebol (Carlos Alberto Torres, Ricardo Rocha, Renato Gaúcho, Romário, Edmundo, Gaúcho…) e sua pinta de atleta. Ele normalmente assinava contratos de risco, curtos, de três meses, recebia as luvas e ficava no clube durante esse período. “É um amigo nosso, uma ótima pessoa, um ser humano extraordinário. Mas não jogava nem baralho. O problema dele era a bola (risos). Nunca vi ele jogar em lugar nenhum. É um Forrest Gump do futebol brasileiro. Conta história, mas às 16h da tarde, num domingo, no Maracanã, nunca jogou. Tenho certeza”, comentou o ex-zagueiro Ricardo Rocha, em entrevista ao globoesporte.com, em 08 de maio de 2011. Outra tática de Raposo era dizer que estava fora de forma e ficava duas semanas só treinando e correndo em volta do gramado. Quando chegava a hora de jogar, aí ele arrumava uma desculpa.

 

“Eu mandava alguém levantar a bola pra mim e errava a bola. Aí sentia o posterior da coxa, ficava 20 dias no departamento médico. Não tinha ressonância (magnética) na época. E quando a coisa ficava pesada para o meu lado, tinha um dentista amigo meu que dava um atestado de que era foco dentário. E assim ia levando”.Carlos Henrique Raposo, em entrevista ao globoesporte.com, 08 de maio de 2011.

 

Em 1986, por exemplo, Raposo foi a um bar onde conheceu Maurício de Oliveira Anastácio, do Botafogo. Graças à sua carismática forma de falar, Raposo conseguiu convencer o jogador à ajudá-lo a entrar no alvinegro novamente. Para isso, o “rei do migué” elaborou um currículo falso onde dizia ter jogado no importante clube argentino Independiente, que havia sido campeão da Copa Libertadores dois anos antes. No Independiente de fato jogava um Carlos Enrique (sem o H), coincidência que o ajudou. Também conseguiu o apelido “Kaiser”, graças a sua semelhança com o mítico Franz Beckenbauer.

Mas as mentiras não eram suficientes. Para não levantar suspeitas, Carlos precisava mudar de time com frequência. Renato Gaúcho, um de seus muitos amigos, o levou para o Flamengo. Lá, além de usar seu carisma e fingir seus machucados, ele também levava um telefone de brinquedo com o qual fingia negociar constantemente com times europeus (!).

Provavelmente nem ele mesmo imaginou que iria chegar tão longe. Assim que terminou seu contrato com o Flamengo, Carlos Kaiser teve seu primeiro salto internacional, agora indo jogar (?) no Puebla, do México. Depois, passou pelo El Paso, dos EUA, Gazélec Ajaccio, da França, e também por Fluminense, Vasco, América e Bangu.

Foi no alvirrubro de Moça Bonita onde ele quase foi desmascarado. Em 1989, poucos minutos antes de começar um jogo, o presidente Castor de Andrade exigiu a escalação de Raposo na partida. O então técnico Moisés chamou o atacante, que ficou no banco. Com a bola rolando e o Bangu perdendo por 2 a 0, alguns torcedores estavam insultando o presidente alvirrubro. Enquanto se aquecia para entrar, Raposo decidiu partir pra cima dos torcedores, arrumou briga e foi expulso. Nos vestiários, quando o presidente pediu explicações, se defendeu dizendo que não ia permitir que insultasse seu “segundo pai”, ganhando de vez a simpatia de Castor de Andrade e uma renovação de contrato de seis meses (!).

Algo extraordinário aconteceu também na França, onde o Kaiser teve que fazer um treinamento diante do público. Nervoso e com medo de ser descoberto, o brasileiro decidiu chutar bolas para os torcedores, beijando a camiseta e acenando para os torcedores, que ficaram enlouquecidos. Ele presenteou a torcida com 50 bolas e garantiu mais um dia de tranquilidade.

A história de Carlos Henrique Raposo virou até documentário, em 2018, dirigido por Louis Myles, produtor da BBC britânica, com o nome de “Kaiser: The Greatest Footballer Never to Play Football” – (Kaiser: o Grande Jogador de Futebol que Nunca Jogou Futebol), bastante elogiado e bem recebido pelo público e crítica na época.

Raposo anunciou sua “aposentadoria” aos 41 anos sem nunca ter jogado um jogo. Hoje, aos 57 anos, ganha a vida como personal trainer, mas todos o conhecem como o maior malandro do futebol mundial.

2 thoughts on “O jogador que nunca jogou

  1. PROTESTO! Exijo que o título deste artigo seja mudado para “Craque Imortal – Carlos Henrique Kaiser”!

    hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha

    Agora falando sério, não deixa de ser um feito notável ter conseguido ficar sem fazer nada em clubes de alto nível, sendo que o menor desses era uma Bangu que não faz muito tempo que tinha sido vice-campeão brasileiro.

    Achei muito interessante uma entrevista que ele deu, salvo engano, pro Esporte Espetacular, que ele fazia isso pra “vingar” os jogadores, por causa das restrições da época.

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