Esquadrão Imortal – Rangers 1963-1972

Em pé: William Waddell, Jock Wallace, Colin Stein, Alfie Conn Jr., Derek Johnstone, Peter McCloy, David Smith, Sandy Jardine, Willie Mathieson e o fisioterapeuta Tom Craig. Agachados: Tommy McLean, John Greig, Alex MacDonald e Willie Johnston.

 

Grandes feitos: Campeão da Recopa da UEFA (1971-1972), Campeão do Campeonato Escocês (1963-1964), Bicampeão da Copa da Escócia (1963-1964 e 1965-1966), Tricampeão da Copa da Liga Escocesa (1963-1964, 1964-1965 e 1970-1971), Vice-campeão da Recopa da UEFA (1966-1967) e Vice-campeão da Supercopa Europeia (1972). Conquistou o primeiro – e até hoje único – título continental da história do clube.

Time-base: Peter McCloy (Billy Ritchie / Norrie Martin); Sandy Jardine (Bobby Shearer / Eric Caldow / Kai Johansen), Derek Johnstone (Ronnie McKinnon), John Greig (Alex Miller) e Willie Mathieson (Jim Baxter / David Provan); Alex MacDonald (Andy Penman), Alfie Conn Jr. (Örjan Persson), Tommy McLean (Alex Willoughby / Willie Henderson) e David Smith (Ralph Brand); Colin Stein (Alex Smith / George McLean / Alex Ferguson / Derek Parlane) e Willie Johnston (Jimmy Millar / Jim Forrest). Técnicos: Scot Symon (1963-1967), David White (1967-1969) e William Waddell (1969-1972).

 

“Rangers of Europe”

 

Por Guilherme Diniz

 

Os noticiários futebolísticos em Glasgow causavam muita amargura nos fanáticos do Rangers FC naquela segunda metade dos anos 1960. A hegemonia do Celtic na Escócia havia alcançado um patamar impressionante com o domínio também da Europa, na épica conquista da Liga dos Campeões da UEFA de 1966-1967 diante da Internazionale. O jornal Daily Mail (Reino Unido) até chegou a proclamar na época que “o Rangers está sendo deixado tão para trás que nem é mais uma corrida”. Para piorar, quando a equipe azul tinha a chance de levantar um caneco, perdia. Primeiro, na final da Recopa da UEFA de 1961, no revés para a Fiorentina de Julinho Botelho. Depois, para o Bayern, em 1967. Até que tudo começou a mudar quando um filho da casa, William Waddell, assumiu o comando técnico para impor aos jogadores o que significava ser um ranger. Vestir a lendária camisa do recordista em títulos nacionais do país. E, a partir de 1970, a equipe começou a mudar sua história com grandes jogos, vitórias sobre o rival e a tão sonhada glória em um torneio continental, na Recopa de 1971-1972, com vitória sobre os temidos soviéticos do Dínamo de Moscou no embalo da fanática torcida, que promoveu um notável êxodo da Escócia até Barcelona, palco da final, para empurrar o Rangers rumo ao troféu inédito, conquistado no ano do centenário do clube (!) e cuja campanha teve ainda uma vitória sobre o já fortíssimo Bayern de Beckenbauer, Gerd Müller e Sepp Maier na semifinal! É hora de relembrar.

 

Altos e baixos

 

Desde 1960 que o Rangers flertava com uma conquista europeia para sua imensa galeria de troféus. O sonho começou na edição de 1959-1960 da Liga dos Campeões da UEFA, quando os escoceses alcançaram as semifinais da competição, mas foram literalmente amassados pelo Eintracht Frankfurt-ALE por 6 a 1 no duelo de ida e 6 a 3 no duelo de volta, um pirotécnico placar agregado de 12 a 4 – os alemães acabaram com o vice após derrota por 7 a 3 para o Real Madrid de Puskás e Di Stéfano. Na temporada 1960-1961, a equipe outra vez brigou por um troféu continental na primeira edição da Recopa da UEFA (também conhecida como Copa dos Vencedores de Copas). Os Gers chegaram à final com uma ótima campanha – batendo inclusive o Borussia Mönchengladbach-ALE por 3 a 0 e 8 a 0 nas quartas de final -, mas perderam para a lendária Fiorentina-ITA da época por 2 a 0, em casa, e 2 a 1, na Itália.

Os tropeços em competições internacionais contrastavam com o sucesso do time em casa, afinal, o Rangers venceu, entre 1955 e 1964, seis campeonatos nacionais, quatro Copas da Escócia e três Copas da Liga, com destaque para o treble doméstico na temporada 1963-1964, com brilho do artilheiro Jim Forrest, artilheiro implacável e cria das bases, autor de quatro gols nos 5 a 0 do Rangers sobre o Greenock Morton na final da Copa da Liga Escocesa daquela temporada, além de 39 gols no total. Mas aquela bonança começou a minguar quando o lendário técnico Jock Stein assumiu o comando técnico do rival Celtic em 1965 e construiu um time formado por jovens das categorias de base do clube e residentes inclusive nos arredores do Celtic Park, transformando os alviverdes de Glasgow em um dos maiores esquadrões da história do futebol europeu. Ele comandou a equipe entre 1965 e 1978 e faturou no período 10 Campeonatos Escoceses, oito Copas da Escócia, seis Copas da Liga e a Liga dos Campeões da UEFA de 1966-1967, temporada na qual os alviverdes venceram cinco títulos, um recorde no futebol britânico. Agora imagine um torcedor do Rangers tendo que ver toda aquela ascensão sem limites? Foi difícil, mas o clube azul não se deu por vencido.

Bobby Shearer carrega a taça da Copa da Escócia de 1964. Foto: Mirrorpix.

 

Após o treble doméstico em 1963-1964, o Rangers venceu, na temporada 1964-1965, a Copa da Liga Escocesa com vitória por 2 a 1 sobre o rival, diante de quase 92 mil pessoas em Hampden Park, com dois gols de Jim Forrest, que anotou impressionantes 57 gols naquela temporada, recorde em toda a história do futebol britânico. Na temporada 1965-1966, os Gers voltaram a atrapalhar a hegemonia nacional do rival e outro treble escocês do Celtic com uma vitória por 1 a 0 na decisão da Copa da Escócia, gol do defensor dinamarquês Kai Johansen. Na época seguinte, o Rangers voltou a disputar a Recopa da UEFA e tentou mais uma vez alcançar uma glória continental. Os escoceses passaram fácil pelo Glentoran-IRN (5 a 1 no agregado), pelo Borussia Dortmund-ALE (2 a 1 no agregado), pelo Real Zaragoza-ESP (2 a 2 no agregado e vitória na moedinha – sim, esse era um critério de classificação em competições da UEFA na época…) e Slavia Sofia-BUL (2 a 0 no agregado).

O prolífico goleador Jim Forrest.

 

Antes da final, porém, a equipe passou por um momento constrangedor. Na Copa da Escócia, o time de Glasgow perdeu por 1 a 0 para o modesto Berwick Rangers (que havia começado a disputar a primeira divisão apenas em 1955) e foi eliminado da competição logo na primeira fase, em uma das maiores zebras da história do futebol escocês. E um fato bizarro: após o jogo, o diretor do Berwick, Dr. James Sadler, e sua mulher, Elizabeth, sofreram um acidente de carro envolvendo eles e um automóvel com torcedores do Rangers (!). Felizmente, ninguém ficou gravemente ferido… O revés causou imenso rebuliço no clube e motivou a saída de nomes antes celebrados como Jim Forrest e George McLean e a ascensão ao time profissional de jovens como Sandy Jardine, além da contratação do atacante Alex Ferguson (sim, aquele mesmo, que seria técnico!) por 65 mil libras, valor recorde na época, do também atacante Colin Stein e do meio-campista Alex MacDonald – os reforços viriam apenas para a temporada seguinte.

Colin Stein, ótimo reforço do Rangers naquele fim de anos 1960.

 

De volta à Recopa, o Rangers teve pela frente na decisão o Bayern München-ALE, que disputava naquele ano de 1967 a primeira final europeia de sua história. Com jogadores como Sepp Maier, Beckenbauer, Franz Roth e Gerd Müller, o time bávaro já era bem forte e tinha a vantagem de jogar a decisão na Alemanha, no Städtisches Stadion (hoje conhecido como Max-Morlock-Stadion), em Nuremberg. Ambas as equipes focaram bastante no jogo defensivo e o placar não saiu do zero durante os 90 minutos, levando o duelo à prorrogação. Nela, Franz Roth superou o goleiro Norrie Martin e fez o gol do primeiro título europeu do clube de Munique. Pesou bastante o fato do goleador do Rangers, Jim Forrest, não ter jogado a decisão (ele já havia deixado o clube). Sem ele, o técnico Symon teve que escalar o reserva Roger Hynd (um zagueiro!) no ataque.

 

O capitão do Rangers, John Greig (à esquerda) cumprimenta o capitão do Bayern, Werner Olk.

 

O novo revés continental foi um grande desapontamento do Rangers naquela temporada, justo a do título europeu do rival Celtic. Embora as mudanças no elenco e contratações tenham sido sob o comando do técnico Scot Symon, a diretoria resolveu encerrar a trajetória de mais de uma década do escocês e David White, de apenas 34 anos, que fora nomeado assistente de Symon cinco meses antes, assumiu o time em novembro de 1967, com o Rangers na ponta da tabela do Campeonato Escocês de 1967-1968, liderança que foi conquistada graças aos compromissos do Celtic no Mundial Interclubes, contra o Racing-ARG

Ferguson pelo Rangers, em 1968!

 

White teve um ótimo começo e fez o Rangers vencer 19 dos 20 primeiros jogos do campeonato nacional. Ele só não conseguiu 100% por conta do empate em 2 a 2 com o rival Celtic em 02 de janeiro de 1968. Porém, quando todos achavam que o jejum de três temporadas sem títulos na Liga iria terminar, o Rangers perdeu em casa por 3 a 2 para o Aberdeen o último jogo da temporada e viu a liderança escapar para o Celtic, campeão com dois pontos de vantagem. Mesmo sem levantar troféus, o Rangers mostrou força ofensiva – foram 93 gols em 34 jogos – com as novas contratações, além de Alex Ferguson ser o artilheiro do time na temporada com 22 gols, sendo 17 no Campeonato Escocês.

Sandy Jardine, lenda do Rangers.

 

A temporada 1968-1969 começou promissora com uma goleada de 4 a 0 sobre o Celtic na 2ª rodada do campeonato, mas os Gers perderam três dos cinco jogos seguintes, além de outros cinco na reta final, e mais uma vez o título escapou. Na Copa das Cidades com Feiras (precursora da Copa da UEFA, atual Liga Europa), o Rangers chegou até as semifinais, mas foi eliminado pelo Newcastle United-ING após empate sem gols em casa e derrota por 2 a 0 fora. Na Copa da Liga, a equipe não avançou para a fase final, e, na Copa da Escócia, acabou sucumbindo diante do rival Celtic na decisão por 4 a 0, jogo com maior público da história de um Old Firm: 132.870 pessoas no Hampden Park! 

Naquele jogo, houve uma tensa discussão entre o técnico White e o atacante Alex Ferguson, pois o treinador acusou Ferguson de não marcar corretamente o zagueiro e capitão Billy McNeill no lance do primeiro gol dos alviverdes, logo aos 3’ do primeiro tempo. Acontece que foi uma falha de posicionamento que o próprio técnico poderia ter evitado, pois Ferguson não era o jogador indicado para marcar um jogador mais alto do que ele – McNeill tinha 1,87m, enquanto Ferguson tinha 1,80m. Aquele foi o último jogo de Ferguson pelo Rangers e White acabou demitido em novembro após a eliminação precoce do Rangers na Recopa da UEFA para o Górnik Zabrze-POL, com duas derrotas por 3 a 1. Além da falta de títulos e os resultados ruins, pesou também contra David White a desunião do elenco e a fragilidade do treinador em inspirar os atletas, além de ele não se entender bem com a imprensa e a diretoria. Era hora de mudança pelas bandas do Ibrox, caso contrário, a hegemonia do Celtic corria o risco de durar muito tempo…

 

A chegada de Waddell e o desastre de Ibrox

Waddell e Jock Wallace, nomes que mudariam para sempre a história do Rangers nos anos 1970.

 

Precisando de uma mudança urgente, o Rangers contratou para a sequência da temporada 1969-1970 o técnico William Waddell, ex-jogador do próprio Rangers e que era muito identificado com o clube de Glasgow. Waddell debutou nos Gers aos 15 anos e entrou no time profissional aos 17, jogando 201 partidas entre 1939 e 1955. Após pendurar as chuteiras, iniciou a carreira de treinador e comandou o histórico Kilmarnock campeão escocês de 1965, mas logo deixou o clube para virar jornalista do Daily Mail, sendo um crítico ferrenho do trabalho de seu predecessor, David White. Quando chegou em Ibrox, Waddell fez questão de impor em suas preleções o que era “ser um ranger”, a tradição e a história do soberano em títulos nacionais do país. 

Mas aquilo não vinha com cordialidade. Waddell criticava duramente quem não ia bem nos treinamentos e trabalhou para o gramado do Ibrox ser um dos melhores do mundo, justamente para a prática de um bom futebol. Quem também passou a fazer a diferença no cotidiano do clube foi Jock Wallace, auxiliar de Waddell e personagem essencial na parte física, exigindo um preparo exemplar de todos os atletas, tornando o Rangers um dos times mais bem condicionados do continente. Ele tinha métodos bem curiosos como esfregar as cabeças dos atletas em uma solução com destilado de whisky quente para estabelecer o “equilíbrio cósmico”, como ele dizia. Depois disso, uma ducha de água gelada terminava o trabalho pré-jogo. Nos treinamentos, Wallace costumava “matar” seus atletas com intensas subidas e descidas em barrancos de areia. Toda terça, ele ainda realizava uma corrida de 40 minutos, que começava com mais de 40 atletas no início da temporada e ao término tinha apenas cinco…

A primeira temporada completa sob o comando de Waddell rendeu ao Rangers um troféu: a Copa da Liga Escocesa sobre o rival Celtic, conquista que encerrou uma sequência de cinco títulos seguidos dos alviverdes. Na decisão, em outubro de 1970, um garoto de 16 anos fez o gol do título dos Rangers: Derek Johnstone, o mais jovem a marcar um gol em uma final de copa no futebol britânico. Polivalente, Johnstone podia jogar tanto no ataque quanto na defesa e seria um dos coringas do técnico Waddell naquela nova fase e nas variações táticas que o treinador costumava fazer. Além disso, Colin Stein se consolidou ainda mais como goleador do time, seguido do meia Alfie Conn Jr. Os Gers ainda tentaram o título da Copa da Escócia, mas perderam para o Celtic na final após empate em 1 a 1 e derrota por 2 a 1 no replay. No Campeonato Escocês, o Rangers terminou apenas na 4ª colocação. 

A fatídica escadaria do Ibrox.

 

Mas aquela temporada ficou marcada pela tragédia ocorrida no dia 02 de janeiro de 1971, no antigo e tradicional Old Firm do Ano Novo (que era disputado sempre no dia 1º ou 2º de janeiro), quando 66 pessoas morreram nas escadarias de número 13 do estádio Ibrox. Relatos dizem que uma criança caiu dos ombros de seu pai e isso desencadeou um efeito dominó, o que culminou na tragédia. O pior é que tal escada já havia sido motivo de alerta das autoridades de segurança desde 1963, mas nada foi feito até o fatídico 02 de janeiro de 1971. Como consequência, o Rangers teve que fazer uma profunda reformulação em seu estádio, liderada inclusive pelo técnico Waddell, que visitou o Westfalenstadion, casa do Borussia Dortmund, como inspiração para as melhorias estruturais das arquibancadas e entradas. As obras durariam três anos e puderam ser feitas sem atrapalhar o uso do Ibrox pelo Rangers no período. Waddell foi importante, também, no apoio aos familiares das vítimas e no trabalho emocional aos jogadores para a temporada 1971-1972.

Existe um memorial em homenagem às vítimas no Ibrox…

 

… E uma estátua com o capitão John Greig.

 

Foco na Europa

O Rangers se viu na obrigação de dar uma alegria ao seu torcedor na temporada 1971-1972 para tentar um alento no drama vivido na época anterior, afinal, o ano de 1972 iria marcar o centenário do clube, fundado em março de 1872 (!). E, com vaga garantida na Recopa da UEFA, o clube de Glasgow buscaria o troféu que teimava em escapar de suas mãos. O primeiro adversário foi o Rennes-FRA, fora de casa. Com uma tática baseada em anular as jogadas do rival e dificultar a saída de bola, com Willie Johnston e Colin Stein pressionando os zagueiros, e o trio Jardine, Alex MacDonald e Mathieson anulando os pontas, o Rangers arrancou um empate em 1 a 1 e deixou o técnico do Rennes furioso, que disse que os escoceses “vieram aqui para praticar o anti-futebol”. Ele salientou ainda que seu time iria até Glasgow para mostrar “como o futebol é jogado”, mas a equipe francesa não cumpriu com as palavras de seu treinador e perdeu por 1 a 0, com o gol do Rangers anotado por Alex MacDonald.

Derek Johnstone, uma das gratas revelações do time naqueles anos 1970.

 

Nas oitavas de final, a equipe de Glasgow teve pela frente um dos favoritos ao título: o Sporting-POR, do artilheiro Yazalde. No primeiro jogo, em casa, o Rangers fez um primeiro tempo fantástico e abriu 3 a 0, com dois gols de Colin Stein e um de Henderson. Mas, na segunda etapa, Chico Faria e Wágner diminuíram para os lusitanos e mantiveram a disputa aberta para a volta, em Lisboa. A viagem do Rangers até Portugal foi bastante conturbada, pois uma greve de funcionários no aeroporto de Londres fez com que um trajeto de poucas horas durasse um dia e meio (!), com a delegação escocesa chegando em solo português menos de 24h antes da partida. 

Alfie Conn Jr. (à dir.) e Alex MacDonald (à esq.) discutem com Pedro Gomes, do Sporting. Foto: SNS Group / Alamy Stock Photo.

 

Enfim, já em campo, o Rangers teve trabalho para conter as investidas dos portugueses – inflados por quase 60 mil torcedores no José Alvalade – e terminou a primeira etapa perdendo por 2 a 1. No primeiro minuto do segundo tempo, Colin Stein empatou, mas Ronnie McKinnon sofreu uma grave fratura na perna, desfalcou o time e acabou dificultando as coisas para os escoceses, que sofreram o terceiro gol. Com 3 a 2 no placar, o jogo acabou indo para a prorrogação. Nela, Henderson fez o gol de empate, e, como valia o critério de gol fora, o Sporting teria que marcar mais dois gols. Fernando Peres fez 4 a 3, mas o jogo terminou sem novas alterações no placar.

O 6 a 6 no agregado dava a vaga ao Rangers pelo critério do gol marcado fora, mas sabe o que aconteceu? O árbitro holandês Laurens van Ravens fez o jogo ser decidido nos pênaltis! Isso mesmo! Ele se esqueceu (!) totalmente da regra do gol fora e ordenou os times a cobrarem cinco pênaltis cada, com a torcida do Sporting invadindo o gramado e ficando bem próxima ao gol. Intimidados, os escoceses acabaram errando três cobranças e convertendo apenas uma, enquanto o Sporting fez quatro gols. A torcida portuguesa fez a festa e o goleiro Damas foi carregado pelos torcedores.

Colin Stein marca um dos gols do jogo em Lisboa.

 

Mas aquilo não estava certo e o técnico do Rangers, William Waddell, foi falar com o oficial da UEFA Senor Ramirez para mostrá-lo no livro de regras do torneio o critério esquecido pelo árbitro. Após algum tempo, com os jogadores do Rangers já nos vestiários e bastante cabisbaixos, certos de que estavam eliminados, a comissão da UEFA corrigiu o erro e o Rangers conseguiu a vaga que lhe era de direito em uma das mais bizarras partidas da história do futebol europeu!

Nas quartas de final, a equipe teve pela frente o então líder do Campeonato Italiano, o Torino. Na primeira partida, em Turim, Johnston abriu o placar para o Rangers com um lindo voleio, após cruzamento de Mathieson. Com a ótima vantagem fora de casa, o técnico Waddell fez seu time jogar na defensiva, no mais puro catenaccio – ou, na linguagem escocesa, McCatenaccio -, recuando Derek Johnstone para a zaga ao lado de Colin Jackson, e Dave Smith atuando como líbero. Mesmo sofrendo o gol de empate na metade do segundo tempo, o Rangers segurou as investidas dos italianos e voltou à Escócia com um bom empate na bagagem. No Ibrox, mais de 75 mil fanáticos empurraram os Gers à vitória por 1 a 0, gol de MacDonald, resultado que garantiu o time de Glasgow em mais uma semifinal. Só que o adversário seguinte era gigantesco: o Bayern München-ALE de Maier, Beckenbauer, Paul Breitner, Gerd Müller e companhia nada limitada…

 

O épico e a glória

Beckenbauer e Greig antes do primeiro jogo.

 

A campanha do Rangers naquela Recopa da UEFA já era recheada de desafios e percalços que pareciam conspirar contra os escoceses. E a definição do Bayern como adversário na semifinal foi mais uma enorme pedra naquele caminho. Se algo podia ser mais difícil, mais complicado, sempre pendia para o lado da trupe de Waddell. Mas, se eles queriam a glória inédita, era necessário bater aquele algoz de 1967, que estava ainda mais forte em 1972, servindo como base da seleção da Alemanha campeã da Eurocopa daquele ano e que seria campeã do mundo em 1974. A primeira partida foi disputada em Munique e Paul Breitner abriu o placar para os alemães logo aos 21’ da etapa inicial. Mas o Rangers não se abateu, e, com os atletas esbanjando preparo físico, conseguiu equilibrar as coisas, botou os alemães para correr e empatou graças a um gol contra de Zobel, após boa jogada de Colin Stein.

 

Precisando de uma simples vitória para disputar a final, o Rangers foi com tudo para a volta e 80 mil torcedores criaram um verdadeiro caldeirão no Ibrox, em uma atmosfera épica. E, com apenas um minuto de jogo, o ídolo Sandy Jardine acertou um lindo chute de fora da área que surpreendeu o goleirão Sepp Maier e colocou o Rangers na frente: 1 a 0.

Mesmo sem o capitão John Greig, o time da casa conseguiu neutralizar as principais jogadas do Bayern com um ótimo sistema de marcação, com o garoto Derek Parlane marcando Franz Roth no meio de campo como se fosse um veterano. Além de marcar bem um dos principais articuladores do time alemão, o garoto anotou o segundo gol do jogo, aos 22’, pegando de primeira na bola após cobrança de escanteio.

Parlane celebra o segundo gol.

 

Com nova atuação fantástica de Dave Smith como líbero, o Rangers manteve o 2 a 0 intacto, e, com autoridade, venceu os temidos alemães, garantindo uma vaga na final. Ao término da partida, Beckenbauer reconheceu o grande jogo do Rangers e disse que o time escocês “certamente iria vencer a final”. A vitória encheu de orgulho a fanática torcida, e, claro, os jogadores, que provaram o amadurecimento daquele elenco e o ótimo trabalho da dupla Waddell / Wallace, que mantinha a chance do clube vencer um troféu no ano de seu centenário. Restava apenas um jogo para a consagração: a finalíssima, no Camp Nou, em Barcelona, contra os soviéticos do Dínamo de Moscou, que haviam passado por um caminho bem mais tranquilo do que o Rangers com triunfos sobre Olympiacos-GRE, Eskişehirspor-TUR, Estrela Vermelha-IUG e Dynamo de Berlim-ALE.

Era a primeira vez que um time da URSS chegava a uma final europeia, por isso, o clube de Moscou viajou com enorme responsabilidade e pressão do Partido Comunista, que se reuniu com os jogadores para expor os “discursos de superioridade” e necessidade de vitória em um território hostil a eles, a Espanha, na época comandada pelo ditador Francisco Franco e terra da tensa final da Eurocopa de 1964 entre espanhóis e soviéticos, vencida pela Fúria na época. Por isso, foi montado um intenso policiamento para evitar possíveis confrontos entre espanhóis e soviéticos, algo que acabou gerando mais assunto e debate na mídia do que a própria final.

O time campeão da Europa: força do meio de campo e apoio dos laterais no ataque eram os diferenciais do esquadrão escocês.

 

Do lado escocês, cerca de 16 mil torcedores do Rangers foram de todas as maneiras até Barcelona para a final a fim de apoiar o time em busca da inédita glória continental. Foram 110 voos fretados, 203 ônibus e vários indo por conta própria – por outro lado, apenas 400 torcedores do Dínamo viajaram até Barcelona. Para evitar problemas, a delegação do Rangers ficou a uma distância de 15 milhas do estádio, evitou ir às praias de Barcelona e trouxe sua própria comida, em um clima bastante tranquilo e útil ao bem-estar dos atletas.

Johnston celebra um de seus gols na decisão. Foto: Colorsport / Rex Photograph.

 

No dia do jogo, o Camp Nou não estava cheio – foram quase 25 mil torcedores – mas o barulho da torcida do Rangers tomou conta do estádio e levou um pouco do Ibrox à Catalunha. Como não poderia deixar de ser, vários torcedores entraram já embriagados (!) e foram um problema constante à polícia, invadindo o gramado e causando confusões. Bem, com a bola rolando, o Rangers foi mais uma vez dominante e abriu o placar com o artilheiro Colin Stein, aos 23’, após belo passe de Dave Smith. O segundo gol saiu aos 40’, com Johnston, de cabeça, após outro passe de Dave Smith – mais uma vez fazendo um partidaça. No início da segunda etapa, Johnston fez mais um após chute longo do goleiro McCloy e abriu 3 a 0. 

Colin Stein mais uma vez deixou sua marca em um jogo decisivo.

 

O título já era quase uma realidade! “Quase” porque o Dínamo assustou bastante com os gols de Eshtrekov, aos 15’, e Makhovikov, aos 42’, gerando um 3 a 2 angustiante nos minutos finais. Mas, quando o árbitro apitou o final da partida, enfim, a torcida do Rangers pôde celebrar o título inédito e histórico da Recopa da UEFA. O gramado do Camp Nou foi totalmente invadido pelos fãs ensandecidos e a entrega do troféu teve que ser feita nos vestiários tamanha falta de meios seguros para a celebração no gramado! Aquela festa toda tinha justificativa, afinal, o Rangers celebrava uma glória histórica praticamente um ano depois do desastre de Ibrox e após anos e mais anos de títulos do rival e de tropeços na própria Recopa.

 

Fãs invadiram o gramado e fizeram uma enorme festa! Foto: Colorsport / Rex.

 

Colin Stein ergue a taça!

 

Derrotados, os soviéticos tentaram remarcar a partida por conta da invasão da torcida do Rangers, mas o pedido não foi acatado pela UEFA, que por outro lado suspendeu o Rangers por dois anos de suas competições e impediu o time de defender o título na Recopa seguinte. Mas ninguém ligou, afinal, o Rangers era campeão da Europa justamente no ano de seu centenário. Não havia aniversário de 100 anos melhor do que aquele celebrado em 24 de maio de 1972.

 

Revés na primeira Supercopa e o fim

Greig e Cruyff na final da Supercopa. Foto: Bert Verhoeff / Anefo.

 

Em janeiro de 1973, o Rangers foi protagonista da primeira edição da Supercopa da Europa. O novo torneio partiu de uma ideia do jornal esportivo holandês De Telegraaf, que aproveitou a hegemonia dos clubes de seu país – vitoriosos nas últimas três edições da Liga dos Campeões da UEFA, com o Feyenoord, em 1970, e o Ajax, em 1971 e 1972 – e propôs à UEFA um jogo entre o campeão da Liga contra o campeão da Recopa para saber qual era o melhor clube do continente. Por conta da suspensão sofrida pelo Rangers, a UEFA não permitiu a participação dos escoceses naquela edição inaugural, mas o De Telegraaf foi insistente e quis realizar o torneio naquele mês, algo que tirou o aval da UEFA, mas seguiu como sendo parte das “comemorações do Centenário do Rangers”. 

Embora tivesse a mesma base campeã da Recopa, o Rangers acabou não sendo páreo para o formidável esquadrão do Ajax, que tinha na época lendas como Cruyff, Neeskens, Krol, Arie Haan, Rep, Suurbier entre outros. No primeiro jogo, em Glasgow, o Ajax venceu por 3 a 1, gols de Cruyff, Haan e Rep. Na volta, em Amsterdã, o Rangers chegou a abrir 2 a 1, mas os holandeses viraram para 3 a 2, com Gerrie Mühren e Cruyff, e ficaram com o título. 

O Rangers venceu a Copa da Escócia da temporada 1972-1973 com vitória por 3 a 2 sobre o rival Celtic já sob o comando de Jock Wallace, pois William Waddell passou a trabalhar mais nos bastidores do clube e na reconstrução do Ibrox. Mesmo com a troca de comando, o time seguiu forte e conseguiu retomar o caminho das grandes glórias nacionais a partir da temporada 1974-1975, quando venceu o título do Campeonato Escocês, feito repetido em 1975-1976 e 1977-1978, estas duas últimas temporadas com direito a dois trebles nacionais. 

No entanto, o clube de Glasgow nunca mais conseguiu um novo título europeu e o máximo que chegou perto foi em 2008, com o vice-campeonato da Copa da UEFA. A torcida segue sob as lembranças do time campeão continental em 1972 e espera por novos tempos de glórias nessa década de 2020, que começou com bons fluídos após o título escocês de 2020-2021, o primeiro após uma década de jejum e sob o comando do técnico Steven Gerrard, especialista em missões impossíveis e grandes reviravoltas em seus tempos de Liverpool. Se depender dele e da mística torcida dos Gers, podemos ver em breve novos Rangers of Europe

 

Os personagens:

Peter McCloy: esguio e com muita velocidade, o goleiro foi titular do Rangers por 16 anos e um dos grandes símbolos do clube entre 1970 e 1986. Embora tenha sofrido bastante concorrência nesse período, foi a primeira escolha dos técnicos do Rangers e titular na histórica campanha do título europeu de 1972. Foram 11 títulos com a camisa dos Gers e 535 jogos pelo clube.

Billy Ritchie: chegou ao Rangers em 1955 e ficou até 1967, sendo um dos principais nomes da equipe que chegou perto da glória na Liga dos Campeões da UEFA de 1959-1960 e da Recopa de 1961. Notável por suas defesas à queima-roupa, Ritchie disputou 339 jogos com a camisa dos Gers na carreira. Uma curiosidade é que Ritchie jogava como ponta-esquerda no começo de carreira e, certa vez, foi goleiro em um jogo festivo de casados vs solteiros. A partir dali, virou goleiro!

Norrie Martin: foram 12 anos de Rangers, mas a maioria deles na reserva ou no departamento médico por causa das muitas lesões que sofreu. Seu melhor período foi entre 1966 e 1968, quando atuou em vários jogos decisivos, muitos na campanha do vice-campeonato da Recopa da UEFA de 1966-1967. Martin disputou apenas 110 jogos pelo Rangers entre 1958 e 1970.

Sandy Jardine: um dos maiores ídolos da história do Rangers, Sandy Jardine jogou de 1966 até 1982 no clube de Glasgow e foi um símbolo daquela era de reconstrução e glórias do clube azul. Capaz de atuar no meio de campo, na zaga e na lateral-direita, Jardine tinha um ótimo senso de colocação, fôlego privilegiado e disparava poderosos chutes de fora da área, além de dar passes precisos aos companheiros em suas investidas ao ataque. O defensor tinha um preparo físico tão bom que chegou a disputar 171 jogos seguidos pelo Rangers entre abril de 1972 e agosto de 1975. Foram 674 jogos (ele é o 2º com mais partidas na história do clube), 77 gols e 14 títulos conquistados com a camisa dos Gers na carreira, além de 38 jogos, um gol e duas Copas do Mundo – 1974 e 1978 – disputadas pela seleção da Escócia. Foi dele o golaço que abriu o placar na histórica vitória por 2 a 0 sobre o Bayern na semifinal da Recopa da UEFA de 1971-1972. Em 2014, ano do falecimento de Jardine (vítima de câncer), o Rangers renomeou as arquibancadas do lado norte (Govan Stand) do Ibrox com o nome Sandy Jardine Stand.

Bobby Shearer: antes de Sandy Jardine se consagrar na lateral-direita do Rangers, Bobby Shearer foi o soberano no setor entre 1955 e 1965. Forte na marcação e no apoio ao meio de campo, brilhou naquele período de glórias nacionais e disputou 423 jogos pelos Gers, sendo 165 seguidos!

Eric Caldow: lateral-direito que atuou de 1952 até 1966 no Rangers, Caldow foi um dos mais regulares defensores do time no período e marcou época nas aventuras do clube pela Europa e também na hegemonia nacional do começo dos anos 1960. Caldow jogou a Copa de 1958 pela Escócia e foi o batedor de pênaltis oficial do Rangers no começo dos anos 1960. Foram 407 jogos e 25 gols pelos Gers.

Kai Johansen: após iniciar a carreira como atacante e não conseguir sucesso, o dinamarquês migrou para a lateral-direita e encontrou sua vocação naquele final de anos 1950. Após se destacar no Odense, o jogador foi para o futebol escocês em 1963 e defendeu o Greenock Morton por dois anos até chamar a atenção do técnico Scot Symon, que levou o lateral para o Ibrox por 20 mil libras. Com a camisa azul, Johansen foi um dos mais utilizados pelo treinador e herói do título da Copa da Escócia de 1965-1966, quando marcou de fora da área o gol do título na vitória por 1 a 0 sobre o rival Celtic. Johansen disputou 238 jogos e marcou nove gols pelo Rangers. 

Derek Johnstone: foi sem dúvida alguma um dos mais versáteis, talentosos e inteligentes jogadores da história do futebol escocês nos anos 1970 e 1980 e um símbolo do Rangers por 13 anos (1970 até 1983), além de uma curta passagem entre 1985 e 1986. Johnstone podia atuar como atacante, meio-campista e zagueiro com muita categoria, técnica e faro de gol apurado. Prodígio das categorias de base, estreou com apenas 16 anos e marcou logo dois gols em uma vitória de seu time por 5 a 0 sobre o Cowdenbeath, em 19 de setembro de 1970. O técnico Waddell percebeu o talento do jovem e passou a escalá-lo regularmente, ficando impressionado com a capacidade técnica do jogador e sua polivalência. Na conquista da Recopa da UEFA, por exemplo, Johnstone atuou como zagueiro na vitória sobre o Dínamo de Moscou e foi um coringa fundamental para os vários jogos do time na época – isso com apenas 18 anos! Após a saída do artilheiro Colin Stein, o jovem conseguiu mais espaço na frente e foi um dos principais artilheiros do clube nas conquistas que vieram após 1975. Johnstone disputou 546 jogos e marcou 210 gols pelo Rangers. Ele é o 5º maior artilheiro da história do clube.

Ronnie McKinnon: defensor com boa habilidade na saída de bola graças ao seu início de carreira como ponta, McKinnon jogou no Rangers por 12 anos e foi titular em boa parte dos jogos da equipe no período. Sua trajetória nos Gers acabou de maneira abrupta no segundo duelo contra o Sporting, pela Recopa da UEFA de 1971-1972, quando quebrou a perna e não se recuperou devidamente por causa do tratamento ruim que recebeu na época. Ele ficou um ano sem jogar, tentou um retorno, mas não conseguiu, encerrando a carreira em 1973. McKinnon disputou 473 jogos pelo Rangers entre 1960 e 1972.

John Greig: ele só jogou no Rangers em sua carreira de 17 anos, sendo 13 deles como capitão. Foi o jogador com maior número de jogos na história do Rangers – 755 partidas -, e autor de 120 gols. Líder, forte, exímio na marcação e na proteção à zaga, John Greig é considerado até hoje o maior ranger da história, maior ídolo e símbolo máximo de amor e devoção ao clube de Glasgow. O craque possui uma estátua em Ibrox e colecionou 16 títulos com o Rangers entre 1961 e 1978. Após pendurar as chuteiras, virou técnico do próprio Rangers e levantou mais duas Copas da Escócia e duas Copas da Liga. Greig disputou 44 jogos pela seleção da Escócia, sendo 15 como capitão, e é membro do Hall da Fama do futebol escocês, do Hall da Fama do Rangers, claro, e esteve na lista dos 20 melhores futebolistas da Europa em 1972 pela France Football.

Alex Miller: cria das bases do Rangers, Miller atuou de 1968 até 1982 no clube de Glasgow e foi presença constante no time titular naquele final de anos 1960. Sob o comando de Waddell, acabou indo para a reserva, mas entrou para a história quando jogou o primeiro jogo da final da Copa da Escócia de 1971 com o maxilar quebrado, ajudando o time a segurar o empate em 1 a 1 com o rival Celtic.

Willie Mathieson: foram 15 anos vestindo a camisa do Rangers, seu clube de formação, e a soberania na lateral-esquerda da equipe por muito tempo com belos passes, cruzamentos e precisão na saída de bola e na marcação. Foram 250 jogos e três gols com a camisa azul.

Jim Baxter: um dos mais talentosos meio-campistas de seu tempo, Baxter, o “Slim Jim”, jogou no Rangers entre 1960 e 1965 e entre 1969-1970, e foi um dos principais articuladores de jogadas do time naquele período com ótima visão de jogo, velocidade e precisão nos passes, além de enganar os adversários com dribles marotos e enervá-los com jogadas piadistas. Acontece que uma jogada desse tipo praticamente acabou com sua carreira: em 1964, durante uma partida na qual Baxter jogou muito na vitória por 2 a 0 sobre o Rapid Viena-AUT, pela Liga dos Campeões da UEFA, o jogador ficou fazendo jogadas desrespeitosas e sem propósito para gastar o tempo. Isso até ele tentar passar a bola entre as pernas de um adversário e sofrer uma falta duríssima que quebrou sua perna. Parado por mais de quatro meses, ele começou a beber, ficou fora de forma e acabou deixando o Rangers. Seu breve retorno em 1969 serviu mais para dizer adeus à torcida, pois ele encerrou a carreira já em 1970, aos 31 anos. Baxter disputou 254 jogos e marcou 24 gols pelos Gers.

David Provan: defensor muito talentoso e que atuava mais como lateral-esquerdo e também como volante, Provan foi cria das bases do Rangers e jogou de 1958 até 1970 no clube. Disputou 262 jogos e marcou 11 gols pelos Gers.

Alex MacDonald: meio-campista com boa presença no ataque e decisivo, MacDonald foi um dos principais nomes do time naquela época, principalmente após a chegada do técnico Waddell. Ele marcou dois gols fundamentais na campanha do título da Recopa (um na vitória sobre o Rennes e outro no triunfo sobre o Torino) e entrou para a história dos Gers vestindo a camisa azul por 12 anos. MacDonald disputou 504 jogos e marcou 94 gols pelo Rangers. 

Andy Penman: após uma boa trajetória no Dundee, Penman chegou em 1967 no Rangers e foi uma alternativa para o setor de meio de campo do time até 1973. Não chegou a ser titular absoluto, mas fez boas partidas e marcou gols importantes. Disputou 150 jogos e anotou 49 gols.

Alfie Conn Jr.: outra cria das bases, Alfie Conn Jr. vinha de uma família com tradição futebolística, pois seu pai, Alfie Conn, fez parte do “Terrible Trio” do Hearts dos anos 1950, ao lado de Willie Bauld e Jimmy Wardhaugh. Pelo Rangers, Alfie Conn Jr. brilhou no meio de campo do time campeão europeu em 1971-1972 e anotou um gol na final da Copa da Escócia de 1973, no triunfo por 3 a 2 sobre o Celtic. Em 149 jogos, Conn Jr. fez 39 gols.

Örjan Persson: o sueco chegou em 1967 em Glasgow e permaneceu até 1970, atuando em grande parte dos jogos do time comandado por Scot Symon. Muito habilidoso, marcava gols espetaculares e fazia a festa da torcida. Foi constantemente convocado para a seleção da Suécia e disputou a Copa do Mundo de 1970. Persson vestiu a camisa do Rangers em 113 jogos e marcou 31 gols.

Tommy McLean: o meio-campista era um velho conhecido do técnico Waddell, afinal, ele estava no time titular do histórico Kilmarnock campeão escocês de 1964-1965 como ponta-direita importantíssimo na armação de jogadas ofensivas graças a sua habilidade e bons dribles. Por isso, quando Waddell assumiu o comando do Rangers, uma de suas providências foi contratar o jogador, em 1971, aposta mais do que acertada, pois McLean foi fundamental para as grandes campanhas do Rangers na década, incluindo no título europeu de 1971-1972. Foram 452 jogos e 57 gols pelos Gers entre 1971 e 1982.

Alex Willoughby: atacante cria das bases, fez grandes jogos entre 1963 e 1969, mas foi outro que não teve o reconhecimento do técnico Scot Symon, pois ficou de fora da final da Recopa da UEFA de 1967 e fez falta para o ataque do time no revés contra o Bayern – isso porque ele havia anotado 17 gols em 14 jogos naquela temporada… Willoughby deixou o clube em 1969 para atuar no Aberdeen.

Willie Henderson: o pequenino “Wee Willie” – tinha apenas 1,63m de altura – foi outro icônico atleta do Rangers por 12 anos, revelado pelo clube e que conseguiu se destacar pela habilidade, velocidade e grande visão de jogo. O ponta-direita participou dos grandes títulos da primeira metade dos anos 1960 e ainda da equipe que quase venceu a Recopa de 1967. Na campanha do título de 1971-1972, Henderson jogou várias partidas, mas ficou de fora da final por ter sido negociado com o futebol sul-africano, algo que chateou bastante o jogador. Foram 426 jogos e 62 gols com a camisa azul.

David Smith: dominante pelo lado esquerdo do meio de campo do Rangers, Smith jogou muito naquele começo de anos 1970 e foi um dos destaques da campanha do título continental, principalmente nas partidas contra o Bayern e na decisão contra o Dínamo. Capaz de atuar mais recuado, como líbero, foi um dos coringas do técnico Waddell em jogos difíceis. O meio-campista foi tão brilhante em 1972 que ganhou o prêmio de futebolista do ano na Escócia pela SFWA. Foram 301 jogos e 11 gols pelo Rangers entre 1966 e 1974.

Ralph Brand: outra lenda do Rangers e cria do clube, jogou de 1954 até 1965 na equipe de Glasgow, disputou 317 jogos e marcou 206 gols  – é o 6º maior artilheiro na história dos Gers. Foi o máximo goleador do Rangers em duas temporadas seguidas (1960-1961 e 1961-1962), ambas com 40 gols cada, além de ter se destacado nas três finais seguidas das Copas da Escócia de 1962, 1963 e 1964, todas vencidas pelo Rangers e todas com gols de Brand.

Willie Johnston: outro craque revelado pelo Rangers, Johnston foi um dos principais goleadores do clube na segunda metade dos anos 1960 e um dos destaques do setor ofensivo do time de Glasgow, jogando principalmente pelo setor esquerdo do ataque. Extremamente rápido e oportunista, o atacante criava grandes jogadas e anotava os seus gols, sendo os mais importantes os dois na vitória por 3 a 2 sobre o Dínamo na decisão da Recopa de 1972. Johnston ficou marcado de maneira negativa na seleção escocesa por ter sido cortado do time na Copa de 1978 após ser pego no exame antidoping por uso de um medicamento proibido – o estimulante fencanfamina. Ele nunca mais foi convocado. Em 393 jogos pelo Rangers, Johnston anotou 125 gols.

Jimmy Millar: capaz de atuar como típico centroavante e também mais recuado, no meio, Millar foi um dos principais goleadores do Rangers na segunda metade dos anos 1950 e parte dos anos 1960. Mesmo com 1,68m de altura, ele tinha uma notável impulsão e conseguia se desvencilhar bem dos zagueiros adversários. Marcou dois gols em duas finais de Copa da Escócia e foi durante muito tempo o maior artilheiro do time na competição pós-2ª Guerra Mundial com 30 gols. Foram 11 títulos conquistados e a notável marca de 13 gols para cima do Celtic na história do Old Firm. Millar disputou 317 jogos e marcou 162 gols pelo Rangers entre 1955 e 1967.

Jim Forrest: outra cria das bases do Rangers, Forrest foi um dos mais prolíficos goleadores do futebol escocês nos anos 1960 e dono do recorde compartilhado com Jimmy McGrory (jogador do Celtic dos anos 1920) de 57 gols em uma temporada (1964-1965) no futebol britânico. Sempre bem colocado e com faro de gol apurado, Forrest anotou 145 gols em 165 jogos pelo Rangers e é o mais prolífico atacante do clube no pós-Guerra. Forrest sempre guardou mágoa do técnico Scot Symon por ele nunca ter reconhecido seu talento. Prova disso foi a saída abrupta do jogador do clube que causou sua ausência na final da Recopa de 1967, quando Symon teve que escalar o desconhecido zagueiro Roger Hynd no ataque ao invés de Forrest e o Rangers perdeu bastante eficiência ofensiva. No fim, deu Bayern (1 a 0).

Colin Stein: o atacante chegou em 1968 para suprir a ausência de Jim Forrest e foi, sem dúvida, uma das melhores contratações do Rangers na época. Inteligente, com grande senso de colocação e oportunista, Stein deixou sua marca em vários jogos decisivos do clube, inclusive na final da Recopa de 1972. Foram 206 jogos e 78 gols pelo Rangers em duas passagens (1968-1973 e 1975-1977), além de ser artilheiro da equipe em três temporadas seguidas: 1969-1970 (27 gols), 1970-1971 (20 gols) e 1971-1972 (25 gols).

Alex Smith: jogou apenas de 1966 até 1969 no Rangers, mas tempo suficiente para ser o artilheiro do time na temporada 1966-1967 com 23 gols, assumindo o protagonismo no ataque do time que alcançou o vice-campeonato na Recopa da UEFA.

George McLean: outro grande goleador nos anos 1960, fez uma dupla notável com Jim Forrest e foi o artilheiro do Rangers na época 1965-1966 com 39 gols. Jogava mais centralizado no ataque e era muito bom na finalização.

Alex Ferguson: antes de se tornar um dos mais lendários técnicos da história do futebol mundial, Sir Alex Ferguson foi um atacante dos bons! Ele chegou ao Rangers pela bagatela de 65 mil libras, valor recorde na época envolvendo clubes escoceses, e mostrou serviço já na temporada 1967-1968, quando foi o artilheiro do time com 22 gols. Mas sua passagem pelo Ibrox acabou abreviada por conta da fatídica final da Copa da Escócia de 1969, quando foi acusado pelo técnico de ter falhado no gol que abriu a goleada de 4 a 0 do Celtic. Ferguson ainda jogou em mais dois clubes até pendurar as chuteiras e iniciar sua trajetória como técnico, que você pode ler mais clicando aqui!

Derek Parlane: cria do Rangers, Parlane começou a jogar no clube em 1971 e foi um dos destaques da campanha do título da Recopa da UEFA de 1971-1972, em especial por sua atuação na vitória sobre o Bayern por 2 a 0, na semifinal, quando não só cumpriu bem um papel mais defensivo, de marcação, como apareceu na frente para deixar seu gol. Parlane era um atacante diferenciado, que causava sérios problemas nas zagas adversárias – principalmente em jogadas aéreas – e também pressionava a saída de bola com muita eficiência. Jogou nove anos no Rangers, disputou 300 jogos e marcou 111 gols pelo clube.

Scot Symon, David White e William Waddell (Técnicos): com 15 títulos conquistados, Scot Symon foi um dos mais vitoriosos técnicos do Rangers, mas seu jeito de ser e as rusgas com alguns jogadores, entre eles Jim Forrest, acabaram custando um sucesso maior a nível continental. Ele ficou marcado negativamente também pela goleada de 7 a 1 que levou do Celtic no Old Firm de 1957, a maior da história do clássico e que virou até música. Sua conturbada saída deu chance a David White tentar reconstruir o time para a nova década, mas novas decepções acabaram minando o novato treinador. Só com William Waddell e seu companheiro Jock Wallace que o Rangers, enfim, retomou o caminho das glórias e fez história com o título da Recopa e pavimentou a trilha de novas glórias nacionais a partir de 1974. O grande destaque para Waddell foi dar chances para as crias da base, apostar em jovens como Derek Johnstone e Derek Parlane, e não ter medo de mudar táticas ou de jogar pelo resultado em duelos contra grandes adversários.

Symon comandou o Rangers durante 13 anos, com 445 vitórias, 114 empates e 122 derrotas em 681 jogos, aproveitamento de 65% e 15 títulos. David White dirigiu o time por dois anos, com 73 vitórias, 19 empates e 22 derrotas em 114 jogos, aproveitamento de 64%, nenhum título. Já William Waddell treinou o Rangers por dois anos e 130 jogos, com 73 vitórias, 25 empates e 32 derrotas, aproveitamento de 56% e dois títulos.

 

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2 thoughts on “Esquadrão Imortal – Rangers 1963-1972

  1. Já li muito texto do Imortais, mas acho que esse do Rangers é um dos mais malucos que eu já vi. Teve troca-troca de técnicos, vitória épica sobre o Bayern de Beckenbauer, desastre de Ibrox, tríplice coroa doméstica, rivalidade quente com Celtic, disputa de pênaltis que acabou não valendo (juiz sem vergonha, hein?) e etc… Acho que o time escocês passou por quase tudo nessa saga. Mas o final até foi feliz com o título da Recopa da UEFA no centenário.

    Futebol e suas loucuras não é mesmo? Abraço, Imortais!

    1. Olá Miguel! Olha, de fato esse período do Rangers teve de tudo! Mas eles conseguiram um grande alívio com o título continental de 1972, que serviu para amenizar o fato de o maior rival ter conquistado primeiro. Abraços!

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