Atlético-MG x Cruzeiro – Clássico Mineiro

 

Por Guilherme Diniz

 

A rixa: entre os anos 1920 e os anos 1930, Belo Horizonte era dominada por um só clássico: América e Atlético, com um tal de Palestra Itália querendo provar seu valor a partir do final dos anos 1920, início dos anos 1930. Mas, na década de 1940, o novato Palestra Itália – que viraria Cruzeiro tempo depois – começou a brigar de maneira assídua pelos títulos estaduais, enquanto o América entrou em profunda decadência. Já o Galo seguiu forte e começou a nutrir rusgas com aquele atrevido time azul. O estopim veio na década de 1960, quando um colosso de concreto chamado Mineirão foi erguido na Pampulha para abrigar os principais jogos de futebol do estado e acolher a crescente massa de torcedores atleticanos e cruzeirenses. Dali em diante, não teve jeito. O maior clássico do futebol de Minas virou Atlético x Cruzeiro. Ele ganhou o Brasil. E se transformou em um dos duelos mais quentes e disputados do futebol.

Quando começou: no dia 17 de abril de 1921, na vitória do então Palestra Itália sobre o Atlético por 3 a 0.

Maior artilheiro: Guará (Atlético-MG) – 26 gols

Quem mais venceu: Atlético-MG – 207 vitórias (até abril / 2021). O Cruzeiro venceu 171. Foram 137 empates.

Maiores goleadas: Atlético 9×2 Palestra Itália, 27 de novembro de 1927

Atlético 6×1 Palestra Itália, 21 de junho de 1936

Atlético 6×1 Cruzeiro, 27 de maio de 1942

Cruzeiro 6×1 Atlético, 04 de dezembro de 2011

Cruzeiro 5×0 Atlético, 27 de abril de 2008

Cruzeiro 5×0 Atlético, 26 de abril de 2009

 

Duas torcidas apaixonadas, fervorosas e que adoram uma gozação. Craques do mais alto calibre e que ajudaram a construir períodos de ouro do futebol brasileiro em diferentes décadas. Esquadrões inesquecíveis, vencedores e multicampeões. E um estádio construído com o intuito de abrigar exatamente esses clubes e seus torcedores. Tudo isso e muito mais envolve o Clássico Mineiro entre Atlético x Cruzeiro, que completa 100 anos em 2021. Com histórias peculiares, hegemonias marcantes e contrastes, o duelo entre alvinegros e azuis se fundiu com a própria história do futebol de Minas Gerais e é um dos mais disputados, celebrados e tensos do país. Seu crescimento acompanhou a expansão demográfica da cidade de Belo Horizonte e praticamente polarizou as atenções da capital após a queda de rendimento do América nos anos 1940. Com o Mineirão, o clássico explodiu de vez e virou um evento ímpar, um verdadeiro acontecimento e também uma das inspirações da música “É Uma Partida de Futebol”, da banda mineira Skank, que traduziu com imagens de um duelo entre Atlético e Cruzeiro o videoclipe da canção, para explicar a paixão que envolve o esporte e o motivo que levou milhares de garotos e garotas nascidos em Minas Gerais a sonharem em ser jogadores e jogadoras de futebol.

 

Um intruso na área

Fundado em 1908, o Atlético foi o primeiro campeão da história do Campeonato Mineiro, em 1915, três anos após a fundação do América, que seria campeão estadual já em 1916. Dali em diante, o Coelho emendou uma sequência impressionante de 10 títulos, algo único na história do futebol de Minas e só igualado pelo ABC-RN dentre todos os torneios estaduais do Brasil. No final da sequência do decacampeonato americano, um time fundado por italianos em Belo Horizonte no ano de 1921 chamado Palestra Itália ousou em brigar pelo troféu já em 1922 (vice) e também em 1924 (vice). Rotulado como maior de Minas, o América só via o Atlético como rival e ambos faziam o chamado “Clássico das Multidões”, enquanto os palestrinos ainda buscavam seu espaço.

No dia 17 de abril de 1921, o Palestra Itália – que só contabilizava um jogo oficial em sua recente história – enfrentou o Atlético pela primeira vez em um amistoso e venceu por 3 a 0, em jogo apitado curiosamente pelo ex-presidente (e um dos fundadores) do Atlético Aleixanor Alves Pereira. Até 1926, os duelos entre a dupla foram parelhos, isso até chegar o dia 27 de novembro de 1927, data do histórico 9 a 2 do Atlético pra cima do Palestra, a maior goleada da história do confronto e marca registrada do prolífico ataque comandado por Said, Jairo e Mário de Castro, o “Trio Maldito”, responsável direto por oito daqueles gols – foram três de Said, três de Jairo e dois de Mário de Castro, com Getúlio fechando o placar – e também por embalar o Atlético rumo ao bicampeonato estadual de 1926/1927. A resposta do Palestra veio já em 1928, ano do primeiro título estadual do clube e que iniciou a sequência do tricampeonato 1928-1929-1930, com direito a uma goleada de 5 a 2 dos palestrinos sobre o Atlético em novembro de 1929.

Said, Jairo e Mário de Castro, o “Trio Maldito”. Jogadores acumularam uma média de 4,71 gols por jogo atuando juntos. Foram 99 jogos e impressionantes 467 gols!

 

Jornal Estado de Minas destaca a goleada atleticana. Foto: Arquivo / Estado de Minas.

 

Em 1931, o Atlético voltou a ser campeão, o Villa Nova emendou três títulos seguidos na sequência, e o Galo voltou a vencer mais títulos no final da década, com destaque para o goleador Guará, maior carrasco da história do clássico e que marcou seus 26 gols no período. Entre setembro de 1937 e janeiro de 1939, o Galo ainda alcançou sua então maior série invicta sobre o Palestra: 10 jogos, sendo 8 vitórias (seis seguidas) e dois empates. Até aquele momento, o duelo era amigável, com poucas desavenças e, por serem vizinhos de bairro, jogavam até um no campo do outro, ora no Barro Preto (Palestra Itália) ora no Lourdes (Atlético). 

Estádio Prado Mineiro foi o primeiro a receber o clássico em BH. Foto: Arquivo / Estado de Minas.

 

Guará, maior artilheiro do clássico com 26 gols.

 

Niginho, do Cruzeiro, é o segundo na lista com 25 gols.

 

A briga no clássico de 1940 decretou de vez a rivalidade.

 

Mas o clima esquentou de vez em 1940, na terceira partida melhor de três que decidia o campeonato daquele ano. O jogo terminou com vitória palestrina por 2 a 0 (gols de Alcides e Niginho, maior artilheiro celeste na história do clássico com 25 gols), decretou o título do Palestra (o último do clube sob este nome), impediu um inédito tri seguido do Atlético e uma confusão tomou conta da partida. Nem um árbitro importado do Rio de Janeiro (Mário Vianna) ajudou a apaziguar os ânimos. Aquele fato, somado ao tricampeonato do Cruzeiro em 1943-1945 e aos embates cada vez mais disputados entre ambos forjou de vez a rivalidade, que só iria crescer nos anos seguintes.

 

Do Independência ao Mineirão

Gol de Ubaldo em jogo contra o Cruzeiro no Independência, em 1954.

 

A década de 1950 começou muito promissora para o futebol mineiro. Motivo: a realização da Copa do Mundo de 1950 no Brasil deixou como herança a construção do estádio Independência, que elevou o patamar do futebol da cidade, já que os três grandes clubes da capital possuíam estádios pequenos e acanhados. O campo no Horto (bairro onde fica o estádio) seria a nova casa dos clubes mineiros, em especial do Atlético, o time da moda em BH na época por contar com os melhores jogadores, a maior torcida da cidade e ser o recordista em títulos estaduais – até 1950, o Galo somava 14 títulos mineiros contra 8 do Cruzeiro e 11 do América. Naquele período, brilhou o esquadrão conhecido como os Campeões do Gelo, que entrou até para o hino do clube e conquistou o inédito tricampeonato estadual – que virou pentacampeonato, entre 1952 e 1956 -, com shows históricos de Ubaldo, Lucas Miranda, Tomazinho, Nívio, Zé do Monte entre outras lendas.

Foi na década de 1950 e graças ao Independência, além do desenvolvimento industrial de Belo Horizonte, que a torcida do Cruzeiro passou a do América e fez o clube virar de vez o grande rival do Atlético. Com muitos imigrantes chegando à capital mineira, o clube azul foi uma escolha comum, principalmente dos italianos ou descendentes, além de oriundos do interior do estado se dividirem entre Atlético e Cruzeiro. A expansão econômica e social contribuiu em conjunto para o aumento exponencial das torcidas, além dos clubes ajudarem, claro, com títulos e grandes jogadores vestindo a camisa de ambos.

Mineirão em obras: gigante mudou para sempre a história do clássico.

 

Até que, em setembro de 1965, foi inaugurado o Estádio Minas Gerais, que seria popularmente conhecido como Mineirão, o mais moderno do país na época e o segundo maior estádio coberto do mundo. Por dentro, a estrutura das arquibancadas, com o grande arco e uma área de “geral” embaixo, deixavam o Mineirão bastante parecido com o Maracanã, mas era por fora que o “Gigante da Pampulha” se diferenciava com sua altura e os 88 pórticos de concreto armado dispostos em torno de uma elipse. Por dentro, havia também como destaque a grande pista de atletismo em volta do gramado. 

O helicóptero que se encarregou de deixar a bola do jogo.

 

A festa de inauguração começou às 9h do dia 05 de setembro de 1965, com uma salva de tiros de sete canhões (sete? Seria um presságio do futuro? Vixe…). Os portões foram abertos às 10h e várias apresentações festivas – entre banda da polícia e desfiles – aconteceram antes da partida inaugural entre a Seleção Mineira e o River Plate-ARG. Para alegria geral, a equipe da casa venceu por 1 a 0, gol do atleticano Buglê. Entre os convidados, estiveram presentes o presidente da CBD, João Havelange, o técnico do primeiro título mundial brasileiro, Vicente Feola, e Bellini, capitão da seleção no título de 1958, que deu uma volta pelo estádio e acendeu a pira olímpica. Um helicóptero da Força Aérea arremessou a bola do jogo com um voo rasante, arrancando “ohs” do público nas arquibancadas.

Com o estádio, o futebol mineiro começou a se transformar em uma verdadeira potência no Brasil. Atlético e Cruzeiro já eram, claro, clubes notáveis, mas é inegável a participação do Mineirão como integrante da emancipação da dupla no cenário nacional. E isso se deu em um primeiro momento graças ao esquadrão do Cruzeiro de Dirceu Lopes, Piazza e Tostão, que faturou seis campeonatos mineiros naquela década, sendo cinco seguidos entre 1965 e 1969, além de faturar a inédita Taça Brasil de 1966 com um sonoro 6 a 2 pra cima do Santos de Pelé em uma das partidas finais. De quebra, o Cruzeiro se tornou o primeiro clube de Minas campeão de uma competição nacional, algo que deixou os atleticanos bem ressabiados.

Dirceu Lopes e Tostão: lendas do Cruzeiro nos anos 1960.

 

Foi em 1966, também, que uma lei mudou o nome do estádio de Minas Gerais para Governador Magalhães Pinto, em alusão ao governante do estado na época. O primeiro clássico entre Cruzeiro e Atlético aconteceu em outubro de 1965, com vitória da Raposa por 1 a 0, gol de Tostão, partida que teve briga, acabou antes do tempo regulamentar e mostrou que ambos iriam duelar pelo protagonismo no maior estádio de Minas. Entre 1966 e 1968, o Cruzeiro igualou a série invicta de 10 jogos do Atlético ao vencer cinco jogos e empatar cinco no período. Antes, entre novembro de 1964 e fevereiro de 1966, a equipe emendou sete vitórias seguidas, um recorde no clássico na época.

Primeiro clássico no Mineirão teve briga…

 

Mineirão no jogo de maior público da história do clássico.

 

Em 1969, as torcidas de Atlético e Cruzeiro estabeleceram o recorde de público pagante da história do estádio: 123.351 pessoas compraram ingressos para ver o clássico do dia 04 de maio, vencido pela Raposa por 1 a 0. Naquela década, o time azul foi hegemônico na chamada “Era Mineirão” e venceu cinco títulos estaduais seguidos. Mas, em 1969, o Atlético, com a camisa da Federação Mineira de Futebol, venceu amistoso contra a Seleção Brasileira – que seria tricampeã do mundo no México – por 2 a 1 e deixou orgulhosa sua fanática torcida. Dois anos depois, em 1971, o Galo escreveu seu nome na história ao conquistar a primeira edição do Campeonato Brasileiro de futebol após grandes jogos realizados no Mineirão, como a vitória por 1 a 0 sobre o São Paulo na fase final – o título foi conquistado no Maracanã, após vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo.

 

Tempos de craques e hegemonias

Cerezo e Palhinha: clássico pegou fogo nos anos 1970 e 1980.

 

Mesmo com o título brasileiro, o Atlético não conseguiu ser hegemônico em Minas no começo dos anos 1970 e viu o Cruzeiro emendar mais um tetracampeonato mineiro entre 1972 e 1975, que não virou penta por causa do Galo em 1976. Neste ano, o Cruzeiro se tornou o primeiro clube mineiro campeão da Copa Libertadores, a bater o River Plate em três finais emblemáticas, com craques do naipe de Raul, Piazza, Nelinho, Zé Carlos, Jairzinho, Joãozinho e companhia. A resposta do Atlético veio a partir de 1978, quando foi iniciada a dinastia do hexacampeonato mineiro do Galo de Reinaldo, o maior artilheiro do clássico na Era Mineirão com 16 gols. O Rei virou o grande carrasco dos azuis na época e verdadeiro terror para o time cruzeirense, que foi seis vezes vice-campeão durante aquela era de ouro do clube alvinegro, que aplicou um 4 a 0 no rival (dois gols de Éder, um de Reinaldo e outro de Renato) em 1983, durante a campanha do hexa. Em 1984, o Cruzeiro, enfim, deu o troco com um 4 a 0 na primeira partida da final do Mineiro, perdeu por apenas 1 a 0 na segunda, e ficou com o título, impedindo o hepta dos alvinegros. Levando em consideração que o Atlético venceu os títulos de 1985 e 1986, o Cruzeiro impediu uma sequência de 9 títulos seguidos do rival. Foi nos anos 1980 que o Atlético alcançou a maior marca invicta do clássico: 13 jogos, entre 1985 e 1987, com 5 vitórias e oito empates.

Jairzinho e Joãozinho: artilharia pesada do Cruzeiro nos anos 1970.

 

Reinaldo e Cerezo.

 

 

Reinaldo, maior artilheiro do clássico na Era Mineirão com 16 gols.

 

Ao longo de quase toda a década de 1990, o clássico viu um predomínio maior do Cruzeiro, que venceu cinco estaduais na década e se afastou de vez do rival com uma grande quantidade de títulos conquistados, com troféus na Copa do Brasil, na Libertadores e em outros torneios da Conmebol. Em 1994, um garoto de 17 anos acabou com o Galo: Ronaldo, que vestia o manto azul do Cruzeiro e fez os três gols da vitória por 3 a 1 daquele ano. 

Ronaldo teve tempo de estraçalhar o Atlético nos anos 1990.

 

Ronaldo (à dir.) antes de um clássico. Foto: Auremar de Castro.

 

Paulinho McLaren tirou o sarro em uma vitória sobre o rival em 1996, pelo Brasileiro. Foto: Gualter Naves / EM.

 

Mas o troco veio com juros: vitórias marcantes e classificação no mata-mata do Brasileiro de 1999, com show da dupla Marques e Guilherme.

 

Só no final da década, em 1999, que o Atlético conseguiu triunfos memoráveis sobre o rival durante o Campeonato Brasileiro, quando a dupla se encontrou pela segunda vez em uma fase de mata-mata do torneio (a primeira foi em 1986, com dois empates – 0 a 0 e 1 a 1 – e classificação do Galo). Nas quartas de final, o Galo de Velloso, Belletti, Gallo, Robert e os infernais Marques e Guilherme destroçaram o rival com duas vitórias: 4 a 2 e 3 a 2, ambas no Mineirão em profunda ebulição – foram quase 65 mil pessoas em cada jogo.

 

Novo milênio – gozações, a maior final de todas e o centenário

Os anos 2000 marcaram um grande contraste entre a dupla. Enquanto o Cruzeiro seguiu vencedor e chegou ao ápice em 2003, com a conquista da Tríplice Coroa no ano mágico de Alex e do técnico Vanderlei Luxemburgo, o Atlético enfrentou graves problemas financeiros e administrativos que culminaram com seu rebaixamento para a Série B do Brasileirão, em 2005, apenas três anos antes de seu centenário. O time deu a volta por cima já em 2006, com o título da Segundona, voltou à elite e levantou em 2007 o título mineiro. 

Cruzeiro aplicou duas goleadas de 5 a 0 em um curto intervalo sobre o rival no final dos anos 2000.

 

Em 2009, porém, o Cruzeiro voltou a levantar o troféu estadual com direito a goleada de 5 a 0 sobre o Galo. Entre 2007 e 2009, a Raposa atingiu sua maior série invicta contra o rival na história: 12 jogos, com 10 vitórias (seis delas seguidas e dois 5 a 0) e dois empates. O torcedor alvinegro não aguentava mais ficar na sombra do rival em número de títulos de peso, sofrer goleadas e ainda ver a torcida cruzeirense crescer cada vez mais ano após ano.

Goleada de 6 a 1 entrou para a história do clássico.

 

A gota d’água veio em 2011. O Atlético apostou mais uma vez em nomes consagrados que eram fortes no papel, mas fracos em campo, tais como Lima, Dudu Cearense e Mancini. Depois de perder o título estadual para o Cruzeiro e não emplacar no Brasileiro, o clube demitiu o técnico Dorival Júnior e trouxe Cuca, que vinha do arquirrival e não gerava grandes expectativas na torcida por sua fama de “azarado” e “pé-frio”. O novo treinador quase pediu as contas quando acumulou seis derrotas seguidas em seu início no Galo, mas os próprios jogadores fizeram Cuca voltar atrás e continuar no time, que teria que brigar mais uma vez para não ser rebaixado. A união deu certo, o time conseguiu vitórias importantes e se livrou da degola graças à boa campanha no returno da competição. Porém, a temporada terminou da pior maneira possível: derrota por 6 a 1 para o Cruzeiro – que lutava para não cair e precisava vencer de qualquer maneira naquele dia -, na Arena do Jacaré, pela última rodada do Brasileirão. Foi a maior goleada já aplicada pelo Cruzeiro sobre o Atlético em toda a história.

As brincadeiras renderam (e rendem) até hoje…

 

Até que, em 2013, o Galo de Ronaldinho, Jô e companhia faturou uma histórica Libertadores e acabou de vez com o jejum de grandes títulos. No ano seguinte, a equipe venceu a Recopa Sul-Americana e alcançou a final da Copa do Brasil. O adversário? O Cruzeiro! Além de encarar o maior rival, o Atlético tinha uma dose extra de motivação: a Raposa havia vencido o Estadual e o Brasileiro naquele ano e buscava sua segunda Tríplice Coroa. Era o adversário perfeito para o Galo encerrar o ano com um título inédito no maior de todos os clássicos mineiros. Afinal, aquela seria a primeira decisão nacional entre ambos na história. E, claro, o duelo teve vários ingredientes para esquentar ainda mais o duelo, como a escolha dos mandos de campo, que deixou de ser os dois jogos no Mineirão para que o primeiro, com mando do Galo, fosse no Independência. A torcida sabia que no Horto a história era diferente. Lá, o Galo tinha um aproveitamento de quase 80% na época. Contra o Cruzeiro, quatro vitórias e três empates em sete jogos. Em Minas, a fábula já era conhecida: Cruzeiro e Atlético conhecem muito bem o Mineirão, mas ninguém conhece tão bem o Horto como o Atlético…

Tardelli: artilheiro deixou sua marca na final.

 

No dia 12 de novembro, mais de 18 mil pessoas transformaram o estádio Independência em um caldeirão. Com um time muito bem escalado e embalado ao máximo, o Atlético abriu o placar logo aos oito minutos, com Luan, e ampliou a conta no comecinho do segundo tempo, com Dátolo: 2 a 0, em uma bela vantagem para a volta. No dia 26 de novembro, no Mineirão com quase 40 mil pessoas (público bem abaixo das expectativas), o Atlético provou que não só conhecia o Mineirão como tinha o estádio como seu histórico salão de festas. O Cruzeiro até entrou em campo de branco, tentando relembrar a goleada que aplicara no rival trajando essa cor em 2011, mas tal superstição não adiantou nada. 

O Horto: entre 2012 e 2014, caldeirão absoluto do Atlético.

 

Cruzeiro jogou de branco a finalíssima de 2014. Não adiantou…

 

A Raposa não jogou, o Atlético foi superior durante os 90 minutos e mostrou que a Copa do Brasil de 2014 tinha dono. Diego Tardelli, no final do primeiro tempo, fez o gol solitário que decretou a vitória por 1 a 0 e o terceiro título inédito do Galo em dois inesquecíveis anos. Mais do que isso, dava ao time alvinegro o triunfo no maior clássico mineiro da história e a invencibilidade contra o rival na temporada: quatro vitórias e três empates. 

Em 2014, Diego Tardelli e Marcos Rocha fizeram alusão à goleada de 9 a 2 sobre o Cruzeiro, em 1927, com o número de suas camisas.

 

No final da segunda década do novo milênio, o Cruzeiro eliminou o rival nas quartas de final da Copa do Brasil de 2019 e ampliou a vantagem em número de títulos estaduais em finais diretas contra o Atlético – 14 a 8 -, mas o ano ficou marcado pela queda do clube azul para a série B do Brasileiro pela primeira vez, algo que a torcida do Atlético celebrou (e ainda celebra) durante todo o ano de 2020. Para piorar a situação do Cruzeiro, o clube não conseguiu o acesso e segue na Segundona, amargando o ano de seu centenário na B e aumentando a gozação dos atleticanos, que nunca perdem a piada sobre o assunto. 

A torcida criou o fantasma da série B…

 

… Que virou realidade.

 

No clássico do centenário, Airton fez o gol da vitória cruzeirense por 1 a 0.

 

Em 2021, o clássico completou 100 anos de história e, em campo, a comemoração aconteceu alguns dias antes, no clássico do dia 11 de abril. Antes da partida, diante da suposta diferença técnica do Atlético para o Cruzeiro – com mais reforços e jogadores badalados -, muitos acreditaram que o clube azul seria goleado e até uma carta da torcida Galoucura foi enviada ao elenco atleticano sobre o jogo, dizendo que “era guerra”, que “clássico não se joga, se ganha”, entre outras coisas. Chegaram até a comentar para a diretoria não enviar os jogadores e o time perder por WO tamanho constrangimento pela fase do clube. Mas, clássico é clássico. E, em campo, o Cruzeiro venceu por 1 a 0, calou os alvinegros e celebrou a vitória no clássico do centenário, provando que a briga dos gigantes de Minas sempre tem um temperin extra… 

 

Curiosidades e números de destaque:

 

  • O Atlético está na frente em número de títulos estaduais diante do rival: são 45 troféus contra 38 do Cruzeiro;
  • Em finais diretas do Estadual, no entanto, o Cruzeiro tem vantagem: 14 títulos, contra 8 do Atlético, além do título dividido de 1956;
  • Em número de títulos internacionais, a vantagem é do Cruzeiro: 7 troféus (2 Libertadores, 2 Supercopas da Libertadores, 1 Recopa Sul-Americana, 1 Copa Master e 1 Copa Ouro) contra 4 do Atlético (1 Libertadores, 1 Recopa Sul-Americana e 2 Copas Conmebol);
  • Em número de títulos nacionais, a vantagem cruzeirense é esmagadora: são 10 títulos (1 Taça Brasil, 3 Campeonatos Brasileiros e 6 Copas do Brasil), contra 5 do Atlético (1 Campeonato Brasileiro, 1 Copa do Brasil, 1 Copa dos Campeões do Brasil, 1 Copa dos Campeões Estaduais e 1 Brasileiro da Série B);
  • Vários jogadores anotaram três gols no clássico, mas nenhum fez quatro gols até hoje;
  • Além da vantagem geral, o Atlético tem vantagem em duelos pelo Campeonato Brasileiro: são 26 vitórias do Galo, 22 empates e 22 vitórias do Cruzeiro;
  • O Mineirão foi palco único do clássico entre 1965 e 1995, com um jogo no Independência em 10 de agosto de 1995. Foram 30 anos ininterruptos com o Colosso da Pampulha abrigando os rivais, recorde até hoje na história do clássico!
  • Tanto Atlético quanto Cruzeiro divergem quanto ao número de jogos na história do confronto, pois cada um tem uma contagem. A mais utilizada é a do Atlético, dos 515 jogos, enquanto o Cruzeiro conta 497 partidas. Em 2007, os clubes tentaram entrar em um consenso, mas não deu certo;
  • No entanto, quando o assunto é Era Mineirão, os números são unânimes: até hoje foram disputados 246 jogos, com 90 vitórias do Cruzeiro, 79 empates e 77 vitórias do Atlético;
  • Com o grande número de títulos conquistados nos anos 1990 e 2000, o Cruzeiro viu sua torcida crescer bastante e, de acordo com as pesquisas mais recentes feitas pelo Ibope, a China Azul tem uma ligeira vantagem sobre o Atlético: são 3,9 milhões de torcedores no Brasil, enquanto o Atlético tem 3,4 milhões.

 

Veja o videoclipe da música “É Uma Partida de Futebol”.

 

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2 thoughts on “Atlético-MG x Cruzeiro – Clássico Mineiro

  1. Belo texto para o nosso super clássico! O fato é que o Atlético não é nada sem o Cruzeiro. O Cruzeiro não é nada sem o Atlético.

    Tive a honra de estar presente no último clássico com torcida (mais de 50 mil pessoas e uma vitória sensacional do meu Galo no fim da partida, com golaço de Rômulo Otero). Neste momento tão difícil, desejo muita saúde para todos/as e que em breve possamos estar lotando os estádios novamente. O futebol não é o mesmo sem as torcidas colorindo o espetáculo.

    Viva o Imortais do Futebol! Saudações atleticanas! #Galo!

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