Craque Imortal – Frank Lampard


 

Nascimento: 20 de junho de 1978, em Romford, Londres, Inglaterra. 

Posição: Meio-campista

Clubes: West Ham United-ING (1995-2001), Swansea City-ING (1995-1996-empréstimo), Chelsea-ING (2001-2014), Manchester City-ING (2014-2015) e New York City-EUA (2015-2016).

Principais títulos por clubes: 1 Copa Intertoto da UEFA (1999) pelo West Ham United.

1 Liga dos Campeões da UEFA (2011-2012), 1 Liga Europa (2012-2013), 3 Campeonatos Ingleses (2004-2005, 2005-2006 e 2009-2010), 4 Copas da Inglaterra (2006-2007, 2008-2009, 2009-2010, 2011-2012), 2 Copas da Liga Inglesa (2004-2005 e 2006-2007) e 2 Supercopas da Inglaterra (2005 e 2009) pelo Chelsea.

 

Principais títulos individuais e artilharias:

Ordem do Império Britânico: 2015

2º Melhor Jogador do Mundo da FIFA: 2005

2º Colocado no Ballon d’Or: 2005

Maior Artilheiro da história do Chelsea: 211 gols em 648 jogos

Futebolista do Ano da FWA: 2005

Futebolista do Ano da PFA: 2005

Prêmio ao Mérito da PFA: 2015

Prêmio Tributo da FWA: 2010

Jogador do Ano da Premier League: 2004-2005

Maior Assistente da Premier League: 2004-2005 (18 assistências), 2008-2009 (10 assistências) e 2009-2010 (14 assistências)

Eleito para o Time do Ano da PFA: 2003-2004, 2004-2005 e 2005-2006

FIFPro World XI: 2005

Meio-Campista do Ano da UEFA: 2008

Futebolista do Ano da Inglaterra: 2004 e 2005

Eleito para o Time do Ano da ESM: 2004-2005, 2005-2006 e 2009-2010

Eleito para o All-Star Team da Eurocopa: 2004

Melhor Jogador da Copa da Inglaterra: 2006-2007, 2008-2009 e 2009-2010

Melhor Jogador da Copa da Copa da Liga Inglesa: 2004-2005 e 2006-2007

Premier League 20 Seasons Awards: 2012 – Prêmio por ter disputado 500 jogos na competição

MLS All-Star: 2015

Globe Soccer Awards Player Career Award: 2015

Inserido no Hall da Fama da Premier League: 2021

 

“The Great Senator”

Por Guilherme Diniz

 

No começo deste século XXI, o Chelsea passou por uma grande revolução ao ser adquirido por Roman Abramovich. A partir dali, o clube teve o aporte financeiro que precisava para realizar grandes contratações, formar times competitivos e brigar por títulos. Só que alguns anos antes dos milhões de dólares e libras chegarem, os Blues foram buscar no West Ham um jovem para organizar as ações no meio de campo do time. Jogo após jogo, ele fez isso e muito mais. Organizava, passava, marcava, ditava o ritmo do jogo. Com ele em campo, o Chelsea começou a se transformar. Jogar em Stamford Bridge passou a ser um pesadelo para qualquer clube na Premier League. Aliás, a própria competição inglesa virou uma extensão daquele jogador cerebral e altamente prolífico, capaz de marcar mais gols do que muitos atacantes. Com tantas qualidades, ele quebrou recordes, disputou mais de 500 jogos no torneio e mostrou uma soberania impressionante e rara, digna de uma autoridade, um chefe, um senador, funções claramente desempenhadas por Frank James Lampard, ou simplesmente Lampard, um dos maiores (se não o maior) ídolos da história do Chelsea, um dos maiores jogadores do mundo nos anos 2000 e 2010 e o “great senator” do lendário esquadrão dos Blues que colecionou troféus entre 2004 e 2007. Ao lado de Terry e Drogba, o meio-campista compôs o Senado Azul que simbolizou tempos de glórias, gols e grandes jogos do Chelsea na Inglaterra e em toda a Europa. Faltaram os títulos pela seleção inglesa, mas isso em nada diminuiu a importância do craque ao esporte do país. É hora de relembrar.

 

Em busca da própria identidade

Lampard e seu pai, no começo dos anos 1990.

 

Filho de Frank Richard George Lampard, que integrou o elenco do West Ham no final dos anos 1960, em toda a década de 1970 e parte da de 1980, Lampard teve obviamente a inspiração paterna e de seu tio, Harry Redknapp (que também fez carreira no West Ham), para construir sua vida no futebol, além de crescer ouvindo as histórias do esquadrão dos Hammers multicampeão dos anos 1960, de Bobby Moore e companhia. E, quando seu pai se tornou assistente técnico do West Ham, Lampard iniciou sua trajetória nas categorias de base dos Hammers em 1994, assinando seu primeiro contrato como profissional já em 1995. Sua estreia pelo clube aconteceu apenas em janeiro de 1996 – após um breve empréstimo ao Swansea -, entrando durante um jogo contra o Coventry City.

Pelo fato de ele ser filho do assistente técnico e ter como tio Redknapp, que era o treinador do West Ham na época, Lampard nunca teve vida fácil com os torcedores do clube, que diziam que ele só estava entre os profissionais por nepotismo. Aquela pressão aumentou ainda mais em março de 1997, quando o jovem sofreu uma grave lesão na perna em um jogo contra o Aston Villa, levou seu primeiro cartão amarelo e, por um momento, pensou até em deixar o futebol.

Mas Lampard voltou em agosto do mesmo ano, no início da temporada 1997-1998, marcando um gol na vitória por 2 a 1 sobre o Barnsley, entrando como substituto no segundo tempo. Aquela temporada seria a grande reviravolta do jogador, que cravou seu espaço no time principal, marcou seu primeiro hat-trick na carreira – no 4 a 1 sobre o Walsall, pela Copa da Liga Inglesa – e alcançou 10 gols em 42 jogos disputados. Com muita vitalidade, visão de jogo, passes precisos e enorme controle de bola, o jovem já era um dos mais elogiados jogadores da Premier League.

Na temporada 1998-1999, foram mais 41 jogos e seis gols, desempenho que ajudou o West Ham a ficar em 5º lugar no campeonato e beliscar uma vaga na antiga Copa Intertoto da UEFA, competição na qual Lampard foi fundamental para ajudar o West Ham a vencer e se classificar para a Copa da UEFA de 1999-2000, afinal, o meio-campista marcou três gols em seis jogos. Jogando ao lado de Rio Ferdinand e Joe Cole – ambos crias das bases dos Hammers -, Lampard já era um dos principais talentos do país e passou a ser figurinha fácil nas seleções de base da Inglaterra, chegando ao time principal já em outubro de 1999, em uma vitória por 2 a 1 sobre a Bélgica. Na temporada 1999-2000, Lampard atingiu a maior marca artilheira na carreira na época: 14 gols em 49 jogos, atrás apenas de Paolo Di Canio (17 gols) e Paulo Wanchope (15 gols).

Só que o bom momento durou pouco. Na temporada 2000-2001, o West Ham passou boa parte da temporada na parte de baixo da tabela, terminou apenas na 15ª colocação e o técnico Redknapp deixou o time após sete anos, juntamente com o pai de Lampard, Frank. Sozinho e tachado como o “filho de Frank Lampard”, sem qualquer perspectiva de crescimento e ouvindo os corneteiros de sempre no dia a dia, Lampard não tinha outra escolha senão deixar os Hammers o mais rápido possível para escrever sua história em outro clube e provar seu verdadeiro valor. Em um primeiro momento, o Leeds United saiu na frente nas negociações e o Aston Villa chegou a oferecer 15 milhões de libras por Lampard e Kanouté, mas o meio-campista preferiu permanecer em Londres e conseguiu um contrato com o Chelsea por cerca de 11 milhões de libras. Era hora de o jogador encarar o maior desafio da carreira.

 

No more doubts!

“Eu duvidei de mim mesmo ao longo da minha carreira e sempre tive medo do fracasso. E certamente era esse o caso naquela época”. Foi assim que Lampard definiu, em entrevista à Sky Sports em maio de 2015, como ele se via como jogador profissional na transferência do West Ham para o Chelsea. A pressão psicológica que passou durante os anos nos Hammers foi um enorme empecilho para o bem-estar profissional do meio-campista. Mas o novo ambiente, com novos jogadores e torcedores no Chelsea revirou totalmente a vida do atleta, que conviveu com lendas como Gianfranco Zola e Marcel Desailly, seus principais companheiros naquele início nos Blues. De Zola, Lampard aprendeu a melhorar as cobranças de faltas. De Desailly, tomou nota de como melhorar a alimentação. “Eu me tornei um homem. O clube ficava apenas a 10 milhas de distância do West Ham, mas parecia um outro mundo. Eu pude ver o progresso e adorei”, disse Lampard à Sky Sports.

Encontro de ídolo (Zola) e futuro ídolo (Lampard).

 

Foto: Adrian Dennis / AFP.

 

Sob o comando de Claudio Ranieri, Lampard foi titular absoluto do Chelsea na temporada 2001-2002, disputou 53 jogos (foi o que mais jogou pelo time, superando até Gianfranco Zola) e marcou sete gols, além de dar passes e ajudar o companheiro Jimmy Floyd Hasselbaink a alcançar a vice-artilharia da Premier League com 23 gols. Os Blues terminaram na 6ª colocação, mas subiram de rendimento já na temporada 2002-2003 com um 4º lugar e Lampard outra vez como recordista em jogos pelo clube – 48 partidas e oito gols.

Foi então que, em junho de 2003, o então presidente Ken Bates, à frente dos Blues por 22 anos, decidiu vender o clube ao bilionário russo Roman Abramovich por 140 milhões de libras. O negócio gerou surpresa, mas foi a solução para salvar os Pensioners de uma vez por todas. Ambicioso, Abramovich queria transformar o Chelsea em uma potência e não mediu esforços nas contratações. Em seu primeiro ano, o russo gastou mais de 110 milhões de libras em jogadores como Claude Makélélé, Hernán Crespo, Geremi, Glen Johnson, Joe Cole e Damien Duff, que se uniram aos já presentes no elenco John Terry, William Gallas e Frank Lampard, que disse que a vinda de Abramovich levou “todos à Lua” tamanha expectativa com aquilo tudo.

A primeira temporada com o aporte financeiro não rendeu títulos, mas o Chelsea alcançou o vice-campeonato inglês (melhor campanha do time desde os anos 1950) e Lampard fez 10 gols, além de ser eleito para o Time do Ano da PFA pela primeira vez. Para coroar uma época marcante, o meio-campista foi convocado para a Eurocopa de 2004, seu primeiro grande torneio pela seleção, e fez bonito: marcou um gol na estreia inglesa (derrota por 2 a 1 para a França), fez outro nos 4 a 2 da Inglaterra sobre a Croácia e mais um no empate em 2 a 2 contra Portugal, nas quartas de final. O English Team caiu nos pênaltis (6 a 5) diante dos lusitanos, mas Lampard converteu sua cobrança. O craque foi eleito para o All-Star Team do torneio e também o Futebolista do Ano na Inglaterra, entrando de vez para o rol dos melhores jogadores do mundo. De fato, as dúvidas haviam acabado. Era hora de começar a fazer história.

 

Senador e multicampeão

Drogba, Terry e Lampard: trio de ouro daquele esquadrão.

 

Após a eliminação na Liga dos Campeões da UEFA de 2003-2004, Claudio Ranieri deixou o Chelsea e Roman Abramovich contratou para a temporada 2004-2005 o técnico português José Mourinho, justamente o campeão europeu de 2003-2004 pelo Porto. Mourinho chegou em Stamford Bridge junto com sua equipe técnica e alguns de seus pupilos do Porto: o zagueiro Ricardo Carvalho e o lateral Paulo Ferreira. Foram contratados ainda o também português Tiago, o holandês Arjen Robben, o atacante marfinense Didier Drogba e o goleiro checo Petr Cech. Outros jogadores acabaram deixando o Chelsea, mas o plantel do clube londrino era de dar inveja a vários clubes da Europa e exatamente o que José Mourinho queria, afinal, o técnico não gostava de elencos enormes, mas sim com no máximo 22 jogadores (embora os Blues tivessem 28 atletas na temporada 2004-2005).

Com relação a Lampard, o técnico português sabia do potencial do craque e fez questão de deixar claro que ele seria o principal nome do meio de campo do time. “Ele (Mourinho) disse que eu era o melhor meio-campista e eu comecei a pensar que estava realmente perto disso. Foi uma jogada de mestre”, comentou Lampard. E, jogo após jogo, o Chelsea foi dominando o campeonato e os adversários. Lampard era o maestro do meio de campo e ainda aparecia no ataque como um verdadeiro artilheiro, Terry era o perigo nas bolas aéreas, o meio de campo em triângulo dificultava as coisas para equipes que jogavam no 4-4-2 e o ataque tinha várias opções com as alternâncias de Robben, Joe Cole e Duff, pelas pontas, e a ótima fase de Gudjohnsen no meio do ataque e por vezes recuando um pouco, além da força e talento de Drogba.

O técnico José Mourinho focava bastante o seu trabalho no coletivo e no espírito de equipe, além da competitividade extrema em busca da vitória a qualquer custo. Ele mesmo disse em sua apresentação ao Chelsea que “jogadores não vencem troféus, times vencem troféus, equipes vencem troféus”, salientando que não iria falar sobre individualidades, mas sim com “jogadores que gostam de vencer e possuem mentalidade vencedora nos 90 minutos, em todos os dias e em suas vidas”. Mas, com o passar do tempo, além de instigar o coletivo, criou um grupo de jogadores que ganharam a alcunha de “senadores”: Frank Lampard, John Terry e Didier Drogba, nesta exata ordem. Por mais que o time fosse bastante coletivo e tivesse alternativas no banco de reservas para suprir a ausência de um ou outro titular, esse trio teria uma certa proteção de Mourinho ao longo dos anos. E Lampard, com toda sua qualidade e poder de decisão, foi o principal membro do “Senado Azul” do Chelsea na época.

Uma das formações do Chelsea em 2004-2005: com triângulo no meio e dois pontas, equipe se sobressaiu diante dos adversários que jogavam no 4-4-2.

 

O time fez grande campanha na Liga dos Campeões da UEFA, alcançando as semifinais (o time azul foi eliminado pelo Liverpool) e despachando pelo caminho o Barcelona de Ronaldinho, nas oitavas, e o Bayern München, nas quartas, todos estes jogos com atuações fantásticas e gols decisivos de Lampard. Mas foi na Premier League que o show entrou para a história: título, fim do jejum de mais de cinco décadas e uma campanha sensacional: 95 pontos, 29 vitórias, oito empates e uma derrota em 38 jogos. Foram 72 gols marcados e míseros 15 gols sofridos em 38 jogos. O Chelsea liderou a competição desde a 12ª rodada. Ficou 12 pontos na frente do vice-campeão, o Arsenal. Foi um campeão incontestável que juntou habilidade, força e muito trabalho tático. Em casa, os Blues permaneceram invictos com 14 vitórias e cinco empates em 19 jogos. Lampard, o grande nome da equipe, marcou 13 gols e foi o artilheiro do time na competição e da temporada do Chelsea com 19 gols. O meia ainda venceu os prêmios de Melhor Jogador da Temporada pela FWA e da própria Premier League.

 

Soberania em casa e a primeira Copa

Lampard venceu mais uma Premier League em 2005-2006, voltou a ser o artilheiro do time tanto na competição nacional (16 gols) quanto na temporada (20 gols) e sacramentou seu espaço entre os melhores e mais talentosos meio-campistas do mundo. O craque terminou na segunda colocação tanto no prêmio de Melhor Jogador do Mundo da FIFA quanto no Ballon d’Or da France Football de 2005 – em ambas as premiações ele ficou atrás do brasileiro Ronaldinho -, confirmando o status de craque e um dos mais premiados jogadores do Chelsea na história.

Samuel Eto’o (3º colocado), Ronaldinho (vencedor) e Frank Lampard (2º colocado) na premiação dos melhores do ano de 2005 da FIFA.

 

 

Lampard parou no goleiro português Ricardo na Copa de 2006. Foto: AP Photo/Paulo Duarte.

 

Pela seleção, o meia seguiu como titular absoluto e foi o artilheiro da equipe nas Eliminatórias da Copa do Mundo com cinco gols. Como uma das estrelas do bom elenco inglês no Mundial da Alemanha, o craque foi o melhor em campo na vitória por 1 a 0 sobre o Paraguai, na estreia, e jogou todos os cinco jogos da Inglaterra na Copa. Porém, o English Team acabou eliminado nas quartas de final diante de Portugal, nos pênaltis, assim como na Euro de 2004. Lampard errou seu chute, assim como Gerrard e Carragher. Foi, segundo o próprio Lampard, uma das maiores decepções na carreira não só pelo pênalti perdido, mas por não ter marcado nenhum gol após ser artilheiro nas Eliminatórias.

 

“O problema é que as pessoas me julgam um goleador – acho que acabei trilhando esse caminho por conta própria. Sempre marquei com regularidade e as pessoas esperam que eu continue a marcar… Mas existem muitos meio-campistas que não são julgados da mesma forma por não serem artilheiros como eu. As críticas eram massivas quando as coisas davam errado. Posso dizer que não gostei nem um pouco daquela Copa do Mundo. Fiquei absolutamente devastado”, disse o craque, em 2009, ao The Guardian.

 

Passado o drama no Mundial, Lampard não teve muito tempo para lamentações. Era preciso retornar ao Chelsea e manter a equipe em alto nível.

 

O choro e a primeira final de UCL

Foto: Robin Parker / Fotosports International / Cleva Media.

 

Na temporada 2006-2007, Lampard foi o capitão majoritário do time por conta de uma lesão sofrida por John Terry. Embora o time tenha brigado até o fim pelo título inglês, o troféu ficou com o Manchester United. Mas, nas copas nacionais, os Blues fizeram a festa com os títulos da Copa da Inglaterra – vitória por 1 a 0 sobre o Manchester United – e da Copa da Liga Inglesa – triunfo por 2 a 1 sobre o Arsenal. Com 61 jogos e 21 gols marcados, Lampard mais uma vez foi o atleta que mais entrou em campo pelo Chelsea na temporada e provou que, além da técnica acima do comum, tinha um físico notável e não sofria lesões vistas em atletas que jogavam com a intensidade que ele jogava. Mas, em dezembro de 2007, o atleta sofreu pela primeira vez uma lesão mais séria na coxa que o tirou dos gramados por mais de 40 dias. Isso fez com que o meio-campista disputasse “apenas” 40 jogos pelo Chelsea na época 2007-2008.

Foi uma temporada difícil para o jogador e para o próprio Chelsea, pois o clube perdeu o técnico José Mourinho – que se desentendeu com a diretoria e foi comandar a Internazionale e terminou sem nenhuma taça conquistada depois de temporadas tão gloriosas. A equipe terminou com o vice da Premier League, da Copa da Liga Inglesa, da Supercopa da Inglaterra e ainda da Liga dos Campeões da UEFA, competição esta que teve um episódio marcante na carreira de Lampard. Antes do duelo decisivo contra o Liverpool, nas semifinais, o meia perdeu sua mãe, Pat Lampard, e mesmo assim encontrou forças para entrar em campo e ajudar o Chelsea a disputar sua primeira final da competição. Ele não podia abandonar o clube mesmo com o luto e a dor, afinal, Lampard tinha deixado sua marca na vitória por 3 a 0 sobre o Olympiacos-GRE, nas oitavas, e também nos 2 a 0 sobre o Fenerbahçe-TUR, nas quartas. E o rival era o Liverpool, algoz de outras edições de UCL e grande concorrente dos Blues na época.

O Chelsea jogava em casa e podia empatar sem gols que levava a vaga. Drogba abriu o placar, mas Fernando Torres empatou e levou o duelo para a prorrogação. Nela, Lampard converteu um pênalti aos 7’ do primeiro tempo para colocar o Chelsea em vantagem de novo: 2 a 1. Na comemoração, o capitão ajoelhou, beijou a braçadeira negra que carregava no braço, apontou para os céus, lembrou de sua mãe… E chorou. Antes inquebrável, inabalável, o craque não resistiu à emoção de marcar um gol naquele momento, contra um rival, dias depois de perder Pat. Foi emocionante. E o combustível para o Chelsea fazer o terceiro gol, com Drogba. O Liverpool descontou, mas o placar de 3 a 2 colocou o Chelsea na final.

Em Moscou, palco da decisão contra o Manchester United, Lampard outra vez deixou sua marca e empatou o jogo em 1 a 1 no final do primeiro tempo, em momento crucial da partida. Na prorrogação, o meia carimbou a trave do United e por pouco não virou o jogo, que foi para os pênaltis. Na marca da cal, os Blues perderam por 6 a 5. Lampard converteu sua cobrança, mas Terry e Anelka desperdiçaram e os Red Devils ficaram com o troféu. O craque teria que esperar alguns anos por uma nova chance. Em compensação, foi eleito em 2008 o melhor meio-campista da UEFA.

 

Novas taças e super artilheiro

Após várias especulações sobre sua saída do Chelsea, Lampard renovou o contrato com o clube londrino e se tornou o jogador mais bem pago da Inglaterra em 2008-2009. Outra vez o troféu da Premier League ficou com o Manchester United, mas Lampard foi o maior garçom do torneio com 10 assistências, além de ter anotado 12 gols em 37 jogos. Na Liga dos Campeões da UEFA, o craque conduziu o Chelsea até outra fase semifinal e despachou mais uma vez o Liverpool pelo caminho, nas quartas de final, com direito a um alucinante empate em 4 a 4 (com dois gols de Lampard) no duelo de volta, após vitória por 3 a 1 na ida. Os Blues foram eliminados pelo Barcelona de Guardiola na semifinal, após empate sem gols no Camp Nou e em 1 a 1 no estádio Stamford Bridge. Mas o Chelsea não passou em branco naquela temporada: levantou o troféu da Copa da Inglaterra, com vitória por 2 a 1 de virada sobre o Everton na final, com o gol do título – um golaço, na verdade – anotado por Lampard.

 

Na temporada seguinte, o meio-campista viu outro técnico desembarcar em Stamford Bridge: Carlo Ancelotti, já consagrado por seus títulos e glórias no Milan dos anos 2000. O italiano ganhou o elenco logo de cara, recebeu elogios de Lampard e fez com que o jogador atingisse a mais prolífica temporada de sua carreira com 27 gols em 51 jogos, desempenho mais do que essencial para os títulos da Premier League (na qual ele anotou 22 gols em 36 jogos! Uma marca e tanto para um meio-campista), da Copa da Inglaterra e da Supercopa da Inglaterra em 2009-2010. O Chelsea marcou 103 gols em 38 jogos na campanha vitoriosa do Campeonato Inglês, levou apenas 32 tentos e foi o time que mais permaneceu na liderança, além de ter aplicado três goleadas de sete gols e uma de 8 a 0 na última rodada, sobre o Wigan. 

 

Além de ser goleador e decisivo, Lampard foi o maior garçom da Premier League com 14 assistências, sua segunda melhor marca na carreira (a primeira foi a de 2004-2005, com 18 passes para gols). Naquela época, o craque ainda ajudou a Inglaterra a carimbar sua vaga para a Copa do Mundo anotando quatro gols nas Eliminatórias, incluindo dois na categórica vitória de 5 a 1 sobre a Croácia, em Wembley.

No Mundial, Lampard queria apagar a frustração do torneio anterior, mas outra vez o craque viu a Inglaterra ser eliminada, dessa vez para a Alemanha, nas oitavas de final. O meio-campista passou mais uma Copa sem marcar gols. Quer dizer, ele até marcou um gol, mas o árbitro Jorge Larrionda e seus auxiliares não deram. E aconteceu exatamente nas oitavas de final. A Alemanha vencia por 2 a 1 quando Frank Lampard chutou de fora da área, a bola explodiu no travessão, quicou, saiu e o goleiro Neuer pegou. Sim, o mesmo filme de 1966. Mas, ao contrário daquele ano, a bola entrou! Muito! Mas… O juiz mandou seguir o jogo. Não tinha VAR. Não tinha bola com chip. Mas sim dezenas de câmeras que comprovaram o gol. E mesmo assim ele não deu. O que deu foi Alemanha: 4 a 1. 

 

Em 2010, Lampard saiu pro abraço…

 

… Mas se desesperou depois…

 

… Só que a bola entrou MUITO! Foi a vingança alemã por 1966.

 

O jogador ainda disputaria a Copa do Mundo de 2014, mas só a partida final da fase de grupos, contra a Costa Rica, atuando como capitão. O English Team foi eliminado e Lampard se despediu da seleção naquele mesmo ano após 106 jogos e 29 gols.

 

As sonhadas glórias europeias

Lampard briga pelo bola com Iniesta, do Barça, em 2012. Foto: AFP.

 

Se pela seleção Lampard nunca colecionou bons momentos, no Chelsea ele viveu tempos inesquecíveis em 2011-2012. Em casa, os Blues levantaram mais uma Copa da Inglaterra com uma campanha arrasadora, sendo três goleadas (4 a 0 no Portsmouth, 5 a 2 no Leicester City e 5 a 1 no Tottenham Hotspur) e triunfo por 2 a 1 sobre o Liverpool em Wembley. E, na Europa, o craque mais uma vez foi decisivo na caminhada do Chelsea. Após a classificação para o mata-mata da Liga dos Campeões da UEFA, os Blues perderam por 3 a 1 para o Napoli na partida de ida, nas oitavas de final, e foram até Stamford Bridge precisando de um placar elástico. E conseguiram graças a Lampard, que deu uma assistência e marcou um gol na vitória por 4 a 1 que garantiu o time inglês nas quartas de final.

Na etapa seguinte, duas vitórias sobre o Benfica-POR: 1 a 0, fora, e 2 a 1, em casa (com outro gol de Lampard). Na semifinal, duelo dificílimo contra o Barcelona-ESP, então melhor time do mundo e campeão europeu. Mas o Chelsea não se importou com nada disso e venceu por 1 a 0 a partida de ida, em casa, com o gol originado após uma roubada de bola de Lampard. Na volta, no Camp Nou, o Chelsea precisava apenas do empate. E conseguiu. Com outra assistência de Lampard, os Blues empataram em 2 a 2 um jogo épico contra os Blaugranas e se garantiram na final contra o poderoso Bayern München, favorito e que iria decidir em casa, na Allianz Arena. 

Drogba celebra o gol de empate.

 

O ambiente do jogo era todo favorável aos alemães, que tinham o apoio maciço de sua torcida e sua própria casa como palco. Em um jogo muito disputado, o Bayern abriu o placar faltando sete minutos para o fim, com Thomas Müller. Mas, aos 43´do segundo tempo, em bola cruzada na área alemã, o marfinense Didier Drogba empatou, de cabeça. A decisão teria mais meia hora de angústia. Na prorrogação, logo aos cinco minutos, pênalti para o Bayern. Robben foi para a cobrança e Cech defendeu. O jogo seguiu, ninguém marcou e a final foi para os pênaltis, no mesmo filme de 2008 para Lampard. Nas cobranças, ele converteu seu chute, viu Olic e Schweinsteiger desperdiçaram para o Bayern e o Chelsea calou a Allianz Arena ao vencer por 4 a 3, com o gol do título marcado por Drogba. Enfim, a Europa era azul. E Lampard, como capitão do time naquela decisão, teve a honra de erguer o troféu. Enfim, ele chegava ao Olimpo do futebol europeu. Era o sonho realizado.

Festa azul!

 

E todo o orgulho do capitão!

 

“Tive muitos altos e baixos. Tentamos e lutamos para chegar às finais. Perdemos uma e depois o culminar de todo o nosso esforço foi o triunfo em Munique, e ainda mais nas circunstâncias em que aconteceu: sem sermos favoritos e na casa do adversário. Quando me perguntam sobre a minha carreira, é impossível não falar desse jogo como o momento mais importante. Se tivesse terminado a carreira sem esse título, certamente sentiria que ela ficou incompleta. Vencer a Champions League com o Chelsea, o primeiro clube londrino a consegui-la, é algo que nos orgulha. […] Não gostei do jogo, não gostei mesmo nada. Foi doloroso aguentar e tentar levar o jogo para os pênaltis. Mas o momento em que o chute do Drogba (na última cobrança) entrou no gol foi sensacional”.Frank Lampard, em entrevista ao site da UEFA, 15 de maio de 2020.

Em 2013, Lampard levantou a Liga Europa e fez do Chelsea um dos cinco clubes com todos os principais títulos da UEFA.

 

O ano de 2012 só não foi ainda melhor porque ele se lesionou e ficou de fora da Eurocopa pela Inglaterra e viu o Chelsea perder os títulos da Supercopa da UEFA – para o Atlético de Madrid – e do Mundial de Clubes da FIFA – para o Corinthians. Mas não demorou para o craque levantar outra taça: já em 2013, o Chelsea venceu sua primeira Liga Europa após derrotar o Benfica na decisão, com um gol nos acréscimos de Ivanovic. Capitão, Lampard ergueu a 11ª taça dos Blues na Era Abramovich e fez do Chelsea um dos cinco clubes na Europa (os outros são Juventus, Bayern, Ajax e Manchester United) a ter em sua galeria de troféus todos os principais torneios da UEFA: Liga dos Campeões, Liga Europa e a extinta Recopa (também conhecida como Copa dos Vencedores de Copas).

 

Maior artilheiro e adeus

Com 36 anos, Lampard já não tinha mais o físico de antes e flertava com a aposentadoria em 2014. Mas ele não o fez antes de se tornar o maior artilheiro da história do Chelsea ao superar a barreira dos 210 gols, algo impressionante pelo fato de Lampard ser um meio-campista. A saída do craque após 13 anos de Chelsea deixou a torcida carente, mas ele se despediu como um ídolo, sem dúvida o maior da história dos Blues. Lampard comentou sobre o adeus ao Sky News na época.

 

“Este clube se tornou parte da minha vida, eu tenho tantas pessoas às quais agradecer pela oportunidade. O que quer que seja o próximo desafio, eu sempre estarei ao lado de vocês. Tenho o Chelsea no meu coração. Agradeço pelas memórias, Chelsea. Continue fazendo história”.

 

A “Lei do Ex” entrou em ação no primeiro jogo de Lampard contra o Chelsea. Foto: Reuters.

 

O jogador decidiu ir para o New York City-EUA, mas como a temporada da MLS começaria apenas em 2015, ele assinou um breve contrato com o Manchester City para não ficar parado até o início de seus trabalhos nos EUA. Ver Lampard com a camisa azul-celeste dos Citizens foi bem estranho e causou certa polêmica, mas foi a escolha que ele teve que tomar para não perder ritmo, além de ser uma consequência do Chelsea não ter feito uma renovação de contrato à altura do que o New York City fez na época para Lampard. Embora fosse majoritariamente reserva nos Citizens, Lampard entrava vez ou outra e marcou seu primeiro gol, adivinhe, contra o Chelsea… E foi de voleio, no empate em 1 a 1 em 21 de setembro de 2014. O craque não comemorou e descreveu aquele dia como “muito emocional”. Ele jamais poderia celebrar. Era seu ex-clube. O clube de sua vida, de sua carreira. Sua paixão. Ele fez o que se esperava dele. Mas a corrida, o grito, os braços abertos e o “goooal”, apenas em um tom mais azul. Azul de Chelsea.

 

 

Aposentadoria e retorno com a prancheta

Lampard disputou 38 jogos e marcou oito gols pelo Manchester City na temporada 2014-2015, época em que o Chelsea, por ironia do destino, foi o campeão inglês. Antes de ir para Nova York, o craque ainda foi condecorado com a Ordem do Império Britânico por sua contribuição ao futebol inglês. Em sua estadia no New York City, o craque jogou ao lado de estrelas como David Villa e Pirlo, mas não levantou troféus. Em fevereiro de 2017, mesmo com algumas propostas, o meio-campista decidiu se aposentar de vez e tentar uma carreira de técnico, que começou no Derby County, onde ele conseguiu chegar até o playoff final do Championship, a segunda divisão inglesa, em 2019, mas o acesso escapou diante do Aston Villa. 

Já na temporada 2019-2020, Lampard foi contratado pelo seu querido Chelsea e voltou a Stamford Bridge para tentar novas glórias. Ele disputou as finais da Supercopa da UEFA e a Copa da Inglaterra, mas perdeu respectivamente para Liverpool e Arsenal. O ídolo permaneceu no Chelsea até janeiro de 2021, mas foi demitido após uma série de resultados ruins no Campeonato Inglês, o alto gasto em contratações sem resultados imediatos, futebol fraco em campo e problemas de comunicação entre ele e a diretoria. Pesou, também, o histórico do Chelsea de ser uma máquina em demitir treinadores desde o começo da Era Abramovich – leia mais aqui. 

Só que Lampard classificou o Chelsea em primeiro lugar no Grupo E da UCL com quatro vitórias, dois empates e apenas dois gols sofridos. Seu substituto, Thomas Tuchel, deu continuidade ao trabalho e levou o Chelsea ao título da Liga dos Campeões da UEFA de 2020-2021, com vitória por 1 a 0 sobre o Manchester City na final. Um título que só foi possível graças a Lampard e seu trabalho lá na primeira fase.

 

Super Frankie

Lampard com a Ordem do Império Britânico.

 

Lampard é um verdadeiro patrimônio do Chelsea e símbolo do clube londrino. Não é possível dissociar a ascensão dos Blues no século XXI sem lembrar dos gols, passes, lançamentos, tabelas e grandes jogos do meio-campista em Stamford Bridge e qualquer outro palco do futebol. Com uma inteligência tática formidável, arrancadas impetuosas e grande preparo físico, o craque sempre esteve com o Chelsea de todas as maneiras, em todos os momentos. Nos dramas, nas alegrias, nas tristezas, nas glórias. Venceu quase todos os principais títulos que disputou, se transformou no maior artilheiro do clube e foi um ídolo de milhares de jovens apaixonados por futebol e que cresceram naqueles inesquecíveis anos 2000, tempos em que o Super Frankie desfilou suas virtudes e transformou para sempre o Chelsea, forjando a “carcaça” de time copeiro no âmbito internacional que outros endinheirados como PSG e Manchester City até agora não conseguiram. Bem, eles não tiveram Lampard. Afinal, um Great Senator faz toda diferença…

 

Números de destaque:

Disputou 648 jogos e marcou 211 gols pelo Chelsea.

Disputou 106 jogos e marcou 29 gols pela Inglaterra.

 

 

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4 thoughts on “Craque Imortal – Frank Lampard

  1. Colocar o Frank Lampard na seção dos craques era uma coisa que o Imortais precisava fazer. Como de costume, o site sempre faz um belo trabalho. A relação entre o Lampard e o Chelsea é uma das mais lindas que eu já vi no futebol. E é por isso que considero ele o maior jogador da história dos Blues. E também um dos maiores jogadores da Inglaterra, mesmo sem títulos pela seleção inglesa.

    Abraço, Guilherme! E que venha mais craques imortais!

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