Esquadrão Imortal – Grêmio 1981-1983

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Grandes feitos: Campeão Mundial Interclubes (1983), Campeão da Copa Libertadores da América (1983) e Campeão Brasileiro (1981).

Time base: Mazarópi (Leão); Paulo Roberto, Baidek (Newmar), De León e Casemiro (Paulo César Magalhães); China, Osvaldo (Paulo Isidoro) e Tita (Vilson Taddei / Renato Sá); Renato (Odair), Tarciso e Caio (Baltazar). Talismãs: Mário Sérgio e Paulo César Caju. Técnicos: Ênio Andrade (1981 e 1982) e Valdir Espinosa (1983).

 

“Nada pode ser maior”

O lema acima define bem o sentimento da torcida do Grêmio logo após a maior conquista da história do clube: o título mundial de 1983, depois de um baile de Renato Gaúcho pra cima dos alemães do Hamburgo. Nada poderia ser maior que um título mundial, o primeiro de um time do Rio Grande do Sul e o quarto de um clube brasileiro (depois do bi do Santos em 1962/1963 e o do Flamengo em 1981). Aquela conquista sacramentou um período de ouro do tricolor iniciado na tensa e homérica decisão do Campeonato Gaúcho de 1977, quando o Grêmio acabou com a hegemonia do arquirrival Inter e faturou o caneco com um gol de André Catimba. Dali para os papeis de protagonismo no estado se inverter foi um pulo. A equipe faturou os estaduais de 1979 e 1980, caminhou a passos largos para sua primeira conquista nacional (o Brasileiro de 1981), a primeira continental (a Libertadores de 1983), até encerrar o ciclo de ouro com o Mundial. Além dos títulos, a torcida pôde celebrar a conclusão das obras do imponente estádio Olímpico Monumental, em 1980, e a consagração de jogadores como Leão, Mazarópi, De León, Tarciso, Baltazar e Renato, fazendo o Grêmio entrar de vez no rol dos maiores times do mundo – e fazer do seu rival, o Inter, ser rebatizado temporariamente de Sport Club Municipal… É hora de relembrar um dos mais saborosos períodos da história tricolor.

 

Imponência monumental

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Depois do bicampeonato estadual em 1979/1980, o Grêmio estava disposto a sair da sombra do rival Internacional. O clube colorado havia se consagrado na década de 70 como um dos grandes do futebol nacional graças ao tricampeonato brasileiro conquistado em 1975, 1976 e o inédito (e até hoje inigualado) título invicto de 1979. Valia a honra tricolor um bom papel naqueles anos 80. Para isso acontecer, o time investiu pesado na conclusão de seu estádio, o Olímpico, que passou a se chamar Olímpico Monumental após o término das obras do anel superior, passando a receber, na época, mais de 80 mil pessoas. Com o estádio pronto, era hora de rejuvenescer a equipe e formar um bom esquadrão para a disputa do Campeonato Brasileiro de 1981. O time comandado por Ênio Andrade era consistente, sóbrio e com uma eficiência defensiva notável, com o consagrado goleiro Leão, o uruguaio Hugo De León, os jovens e talentosos Newmar e China, além de Paulo Isidoro (célebre pelos tempos de Atlético-MG), o “Flecha Negra” Tarciso, o ponta Renato Sá, os laterais Casemiro e Paulo Roberto e o atacante Baltazar.

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No mais uma vez inchado Campeonato Brasileiro (44 clubes…), disputado no primeiro semestre de 1981, o Grêmio conseguiu a classificação para a segunda fase com a quarta colocação no Grupo B, com quatro vitórias, dois empates e três derrotas em nove jogos, atrás apenas de Portuguesa, Operário e Goiás, e a frente de Corinthians e Botafogo. Os destaques foram as vitórias sobre o Corinthians, por 1 a 0 (gol de Tarciso), e um 3 a 2 sobre o Botafogo em pleno Maracanã (com três gols de Baltazar só no primeiro tempo). Na segunda fase, o time se classificou em segundo no Grupo E, atrás do forte São Paulo de Waldir Peres, Darío Pereyra, Oscar, Marinho, Everton, Serginho Chulapa e Zé Sérgio. Logo na primeira rodada do grupo os tricolores se enfrentaram no Morumbi e o paulista levou a melhor, vencendo por 3 a 0, com três gols de Serginho. O revés foi fundamental para que Ênio Andrade pudesse perceber como o grande favorito ao título (já que o Flamengo priorizava a Libertadores) jogava e ver quais os pontos a serem explorados em uma hipotética final. Aquela derrota valeu muito para o Grêmio.

Matar e matar

Depois das fases de grupos, o Grêmio foi para as oitavas de final enfrentar o Vitória. No primeiro jogo, na Bahia, vitória rubro-negra por 2 a 1. Na volta, no Olímpico, vitória por 2 a 0 (gols de Paulo Isidoro e Tarciso) e classificação assegurada. Nas quartas de final, um adversário conhecido, o Operário. No primeiro jogo, em Porto Alegre, vitória tricolor por 2 a 0 (gols de Vilson Tadei e Tarciso). Na volta, outra vitória gremista, por 1 a 0 (gol de Baltazar). Faltava pouco para a decisão.

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Na semifinal, duelo contra a Ponte Preta do goleiro Carlos e do meia Dicá. No primeiro jogo, em Campinas, vitória do Grêmio de virada por 3 a 2, com gols de Paulo Isidoro, Vilson Tadei e Tarciso. Na volta, em Porto Alegre, o Olímpico recebeu seu maior público na história: 98.421 pessoas (sendo 85.751 pagantes). A Ponte Preta venceu por 1 a 0, mas não foi o bastante para estragar a festa da torcida, que comemorou a vaga na decisão graças a melhor campanha. Era hora da grande e sonhada final, inédita para o clube.

 

Desafio colossal

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Em sua primeira final nacional, o Grêmio teve pela frente um páreo duríssimo: o São Paulo, mesmo time que lhe aplicou sonoros 3 a 0 na fase de grupos e que tinha um esquadrão de respeito, com vários craques de seleção. O tricolor gaúcho fez a primeira partida em casa e levou um baque logo no primeiro tempo, com Serginho abrindo o placar para o São Paulo. No segundo tempo, o time voltou com sangue nos olhos e disposto a reverter o placar. Paulo Isidoro, aos 10´e aos 24´, virou o jogo e fez a massa gaúcha delirar. A vitória por 2 a 1 deixou a equipe a um empate do inédito título brasileiro.

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Enfim, campeão nacional

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No dia 03 de maio, no Morumbi com mais de 95 mil pessoas, o Grêmio precisava apenas de um empate para conquistar seu tão sonhado título brasileiro. O tricolor gaúcho sabia que não seria fácil encarar o São Paulo em pleno Morumbi, mas a equipe mostrou garra e vontade que lhe são características e não se intimidou. Depois de um primeiro tempo sem gols, na segunda etapa o Grêmio abriu o placar com Baltazar, o artilheiro de Deus, aos 19´. Era o que os comandados de Ênio Andrade precisavam para ter mais tranquilidade e controle. O São Paulo tentou reagir, mas não foi páreo para Leão, Paulo Roberto, Newmar, De León, Casemiro e China, que bloquearam todas as investidas dos paulistas. Ao final de jogo, silêncio no Morumbi e festa em Porto Alegre! Pela primeira vez o Grêmio era campeão brasileiro de futebol. E o técnico Ênio Andrade entrava para a história ao conquistar seu segundo título nacional, de novo com um clube gaúcho (o primeiro, em 1979, havia sido justamente com o rival do tricolor, o Internacional). Os tricolores nem ligaram para a perda do título gaúcho para o rival colorado no final do ano. A festa nacional era bem melhor de se saborear…

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Faltou experiência

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Em 1982, o Grêmio disputou a Libertadores da América pela primeira vez e sentiu o peso da estreia. No mesmo grupo de São Paulo e do futuro campeão, Peñarol, o tricolor não se classificou e venceu apenas um dos seis jogos disputados, com três empates e duas derrotas (para o Peñarol, por 1 a 0, e Defensor, por 2 a 1). Ênio Andrade comandou a equipe até setembro, dando lugar a Carlos Castilho pouco depois.

No Brasileiro, o time mostrou embalo e conseguiu chegar a mais uma final, despachando pelo caminho o Vasco, nas oitavas, o Fluminense, nas quartas, e o “democrático” Corinthians de Sócrates, na semifinal, com show: duas vitórias, a primeira por 2 a 1, no Morumbi, com  gols de Paulo Roberto e Tarciso, e 3 a 1 no Olímpico, com gols de Paulo Isidoro, Tarciso e Baltazar.

 

Nunes acaba com o sonho do bi

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Na decisão, o Grêmio encarou de igual para igual o super Flamengo então campeão mundial de Raúl, Leandro, Júnior, Tita, Zico, Andrade, Adílio e Nunes. No primeiro jogo, num Maracanã lotado com mais de 130 mil pessoas, empate em 1 a 1, com o gol tricolor marcado por Tonho. Na volta, no Olímpico, o equilíbrio e a tensão prevaleceram e as equipes não saíram do zero, forçando a realização de uma terceira partida, também no Olímpico. No jogo derradeiro, Nunes, o artilheiro das decisões, marcou o gol da vitória rubro-negra aos 10´do primeiro tempo, dando o bicampeonato brasileiro ao Flamengo. O Grêmio perdia, em casa, a chance do bi. Era hora de se recompor para o ano seguinte.

Reforços e uma promissora estrela

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O ano de 1983 começou muito bom para o tricolor. O time ganhou o reforço do meia Tita, ex-Flamengo, do novo técnico Valdir Espinosa, do zagueiro Baidek e da titularidade do atacante Renato, que esquentou o banco em grande parte de 1982 por opção do técnico Ênio Andrade. Com a base das duas temporadas anteriores e os reforços pontuais, o time queria fazer bonito já no começo do ano, na Libertadores. O tricolor estreou contra o Flamengo, algoz do Brasileiro de 1982, em Porto Alegre, e empatou em 1 a 1. Na sequência, vitórias marcantes na altitude boliviana sobre o Blooming, por 2 a 0, e Bolívar, por 2 a 1. No returno, nova vitória sobre o Blooming por 2 a 0 e triunfo por 3 a 1 sobre o Bolívar, que sacramentou a classificação do tricolor para a segunda fase e eliminou o rival Flamengo.

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Na última partida do grupo, para cumprir tabela, o tricolor foi ao Rio enfrentar o Flamengo, no Maracanã, e venceu por 3 a 1, vitória que lavou a alma do time e da torcida. A equipe gaúcha não tinha mais o goleiro Leão e Mazarópi, o novo arqueiro, ainda não estava inscrito no torneio (Beto assumiu a meta). Mesmo assim, o Grêmio foi letal e por pouco não goleou o rubro-negro, que já perdia de 3 a 0 com 30 minutos de jogo. Tita, autor de um dos gols daquele jogo, lembrou aquela ocasião especial:

“Foi o gol do Fantástico naquele final de semana! […] Ir para o Grêmio naquele momento era uma aposta. Então, ter eliminado o Flamengo, ter participado daquela vitória de 3 a 1 e marcado o gol como eu marquei foi uma conquista muito importante para mim. Aquilo ali foi um divisor de águas na minha carreira”.Tita, ex-meia do Grêmio em entrevista ao Zero Hora.

 

Luta, sorte, guerra

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Na fase seguinte, o Grêmio disputou um triangular com Estudiantes (ARG) e América de Cali (COL) para ver quem iria para a final da competição. O time estreou contra os perigosos argentinos, em Porto Alegre, e venceu por 2 a 1, gols de Osvaldo e Tarciso. Na sequência, derrota por 1 a 0 para o América, em Cali, e vitória em Porto Alegre por 2 a 1, gols de Caio e Osvaldo, com um milagre do goleiro Mazarópi, que defendeu um pênalti quando o jogo estava 2 a 1 para o tricolor (um empate àquela altura eliminaria o time da Libertadores).

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O jogo seguinte seria decisivo e perigoso: contra o Estudiantes, em La Plata. Uma vitória dava ao Grêmio a classificação para a final. Um empate deixaria a equipe na dependência do confronto entre América e Estudiantes, na última rodada. Para piorar, o clima não era nada bom, afinal, um suposto favorecimento do Brasil aos ingleses na Guerra das Malvinas à época provocou a fúria dos argentinos, que viam no Grêmio o inimigo ideal para descontar a raiva. Na chegada dos jogadores, muita hostilidade, pedras e um campo propício para uma verdadeira batalha. Em campo, foi exatamente isso que aconteceu. No primeiro tempo, dois jogadores do Estudiantes foram expulsos e o árbitro penava para manter o controle do jogo, que tinha cusparadas, pontapés exacerbados e muita catimba. Mas, aos 39´, Gurrieri abriu o placar para os argentinos. Aos 44´, Osvaldo empatou. Na saída para os vestiários, o atacante Caio foi agredido covardemente e teve uma contusão na tíbia, sendo substituído por César. E foi o próprio substituto que virou o placar para o Grêmio, aos oito minutos. Aos 18´, Renato aprontou das suas e marcou um golaço pela direita depois de deixar dois argentinos no chão e chutar cruzado. O placar de 3 a 1 era tudo o que o time brasileiro queria e tudo o que os argentinos precisavam para se encher de fúria ainda mais. O Grêmio ficou acuado em seu campo e levou um gol de Gurrieri, aos 31´. Tempo depois, Osvaldo marcou mais um gol para o tricolor, mas o tento foi anulado inexplicavelmente pela arbitragem… O Estudiantes pressionava demais e chegou ao empate no final do jogo, já com sete homens em campo. O placar de 3 a 3 foi comemorado como uma vitória pelo Grêmio por tudo o que aconteceu naquela partida, pela pressão e pelo risco até de vida que os jogadores correram. No último jogo do grupo, o América ajudou o tricolor e empatou com os argentinos, dando a vaga na final ao time brasileiro.

 

Grêmio X Os melhores do mundo

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Na final da Libertadores de 1983 o Grêmio teve mais um batismo de fogo pela frente: o poderoso e temido Peñarol, então campeão da América (derrotando o Cobreloa-CHI em 1982) e do mundo (despachando o Aston Villa-ING, também em 1982). O time uruguaio era muito forte, tinha a mesma base campeã do mundo do ano anterior (com Fernandéz, Olivera, Diogo, Bossio, Saralegui e o matador Fernando Morena) e toda a mística de sua camisa na primeira partida da final, no estádio Centenário lotado. Ninguém esperava ou apostava que o Grêmio pudesse “sair vivo” da decisão contra o então bicho papão do continente, com os brasileiros na condição de verdadeiros azarões. Mas o tricolor mostrou que também tinha peso e conseguiu um ótimo resultado em Montevidéu ao empatar em 1 a 1 graças ao esquema ofensivo montado por Valdir Espinosa e ao talento de Tita, que abriu o placar logo no começo do jogo. Uma vitória simples, no Olímpico, garantiria ao Grêmio a inédita conquista da América e o passaporte para Tóquio.

 

América tricolor, na raça e no sangue

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Na grande final, com mais de 80 mil pessoas no Olímpico, o Grêmio jogou a vida contra o Peñarol. Tinindo e completo, o time foi com a vontade e o brio necessários para conquistar a América. E, como toda decisão, foi difícil. Os uruguaios, que na época eram tão violentos quanto os argentinos, apelavam para as agressões logo no começo de jogo, quando Olivera acertou uma cotovelada em Renato. Mas o Grêmio não se intimidou e abriu o placar aos 10´, com Caio marcando após ótima jogada de Casemiro e Osvaldo. O gol fez o Peñarol sair mais e a pressionar o Grêmio, que foi dominado no restante do primeiro tempo. Na segunda etapa, o filme se repetiu e o Peñarol jogou mais futebol, com jogadas talentosas e rápidas. Numa dessas subidas ao ataque, Ramos sofreu falta que ele mesmo cobrou na cabeça do artilheiro Morena, que empatou o jogo aos 25´. O empate não assustou o tricolor, que voltou a pressionar e contou com a magia de Renato, que cruzou com maestria para César deixar o Grêmio na frente de novo, aos 31´. A partir daí, o Grêmio se segurou como pôde com o talento de De León e Baidek na zaga e na retenção da bola pela direita com o endiabrado Renato. O Peñarol não conseguiu vencer a defesa tricolor, apelou novamente para a violência (tirando sangue de Tita e De León) e o Grêmio manteve o placar de 2 a 1.

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Pronto. Com suor, sangue e garra, o Grêmio era campeão da América pela primeira vez em sua história, justamente no ano em que completava 80 anos de vida. O Olímpico explodiu em alegria e a cena de De León levantando a taça com sangue no rosto entrou para a história do clube como o mais puro símbolo de entrega e paixão pela vitória do Grêmio. Era hora de se preparar para o desafio final, em Tóquio.

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O time de um jogo só

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Conquistar a América teve um preço para o Grêmio, que foi se abster do Campeonato Brasileiro (vencido novamente pelo Flamengo). No segundo semestre, veio o Campeonato Gaúcho e outra vez o time não teve dó de desprezá-lo em prol da preparação do time para o Mundial Interclubes. O adversário seria o incrível Hamburgo de Félix Magath, que jogou muito e derrotou a Juventus (base da Itália campeã mundial de 1982) na final da Liga dos Campeões da UEFA. Quando Valdir Espinosa viu os alemães jogar, ele levou um susto. Levando em conta que o tricolor não tinha mais Tita, que quis voltar ao Flamengo, o time brasileiro seria presa fácil para os europeus. Por isso, Espinosa exigiu a contratação de pelo menos dois craques apenas para disputar o mundial. A diretoria atendeu e trouxe Paulo César Caju, notório meia dos anos 70, e Mário Sérgio, endiabrado ponta-esquerda. Ambos eram veteranos, mas Espinosa não se importava. Os craques seriam fundamentais para o Grêmio conseguir o título no Japão, com a base vencedora da América e com Renato cada vez mais eficiente.

Na preparação, os titulares jogaram partidas do Gauchão no Olímpico e torneios amistosos, deixando para os reservas a ingrata tarefa de jogar nos esburacados e acanhados estádios do interior gaúcho. O objetivo era não lesionar ninguém e ter o time tinindo e relaxado para o Mundial, o que realmente aconteceu.

 

O jogo do século

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No dia da grande final, mais uma vez o time da América do Sul (Grêmio) era a zebra diante do adversário europeu (Hamburgo). Isso facilitou a vida dos brasileiros e aliviou a pressão de um jogo tão importante. O Grêmio foi a campo com um time que mesclava segurança defensiva com talento no ataque, com a seguinte formação: Mazarópi; Paulo Roberto, Baidek, De León e Paulo César Magalhães; China, Osvaldo e Mário Sérgio; Renato, Tarciso e Paulo César Caju. Com o pontapé inicial, o campo seco por conta do rigoroso inverno japonês prejudicava o toque de bola, mas não foi empecilho para o Grêmio mostrar mais ímpeto e partir para cima dos alemães, quando Renato, aos 38´, abriu o placar para o tricolor num lindo gol. Na segunda etapa, o jogo ficou nervoso, o Grêmio apostando na velocidade de Renato e na eficiência de sua zaga. Tudo corria bem até os 41´, quando Schroeder, no único momento que não preciso marcar Renato, subiu ao ataque e marcou o gol de empate do Hamburgo. O jogo iria para a prorrogação. Cansados, os jogadores tinham que jogar mais meia hora em busca da maior glória tricolor. E Renato tratou de por o Hamburgo “no bolso” de uma vez aos 3´, quando entortou mais uma vez seu marcador e chutou, marcando outro belo gol: Grêmio 2×1 Hamburgo. Os alemães não conseguiram mais pressionar e o clube brasileiro pôde comemorar: o mundo era azul, preto e branco!

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Renato entrava de vez para o rol de ídolos imortais do clube e levaria a alcunha de “Gaúcho” para sempre em seu nome. PC Caju e Mário Sérgio podiam deixar o time com a sensação de dever cumprido no contrato de “120 minutos”. Nada podia ser maior que aquilo! A festa foi enorme em Porto Alegre com direito a desfile em carro de bombeiros e recepção calorosa da torcida. O clube se tornava o terceiro do país a vencer o maior dos títulos. Os gremistas eram, sem dúvida, os mais felizes do universo naquele dezembro de 1983.

O Grêmio campeão do mundo: time coeso e forte no ataque, principalmente pela direita.
O Grêmio campeão do mundo: time coeso e forte no ataque, principalmente pela direita.

 

Intrigas destroem sonho do bi

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Em 1984, o Grêmio por pouco não faturou o bicampeonato da Libertadores. O time eliminou o Flamengo no triangular final com direito a um 5 a 1 em Porto Alegre e chegou à decisão, mas discussões sobre o bicho do título atrapalharam o ambiente do elenco, que perdeu a final para o Independiente (ARG) com derrota em casa por 1 a 0 e empate sem gols na Argentina. Ali, terminava o período de soberania nacional e mundial do tricolor, que se dedicou a retomar o respeito em casa, com um hexacampeonato gaúcho de 1985 até 1990, passando pela conquista da primeira Copa do Brasil, em 1989. Nos anos 90, o time voltou a brilhar com feitos marcantes que o blog já contou e que você pode ver aqui. Mas as façanhas dos anos 80, que colocaram o time no mapa do Brasil, da América e do mundo são um xodó para a torcida, que não se cansou de zoar os rivais colorados (que tiveram que esperar décadas até conseguirem brilhar no âmbito internacional). Aquele Grêmio 1981-1983, pelos talentos, por bater de frente  e muitas vezes pôr na roda o Flamengo de Zico, pelo brio e pela raça é, sem dúvida, imortal.

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Os personagens:

Mazarópi: era baixo para um goleiro, mas tinha reflexos apurados e entrou para a história tricolor pelos milagres na reta final da Libertadores e pela atuação segura no Mundial. Muito identificado com a torcida, é um nome eterno dentro do Grêmio.

Leão: segundo ele próprio, estava em sua melhor fase em 1981 e 1982. Lamentou demais não ter ido para a Copa do Mundo de 1982, mas teve sua recompensa com o título brasileiro de 1981, fechando o gol, como sempre, nos momentos mais decisivos. Uma pena ter deixado a equipe em 1983, pois perdeu a chance de ser campeão da América e do Mundo…

Paulo Roberto: lateral-direito seguro e muito bom no apoio, Paulo Roberto foi cria do Grêmio e jogo no time exatamente nos anos mais primorosos do clube, de 1981 até 1983. Conquistou os canecos do Brasileiro, da Libertadores e do Mundial até ir para o São Paulo, em 1984, e jogar em vários outros clubes ao longo da carreira.

Baidek: ganhou o apelido de “O Lenhador” não por acaso. Era raçudo, forte e não tinha medo de dividas (muito menos de derrubar os atacantes adversários…). Foi fundamental para assegurar a eficiência defensiva do time na Libertadores e no Mundial, formando uma célebre dupla de zaga com De León.

Newmar: antes de Baidek, foi ele o parceiro de De León na zaga tricolor. Jovem, brilhou também na seleção brasileira sub-21 e na conquista do Brasileiro de 1981. Levantou outra taça nacional pelo Bahia, em 1988.

De León: um símbolo de raça e técnica, Hugo De León foi um dos maiores zagueiros do mundo no final dos anos 70 e início dos anos 80. Revelado pelo Nacional (URU), ganhou a Libertadores e o Mundial de 1980 com o clube uruguaio e chamou a atenção dos dirigentes gremistas, que o contrataram em 1981. Em seu primeiro ano, assumiu a liderança do time e conquistou o Brasileiro. Em 1983, veio a coroação com as conquistas da América e do Mundo, muito graças ao seu futebol sem firulas ou riscos, sempre com eficiência e raça pura. É um dos maiores ídolos da história do Grêmio. Teve sucesso novamente no Nacional, em 1988, levantando pela terceira vez na carreira uma Libertadores e um Mundial, os últimos do tricolor do Uruguai.

Casemiro: outra cria do Grêmio, Casemiro voava pela lateral-esquerda do time naqueles anos 80. Foi peça essencial nas conquistas do Brasileiro de 1981 e na Libertadores de 1983. No Mundial, não jogou, vendo do banco o titular da época, Paulo César Magalhães.

Paulo César Magalhães: começou no Grêmio no final dos anos 70 e integrou o elenco nas grandes conquistas do período. Era reserva em grande parte das campanhas vitoriosas até ganhar a posição de titular justamente na proximidade da final do Mundial. Jogou os 120 minutos e não comprometeu.

China: outra referência do Grêmio naqueles anos, China foi um dos grandes destaques do meio de campo do time. Volante pegador e com grande poder de marcação, jogou muito nas conquistas do Brasileiro, da América e do Mundo de 1981 até 1983. Venceu, também, vários títulos estaduais com a camisa tricolor.

Osvaldo: em 1981, jogando pela Ponte Preta, Osvaldo calou o Olímpico marcando o gol da vitória dos paulistas sobre o Grêmio, no dia em que o estádio gaúcho recebeu seu maior público em toda a história. Em 1983, o tricolor contratou o meia/atacante, que foi decisivo na conquista da Libertadores, sendo o artilheiro do time com seis gols.

Paulo Isidoro: com um preparo físico invejável e capaz de jogar em todas as posições do meio de campo para frente, Paulo Isidoro foi um dos grandes nomes do futebol brasileiro nas décadas de 70 e 80. Chegou ao Grêmio numa troca com o Atlético-MG que envolveu Éder e brilhou na conquista do Brasileiro de 1981, quando marcou os dois gols da vitória por 2 a 1 do Grêmio sobre o São Paulo, no primeiro jogo da decisão. Deixou o time na sequência para jogar no Santos.

Tita: era um dos motores do meio de campo do super Flamengo de Zico daquele início de anos 80, até ser emprestado ao Grêmio em 1983. No tricolor, sua habilidade e talento foram essenciais para a conquista da América, com gols, passes precisos e muita habilidade. Uma pena o craque não ter permanecido no Olímpico, pois deixou de conquistar o Mundial.

Vilson Taddei: depois de passar por várias equipes do interior paulista, Vilson Taddei ganhou visibilidade no São Paulo, em 1980, mesmo ano em que se transferiu para o Grêmio. No tricolor gaúcho, o meia conseguiu mostrar seu futebol técnico que ajudou o Grêmio nas conquistas do Gaúcho de 1980 e do Brasileiro de 1981, quando enfrentou seu ex-time.

Renato: endiabrado, rápido, driblador, arisco, marrento, encrenqueiro, polêmico, mulherengo… Renato Portaluppi era tudo isso e muito mais em seu início de carreira, como ponta-direita. Depois de esquentar o banco em 1982, bem a contragosto, o craque mostrou com um futebol precioso e fantástico que era mesmo diferente. Renato foi malandro e decisivo na Libertadores e um mito em Tóquio, quando marcou dois golaços e deu ao tricolor o maior título de sua história. Virou um ídolo instantâneo no Olímpico e estrela nacional, marcando época também no Flamengo e no Fluminense. Seu temperamento e atitudes, porém, abreviaram sua vida na seleção brasileira, custando-lhe uma participação na Copa do Mundo de 1986, quando foi cortado por Telê Santana.

Renato Sá: ponta-esquerda de talento, jogou no Grêmio no final dos anos 70 e início dos anos 80, ajudando a equipe na conquista do Brasileiro de 1981.

Odair: era muito habilidoso e ocupava a posição que seria de Renato Gaúcho a partir de 1983: a ponta direita. Teve papel importante no título Brasileiro de 1981 com ótimas atuações. Encerrou a carreira cedo por se lesionar várias vezes.

Tarciso: outro imortal e ídolo tricolor, Tarciso foi um dos grandes nomes do ataque gremista nos anos 80, ganhando o apelido de “flecha negra” por sua velocidade extrema. Ganhou oito títulos no clube, com destaque para o Brasileiro de 1981, a Libertadores de 1983 e o Mundial do mesmo ano. Foi uma das armas mais letais do clube nas partidas decisivas, levando os marcadores à loucura. É o jogador que mais vezes vestiu a camisa tricolor na história: 721 jogos de 1973 até 1986.

Caio: atacante, Caio foi peça chave na conquista da Libertadores de 1983, marcando quatro gols na campanha do título, inclusive o primeiro da final contra o Peñarol, na segunda partida, no Olímpico.

Baltazar: artilheiro nato e fatal em jogadas aéreas, Baltazar fez história no Grêmio ao marcar o gol do título brasileiro, em pleno Morumbi, na final contra o São Paulo em 1981. Era conhecido como o “Artilheiro de Deus”, por seu um dos primeiros atletas de cristo declarado. Foi artilheiro dos campeonatos gaúcho de 1980 (28 gols) e 1981 (20 gols). Deixou o clube em 1982 para jogar no Palmeiras e, posteriormente, no Flamengo.

Mário Sérgio e Paulo César Caju (Talismãs): tiveram o dever de jogar e ajudar o Grêmio a conquistar o Mundial Interclubes de 1983, contra o Hamburgo. Mário Sérgio foi bem melhor que o colega por não ser conhecido pelos alemães, que concentraram suas atenções em Paulo César, mais conhecido e com várias passagens pela seleção brasileira, e jogou muito naquele jogo, tendo papel importante na conquista. Jogaram a final, venceram, e depois deixaram o Grêmio para ficar definitivamente na história do clube.

Ênio Andrade e Valdir Espinosa (Técnicos): Ênio Andrade dispensa comentários, afinal, foi um dos maiores técnicos do futebol brasileiro, vencedor de três campeonatos nacionais: invicto, com o Inter, em 1979; em 1985, com o Coritiba e, claro, em 1981, com o Grêmio, quando montou uma equipe cheia de talento e agilidade e desbancou o favorito São Paulo com duas vitórias nas finais, no Olímpico (2 a 1) e no Morumbi (1 a 0). Deixou a equipe tempo depois e deu lugar a Valdir Espinosa, que soube dosar o brio e nervos dos jogadores nas mais difíceis batalhas da Libertadores, além de ter o mérito de lançar no time titular o ponta Renato. Ambos estão para sempre na história do clube por terem colocado o Grêmio para sempre no rol dos maiores times do Brasil, da América e do planeta.

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Extras:

De virada e com a mão na taça

No Olímpico, o Grêmio superou um adversário muito forte, o gol de Serginho e um pênalti perdido para virar o primeiro jogo da final do Brasileiro.

Brasil tricolor

Veja a decisão do Brasileiro de 1981, quando o Grêmio venceu o São Paulo no Morumbi e faturou seu primeiro título nacional.

Empate em meio à guerra

O Grêmio empatou em 3 a 3 em La Plata com o Estudiantes e precisava torcer na última rodada para ir para a final. E conseguiu.

América tricolor!

No talento e na raça, o Grêmio bateu o Peñarol e faturou sua primeira Libertadores.

Mundo tricolor!

Em Tóquio, Renato mostrou para o mundo quem era o Grêmio, marcou dois golaços e colocou o tricolor no topo do mundo.

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5 thoughts on “Esquadrão Imortal – Grêmio 1981-1983

  1. Melhor time da história tricolor, junto com o dos anos 60 que tinha Airton, Gessy, Alcindo, entre outros, mas esse foi o que conseguiu o maior feito da história do clube. Timaço, bateu de frente e venceu um excelente São Paulo em 81, o Corinthians da democracia em 82, o Flamengo de Zico (só não venceu em 82 pela mãozinha famigerada dos juízes ao time do galinho) e o Peñarol atual campeão mundial, simplesmente um timaço. Tita, Renato, Mazarópi, De León, Osvaldo, Tarciso e no Mundial, ainda contou com Mário Sérgio e Paulo César Caju, só poderia mesmo ser campeão do mundo esse time. Orgulho total, nada pode ser maior.

  2. Grande trajetória! Grandes jogadores! Iluminado Renato Gaúcho! Mas um time muito longe de ser uma referência de Futebol bem-jogado. Time feio esse do Grêmio. Jogando Futebol, o time do Felipão era melhor.

  3. Bom dia!!! deixo aqui uma dica de mais um trabalho que pode ser feito sobre o Grêmio, Esquadrão Imortal Grêmio 1985 até 1990, time Hexa-Campeão Gaúcho,primeiro campeão da Copa do Brasil e da Supercopa do Brasil,enfim time que deu muitas alegrias a nós!!! excelente trabalho sobre o time do Grêmio desse período!!

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